Candido e Freud: fragmentos do vivido em Boitempo I

  • Cleusa Rios P. Passos USP
Palavras-chave: Antonio Candido, Carlos Drummond, Boitempo I, Memória. Crítica literária, Psicanálise

Resumo

Antonio Candido, no artigo “Poesia e ficção autobiográfica”, enfoca a questão da memória em autores mineiros, centrando-se, sobretudo, em Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes e Pedro Nava. A leitura aqui pretendida rastreia sua proposta analítica relacionada ao primeiro poeta, mais especificamente a seu livro Boitempo I, sublinhando os fragmentos do vivido, capturados a partir de “cenas, casos e emoções da infância” do poeta. Candido destaca a construção de tais traços pelo eu lírico adulto, ou seja, a forma pela qual o presente atua no passado, ressignificando-o literariamente e sem ignorar diferentes olhares interpretativos, inclusive citando Freud, ao retomar J. Guilherme Merquior, incorporando, portanto, o apoio teórico da psicanálise. Na esteira da crítica, o ensaísta reafirma – e vai além – a presença do humor mais leve em Drummond, algo distinto do conjunto de sua obra e mais voltado para a “trama do mundo como espetáculo”, ideia fulcral vinculada a uma associação entre o eu e a cultura, mas também a um “dar a ver”, que pode ser pensado em termos psicanalíticos. Como na maioria de seus textos, Antonio Candido sintetiza finas reflexões que, desmembradas, abrem aos leitores vários caminhos interpretativos. É um deles que se intenta trilhar aqui.

Biografia do Autor

Cleusa Rios P. Passos, USP

Professora titular departamento de Teoria Literária e Literatura da (FFLCH) Universidade de São Paulo (USP). Pesquisadora do CNPq e Coordenadora (com outra docente) do Grupo Crítica Literária e Psicanálise (FFLCH/USP).

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Publicado
20-12-2019
Como Citar
Passos, C. R. P. (2019). Candido e Freud: fragmentos do vivido em Boitempo I. Scripta, 23(49), 69-89. https://doi.org/10.5752/P.2358-3428.2019v23n49p69-89