15 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.16 n.3, p.15 - 23, dez. 2019
A relação Estado-Igreja e o
papel da religião nas relações
internacionais da Rússia
1
e Church-State relations and the role of religion in Russias international relations
La relación Estado-Iglesia y el papel de la religión en las relaciones internacionales de
Rusia
Luiz Felipe Dias Pereira
2
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2019v13n3p15
Recebido em: 13 de maio de 2019
Aceito em: 26 de agosto de 2019
Resumo
O artigo aborda a relação Estado-Igreja existente na sociedade russa. Argumenta-se que a
religião não deve ser ignorada ao se analisar as políticas doméstica e externa da Rússia con-
temporânea. O argumento tem como base revisão bibliográfica sobre o tópico e informações
obtidas no website do Department for External Church Relations.
Palavras-chave: Relações Internacionais. Rússia. Religião. Igreja Ortodoxa.
Abstract
is article concerns the State-Church relationship in the Russian society. e argument is
that religion should not be neglected when analysing contemporary foreign and domestic
politics. e author’s argument is based on bibliographical review about the subject and
information obtained on the Department for External Church Relations’ website.
Keywords: International Relations. Russia. Religion. Orthodox Church.
Resumen
El artículo aborda la relación estado-iglesia existente en la sociedad rusa. Se argumenta
que la religión no debe ser ignorada cuando se analizan las políticas internas y externas de
la Rusia contemporánea. El argumento se basa en una revisión de la literatura del tema y
la información obtenida del sitio web del Department for External Church Relations.
Palabras clave: Relaciones Internacionales. Rusia. Religión. Iglesia Ortodoxa.
1 O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES)
- Código de Financiamento 001.
2 Mestrando em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Pontifícia Universidade
Católica de Minas Gerais (PPGRI/PUC Minas). Bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de
Minas Gerais (PUC Minas). E-mail: luizfdpereira@gmail.com. Belo Horizonte (MG)/Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-
0001-5135-104
Artigo
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16 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.16 n.3, p.15 - 23, dez. 2019
Introdução
A Igreja Ortodoxa Russa – ou o Patriar-
cado de Moscou - é uma instituição de grande
relevância política que atua na sociedade russa
em níveis doméstico e internacional. Essa tra-
dição de articulação política com outras igre-
jas ortodoxas pode ser observada a partir do
pan-eslavismo e o uso da religião como instru-
mento geopolítico em nações regionais – prin-
cipalmente no contexto dos Bálcãs ainda sob
controle do Império Otomano (GERD, 2014).
A ideia de Moscou como a Terceira Roma
3
existe desde a queda do Império Bizantino;
contudo, é a partir do século IXX que a Rús-
sia busca se consolidar como protetora do cris-
tianismo ortodoxo no mundo (KLIMENKO;
YURTAEV, 2018).
Este estudo parte da seguinte questão:
qual é a influência da proximidade entre Estado
e Igreja para a política externa russa contempo-
rânea? O autor deste trabalho sugere que o uso
da religião enquanto instrumento de política
externa se trata de um fenômeno que pode ser
melhor compreendido a partir de um estudo
sobre o posicionamento da Rússia enquanto
protetora do cristianismo ortodoxo na socieda-
de internacional. Nesse sentido, é possível ob-
servar que o papel político ativo da Igreja Cristã
Ortodoxa Russa no país se trata de um elemen-
to que não deve ser ignorado em debates sobre
política externa e geopolítica da Rússia.
Buscar-se-á, aqui, realizar uma contextua-
lização histórica no que diz respeito à conso-
lidação da religião cristã ortodoxa enquanto
instituição politicamente ativa, além da proxi-
midade entre Igreja e Estado.
3 A Segunda Roma seria Constantinopla, capital do Império
Bizantino.
Nesse sentido, é importante levar em conta
a influência da Igreja na política externa russa no
período pós-soviético. Ademais, propõe-se uma
breve análise da atuação política da Igreja na
contemporaneidade, demonstrando, por exem-
plo, a articulação do Patriarcado de Moscou
com os demais patriarcados europeus, de forma
geral. No fim, o autor argumenta que a relação
entre Estado e Igreja na Rússia pode representar
uma contribuição no tocante à questão dos es-
tudos sobre religião no campo das R.I..
