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Kubitschek, a revolução cubana e a
competição Leste-Oeste, 1959-1961: o
Brasil e a recomposição da Guerra Fria
Latino-Americana
Kubitschek, the Cuban revolution and the East-West
competition, 1959-1961: Brazil and the making of the Latin
America’s Cold War
Kubitschek, la revolución cubana y la competencia Este-
Oeste, 1959-1961: Brasil y la recomposición de la Guerra
Fría Latinoamericana
Carlos Dominguez Avila1
DOI: 10.5752/P.2317-773X.2022v10.n1.p94
Recebido em: 08 de maio de 2021
Aprovado em: 14 de fevereiro de 2022
As revoluções sociais são transformações rápidas e radicais das estruturas de
classe e de Estado de uma sociedade; e são acompanhadas e em parte levadas a
cabo por revoltas das classes inferiores. As revoluções sociais distinguem-se de
outras espécies de conitos e de processos transformadores, sobretudo devido à
combinação de dois aspectos coincidentes: a coincidência da mudança estrutural
da sociedade com a sublevação de classe; e a coincidência entre a transformação
política e a transformação social.
Theda Skocpol (1985, p. 16)
RESUMO
O artigo examina a documentação diplomática relacionada à política do go-
verno do presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira diante da fase inicial da
revolução cubana. A documentação em apreço foi consultada no Arquivo do Mi-
nistério das Relações Exteriores. Essa documentação oferece pouco conhecidas
informações sobre ações, percepções e interpretações de autoridades brasileiras
encarregadas da política externa em relação àquele país, bem como a outros
atores com vínculos e interesses na questão cubana.
Palavras-chave: Brasil; Cuba; Estados Unidos; Análise de Política Externa; His-
tória Global da Guerra Fria.
1. Doutor, Universidade de Brasília
(UnB). E-mail: carlos.dominguez.avila@
gmail.com.
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Carlos Dominguez Avila Kubitschek, a revolução cubana e a compeção Leste-Oeste, 1959-1961: o Brasil e a recomposição da Guerra Fria Lano-Americana
ABSTRACT
The paper examines the diplomatic documents about the Brazilian foreign po-
licy under the Juscelino Kubitschek de Oliveira’s administration face the Cuban
revolution. The documentation was consulted in the archives of the Ministry of
Foreign Aairs. The diplomatic sources oer new insights about actions, percep-
tions, and interpretations of Brazilian policy makers on Cuban, hemispheric and
global aairs.
Keywords: Brazil; Cuba; United States; Foreign Policy Analysis; Global History
of the Cold War.
RESUMEN
El artículo examina la documentación diplomática relacionada a la política del
gobierno del presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira ante la fase inicial de
la revolución cubana. La documentación en apreciación fue consultada en el
archivo del Ministerio de Relaciones Exteriores. Esa documentación ofrece poco
conocidas informaciones sobre acciones, percepciones e interpretaciones de
autoridades brasileñas encargadas de la política externa hacia aquel país, bien
como hacia otros actores con vínculos e intereses en la cuestión cubana.
Palabras-clave: Brasil; Cuba; Estados Unidos; Análisis de Política Externa; His-
toria Global de la Guerra Fría.
Introdução
A revolução cubana e eventos correlatos – inclusive a crise dos mís-
seis, em outubro de 1962 – é um dos fenômenos político-sociais mais estu-
dados por especialistas interessados nas relações internacionais da Amé-
rica Latina, na história global da Guerra Fria ou na evolução da política
externa brasileira. Após sessenta anos do triunfo e da estabilização daque-
la revolução social, o tema continua sendo pesquisado por historiadores,
sociólogos, politólogos, internacionalistas e muitos outros prossionais
das mais diversas orientações teórico-metodológicas e nacionalidades.
Todavia, o assunto em questão ainda tem alguma relevância político-so-
cial na própria Cuba e na sua inserção internacional – especialmente nas
relações bilaterais com os Estados Unidos, o Brasil e a Rússia pós-soviéti-
ca (JENKINS, 2021; WESTAD, 2017).
Parece pertinente registrar que, nessa mesma época, o governo de
Juscelino Kubitschek de Oliveira impulsionava no Brasil um processo de
modernização capitalista bastante ambicioso e dinâmico – eis o denomi-
nado Plano de Metas. No plano da política externa, o governo em ques-
tão participou do denominado período da coexistência pacíca da Guerra
Fria, com destaque para a competição Leste-Oeste entre os Estados Uni-
dos do presidente Dwight Eisenhower e a União Soviética do premier Niki-
ta Khruschev. Além disso, o período de Kubitschek coincidiu com as lutas
anticolonialistas no mundo afro-asiático, e com o modelo nacional-desen-
volvimentista, cepalino ou de industrialização por substituição de impor-
tações no continente latino-americano e caribenho (LOUREIRO, 2019).
Nesse contexto geral, o governo de Kubitschek apresentou como
uma de suas principais iniciativas de política externa a denominada Ope-
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ração Pan-Americana-OPA (SILVA, 1992). Fundamentalmente, a Opera-
ção Pan-Americana procurava deliberar e colocar na agenda hemisférica
o tema do combate ao subdesenvolvimento latino-americano e caribe-
nho, inclusive no marco da competição Leste-Oeste. Sob uma perspec-
tiva de reforço das capacidades econômicas e sócio-políticas dos países
Ocidentais, o governo brasileiro entendia – sensata e corretamente – que
a situação de subdesenvolvimento presente em muitos dos países do con-
tinente era um risco e uma vulnerabilidade diante de uma eventual pene-
tração de ideias e doutrinas extra-continentais. Assim, num documento
diplomático brasileiro expressou-se, por exemplo, o seguinte:
Ao delinear as bases da Operação Pan-Americana, o Presidente Kubitschek teve
como objetivo colocar perante a opinião pública continental o problema do
subdesenvolvimento econômico da América Latina, que ainda constitui um dos
mais fracos elos da coligação ocidental. Segundo o ponto-de-vista brasileiro, a
valorização econômica da América Latina é, assim, antes de tudo um imperativo
estratégico global do Ocidente, neste estágio da guerra fria.2
Alguns dias depois, em discurso à nação e aos representantes
diplomáticos estrangeiros lotados no Rio de Janeiro, o próprio presiden-
te Juscelino Kubistchek (2010, p. 27-31) ponderou que: “Não se poderá,
em consequência, prestar maior serviço ao ideal panamericano do que
o de tentar eliminar a sua grande chaga: o subdesenvolvimento. Para
além de uma fundamentação economicista do problema do subdesen-
volvimento, existiam considerações éticas e políticas – inclusive de políti-
ca hemisférica. “Difícil é difundir o ideal democrático e proclamar a ex-
celência da iniciativa privada no mundo, quando no nosso Hemisfério
predominam condições econômico-sociais, reexos do subdesenvolvi-
mento, conducentes ao estatismo, argumentou-se. Outrossim, “não é
justo nem concebível que nos intitulemos defensores e nos declaremos
dispostos a lutar pela moral cristã, se não zermos um esforço conjun-
to no sentido de erradicar o sofrimento que pesa sobre tantas vidas.
Já numa perspectiva analítica de competição Leste-Oeste, o presidente
alertou o seguinte: “Consentir que se alastre o empobrecimento neste
Hemisfério é enfraquecer a causa ocidental. Não recuperar, para um nível
de vida compatível com os foros da dignidade humana, criaturas que en-
globamos na denominação de povos irmãos, é semear males em terreno
propício para as mais perigosas germinações” (IBID). Cumpre sublinhar
que, mesmo reconhecendo a relevância da referida iniciativa do governo
de Kubitschek, este artigo não aborda ou reete especicamente acerca
daquela política externa. Sob uma perspectiva analítica abrangente e al-
icerçada nos estudos e pesquisas de política externa brasileira, bem como
na história global da Guerra Fria, entende-se que o problema-objeto deste
estudo é paralelo, convergente e provavelmente entrelaçado à OPA (CAL-
DAS, 1996).
