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Vulnerabilidade socioambiental:
uma análise do ciclone Idai em Beira
– Moçambique e suas implicações
internacionais
Socio-environmental vulnerability: an analysis of Idai hurricane in Beira – Mozambi-
que and its international implications
Vulnerabilidad socio ambiental: un análisis del ciclón Idai en Beira - Mozambique y sus
implicaciones internacionales
Aureliane Aparecida de Araújo
1
Tomé Francisco Chicombo
2
Joelton Carneiro de Lima
3
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2020v17n1p39
Recebido em: 17 de abril de 2019
Aceito em: 01 de dezembro 2019
Resumo
O presente trabalho traz à tona as implicações socioambientais na rota dos ciclones. Para
tanto, variáveis pautadas no uso e ocupação do solo, o sítio urbano, a dinâmica global da
circulação da atmosfera serão utilizadas para clarificar as origens dos desastres ambientais
tendo como exemplo Beira, em Moçambique.
Palavras-chave: Desastres Naturais. Riscos. Vulnerabilidade.
Abstract
e present work brings to light the socio-environmental implications of the cyclone route.
To this end, variables based on land use and occupation, the urban site and the global
dynamics of the circulation of the atmosphere will be used to clarify the origins of environ-
mental disasters, taking Beira as an example in Mozambique.
Key words: Natural Disasters. Risks. Vulnerability.
1 Graduada em Geografia (UNIMONTES – Universidade Estadual de Montes Claros). Especialização em Geografia e Meio
Ambiente (UNIMONTES – Universidade Estadual de Montes Claros). Mestre em Geografia (UNIMONTES – Universidade
Estadual de Montes Claros). Doutoranda em Geografia – Tratamento de Informação Espacial (PUC Minas). ORCID: 0000-
0002-1868-7758
2 Graduado em Informática (UEM – Universidade Eduardo Mondlane). Mestre em Sistemas da Informação para Gestão Ambien-
tal (ESTEC - Escola Superior Técnica da Universidade Pedagógica de Moçambique). Doutorando em Geografia – Tratamento da
informação Espacial (PUC Minas). ORCID: 0000-0002-9039-7018
3 Graduado em Geografia (PUC Minas). Mestre em Relações Internacionais (PUC Minas). Doutorando em Geografia – Tratamen-
to da informação Espacial (PUC Minas). ORCID: 0000-0003-3340-9470
Artigo
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Introdução
O presente estudo se propõe a analisar
o impacto do fenômeno atmosférico não so-
mente nas configurações das relações interna-
cionais, mas sua intercorrência nas diferentes
proposições de articulação com os mesmos
entes internacionais. Considerando a impor-
tância econômica da Beira, cidade portuária
moçambicana, situada na zona centro leste do
país -19º 50’e 36 S e 34º 50’20 E, com cerca
de 533.825 habitantes de acordo com o censo
de 2017. A capital da província de Sofala reúne
frota de suma estratégia comercial para países
do interior da África central. A vulnerabilidade
socioambiental apresenta implicações interna-
cionais à medida que contingência fluxos de
mercadorias no Porto da Beira e, sobretudo
avassala sujeitos sobrepujados pela força da na-
tureza condicionados pela evidente fragilidade
no processo reação ao evento climático, as figu-
ras 1 e 2 mostram área de estudo.
Resumen
El presente trabajo saca a la luz las implicaciones socio ambientales de la ruta del ciclón.
Para esto, se utilizarán variables basadas en el uso y la ocupación del suelo, el sitio urbano,
la dinámica global de la circulación de la atmósfera para aclarar los orígenes de los desas-
tres ambientales, utilizando Beira como ejemplo en Mozambique.
Palabras clave: Desastres naturales. Riesgos. Vulnerabilidad.
Figura 1 - Localização de Moçambique
Fonte: Elaborado pelos autores (2019)
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Sob a égide das relações internacionais,
impactos ambientais perpassam fronteiras es-
taduais. Nesta lógica do entendimento dos fe-
nômenos naturais, estudos acurados indicam o
aquecimento global. Para tanto, existem incon-
táveis organizações internacionais que já insti-
tucionalizaram a questão das mudanças climá-
ticas nos seus trabalhos. As políticas ambientais
devem considerar a abordagem internacional,
nacional e até local. Esta abordagem permite
analisar as relações entre políticas locais e glo-
bais em termos de complementaridade e articu-
lação. Diante do cenário caótico desencadeado
pelo Ciclone Idai, o sítio urbano de Beira, em
Moçambique revela claramente relações de po-
der econômico desiguais. Segundo Harvey, “[n]
ão só os ricos ocupam nichos privilegiados no
habitat, enquanto os pobres tendem a trabalhar
e viver nas áreas mais tóxicas ou perigosas, mas
o mesmo desenho do ecossistema transformado
é uma reminiscência de suas relações sociais.
