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Investimento externo chinês na América
Latina e no Sudeste Asiático: uma análise
de escopo, valores e setores-alvo
China’s foreign direct investment in Latin America
and the Southeast Asia: an analysis of scope, values
and target sectors
DOI: 10.5752/P.2317-773X.2018v6.n3.p5
Bernardo Salgado Rodrigues
1
Bruno Hendler
2
Recebido em: 05 de outubro de 2017
Aprovado em: 21 de fevereiro de 2018
R
O artigo tem como objetivo realizar uma análise quantitativa e qualitativa dos
uxos de investimento externo direto (IED) da China em países da América do
Sul e do Sudeste (SE) Asiático. A hipótese do trabalho é que os uxos de IED
correspondem a uma lógica de Estado que não obedece, necessariamente, ao
imperativo de lucros de curto prazo, uma vez que parte signicativa do capital
tem origem em fundos e empresas controlados por agentes do governo chinês, e
as principais atividades de destino estão ligadas a setores tidos como estratégicos
para desenvolvimento e segurança da China no longo prazo. O método da
pesquisa está dividido em três partes: levantamento quantitativo dos valores e
natureza (pública ou privada) dos uxos de IED da China em países da AL e SE
Asiático; exame quantitativo das principais atividades econômicas ligadas a esses
IED’s; e cruzamento de dados entre valores, natureza e atividade econômica
para propor uma análise qualitativa da relevância dos referidos investimentos
para a lógica de Estado da China. Por m, busca-se reetir sobre as diferenças e
semelhanças do perl de investimento chinês na AL e no SE Asiático, de forma a
contribuir para o debate acerca dos impactos da ascensão chinesa nos países em
desenvolvimento.
Palavras- chave: investimento externo direto chinês; América Latina;
Sudeste Asiático.
A
The article aims to conduct a quantitative and qualitative analysis of the ows
of foreign direct investment of China in South American and Southeast Asian
countries. The working hypothesis is that FDI ows correspond to a State logic
that does not necessarily obey the imperative of short-term prots, since a
signicant part of the capital comes from funds and companies controlled by
agents of the Chinese government, and the main target activities are linked to
sectors regarded as strategic for China’s long-term development and security.
The research method is divided into three parts: quantitative survey of the
1. Doutorando em Economia Política
Internacional pela Universidade Federal
do Rio de Janeiro, UFRJ-PEPI. Mestre
em Economia Política Internacional pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro,
UFRJ-PEPI. Bolsista CAPES. Rio de
Janeiro/Brasil.
ORCID: 0000-0002-6439-8359
2. Doutorando PEPI-UFRJ. Mestre em
Relações Internacionais pela Univer-
sidade de Brasília e doutorando em
Economia Política Internacional pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Bolsista CAPES. Rio de Janeiro/Brasil.
ORCID: 0000-0003-0896-611X
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values and nature (public or private) of China’s FDI ows in Latin American
and Southeast Asian countries; quantitative examination of the main economic
activities related to these FDIs; and cross-data between values, nature and
economic activity to propose a qualitative analysis of the relevance of such
investments to China’s State logic. Finally, the aim is to reect on the dierences
and similarities of the Chinese investment prole in Latin America and the
Southeast Asia in order to contribute to the debate about the impacts of the
Chinese rise in developing countries.
Key words: Chinese foreign direct investment; Latin America; Southeast Asia
Introdução
No início do século XXI, a América do Sul e o Sudeste Asiático
aparecem como duas zonas geopolíticas de grande relevância para o de-
senvolvimento chinês em sua estratégia de abertura e maior inuência
no mundo. Nesta perspectiva, o Investimento Externo Direto (IED) se
apresenta como um fator de alise da inuência chinesa em determina-
dos setores econômicos e na sua estrutura de poder.
Diante disso, o artigo tem como objetivo realizar uma alise
quantitativa e qualitativa dos uxos de investimento externo direto da
China em países da América do Sul e do Sudeste Asiático. A hipótese
do trabalho é que os uxos de IED correspondem a uma lógica de Esta-
do que não obedece, necessariamente, ao imperativo de lucros de curto
prazo, uma vez que parte signicativa do capital tem origem em fundos
e empresas controlados por agentes do governo chinês, e as principais
atividades de destino estão ligadas a setores tidos como estratégicos para
o desenvolvimento e a segurança da China no longo prazo.
O trabalho divide-se em três partes: a denição de IED e a partici-
pação da China no mundo nos últimos anos; a crescente presença chinesa
nas duas regiões em questão através do levantamento e exame quantitati-
vo dos valores e natureza (pública ou privada) e principais atividades eco-
nômicas dos seus uxos; e cruzamento de dados entre valores, natureza
e atividade econômica para propor uma alise qualitativa da relevância
dos referidos investimentos para a lógica de Estado da China. Por m,
busca-se reetir sobre as diferenças e semelhanças do perl de investi-
mento chinês na AL e no SE Asiático, de forma a contribuir para o debate
acerca dos impactos da ascensão chinesa nos países em desenvolvimento.
China e a internacionalização de capitais
A denição clássica de investimento externo direto segundo a OCDE
(p. 17) é: investimento feito por um ator residente em um país A (investidor
direto) com o objetivo de estabelecer um “interesse duradouro” em uma
empresa xada em um país B. A motivação desse interesse duradouro em
criar uma “relação estratégica de longo prazo” é garantir um grau de in-
uência na gerência da empresa no país B, expresso pelo controle de pelo
menos 10% do poder de voto nos processos de tomada de decisão.
Já Krugman e Obstfeld (1999, p. 172) entendem investimento es-
trangeiro direto como os uxos internacionais de capitais pelos quais
Rodrigues, Bernardo Salgado; Hendler, Bruno Invesmento externo chinês na América Lana e no Sudeste Asiáco..
7
uma empresa em um país cria ou expande uma lial em outro. A caracte-
rística distintiva do investimento estrangeiro direto é que ele envolve não
só uma transferência de recursos, mas também a aquisição do controle.
Isto é, a lial não tem apenas a obrigação nanceira com a empresa ma-
triz; ela é parte da mesma estrutura organizacional (KRUGMAN; OBST-
FELD, 1999, p.172).
