2 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.16 n.3, p.2 - 6, dez. 2019
Dossiê Temático: Religião e estudos
internacionais - Apresentação
ematic Dossier: Religion and international studies – Introduction
Dossier temático: Religión y relaciones internacionales – Presentación
Fernando Neves da Costa Maia
1
Tiago Rossi Marques
2
Recebido em: 20 de abril de 2020
Aceito em: 20 de abril de 2020
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2019v13n3p2
1 Professor de Relações Internacionais, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC Rio), Rio de Janeiro, Brasil. Con-
tato: fncmaia@terra.com.br. ORCID: 0000-0002-8457-5332.
2 Mestre em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), Belo Horizonte, Brasil.
Contato: tiagorossimarques@yahoo.com.br. ORCID: 0000-0001-5179-4689.
O presente dossiê Religião e os estudos in-
ternacionais busca contribuir não apenas para a
consolidação, mas também para o aprofunda-
mento do estudo sobre as conexões - e suas múl-
tiplas ambivalências - entre religião e o fenô-
meno das relações internacionais. É importante
notar que o campo de Relações Internacionais
vem dedicando mais atenção a este objeto de
estudo na esteira de um processo mais amplo
de incremento da influência política da religião
que pode ser percebido mais intensamente nos
últimos cinquenta anos (TOFT; PHILPO-
TT, SHAH, 2011). Uma pesquisa rápida nas
livrarias virtuais dá conta da multiplicação de
estudos que incorporam, por exemplo, pon-
tos de vista da economia política internacional
(DREHER; SMITH, 2016), das liberdades
religiosas e minorias (HURD, 2015), da inter-
seção entre religião, democracia e secularismo
(TOFT; PHILPOTT; SHAH, 2011; COHEN
e LABORDE, 2016), da tolerância religiosa
(STEPAN e TAYLOR, 2014), dos efeitos para
pensarmos a ordem global (ESPOSITO e WA-
TSON, 2000), dentre outros. A revista acadê-
mica Millennium: Journal of International Stu-
dies dedicou o número 3 do volume 29 do ano
2000 inteiramente ao tema numa tentativa de
ampliar as fronteiras do campo nesse sentido
como anotaram os editores Petito e Hatzopou-
los (2000) na introdução do referido número.
Enfim, as Relações Internacionais vem dando
provas do renovado interesse por esse estudo.
É possível, contudo, analisar o ressurgi-
mento da influência política religiosa de uma
outra perspectiva. Não se trata de negar tal
fenômeno, mas considerar, assim como Toft,
Philpott e Shah (2011), que - em certa, mas
decisiva medida - ele acontece secundado pelos
Apresentação
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elementos que teóricos da secularização toma-
ram como causas do seu declínio. A democra-
tização social, o aumento do fluxo de pessoas
e de informações, progressos tecnológicos, so-
bretudo nos meios de comunicação (TOFT;
PHILPOTT, SHAH, 2011) são amostras dos
elementos tidos como limitadores do fenôme-
no religioso e sua participação na esfera pública
reivindicados pela tese da secularização. Toft,
Philpott e Shah (2011) nos convidam a repen-
sar essa questão de um ponto de vista em que
esses elementos, ao invés de limitar e diminuir
a influência da religião no mundo político,
criaram justamente as condições para que ela se
manifestasse. Por essa tese, é possível sustentar,
por exemplo, que a democracia formou uma
“(…) arena aberta onde nacionalistas hindus,
muçulmanos turcos e os religiosos cristãos de
direita nos Estados Unidos podem comunicar
seus entendimentos e competir por poder.
(TOFT; PHILPOTT, SHAH, 2011, p.7).
Na esteira dos estudos de Peter Berger,
Toft, Philpott e Shah (2011) defendem a tese de
que a religião provavelmente continuará sendo
(…) um modelador vital - e por vezes furio-
so - da guerra, da paz, do terrorismo, da de-
mocracia, da teocracia, do autoritarismo, das
identidades nacionais, do crescimento econô-
mico e do desenvolvimento, da produtivida-
de, do destino dos direitos humanos, das Na-
ções Unidas, do aumento e diminuição das
populações, dos valores culturais com relação
à sexualidade, casamento, família, papel das
mulheres, lealdade à nação e ao regime [polí-
tico] e o caráter da educação (TOFT; PHIL-
POTT; SHAH, 2011, pp.7-8).