(HARVEY, 2018, p. 241)
A articulação de políticas ambientais
dentro de um país, entre países e a nível global
ainda constitui um desafio. Entretanto, alguns
eventos internacionais têm apontado para essa
direção, isto é, a necessidade de articulação
das políticas ambientais a partir das perspeti-
Figura 2 - Localização de Beira - Moçambique
Fonte: Elaborado pelos autores (2019)
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vas locais e globais reconhecendo o fato de que
governos diferentes apresentarem diferentes
necessidades, interesses e preferências. Assim,
remete-se às abordagens inerentes as lacunas
vigentes em securitização. De acordo com Bar-
bosa e Souza:
[a] visão tradicional da segurança ambien-
tal é orientada tanto pela ideia de escassez,
quanto pela noção de abundância de recursos
naturais. Esta perspetiva, comumente deno-
minada de “conflito ambiental”, norteia-se
pelos pressupostos tradicionais de segurança,
segundo os quais a soberania e integrida-
de territorial do Estado são o epicentro das
preocupações com segurança. (BARBOSA;
SOUZA, 2010, p. 128)
Por um lado, as imagens veiculadas atra-
vés dos satélites e outros meios de comunica-
ção acerca do ciclone Idai, mostram padrões
de construções fruto da moderna arquitetura;
por outro, o cenário de destruição evidencia
moradias aquém das normas técnicas necessá-
rias para segurança humana. Inegavelmente,
em ambos os casos o ciclone Idai deixou ras-
tros agressivos na paisagem urbana. Ao consi-
derar a província de Sofala, a cidade da Beira
destaca-se enquanto segundo centro nevrálgi-
co regional, ficando atrás apenas de Maputo.
O corredor de exportação da Beira constitui
via de escoamento dos produtos da Tanzânia,
República Democrática do Congo, Malawi,
Zâmbia, Zimbabwe, Botsuana e Angola atra-
vés do Oceano Índico. Dentre os produtos que
figuram na pauta de exportação regional, des-
tacam-se o tabaco, chá, açúcar, algodão, caju,
camarão, alumínio, gergelim, carvão mineral,
zinco, cobre, níquel e diamante dentro outros.
Neste aspeto, a ocorrência de ciclones e inun-
dações corrobora em implicações econômicos e
sociais, visto que o ciclone Idai comprometeu
a rugosidade dos fluxos comerciais em função
da intransitabilidade das rodovias. Ademais o
poder devastador dos ciclones tropicais reper-
cute nos preços das mercadorias, bem como os
custos operacionais afetando economias destes
países e, consequentemente o comércio inter-
nacional.
A figura 3 abrange a cidade da Beira e os
distritos de Dondo, Nhamatanda de Buzi in-
tegram a região de ocorrência das inundações.
Já a figura 4 trata as regiões da ocorrência de
ciclones.
Nas palavras de Ayoade (2012, p. 112) “os
ciclones tropicais nunca se originam sobre su-
perfícies terrestres. De fato, eles enfraquecem
quando se movimentam sobre o continente e
sobre superfícies aquáticas frias. Eles se formam
sobre todos os oceanos tropicais, exceto sobre
o Atlântico Sul”. No caso da costa de Moçam-
bique, a análise dos componentes atmosféricos
revela a recorrência de ventos ciclonais, em
interação com os sistemas oceano-atmosféricos.
Ao considerar escala temporal e espacial,
com uso de procedimentos meteorológicos
mais refinados vem reconhecer as mudanças
barométricas consideráveis capazes de deslocar
ventos nas mudanças de estações do ano.