Com efeito, ao mesmo tempo em que Kubitschek deliberava acer-
ca das virtudes e dos alicerces da Operação Pan-Americana, em Cuba,
desde ns de 1956, uma insurreição político-militar encabeçada pelo ad-
vogado Fidel Castro e seu Movimento 26 de Julho lutava contra o regime
autoritário do general Fulgêncio Batista. A insurreição que resultou na
derrocada do governo de Batista acelerou-se nas zonas rurais e urban-
2. Ministério das Relações Exteriores
– doravante MRE – a Embaixada na
Guatemala, Telegrama 15 (Confiden-
cial), Brasília, 10.8.1958, Arquivo do
Ministério das Relações Exteriores –
doravante AMRE.
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as daquele país, especialmente no segundo semestre de 1958. Destarte,
em 30 de dezembro de 1958, o embaixador brasileiro em Havana, Vasco
Tristão Leitão da Cunha, informou ao Ministério das Relações Exteri-
ores que: “A situação é cada vez mais difícil. Aumentam os bombardeios
aéreos, afetando a população civil das zonas ocupadas pelos revoltosos,
os quais anunciam a constituição iminente de um governo provisório
dentro da zona que chamam ‘livre’, presidido pelo Desembargador Man-
uel Urrutia.3 Poucas horas depois, o regime desabou, e o próprio general
Batista viajou para a República Dominicana – então governada pelo seu
aliado e amigo Rafael Leónidas Trujillo Molina. Outros correligionários
e clientes do agonizante governo cubano se refugiaram nos Estados Uni-
dos e alhures. Consequentemente, após mais de dois anos de insurreição
e de guerra popular, a queda do governo de Batista foi comemorada pela
maioria da população da ilha e por boa parte da opinião pública do conti-
nente americano (BRENNER ET AL., 2008).
Alguns dias depois, em 7 de janeiro de 1959, Castro entrou em
Havana, erigindo-se, assim, no principal expoente do processo revolu-
cionário nesse país. Parece apropriado acrescentar que, na época dos fa-
tos, para além das contradições entre os próprios cubanos, a presença de
capitais de origem norte-americana era muito marcante na economia e
na sociedade, principalmente no campo da indústria açucareira, comu-
nicações, energia, intermediação nanceira, e comércio exterior. Para
muitos observadores, Cuba era um virtual protetorado de Washington
no Caribe. Destarte, muitas das promessas revolucionárias – particular-
mente a reforma agria e a reforma urbana – pretendiam modicar essa
situação, bem como avançar decisivamente na reforma económica, políti-
ca e social da ilha, privilegiando os setores subalternos da sociedade e a
constituição de uma moderna economia capitalista (GUERRA, 2014).
Assim, em pouco tempo tornou-se difícil o relacionamento do
novo governo com a burguesia local e o empresariado estrangeiro – e por
extensão, também com a administração republicana de Dwight Eisen-
hower (RABE, 1988). Daí que, fosse pela inabilidade e incompreensão da
elite econômica, ou pela imaturidade política dos jovens dirigentes rev-
olucionários, ou mesmo pela posição assumida pelos Estados Unidos da
América ao tratar com o Governo revolucionário, tensões, divergências,
conitos e desarmonias domésticas e na inserção internacional do país
ressurgiram, ainda no primeiro semestre de 1959.
Isto posto, o presente manuscrito é resultado de pesquisa no Arqui-
vo do Ministério das Relações Exteriores – doravante AMRE. O objetivo
geral do manuscrito procura documentar, reetir e analisar com base em
evidência a formulação e implementação da política brasileira em relação
ao regime revolucionário cubano, bem como as implicações daquele pro-
cesso revolucionário sob a perspectiva da história global da Guerra Fria.
A pergunta central que orienta o artigo é a seguinte: ao longo do governo
do presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, quais foram as percepções
e interpretações dos diplomatas brasileiros mais diretamente envolvidos
na formulação e implementação da política diante da revolução cubana?
A hipótese a ser testada sugere que: durante o governo de Kubitschek,
e mais especicamente entre 1959 e 1961, a política brasileira diante da
3. Vasco Tristão Leitão da Cunha ao
MRE, Telegrama 172 (Confidencial),
Havana, 30.12.1958, AMRE.
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revolução cubana teria sido orientada pelo desejo e propósito de manter
e/ou “recuperar a Revolução” ao convívio continental, nos dizeres do em-
baixador brasileiro em Havana, Vasco Leitão da Cunha.
2. Vasco Leitão da Cunha em Havana: vicissitudes no propósito de
recuperar a revolução cubana... e de lutar contra o comunismo
internacional
Vasco Tristão Leitão da Cunha (1994) foi embaixador brasileiro em
Havana entre dezembro de 1956 e janeiro de 1961. De feitio conserva-
dor, prossional, bem entrosado e claramente Ocidentalista, o diploma-
ta brasileiro acompanhou os dois últimos anos do governo de Fulgêncio
Batista, e os dois primeiros anos do governo revolucionário. Ainda que
o problema-objeto desta pesquisa seja basicamente o período pós-revo-
lucionário, parece pertinente sublinhar que, na fase nal do governo de
Batista, o representante diplomático brasileiro contribuiu com uma pos-
tura compreensiva e solidária em relação às forças políticas insurgentes.
Destarte, asilo diplomático foi concedido a numerosos cidadãos cubanos
críticos do regime então vigente, inclusive a uma das irmãs mais novas do
próprio Fidel Castro, a Juana de la Claridad Castro (2009), quem procurou
proteção na legação brasileira, entre setembro de 1958 e janeiro de 1959.
Destarte, após ingressar triunfalmente em Havana, a primeira embaixa-
da que Fidel Castro visitou foi precisamente a brasileira, para agradecer o
asilo diplomático concedido a sua irmã.
A Revolução cubana é digna de encômios ao buscar a realização
de um ideal democrático, de aspecto nitidamente nacional e ao procu-
rar destruir a ditadura de Batista para fazer passar Cuba do retrógrado
capitalismo semi-feudal ao estágio das conquistas do mundo moderno”,
ponderou, o referido diplomata, em um de seus numerosos relatórios en-
caminhados ao Ministério das Relações Exteriores, entre janeiro de 1959
e janeiro de 1961.4 De fato, as fontes consultadas sugerem que, ao longo
de 1959, o regime revolucionário cubano efetivamente tentou impulsio-
nar reformas para modernizar as relações capitalistas de produção (BUS-
TAMANTE, 2021).
Ao mesmo tempo, em termos de inserção internacional, assunto
particularmente relevante para os ns deste artigo, a tendência predom-
inante nesse período foi a adesão do governo caribenho ao princípio de
não-alinhamento e equidistância diante da competição Leste-Oeste, a co-
operação e solidariedade com o sistema interamericano, um certo mes-
sianismo da elite revolucionária – destarte, em mais de uma oportuni-
dade o governo de Havana foi acusado de tentar “exportar a revolução”
para outros Estados –, e algumas tensões com governos conservadores
de países vizinhos acusados de respaldar ações contrarrevolucionárias
– especialmente a República Dominicana de Rafael Leónidas Trujillo, a
Nicarágua de Anastasio Somoza e a Guatemala de José Manuel Ydígora
Fontes. Nessas circunstâncias, em 15 de setembro de 1959, o chanceler
cubano Raul Roa armou, com alguma credibilidade, em discurso per-
ante a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas-ONU, que “A
revolução cubana é essencialmente humanista e se inspira nas fontes do
4. Vasco T. Leitão da Cunha a Horácio
Lafer, Memorando 211 (Secreto), Hava-
na, 19.9.1960, AMRE.
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Carlos Dominguez Avila Kubitschek, a revolução cubana e a compeção Leste-Oeste, 1959-1961: o Brasil e a recomposição da Guerra Fria Lano-Americana
pensamento de Martí, condenando com igual veemência o capitalismo
que explora o homem através da economia e o comunismo que o priva
da liberdade e não lhe reconhece os direitos individuais” (apud MONIZ
BANDEIRA, 1998).
