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Das opiniões publicadas para as opiniões
postadas: os atalhos informativos e a
internet nos temas internacionais
From Printed to Posted Opinions: e Informational Shortcuts and the Internet on
International Issues
De las opiniones impresas a las publicaciones en internet: los atajos informativos y el uso
de las redes sociales en los asuntos internacionales
Jonatas Torresan Marcelino
1
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2020v17n2p20
Recebido em: 04 de março de 2020
Aceito em: 10 de agosto de 2020
Resumo
O artigo tem o objetivo de debater os efeitos das redes sociais e da internet nas
capacidades informacionais da opinião pública e na conjuntura internacional. Será
contextualizada a literatura referente aos atalhos cognitivos e capacidades informativas
da opinião pública e como esses conceitos podem ser influenciados pela conjuntura
contemporânea de crises globais.
Palavras-chave: Redes Sociais. Atalhos Informativos. Relações Internacionais.
Abstract
e paper aims to explore effects of the internet and social network on informational
capabilities of public opinion and on the international stage. e references discussed are
focused on cognitive shortcuts and informational capabilities, taking into account how
these concepts can be influenced by the current global crisis.
Keywords: Social Networks. Informational Shortcuts. International Relations.
Resumen
Este artículo discutirá los efectos de las redes sociales en las capacidades informacionales de
la opinión pública y en la situación internacional. Se analizará la literatura relacionada a
los atajos cognitivos y capacidades informativas de la opinión pública y cómo estos concep-
tos pueden ser influenciados por el contexto de crisis globales contemporáneas.
Palabras clave: Redes Sociales. Atajos Informativos. Relaciones Internacionales.
1 Jonatas Torresan Marcelino é Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo (USP), Mestre em Relações
Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Bacharel em Comunicação Social (Habilitação em Jorna-
lismo) pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Reside em São Paulo (SP), Brasil. Sua agenda de pesquisa está centrada na
interação entre redes sociais, imprensa e relações internacionais. ORCID: 0000-0002-1943-2933.
Artigo
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A capacidade informacional da opinião
pública
2
sobre temas internacionais é um pro-
blema central para a compreensão do ambiente
no qual a política externa é desenvolvida. Zal-
ler (2003) afirma que as limitações presentes na
decodificação de assuntos políticos complexos
para o cidadão comum são um consenso tanto
na Psicologia quanto nas literaturas de Ciências
Econômica e Política. Nesse sentido, Baum e
Potter (2008) identificam uma linha comum
entre as principais investigações em opinião
pública e política externa: a desvantagem infor-
macional dos públicos na comparação com as
elites da comunidade de política externa é par-
cialmente compensada pelos atalhos cognitivos
(heuristic cues
3
, no termo original), auxiliares
na compreensão de informações complexas do
campo internacional.
De acordo com Popkin (1994), a raciona-
lidade presente na informação escassa sobre te-
mas políticos segue uma lógica de combinação
de aprendizado e informações de experiências
passadas, cotidiano, mídias e campanhas polí-
ticas. No processo de comportamento eleitoral
abordado pelo cientista político, ele afirma que
o uso dos atalhos cognitivos informativos (in-
formational shortcuts, no termo original) tem
o objetivo de obter, simplificar e avaliar as in-
formações políticas disponibilizadas na mídia,
que são trianguladas nas conversas em relacio-
namentos de confiança e de figuras políticas já
2 Opinião pública é um conceito difundido originalmente
por Walter Lippman (1965), que afirma que as imagens de si
e dos outros, em combinação com suas demandas, propósi-
tos e relacionamentos, constituem as suas opiniões públicas.
Key (1961), por sua vez, sustenta que a opinião pública é
constituída pelas opiniões individuais de pessoas físicas, as
quais os governos creem ser prudente levar em consideração.
3 Baum e Potter (2008) definem heuristic cues como a capa-
cidade do cidadão comum de analisar o ambiente político
racionalmente com baixos volumes de informação.
conhecidas pelo eleitor. Os atalhos cognitivos
informativos são, portanto, os caminhos utili-
zados pelo público para decodificar os assun-
tos políticos complexos, com as finalidades de
tomar decisões eleitorais e elaborar posiciona-
mentos sobre temas sofisticados, de política
doméstica ou internacional.
