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Entrevista com Diana Tussie: a economia
política internacional latino-americana,
visões de uma fundadora
Aline Contti Castro
1
Juliana Peixoto Batista
2
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2020v17n2p67
Recebido em: 14 de abril de 2020
Aceito em: 11 de maio de 2020
1 Coordenadora do Curso de Graduação em RelaçõesInternacionais e Professora do Programa de Pós- Graduação em Gestão
Pública e Cooperação Internacional (PGPCI) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Doutora em Relações Internacionais
pela Universidade de Brasília (IREL-UnB) em parceria com o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de
Lisboa (ISCSP-UL). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3595-2445. Contato: alinec.ufpb@gmail.com.
2 Doutora em Direito, com especialização em Direito Internacional (UBA, Argentina). Mestra em Relações Internacionais (UBA, Argenti-
na). Docente na UBA, UNSAM y FLACSO. ORCID: http://orcid.org/0000-0003-0341-5909. Contato: jpeixoto@flacso.org.ar.
A Profa. Diana Tussie é Coordenadora da
área de Relações Internacionais da Flacso-Ar-
gentina e é uma das mais destacadas intelec-
tuais latino-americanas na área de Economia
Política Internacional (EPI). Doutorou-se na
London School of Economics, onde envolveu-
-se no grupo de pesquisa da renomada Susan
Strange, ícone da EPI. Foi premiada pela ISA
(International Studies Association) em 2017,
reconhecida como “Distinguished Global
South Scholar”, além de outros prêmios como
“Distinguished Fulbright Scholar in Interna-
tional Relations” no 50ª Aniversário da Co-
missão Fulbright. Exerceu funções no governo
argentino, atuando na área de negociações eco-
nômicas internacionais. Publicou dezenas de
livros e artigos científicos.
Nessa entrevista, ela fala de sua trajetória
profissional, de sua relação com Susan Strange e
analisa o campo da EPI na América Latina. Além
disso, aborda temas como as relações entre teoria
e prática, as relações Brasil-Argentina, a hegemo-
nia brasileira e o regionalismo latino-americano.
1. Após sua Licenciatura em
Sociologia na Universidade de
Buenos Aires (UBA), você realizou
seus estudos de Mestrado e
Doutorado na Inglaterra, onde
participou do grupo de pesquisa
de Susan Strange. Quais foram
suas principais impressões dessa
experiência? Havia elementos de
convergência entre a leitura da
sociologia/economia política da
América Latina e a produzida na
Inglaterra naquele momento?
É muito interessante poder refletir com
vocês, é interessante poder juntar a conjuntura
histórica com a história pessoal (porque esta
se insere no momento histórico, mais ampla-
mente). Cheguei à Inglaterra em 1976, ano do
golpe na Argentina. Eu estava muito órfã de
Entrevista
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projeto, não sabia o que fazer, tinha uma filha
recém-nascida. Não quero dizer que era difícil
porque muitas pessoas passaram situações mui-
to piores, mas para mim foi um momento de
orfandade. Eu vinha, obviamente, das lutas es-
tudantis da década de 1970 em toda a América
Latina (e também na Argentina) e, um pouco
ingenuamente, quis estudar o imperialismo.
Também porque já que estava na Inglaterra, fa-
zia sentido estudar as ações do imperialismo. E,
assim, eu decidi estudar Relações Internacio-
nais, para ver como os países se projetam inter-
nacionalmente. Era um pouco ingênuo como
eu pensei naquele momento.
E praticamente não havia a área de es-
tudos de Relações Internacionais na América
Latina naquela época...
Não. A disciplina de Relações Interna-
cionais é muito nova. A grande disciplina, na
América Latina, era a Sociologia. Em grande
parte, a Sociologia é a mãe de nossa disciplina
em Ciências Sociais (exceto Economia). Mas,
para dar um indicador, a Associação Latino-A-
mericana de Sociologia foi fundada em 1950.
A Sociologia estava muito internacionalizada,
com os pais da Sociologia na América Latina,
na Colômbia, no Brasil, na Argentina, no Mé-
xico, no Chile, além do papel da Cepal e da
Flacso no Chile. A Sociologia foi uma grande
integradora.