Todavia, um dos assuntos mais delicados dessa época tinha que
ver com as orientações político-ideogicas da nova classe dirigente, par-
ticularmente da elite revolucionária encabeçada pelo próprio Fidel Cas-
tro e seu entorno mais imediato – inclusive pelo seu irmão Raúl Castro
(SCHOULTZ, 2009). A esse respeito, em março de 1959, o embaixador
Vasco Leitão da Cunha informou ao Itamaraty o seguinte, “Embora con-
vencido de que Fidel Castro não é comunista e de que o movimento de
26 de Julho também não é, não há a menor dúvida de que elementos co-
munistas ou lo-comunistas, muito chegados ao líder da revolução, estão
inuindo poderosamente no seu espírito”. Na opinião do referido diplo-
mata, “tais elementos têm logrado levar Fidel Castro a fazer declarações
públicas e o Governo a tomar medidas que, tanto na ordem interna quan-
to na internacional, contrariam os verdadeiros interesses do país e da rev-
olução.5A grande diculdade da posição de Fidel Castro reside no fato
de que tem dado mais ouvidos aos companheiros de armas, excelentes
revolucionários mais inexperientes politicamente e na administração, do
que aos homens mais maduros que fazem parte do Governo, por não
conar bastante no espírito revolucionário destes últimos, elucubrou-se.
Destarte: “Se Fidel Castro não souber distinguir entre os seus compan-
heiros quais os de liação comunista, corre o risco de ser absorvido pelos
mesmos, levando a revolução a um desastre.6
Ao longo de 1959 e 1960, o governo revolucionário tentou impul-
sionar pela via reformista e nacional-desenvolvimentista algumas modi-
cações estruturais da economia. Em geral, tratava-se de modernizar o
capitalismo existente no país. Em outras palavras, criar as condições para
uma transformação produtiva dentro do modelo capitalista e Ocidental.
Entretanto, o regime encontrou considerável resistência do empresariado
local e do capital externo – especialmente dos monopólios norte-ameri-
canos nas comunicações, eletricidade, reno de combustíveis, indústria
açucareira e o comércio exterior. Outrossim, em vista da considerável
vulnerabilidade e dependência econômica cubana, os dirigentes do novo
governo avançaram na expropriação e nacionalização de certas empre-
sas privadas em setores estratégicos. Igualmente, houve um esforço para
procurar outros parceiros comerciais e de segurança internacional no
continente e no mundo – inclusive no contexto afro-asiático ou da coop-
eração Sul-Sul (RABE, 2012). Observe-se que, dentre essas iniciativas de
Havana, destacou-se a tentativa de realizar uma Conferência de Países
Subdesenvolvidos – isto é, uma precursora do Movimento dos Não-Alin-
hados. Ainda que tal iniciativa pudesse ser enxergada inclusive como um
reforço da Operação Pan-Americana, a documentação consultada sugere
que o governo brasileiro resistiu à proposta cubana. Em comunicação
sobre o assunto, foi informado, por exemplo, o seguinte,
O Governo brasileiro considera estranhável tal iniciativa, porquanto ela redunda-
rá em trazer para o Continente americano problemas que lhe são alheios e que
estão causando tensões políticas em outras partes do globo. Estamos persuadidos
5. Vasco Tristão Leitão da Cunha ao
MRE, Telegrama 59 (confidencial),
Havana, 23.3.1959, AMRE.
6. Ibid.
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de que ela só poderá concorrer para o enfraquecimento da unidade continental,
sem trazer aos problemas especícos deste Hemisfério qual quer possibilidade de
solução construtiva. Enm, ela se inscreve no quadro de um esforço de proselitis-
mo militante que consideramos perigoso para a harmonia das Américas. Nessas
condições, o Governo brasileiro consulta o dos Estados Unidos da América sobre
se lhe pareceria conveniente iniciar contatos com os demais países do Continen-
te, com o objeto de representar aos mesmos as circunstâncias acima expostas, e
de obter que se abstenham de comparecer à Conferência projetada.7
Num contexto analítico mais abrangente, as fontes consultadas
ponderam que, entre janeiro e setembro de 1960, o embaixador Vasco Lei-
tão da Cunha (1994) trabalhou para tentar recuperar a revolução cubana,
evitar uma ruptura com o sistema interamericano, e/ou a incorporação
do regime de Castro no campo soviético. Nesse sentido, destacou-se uma
reunião informal na sede da embaixada da Argentina, em 11 de maio,
do primeiro-ministro Fidel Castro, com 13 embaixadores do continente
americano. Segundo o relato do diplomata brasileiro, na oportunidade, o
líder cubano solicitou a “compreensão e solidariedade dos demais países
do Continente” e rearmou que “Cuba não pode nem quer divorciar-se
do Continente americano”. Também, Castro teria armado que a revolu-
ção cubana “será útil a todos os povos”, que ela “não obedece a nenhuma
inuência estranha”, e que “procura realizar-se através de métodos exclu-
sivamente nacionais.” Destarte, para o primeiro-ministro, “a hostilidade
do Governo americano para com a Revolução cubana é oriunda especial-
mente da sua relutância em renunciar à tutela semi-secular sobre Cuba e
da resistência ao conteúdo social da mesma.8
Nessa reunião informal, o próprio Vasco Leitão da Cunha teria as-
sinalado a importância da reiteração de que Cuba não se “divorciaria do
Continente americano”, quer dizer, uma “atitude que me parecia essencial
para que este país contasse com aquela compreensão e solidariedade.” O
embaixador da Colômbia teria alertado que a compreeno e solidarieda-
de americanas poderiam car comprometidas “pelo receio de inuências
externas [leia-se soviéticas] sobre a política cubana” e o embaixador equa-
toriano teria feito um apelo “para procurar, por todos os meios, limar as
arestas nas relações cubano-americanas.” Diante de um virtual consenso
de seus interlocutores, Castro teria cado “visivelmente abalado”. Ao nal
da reuno informal com diplomatas de 13 países do continente americano
na sede da representação argentina, o primeiro-ministro cubano teria agra-
decido a oportunidade que se lhe oferecera, e sugerido “que se repetissem
com possível frequência semelhantes reuniões.” Na parte resolutiva de seu
relatório, o embaixador Vasco Leitão da Cunha considerou importante fri-
sar aos superiores no Ministério das Relações Exteriores o seguinte,
No que tange às declarações reiteradas de Fidel Castro, teremos de aguardar os
seus atos para julgar da sinceridade dos propósitos anunciados. Uma coisa porém
parece certa: a impressão que lhe cou da unidade de vistas de treze representan-
tes do Continente, unânimes em repudiar qualquer inuência extra-continental,
unânimes no silêncio ante a excessiva acrimônia na apreciação das intenções dos
Estados Unidos da América e unânimes no estabelecimento de um limite ins-
transponível para a compreensão e solidariedade dos países do Continente com a
Revolução cubana.9
Para além da questão da inserção hemisférica e global do regime
revolucionário caribenho, as fontes sugerem que um outro tópico de
7. MRE a Embaixada em Washington,
Minuta de Telegrama 2 (Secreto),
Brasília, 4.1.1960, AMRE.
8. Vasco Tristão Leitão da Cunha a
Horácio Lafer, Memorando 110 (Confi-
dencial), Havana, 12.5.1960, AMRE.
9. Ibid.
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crescente preocupação do embaixador em Havana, em particular, e do
governo de Kubistchek e da diplomacia brasileira, em geral, foi a crescen-
te divergência diplomática bilateral brasileiro-cubana (BEZERRA, 2012).
Do lado brasileiro, surgiram crescentes preocupações com as condutas
e atividades diplomáticas do embaixador cubano no Rio de Janeiro, Ra-
fael García Bárcenas, bem como de representantes do governo cubano
que visitaram o Brasil, muitas vezes com intuito de realizar atividades
propagandísticas, “inamistosas”, subversivas ou “nitidamente perigosas”
contra o regime democrático encabeçado pelo presidente Juscelino Ku-
bitschek – tudo isso, sem ignorar que, em outubro desse ano, estavam
programadas eleições presidenciais que resultaram na vitória do Jânio
Quadros.10 Destarte, desde o Itamaraty considerou-se apropriado que a
embaixada em Havana passara a adotar as “maiores precauções [na] con-
cessão de vistos quer permitam a entrada neste país de cidadãos cuba-
nos.”11 Nesse marco, o embaixador brasileiro em Havana concordou com
a necessidade de restringir a concessão de vistos a cidadãos cubanos.