Powlick e Katz (1998) sustentam que a
aquisição de informação factual é custosa, de
forma que o público geral considera “irracio-
nal” construir um posicionamento político
sofisticado sobre notícias externas remotas de
seu cotidiano. Os autores salientam ainda que
a construção de posicionamentos sobre temas
internacionais e de política externa é dificul-
tada pela ausência de contato pessoal com es-
trangeiros, inclusive em países desenvolvidos
e multiculturais. Para Schmitt-Beck (2003), o
alto custo de participação para a informação
política também envolve variáveis como renda,
tempo, motivação e autoconfiança no uso de
atalhos cognitivos informativos mais sofistica-
dos para a decodificação de assuntos políticos
complexos. A partir da criação das redes so-
ciais, esse cenário de desvantagem informacio-
nal entre elites e públicos pode ter sido afetado
pela maior oferta e menor custo de informação.
Neuman et al (1992) afirmam que a co-
nexão de cidadãos comuns com temas políticos
domésticos e externos - via atalhos cognitivos
informativos - ocorre de forma a interromper
os acontecimentos de seu mundo privado, sen-
do, portanto, acidental, improvisada e desor-
ganizada. Com a crescente dependência das
mídias nas sociedades urbano-industriais desde
os anos 1980, esse processo de interrupção se
se aprofundou ainda mais posteriormente. As
redes sociais, acessadas hoje com mais frequên-
cia do que os meios de comunicação offline dos
anos 1980, tornaram esse cenário percebido
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no final dos anos 2000 ainda mais complexo.
Sobretudo, porque as interrupções midiáticas
passam a ser cada vez mais frequentes a partir
dos smartphones e das redes sociais.
A definição de quais são os atalhos prefe-
renciais dos públicos é objeto de debate na lite-
ratura, que apontam um, dois ou mais atalhos
principais para acessar os temas externos:
Posicionamentos de políticos prefe-
renciais - Berinsky (2007) afirma que,
na ausência de conhecimento sobre te-
mas externos, os eleitores emulam os
posicionamentos de seus políticos prefe-
renciais como atalhos para temas inter-
nacionais, delegando aos representantes
a tarefa de encontrar um posicionamen-
to sobre temas que lhes são estranhos.
Essa estratégia permite aos eleitores to-
mar decisões racionais e coerentes sobre
temas distantes e complexos. Berinsky
(2007) afirma ainda que, na medida
em que o nível de informação política
é ampliado, os eleitores conseguem dis-
tinguir com mais clareza os posiciona-
mentos conflitantes intra elites.
Políticos preferenciais e notícias -
Utilizando um modelo de comunica-
ção considerando as vias entre elites,
grupos de interesse, políticos eleitos e a
opinião pública, Powlick (1995) afirma
que políticos e notícias na imprensa são
vias mais utilizadas na compreensão de
temas internacionais quando compara-
dos a elites e grupos de interesse.
Preferências partidárias, notícias
e discurso das elites - Aldrich et al
(2006) sustentam que, no caso especí-
fico de atalhos cognitivos para política
externa, as preferências partidárias, as
notícias e o discurso das elites são os
caminhos mais utilizados. Eles salien-
tam ainda que, na média, os cidadãos
desinformados têm a capacidade de
tomar decisões políticas similares aos
muito informados. Aldrich et al (1989)
também afirmam que, apesar de infor-
mações políticas escassas, os eleitores
também têm a capacidade de diferen-
ciar programas de política externa entre
os candidatos por meio de seus atalhos
cognitivos, e que essa diferenciação in-
fluencia na sua escolha de votos.
Valores – Powlick e Katz (1998) afir-
mam que o público utiliza seus valores
mais importantes como atalhos cogniti-
vos para a formação de posicionamen-
tos em questões (issues) internacionais
A difusão da internet entre a sociedade
civil nos anos 1990 e 2000 trouxe três novos
fatores de relevo para esse debate. Em primei-
ro lugar, a disponibilidade de mais informação
alterou a forma como os temas internacionais
são cobertos pela imprensa. Baum (2003) sus-
tenta que as hard news internacionais foram
paulatinamente adaptadas para soft news, para
que pudessem se encaixar melhor em talk-sho-
ws e telejornais, em uma mescla de temas com-
plexos com entretenimento. De acordo com
o autor, esse movimento nos Estados Unidos
permaneceu mesmo após os atentados de 11 de
setembro de 2001.