Voltando à minha chegada na Inglater-
ra, eu não queria perder tempo, então decidi
estudar o imperialismo. Susan não era minha
orientadora imediata e me designaram ou-
tro Professor orientador, mas eu estava muito
próxima das pesquisas que ela fazia, e ela tinha
um seminário de pesquisa de doutorandos/as
em que nós participávamos muito. Tínhamos
uma relação muito próxima, ela era uma pes-
soa muito afetiva, integrava muito as pessoas,
era muito carismática. Então, em algum mo-
mento, minha tese, como todas as teses, não
avançava. Ela queria que todos terminassem,
ela pegou minha tese, leu e me impulsionou a
terminar de alguma maneira, me empurrando
para fazer a defesa.
Sobre o tema de como eu via esse momen-
to, os anos de 1970 eram um período de muita
ideologização, digamos. Então, no grupo de pes-
quisa, nos aproximávamos de Susan porque ela
era uma pessoa muito carismática e muito ecléti-
ca. Ela dizia que tínhamos que compor a Econo-
mia Política Internacional como um minestrone,
uma sopa. A briga dela era com os economistas
e com a ‘’securocracia” das Relações Internacio-
nais. Todo o resto, que não fosse uma dessas
coisas, lhe interessava, compunha a sopa que ela
estava montando que era muito interessante.
Mas nós, como estudantes, a víamos
como muito eclética e pouco marxista (risos),
pouco identificada com uma corrente teórica
específica. Era muito difícil classificá-lo, o que
incomodava alguns. Eu tive menos problemas
com isso porque não vinha do marxismo. Mas
achava difícil e ficava incômoda com a falta de
perspectiva sobre os países em desenvolvimen-
to. Lembro-me claramente de perceber isso,
que ela não olhava a inserção dos países em
desenvolvimento, o Sul não existia. Ela dizia,
naquele momento, que a EPI era o que os países
poderosos faziam, ela tinha isso praticamente
definido. Havia países em desenvolvimento,
mas eles não influenciavam o sistema interna-
cional. Então eu tinha essa diferença com ela,
porque eu queria estudar isso, os países em de-
senvolvimento. Todos os que estavam voltados
a essa discussão tinham desconforto. Susan não
era uma pessoa rígida, então não havia proble-
ma, mas havia sim uma espécie de discussão,
de debate com ela. Não havia o diálogo com os
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temas relativos ao desenvolvimento. Para ela, o
diálogo era com os economistas mainstream e
com as Relações Internacionais mainstream.
Hoje vejo que isso também fazia parte da
rigidez de nós, jovens. Ela tinha uma grande
simpatia por tudo o que era “underdog” (me-
nos favorecido) e era feminista de uma forma
muito genuína, o que se traduzia em pequenos
e grandes atos. Acho que nossa aproximação ti-
nha a ver com o fato de que ela apoiava as mu-
lheres. Além disso, quando finalmente terminei
minha tese, ela queria que, na minha banca,
estivessem especialistas de países em desenvol-
vimento e colocou Hans Singer, “irmão” de
Prebisch, com quem ele escrevera a tese Prebis-
ch-Singer. Foi fantástico para mim tê-lo. Para
mim, naquele momento, era como ter Deus na
banca (risos) e foi muito interessante. Ela tinha
essa empatia, essa flexibilidade. Eu a via como
uma pessoa muito eclética, essa era sua força.
2. Você voltou para a Argentina no
período de redemocratização e foi
uma das fundadoras da disciplina
de EPI no país. Qual foram os
desafios iniciais?
Primeiro, não me sentia fundadora. Es-
tava formada e havia terminado minha tese
sobre o GATT, e era um momento em que o
GATT/OMC começava a ser muito relevante,
então meus trabalhos foram muito demanda-
dos. Meu primeiro livro sobre o GATT (de
1987-88) saiu bem no momento da Rodada
Uruguai. Foi um livro muito lido, mas não me
sentia fundadora de nada. Eu sentia que tinha
um nicho que era a Economia Política. Eu não
era economista, mas já a esta altura eu sabia
muito de Economia, eu era quase uma econo-
mista de alguma forma, muitos pensavam que
eu era economista (risos).
Meu livro era uma referência. Ademais,
começava a se notar muito fortemente que as
Relações Internacionais na América Latina es-
tavam ligadas, por um lado, com a abertura que
os países estavam fazendo e, por outro lado,
com a crise da dívida que havia comprometido
recursos e que, ao mesmo tempo, demandava
o diálogo com o Banco Mundial e o Fundo
Monetário Internacional. Tudo coincidia nessa
mesma época. E de repente, minhas áreas de
pesquisa viraram os temas da moda (foi aí que
eu comecei). Eu sentia que havia um espaço e
que havia muita demanda.