Quer concordemos, quer discordemos da
tese lançada acima, o fato é que ela acena para
a noção de que a religião - mesmo quando se
trabalha com a herança secular - é um elemen-
to social generalizado e mais estabelecido do
que geralmente supomos. Elizabeth Shakman
Hurd tem um argumento a esse respeito que
merece ser mencionado à guisa de ampliação
do escopo dessa apresentação:
(…) somente com a ascensão da religião como
uma categoria genérica após a Reforma Pro-
testante que ela se tornou legalmente dispo-
nível como uma categoria autônoma, domés-
tica e internacionalmente. [A] religião nunca
deixou” a política ou as relações internacio-
nais, mas assumiu diferentes formas e ocupou
diferentes espaços sob os modernos regimes
de governança que são frequentemente tidos
como seculares. Nem as religiões nem os ato-
res religiosos são agentes autônomos que po-
dem ser analisados, quantificados , engajados,
celebrados ou condenados - e divididos entre
o bem e o mal. (HURD, 2015, p.19).
Temos como associar a presença da reli-
gião com a presença de atores religiosos nos
mais diferentes espaços da vida social. A reli-
gião não está fora da história e das instituições
sócio-políticas; não pode, portanto, ser isolada
da experiência humana (HURD, 2015). No
entendimento de Toft, Philpott e Shah (2011),
um ator religioso é qualquer “(…) indivíduo,
grupo ou organização que adota crenças reli-
giosas e que articula uma mensagem razoavel-
mente consistente e coerente sobre a relação
entre religião e política.” (TOFT; PHILPOTT;
SHAH, 2011, p.23). Nessa linha argumentati-
va, é possível afirmar que a experiência humana
- repita-se: mesmo para quem trabalha com a
tese secular - acontece com base em algum con-
junto de ideias que determinada comunidade
religiosa tem sobre autoridade política e justiça;
ela acontece, portanto, a partir de uma teologia
política (TOFT; PHILPOTT; SHAH, 2011).
Em termos mais precisos, teologia política é
“(…) o conjunto de ideias que um ator religio-
so tem sobre o que é uma autoridade política
legítima.” (TOFT; PHILPOTT; SHAH, 2011,
p.27). Com base nisso é que se pode entender
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melhor as concepções seculares e pós-seculares
de mundo que orientam a comunidade política
há, pelo menos, alguns séculos. Ademais, esse
conceito nos permite pensar os diversos enqua-
dramentos dos trabalhos deste dossiê.
No processo de separação entre a esfera
Religiosa e a esfera Política, até a passagem do
século XIX para o século XX, constatou-se uma
forte tendência em se crer que o fenômeno re-
ligioso estaria fadado a um definitivo declínio
social e público, influenciados por uma onda
de secularização que legava a este fenômeno,
uma atuação minguada e exclusiva à esfera pri-
vada e particular, sem grandes incidências so-
bre a cultura e a vida pública.
Indo na contramão das predições advin-
das de teorias secularistas dos séculos passados
(TAYLOR, 2010), mas sem afirmar um reavi-
vamento religioso em escala global, observou-
-se no “ocidente” o surgimento de um novo
fenômeno, num período intitulado de “Pós-
-secular”, em que a religião demonstrou res-
surgimento, mas não sem declínio, mutação e
resistência, retornando, porém, ao centro dos
debates públicos, políticos e sociais, seja em
âmbito nacional ou internacional (GRAHAM,
2013). Nesse sentido, os estudos contempo-
râneos das Ciências Humanas e Sociais, têm
apontado para o retorno da religião ao centro
dos debates acadêmicos e teóricos, ganhando
cada vez mais “proeminência pública como um
fator significante nas políticas globais e na so-
ciedade civil” (GRAHAM, 2014, p. 235).