O investimento de capital estrangeiro pode ser direto, quando
aplicado na criação de novas empresas ou na participação acionária em
empresas já existentes; e indireto, quando assume a forma de emprés-
timos e nanciamentos a longo prazo. A expectativa de lucros dos in-
vestimentos diretos privados no exterior decorre de fatores como: 1)
maiores facilidades scais e/ou legislativas do que se conseguiria no
próprio país; 2) expectativa de variações cambiais favoráveis 3) ou por
temor a mudanças políticas ou scais no país de origem. O investimen-
to governamental, por sua vez, é realizado geralmente por razões po-
líticas, diplomáticas ou militares, independentemente de possíveis ren-
dimentos econômicos, mas pode ter a função de equilibrar, em longo
prazo, o balao de pagamentos do país de origem. Para o país receptor,
o investimento estrangeiro pode ser um meio de estimular o cresci-
mento econômico quando o nível de poupança interna for insuciente
para atender às necessidades potenciais de investimento, embora isso
geralmente acentue o grau de dependência econômica e política do país
antrião em relação aos países exportadores de capital. (SANDRONI,
2008, p.436-437).
Assim, uma literatura ortodoxa/neoclássica aponta quatro grandes
motivações para que uma empresa decida investir no exterior: i) acesso a
mercados; ii) redução de custos de produção, geralmente ligados ao bara-
teamento de mão de obra ou de facilidades oferecidas pelo país hospedeiro;
iii) acesso a recursos naturais; e iv) acesso a tecnologia e conhecimento téc-
nico (YAO, p. 12-14). Porém, essa concepção se baseia em estudos empíricos
sobre a atuação das empresas multinacionais privadas de países desenvolvi-
dos (PDs), carecendo uma explicação mais realista referente a atuação das
SOE’s
3
chinesas. Isto é, o OFDI
4
chinês leva em conta, mas não se limita,
a esses quatro elementos e, dado o caráter público dessas empresas, argu-
mentamos que parte signicativa dos investimentos é motivada por uma
gica estatal que atende a objetivos políticos e estratégicos.
Essa visão heterodoxa é compartilhada por Chesnais (1996). Na sua
visão, a análise do IED passa a ser signicativa quando se consideram as
dimensões qualitativas do IED, destacadas a partir de uma lógica inter-
temporal que não se reduz a uma transação pontual, de liquidez imedia-
ta. Assim, “implica transferências de direitos patrimoniais e, portanto,
de poder econômico” (CHESNAIS, 1996, p. 54), que abrange um “com-
ponente estratégico evidente na decisão de investimento da companhia”
(CHESNAIS, 1996, p.55).
Logo, a “exportação de valor destinado a produzir mais-valia no
exterior” (CHESNAIS, 1996, p.50), o que se compreende por IED na atua-
lidade, remete:
(...) a ideia de penetração, seja para depois esvaziar os concorrentes locais, seja
para ‘sugar’ as tecnologias locais, faz parte desse aspecto ‘estratégico’ do inves-
3. Em inglês, sigla para state owned
enterprises.
4. Em inglês, sigla para outward foreign
direct investment.
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timento direto e, geralmente, está inserido num processo complexo de tentar
antecipar as ações e reações dos concorrentes. [...] Esse termos remete à existên-
cia, no contexto de estruturas de oferta concentradas, de mecanismos de apro-
priação e de centralização, pelas companhias mais fortes, de ativo ou riquezas
produzidos por agentes econômicos. (CHESNAIS, 1996, p.55)
No século XXI, a China se propõe a ser um dos grandes players
internacionais buscando projetar poder e gerar riqueza e o IED é parte
constitutiva deste processo, tendo no Estado chinês seu principal indutor.
Para Fiori (2007, p.32-33),
Não há a possibilidade de que algum desses Estados nacionais se transforme em
uma nova potência sem dispor de uma economia dimica e de um projeto políti-
co-econômico expansivo. E ca cada vez mais difícil que algum capital individual
ou bloco de capitais nacionais, públicos ou privados, se expanda para fora de suas
fronteiras nacionais sem contar com o apoio ativo dos seus Estados, o que só ocor-
rerá quando esses Estados também tiverem projetos “extraterritoriais”.
Segundo Fiori (2014, p.31-32), há atualmente uma quarta explosão
expansiva no sistema internacional, em que a China se apresenta como o
Estado que busca ampliar suas fronteiras globais, buscando novos espa-
ços e territórios de expansão. O seu próprio:
(...) desenvolvimento econômico obedece a estratégias e seguiu caminhos que
foram desenhados em resposta a grandes desaos sistêmicos, de natureza geo-
política. Independente de quais fossem as coalizões de interesse, de classe ou
de governo, em todos esses países em algum momento formou-se um bloco de
poder que respondeu da mesma forma a esses desaos externos, por meio de
estratégias e de políticas de fortalecimento econômico sustentadas por longos
períodos. (FIORI, 2014, p.37-38)
No caso da China, a partir da abertura econômica em 1978, o país
tornou-se um grande receptor de uxos de IED (IFDI)
5
, oriundos prin-
cipalmente da dspora chinesa na Ásia e de PD’s. Esse fenômeno, com-
binado a outros fatores domésticos e externos, trouxe crescimento eco-
nômico e desenvolvimento social, mas também acentuou contradões
internas que culminaram na gradual transição (a partir dos anos 2000)
de um modelo voltado para as exportações aos mercados centrais para
outro com comércio e investimentos mais direcionados aos mercados
domésticos e de países em desenvolvimento (PEDs). Nesse contexto, a
internacionalização de empresas chinesas ganhou a atenção de intelec-
tuais, políticos e empresários do mundo desenvolvido e em desenvolvi-
mento nas últimas décadas.
A contribuição de IED para a inserção chinesa nas cadeias globais
de valor (IFDI) é abordada amplamente pela literatura especializada des-
de os anos 1970. Porém, estudos no sentido oposto, que versam sobre a
internacionalização de capitais chineses ganharam força apenas nas úl-
timas duas décadas, diante do crescimento do número de projetos e dos
valores envolvidos.Para compreender este fenômeno, cabe-nos uma bre-
ve retrospectiva histórica.
A política do governo chinês para a internacionalização de capitais
(OFDI) pode ser dividida em três períodos. O primeiro, iniciado em 1979
com a formulação de quinze diretrizes de modernização econômica pelo
Conselho de Estado, perdurouao longo da década de 1980 (PEI; ZHENG,
5. Em inglês, sigla para
inward foreign direct investment.
Rodrigues, Bernardo Salgado; Hendler, Bruno Invesmento externo chinês na América Lana e no Sudeste Asiáco..
9
2015, p. 2). Apenas empresas estatais (SOEs) eram autorizadas a investir
no exterior e seus projetos, regulados pelo próprio governo, eram em
sua maioria voltados para a facilitação das exportões com a abertura
de escritórios no exterior e para os setores de agricultura,mineração e
manufaturas (Ibidem).
Foi apenas na segunda fase, iniciada em 1992 com a viagem de
Deng Xiaoping para o sul da China, que o governo promoveu refor-
mas jurídicas que facilitariam o registro e a administração de OFDI.