Além disso, nessa época, sentia que me
interessava a política pública, quase mais do
que a academia nesse momento. De fato, esti-
ve trabalhando no governo de [Raúl] Alfonsín
[Presidente da Argentina entre 1983-1989] e
foi muito interessante. Eu gostava de estar nas
negociações, aprendi muito, lia os contratos, o
que havia que negociar, então me encantava a
parte das políticas públicas.
3. Você também trabalhou em
cargos executivos na Argentina no
período 2000-01*, em um momento
muito crítico da história nacional.
Que reflexões faz sobre esse trabalho
- em especial em relação à interface
entre o mundo acadêmico e o
político? (Há muitas diferenças entre
a teoria e a prática?)
*(Tussie participou da Comissão
Nacional de Comércio Exterior e
foi Subsecretária de Negociações
Econômicas Internacionais)
Eu não venho da teoria, Susan Strange
tampouco, é preciso ter isso em mente. Em
certo sentido, eu me modelei nela. O que sou,
construtivista, idealista, realista? Esse debate...
Não sou nada, eu quero saber como é o mundo.
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E para saber como é o mundo, não preciso ter
uma ideologia. É importante o compromisso
com a mudança, o compromisso com o desen-
volvimento, o compromisso social, mas não
esse debate infrutífero de hoje... Se nós esta-
mos obrigando os estudantes a chegar à prática
por meio da teoria, lhes estamos fazendo mui-
to mal (risos). É necessário fazer uma pergun-
ta: como funciona? Portanto, como se ordena,
quais são as regras? E não como se está fazendo
agora. As teorias são explicações ideológicas da
realidade, elas me servem ou não. Muitas me
servem, outras não. Além disso, essas teorias,
nas quais os estudantes latino-americanos de
Relações Internacionais estão sendo educados,
são teorias importadas.
Por isso acho que Susan [Strange] foi
muito importante, porque ela ampliou mi-
nha visão. Ela nos permitia liberarmos disso
e primava pela construção de uma perspecti-
va eclética, ainda que eu não percebesse a im-
portância disso naquele momento. Ela queria
mudar o mundo e não se preocupava (com os
rótulos). Eu acho que isso me permitiu uma
liberdade intelectual, para além das minhas
críticas naquele momento. Qual é o proble-
ma que eu tinha que resolver? O problema da
atual geração ao começar a trabalhar com po-
líticas públicas é justamente este, de começar
pela teoria. Bem, o que eu faço com o Estado?
(risos) Essa pergunta é muito grande. Eu deve-
ria perguntar o que faço com essa política, não
o que faço com o Estado.
Obviamente, quando tenho que escrever
um trabalho acadêmico é outra coisa...
As teorias são fatos sociais, não são a Bí-
blia, não são uma religião. Elas são produzidas
por pessoas e geralmente homens do norte,
brancos. Não podemos nos comprometer a
olhar a realidade através de seus óculos.
Então sua experiência no governo (na Se-
cretaria de Comércio) contribuiu para que, pos-
teriormente, você fizesse análises acadêmicas...
Sim, muito. Para mim, foi a experiência
mais linda que tive. Primeiro, porque é muito
interessante observar o que você estuda e per-
ceber como isso funciona, como funcionam os
lobbies, como te compram, como não te com-
pram, como sabem que a mim não compram,
como sabem que podem vender determinado
produto a um governo, mas que não podem
vender outro. Falando em lobbies e negociações
internacionais, também é muito interessante
ver como o poder se desdobra, o poder simbóli-
co se desdobra, quando alguém pega o telefone
e lhe dá uma ordem, o Ministro ou alguém de
outro país com alguma necessidade específica.
4. Quais as principais semelhanças
e diferenças relativas à
renegociação da dívida argentina
de 2001 e de hoje?
A dívida é, para a América Latina, exceto
o Chile, uma condição estrutural desde as guer-
ras de independência. É o fator que condiciona
os países, podendo limitar por um lado ou, por
outro, oferecer a possibilidade de uma maior
margem de endividamento - evitando algum
ajuste por meio de novos empréstimos etc. A
dívida está sempre presente, desde 1820, em
todos os países da América Latina e da África...
O caso da Ásia já é diferente, teve outros
problemas. A partir de 1945, Taiwan e Coréia
tiveram um apoio financeiro muito importante
que evitou que recorressem ao Fundo Monetá-
rio Internacional – sendo que eles tinham um
déficit na balança comercial...