Acrescentou que as “representações diplomáticas latino-americanas [em
Havana] podem desempenhar importante papel, tanto pelo asilo, como
pelo amparo psicogico que signica a presença amiga dos Governos do
Continente”, e sublinhou o seguinte: “Parece-me que o objetivo principal
da nossa política para com o Governo revolucionário cubano deveria ser
o de recuperá-lo para o convívio continental.” Concluiu Vasco Leitão da
Cunha ponderando o seguinte,
Não devemos esquecer das vantagens efetivas trazidas ao Continente pela Revo-
lução cubana, ao despertar a atenção universal para um estado de espírito reinan-
te nas Américas e do qual a Revolução cubana é, sem dúvida, a expressão mais
exaltada. A iniciativa brasileira da Operação Pan-Americana deveria ter servido
àquele m, mas o complacente letargo do Governo de Washington só parece ter
sido efetivamente perturbado pela ação drástica e temerária de Fidel Castro e
seus seguidores. Muitos destes já se acham sublevados contra o vezo comunista
que vai tomando a Revolução, mas não contra os seus ideais primeiros, pelos
quais continuam a lutar. Assim, qualquer ação do Continente deve processar-se
com o objetivo de lhe reticar o curso e nunca com de voltar ao “status quo
ante”, cujo único beneciário, por miopia, e a curto prazo, seriam somente os
grandes interesses patrocinados pelo Governo americano, cando prejudicados, a
curto e longo prazo, os demais países do Continente.12
A luta pelo poder político em Cuba também foi um outro assun-
to constantemente abordado pelo diplomata brasileiro. Nesse sentido,
parece pertinente ponderar que, entre setembro de 1960 e janeiro de
1961, muitos dos relatórios encaminhados pela embaixada em Havana
ao Itamaraty passaram incluir uma exuberante retórica anticomunista,
antissoviética e contrarrevolucionária. Infere-se do reposicionamento do
autor que uma eventual invasão da ilha por uma força expedicionária
anticastrista poderia ser positiva e construtiva numa segunda fase da
revolução cubana, desde que conseguisse reconduzi-la pela via nacion-
al-desenvolvimentista. “Convém ter presente que não se trata[ria] de uma
contra-revolução que intenta restabelecer o status quo ante 1959, mas de
um movimento para resgatar a revolução cubana das garras do comunis-
mo, informou-se ao Itamaraty, no nal de outubro de 1960.13 Poucos dias
depois, Vasco Leitão da Cunha comentou sobre o mesmo assunto nos
seguintes termos: “Não é descabido armar que este país somente en-
10. Em dezembro de 1960, o Conselho
de Segurança Nacional brasileiro teria
sido informado que: “o Embaixador de
Cuba em Moscou declarou que seu país
distribuiu armas e munições a todas
suas Embaixadas na América Latina”.
Segundo o documento em apreço, a
transferência clandestina de armas
desde Havana a países vizinhos teria
“o objetivo de passar esse material
às mãos de grupos locais estudantis,
nacionalistas e comunistas, para
assumir a defesa da revolução cubana,
caso necessário” (MRE a Embaixada em
Washington, Minuta de Telegrama 395
(Secreto), Rio de Janeiro, 31.12.1960,
AMRE). Cumpre acrescentar que as
reuniões do Conselho de Segurança Na-
cional normalmente eram realizadas sob
supervisão direta do próprio presidente
da República.
11. M. Pio Corrêa Jr. a Vasco Leitão da
Cunha, Memorando DPG/ 31 (Secreto),
Rio de Janeiro, 30.7.1960, AMRE.
12. Vasco T. Leitão da Cunha a Horácio
Lafer, Memorando 211 (Secreto), Hava-
na, 19.9.1960, AMRE.
13. Vasco Tristão Leitão da Cunha ao
MRE, Telegrama 337 (Confidencial-ur-
gente), Havana, 29.10.1960, AMRE.
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contrará tranquilidade e poderá progredir seguindo um programa sem-
elhante que recupere a Revolução e lhe dê verdadeiro cunho nacional.14
É importante acrescentar que, em suas memorias, Juana de la Clari-
dad Castro (2009) comenta que, nessa turbulenta época, ela tinha passado
a colaborar com os serviços de inteligência norte-americana dentro de
Cuba, especialmente na coleta de informações sensíveis acerca da elite
revolucionária – inclusive de seus dois irmãos mais velhos, o Fidel e o
Raúl Castro. Segundo o relato da Juanita Castro, a aproximação dela com
a inteligência norte-americana tinha sido auspiciada pela esposa do em-
baixador brasileiro em Havana, isto é, pela embaixatriz Virgínia Leitão da
Cunha. A ser exata essa informação – algo que ainda não está totalmente
conrmado e que merece ser corroborado –, tornar-se-ia necessário delib-
erar academicamente sobre seus desdobramentos em termos da política
bilateral brasileiro-cubana, inclusive após a saída do embaixador Vasco
Leitão da Cunha de seu posto em Havana. Observe-se que, em 1962, o
referido diplomata foi transferido para a embaixada brasileira em Moscou
(CATERINA, 2019; RUPPRECHT, 2011). Posteriormente, ele foi nomeado
ministro na pasta das Relações Exteriores, durante o governo militar de
Humberto de Alencar Castelo Branco (CARRIÈRES, 2021). E nalmente
foi acreditado na embaixada em Washington, entre 1967 e 1969 (LEITÃO
DA CUNHA, 1994).
Voltando ao problema-objeto desta pesquisa, é necessário insistir
que Vasco Leitão da Cunha não se furtou de criticar comentários ofen-
sivos e impertinências de diplomatas, empresários, militares e políticos
norte-americanos excessivamente etnocentristas, reacionários ou impe-
rialistas em relação a Cuba. Em julho de 1960, por exemplo, o referido
diplomata recomendou ao chanceler brasileiro Horácio Lafer examinar
a “conveniência de fazer sentir aos Estados Unidos de América a preocu-
pação do Brasil ante a eventualidade de que uma ação mais radical do
Governo norte-americano, em face da política cubana, ponha o continen-
te e a opinião pública em campos irremediavelmente opostos”; hipótese
que, em última instância, poderia acabar contribuindo para “facilitar a
inltração comunista na América.15 Poucos meses depois, Vasco Leitão
da Cunha insistiu no assunto e recomendou ao chanceler do governo de
Kubitschek o seguinte: “devemos envidar todos os esforços no sentido de
evitar que os Estados Unidos sejam levados, num gesto de impaciência,
a procurar uma vitória esmagadora e fácil do ponto de vista puramente
militar, mas que não passaria de uma vitória de Pirro”; acrescentando
que, sob a perspectiva latino-americana, essa hipótese de invasão militar
norte-americana de Cuba seria “uma derrota a curto e a longo prazo” e
somente uma vitória a curto prazo para os próprios Estados Unidos.16
Concomitantemente, o pesquisador James Hershberg (2014), após
consulta em arquivos diplomáticos estadunidenses, canadenses, ingleses
e franceses, sugere, convincentemente, que Vasco Leitão da Cunha tam-
bém acabou sendo até desdenhado por diplomatas ocidentais, principal-
mente pelo Roy R. Rubottom e pelo Philip Bonsal. Na opinião destes
diplomatas da administração Eisenhower, era utópica ou excessivamente
idealista o propósito de “recuperação da Revolução cubana, com ou sem
Fidel Castro, impulsionado pelo embaixador brasileiro em Havana.17
14. Vasco T. Leitão da Cunha a Horácio
Lafer, Memorando 250 (Confidencial),
Havana, 14.11.1960, AMRE.
15. Vasco Tristão Leitão da Cunha ao
MRE, Telegrama 132 (Confidencial-ur-
gente), Havana, 9.7.1960, AMRE.