Apesar da preponderância das SOE’s, empresas privadas e cooperativas
também entraram no jogo e diversicaram o perl e o destino do IED
chinês: serviços, saúde, imóveis, seguros e turismo entraram na pauta,
além de agricultura, mineração e manufaturas. Assim, o crescimento
do número de projetos e dos valores envolvidos nos anos 1990 deveu-
-se às mudanças domésticas propiciadas pelo crescimento econômico e
pela competitividade e know-how de algumas empresas, mas também
ao contexto internacional favorável com o avanço da globalização (PEI;
ZHENG, 2015, p. 7-8).
O terceiro período iniciou-se no começo dos anos 2000 com a
efetivação do plano “going global” do governo chinês, que passaria a
apoiar a internacionalização de empresas públicas e privadas, embora
a predomincia das SOE’s continuasse evidente. O principal mecanis-
mo tornou-se a concessão de crédito, com juros abaixo do praticado no
mercado, por bancos estatais como o Export-Import Bank of China (China
EximBank) (Idem, p. 9). Ademais, a alta taxa de poupança da China e a
estrutura corporativa vinculada ao governo combinaram-se ao merca-
do de capitais distorcido para sustentar o OFDI chinês. Dada a altíssima
competitividade do mercado interno, explorado por empresas nacionais
e estrangeiras, e o próprio salto de competitividade das rmas chinesas,
o OFDI do país deu novo salto nos anos 2000. Assim, as empresas chi-
nesas passaram a investir pesadamente em PD’s e PEDs mundo afora
em busca de mais controle sobre as cadeias de valor e mais acesso a
tecnologias, mercados e recursos.
Desta forma, a política externa chinesa passou a conferir alta
prioridade ao endosso pragmático das reformas; com diretrizes fo-
cadas primordialmente em assegurar condições da segurança e es-
tabilidade para o desenvolvimento (SHI, 2008; SUTTER, 2012; LAI
e KANG, 2012; ZHANG, 2012)
6
. Mesmo seus objetivos de segurança
nacional se viram cada vez mais permeados por motivação de uma
natureza fundamentalmente econômica: forjar um “ambiente inter-
nacional pacífico” que suporte ou não coloque empecilhos ao pro-
gresso material. Assim, a diretriz chinesa de política externa no novo
cenário mundial passou a ser enquadrada como o de “ação dentro da
não-ão” (jingzhongyoudong), capturando o princípio de aguardar o
timing correto para só então completar um objetivo último em alguma
extensão pretendida; nesta lógica, o próprio direcionamento de IED
em determinadas localidades geogficas atende aos princípios de de-
senvolvimento e da política externa chinesa no sistema internacional.
A tabela abaixo apresenta os dados de IED chinês em valores e nú-
mero de empresas, de 1979 a 2010:
6. Algo justificável em face de sua
estratégia de ampliação de exportações
objetivando marketshare, e também o
ímpeto, mais latente apenas na década
de 1990, de angariar fluxos de investi-
mento externo direto (IED).
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Tabela 1 - Dados de IED chinês (1979-2010)
Ano # empresas IED de empresas chinesas (US$Bi)
1979 4 0,53
1980 17 31
1983 66 46
1986 221 230
1989 645 951
1992 1363 1,59
1995 1882 1,85
1998 2396 2,58
2001 3091 4,43
2004 5163 44,8
2007 + de 10000 117,91
2010 + de 16000 317,21
Fonte: PEI; ZHENG, 2015, p. 5-12.
Em termos proporcionais, o uxo de investimentos chineses no
mundo passa a ser considerável somente a partir de 2008, quando o regi-
me de acumulação da China inicia uma série de transformações estrutu-
rais que persistem até hoje e são motivados por fatores externos, como a
queda na demanda de PDs, e domésticos, como o salto qualitativo do país
nas cadeias globais de valor (CINTRA; PINTO, 2017).
Gráfico 1 - Evolução do Investimento Externo Direto (IED) da China em outros países,
1996-2015 (em US$ bilhões)
Fonte: The Organisation for Economic Co-operation and Development (2015).
O gco abaixo é um retrato geral do OFDI chinês por região.
Dele, nota-se uma distribuição relativamente equilibrada entre PEDs e
PDs ao longo dos últimos doze anos. Porém, se posto numa perspectiva
histórica, os PED’s apresentam uma tendência crescente, com destaque
para África, Ásia Oriental e América do Sul.
200.000
180.000
160.000
140.000
120.000
100.000
80.000
60.000
40.000
20.000
0
1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015
Rodrigues, Bernardo Salgado; Hendler, Bruno Invesmento externo chinês na América Lana e no Sudeste Asiáco..
11
Gráfico 2 - Distribuição do IED chinês por região
(acumulado 2005-2017, em %)
Fonte: The China Global Investment Tracker, American Enterprise Institute, 2017.
Diante disso, nossa tarefa é compreender as motivações dos investi-
mentos das empresas chinesas em duas regiões de grande relevância para
o país: Sudeste Asiático e América do Sul.
7
A expansão quantitativa do IED chinês no Sudeste Asiático
e na América do Sul
Sudeste Asiático
Encravado entre o Subcontinente Indiano, o Nordeste Asiático e a
Oceania, localizado entre as principais rotas navais do Pacíco e do Ín-
dico e berço de um dos principais blocos econômicos da atualidade, o SE
Asiático é um dos principais palcos das disputas por poder e riqueza no sé-
culo XXI. Juntos, os países da Associação das Nações do Sudeste Asiático
(ASEAN) respondem por um PIB de US$ 2,55 trilhões em 2016, segundo a
ASEANstats, e têm de lidar com os benefícios e os custos da proximidade
com a China – um mercado consumidor em expansão (principalmente
de commodities e de produtos industriais de baixo valor agregado), mas
também um concorrente de empresas nativas que buscam saltos na ca-
deia produtiva.
Na esfera geopolítica, o SE Asiático é, também, uma região extre-
mamente dimica, pois a ausência de dilemas nucleares faz com que as
esferas convencionais de poder militar e de diplomacia tenham margens
ainda maiores de atuação e transformação. Por outro lado, a ausência de
Estados nucleares signica maior vulnerabilidade às pressões sistêmicas
das grandes potências – fosse na Guerra Fria entre URSS e EUA, ou no
pós-Guerra Fria entre China e EUA.
A interação da China com os países da região passou por três ciclos
recentes (HENDLER; NOGUEIRA, 2016). O primeiro, de 1989 a 1997, foi
7. Compreendemos que os dados
sobre IED são problemáticos, sendo
necessário uma revisão sobre os limites
desses dados inclusive no caso chinês.
Por exemplo, parte do IED chinês que
vai para a Ásia camufla o fato de que
parte considerável das empresas utiliza
Hong Kong ou Singapura como praça
financeira intermediária, não sendo esse
o destino final do investimento. Já a
América Latina reflete a distorção dos
paraísos fiscais, por exemplo.