O segundo ponto é a percepção de maior
complexidade
4
da opinião pública em re-
lação a temas externos, que tem um impor-
4 O imaginário de unidade da opinião pública tem raízes
históricas na própria atitude dos governos ao longo da Guer-
ra Fria. Cohen sinaliza que a burocracia da política externa
nos Estados Unidos considerava a imprensa como a fonte
primária da opinião pública e a utilizava como ferramenta
de mensuração dos humores da população para balizar a to-
mada de decisões de política externa (Cohen, 1963; 1995).
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tante marco em estudo conduzido por Risse-
-Kappen (1991). Investigando em perspectiva
comparada os comportamentos das opiniões
públicas dos Estados Unidos, Japão, Alema-
nha Ocidental e França em relação a União
Soviética, o autor divide a opinião pública en-
tre: (1) opinião pública de massa; (2) attentive
public, interessado em política de forma geral;
(3) issue public, interessado em temas espe-
cíficos. Em uma fase pré-difusão da internet
mas já na Revolução Informacional, o autor já
indica que uma elevada segmentação de inte-
resses não se dá somente nas elites, conforme
definido por Almond
5
na Guerra Fria, mas
também entre o público geral. Essa divisão se
aprofunda ainda mais adiante com a constru-
ção de comunidades digitais e clusters via re-
des sociais, que se constituem na prática como
redes de perfis e páginas de portes desiguais
entre diferentes países, que revelam interesses
desiguais em temas externos.
O terceiro ponto diz respeito aos efeitos das
mudanças tecnológicas provocadas pela internet
em relação às mídias offline. Segundo Livings-
ton e Bennett (2003), a chegada da internet
provocou um aumento do volume de cobertura
de notícias internacionais nas mídias, mas, por
outro lado, reforçou a autoridade das fontes de
informação governamentais em paralelo. No
entanto, esse reforço das fontes governamen-
tais se dá apenas na primeira fase da difusão da
internet para o público, até meados dos anos
2000, quando está datado o início da difusão
das grandes redes sociais conhecidas. Atualmen-
te, os governos e a própria imprensa constituem
dois entre muitos clusters de redes sociais nos
quais as informações políticas circulam.
5 Almond (1960) tipifica os públicos entre atentos e desaten-
tos. A classificação de Risse-Kappen (1991) eleva a comple-
xidade dessa tipificação a partir dos issues.
Ou seja, a lógica de reforço da autoridade
6
governamental nas coberturas em temas inter-
nacionais, sinalizada na Guerra Fria e continua-
da na primeira fase da internet, se dilui na me-
dida em que os governos e a imprensa não são
mais os atalhos cognitivos informativos prin-
cipais para a compreensão de temas externos,
mas as comunidades políticas e não-políticas
em redes sociais nas quais os cidadãos conecta-
dos estão inseridos. Portanto, as discordâncias
a respeito de temas políticos antes restritos às
elites transbordam para uma opinião pública
previamente segmentada em um sentido par-
tidário, mas que passa a ser dividida a partir de
um grande número de issues, materializados em
diferentes clusters nas redes sociais.
O uso da internet pela sociedade civil em
sua fase pré-redes sociais apresentava um otimis-
mo influenciado pelo final da Guerra Fria e pelo
auge da Globalização Liberal. Esse clima de oti-
mismo continuaria à época do nascimento das re-
des sociais. A ideia central era a de que a internet
seria um instrumento de aprofundamento da de-
mocracia liberal e de ampliação das liberdades ci-
vis por meio de novas ferramentas de deliberação.
Essa visão começa a mudar a partir dos
vazamentos de dados do governo dos Estados
Unidos (EUA) pelo Wikileaks (2010), que evi-
dencia que a internet também pode ser uma fer-
ramenta poderosa para questionar a atuação dos
Estados nos planos doméstico e internacional.
A percepção da internet como ferramenta po-
derosa é o combustível de revoltas urbanas tur-
binadas pelas redes sociais na década seguinte.
Os exemplos iniciais dessa nova visão da
internet vêm do Norte da África e do Oriente
Médio, onde ocorre a Primavera Árabe (2011),
6 Zaller e Chiu (2000) encontraram forte alinhamento entre
posicionamentos de diferentes governos dos EUA e das mídias
locais ao longo de 35 crises internacionais de 1945 a 1991.
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com destaques para a Tunísia e o Egito. Poste-
riormente, em 2013, o próprio Egito, a Tur-
quia e o Brasil são palco de mais revoltas em
grandes centros urbanos, com o denominador
comum das redes sociais como canalizadores
de organização e expressão desses movimentos.