Na América Latina, a dívida foi muito re-
levante e deve-se levar em consideração que o
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Fundo Monetário Internacional realizou seu
primeiro empréstimo de ajuste ao Peru em
1952. A América Latina foi quase um laborató-
rio para a atuação do Fundo, em relação a como
eles iriam fazer o ajuste quando um país apre-
sentava déficit na balança comercial. Portanto, a
dívida é uma questão permanente. Em minhas
pesquisas, meu foco maior foram as instituições
- o FMI, o Banco Mundial, o BID – no tocante
à sua composição e motivações políticas.
A relação com o Fundo é muito importan-
te, como estamos vendo agora na Argentina e
no Equador, e podemos contrastar com o Chile,
que nunca teve um problema com o Fundo des-
de Pinochet. Na década de 1980, todos os paí-
ses da América Latina tiveram problemas com
o Fundo, mas o Chile não porque se ajustou e
pagou a dívida. Os demais países tentaram pro-
teger sua população - não conseguiram - e con-
traíram novos empréstimos. O Chile cancelou a
dívida e temos o resultado que temos hoje.
Hoje a grande diferença é que o FMI não
está obrigatoriamente em apoio dos grandes
Fundos que participam das negociações com a
Argentina. O FMI está pedindo aos credores
que reduzam a dívida, que percam. Em outras
crises, o Fundo saia para resgatar os credores.
Agora estão dizendo a eles para arcarem com os
seus prejuízos.
5. A Argentina viveu uma trajetória
de piora dos indicadores sociais
nas últimas décadas, culminando
na grave crise atual. Que fatores
sistêmicos explicam a atual crise
econômica e social?
Não sei se são fatores sistêmicos... A Amé-
rica Latina não fez reformas impositivas para
que não tenhamos esses megamilionários. É
claro que o sistema internacional é permissivo,
está claro nos Panamá Papers etc. Mas nós não
fizemos nada para reformar nossos países, há
uma questão de pouco compromisso social em
nossos países.
Então pensa que os fatores internos são
mais relevantes...
Claro, nós convivemos com a pobreza
como algo natural, como se fosse uma coisa
que não se pode mudar. Nas palavras de Nora
Lustig, não há uma “aversão à pobreza”.
6. Nos últimos anos, se fortaleceu na
Argentina uma visão crítica sobre
a atuação regional brasileira, que
estaria voltada à construção de
uma hegemonia. Em que fatores se
fundamentam essa leitura e qual a
sua perspectiva?
Vocês no Brasil, de forma semelhante aos
norte-americanos, lhes custa entender que há
hegemonia. Voltando atrás a Susan Strange, foi
muito interessante como ela visualizou a hege-
monia norte-americana. Eles reclamavam, nos
anos de 1970, a tese do declínio da hegemonia,
como se os Estados Unidos tivessem perdido
poder. Susan contradizia isso. Chamo a mesma
atenção para o Brasil. Vocês brasileiros devem
entender a tese da hegemonia brasileira. É mui-
to importante sair do seu próprio centro, des-
centralizar a perspectiva. Posso te dar indicado-
res de hegemonia. O Brasil definiu as posições
da Tarifa Externa Comum (TEC) no Mercosul,
internacionalizou o BNDES, armou a Unasul...
É importante pensar o Brasil desde esse lugar,
de hegemonia regional. Podemos ter uma vi-
são benevolente dessa hegemonia, não quero
culpar o Brasil, muito pelo contrário. Muitas
vezes, durante a época de fundação do Mer-
cosul, aqui dizíamos que, se não fosse o Brasil,
teria havido uma abertura muito mais radical,
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o Brasil nos salvou (risos). É por isso que é he-
gemonia, essa hegemonia nos serviu, por isso
não é necessariamente ruim. Estar neste carro
onde o outro me ajuda é bom. Em termos mais
amplos, históricos, podemos dizer que muito
poucas coisas puderam ser feitas na América do
Sul sem incluir o Brasil. Embora, hoje em dia,
eu não sei como vai ficar isso, vamos ver...
Na área de segurança, ainda hoje existem
muitas disputas dos argentinos com o Brasil
sobre a liderança no Conselho de Segurança ...
Muitos reclamam, é claro... Mas é a vida, é
o maior país, com mais recursos. Vocês se pen-
sarem como influentes é importantíssimo, e é
parte do que vocês têm que fazer como acadê-
micos também. Por exemplo, há muito poucos
estudos sobre o regionalismo no Brasil, isso
demonstra que não estão olhando muito para
a hegemonia, chame como quiser. Você pode
não usar o termo hegemonia porque pode ter
um tom crítico, mas pode usar influência. O
Brasil é líder, influente na região. Se o país vai
liderar a partir da região ou vai trazer o poder
do âmbito internacional, desde fora, para a re-
gião, é outro debate. Mas pensar a influência é
muito importante.