EUROPA 18%
ÁFRICA
SUBSAARIANA 16%
ÁSIA
OCIDENTAL 15%
ÁSIA
ORIENTAL 13%
ORIENTE MÉDIO E
NORTE DA ÁFRICA
13%
AMÉRICA DO SUL 9%
AMÉRICA CENTRAL
E DO NORTE
(MENOS EUA) 4%
EUA 10%
AUSTRÁLIA 6%
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marcado pela normalização das relações bilaterais e a gradual redução
da projeção dos EUA que, na ausência da URSS, passou a buscar o iso-
lamento de Pequim com base na ameaça remanescente do comunismo
e nas violações dos Direitos Humanos em Tiananmen. O segundo, de
1997 a 2008, caracterizou-se pela ofensiva multilateral chinesa, aderindo
a normas e organizações regionais para reduzir a percepção de ameaça
de sua “ascensão pacíca” e, acima de tudo, pelos empréstimos a juros
baixos e valorização do renminbi como formas de resgate às economias do
SE Asiático atingidas pela crise nanceira de 1997. É também nesse mo-
mento que a China se consolida como o duplo pólo na economia mundial
(MEDEIROS, 2008, p. 256; 2006), com altíssimos décits comerciais com
o Sul Global (inclusive com o SE Asiático) e superávits comerciais ainda
maiores com os países desenvolvidos. Por m, a atuação chinesa tornou-
-se ainda mais notória diante da diminuição da presença dos EUA na re-
gião, dado o foco na Guerra ao Terror, que deslocou parte signicativa
das atenções para o Oriente Médio.
Por m, o terceiro ciclo, ainda em andamento após 2008, tem sido
marcado pelo aprofundamento dos laços econômicos entre China e SE
Asiático, não apenas comerciais, mas também de investimentos. Se, por
um lado, a ASEAN passou de superavitária para decitária no comércio
com a China, por outro, tornou-se um dos principais alvos de IED chinês
desde meados da década passada. Diante disso, buscamos compreender
se esses investimentos correspondem às quatro motivações clássicas de
IED consagradas pela literatura, ou se o elemento político/estratégico é
determinante para a execução dos projetos.
Gráfico 3 - IED chinês no SE Asiático (acumulado 2005-2017)
Em US$ Milhões
Fonte: The China Global Investment Tracker, American Enterprise Institute, 2017 .
Conforme o gráco acima, Malásia e Indonésia foram os principais
receptores de IED chinês no SE Asiático entre 2005 e 2017
8
, seguidos por
Laos, Singapura e Vietnã. O gco abaixo apresenta esses números em
termos proporcionais, por país.
8. Os dados apresentados vão até junho
de 2017, quando foi feito o levantamen-
to para esta pesquisa.
45.000
40.000
35.000
30.000
25.000
20.000
15.000
10.000
5.000
0
Malásia
40.390
Indonésia
38.350
Laos
22.500
Singapura
22.050
Viet
21.990
Camboja
9.890
Filipinas
9.530
Tailândia
7.550
Mianmar
7.250
Brunei
4.110
Rodrigues, Bernardo Salgado; Hendler, Bruno Invesmento externo chinês na América Lana e no Sudeste Asiáco..
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Gráfico 4 - Proporção do IED chinês no SE Asiático por país
(acumulado 2005 a 2017)
Fonte: The China Global Investment Tracker, American Enterprise Institute, 2017.
No caso da Indonésia, dos US$ 38 bilhões investidos, cerca de US$
22 bilhões estão ligados ao setor energético, dos quais US$ 15 bilhões ape-
nas no ramo do carvão. Isto é, 40% do IED chinês tem como destino a ex-
ploração deste recurso, que é exportado majoritariamente para a própria
China (SPRINGER, 2016). O Vietnã é outro país que se destaca como re-
ceptor de IED chinês no setor de carvão: cerca de US$ 12 bilhões do total
de US$ 21 bilhões. Diante disso, nota-se uma convergência entre o acesso
a recursos energéticos e o imperativo estratégico chinês de preencher a
lacuna entre a geração e a demanda por energia do país.
O gco abaixo apresenta a parcela do setor energético sobre o total
do IED da China nos países da ASEAN. Países como Brunei, Filipinas, Laos
e Vietnã chamam a atenção pela alta proporção de investimentos chineses
em energia, ainda que a Indonésia esteja acima, em valores absolutos.
Gráfico 5 - Parcela do setor energético / total IED da China
(2005 - 2017, em %)
Fonte: The China Global Investment Tracker, American Enterprise Institute,2017.
MALÁSIA 22%
INDONÉSIA 21%
LAOS
12%
SINGAPURA
12%
VIETNÃ
12%
CAMBOJA 6%
FILIPINAS 5%
TAILÂNDIA 4%
MIANMAR 4% BRUNEI 2%
Brunei Filipinas Laos Viet Indonésia Mianmar Camboja Malásia Singapura Tailândia
0
20
40
60
80
83
81
64
63
57 57
51
29
23
15
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Assim, o setor energético responde a praticamente metade de todo
o IED da China no SE Asiático de 2005 a 2017. Outros setores que se des-
tacam são: transportes (19%), iveis (11%) e metais (10%), conforme o
gráco abaixo.
Gráfico 6 - IED da Cinha no SE Asiático: participação por setor econômico
(média acumulada, 2005-2017)
Fonte: The China Global Investment Tracker, American Enterprise Institute, 2017.
Nota-se que o IED chinês no setor energético atua em duas funções
distintas. No Vietnã e na Indonésia o objetivo principal é investir na ex-
ploração de carvão para importá-lo e atender a demanda doméstica – ain-
da que essa tendência esteja diminuindo dada a busca chinesa por ener-
gias renoveis (SPRINGER, 2016). Já nos países que compartilham tre-
chos extensos do Rio Mekong, Laos e Camboja, o IED chinês tem como
destino a constrão de usinas hidrelétricas para abastecer os mercados
domésticos. Ambos os processos, mas principalmente o segundo, tendem
a acentuar a interdependência assimétrica entre a China e seus vizinhos
e moldar a percepção das elites locais sobre a ascensão do gigante asiático
(SAMBATH, sem data). Por m, no caso das Filipinas, há investimentos
tanto em carvão quanto em hidretricas, que respondem por parte rele-
vante do IED chinês, mas os valores absolutos são baixos, se comparados
aos países já citados.
