CONGADA E REINADO: história religiosa da irmandade negra em Jequitibá, MG

Santos,$space}Carlos Roberto Moreira dos
Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, PUC Minas
fevereiro, 2011
 

Resumo

Esta pesquisa busca compreender o lugar da Congada no seio da Igreja Católica, uma vez que
ela nasceu e cresceu à sua sombra, fortemente marcada com os elementos devocionais da
Igreja e interagindo com os elementos da religião e costumes africanos. O recorte temporal
considerado neste estudo tem como referência a primeira Coroação de reis negros em Recife
no ano de 1674. Por um lado, é utilizada como instrumento de controle pelas classes
dominantes, por outro, é vista pelos dominados como uma possibilidade de recriar sua África
na nova terra. Destaca-se a vinda para a Província de Minas Gerais em 1711, onde se surgem
as Irmandades do Rosário como organização dos negros, fenômeno que dura até o século
XIX. De Vila Rica, hoje Ouro Preto, o fenômeno da Congada espalha-se pelo território
mineiro, no qual veremos em Jequitibá o registro de uma Irmandade datada de 1874. A Igreja
no Brasil, em processo de romanização, vê como ignorância religiosa as expressões e
organizações populares, impingindo a elas restrições e controle pela hierarquia eclesiástica.
Essa proibição dos festejos da Irmandade do Rosário estende-se por todo o território mineiro,
conforme decisão dos bispos da Província mineira. A criação de diocese aproxima o poder
regulador das organizações populares, gerando conflitos, tensões, proibições e resistências.
Isso pode ser verificado na Arquidiocese de Belo Horizonte em relação a Divinópolis, bem
como na Diocese de Sete Lagoas, em relação a Jequitibá, MG. Os conflitos permitem
perceber a conveniência ou não da Congada no seio da Igreja, quando a porta desta se abre ou
fecha para os congadeiros de acordo com a conveniência. Os setores eclesiásticos a partir do
Concílio Ecumênico de 1962-1965 e documentos pós-conciliares vêm ensaiando um novo
olhar a partir da conversão e reconhecimento dos valores presentes na cultura e nas
expressões religiosas do povo, vistas como detentoras de valores evangélicos. A revisitação
da Congada inserida no contexto das expressões da religião popular não constitui um acervo
folclórico da cultura e da história, mas sim, uma expressão profunda de vida de seus integrantes.