O Cristianismo Ortodoxo na
Rússia
A fins de contextualização, serão apre-
sentados, nesta seção, um breve histórico da
presença do cristianismo ortodoxo na Rússia,
de modo a prover ao leitor uma melhor com-
preensão do papel da Igreja Ortodoxa Russa
(daqui em diante, abreviada como IOR) en-
quanto ator político na sociedade.
O conceito de symphonia
4
data desde o
Império Bizantino para definir a relação entre
Igreja e Estado, afirmando a ideia de que “as
autoridades políticas e religiosas devem traba-
lhar juntas em um acordo sinfônico de modo
a alcançar o bem estar material e espiritual dos
fiéis” (LEUSTEAN, 2011, p.188, tradução
nossa)
5
. O termo symphonia representa uma
correlação harmoniosa interdependente entre
o Estado e autoridades eclesiásticas” (PROSIC,
2014, p.180, tradução nossa)
6
. As duas esferas
seriam interdependentes no que diz respeito ao
4 συμφωνία” pode ser traduzido como “acordo”.
5 Political authorities should work together in a symphonic
agreement towards achieving the material and spiritual wel-
fare of the faithful.
6 Harmonious interdependent correlation between state and
ecclesiastical authorities.
17 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.16 n.3, p.15 - 23, dez. 2019
que o autor denomina como uma emanação do
divino, isto é, um “objetivo final para ambos o
imperador e a igreja” (PROSIC, 2014, p. 180,
tradução nossa)
7
. Nesse sentido, as duas insti-
tuições atuariam de modo a “administrar dife-
rentes necessidades”, porém, ambas as institui-
ções poderiam ser vistas como sendo unânimes,
uma vez que as duas compartilhavam de uma
mesma origem (PROSIC, 2014, p.182, tradu-
ção nossa).
8
Uma vez apresentado o conceito, a
próxima seção irá abordar o contexto histórico
da relação entre Estado e Igreja na Rússia.
Estado e religião na Rússia
A presença do cristianismo ortodoxo na
sociedade russa não é recente. Sabe-se que o pri-
meiro Estado de povos eslavos teve origem em
Kiev, capital da atual Ucrânia, sendo o Estado
de Kiev viria a adotar o cristianismo ortodoxo
como religião oficial russa, juntamente com o
alfabeto cirílico, que deu origem à língua russa
em sua forma escrita (ZIEGLER, 2009). A pro-
ximidade entre Estado e Igreja tem origem nos
primórdios da formação do governo de Kiev e
da sociedade russa. Essa relação é descrita por
Ziegler (2009) como tendo caráter simbiótico,
levando em conta que o cristianismo ortodoxo
foi o alicerce da união cultural que ligava os
principados descentralizados de Kiev.
Em um primeiro momento, Estado e
Igreja atuaram em harmonia, de modo que
esta agia como “a consciência moral e apoia-
dora do Estado”, sendo que essa relação teria
fim no início do século XVIII, com a subor-
dinação da Igreja ao Estado estabelecida por
Pedro, o Grande (PETRO apud ZIEGLER,
7 Ultimate goal of both the emperor and the church.
8 Administer to different needs.
p.13, tradução nossa)
9
. Levando em conta a
proximidade entre Estado e Igreja na Rússia,
é imprescindível mencionar o movimento do
pan-eslavismo, considerando sua importância
para a política externa russa.
A Terceira Roma
Durante os séculos XIX e XX, o principal
objetivo da política externa russa no Oriente P-
ximo consistiu na busca por uma “união do mun-
do Ortodoxo sob a Rússia”, sendo que essa con-
cepção política neobizantina tem origem na ideia
de que Moscou seria considerada como a Terceira
Roma (GERD, 2014, p.20, tradução nossa)
10
.