A Indonésia é também um dos principais alvos de IED em núme-
ro de projetos, conforme o gráco abaixo (79 no total). Porém, o salto a
partir de 2010 reetiu uma mudança fundamental nos setores-alvo. O car-
bonífero, que correspondia a 84% do total de IED de 2005 a 2009 (US$5,9
bilhões do total de US$ 7 bilhões), passou a representar apenas 20% de
2010 a 2013 (US$2,1 bilhões de US$ 10,5 bilhões) e depois subiu para 47%
de 2014 a 2017 (US$ 7,8 bilhões de US$ 16,5 bilhões). Em contrapartida,
setores como construção, transportes e aço, ganharam mais relevância
com uma quantidade maior de projetos.
Esses investimentos têm em comum a origem em SOE’s chinesas, o
que nos leva a reetir sobre seus objetivos. Dos cerca de US$ 180 bilhões de
dólares de IED chinês no SE Asiático de 2005 a 2017, cerca de 90%, são de
ENERGIA 49%
TRANSPORTES
19%
IMÓVEIS 11%
METAIS 10%
AGRICULTURA 2%
TECNOLOGIA 2%
FINAAS 2%
OUTROS 5%
Rodrigues, Bernardo Salgado; Hendler, Bruno Invesmento externo chinês na América Lana e no Sudeste Asiáco..
15
empresas estatais. Além dos investimentos corresponderem a uma lógica
econômica em sua zona de inuência imediata, em que empresas chinesas
e de Empresas Transnacionais (ETN’s) com sede na China deslocam partes
de suas cadeias produtivas em busca de redução de custos, agregam-se fa-
tores político/estratégicos para a execução dos projetos. Um dos mais rele-
vantes é a cooperação na Bacia do Rio Mekong. Por meio de investimentos
da China em megaprojetos de infraestrutura, a região que abrange Laos,
Camboja Vietnã, Taindia e Mianmar tem apresentado um aprofunda-
mento na integração de atividades econômicas (PINTO, 2015 p. 85-87).
GRÁFICO 7 - IED da China na Indonésia
(número e valor dos projetos)
Fonte: The China Global Investment Tracker, American Enterprise Institute, 2017.
Há também o fenômeno do China plus-one, denido como o re-
cente processo em que multinacionais chinesas e estrangeiras (america-
nas, europeias, japonesas e coreanas) instaladas na China deslocam parte
de suas plantas produtivas para países da ASEAN fronteiriços da China,
mantendo parte de suas operações no território chinês, garantindo vín-
culos com esse importante mercado consumidor e reduzindo os custos
de produção (PINTO, 2015, p. 85).
A ocupação de espaços estratégicos também se realiza pela diplo-
macia, movida pelo temor de surgimento de uma aliança antichinesa li-
derada pelos EUA (LI, 2009, p. 18). Visitas de políticos, diplomatas de alto
escalão, militares e acadêmicos ao SE Asiático são cada vez mais frequen-
tes, geralmente reiterando o discurso da boa vizinhança e da constru-
ção de um ambiente de conança mútua, tão prezado pelos membros da
ASEAN. Ademais, no âmbito multilateral, a China foi o primeiro país a
criar uma representação permanente para esta organização.
No entanto, a retórica da boa vizinhança e da cooperação bi e mul-
tilateral choca-se com a postura chinesa no tocante aos litígios territoriais
envolvendo Filipinas, Vietnã, Brunei, Malásia e Taiwan no Mar do Sul da
China. A percepção da China como uma ameaça por esses países é forta-
lecida pelo contexto de modernização das forças armadas, pela atuação
belicosa da marinha chinesa ao lidar com barcos pesqueiros estrangeiros
em áreas em disputa e pela construção de bases militares e povoamentos
civis em ilhotas na região (ACHARYA, 2009).
2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017
0
1.000
2.000
3.000
4.000
5.000
6.000
7.000
8.000
9.000
0
2
4
6
8
10
12
14
16
Número de projetos
Valor dos projetos (em US$ mil)
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v.6 n.3 (2018), p.5 - 25
16
Os investimentos militares da China, embora cresçam no mesmo
ritmo de expansão da economia e representem hoje cerca de 2% do PIB,
agravam a percepção de ameaça na região, principalmente pelas altas ci-
fras em valores absolutos. Ademais, criam a sensação de que, mais cedo
ou mais tarde, a periferia econômica da China tornar-se-á também uma
periferia geopolítica em que os EUA terão gradualmente menos inuên-
cia (HENDLER; NOGUEIRA, 2016, p. 217). Portanto, ao “amarrar” os
vizinhos do SE Asiático à sua dimica ecomica por meio de investi-
mentos, a China tende a moldar percepções e comportamentos da região
a seu favor e este é um processo em aberto que tende a se tornar ainda
mais complexo.
América do Sul
A presença chinesa na América do Sul se fez atuante a partir do
momento em que o gigante asiático desenvolveu sistematicamente re-
lações comerciais e diplomáticas mais aprofundadas com a região após
sua adesão à Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2001. Assim,
engajou-se de modo a expandir interações e fortalecer suas próprias refor-
mas em curso, tendo como exemplo, ao longo dos últimos anos, a assina-
tura de inúmeros acordos intergovernamentais com mais de vinte nações
latino-americanas e o desenvolvimento de relações bilaterais mediante
parcerias estratégias como a APEC (Asia Pacic Economic Cooperation) e
CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) em
anos mais recentes.
Como bem salientam Tsai e Liu (2012), desde iniciativas como a
visita do Ministro das Relações Exteriores chinês, Tang Jiaxuan, em 2001
no Chile, apregoando a cooperação Sul-Sul e preparando terreno para o
fortalecimento das trocas inter-regionais, o processamento do comércio
exterior chinês foi turbinado. Isto fez da América do Sul uma das princi-
pais regiões receptoras de IED da China, com perspectivas de crescer ain-
da mais, demonstrando o intenso apreço estratégico que Beijing guarda
pela região, algo corroborado pelos marcos das duas visitas do presidente
Hu Jintao ao continente, em 2004 e em 2008.
Em termos especícos de relações de política exterior para com a
América do Sul, o presidente chinês Yang Shangkun (1988-1993) expres-
sou, em sua visita ao continente nos anos 1990, o que assinalou como
quatro princípios” latentes para tal aliança: que ambas as partes estabe-
leceriam relações cooperativas amigáveis com base nos Cinco Princípios
de Coexistência Pacíca
9
; que tanto o comércio bilateral quanto a coope-
ração econômica e tecnogica fossem expandidos pelo interesse mútuo;
que ambas as partes respeitem os valores e tradições culturais de cada
um; e, nalmente, que empreendessem esforços conjuntos visando lograr
uma nova ordem política e econômica internacional, mais multipolar,
consultiva, e menos assimétrica (TSAI e LIU, 2012: p.292-3).
Dentre os eixos norteando a maior aproximação chinesa, guram
as motivações de cultivo a um mercado consumidor considerável para
seus produtos; a busca de apoio para alavancar agendas estratégicas di-
versas no âmbito das instituições multilaterais; e a segurança energética.
