PEDRAS QUE CANTAM

  • Mario Fundarò

Resumo

Em 1994, estava pesquisando pela Universidade[1] o simbolismo das esculturas da fachada da Catedral de Modena, realizadas pelo mestre Wiligelmo, da escola Comacine[2]. Na altura tive a oportunidade de observar de perto o riquíssimo repertório iconográfico dos capitéis da igreja. Um bestiário inesgotável de leões, peixes, carneiros, cavalos, pavões, touros, vários tipos de pássaros, além de sereias, seres antropomorfos, assim como representações de cenas de danças e de músicos. No que respeita estes capitéis a historiografia oficial da catedral, do Bergamini ao Quintavalle, do Bertani ao Dondi e Salvini, entre outros, ressaltava os aspectos estilísticos-formais do Românico mais puro, da migração artística da escola da “Lingueduc” à Comacine, a fantasia dos autores, o programa iconográfico ligado ao fantástico, ao monstruoso, ao medo típico da Idade Média. Nestes mesmos anos tive a privilégio de conhecer Marco Dezzi Bardeschi, arquiteto e teórico da Arquitetura, que me incentivou para leituras da escola de Aby Warburg, Panofsky, Gombrich, Saxl, Yates, Wittkower, entre outros, assim como para as novas teorias de medievalistas como Le Goff, Eugenio Battisti ou Baltrušaitis. Warburg estava convencido de que restringir a análise iconográfica de uma obra de arte a uma mera questão formal e estilística não era só extremamente limitado, mas também errôneo. Estes pesquisadores acreditavam que as imagens eram ícones carregados de significados e que tinham uma relação estreita com a cultura e a memória de uma sociedade: “as imagens da memória agora são conscientemente armazenadas na forma de representações ou signos” (WARBURG. 2006, p.34). Warburg falava de Nachleben, ou de "sobrevivência". É destas “sobrevivências” que esta breve contribuição quer tratar.

 

Publicado
27-11-2020
Seção
DOSSIÊ: ARTE E CIÊNCIA - INFINITAS POSSIBILIDADES DE DIÁLOGO