Esse conceito remete ao casamento de Ivan III
com a sobrinha do último imperador bizantino
(Constantino XI Paleólogo), Sofia Paleóloga. O
matrimônio celebrou a transferência da herança
real bizantina para Moscou e, após 1480, Ivan III
adota o título de tsar, fato que celebrou tanto o
fim do domínio Mongol sobre a Rússia, quanto
a apropriação do legado bizantino (SHUBIN,
2004). A ideia de Moscou como a Terceira Roma
passou a significar para a Rússia a restauração do
Império Bizantino, sendo que o país passou a de-
sejar que sua capital fosse o centro desse mundo
(GERD, 2014). A Rússia seria, posteriormente,
vista por cristãos ortodoxos como uma salvação
da dominação Otomana (GERD, 2014).
É importante compreender o pan-
eslavismo para se entender a atuação da IOR na
política internacional na contemporaneidade.
Não menos importante foi a mudança na
relação entre Estado e Igreja durante o período
soviético. A hostilidade em relação à religião se
manifestou logo após chegada dos bolcheviques
9 e moral conscience and supporter of the state.
10 Union of the Orthodox world under Russia
18 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.16 n.3, p.15 - 23, dez. 2019
ao poder. Em 1928 foi estabelecido o Decreto
sobre a Separação de Igreja e Estado que, além
de estabelecer a separação entre as instituições
no sistema educacional, também retirou das
igrejas o direito de possuir propriedades e seus
direitos de entidade legal (WALTERS, 1986).
A ideia da Rússia como Terceira Roma foi
abandonada durante esse período, uma vez que
a União Soviética agora tinha como objetivo
construir o novo sistema de relações inter-
nacionais com base na justiça e na paz” (KLI-
MENKO; YURTAEV, 2018, p. 242, tradução
nossa)
11
. Houve também, além do abandono
da tradição geopolítica russa, um movimento
ideológico voltado para o ateísmo que contri-
buiu para uma deformação do conceito de Ter-
ceira Roma (KLIMENKO; YURTAEV, 2018).
A ressurgência da Igreja e da
religião na Rússia
Lamoreaux e Flake (2018) afirmam que a
IOR teve sucesso no que se refere ao seu “resta-
belecimento como religião dominante na Rús-
sia, frequentemente por meio do apoio da le-
gislação” (LAMOREAUX; FLAKE, 2018, p.2,
tradução nossa)
12
. No início da década de 1990,
a Igreja recebeu de volta as terras que haviam
sido apreendidas pelo Estado e, não obstante,
a lei de Liberdade de Consciência e Associação
Religiosa de 1997 “permitiu uma alavancagem
implícita para a Igreja ao limitar o que outras or-
ganizações religiosas poderiam fazer” (LAMO-
REAUX; FLAKE, 2018, p.2, tradução nossa)
13
.
11 To build the new system of international relations on the
basis of justice and peace.
12 Re-establishing itself as the dominant religion in Russia,
often through state supported legislation.
13 Provided implicit leverage to the Church by limiting what
other religious organisations could do.
Além disso, dentre as principais mudanças
que ilustram a consolidação da IOR como prin-
cipal ator religioso na Rússia, pode-se citar três
que foram feitas já no período de Kirill
14
como
Patriarca: o fortalecimento da reivindicação da
Igreja sobre terras tomadas no período soviéti-
co, uma diretiva que permite o ensino religio-
so em escolas públicas e a terceira diz respeito
aos benefícios relativos a impostos, como “tax
breaks” e propriedade parcial sobre firmas de
energia (KISHKOVSKY apud LAMOREAUX;
FLAKE, 2018; KÖLLNER apud LAMO-
REAUX; FLAKE, 2018; SOLODOVNIK apud
LAMOREAUX; FLAKE, 2018). Ademais, no
contexto de uma sociedade pós-soviética, a IOR,
visando à sua renovação e desenvolvimento, ig-
norou o passado da secularização soviética
15
, as-
sumindo novamente sua posição na sociedade
tendo como modelo a época em que a mesma
não era separada do Estado (ZORKAIA, 2014).