9. Tais Cinco Princípios constituem
eixos norteadores fundamentais para a
política externa chinesa, possuindo alta
resiliência desde o período da economia
maoísta planificada até décadas depois
da transição. Ganharam “corpo” com
a visita de Zhou Enlai a Índia e Burma,
onde publicou comunicados conjun-
tos advogando-os, e posteriormente
endossando-os na famosa Conferência
de Bandung (1955). São eles: respeito
mútuo pela soberania e integridade das
outras nações; não-agressão mútua;
não-interferência mútua nos assuntos
internos de cada país; equidade e
cooperação em prol do benefício mútuo;
e, finalmente, coexistência pacífica
(ZHANG, 2012: p.59-61).
Rodrigues, Bernardo Salgado; Hendler, Bruno Invesmento externo chinês na América Lana e no Sudeste Asiáco..
17
Diante do notável crescimento das relações comerciais, em 2008, o gover-
no chinês publicou o primeiro policy paper referente à região, conhecido
como “Livro Branco da China para a América Latina”, denotando pilares
primordiais das relações com o continente, que, pelo menos em termos
retóricos, deveriam se basear na equidade e na cooperação mutuamente
benéca. Em seguida a tal documento, o padrão de investimentos foi re-
vigorado, com montantes ainda maiores de inversões no continente e no
Cone Sul em especial. O principal mote ao qual se orienta o IED chinês é
o setor de hidrocarbonetos, seguido pelo de mineração e todas as outras
atividades pririas
10
.
Desta maneira, os investimentos diretos da China na região vêm
se destinando à compra de matérias primas e formação de joint-ventures
na aquisição de licenças de exploração de recursos naturais e, em casos
de obras de infraestrutura, para atuação de empresas transnacionais em
aliança com estatais chinesas. Para Moreno (2015, p.33-34), evidencia-se
a oportunidade que a América Latina oferece apenas para provisão de
matérias-primas, na contramão do que seria uma relação mais equitativa,
que potencializasse o comércio intra-industrial. As exportações latino-
-americanas para a China, assim como os investimentos chineses na re-
gião, estão concentrados em commodities – especialmente commodities ex-
trativas – em comparação ao resto do mundo.
A China tem sido um motor importante na expansão da exportação
de bens agrícolas e extrativos da América do Sul. Como mostra a gura
abaixo, enquanto as exportações agrícolas e extrativas para a China cres-
ceram como proporção do PIB, essas exportações para o resto do mundo
permanecem estagnadas ou mesmo caíram durante a última década. A de-
manda chinesa também desempenhou um papel no aumento do nível ge-
ral da maioria das commodities durante o período, aumentando signicati-
vamente os termos de troca em favor da América Latina. (RAY et al, 2015).
Gráfico 8 - Composição da pauta exportadora da América Latina por setor
Fonte: RAY et al , 2015.
10. As características gerais do IED chi-
nês na região são descritas, conforme
Slipak, da seguinte forma: orientação
para o longo prazo e segurança de
recursos; estabelecimento de firmas
chinesas com pouca ou nenhuma trans-
ferência de tecnologia aos países de
destino; ausência de condicionalidades;
ausência de promoção de uma agenda
específica por parte do País do Meio;
e, finalmente, obras de infraestrutura
trazendo consigo a obrigatoriedade de
firmas de origem chinesa e provisão de
insumos e produtos intermediários de
determinado valor agregado (SLIPAK,
2014, p.111).
Exportão dos
países da América
Latina para a China
Exportão total
dos países da
América Latina
46%
25%
29%
36%
47%
17%
31%
56%
12%
1999-2003
2004-2008 2009-2013
20%
33%
44%
2%
18%
31%
49%
2%
19%
22%
58%
1%
Agricultura
Extração
Manufatura
Outros
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v.6 n.3 (2018), p.5 - 25
18
A China vem expandindo de forma expressiva o investimento di-
reto especialmente na segunda metade da década de 2000, cujo interesse
primordial tem sido voltado aos recursos naturais e energia (petróleo,
cobre e ferro). O IED chinês na América Latina cou concentrado, sobre-
tudo, no setor de energia (54,6% do total acumulado entre 2005 e 2013),
sendo que deste valor 40% foram direcionados ao segmento do petróleo.
As participações de outros setores de atuação das empresas chinesas na
América Latina foram: 17,7% em metais; 14% no setor de transporte (au-
tomóveis); 4,6 % na agricultura; 4,5% em imóveis.
De longe, os maiores investimentos chineses na América Latina estão nos seto-
res de energia e mineração. Com apenas algumas exceções, esses investimentos
são dominados pelas “três grandes” empresas estatais chinesas - China Natio-
nal Petroleum Corporation (CNPC), China National Oshore Oil Corporation
(CNOOC) e China Petroleum and Chemical Corporation (SINOPEC) - que são
apoiados por nanciamento do CDB [] e pelo aparato maior do governo que
permite a política de saída da China. (Tradução nossa)
11
Gráfico 9 - IED da China na América Latina: participação por setor econômico
(média acumulada, 2005-2017)
Fonte: The China Global Investment Tracker, American Enterprise Institute,2017.
Evidencia-se a estratégia chinesa de garantir o acesso às fontes de
recursos naturais entre 2005 e 2013 (RAY et al, 2015). A América do Sul é o
destino principal dos IED chineses, que podem ser divididos em três prin-
cipais categorias, de acordo com seus propósitos: a) “orientados aos recur-
sos naturais” (natural resource-seeking); b) “orientados ao mercado(market-
-seeking) e c) “orientados à eciência” (eciency-seeking). A grande maioria
dos IED com destino à América do Sul são orientados à exploração de
recursos naturais, em setores de grande demanda da China, como cobre,
aço, petróleo e soja. Ademais, pode-se observar investimento em infraes-
trutura ligados a facilitar o escoamento desses produtos. (VADELL, 2011)
A América do Sul tornou-se um dos alvos do IED chinês, recebendo
cerca de US$ 144 bilhões, ainda abaixo Europa (US$ 291 bilhões), África
Subsaariana (US$ 271 bilhões) e da Ásia Ocidental (US$ 240 bilhões), no
acumulado 2005-2017. A tabela abaixo apresenta a evolução do IED chi-
nês na América do Sul em valores e pelo número de projetos individuais
acima de US$ 100 milhões.