7. Sobre o regionalismo pós-
hegemônico [termo cunhado pela
Profa. Tussie e pela Profa. Pía
Riggirozzi], quais são os principais
elementos de sua crise atual - em
especial da Unasul - e quais as
perspectivas de continuidade
desse projeto?
Primeiro, temos que falar sobre o regionalis-
mo. Este tem muitos usos. Lembro-me da frase de
Fernando Henrique Cardoso que dizia, precisa-
mente, que o regionalismo servia para as negocia-
ções na ALCA. Em 1990, para o Brasil, para isso
servia o regionalismo. E a Argentina neste mo-
mento, liderada por Menem, necessitava da alian-
ça com os Estados Unidos, antes da aliança com o
Brasil. Havia uma disputa muito interessante por-
que Fernando Henrique dizia que não, que aqui
era necessário montar um bloco negociador.
Depois, vem a crise de 2001, o que cha-
mamos de regionalismo pós-hegemônico e o
surgimento do Brasil como líder, ocorrendo
ao mesmo tempo que a ascensão da China e
dos BRICS em geral. Aí há outra situação
geoeconômica internacional que permite ou-
tros jogos, entre eles, é claro, a Unasul. Muitas
coisas aconteceram na Unasul, o CDS (Con-
selho de Defesa Sul-Americano), a iniciativa
de uma Nova Arquitetura Financeira Regio-
nal (NAFR), o Banco do Sul, que o Brasil não
queria firmar, o Tribunal de Investimentos que
queria armar [Rafael] Correa [Presidente do
Equador entre 2007-2017] etc. A Unasul ser-
viu de guarda-chuva para muitos temas. Como
não pode ser de outra forma, o regionalismo
ademais segue o vaivém dos modelos de desen-
volvimento, se conforma de acordo com o mo-
delo de inserção que têm os países. Se o modelo
de inserção muda, o regionalismo vai mudar.
Foi o que aconteceu com a Unasul, e também
o que aconteceu com o Mercosul. Mudam os
modelos de inserção, mudam as prioridades.
No Mercosul, a partir do início do século
XXI, a China se transforma em seu quinto sócio,
seu parceiro silencioso, se torna o principal des-
tino para as exportações brasileiras e o segundo
mercado para os produtos argentinos. Além disso,
a China torna-se um concorrente muito impor-
tante no mercado argentino, em relação aos pro-
dutos brasileiros. Ou seja, começamos a comprar
da China mais do que do Brasil. Mesmo sem fazer
parte da união aduaneira, são parceiros. Isso leva a
uma reconfiguração das forças do Mercosul.
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Então todas as mudanças que tivemos nos
últimos anos, mudanças econômicas, geoeco-
nômicas, políticas, ideológicas mudam o mo-
delo, vão mudando o regionalismo que precisa-
mos. E isso vai continuar sendo assim...
Sobre a Unasul, você acha que um dos
principais elementos da crise foi a divergência
entre Brasil e Venezuela (Lula e Chávez)? Vê
mais convergência ou divergência entre eles?
Creio que, na realidade, a Unasul serviu
para que Lula e Chávez não entrassem em confli-
to a respeito de quem liderava a América do Sul.
O debate era esse, quem liderava. E o Brasil, pela
primeira vez, viu sua hegemonia sendo disputa-
da. E se cria a Unasul para construir as conver-
gências, domesticar a [Hugo] Chávez [Presiden-
te da Venezuela entre 1999-2013], para negociar
com ele em um entorno mais amistoso, mais
cooperativo. A Unasul serviu muito para isso...
8. No Brasil, desde o início do
século XXI, houve uma mudança
politica e semântica em sua
política externa - com uma foco
menos latino-americanista e mais
ênfase na América do Sul. Acha
esta uma mudança interessante
(se distanciando do México e da
América Central)? Ou acredita que
há mais fatores que nos aproximam?
Fernando Henrique armou essa mudan-
ça. Percebia que, para o norte, o México estava
com os Estados Unidos. A América do Sul, en-
tão, seria para o Brasil, porque o país poderia
controlar essa região (sobre a outra, o Brasil não
tinha controle). Fazia parte do projeto de lide-
rança, que continuou com Lula de outra ma-
neira. Houve uma segmentação geoeconômica
feita pelo Brasil. Na Argentina, há um debate
se concordamos com essa separação da América
do Sul em relação à América Latina... O que
acontece, mais recentemente, é que o México
tem uma ação de voltar à região, se arma o Gru-
po de Puebla e há outros movimentos.