16. Vasco Leitão da Cunha a Horácio
Lafer, Relatório para o Senhor Ministro
de Estado das Relações Exteriores
Política Exterior de Cuba (Secreto), s.l.,
23.1.1961, AMRE.
17. Ibid.
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Carlos Dominguez Avila Kubitschek, a revolução cubana e a compeção Leste-Oeste, 1959-1961: o Brasil e a recomposição da Guerra Fria Lano-Americana
Algum ceticismo diante do posicionamento de Vasco Leitão da Cunha
também era compartilhado por certos diplomatas brasileiros. No nal
de janeiro de 1961, por exemplo, pouco antes de concluir o governo de
Juscelino Kubitschek, foi informado ao Itamaraty por um outro diplo-
mata lotado na embaixada em Havana, que eram “iteis” os esforços
político-diplomáticos tendentes a recuperar a revolução cubana para o
convívio ocidental, e que dicilmente a nova administração de John F.
Kennedy se conformaria em “admitir este país como parte integrante do
bloco comunista” – eis a lógica e o contexto que resultou, poucas sema-
nas depois, na polêmica e dramática batalha de baia dos Porcos (FREED-
MAN, 2002).18
3. Fidel Castro em Brasília, 1959: “cubanismo, messianismo e anti-
imperialismo
No contexto de um périplo desde o Canadá até a Argentina, o pri-
meiro-ministro Fidel Castro visitou São Paulo, em 28 e 29 de abril de
1959. Na oportunidade, ele manifestou que a revolução cubana estava
impulsionando uma importante reforma agrária, combatendo o desem-
prego, impulsionando a industrialização, e reprimindo as máas ligadas à
jogatina – muitas delas diretamente correlacionadas a interesses norte-a-
mericanos. E de forma otimista armou que “A revolução cubana consti-
tui fato inédito na História moderna pois é a única que conta com o apoio
de 90 por cento da população.19 Todavia, em 30 de abril, a convite do pre-
sidente Kubitschek, o primeiro-ministro cubano visitou Brasília, então
em construção. Acerca da futura capital brasileira, Castro comentou: “é
bom ser jovem no Brasil, para se poder assistir ao progresso acelerado do
Mundo.” Em seguida, o presidente brasileiro opinou que o “Fidel Castro
é uma força nova, que está surgindo nestas Américas. Poderá fazer muita
coisa, e será dentro de pouco tempo, um dos líderes mais poderosos. 20
Após visitar as capitais da Argentina e Uruguai, o líder cubano re-
tornou ao Brasil. No Rio de Janeiro, em 5 de maio de 1959, aos jorna-
listas Castro disse que “o pronto existam condições razoáveis para a
efetivação do pleito, tão logo se ultimem em Cuba os alicerces de uma
justiça social, o povo será chamado às urnas para a escolha de seus no-
vos dirigentes.” Negou veemente ser de ideologia comunista, ainda que
tenha ponderado que “Cada povo tem o direito de escolher seu próprio
caminho e o caminho que escolhemos em Cuba, tem características pró-
prias cubanas, tal como nossa música e nossas tradões.” Na sua opinião,
a revolução cubana era um “movimento de que participa todo o povo,
unanimemente”, e que era “o primeiro movimento de massas da história
do mundo que vitorioso não precisa censurar a imprensa, que aceita a
opinião do povo e por isso conquista a simpatia do povo. Todavia, com
relação à Operação Pan-Americana, argumentou que “O Brasil deve pros-
seguir em seu esforço para defender e levar até o m a ideia grandiosa do
presidente Juscelino Kubitschek.21
Poco depois, em evento patrocinado pela Uno Nacional dos Estu-
dantes-UNE, o líder cubano discursou em praça pública. Ele manifestou,
dentre outras questões, o seguinte: “O mais difícil de uma revolução não
18. Marco Antônio de Salvo Coimbra ao
MRE, Telegrama 6 Confidencial-urgente,
Havana, 25.1.1961, AMRE.
19. “’São excelentes as relações entre
Cuba e os EUA’, afirma Fidel Castro”,
O Estado de São Paulo, São Paulo,
30.4.1959, p. 13.
20. “De S. Paulo para Brasília”, O Esta-
do de São Paulo, São Paulo, 1.5.1959,
p. 48.
21. “Promete Castro: Democracia Al-
icerçada na Justiça Social”, O Estado de
São Paulo, São Paulo, 6.5.1959, p. 38.
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é a guerra [senão] as tarefas criadoras que têm por objetivo mudar a si-
tuação social contra a qual lutávamos”; e reiterou seu apoio à Operação
Pan-Americana, da qual Cuba tornar-se-ia numa defensora. Diante do
presidente Kubitschek, o primeiro-ministro cubano reconheceu: “o papel
relevante a ser desempenhado pelo Brasil no concerto das nações latino-
-americanas.”22 E na despedida do Rio de Janeiro, em 7 de maio, Castro
disse que levava “a mais grata lembrança do Brasil” e que tornar-se-ia
um “propagandista das coisas brasileiras.23 Eis o impacto e a relevân-
cia da política externa do governo de Kubitschek, especialmente da luta
contra o subdesenvolvimento apregoada pela Operação Pan-Americana
(ALMEIDA, 2009).
Simultaneamente, parece pertinente comentar que o triunfo da re-
volução cubana implicou, de forma quase imediata, o início da contrar-
revolução (LEOGRANDE; KORNBLUH, 2014). Lembre-se que Batista
conseguiu fugir e se refugiar na vizinha República Dominicana, então
governada pelo general Rafael Leónidas Trujillo Molina. Com apoio do
conservador aliado dominicano, o antigo governante cubano e seus mais
leais colaboradores – então refugiados no sul da Flórida e em outros sítios
da bacia do Caribe, especialmente na Nicarágua e na Guatemala – inicia-
ram um decidido esforço contrarrevolucionário que foi denunciado por
Castro em março de 1959. Essas forças contrarrevolucionarias eram in-
tegradas fundamentalmente por ex-militares do antigo exército regular.
Em geral, eles foram conclamados a retomar as armas para insurgir-se
contra um regime inicialmente reformista e nacional-desenvolvimentis-
ta, porém decido a impulsionar mudanças signicativas e profundas em
seu país.
Observe-se que, dentro da sociedade cubana, as promessas da re-
volução causaram não pouca resistência dos setores tradicionais e privi-
legiados – especialmente da burguesia e da classe média-alta. Algumas
das reformas propostas pelo novo governo – principalmente a reforma
agria, a nacionalização de alguns setores estratégicos (comunicações,
energia, petróleo) e a reforma urbana – passaram a ser denunciadas de
possuir pretensa orientação comunista. Paradoxalmente, na época do
triunfo da revolução, o Partido Socialista Popular-PSP, quer dizer, o ver-
dadeiro partido comunista da ilha, era minúsculo e inexpressivo. Nessa
linha, a pecha de comunista era utilizada fundamentalmente no sentido
lato do termo (GUERRA, 2014; BUSTAMANTE; LAMBE, 2019).
Ainda que nominalmente o governo revolucionário fosse presidi-
do pelo desembargador Manuel Urrutia e que, em seu gabinete ministe-
rial, predominassem inicialmente personalidades de orientação liberal e
conservadora, era bastante evidente que a principal gura do regime era
mesmo o primeiro-ministro Fidel Castro (MONIZ BANDEIRA, 1998). E
gradualmente, Castro e outros membros do antigo Movimento Revolu-
cionário 26 de Julho passaram a ocupar cargos ministeriais, procurando
impulsionar as principais políticas revolucionarias – que eram promessas
e demandas dos setores subalternos da sociedade; porém consideradas
comunistas, radicais ou ilegais pelo empresariado e o capital estrangeiro.
Tal situação gerou considerável instabilidade e ingovernabilidade políti-
ca, até que o próprio presidente Urrutia considerou apropriado renunciar
22. “Fidel Castro falou duas horas em
praça pública”, O Estado de São Paulo,
São Paulo, 7.5.1959, p. 56.
23. “Fidel Castro e sua comitiva vol-
taram ontem para Cuba”, O Estado de
São Paulo, São Paulo, 8.5.1959, p. 30.