11. By far and away the largest Chinese
investments in Latin America are in the
energy and mining sectors. With just a
few exceptions these investments are
dominated by China’s “big three” large
state-owned firms — China National
Petroleum Corporation (CNPC), China
National Offshore Oil Corporation
(CNOOC), and the China Petroleum and
Chemical Corporation (SINOPEC) —
which are backed by finance from the
CDB […] and the larger government
apparatus enabling China’s go out
policy. (GALLAGHER, 2016, p.53)
ENERGIA 55%
METAIS 18%
TRANSPORTES
14%
AGRICULTURA 5%
IMÓVEIS 4%
FINAAS 2%
QUÍMICA 1%
TECNOLOGIA 1%
Rodrigues, Bernardo Salgado; Hendler, Bruno Invesmento externo chinês na América Lana e no Sudeste Asiáco..
19
Gráfico 10 - IED da China na América do Sul
(valores e número de projetos)
Fonte: The China Global Investment Tracker, American Enterprise Institute, 2016.
Do total, cerca de um terço (US$ 52 bilhões) teve como destino o
Brasil, em especial o setor energético (US$ 38 bilhões). Além do Brasil, Ar-
gentina (US$ 27,4 bilhões), Venezuela (US$ 20,6 bilhões) e Peru (US$ 19,6
bilhões) também se destacaram como receptores de IED chinês. Os setores
alvo foram praticamente os mesmos: energia, transportes e mineração.
Gráfico 11 - IED da China na América do Sul mais México
(2005-2017, US$ milhões)
Fonte: The China Global Investment TrackerAmerican Enterprise Institute, 2017.
Entre 2005 e 2017, o IED chinês destinado a América do Sul cor-
respondeu a cerca de US$ 144 bilhões de dólares. Desse total, aproxima-
damente 90% foram realizados por empresas estatais (SOE’s) (The China
Global Investment Tracker, American Enterprise Institute), raticando um do-
mínio “by state-owned enterprises rather than by private sector multina-
tionals” (GALLAGHER, 2016, p.52).
Como pode ser observado ao analisar a proporção de IED estatais
e privados tanto na América do Sul como no Sudeste Asiático, conrma-
-se uma tendência no que tange ao destino, escopo e setores-alvo do IED
chinês. Neste contexto, a América do Sul vem representando um novo
2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016
0
5.000
10.000
15.000
20.000
25.000
30.000
35.000
40.000
0
5
10
15
20
25
30
Número de projetos
Valor dos projetos (em US$ mil)
60.000
50.000
40.000
30.000
20.000
10.000
0
Brasil
52.210
Argentina
27.460
Venezuela
20.610
Peru
19.670
Equador
14.730
Bolívia
4.100
Chile
2.860
México
2.840
Colômbia
2.170
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v.6 n.3 (2018), p.5 - 25
20
espaço de expansão dos investimentos chineses no mundo, uma nova
fronteira capitalista que, pelo seu histórico décit de infraestrutura, con-
verge com a estratégia de exportação de capitais chineses para esse m,
inclusive ao alinhar-se ao acesso privilegiado de recursos naturais que
a região possui e que são de interesse geoestratégico para a China no
médio-longo prazo.
Análise qualitativa do IED chinês no Sudeste Asiático
e na América do Sul
No sistema internacional, a produção e a riqueza interna de cada
país são condições indispensáveis de poder e expansão internacional,
uma vez que “o poder político é uxo, mais do que estoque” e necessi-
ta “se reproduzir e ser acumulado permanentemente” já que é o ato da
conquista “a força origiria que instaura e acumula o poder” (FIORI,
2007, p. 17-18). Assim, prevalece um sistema arquico e altamente com-
petitivo, com economias nacionais que lutam entre si am de aumentar a
riqueza nacional, no qual a conquista de territórios econômicos suprana-
cionais cada vez mais extensos consiste num imperativo de acumulação,
onde seus capitais possam ocupar posições monopólicas e obter “lucros
extraordinários” (FIORI, 2007, p. 29-30).
Os Estados líderes no sistema internacional possuem uma visão es-
tratégica e expansionista de suas economias nacionais, visando uma luta
permanente de ampliação de seus territórios econômicos supranacionais
no campo do poder: utilizam-se dos seus bancos, do comércio, das nan-
ças e do investimento estrangeiro direto com a nalidade de ajustamento
econômico interno e externo. O estudo de caso do IED chinês no Sudes-
te Asiático e na América do Sul demonstra e ratica esta visão. “A luta
dessas grandes potências parece quase inseparável da luta pela expansão
continua do seu território econômico supranacional e pelo controle mo-
nopólico de novos mercados, de bens, créditos ou investimentos.” (FIO-
RI, 2014, p. 40).
O IED analisado sob uma perspectiva geoeconômica corresponde
a um ato de força fundamental para a reprodução do poder do Estado
A sobre o território e a população do Estado B. Em outros termos, é a
expansão do investidor direto numa relação estratégica de longo prazo,
garantindo inuência não somente econômica (através de uxos de capi-
tais), mas geopolítica (através de interesses políticos) na gerência de em-
presas do Estado B.
Os dados do IED chinês no mundo são signicativos para a com-
preensão desta nova etapa de acumulação de poder e riqueza fora das
suas fronteiras nacionais: em 2013, a China possa o segundo maior
estoque de investimento estrangeiro direto no mundo, com aproxima-
damente 1.8 trilhão de dólares (GALLAGHER, 2016, p.35); em 2014,
os bancos de desenvolvimento chineses provisionaram mais nancia-
mento para a América Latina do que o Banco Mundial, o BID, e o US
Export-Import Bank (US Ex-Im) juntos (GALLAGHER, 2016, p.65); em
2015, a China se comprometeu a realizar empréstimos de 20 bilhões
para a cooperação infraestrutural latino-americana, 10 bilhões em em-
Rodrigues, Bernardo Salgado; Hendler, Bruno Invesmento externo chinês na América Lana e no Sudeste Asiáco..
21
préstimos preferenciais, 5 bilhões em um fundo de cooperação, todos
nos marcos da cooperação China-CELAC. (GALLAGHER, 2016, p.87).
Esta estratégia possui duas motivações:
A China acumulou uma enorme reserva de riqueza e poupança que busca diver-
sicar grandes investimentos em todo o mundo. Em segundo lugar, a China se
sente menosprezada pelo Ocidente por não ter recebido um papel maior nas ins-
tituições de Bretton Woods. [] Desde que a China não entrou nas instituições
existentes, começou a criar as suas próprias. Essas instituições agora têm à sua
disposição níveis de capital que rivalizam com os do banco de desenvolvimento
apoiado pelo Ocidente. O Banco Mundial possui pouco mais de US $ 200 bilhões
em capital e possui pouco mais de US $ 500 bilhões em ativos. O CDB detém US
$ 100 bilhões em capital e possui mais de US $ 1 trilhão em ativos. O CDB e o
CHEXIM fornecem agora mais empréstimos a governos latino-americanos do
que o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento - e mais
empréstimos para a Ásia do que o Banco Mundial e o Banco Asiático de Desen-
volvimento. (GALLAGHER, 2016, p.189, tradução nossa)
12
Ainda, a crise de 2008, que afetou a demanda de PDs por manufa-
turados chineses, acentuou a tendência de sosticação dos laços da China
com o mundo em desenvolvimento. O comércio bilateral com países do
SE Asiático e da América do Sul vem crescendo substancialmente, dada a
demanda chinesa por produtos primários para abastecer indústrias e mer-
cados domésticos. Ademais, ao se tornar um “duplo polo” na economia
global, a China substituiu os EUA como principal parceiro comercial de
uma parcela majoritária do mundo em desenvolvimento.