Na Europa e nos Estados Unidos, as mani-
festações nas ruas passam a seguir essa lógica,
embora tenham impacto político-institucional
menos profundo na comparação com Egito,
Turquia e Brasil.
Essas transformações geram uma forte
reação dos governos com relação à internet e
às redes sociais no plano internacional. As rea-
ções, no caso de regimes não democráticos, se
dão pela tentativa de estabelecer limites no uso
e nos conteúdos compartilhados via censura de
redes sociais ou pela própria interrupção de ser-
viços de internet em situações pontuais - como
ao redor de locais de protestos.
No caso das democracias, as próprias
eleições presidenciais e parlamentares em di-
ferentes países ocidentais e latinos sinalizam
novos rumos para diferentes cenários nas res-
pectivas políticas domésticas, com implicações
na distribuição de preferências do eleitorado e
da composição das principais forças partidá-
rias nos parlamentos. Novas forças políticas,
não alinhadas aos partidos mais tradicionais e
centristas, ganham capilaridade rapidamente,
com fundamental importância de redes sociais
como Twitter e Facebook em suas estratégias
eleitorais.
Consequentemente, os partidos e campos
alvos dos protestos são enfraquecidos politica-
mente, durante e após os protestos, em dife-
rentes eleições. Além da piora do desempenho
eleitoral, os governos de regimes democráticos
têm mais restrições na implementação de me-
didas de contenção legais e de vigilância digital.
Essas restrições vêm da maior exposição das di-
ferentes instituições públicas nas redes sociais.
Com esses marcos, podemos identificar
quatro tendências de crises que se apresentam
na década de 2010: são as crises comunicacio-
nal, de convergência política, dos partidos po-
líticos e da democracia liberal.
A crise comunicacional se dá a partir do
advento da internet para a sociedade civil e das
redes sociais. Mudam tanto a comunicação en-
tre governo e cidadãos, quanto a comunicação
dos próprios cidadãos entre si. A internet e as
redes sociais são os ingredientes básicos de ou-
tras três crises intimamente relacionadas: con-
vergência política, partidos centristas tradicio-
nais e da própria democracia liberal.
Com relação à crise de convergência po-
lítica, Da Empoli (2019) sinaliza que a políti-
ca offline nas democracias liberais apresentava
uma tendência centrípeta. Para a criação de
um consenso majoritário, as mensagens polí-
ticas deveriam ser moderadas e segmentadas
a categorias identitárias mais amplas - como
sindicatos, estudantes, empresários. Essa di-
nâmica favorece em geral os candidatos e par-
tidos centristas.
O autor indica que a chegada da variá-
vel Big Data muda radicalmente esse cenário.
Em primeiro lugar, o Big Data torna possí-
vel a microssegmentação e a customização da
mensagem política de forma precisa e indivi-
dualizada. E, na era da política digital, o en-
gajamento se dá primariamente pelo compar-
tilhamento de conteúdos extremos e de forte
apelo emocional.
Na prática, o comportamento de candi-
datos competitivos eleitoralmente muda. An-
tes do Big Data, competitivos eram centristas
moderados e preparados” nos termos das de-
mocracias liberais. Com o Big Data, os candi-
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datos competitivos devem-se comportar como
pontos focais dos trending topics na política, se
possível provocando-os e manipulando-os em
benefício de seu espectro político. Ou seja, tra-
balhar as mensagens chave de seu espectro polí-
tico em coerência com os temas do dia. Então,
a crise de convergência política carrega a políti-
ca do centro para os extremos do espectro como
uma “força centrífuga” (DA EMPOLI, 2019).
Os principais perdedores nessa dinâmi-
ca centrífuga são os partidos centristas tradi-
cionais das democracias liberais. Eles perdem
poder conforme a política caminha para os ex-
tremos do espectro, reforçando o discurso de
deslegitimidade das elites, conceito que ganha
especial elasticidade nesse novo cenário. Essa
elasticidade se dá na medida em que a deslegi-
timidade das elites é trabalhada pelos partidos
antissistêmicos de forma a abarcar não somente
os próprios partidos centristas, mas segmentos
sociais considerados “elitistas”, como universi-
dades e o setor cultural.
Por fim, às três crises indicadas somam-se
à outra já em curso entre as democracias libe-
rais: a da queda de seus índices de confiança
como a melhor forma de governo existente. A
queda dos índices de confiança nas democra-
cias liberais atinge tanto as democracias mais
antigas (como, EUA, Reino Unido e França),
como as democracias da chamada “tercei-
ra onda” após os anos 1980 (América Latina,
Ásia e Leste Europeu), de acordo com dados
da World Value Survey analisados por Moisés
(2005) Cattenberg e Moreno (2005) e Moisés
e Carneiro (2008).