ОТДЕЛ ВНЕШНИХ ЦЕРКОВНЫХ
СВЯЗЕЙ/Department of
External Church Relations
De acordo com Blitt (2011), “o Patriarca-
do de Moscou, assim como o governo russo, é
ativamente preocupado em relação a desenvol-
vimentos fora da Rússia e as potenciais implica-
ções que esses desenvolvimentos possam ter no
ambiente doméstico” (BLITT, 2011, p. 365,
tradução nossa)
16
, sendo que essa preocupação
14 Patriarca de Moscou desde 2009.
15 Entende-se por secularização, aqui, o processo que diz res-
peito à diminuição da importância da religião no cotidia-
no em determinada sociedade. Para maiores detalhes, ver:
Rethinking Secularism, de: CALHOUN, Craig Jackson;
JUERGENSMEYER, Mark; VanAntwerpen.
16 e Moscow Patriarchate, like the Russian government, is actively
concerned about developments outside of Russia and the poten-
tial implications these developments may have on the home front.
19 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.16 n.3, p.15 - 23, dez. 2019
se refere não somente aos Estados da antiga
União Soviética, mas também por todos os Es-
tados nos quais cristãos ortodoxos estejam su-
jeitos à sua jurisdição (BLITT, 2011). O prin-
cipal que, segundo Blitt (2011), atua como um
ministério estrangeiro e interage instrumento
da IOR no que se refere a questões de assuntos
estrangeiros/internacionais é o Departamento
de Relações Exteriores da Igreja (Department
for External Church Relations, ou DECR) com
instituições internacionais como a Organização
das Nações Unidas e a União Europeia.
Levando em conta a proposta deste traba-
lho, é digno de menção o website do DECR,
que pode ser utilizado como fonte de docu-
mentos que permitem observar o funciona-
mento da instituição. Disponível em seis idio-
mas, o site - online desde 1997 - disponibiliza
informações desde a biografia do atual patriar-
ca Kirill no que se refere à sua vida política -
como presidente do DECR, de 1989 a 2009
(DECR, 1997-2019a) - assim como textos de
discursos como, por exemplo, discursos do pa-
triarca Kirill em encontros com o presidente
Putin (DECR, 2017). No endereço, também
é possível encontrar informações sobre relações
“interortodoxas”, “inter-cristãs” e “inter-reli-
giosas” da instituição.
De acordo com o próprio site da insti-
tuição, o DECR do Patriarcado de Moscou é
uma grande instituição sinodal da Igreja Or-
todoxa Russa” (DECR, 1997-2019b, tradu-
ção nossa).
17
No que se refere às suas funções,
o DECR
Mantém as relações da Igreja Ortodoxa Rus-
sa com Igrejas Ortodoxas Locais, Igrejas não-
-ortodoxas, associações cristãs e comunidades
religiosas não-cristãs, assim como instituições
governamentais, parlamentares, inter-gover-
17 A major Synodal institution of the Russian Orthodox Church.
namentais, religiosas e públicas no exterior e
organizações internacionais públicas (DECR,
1997-2019c, tradução nossa).
18
Nota-se que os assuntos externos da IOR
não se limitam apenas ao contato com outras
Igrejas Ortodoxas. Não obstante, também é
atividade do DECR “informar o Patriarca e o
Santo Sínodo sobre eventos e atividades fora
da Igreja Ortodoxa Russa envolvendo seus in-
teresses”, além da produção de documentos e
decisões no que se refere questões de natureza
“inter-ortodoxa, inter-cristãs, interreligiosas e
internacionais” (DECR, 1997-2019b, tradu-
ção nossa).
19
O estatuto da IOR foi adotado
em 2000, e emendas baseadas nos Conselhos
de Bispos foram adotadas posteriormente. Na
primeira seção do estatuto, referente às dis-
posições gerais, a IOR é definida como “uma
igreja multinacional local autocéfala em unida-
de doutrinal em comunhão orante e canônica
com outras Igrejas Ortodoxas Locais” (DECR,
1997-2019c, tradução nossa).
20
Também é importante mencionar os tex-
tos disponíveis no site do DECR no que con-
cerne à seção sobre conceitos sociais, mais es-
pecificamente o tópico sobre as delimitações
nas relações entre Estado e Igreja. De acordo
com o site, “as áreas de cooperação entre Es-
tado e Igreja no período histórico presente”
envolvem assuntos como “peacemaking nos
níveis internacional, inter-étnico e cívico, e
18 Maintains the Russian Orthodox Churchs relations with
the Local Orthodox Churches, non-Orthodox Churches,
Christian associations, non-Christian religious communi-
ties, as well as governmental, parliamentary, non-govern-
mental institutions abroad and inter-governmental, reli-
gious and public international organizations.
