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As diplomatas bissau-guineenses por
elas mesmas: obstáculos ao Ingresso e à
permanência na carreira diplomática
Bissau-Guinean female diplomats by themselves: obstacles to admission and permanence
in the diplomatic career
Las diplomáticas bisauguineanas por sí mismas: obstáculos para la admisión y perma-
nencia en la carrera diplomática
Naentrem Sanca
1
Enzo Lenine
2
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2020v17n2p48
Recebido em: 01 de junho de 2020
Aceito em: 21 de outubro de 2020
Resumo
Quais os obstáculos vivenciados pelas mulheres bissau-guineenses para o ingresso e a per-
manência na carreira diplomática na República da Guiné-Bissau? Analisamos, por meio
de entrevistas, os obstáculos materiais e simbólicos enfrentados pelas mulheres diplomatas
de Guiné-Bissau na carreira.
Palavras-chave: Mulheres na diplomacia. Diplomacia africana. Mulheres africanas.
Abstract
What are the obstacles Bissau-Guinean women face prior to and upon admission to the
diplomatic career in the Republic of Guinea-Bissau? We analyse through in-depth intervie-
ws the material and symbolic obstacles faced by women diplomats in Guinea-Bissau.
Keywords: Women in diplomacy. African diplomacy. African women.
Resumen
¿Cuáles son los obstáculos que enfrentan las mujeres bisauguineanas antes y después de su
admisión a la carrera diplomática en la República de Guinea-Bisáu? Analizamos a través
de entrevistas los obstáculos materiales y simbólicos que enfrentan las mujeres diplomáticas
en Guinea-Bisáu en la carrera.
Palabras clave: Mujeres en la diplomacia. Diplomacia africana. Mujeres africanas.
1 Naentrem Sanca é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal da Bahia e
egressa do curso de Relações Internacionais da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab-
Malês). Interessa-se pelos temas de feminismo africano, gênero e diplomacia, e feminismo nas RI.
2 Enzo Lenine é professor de Relações Internacionais da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira
(Unilab-Malês). Interessa-se pelos temas de feminismo nas RI, teoria política e modelagem matemática. ORCID: https://orcid.
org/0000-0001-5280-4252
Artigo
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Introdução
Nas décadas de 1960 e 1970, as mulhe-
res bissau-guineenses se depararam com um
dos eventos mais importantes não só para o
seu destino, como também o de todo o terri-
tório da colônia portuguesa de Guiné-Bissau.
A luta de independência, que culmina com a
fundação da República de Guiné-Bissau em
1973, resultou dos ativismos de guineenses e
caboverdianos, unidos sob a bandeira da des-
colonização europeia na África. As mulheres,
como membros indissociáveis de ambas as so-
ciedades, participaram ativamente do processo
de libertação, sendo reconhecidas pelo mérito
de sua luta (FIGUEIREDO; GOMES, 2016;
GOMES 2016).
Entretanto, as mulheres guerreiras vi-
ram-se excluídas da política bissau-guineense
tão logo a independência se concretizou. No
recém-fundado Estado, a política não era um
lugar para elas, de modo que suas contribuições
na luta contra o colonialismo tornaram-se mais
um capítulo a ser relembrado do que de fato
um marco nas relações de gênero da socieda-
de bissau-guineense. Passados mais de 40 anos,
desde que a República de Guiné-Bissau passou
a ser membro da comunidade de nações sobe-
ranas, a participação das mulheres na política e
na burocracia não faz jus às suas contribuições
de outrora. Embora em anos recentes o tema da
igualdade de gênero e dos direitos das mulheres
venha promovendo mudanças na sociedade e
na política bissau-guineenses, desigualdades e
hierarquias de gênero persistem.
Nesse contexto, um dos espaços político-
-burocráticos marcados pela baixa presença fe-
minina é a diplomacia. Conduzida pelo Minis-
tério dos Negócios Estrangeiros, Cooperação
Internacional e Comunidades, a diplomacia
bissau-guineense conta com 17 embaixadas
e se caracteriza por ser um espaço eminente-
mente masculino. Poucas mulheres conseguem
ingressar na carreira e exercê-la em caráter de
igualdade frente a seus pares homens.
Este fenômeno, em si, não é exatamente
uma particularidade de Guiné-Bissau. A di-
plomacia em outros lugares do mundo padece
de um déficit de representatividade feminina,
3
mesmo em países onde os debates e movimen-
tos feministas têm uma tradição mais longa,
como é o caso do Brasil (BALBINO, 2011;
FRIAÇA, 2012; FRITSCHE, 2002). Em lar-
ga medida, a arena internacional segue sendo
um espaço masculinizado, a despeito dos essen-
cialismos que tal asserção carrega (MONTE,
2013; TICKNER, 2006), o que se reflete no
perfil dos diplomatas, cônsules e embaixadores.