Seguindo a diretriz do “going global, a China tornou-se não apenas
receptora, mas também grande “exportadora” de IED a partir de meados
dos anos 2000. “Between 2002 and 2013 China’s overseas foreign direct in-
vestment ows grew from $2.7 billion to $90 billion and are predicted to
out strip inward foreign investment in 2015.” (GALLAGHER, 2016, p.52)
O acúmulo de reservas estrangeiras a partir do superávit comercial das
décadas anteriores tem pressionado o governo chinês a incentivar a inter-
nacionalização de capitais (OFDI) para conter tendências inacionárias e
reciclar capitais em atividades produtivas. Além disso,
Inicialmente, a China bloqueou as operações no exterior de suas empresas, a m
de preservar as reservas cambiais e priorizar o desenvolvimento da China con-
tinental. Tudo isso mudou em 2001, quando o primeiro- ministro chinês Zhu
Rongji recomendou que a China embarcasse em uma estratégia de “saída” que
encorajasse suas principais rmas a investir no exterior e a fazer contratos glo-
bais como parte do décimo plano quinquenal de seu país. O primeiro- ministro
disse: precisamos implementar uma estratégia de “sair, encorajando empresas
com vantagens comparativas a fazer investimentos no exterior, a estabelecer
operações de processamento, a explorar recursos externos com parceiros locais,
a contratar projetos de engenharia internacionais e aumentar a exportação do
trabalho. Precisamos fornecer uma estrutura de política de apoio para criar
condições favoráveis para que as empresas estabeleçam operações no exterior.
(GALLAGHER, 2016, p.50, tradução nossa)
13
Porém, dado que parte signicativa desses uxos está ligada a em-
presas estatais, é preciso repensar o conceito de “relação estratégica de
longo prazo”. Logo, partimos da premissa de que, ainda que se enqua-
drem na categoria de IED, as operações de ETN’s privadas como a Apple
e de SOEs chinesas, como Sinopec (petróleo), China Railway Engineering
(transportes) e Power Construction Corp. (energia) tendem a obedecer a ló-
gicas distintas. Assim, uma alise do IED chinês no SE Asiático e na
12. China has accumulated an enormous
store of wealth and savings that it seeks
to diversify by making big investments
across the world. Second, China feels
slighted by the West for not being given
a greater role in the Bretton Woods
institutions. […] Since China wasn’t let
into existing institutions, it has begun to
create its own. These institutions now
have levels of capital at their disposal
that rival that of the Western- backed
development bank. The World Bank hol-
ds just over $200 billion in capital and
has just over $500 billion in assets. The
CDB holds $100 billion in capital, and
has over $1 trillion in assets. The CDB
and CHEXIM now provide more loans
to Latin American governments than
the World Bank and the Inter- American
Development Bank— and more loans to
Asia than the World Bank and the Asian
Development Bank.
13. China initially blocked overseas
operations of its companies in order
to preserve foreign exchange reserves
and to prioritize the development of
mainland China. That all changed in
2001 when Chinese Premier Zhu Rongji
recommended that China embark on a
“going out” strategy that would encou-
rage its flagship firms to invest abroad
and bid for global contracts as part of
his country’s Tenth Five- Year Plan. The
premier said: we need to implement a
“going outside” strategy, encouraging
enterprises with comparative advan-
tages to make investments abroad,
to establish processing operations, to
exploit foreign resources with local
partners, to contract for international
engineering projects, and to increase
the export of labor. We need to provide
a supportive policy framework to create
favorable conditions for enterprises to
establish overseas operations.
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v.6 n.3 (2018), p.5 - 25
22
América do Sul, que é majoritariamente estatal, enseja a interpretação
de um padrão de investimento chinês que esteja mais voltado para in-
teresses estratégicos de Estado do que de lucro de mercado, ou, como
arma Gallagher (2016, p.51, tradução nossa) “o principal motor da estra-
tégia de saída é o apoio nanceiro do CDB e do China Exim Bank, pelo
menos no que diz respeito às atividades de grandes empresas estatais e
estatais que compõem a maior parte do investimento estrangeiro direto
da China (IDE)
14
.Em outros termos, a partir da alise qualitativa dos
dados quantitativos expostos nas sessões anteriores, o cruzamento entre
valores, natureza e atividade econômica dos setores-alvo enseja novas in-
terpretações sobre o IED chinês no SE Asiático e na América do Sul e sua
expansão econômica - mas também geopolítica - nas duas áreas.
Referente ao Sudeste Asiático, além dos investimentos correspon-
derem a uma lógica econômica em sua zona de inuência imediata, em
que empresas chinesas e ETN’s com sede na China deslocam partes de
suas cadeias produtivas em busca de redução de custos, agregam-se fato-
res político/estratégicos para a execução dos projetos. O foco dos Estados
Unidos na Guerra ao Terror ensejou maior participação da China em seu
entorno estratégico, tornando-se o maior parceiro político e econômico
dos países da região, exercendo inuência diplomática e militar, além da
atuação como motor do desenvolvimento regional, seja através de proje-
tos de integração regional e de infraestrutura ou dos décits comerciais
com alguns países, além do crescente investimento externo direto.
Há também fatores históricos em jogo: a China tem historicamente
muita inuência no SE Asiático e sua política externa tem instrumentali-
zado um passado de centralidade cultural benigna para passar a imagem
da ascensão pacíca. Até mesmo o slogan do governo de Xi Jinping, o “So-
nho Chinês”, traz consigo uma versão repaginada de uma Ásia Oriental
estável e pujante, onde a diáspora chinesa na região tenderia a cumprir,
assim como no passado, papel importante nos negócios.
No caso da América do Sul, o crescente aumento do IED a partir
dos anos 2000 se justica pela lógica de Estado chinês em sua estratégia
de maior inserção internacional (going global) e de uma nova etapa de
desenvolvimento, no qual tais investimentos buscam, principalmente,
o acesso aos recursos naturais estratégicos da região, assim como a seus
mercados via expansão de suas empresas multinacionais, o preenchi