Não é raro, identificar fatídicas inundações
na cidade da Beira ou distritos como Buzi, vis-
to que ocupações humanas tendem a aglomerar
nas imediações dos canais fluviais. Nestes es-
paços, o direito à moradia encontra-se negado
historicamente as populações de menor renda
em Moçambique, sobretudo aquelas oriundas
do espaço rural. Trazer à tona a questão da mo-
radia não se resume em assegurar a habitabi-
lidade em qualquer condição, mas prezar pelo
princípio do acesso a infraestrutura e aos equi-
pamentos urbanos. Na perspetiva de Lefebvre:
[p]or assim dizer, o direito à moradia aflora
na consciência social. Ele se faz reconhecer
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Figura 3 - Áreas com frequência de inundações
Fonte: Elaborado pelos autores (2019)
de fato na indignação provocada pelos casos
dramáticos, no descontentamento engendra-
do pela crise. Entretanto, não é reconhecido
formal e praticamente, a não ser como um
apêndice dos “direitos do homem” (LEFEB-
VRE, 2001, p. 19).
O espaço urbano tem se mostrado com
um ordenamento territorial assimétrico no to-
cante a ocupação do solo. A lógica do mercado
impera desrespeitando o princípio do direito
à moradia. É preciso pensar estratégias de uso
e a ocupação do solo, uma vez que no espaço
urbano há contradições marcantes, fruto da ur-
banização acelerada e concentração de renda. A
ocupação gradativa de áreas potenciais de risco
revela lacunas reinantes na arquitetura da ma-
lha urbana, sendo ela erguida nas imediações
do leito maior dos canais fluviais. Outrossim,
cabe estabelecer comparações entre as figuras
5 e 6 na perspetiva de pensar sobre os desdo-
bramentos internacionais decorrentes do ciclo-
ne Idai, visto que Beira representa rota portuá-
ria estratégica para nações africanas.
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Figura 4 - Áreas com frequência de ciclones no mundo
Fonte: Elaborado pelos autores (2019)
As bacias hidrográficas, de acordo com
Cunha e Guerra (2017, p. 353), “(...) integram
uma visão conjunta de comportamento das
condições naturais e das atividades humanas
nela desenvolvidas uma vez que, as mudanças
significativas em qualquer dessas unidades po-
dem gerar alterações, efeitos e/ou impactos a
jusante (...)”. Ao analisar a rede de drenagem
da área suscetível as inundações, torna-se no-
tória a bacia do Zambeze em virtude da maior
extensão e complexidade dos tributários. No
caso a bacia do Púngoe região fortemente im-
pactada pelas inundações do ciclone Idai, en-
contra-se ao sudoeste do Zambeze e desemboca
em estuário na cidade de Beira.
A drenagem regional aliada as chuvas tor-
renciais, ventos fortes típicos do clima tropical
oceânico implicam na vulnerabilidade ambien-
tal. Conforme Conti (1998, p. 44) “o sistema
de canais frequentemente entra em colapso,
ocorrendo transbordamento e enchentes, se-
guidos de surtos de doenças. Nas grandes cida-
des situadas nas latitudes tropicais, o fenômeno
transforma-se em calamidade em virtude da
maior violência das chuvas”. Decerto, situações
de calamidade evidenciadas com a passagem do
ciclone tropical Idai, no Sudeste da África de-
manda estudos específicos.
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Figura 5 - Hidrografia de Moçambique
Fonte: Elaborado pelos autores (2019)
Neste caso, eventos atmosféricos capazes
de impactar a economia, a organização social, a
saúde, o ambiente, a cultura, revelam a vulne-
rabilidade das sociedades humanas e a escassez
ações preventivas no tocante aos impactos at-
mosféricos no âmbito internacional.
Discussão
Deste modo, o presente estudo procura
trazer proposições naquilo que são as linhas de
orientações passíveis de convergir em algumas
ações contributivas. No esforço de preparar po-
pulações suscetíveis as inundações e ciclones, é
preciso discutir ações orientadas de acordo com
os seguintes pontos:
Riscos
Os riscos devem ser analisados sob ponto
de vista de segurança, saúde e meio ambiente
ou ecologia. É importante nesta análise desta-
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Figura 6 - Altimetria de Moçambique
Fonte: Elaborado pelos autores (2019)
car a frequência, a magnitude e as característi-
cas gerais do risco. De acordo com Gonçalves:
o risco, ou seja, a possibilidade de ocorrên-
cia do fenômeno, está ligada a capacidade
de determinada sociedade prever um even-
to natural cíclicos de a ele se ajustar-se, em
função do conhecimento de seus parâmetros:
frequência, intensidade, duração, recorrência
etc.; uma vez que os eventos extremos podem
ser atenuados, controlados, mas dificilmente
evitados. (GONÇALVES, 2003, p. 75).