Na conjuntura das quatro crises, Susskind
(2018) sustenta que os “filtros informativos
se apoiam na confiança que o público deposi-
ta em terceiros para: (a) encontrar e reunir in-
formações; (b) escolher as relevantes de serem
documentadas; (c) decidir a profundidade de
contextualização e detalhamento necessária;
(d) compartilhar com os possíveis interessados.
Para o autor, os pressupostos deste trabalho
dirigido aos públicos interessados em notícias
são os de que as informações recebidas são ver-
dadeiras e hierarquizadas pela sua importância.
Essas funções eram dominadas pela imprensa
offline ao longo do Século XX, que dividia com
o Estado a função de ser a principal via para
que o público acessasse os distantes temas in-
ternacionais (SUSSKIND, 2018).
Susskind (2018) afirma ainda que, com as
redes sociais, o Estado tenta avançar novamen-
te em um território de construção da percepção
pública de terceiros. Esse trabalho era atribuído
a uma imprensa independente nas democracias
liberais e hoje é disputado abertamente pelos
agentes públicos - e também por outros atores,
como Estados estrangeiros - nas redes sociais. A
entrada do Estado como ator nas redes sociais
não se dá de forma espontânea e planejada: os
agentes públicos são sugados para essa dinâmi-
ca em virtude de crises sistêmicas, instrumen-
talizadas por atores externos para a sua desesta-
bilização por motivos diversos.
Em outras palavras, as dinâmicas de per-
cepção política pelo público para acessar temas
internacionais passam por uma profunda trans-
formação ao longo das duas primeiras décadas
deste século. Muitos alicerces da construção da
percepção política passam por rompimentos,
segundo Da Empoli (2019). Elencaremos bre-
vemente sete dessas quebras:
1. Quebra da intermediação informacio-
nal offline: As redes sociais demarcam
o fim da intermediação informacional
da imprensa offline em caráter de exclu-
sividade. Para se tornarem relevantes,
os veículos de comunicação formados
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em um mundo pré-internet devem se
submeter aos novos parâmetros de in-
teração/engajamento, internos às redes
sociais e externos a eles mesmos.
2. Quebra da autoridade da fonte: No
mundo offline, com discursos legiti-
mados pelos filtros da imprensa e dos
livros, havia uma hierarquização de fon-
tes e de seus discursos. Com as redes so-
ciais, o volume de engajamento em posts
legitima mais uma opinião do que o seu
próprio conteúdo. Em última análise,
isso tem impacto direto não só na auto-
ridade de fontes estatais, mas na de fon-
tes científicas que utilizam evidências de
investigações para os debates públicos.
Se o engajamento é menor, o discurso
tem menor valor.
3. Quebra dos conteúdos comunitários:
Além do critério de autoridade da fonte
na comunicação online ter sido altera-
do, a customização das notícias (in-
cluindo a customização de fake news)
tem contribuído para a quebra de con-
teúdos comunitários. Diferentes cam-
pos políticos estão cada vez mais presos
em suas bolhas, com acesso a conteúdos
desconectados dos da oposição.
4. Quebra do politicamente correto: Para
Da Empoli (2019), a estratégia de co-
municação da direita populista é “que-
brar os códigos do politicamente correto
construídos pela esquerda e pelos libe-
rais ao longo das últimas cinco décadas.
Esse processo é acentuado pelas três
quebras mencionadas anteriormente.
5. Quebra do espectro político: os novos
partidos operam com uma lógica dis-
tinta das esquerdas e direitas nas de-
mocracias liberais do século XX. Nessa
lógica, os findings a respeito de cada
eleitor no Big Data têm mais relevância
do que o espectro ideológico auto-atri-
buído ou socialmente atribuído a cada
eleitor. Considerando o cenário no qual
as definições de esquerda e direita são
marginalizadas pela direita populista,
a nova estratégia política apontada por
Da Empoli (2019) passa por uma nova
divisão entre povo e elites, incluindo o
contingente de revoltados de todos os
espectros em seu campo. Isso também
afeta a coerência dos conteúdos progra-
máticos, antes submetidos ao espectro
clássico de direita e esquerda, mas que
agora são engolidos pelos tópicos que
geram engajamento.