19 Inter-Orthodox relations; inter-Christian relations;interre-
ligious relations
20 a multinational Local Autocephalous Church in doctrinal
unity and in prayerful and canonical communion with oth-
er Local Orthodox Churches.
20 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.16 n.3, p.15 - 23, dez. 2019
promoção mútua da compreensão e da coo-
peração entre povos, nações e Estados”; “diá-
logo com órgãos governamentais de todas as
ramificações e níveis em questões importantes
para a Igreja e a sociedade, incluindo o desen-
volvimento de leis, estatutos, instruções e deci-
sões”; “trabalho da mídia de massa eclesiástica
e secular”; entre outros (DECR, 1997-2019d,
tradução nossa).
21
Nesse sentido, pode-se dizer que influên-
cia da Igreja sobre as relações internacionais da
Rússia se torna relevante na medida em que a
IOR “cresceu como uma força capaz de gerar
ideias e fazer lobby a favor de certos rumos
da política externa russa” (LOMAGIN, 2012,
p.7, tradução nossa)
22
. A IOR também exerce
influência nas esferas social, econômica e edu-
cacional, provendo uma base para a constitui-
ção de um aumento de influência política e
adquirindo a capacidade de legitimar algumas
das políticas do Kremilin (LOMAGIN, 2012).
Para Lomagin (2012), a IOR teve êxito no que
concerne à restauração de seu poder nas últi-
mas décadas. A relação entre Estado e Igreja
na Rússia contemporânea é caracterizada pelo
compartilhamento de uma ideologia naciona-
lista por ambas as instituições, visando à “res-
tauração do poder russo após a desorganização
que seguiu o fim da União Soviética” (LOMA-
GIN, 2012, p.14, tradução nossa)
23
.
21 e areas of church-state co-operation in the present his-
torical period; peacemaking on international, inter-ethnic
and civic levels and promoting mutual understanding and
co-operation among people, nations and states; dialogue
with governmental bodies of all branches and levels on is-
sues important for the Church and society, including the
development of appropriate laws, by-laws, instructions and
decisions; work of ecclesiastical and secular mass media;
22 Grown as a force, which was capable of generating ideas and lob-
bying in favour of certain directions of Russian foreign policy.
23 Restoring Russias might after the disarray that followed the
end of the Soviet Union
Além disso, observa-se que a instituição
declara que sua jurisdição se estende a pessoas
de fé ortodoxa nos territórios classificados
como canônicos, fazendo referência aos terri-
tórios de diversos países, como as ex-repúblicas
soviéticas, assim como China e Japão (DECR,
1997-2019e). Com base nessa declaração, é
possível associar o discurso relativo à jurisdi-
ção do Patriarcado de Moscou com a proje-
ção da Rússia enquanto protetora dos cristãos
ortodoxos para além do território russo, ideia
compartilhada por grande parte da população
de países do leste europeu e/ou das ex-repúbli-
cas soviéticas.
Na contemporaneidade
24
, a IOR assume
um papel diferente daquele assumido durante
o período soviético; no que concerne à políti-
ca externa da Rússia pós-soviética, Lomagin
(2012) afirma que a instituição participou de
projetos de integração no território da antiga
União Soviética” (LOMAGIN, 2012, p.2, tra-
dução nossa)
25
. Com essa mudança, a IOR se
projeta de forma mais ativa no âmbito inter-
nacional, articulando politicamente com ins-
tituições internacionais como a Organização
das Nações Unidas e a União Europeia (LO-
MAGIN, 2012).
Como demonstrado previamente, a Igre-
ja Ortodoxa sempre esteve presente nos con-
textos políticos (doméstico e externo) russos.