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Ao se fazer esta análise podem ser tomadas
as seguintes medidas:
Evitar o risco: retirar as populações das
zonas propensas a inundações ou ciclo-
nes e ao mesmo tempo impedir que as
populações se instalem nessas zonas.
Aceitar risco: neste caso mantendo-se as
populações em zonas de risco, deve-se
fazer uma monitoria do nível do risco de
uma forma permanente traçando medi-
das de minimização dos efeitos nefastos
através de planos de contingência. O
plano de contingência deve ter em conta
os riscos biológicos e físicos. Os riscos
biológicos estão relacionados com a flo-
ra onde podemos observar, por exemplo,
doenças como malária e cólera, que são
as mais frequentes quando ocorrem es-
tes desastres naturais. Os riscos físicos
têm a ver com a poluição das águas, por
exemplo. Estas decisões devem ser toma-
das tendo em conta o grau do risco. Os
graus podem ser catastróficos, grave, sig-
nificativo, leve e inexpressivo. As autori-
dades governamentais devem fazer uma
avaliação da capacidade, investimento,
questões sociais, ecológicas entre outros
para tomar estas decisões. Na conceção
de Rosa (2003),
[o] conhecimento atualizado da distribuição
e da área ocupada pela agricultura, vegetação
natural, áreas urbanas e edificadas, bem como
informações sobre as proporções de suas mu-
danças, se tornam cada vez mais necessárias aos
legisladores e planejadores, seja ao nível de go-
verno federal, estadual ou municipal, para per-
mitir a elaboração da melhor política de uso e
ocupação do solo. (ROSA, 2003, p. 149).
Nas áreas suscetíveis ao risco, o empre-
go da análise espacial viabiliza a identificação,
mapeamento, divulgação dos dados obtidos
através das geotecnologias. Neste caso, cabe-
rá à gestão pública traçar estratégias que vão
desde a criação de setor mais apropriado para
implantação de habitações seguras até promo-
ção de espaços com menor ocorrência de riscos
inundações. Em condições normais, a decisão
de manutenção das populações é aconselhada
quando o risco é leve ou inesperado.
Quando o grau do risco torna-se catastró-
fico, grave e significativo a retirada das popula-
ções é recomendável, embora aqui deve-se frisar
a dificuldade clara de se retirar população da ca-
pital da província de Sofala, no caso da cidade
mais atingida pelos ciclones tropicais e inunda-
ções. Então deve-se avaliar outro tipo de ações.
Vulnerabilidade
Deve-se pensar em novos modelos de
construções com infraestrutura pública e pri-
vada resistentes aos vendavais, e ainda um mo-
delo de urbanização criterioso com as questões
ambientais reduzindo ocupações em áreas
propensas às inundações.
Por outro lado, deve ser feito um investi-
mento em sistemas de alerta, planos de educa-
ção das populações para tomadas de decisões
em casos de desastres naturais, investimento em
vias vicinais aptas ao acesso alternativo, vias de
escoamento das populações, sistemas de abaste-
cimento de água e energia alternativos, sistemas
de telecomunicação alternativos. Deve-se fazer
um investimento em instituições que lidam
com desastres naturais equipando-as e criando
outros órgãos competentes de acordo com as es-
pecificidades necessárias. Como lembra Spring
(2016, p. 34) deve-se considerar a alocação de
fundos para adaptação e mitigação dos efeitos
das mudanças climáticas de acordo com o índi-
ce de vulnerabilidade de cada país, uma vez que
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políticas globais de mitigação podem mudar a
direção, rumo a uma transição sustentável.
Resiliência
Cabe mencionar que, há premência na
criação de plataformas de diálogo com popu-
lações e diferentes atores da sociedade, onde os
mesmos devem ser inquiridos no tocante aos
impactos ambientais na cidade da Beira, e, so-
bretudo, na área atingida pelos ciclones da bacia
do rio Púngoe. Desse modo, vislumbra-se en-
contrar soluções a curto, médio e longo prazo.
A abordagem sobre desastres naturais na cidade
da Beira e bacia do rio Púngoe deve ter vários
atores, cada um deles tem a sua responsabilidade
face a situação de vulnerabilidade socioambien-
tal. O governo deve criar, equipar e capacitar
as instituições, e, essas por sua vez, devem lidar
com o problema de desastres naturais, a partir
da prevenção até a mitigação dos impactos.
