68 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.2, p.67 - 74, ago. 2020
projeto, não sabia o que fazer, tinha uma filha
recém-nascida. Não quero dizer que era difícil
porque muitas pessoas passaram situações mui-
to piores, mas para mim foi um momento de
orfandade. Eu vinha, obviamente, das lutas es-
tudantis da década de 1970 em toda a América
Latina (e também na Argentina) e, um pouco
ingenuamente, quis estudar o imperialismo.
Também porque já que estava na Inglaterra, fa-
zia sentido estudar as ações do imperialismo. E,
assim, eu decidi estudar Relações Internacio-
nais, para ver como os países se projetam inter-
nacionalmente. Era um pouco ingênuo como
eu pensei naquele momento.
E praticamente não havia a área de es-
tudos de Relações Internacionais na América
Latina naquela época...
Não. A disciplina de Relações Interna-
cionais é muito nova. A grande disciplina, na
América Latina, era a Sociologia. Em grande
parte, a Sociologia é a mãe de nossa disciplina
em Ciências Sociais (exceto Economia). Mas,
para dar um indicador, a Associação Latino-A-
mericana de Sociologia foi fundada em 1950.
A Sociologia estava muito internacionalizada,
com os pais da Sociologia na América Latina,
na Colômbia, no Brasil, na Argentina, no Mé-
xico, no Chile, além do papel da Cepal e da
Flacso no Chile. A Sociologia foi uma grande
integradora.
Voltando à minha chegada na Inglater-
ra, eu não queria perder tempo, então decidi
estudar o imperialismo. Susan não era minha
orientadora imediata e me designaram ou-
tro Professor orientador, mas eu estava muito
próxima das pesquisas que ela fazia, e ela tinha
um seminário de pesquisa de doutorandos/as
em que nós participávamos muito. Tínhamos
uma relação muito próxima, ela era uma pes-
soa muito afetiva, integrava muito as pessoas,
era muito carismática. Então, em algum mo-
mento, minha tese, como todas as teses, não
avançava. Ela queria que todos terminassem,
ela pegou minha tese, leu e me impulsionou a
terminar de alguma maneira, me empurrando
para fazer a defesa.
Sobre o tema de como eu via esse momen-
to, os anos de 1970 eram um período de muita
ideologização, digamos. Então, no grupo de pes-
quisa, nos aproximávamos de Susan porque ela
era uma pessoa muito carismática e muito ecléti-
ca. Ela dizia que tínhamos que compor a Econo-
mia Política Internacional como um minestrone,
uma sopa. A briga dela era com os economistas
e com a ‘’securocracia” das Relações Internacio-
nais. Todo o resto, que não fosse uma dessas
coisas, lhe interessava, compunha a sopa que ela
estava montando que era muito interessante.
Mas nós, como estudantes, a víamos
como muito eclética e pouco marxista (risos),
pouco identificada com uma corrente teórica
específica. Era muito difícil classificá-lo, o que
incomodava alguns. Eu tive menos problemas
com isso porque não vinha do marxismo. Mas
achava difícil e ficava incômoda com a falta de
perspectiva sobre os países em desenvolvimen-
to. Lembro-me claramente de perceber isso,
que ela não olhava a inserção dos países em
desenvolvimento, o Sul não existia. Ela dizia,
naquele momento, que a EPI era o que os países
poderosos faziam, ela tinha isso praticamente
definido. Havia países em desenvolvimento,
mas eles não influenciavam o sistema interna-
cional. Então eu tinha essa diferença com ela,
porque eu queria estudar isso, os países em de-
senvolvimento. Todos os que estavam voltados
a essa discussão tinham desconforto. Susan não
era uma pessoa rígida, então não havia proble-
ma, mas havia sim uma espécie de discussão,
de debate com ela. Não havia o diálogo com os