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Carlos Dominguez Avila Kubitschek, a revolução cubana e a compeção Leste-Oeste, 1959-1961: o Brasil e a recomposição da Guerra Fria Lano-Americana
e se exilar. Ele foi substituído, em julho de 1959, pelo ministro das Leis
Revolucionárias, o advogado Osvaldo Dorticós Torrado.
A nacionalização de algumas empresas vitais e, especialmente, a
implementação da – segunda – Lei de Reforma Agraria, que atingiu em
cheio grandes corporações açucareiras de propriedade cubana e estran-
geira, provocaram as primeiras tensões realmente signicativas entre o
regime revolucionário e a administração Eisenhower (LOAYZA, 1999).
Cumpre lembrar que na época dos fatos as políticas de nacionalização
de ativos privados era relativamente frequente em muitos países do con-
tinente, no marco das políticas nacional-desenvolvimentistas (CERVO,
2001). Ao mesmo tempo, no caso cubano, a indústria açucareira era parti-
cularmente signicativa, sendo que quase toda a produção era destinada
à exportação, principalmente ao mercado dos Estados Unidos. Com efei-
to, em 1959, a quota açucareira cubana no mercado norte-americano su-
perava as três milhões de toneladas. A ameaça de um eventual embargo
norte-americano à importação de açúcar cubano tornou-se um elemento
adicional das contradões entre os governos de Washington e Havana
(SEWELL, 2015).
Paralelamente, sabe-se que o então major Ernesto Guevara, alia-
do dos irmãos Fidel e Raúl Castro, recomendou não somente criar um
novo exército revolucionário – leal ao novo governo –, como também fo-
mentou a organização de milícias populares que pudessem resistir a uma
eventual investida contrarrevolucionária, que ele considerava iminente
após a vitória de janeiro de 1959. Destacou-se também o agir do coman-
dante das novas forças armadas, o Raúl Castro. Mesmo sem ser membro
do PSP, o irmão mais novo do primeiro-ministro era o mais pró-soviético
dos membros da elite revolucionária cubana.
No meio desse complexo debate ideogico e político, Vasco Leitão
da Cunha informou ao Itamaraty que, para verdadeiros dirigentes de par-
tidos comunistas procedentes do leste europeu que visitaram a ilha, em
meados de 1960, era “difícil caracterizar a revolução cubana e entendê-la
dentro do conceito marxista. 24 Nessa linha, “A revolução cubana seria
ainda estranha ao verdadeiro modelo comunista por não existir aqui ope-
rariado industrial ou campesinato capazes de servir de base a um movi-
mento de revisão das instituições”. Consequentemente, por ser conduzida
por um “grupo inexperiente, de formações ideogicas diversas e pouco
denidas”, o que predominaria na ilha, na visão daqueles dirigentes, seria
um “marxismo amador”, ou um “cubanismo.25
Parece evidente que foi a necessidade de apoio econômico, polí-
tico-diplomático e de segurança, antes que considerações ideogicas,
face ao crescente enfrentamento com os Estados Unidos, o que determi-
nou a espetacular aproximação de Fidel Castro com a Uno Soviética,
então comandada pelo premier Nikita Khruschev (FURSENKO; NAF-
TALI, 1998). Eis a assinatura do acordo Roa-Mikoyan, de 13 de fevereiro
de 1960 (RUPPRECHT, 2015). Resumidamente, o acordo em referência
garantia aos cubanos a exportação de seu açúcar para a União Soviética
em troca de petróleo, armas, técnicos e recursos nanceiros para im-
pulsionar a almejada industrialização da ilha. Para o embaixador Vasco
Leitão da Cunha,
24. Marcos Antônio de Salvo Coimbra
ao MRE, Telegrama (confidencial) 226,
Havana, 16.8.1960, AMRE.
25. Ibid.
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 10, n. 1, (abr. 2022), p. 94-116
o acordo que acaba de ser rmado entre Cuba e a URSS foi motivado sobretudo
pelo desejo de demonstrar aos Estados Unidos da América as possibilidades deste
Governo de fazer entendimentos fora da órbita americana e deixar patente sua
capacidade de escolher livremente, e segundo suas preferencias, a melhor coo-
peração para o desenvolvimento do país. Tal posição, agora assumida, aliada às
anteriores atitudes do Governo cubano perante os interesses americanos poderá
ser efetivamente interpretada como demonstrativa das intensões deste Gover-
no de não agir conforme a orientação americana. [...] Aceitando como boas as
informações colhidas, teremos que o recém assinado acordo com a URSS não
representa mudança fundamental da política cubana mas, sim, uma valorização
de Cuba para buscar o entendimento indispensável com os Estados Unidos em
bases favoráveis para este país. A outra hipótese seria a de que o acordo rmado
representasse, de fato, uma orientação política pró-soviética, signicando, assim,
uma mudança real de rumo.26
Como quer que seja, no marco da competição Leste-Oeste e da
história global da Guerra Fria, a aproximação entre Havana e Moscou
gerou bastante preocupação em Washington, Rio de Janeiro, e outras ca-
pitais do continente americano (BLASIER, 1989). Destarte, alguns dias
depois da assinatura do acordo cubano-soviético, Eisenhower concedeu
autorização para que os serviços de inteligência de seu país organizassem
uma operação encoberta destinada a derrubar o governo revolucionário,
inclusive com o alistamento dos membros da Brigada 2506 (HUSAIN,
2005). Paralelamente, um virtual conito econômico resultou na nacio-
nalização de numerosas empresas de origem norte-americana – renarias
de combustíveis, usinas açucareiras, comunicações, bancos – e na imposi-
ção de um embargo comercial e nanceiro que ainda vigora.
4. Dwight Eisenhower em Brasília, 1960: os prolegômenos da operação
Zapata – ou um ‘pequeno porrete’
Entre 22 e 24 de janeiro de 1960, o presidente Dwight Eisenhower
visitou Brasília – então em construção – e o Rio de Janeiro. Para além de
deliberar sobre assuntos estritamente bilaterais, os presidentes do Bra-
sil e dos Estados Unidos abordaram a questão cubana (PONTES, 2019;
HITCHCOCK, 2018; STREETER, 1994). “Posso declarar, com toda a
consciência, que nas horas que passei com o Presidente Eisenhower, não
pude sentir senão um desejo vivo, veemente e sincero de fazer com que
a compressão se restabelecesse”, manifestou, ex-post-facto, o líder brasile-
iro.27 Como desdobramento dessa visita presidencial, bem como da per-
sistência das divergências bilaterais entre Washington e Havana, o presi-
dente Kubistchek chegou a oferecer publicamente seus bons ofícios tanto
a estadunidenses quanto a cubanos para tentar resolver as divergências
entre as partes. Assim, em meados de março de 1960, o mandatário bra-
sileiro armou que estaria disposto a colaborar para desfazer “conceitos
errados”, “mal-entendidos” e “tentar desarmar os espíritos”.
Na oportunidade, o governante brasileiro também recomendou
publicamente a realização de um encontro direto dos dirigentes de
Washington e Havana para esclarecer as incompreensões e as queixas
recíprocas. Nessa hipótese, Kubitschek manifestou que o “Brasil se sen-
tiria honrado de ser sede de tal reunião”. Finalmente, o presidente as-
segurou que, diante da possibilidade de uma provel redistribuição da
26. Vasco Tristão Leitão da Cunha ao
MRE, Telegrama (confidencial) 15,
Havana, 15.3.1960, AMRE.
27. “Juscelino dispõe-se a servir de
mediador entre Cuba e EUA”, Folha de
São Paulo, São Paulo, 17.3.1960, p. 1.
