Certo sertão: estórias

  • Francis Utéza

Resumo

Em Primeiras estórias, “Os Irmãos Dagobé” e “Fatalidade” podem ser lidas superficialmente como paródias de bangue-bangue em que os atores não correspondem aos estereótipos do gênero. No entanto, as marcas da identidade cultural do sertão bravo, tipo faroeste americano, constituem, sobretudo, o cenário útil para nele enquadrar a dinâmica espiritual que Rosa frisava como característica da coletânea. Em ambas as estórias, o narrador oculta essa dinâmica: posicionandose como porta-voz de uma gente “fatalista”, resignada a sofrer os desmandos dos valentões em “Os Irmãos Dagobé”; adoptando, em “Fatalidade”, a tônica humorística de uma testemunha que se distancia em relação aos acontecimentos relatados, fazendo de conta que não entende em que consiste o “fatalismo” do delegado protagonista. O discurso desses dois narradores, ao mesmo tempo, solicita a perspicácia do leitor – através da onomástica, das falas dos personagens, dos enigmas lingüísticos colocados na narração – apontando para um conteúdo oculto a ser revelado. Assim, partindo de causos que questionam a justiça e as leis humanas, “Os Irmãos Dagobé” e “Fatalidade”, funcionam como parábolas que convidam a refletir, em particular, sobre a problemática do livre arbítrio e da graça divina, na exploração da terceira margem do Ser Tão, ali onde o cristianismo encontra as fontes greco-orientais da Philosophia Perennis.



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Referências

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Publicado
21-03-2002
Como Citar
Utéza, F. (2002). Certo sertão: estórias. Scripta, 5(10), 129-142. Recuperado de http://periodicos.pucminas.br/index.php/scripta/article/view/12391