Mesmo durante o período soviético, a tradição
de uma Igreja sujeita à autoridade do Estado
(que data desde o governo de Pedro, o Grande)
24 Devido ao escopo desta pesquisa, optou-se pela utilização
dos termos “contemporaneidade” (termo utilizado por Lo-
magin (2012) em seu artigo para se referir à Rússia após o
fim da URSS e a partir dos anos 1990 - e “pós-soviético
como o contexto social russo desde o fim da União Soviéti-
ca até o momento no qual este artigo foi escrito.
25 Integration projects on the territory of the former Soviet
Union.
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foi mantida, de modo que o próprio governo
soviético havia utilizado a Igreja como instru-
mento de política externa (HERPEN, 2016).
Já na primeira década do século XXI, a IOR
trabalhou duro para aperfeiçoar seu relacio-
namento com as primeiras administrações de
Putin (2000-2008)” (ANDERSON, 2016,
p.15, tradução nossa)
26
.
A cooperação entre Estado e Igreja adqui-
re “um novo patamar” sob o governo Vladimir
Putin, razão pela qual Herpen (2016) define a
Igreja como “um instrumento de soft power
27
da política externa do Kremilin” (HERPEN,
2016, p.132, tradução nossa).
28
Putin assumiu
publicamente sua fé no cristianismo ortodo-
xo em 1993, sendo que seu mandato como
primeiro ministro e subsequentemente pre-
sidente em exercício em 1999 seria marcado
por uma concatenação de motivações pessoais
e políticas. A respeito dessas motivações, Her-
pen (2016) comenta que
Deste ponto, para o novo líder do Kremlin
a aliança com a igreja também era ditada
pela raison d’état, e isso por duas razões. A
primeira razão foi que, quando ele acedeu ao
poder supremo do Estado, Putin instintiva-
mente seguiu a prescrição de Maquiavel de
que era útil para um governante se comportar
como se ele fosse religioso, sem ser necessaria-
mente religioso. A segunda razão foi que ele
entendeu muito bem o papel útil que Igre-
ja Ortodoxa Russa poderia desempenhar na
26 Worked hard to perfect its relationship with the first Putin
administrations (2000-2008).
27 Entende-se soft power como “A habilidade de conseguir o
que você quer por meio da atração em vez da coerção ou pa-
gamento. Surge da atratividade da cultura de um país, ideais
políticos e políticas” (NYE, 2004, p.10, tradução nossa). No
original: “It is the ability to get what you want through attrac-
tion rather than coercion or payments. It arises from attrac-
tiveness of a country’s culture, political ideals and policies.
28 A new high; a “soft-power” tool of the Kremlins foreign policy.
reconstrução do império perdido (HERPEN,
2016, p.134, tradução nossa).
29
Anderson (2016) argumenta que, a des-
peito de a Rússia ser, constitucionalmente, um
país secular, politicamente, a relação entre a
IOR e Putin faz com que o país não se carac-
terize como tal, uma vez que a IOR se tornou
parte da coalizão conservadora de apoio cons-
truída pelo próprio presidente. A IOR desem-
penha o papel de igreja dominante no país, e
Putin já chegou a afirmar que “a ortodoxia é
um elemento central da identidade civilizacio-
nal da Rússia” (ANDERSON, 2016, p. 4, tra-
dução nossa).
30
Desta forma, pode-se afirmar que Putin
incorporou a religião à política externa, consi-
derando a importância de indivíduos falantes
da língua russa no exterior (DEMYDOVA,
2019). Ainda no que diz respeito à política
externa russa, Demydova (2019) o grupo de
trabalho do Ministério Russo das Relações Ex-
teriores e a Igreja Ortodoxa Russa, que existe
desde 2003 e se reúne anualmente para discutir
questões relevantes da política externa da Rús-
sia. Vale mencionar também que a IOR parti-
cipa ativamente na formulação de políticas do
Kremlin; na política externa, a IOR também
influencia em questões relacionadas à educação,
à cultura e à política (DEMYDOVA, 2019).
Por fim, sugere-se algumas observações.
Em primeiro lugar, é possível notar que, ao
29 From this point, for the new Kremlin leader the alliance
with the church was also dictated by the raison d’état, and
this for two reasons. e first reason was that when he ac-
ceded to the supreme power of the state, Putin instinctively
followed Machiavelli’s precept that it was useful for a ruler
to behave as if he were religious without necessarily being
religious.e second reason was that he understood full
well the useful role the Russian Orthodox Church could
play in the reconstitution of the lost empire.