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Carlos Dominguez Avila Kubitschek, a revolução cubana e a compeção Leste-Oeste, 1959-1961: o Brasil e a recomposição da Guerra Fria Lano-Americana
quota do açúcar cubano até então importada pelos Estados Unidos, medi-
da de pressão econômica determinada pela administração Eisenhower e
que poderia beneciar os exportadores brasileiros, era importante deixar
claro que, mesmo reconhecendo a “grande necessidade de mercados para
seus produtos”, o Brasil “não deseja obtê-los aproveitando-se de ocasion-
ais divergências entre países amigos.28
Agora se sabe que os bons ofícios oferecidos pelo presidente Ku-
bitschek aos estadunidenses e aos cubanos para dirimir com apoio brasile-
iro as divergências bilaterais pela via da mediação – isto é, com apoio de
uma terceira parte – foram claramente rejeitados. No caso norte-america-
no, em 25 de janeiro, isto é, logo após o retorno de Eisenhower a Wash-
ington, se anunciou uma chamada para consultas do embaixador em
Havana, Philip Bonsal. No dia seguinte, o mandatário norte-americano
retrucou publicamente algumas acusações cubanas – especialmente de
auxiliar atividades contrarrevolucionárias realizadas desde território esta-
dunidense, particularmente de voos clandestinos efetivamente realizados
desde a Flórida, que provocavam bombardeios e incêndios nas plantações
da ilha, bem como a divulgação de propaganda antigovernamental nas
cidades. A esse respeito, o presidente Eisenhower armou que mantinha
estrita aderência ao princípio da não-intervenção nos assuntos internos
cubanos, demandou de uma justa compensação pelas propriedades de ci-
dadãos norte-americanos nacionalizadas pelo regime de Havana, e pro-
nunciou sua conança “na habilidade do povo cubano para reconhecer
e derrotar as intrigas do Comunismo internacional que estão orientadas
para a destruição das instituições democráticas em Cuba e a tradicional e
mutuamente benéca amizade entre os povos cubano e estadunidense.29
Nesse contexto de altas e crescentes tensões bilaterais, em 17 de
março de 1960, Eisenhower concedeu autorização aos serviços de in-
teligência norte-americanos para nanciar uma operação encoberta desti-
nada a derrocar a Castro e instalar em Havana um regime mais amigável
aos interesses econômicos, políticos e estratégicos da principal potên-
cia de Ocidente – isto é, a assim chamada operação Zapata (SEWELL,
2008). Segundo Piero Gleijeses (1995), o presidente Eisenhower dirigiu no
mínimo três encontros do Conselho de Segurança Nacional dos Estados
Unidos relacionados com a operação Zapata destinada a derrocar o gov-
erno revolucionário cubano – quer dizer, o mencionado encontro de 17
de março, e também em 18 de agosto e 28 de novembro de 1960. Entre
março de 1960 e abril de 1961, os serviços de inteligência dos Estados
Unidos gastaram mais de US$ 40 milhões de dólares com o alistamento,
fornecimento de armas, logística, guerra psicogica, e outras atividades
vinculadas com a mencionada operação encoberta (HUSEIN, 2005).
Nos meses subsequentes, o planejamento da operação Zapata
mudou de conceito. Três fases mais ou menos importantes e interdepen-
dentes podem ser identicadas: a) a mudança de governo desde dentro,
b) a inltração de guerrilhas (comandos), e c) a invasão anfíbia. Eis um
pequeno porrete’ que incluía o apoio a atividades de sabotagem, sub-
levação, distúrbios, assassinatos seletivos, atentados, guerra psicogica,
espionagem, e pressão diplomática multilateral para isolar o regime rev-
olucionário. Cumpre constatar que alguns atores se insurgiram contra o
28. Cumpre acrescentar que as relações
econômicas internacionais do Brasil
durante a administração de Kubitschek
foram bastante turbulentas, principal-
mente no campo financeiro e comercial.
Tal situação gerou certa dependência
e vulnerabilidade do Brasil em relação
aos Estados Unidos e aos organismos
multilaterais – particularmente em
relação ao Fundo Monetário Interna-
cional (OLIVEIRA, 2019; FARIAS, 2015;
SEWELL, 2010).
29. “Statement by President Eisenhow-
er”, The Departament of State Bulletin,
v. XLII, n. 1071, pp. 237-238, 1960.
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 10, n. 1, (abr. 2022), p. 94-116
governo revolucionário e colaboraram com a operação Zapata por con-
vicções pessoais e comunitárias – especialmente no caso da insurreição
camponesa na serra do Escambray. Mesmo assim, a maioria dos milicia-
nos vinculados à contrarrevolução, principalmente no caso da Brigada
2506, era mesmo integrada com assalariados da Agência Central de In-
teligência dos Estados Unidos-CIA (KORNBLUH, 1998).
Inicialmente, o propósito predominante era fomentar deserções e
um massivo alçamento interno de elementos anticomunistas dirigidos
por lideranças anticastristas do próprio governo – em outras palavras,
uma mudança de regime desde dentro. Nesse sentido, certos dirigentes
políticos e militares tentaram moderar e denunciar as políticas impulsio-
nadas pela elite revolucionária. Muitos desses dirigentes – Manuel Urru-
tia, José Miró Cardoso, Ángel Aparício –, após fracassar na tentativa de
tomar o poder desde dentro, acabaram exilando-se e quase sempre par-
ticipando como lideranças civis da operação encoberta. Algo semelhante
aconteceu com certos militares de orientação anticomunista, eis o caso
do ex-comandante da força aérea Pedro Luis Díaz Lanz ou o comandante
Huber Matos.
Em um segundo momento, sem abandonar o propósito de estim-
ular deserções, a operação Zapata passou a trabalhar sob o conceito de
inltração de pequenos grupos de guerrilhas – comandos –, destinados
a apoiar ações de sabotagem urbana, especialmente em Havana, e de re-
sistência rural, com destaque aos episódios na serra do Escambray. No
caso das ações de sabotagem em áreas urbanas é importante mencionar
as intervenções de atores vinculados a movimentos sociais e núcleos sind-
icais de orientação católica. A documentação examinada realmente relata
a ocorrência de numerosos atos de sabotagem – nas redes elétricas, nas
unidades industriais e o enigmático caso da explosão do navio francês
Le Coubre (em 4 de mao de 1960) – que quase sempre acabavam com a
solicitação de asilo dos insurgentes em alguma representação diplomática
latino-americana. Observe-se que algumas lideranças sediciosas tinham
sido aliadas de Castro na época da luta contra Batista. Porém, desiludidos
ou cooptados, certos dirigentes resolveram continuar sua luta, doravante
contra o regime castrista. Eis o caso de Manuel Ray, chefe do Movimento
Revolucionário do Povo-MRP.
O terceiro conceito utilizado pelo planejamento norte-americano
– e que veio a vigorar em abril de 1961 – foi da invasão anfíbia. Resumid-
amente, uma força expedicionária integrada por 1500 homens deveria de-
sembarcar e assegurar uma praia durante uma semana. Nessa localidade
seria instaurado um governo provisório – ou “governo em armas” –, que
seria reconhecido pelos Estados Unidos, e forçando posteriormente a que-
da do governo de Castro. Vale acrescentar que esse governo provisório
deveria ser organizado a partir da unicação dos diferentes núcleos políti-
cos do exílio cubano e interlocutores dentro da ilha.
Assim, em agosto de 1960, a embaixada brasileira em Havana cor-
roborou a existência da operação Zapata nos seguintes termos: “Estou
informado de que se prepara, em um campo de treinamento dos Estados
Unidos da América, Força Expedicionária para invadir este país, compos-
ta de cubanos, antigos partirios de Fidel Castro e, agora, de separação.
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Carlos Dominguez Avila Kubitschek, a revolução cubana e a compeção Leste-Oeste, 1959-1961: o Brasil e a recomposição da Guerra Fria Lano-Americana
A referida força expedicionária seria comandada pelo ex-coronel Ramón
Barquín. As ações militares procedentes do exterior seriam apoiadas por
pilotos exilados da força aérea, bem como por insurgentes sublevados
nas regiões de Sierra Maestra e Escambray – “todos convencidos revo-
lucionários, mas decididos opositores do Comunismo, acrescentou-se.