Por outro lado, as Organizações Não
Governamentais (ONGs), setor privado, doa-
dores, associações e a academia podem tomar
parte deste processo através de elaboração de
projetos, troca de experiências, monitoramen-
to, avaliação do risco ambiental, sensibilização
das populações, criação e construção de bairros
resilientes a desastres naturais, introdução nos
currículos matérias referentes a desastres natu-
rais, investigação dos fenômenos de desastres
naturais procurando trazer soluções possíveis.
Metodologia
O presente estudo aborda as três etapas
principais, a exploratória, a fase de coleta de
dados e a fase de análise sistemática dos mes-
mos. A fase exploratória está calcada na revisão
bibliográfica relativa a vertentes convergentes
de interesse: processo de urbanização na cidade
da Beira, com especial com a drenagem do rio
Púngoe, bem como fatores climáticos regio-
nais, a organização do espaço urbano e a tênue
relação natureza e sociedade sob a perspetiva
do sistema atmosférico atuante e a ocupação
desordenada do espaço. A segunda etapa, trata
da coleta de dados, sendo eles sistematizados
por meio de mapeamento do recorte espacial
com uso de técnicas do geoprocessamento do
ARGIS 10.4. Na terceira etapa, resulta na abor-
dagem sistematizada das implicações socio am-
bientais que subjazem nas sociedades atingidas.
Resultados
Tendo em conta os aspetos socio ambien-
tais existentes na cidade da Beira em particular
na bacia do rio Púngoe notam-se elementos de
extrema vulnerabilidade. De um lado a geo-
morfologia e do outro a localização geográfica
que não jogam a favor. Trata-se de uma área
propensa a inundações e a ciclones, isto é, mes-
mo não ocorrendo ciclones as inundações cons-
tituem uma grande ameaça de escala regional.
Tais condições corroboram para investigações
acuradas entre as condições atmosféricas obser-
vadas em cidades de baixas latitudes na costa
leste africana.
Trata-se de uma zona plana e onde desa-
gua o principal rio da zona central do país. As
chuvas que caem nos países vizinhos a mon-
tante fazem com que o nível das águas do rio
Púngoe eleve e, existindo assim, uma constante
ameaça de inundações. O presente estudo pro-
cura trazer de uma forma resumida a discus-
são do problema do ponto de vista dos riscos
ambientais. O meio ambiente, para efeitos do
presente estudo pode ser explicado como tudo
aquilo que cerca o ser vivo, incluindo a sua
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sustentação, meio sociocultural, a relação do
homem e a natureza tanto como a influência
exercida pelo homem na natureza.
Deste modo, entende-se que existe uma
necessidade de se fazer uma reflexão sobre o
modelo de sociedade que esteja preparada para
fazer frente aos riscos ambientais advindos dos
desastres naturais como é o caso das inundações
e ciclones. Para isso, tomando a cidade da Beira
e a bacia do rio Púngoe como estudos de caso a
reflexão em questão pode ser feita sob ponto de
vista dos seguintes cenários constatados:
a) Suscetibilidade: dois fatores tornam a
Beira e toda a bacia do rio Púngoe uma zona sus-
cetível a ocorrência de ciclones e inundações. O
primeiro fator é a sua localização (zona de ocor-
rência de ciclones tropicais). O segundo fator está
relacionado com a geomorfologia (uma região
planícies próximo ao estuário do rio Púngoe).
b) Risco: nos últimos anos os fenômenos
de inundações têm ocorrido com maior fre-
quência tanto como o fenômeno de ciclones
embora alguns casos com menor intensidade.
Isso torna o risco ainda maior.
c) Vulnerabilidade: Para Veyret e Riche-
mond (2007 p. 40) “a vulnerabilidade coloca
em jogo aspetos físicos, ambientais, técnicos
dados econômicos, psicológicos, sociais e
políticos. Ela não pode ser definida com
simples dados científicos ou técnicos”. Mo-
çambique é um dos dez países mais pobres do
mundo. É possível identificar o modelo de ur-
banização desordenada, falta de qualidade na
infraestrutura pública e privada, habitações
inseguras devido ao escasso poder econômico
de grande parte da população. Cabe ressaltar,
a inexistência de planos de ordenamento terri-
torial acompanhados de estudos mais aprofun-
dados no que tange populações instaladas em
zonas propensas a inundações. Por outro lado,
nota-se a falta ou deficiência de instituições
que devem responder às questões dos desastres
naturais. Não se conhece um plano de urbani-
zação desenhado para fazer frente aos eventos
catastróficos. Neste cenário, pode-se perceber
a situação da cidade da Beira enquanto cidade
altamente vulnerável aos desastres ambientais.