Será neste debate Pós-Secularista, também
presente nos estudos das Relações Internacio-
nais (PETITO; MAVELLI, 2014; WILSON
2012), que está alocado a tese de que, seja em
âmbito local, nacional ou global, a religião pode
vir a ser partícipe do desenvolvimento humano
e de suas mais diversas organizações sociais –
não sem percalços, como apontado acima. Isto
incluiria o sul global para além dos limites do
ocidente”, como aponta-nos Graham (2014,
p. 237), em que países “como Brasil, China ou
Índia, a religião continua a crescer sendo parte
significativa na vida pública”. Este fenômeno
religioso, na medida em que pode vir a desem-
penhar alguma influência no esforço analítico
produzido no campo dos Estudos Internacio-
nais, nos leva a indagar “se” e “de quais ma-
neiras”, seja direta ou indiretamente, colabora
para a formação teórica, paradigmática e ana-
lítica dentro dos Estudos Internacionais, num
período marcado por aquilo que Scott M. o-
mas (2014) chamou de “virada religiosa”.
São nesses termos que buscamos aqui fo-
mentar o debate em torno da Religião e das
Relações Internacionais, buscando levantar as
formas e os meios, caso ocorram, pelos quais
este “fenômeno” se tornaria partícipe do cam-
po, seja em sua construção teórica, analítica ou
praxiológica. O número e a distinção de atores,
abordagens, teorias e religiões envolvidas no
debate, convidam as mais diversas abordagens
para contribuir com a construção de conheci-
mento sobre este tema. Os artigos que com-
põem este dossiê cobrem amplo espectro de
discussão a partir deste prisma, o qual intenta
lançar luz sobre questões que se depreendem
das possíveis relações entre o “Político” e o “Re-
ligioso” no âmbito internacional.
Nesse sentido, o texto Relações Internacio-
nais e Religião: Frei Betto, a crítica do ateísmo do
socialismo internacional e a construção da laici-
dade do socialismo cubano, busca apresentar o
movimento contestante de Frei Betto, partin-
do de sua “militância internacional” estabelecia
pelas vias do engajamento político e literário,
da associação entre o socialismo e o ateísmo ti-
picamente vinculados ao arranjo dos “Estados
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Socialistas confessionais” em um “ateísmo de
Estado”. Tem-se em vista o esforço de Frei Be-
tto em favor da construção de um “paradigma
político de um socialismo pós-ateísta, laico”,
em que se intenta demonstrar a não incompati-
bilidade entre o aspecto religioso da experiência
humana e o pensamento socialista e marxiano
internacional. Para tanto, o argumento se de-
senvolve a partir da atuação e da permeabilidade
de Betto em Cuba, bem como de seus esforços
não tão exitosos nas demais partes do mundo
socialista, perpassando sua trajetória desde os
anos de 1980 até meados dos anos 2010.
Em O olhar do Papa Francisco para o Sul
Global: uma análise sobre o diálogo entre o Va-
ticano e a República Popular da China, promo-
veu-se uma análise das ações e atuações do Papa
Francisco em direção a uma intensificação do
diálogo entre o Vaticano e o governo da China.
Argumenta-se aqui que o olhar e as ações diplo-
máticas do atual papado, dirigidos ao Sul Glo-
bal, tem promovido um cenário de relações mais
favoráveis naquela direção, em que se trafega de
um maior quadro de ruptura entre as partes,
para aquele caracterizado por uma condição de
maior reconciliação. Isto seria possível mediante
o estabelecimento do “Acordo Provisório Santa
Sé-China”, capaz de promover maiores movi-
mentos cooperativos na relação sino-vaticano, o
que demonstraria a capacidade do “Religioso
de exercer e desempenhar notório papel global
de influência nas dinâmicas do internacional.