Nesse cenário, “poderá o Governo de Fidel Castro ver-se diante de uma
situação extremamente difícil.” Como quer que seja, o embaixador Vasco
Leitão da Cunha também ponderou o seguinte: “É certo, entretanto, a
disposição inegável dos homens deste Governo de não entregar o mando
sem uma reação violenta que poderá atingir as culminâncias da brutali-
dade, com derramamento de sangue.30
Parte integrante da estratégia contrarrevolucionária era isolar o
governo cubano, tanto em termos bilaterais quanto multilaterais – espe-
cialmente no contexto da Organização dos Estados Americanos-OEA. No
campo bilateral, em 3 de janeiro de 1961, a administração Eisenhower
anunciou o rompimento das relações diplomáticas com Havana. Relati-
vamente a esse assunto, o embaixador brasileiro em Washington, Carlos
Alfredo Bernardes, informou a Rio de Janeiro o seguinte: “A minha im-
pressão é de que o Governo americano foi colhido de surpresa pela atitude
cubana e, em momento de irritação e em vista da inutilidade de manter
a representação diplomática com onze funcionários, incluindo serviçais
e subalternos, resolveu romper relações”; acrescentando, seguidamente,
que “Não se trata, por tanto, a meu ver de um ato premeditado de ante-
cede a outros igualmente planejados. Antes, creio em um impulso de mo-
mento em revide à forte provocação.31 Na realidade, o governo de Castro
aparentemente tinha em seu poder provas convincentes de realização de
atividades incompatíveis com o exercício da diplomacia no caso de nu-
merosos servidores da referida representação estrangeira em Havana.
No terreno multilateral, a estratégia de gradual isolamento do re-
gime cubano do sistema interamericano resultou, por exemplo, na VII
Reunião de Consulta de Ministros das Relações Exteriores das Améri-
cas na cidade de São José, Costa Rica, entre 22 e 29 de agosto de 1960.
Ainda que não seja possível incluir neste espaço uma avaliação detalhada
das resoluções dessa reunião de consulta, é evidente que a denominada
Declaração de São José questionou a intervenção de uma potência ex-
tracontinental – isto é, da Uno Soviética – nos assuntos das republicas
americanas. Igualmente, se manifestou a necessidade de reivindicar a de-
mocracia representativa. E se reiterou a conança dos governos ameri-
canos no sistema hemisférico, no pan-americanismo e na OEA. Agora se
sabe que a Declaração de São José teve continuidade e desdobramentos
importantes na conferência de Punta del Este, em janeiro de 1962, inclu-
sive com a exclusão do regime revolucionário cubano do principal foro
político-diplomático hemisférico.
Em suma, parece evidente que a administração Eisenhower teve
inicialmente algumas ambiguidades e reservas diante do regime revolu-
cionário cubano. Entretanto, a partir da assinatura do acordo Roas-Mikoy-
an, bem como de certas ações ou omissões dentro do próprio território
norte-americano – especialmente certa tolerância diante de atividades
contrarrevolucionárias realizadas desde a Flórida –, o governo de Wash-
30. MRE a Embaixada em Washington,
Minuta de Telegrama 376 (Secreto), Rio
de Janeiro, 11.8.1960, AMRE.
31. Carlos Alfredo Bernardes ao MRE,
Telegrama (confidencial) 24, Washing-
ton, 6.1.1961, AMRE.
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 10, n. 1, (abr. 2022), p. 94-116
ington adotou uma postura muito mais enérgica em relação à revolução
cubana, resultando na aprovação da denominada operação Zapata. No
contexto de competição e confrontação Leste-Oeste e da história glob-
al da Guerra Fria, houve um retorno à política do porrete – neste caso,
do ‘pequeno porrete’. Eis evidência de uma signicativa mudança nas
relações hemisféricas e na recomposição da Guerra Fria latino-americana.
Todavia, a eleição de John F. Kennedy, em novembro de 1960, colocou de-
saos adicionais nas relações bilaterais entre Estados Unidos e Cuba, em
particular, e hemisféricas e até globais, em geral (GREENSTEIN, 1994).
5. Nikita Khruschev no Caribe: coexistência pacífica, defesa da
revolução e competição Leste-Oeste
Em 21 de janeiro de 1961, o embaixador Vasco T. Leitão da Cunha
encaminhou ao chanceler brasileiro um relatório sobre uma última mis-
são de consulta a Cuba, antes de deixar o posto em Havana, que ocupou
desde dezembro de 1956 – isto é, desde a época do governo de Fulgên-
cio Batista. O documento em apreço merece uma alise especíca pela
riqueza de informações nele contidas. Segundo o autor do relatório, a
partir de maio de 1960, “toda a orientação da política externa e todas as
medidas tomadas no interior do país conduziram fatalmente a uma inte-
gração efetiva de Cuba no sistema de interesses das Repúblicas socialis-
tas.”32 “Fidel Castro foi incontestavelmente um trunfo para a política do
Kremlin, mas este agora se preocupa com a possibilidade de que Fidel se
torne um embaraço”, acrescentou. Ponderou que a Uno Soviética,
exerce um domínio efetivo sobre a economia cubana, pela compra política a pre-
ço inferior do mercado norte-americano de açúcar, de que não precisa a través do
fornecimento do petróleo a longa distância e a muito maior custo. Um corte nas
aquisições ou vendas de um desses dois produtos pode produzir a paralização do
país. Por isso, o Comandante Ernesto Guevara, depois de sua viagem a Moscou
e Pequim [em dezembro de 1960] achou-se na posição ideal para poder enfrentar
publicamente Fidel Castro, recomendando uma política internacional de mode-
ração e uma política interna realista, de disciplina e produtividade.33
Com efeito, os soviéticos gradualmente assumiram responsabili-
dades e relevância na política doméstica e na inserção internacional cubana,
principalmente após acordo Roa-Mikoyan, em fevereiro de 1960. Além do
fornecimento de petróleo e da compra do açúcar cubano – anteriormente
exportado para os Estados Unidos –, os soviéticos ofereceram apoio
político-diplomático, acesso a informação de inteligência, assessores
militares e armamentos sofisticados para defender a revolução. Esses
assessores e armamentos acabaram sendo absolutamente cruciais no
momento de enfrentar as ameaças contrarrevolucionárias. Consequen-
temente, Nikita Khruschev estava realmente satisfeito de ter consegui-
do um novo aliado, mesmo tão longe de Moscou (SEWELL, 2008; RUP-
PRECHT, 2015).
Mutatis mutandis, os soviéticos exigiram disciplina, moderação,
produtividade, racionalização, e convergência de visões e interesses de
Havana. Observe-se que diplomatas soviéticos lotados na capital cubana
não deixaram de queixar-se da “completa desordem reinante nos quadros
governamentais do país”.34 O chanceler Andrei Gromiko teria dito ao pri-
32. Vasco T. Leitão da Cunha, “Relatório
para o Senhor Ministro de Estado das
Relações Exteriores. Política Exterior de
Cuba”, Ofício (secreto), Rio de Janeiro,
23.1.1961, AMRE.
33. Ibid.
34. Vasco Tristão Leitão da Cunha ao
MRE, Telegrama 302 (Confidencial),
Havana, 6.10.1960, AMRE.
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Carlos Dominguez Avila Kubitschek, a revolução cubana e a compeção Leste-Oeste, 1959-1961: o Brasil e a recomposição da Guerra Fria Lano-Americana
meiro-ministro cubano que “desaprovava os excessos nos discursos por
este pronunciados”, alertando-o de que o governo soviético não poderia
acompanhar o regime cubano “nesse açodamento” – constatação que te-
ria inuído no adiamento de uma esperada visita de Khruschev a Cuba.35
Eis uma crescente pressão de Moscou para conseguir uma sovietização
do “cubanismo” então predominante na ilha caribenha.
O comunicado conjunto soviético-cubano, de fevereiro de 1960, as-
sinado por Roa e Mikoyan, é frequentemente citado como a ocialização
da incorporação cubana no mundo socialista – e, em certo sentido, tam-
bém do alinhamento com as visões e prioridades soviéticas no mundo.
Gradualmente, os quadros do minúsculo PSP – isto é, o partido dos vel-
hos comunistas cubanos – passaram a ocupar cargos cada vez mais im-
portantes no aparato administrativo da ilha. Todavia, no nal de julho do
mesmo ano, no marco do 1º congresso da Juventude, o mi