d) Resiliência: O ciclone Idai iniciou sua
trajetória no dia 11 de março de 2019 na ci-
dade da Beira, região central de Moçambi-
que, atingiu também no seu percurso países
vizinhos, sendo eles: Zimbabwe e Malawi. No
entanto, na cidade da Beira, ficou evidente a
fragilidade no processo reação ao evento. Re-
ceia-se que uma parcela considerável das perdas
humanas esteja vinculada à capacidade de res-
posta perante ao desastre ambiental. A escassez
de treinamento às situações de risco, tornou-
-se exposta mediante populações desalentadas
por dias penduradas em árvores desprovidas do
acesso a água. O resgate das populações ocorreu
em grande parte com a ajuda de outros países.
Notou-se a falta de meios de resgate, problemas
com fornecimento de energia, água e falta de
comunicação com as zonas afetadas. Em termos
de fornecimento de água, energia, telecomuni-
cações constatou-se uma falta de mecanismos
alternativos. Perante esse cenário, pode-se afir-
mar que a cidade da Beira não está preparada
para reagir a eventos como inundações e ciclo-
nes de modo a minimizar os efeitos negativos.
O ciclone Idai obriga-nos a fazer uma re-
flexão profunda em relação ao fenômeno das
inundações e dos ciclones, uma vez que ten-
dem a ser cíclicos. Esta reflexão deve envolver
governos, parceiros, sociedade civil, ONGs,
instituições religiosas e a academia com vista a
reduzir a vulnerabilidade das populações e tor-
nar a cidade mais resiliente aos fenômenos de
ciclones e inundações.
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Considerações finais
À luz de tais considerações, nota-se
avanços significativos no tocante ao contato de
Moçambique com as nações parceiras. Os dados
atmosféricos obtidos a partir das imagens de sa-
télites serão de grande importância no contexto
presente e futuro. Contudo, não é suficiente co-
nhecer a trajetória dos ciclones tropicais, cate-
gorizar o poder destrutivo dos mesmos, antever
a duração do fenômeno em questão, quando se
refuta em Moçambique os planos de contingên-
cia. De fato, pesquisas e estudos concernentes
a vulnerabilidade socioambiental, reportam as
geotecnologias já que estas evidenciam fenôme-
nos até então difíceis de serem espacializados.
O entrelaçamento de Moçambique e a
importância de Beira no contexto regional com
outras nações, coloca o fenômeno em conver-
gência com a agenda africana para resolução de
problemas.
Fica claro que os estudos acurados dos
riscos ambientais ampliam quantitativa e qua-
litativamente a disponibilidade de dados e in-
formações aos segmentos públicos e privados.
Cabe mencionar que, traçar estratégias de aná-
lise à mitigação socioambiental torna-se basilar,
sobretudo ao se considerar estruturas habita-
cionais precárias, relacionados com ambientes
caracterizados pela fragilidade econômica e es-
cassez de serviços públicos de qualidade.
Mediante a configuração territorial em
Beira, a significativa concentração urbana em
espaços desvalorizados é em muitos casos, a
maior representatividade das populações mais
atingidas. Somados a esses quesitos, pode se
constatar a escassez de políticas públicas volta-
das ao enfrentamento dos riscos socioambien-
tais. Neste caso, em Moçambique, subjazem as
concepções das sociedades resilientes aos riscos
ambientais. É imperativo ofertar condições
dignas de habitabilidade, bem como reduzir a
distância entre o acesso à informação e a ado-
ção de medidas preventivas.
Diante do exposto, pode-se inferir que a
passagem do ciclone Idai na cidade de Beira tor-
nou evidente a vulnerabilidade socio ambiental
no país em função das inundações, perdas hu-
manas, desorganização do espaço urbano, inci-
dência de cólera. Tratar o fenômeno ocorrido
como variável pertinente a dinâmica da circu-
lação da atmosfera implica em negligenciar ou-
tras interpretações ao risco ambiental. Todavia,
estudos como este propõem analisar de modo
coletivo a vulnerabilidade socio ambiental, seja
ela, de modo local ou regional e, assim apontar
contribuições na inesgotável discussão sobre
riscos, fragilidades, suscetibilidade na África
tropical sob a ótica da prevenção.
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