Seguindo na esteira da relação entre a San-
ta Sé e o atual governo chinês, o artigo A Faith
Diplomacy de Xi Jinping: as implicações político-
-religiosas do acordo provisório sobre a nomeação
dos bispos católicos na China visa identificar, a
partir de uma análise de Política Externa, as ra-
zões pelas quais o governo de Pequim concedeu
ao Vaticano, mediante acordo, a permissão de
participação na nomeação episcopal dos bispos
chineses, mesmo diante da histórica postura
contrária praticada pela China desde a procla-
mação da República e 1949, e da ruptura de
suas relações diplomáticas com o Vaticano em
1951. A análise feita aponta para um movimen-
to de interesses que visam a criação de condições
mais favoráveis para a ampliação da colaboração
bilateral entre Santa Sé e Pequim, de maneira a
promover (I) a unidade da comunidade católica
na China e a legitimidade da Igreja Oficial, (II)
abrindo caminho para que os católicos chineses
possam aderir aos projetos nacionalistas e labu-
tarem em prol do ressurgimento do país, (III)
além de proporcionar uma maior abertura para
a participação crítica dos cidadãos católicos na
construção da sociedade chinesa.
Por seu turno, o artigo Guerra justa insufi-
ciente: A ideia de paz justa na construção da paz
pós-guerra no cristianismo, ao concentrar no
campo de estudos intitulado de “construção
da paz religiosa”, propõe a exposição da “nova
abordagem da paz justa” em contraposição
ao conceito de “guerra justa”, tendo em vista
a ideia de construção da paz pós-conflito em
associação ao pensamento cristão. Para tanto,
parte-se da ideia de que a religião, com enfo-
que no cristianismo, pode ser assimilada tanto
como uma variável capaz de exercer influên-
cia sobre as ações dos indivíduo, quanto tam-
bém de seu papel decisório nas dinâmicas de
conflitos internacionais, especificamente, me-
diante a tarefa reconciliatória e de promoção
da paz pós-conflito em sociedades no cenário
global. A análise em questão intenta com isto
demonstrar o potencial do aspecto “Religioso
no internacional como um instrumento de
paz, desafiando as abordagens que mobilizam
a variável religiosa a partir da ótica exclusiva
da violência.
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Rumando em direção ao desfecho do pre-
sente dossiê, A relação Estado-Igreja e o papel da
religião nas relações internacionais da Rússia nos
apresenta um pleito em favor do papel político
da religião, representada neste contexto pela Igre-
ja Cristã Ortodoxa Russa, para com as análises de
política externa e doméstica da Rússia contem-
porânea, de maneira a não ser possível ignorá-
-la. A partir de uma revisão bibliográfica sobre o
tema, buscou-se a contextualização histórica no
tocante a consolidação do cristianismo ortodo-
xo como uma instituição politicamente ativa e
adjunta do estado russo. Ademais, seria ela tam-
bém expressiva em sua projeção de influência re-
ligiosa mediante as relações estabelecidas entre o
Patriarcado de Moscou e os demais patriarcados
difundidos por toda a Europa. Diferindo-se do
contexto religioso ocidental em que se identifica
uma separação entre religião e a política pelas vias
dos processos típicos de “secularização”, e na me-
dida em que ambas estabelecem interconexões na
sociedade russa e além fronteira, haveria aqui im-
portantes implicações para com a própria análise
da dinâmica mais abrangente entre o “Religioso
e o “Político” no campo das Relações Internacio-
nais. Nesse sentido, há de se averiguar também
os possíveis desdobramentos destas análises e im-
plicações sobre o “internacional”, incluindo aqui
o entendimento sobre a própria natureza da po-
lítica internacional para além daquelas desenvol-
vidas em associação com a ideia de “Ocidente”.
Nossa leitura seria a de que não somente
haveria aqui proficuidade na contribuição para
com a produção acadêmica em torno da pro-
posta e da temática apresentada neste dossiê,
como também se abre, a partir disto, novos ca-
minhos e possibilidades que nos levam a pros-
seguir indagando quanto as instâncias, o cami-
nho, o lugar e a importância do “Político” e do
“Religioso” nos Estudos Internacionais.
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