61 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.2, p.61 - 63, ago. 2020
Resenha: livro Novos caminhos para a
construção da paz
Áureo de Toledo Gomes
1
Julia Facchini
2
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2020v17n2p61
Recebido em: 07 de dezembro de 2019
Aceito em: 04 de maio de 2020
1 Professor Adjunto IV do Instituto de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia, atuando na
graduação e na pós-graduação em Relações Internacionais. Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (2012)
e estágio pós-doutoral pela e University of Manchester, Humanitarian and Conflict Response Institute (2014-2015). É at-
ualmente Visiting Scholar na George Mason University, School for Conflict Analysis and Resolution, financiado pela Comissão
Fulbright. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6083-0562. Contato: aureotoledo@ufu.br.
2 Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2347-3700.
Contato: juliafacchini9@gmail.com.
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ISSN 1809-6182, v.17 n.2, p.61 - 63, ago. 2020
Reclaiming Everyday Peace é a tentativa
mais sistematizada de apresentar conceitual e
empiricamente o projeto dos Everyday Peace In-
dicators, que busca construir indicadores de paz
e conflito a partir da população local. Dividido
em duas partes, o livro de Pamina Firchow ora
resenhado desenvolve seu argumento discutin-
do os fundamentos teóricos e epistemológicos
dos Everyday Peace Indicators (parte 1) para, em
seguida, apresentar a utilização dos mesmos nas
comunidades de Odek e Atiak, Uganda, e El
Salado e Don Gabriel, Colômbia (parte 2).
Conceitualmente, o livro não apresenta
novidades ao debate, já que Firchow está ali-
nhada com as ideias da literatura sobre a Vi-
rada Local. Nesse sentido, a dimensão local
deve ser inserida, segundo a autora, devido a
três motivos principais. Primeiramente, incluir
as comunidades para que elas próprias definam
paz ajuda na determinação dos objetivos dos
projetos de peacebuilding. Em segundo lugar, a
população local é detentora de conhecimentos
que pessoas de fora da comunidade não tem,
sobretudo sobre tradições, práticas e dinâmicas
que podem ajudar na construção da paz. Por
fim, a construção de definições e indicadores
deve ser priorizada para a efetividade dos esfor-
ços da construção da paz.
A principal inovação teórica do trabalho é
a distinção entre Big-P peacebuilding e small-p
peacebuilding. Segundo ela, Big-P peacebuilding
faz referência aos esforços da comunidade in-
ternacional para transformar países saídos de
conflitos informados teórica e politicamente
pela paz liberal. O foco desses esforços recai
sobre elementos técnicos e estruturais, como
segurança, governança, Estado de Direito e
promoção democrática. Por outra perspectiva,
small-p peacebuilding centra-se na capacidade
de agência e transformação/construção de re-
lacionamentos. O pressuposto é que a cons-
trução e transformação de relacionamentos é
constitutiva para a realização de esforços estru-
turais como acordos de paz, por exemplo.
Resenha
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A construção dos indicadores inicia-se
com a formação de um grupo focal. Todavia,
ao invés utilizar o grupo focal apenas para cons-
truir questionários que posteriormente seriam
submetidos para os participantes, Firchow leva
este procedimento metodológico além. A au-
tora faz com que tais grupos se tornem o fó-
rum no qual membros das comunidades criem
e selecionem os indicadores que servirão de
base para os questionários. Em cada uma das
quatro comunidades, três grupos focais foram
constituídos, com uma composição de oito a
doze participantes cada um. Ademais, para a
escolha dos participantes, os critérios selecio-
nados vinham da demografia da comunidade,
envolvendo etnicidade, status socioeconômico,
papeis de liderança e gênero.
Os indicadores construídos para comuni-
dades sob análise foram divididos nas seguintes
categorias: economia; infraestrutura; saúde;
educação; alimentação e agricultura; liberdade;
segurança diária; coesão e interdependência; re-
solução de conflitos; liderança; discriminação;
justiça de transição e direitos humanos; e ati-
vidades sociais rotineiras. Tais categorias eram
comuns para todas as comunidades, porém os
indicadores específicos variavam conforme a
comunidade, posto que foram construídos por
cada uma delas. Nesse sentido, para Atiak fo-
ram construídos 13 indicadores; para Odek,
14; Don Gabriel, 21; e El Salado, 20. Aqui, de-
stacaríamos, por exemplo, os seguintes: people
dig in their gardens (comum a Atiak e Odek);
people are able to participate in traditional festi-
vals, rituals and cultural practices (Odek); ability
to study (Don Gabriel); e income opportunities
to women (El Salado).
Cumprida essa etapa de elaboração, os
questionários foram aplicados às comunidades.
Além das perguntas sobre os indicadores, res-
pondentes eram perguntados sobre índices de
educação, localização dentro das comunidades,
gênero, identidade étnica, entre outros. Ao to-
tal, foram conduzidos 2.038 surveys para todo
o livro. Em El Salado e Don Gabriel, Colôm-
bia, foram conduzidos 1.230, enquanto 808
foram realizados em Atiak e Odek, Uganda.
Um primeiro achado relevante da pesqui-
sa é que comunidades com altos níveis de in-
tervenção priorizam indicadores relacionados a
questões sociais, como resolução de conflitos e
reconciliação. Um segundo importante achado
é que localidades com mais intervenção relatam
maiores níveis de desenvolvimento em compa-
ração às comunidades com menos intervenção.
Todavia, ainda que apresentem mais desenvol-
vimento, relatam maiores níveis de inseguran-
ça. Logo, temos uma situação em que interven-
ções centradas em projetos de desenvolvimento
são efetivas, porém podem vir com o custo de
um nível mais alto de insegurança. Em contra-
partida, comunidades com pouca intervenção
externa percebem mais segurança do que co-
munidades com muita intervenção.
Em linha semelhante ao achado anterior,
outro resultado relevante é que localidades sa-
turadas com altos níveis de intervenção não
apresentam necessariamente altos níveis de paz
de acordo com os indicadores selecionados.
Isto aponta para a disparidade existente entre o
que as comunidades querem e priorizam quan-
do definem paz e o que as intervenções externas
priorizam em seus projetos de peacebuilding.
Quais os impactos dos achados específicos
do estudo para o debate acadêmico e político
mais amplo sobre peacebuilding? Em primeiro
lugar, Firchow argumenta que quando houver
um aumento na ajuda externa e no número de
pessoas em uma determinada intervenção, se-
ria importante que tais ações fossem acompa-
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nhadas de programas de small-p peacebuilding,
pensados para atender as necessidades de coe-
são social e relacionamento das comunidades.
Em segundo lugar, há de se destacar que paz no
nível local é multidimensional, dependente do
contexto e dinâmica.
A despeito de determinadas questões em
aberto – por exemplo, não se engajar com os
críticos e tampouco repensar as premissas teóri-
cas da Virada Local à luz de seus achados, assim
como fazer uma apresentação apenas sumária
dos estudos de caso - , o livro de Firchow pres-
ta-se como uma importante contribuição para
a literatura que destaca a importância da di-
mensão local para a construção da paz.
Referência
FIRCHOW, Pamina. Reclaiming Everyday Peace: local voices
in measurement and evaluation after war. Cambridge: Cam-
bridge University Press, 2018, 206 p. ISBN: 978-1108402767.