Nesse sentido, o presente artigo pretende
investigar as vivências e experiências de diplo-
matas mulheres de Guiné-Bissau que ingressa-
ram na carreira e exercem a profissão como re-
presentantes de seu país. Partimos, portanto, da
seguinte pergunta de pesquisa: quais os obstácu-
los vivenciados pelas mulheres bissau-guineen-
ses para o ingresso e a permanência na carreira
diplomática na República de Guiné-Bissau? Por
meio de entrevistas conduzidas com duas di-
plomatas bissau-guineenses, objetivamos com-
preender quais os incentivos e, principalmente,
os constrangimentos, tanto materiais quanto
simbólicos, que as mesmas experimentaram em
sua jornada de ingresso e exercício da carreira.
Por se tratarem de membros de um quadro re-
duzido de profissionais – ainda mais do gênero
3 A obra Gender and Diplomacy de Jennifer Cassidy (2017)
aborda, sob uma perspectiva comparada, diversas questões
acerca não só do déficit de mulheres nas diplomacias
mundiais, como também desafios institucionais pelos quais
as mesmas passam.
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feminino –, suas vivências permitem identificar
padrões das hierarquias de gênero que incidem
sobre as diplomatas mulheres. Tais hierarquias
criam trajetórias profissionais distintas daque-
las percorridas pelos seus colegas homens: as
diplomatas tendem a ocupar espaços subalter-
nizados, que reforçam estereótipos de gênero e
condicionam os espaços ocupados pelas mulhe-
res (AGGESTAM; TOWNS, 2019).
O artigo está estruturado em quatro seções.
Na primeira seção, apresentamos brevemente os
marcos políticos dos movimentos e debates fe-
ministas em Guiné-Bissau, chamando a atenção
para a história e a articulação conceitual com os
temas de redistribuição, reconhecimento e re-
presentação tão caros às teorias políticas feminis-
tas. Em seguida, detalhamos a metodologia da
investigação, especificando como e com quem
foram realizadas as entrevistas em profundidade
que capturam as vivências das diplomatas mu-
lheres. Na terceira seção, apresentamos elemen-
tos destas entrevistas que permitem compreen-
der os obstáculos vividos pelas diplomatas antes
e depois do ingresso na carreira. Finalmente, na
quarta seção, discutimos alguns apontamentos
acerca dos entraves da participação feminina na
diplomacia de Guiné-Bissau.
Marcos políticos do feminismo
em Guiné-Bissau
Diferentemente da narrativa clássica do
feminismo no Ocidente
4
, o desenvolvimento
4 Tradicionalmente, o feminismo ocidental é narrado pelas três
ondas feministas (GARCIA, 2011; ZERILLI, 2006). Porém,
a incompletude desta narrativa é frequente alvo de críticas de
outras vertentes do feminismo, tais como o feminismo negro
(DAVIS, 2016; HILL COLLINS, 2019) e os feminismos
subalternos (BALLESTRIN, 2017; MENDOZA, 2018;
SPIVAK, 2012). Para uma abordagem alternativa, focada em
temáticas, ver Hawkesworth e Disch (2018).
do feminismo bissau-guineense está profunda-
mente associado ao processo de descolonização
e sua consequente luta pela independência.
Enquanto os movimentos e a teoria feminis-
tas caminhavam, nas décadas de 1960 e 1970,
para um aprofundamento dos debates da se-
gunda onda, uma parcela significativa dos paí-
ses africanos, dentre eles os Países Africanos de
Língua Oficial Portuguesa (PALOP), enfrenta-
va conflitos em suas lutas pela independência.
Nesses contextos, em que a independência era
a prioridade máxima das sociedades africanas,
a participação das mulheres nos esforços de li-
bertação tornou-se uma necessidade, com im-
plicações para os movimentos feministas que
emergiram neste momento e se desenvolveram
nas décadas seguintes.
As agendas feministas africanas funda-
mentam-se em um diálogo crítico com os fe-
minismos ocidentais, nomeadamente aqueles
que emergem nos Estados Unidos e na Europa.
Chaves conceituais como gênero, sororidade e
sexualidade (apenas para mencionar algumas)
são profundamente criticadas por pensadoras
e pensadores feministas da África e da diáspo-
ra (AMADIUME, 1987; HILL COLLINS,
2019; HOOKS, 2019; OYEWÙMÍ, 2003;
TAIWO, 2003). Ao trazerem suas perspec-
tivas críticas sobre modalidades distintas de
matriarcado e comunidade para o centro dos
debates feministas, os estudos africanos sub-
vertem as imagens correntes sobre os efeitos do
passado colonial e da escravidão transatlântica
na constituição das sociedades do continente,
apontando como o imperialismo de outrora e
as concepções do feminismo global contempo-
râneos guardam similaridades na sua tentativa
de relegar ao oblívio as relações sociais autóc-
tones e o lugar da mulher africana nas mesmas
(OKOME, 2003; OYEWÙMÍ, 2003).