30 A core element of Russias civilizational identity.
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longo da história russa, Estado e Igreja sempre
estiveram próximos (HERPEN, 2016). A re-
ligião esteve arraigada na cultura russa, sendo
um elemento constituidor da identidade rus-
sa, como afirmado por Putin (ANDERSON,
2016). Nesse sentido, o cristianismo ortodo-
xo esteve presente tanto na política doméstica
quanto na externa, sendo possível observar uma
interseção entre tópicos como religião, política
externa (pan-eslavismo) e o modelo de relação
entre Estado e Igreja na Rússia; a IOR, como
ator internacional, ainda busca exercer influên-
cia sobre ex repúblicas soviéticas, sendo uma
expressão dessa atuação a ideia de uma suposta
extensão da jurisdição do Patriarcado de Mos-
cou sobre outros países (DECR, 1997-2019e).
A relevância da religião para a sociedade
russa não apenas foi reconhecida por Putin,
como também foi utilizada pelo presidente na
contemporaneidade como um instrumento de
exercício do soft power. A proximidade entre Es-
tado e Igreja na Rússia acaba implicando em po-
líticas que não se configuram como estritamente
seculares, considerando que a IOR possui privi-
légios em relação a outras instituições religiosas
no país, ao mesmo tempo em que demonstra
apoio ao governo Putin (ANDERSON, 2016).
Percebe-se que um estudo histórico que leve em
conta o conceito de symphonia pode colaborar
para estudos sobre a Rússia contemporânea.
Conclusões
Buscou-se, neste trabalho, abordar a rela-
ção entre Estado e Igreja na sociedade russa,
desde a adoção do cristianismo ortodoxo na
Kievan Rus, até a ressurgência da Igreja Orto-
doxa Russa na contemporaneidade, de modo
a demonstrar sua atuação como ator político
de relevância em nível internacional. A seguir,
pretende-se argumentar sobre possíveis colabo-
rações deste estudo.
Diferentemente do contexto religioso oci-
dental, no qual houve uma separação entre reli-
gião e política, estas estiveram sempre interliga-
das na sociedade russa (HERPEN, 2016). Essa
diferença pode apresentar implicações para os
estudos do campo das Relações Internacionais.
Levando em conta a origem ocidental do cam-
po das R.I. - cuja origem se encontra relaciona-
da ao pensamento Iluminista e à ideia de um
Estado secular - i.e., a não interferência da reli-
gião na política. Prasad (2014) afirma que uma
vez que a disciplina tem raízes na experiência
secular europeia ocidental, a religião se encon-
trou à margem dos estudos do campo.
Feitas essas considerações, o autor deste ar-
tigo sugere que o caso abordado apresenta duas
implicações. Em primeiro lugar, ao se observar
a sociedade russa por meio de uma perspectiva
baseada nos termos políticos seculares existentes
nos países ocidentais, seria de se esperar que a
religião não fosse incorporada em análises políti-
cas da Rússia. Todavia, o presente estudo buscou
demonstrar como a religião se apresenta como
uma variável que não deveria ser ignorada em es-
tudos sobre as relações internacionais da Rússia.
Com base no argumento de Prasad
(2014), que estudos sobre contextos tais como
a relação de symphonia entre Estado e Igreja na
Rússia, que diferem da ideia ocidental de secu-
larismo intrínseco ao Estado moderno referido
no campo das R.I., também requerem uma re-
flexão acerca do entendimento que se tem sobre
o secularismo do campo. Nesse sentido, ao se
estudar casos similares, é necessária uma aná-
lise que se diferencie do entendimento que se
tem sobre a natureza da política internacional
no Ocidente. Além disso, uma revisão históri-
ca permite a acadêmicos compreender a relação
23 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.16 n.3, p.15 - 23, dez. 2019
Estado-Igreja a partir de uma análise da herança
bizantina da Rússia cristã ortodoxa e como isso
pode apresentar repercussões sobre o compor-
tamento de líderes políticos até os dias de hoje.
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