6. Quebra da convergência pelo Centro:
Nas democracias liberais pré-digitais, a
convergência dos candidatos “viáveis
de esquerda e direita ocorria pelo Cen-
tro do espectro político. A estratégia era
o diálogo com um máximo de grupos
sociais representativos. Na era do Big
Data, os conteúdos mais extremistas ge-
ram mais engajamento e indicam com
maior precisão os grupos-alvo, pela
via dos algoritmos. Parte dessa con-
vergência dos candidatos passava pela
necessidade de comprovar experiência
na administração pública e de compor
uma equipe de governo que mesclasse
competência técnica e boas conexões
políticas para viabilizar o programa de
governo. Essas vantagens comparativas
anteriores passam a ser evidências de
pertencimento às elites e são substituí-
das por outras características desejadas
entre o eleitorado, dentre as quais estão
a capacidade de gerar engajamento, a
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inexperiência administrativa e especial-
mente a falta de conexões com as elites.
7. Quebra da Globalização Liberal: As
elites globalistas” são o principal alvo
da nova direita, cujo objetivo em seu
conjunto é interromper o processo de
globalização nos moldes liberais e retor-
nar a um sistema nacionalista de equilí-
brio de poder entre potências.
O resultado de todas as quebras ocorridas
ao longo da última década são as divisões. São
divididas as informações, as realidades cons-
truídas socialmente, os objetivos em meio a
essa realidade e os valores que motivam tais
objetivos. A divisão das informações recebidas
se dá tanto pela via das informações verídicas,
mas ultra segmentadas por algoritmos, quan-
to pela via das fake news - já operantes ainda
na Guerra Fria sob a alcunha de desinformação.
Cada peça de informação (ou desinformação)
constrói um quebra-cabeça da realidade cujo
quadro difere cada vez mais do outro espectro
político. Ou seja, a realidade deixa de ser com-
partilhada e passa a ser customizada. Susskind
(2018) adiciona um problema extra a esse qua-
dro de “política da pós-verdade”: esse cenário
tende a acentuar o problema e tornar os dife-
rentes polos cada vez mais distantes.
Se antes a convergência política pelo
Centro indicava os mesmos objetivos a serem
atingidos pela esquerda ou pela direita no pós
Guerra Fria (exemplo, o aprofundamento da
Globalização Liberal), agora a distância entre
os polos torna cada vez mais problemática a
ideia de dialogar. Nesse contexto, os próprios
valores sobre o que é um político ideal para
ocupar cargos de liderança sofre uma divisão.
Inexperiência administrativa e confronto ao
sistema político estabelecido são qualidades
para um polo, e defeitos para o outro.
Nessa conjuntura de crises, quebras e di-
visões, Susskind (2018) defende que os dados
são poder. De acordo com ele, as entidades que
controlarem os dados controlarão três fontes de
poder no futuro: força (coerção), escrutínio e
percepção de controle. Essas são fontes de po-
der porque cada vez mais uma gama maior de
comportamentos humanos é transformada em
dados, fato que deve ser acentuado futuramen-
te com o 5G e a internet das coisas; e porque a
forma como nós organizamos esses dados reve-
la muito dos nossos valores políticos.
Dessa maneira, a posse de mais dados au-
menta a probabilidade do uso desses dados para
moldar preferências políticas de forma signifi-
cativamente mais precisa do que os meios de
comunicação de massa offline o conseguiram.
A tese de Susskind (2018) é que, ao longo do
tempo, tais poderes sobre os dados se concen-
trarão crescentemente nas mãos do Estado e de
grandes corporações tecnológicas.
A relevância da conjuntura internacional
desta década de crises, quebras de paradigmas e
divisionismos é precisamente essa: Estados e gran-
des corporações tecnológicas estão em movimento
para assumir o controle da maior gama de dados
possível. Evidentemente, os Estados saíram atrás
nessa corrida, sendo pegos de surpresa no início
da década por movimentos sociais massivos e va-
zamentos de informações muito sensíveis.
Portanto, essa foi a década da transição
dos atalhos informativos dos públicos das mí-
dias offline para as redes sociais online, transição
esta que alterou de forma sensível o compor-
tamento político das elites e dos públicos nos
planos domésticos e global. A interação entre
conjuntura internacional, atitudes políticas e a
tecnologia na próxima década seguirá trazendo
desafios para conhecer os diferentes caminhos
trilhados por estes atores.
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