Nesse sentido, acha que a CELAC pode
desempenhar um papel político importante
nos próximos anos?
A CELAC é mais um mecanismo de
coordenação, então é preciso ver o que va-
mos demandar. Não será um mecanismo de
integração, é um mecanismo de coordenação.
Na história da América Latina, a ideia de con-
certação é muito forte. A região teve e tem
muitos mecanismos de concertação, o Grupo
do Rio, o Grupo da Contadora, o mecanismo
do consenso de Cartagena para a dívida. A con-
certação é muito importante como tradição na
América Latina, muito intensa (mais que a di-
visão). O que acontece é que não a estudamos,
o que é outra coisa, então dizemos que ela não
existe. Não, nós não a estudamos. Além disso,
outra coisa que acontece e que é pouco estudada
é o GRULAC [Group of Latin American and
Caribbean States] e sua atuação em organiza-
ções internacionais. Esse tipo de bloco regional
não é de negociação, mas sim de coordenação
de algumas posições, onde as informações são
compartilhadas no âmbito das organizações in-
ternacionais, na OMC, nas Nações Unidas, etc.
9. Finalmente, como você vê o
avanço da Economia Política
Internacional (EPI) na Argentina e
na América Latina hoje? Quais os
principais desafios para o avanço
e fortalecimento dessa área de
estudos na região?
Eu nunca vejo a metade do copo vazio. É
verdade que a EPI não tem uma predominân-
cia na área de Relações Internacionais, mas está
crescendo como nunca antes. Como falei, não
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me via como fundadora porque me via como
marginal. Então quando me chamam de fun-
dadora, percebe-se que algo está acontecendo,
que o campo está sendo construído. O que
significa esse campo? Bem, voltemos à ideia de
Susan [Strange] do minestrone, da sopa diga-
mos. As coisas se vão juntando aos poucos. A
Economia Política na América Latina, como
em todos os lugares, inclui pessoas que vêm
de áreas diversas, Direito, Economia (talvez
um pouco menos), Sociologia, Relações Inter-
nacionais, Regionalismo e Integração, Saúde,
Meio Ambiente etc. Tem crescido muito nos
últimos anos. Então, de repente, se está for-
mando uma identidade que não havia. Qual é
essa identidade? É necessário pensá-la. Nós nos
reconhecemos como formando um campo de
estudos, com muitas teorias-fatos sociais (não
explicações do mundo). Nesse momento, está
convergindo a consciência de que nós, dentro
do campo, temos ação.
Antes se pensava, por exemplo, que os
países em desenvolvimento não marcavam a
agenda, não influenciavam. Para o realismo
estrutural e para o marxismo, o determinismo
era muito forte.
O que veio acontecendo por meio do
construtivismo e de enfoques neogramscianos
em temas como o regionalismo, e depois em
muitos outros temas, é que percebemos que
podemos agir. Posso retirar essa tarifa ou pos-
so pedir a tal país que não faça isso. A Bolí-
via pode me pedir para aumentar o preço da
energia, por exemplo. Isso mostra ação e terá
entitlement” (prerrogativa jurídica). Então há
algo que acontece a partir dos anos de 1990 em
diante, desde o Regionalismo, que nos permi-
tiu ver que nós temos ação. Não somente te-
mos estrutura, há agência. Eu posso mudar o
mundo, não tenho que esperar a revolução che-
gar. Se vier a revolução, está bem (risos). Mas,
enquanto isso, também se pode fazer coisas.
Isso é que a EPI nos está apontando. Nós olha-
mos para a estrutura, olhamos o que há. Há
ação, e se está estudando essa ação. Quem são
os que atuam? Como se atua? Onde se atua?
Como se muda? Isso é muito interessante. Não
estamos, primeiro, na inação do determinismo,
nem esperando a revolução de 2100... Não, é
aqui. Por exemplo, quero saber como funciona
o Fundo porque lhe peço tal coisa, essa outra
não lhe posso pedir. Quero saber como fun-
cionam os empréstimos do Banco Mundial...
Assim, estudamos “what makes the world go
round” [o que move o mundo]. Isso está acon-
tecendo. Sigamos adiante.
Buenos Aires, 25/10/2019.