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O passado colonial de Guiné-Bissau res-
ponde por uma parcela significativa da estrutu-
ração da sociedade bissau-guineense, nomeada-
mente no que tange às relações de gênero. Se a
sociedade como um todo se encontrava em uma
posição de subalternidade em relação à metrópo-
le portuguesa, as mulheres bissau-guineenses pa-
deciam de uma dupla relação de subordinação: à
colonização e ao patriarcado (FIGUEIREDO;
GOMES, 2016). Não por acaso, os movimen-
tos de mulheres emergem não com o objetivo
de enfrentar isoladamente as dimensões da su-
balternidade, mas sim visando a reposicionar as
bissau-guineenses nos diversos espaços sociais e
políticos do país. Nesse sentido, a fundação da
União Democrática das Mulheres da Guiné e de
Cabo Verde (UDEMU) em 1961 marca, ainda
que de forma limitada no que tange à amplitu-
de da participação feminina, o estabelecimento
e o desenvolvimento de agendas das mulheres
no processo de independência e constituição do
Estado bissau-guineense (GOMES, 2016).
Evidentemente, a UDEMU per se não sub-
verteu as hierarquias de gênero na Guiné. Em
primeiro lugar, a União carecia de representati-
vidade da totalidade e, fundamentalmente, di-
versidade de mulheres bissau-guineenses. Como
país essencialmente rural, a UDEMU enfrentou
a dificuldade de incluir em seus quadros e suas
agendas as mulheres que viviam no e do campo,
compondo-se primariamente de mulheres com
formação educacional e acadêmica. A margina-
lização das mulheres rurais (tabanka, como são
denominadas em crioulo)
5
produziu um movi-
5 Segundo Costa (2014), o crioulo da Guiné-Bissau é língua
formada nos séculos XV e XVI com a chegada dos colonizadores
portugueses a Guiné-Bissau, e integrada à família linguística
dos demais crioulos de origem portuguesa, da qual faz parte
também o crioulo caboverdiano (ou Kabuverdianu). Embora
não seja a língua oficial de Guiné-Bissau, o crioulo é falado
pela maioria da população, ao passo que o português, mesmo
sendo oficial é falado por 13% dos bissau-guineenses.
mento insensível à realidade destas mulheres,
com profundas implicações para as desigualda-
des de gênero observadas em Guiné-Bissau.
Em segundo lugar, a própria liderança do
processo de independência compunha-se de
homens da elite de Bissau. O Partido Africano
da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAI-
GC) centralizou a organização política da luta
pela independência, e embora seu líder, Amíl-
car Cabral,
6
advogasse a favor da participação
feminina não só nos esforços de descolonização,
como também nas esferas de poder, sua voz foi
silenciada pelos demais membros do partido
(ABDENUR, 2018; FIGUEIREDO; GO
MES, 2016; GOMES, 2016). A exclusão políti-
ca das mulheres – requeridas, apenas, durante a
luta pela independência – permanece até a atua-
lidade, incidindo não apenas na ausência das bis-
sau-guineenses nas instituições políticas, como
também no silenciamento de suas agendas.
Nesse sentido, e na contemporaneidade,
as demandas das mulheres bissau-guineenses
encaixam-se em três dimensões fundamentais
da teoria política feminista, quais sejam: re-
distribuição, reconhecimento e representação
(FRASER, 2007; PHILLIPS, 2011; YOU
NG, 2000).
7
Essa multidimensionalidade re-
6 Amílcar Cabral (1924-1973) nasceu em Bafatá no território
da atual Guiné-Bissau e com 8 anos viajou para Cabo Verde,
acompanhando a sua família. Escritor, poeta, político,
agrônomo e teórico marxista, Cabral desempenhou papel
fundamental na luta de independência de Guiné-Bissau e
Cabo Verde (NEVES, 2017).
7 Entende-se por redistribuição a preocupação da teoria e dos
movimentos feministas com a correção das desigualdades
socioeconômicas que penalizam as mulheres, tais como
salários menores, dificuldades de ingresso no mercado
formal, menor número de oportunidades entre outros. O
reconhecimento, por sua vez, trata das dimensões culturais da
dominação masculina, especialmente por meio dos papéis, e
das políticas de identidade associadas ao gênero. Finalmente,
a representação refere-se à questão da presença feminina e
vocalização das demandas das mulheres nos espaços e debates
políticos. Para um debate sintético e crítico, ver Fraser (2007).
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fere-se às manifestações das desigualdades de
gênero que incidem sobre as bissau-guineen-
ses. No que tange à dimensão socioeconômi-
ca, apenas 50,5% das mulheres é alfabetizada
(INEGB, 2014). Ademais, 64,7% da popu-
lação vivem com menos de US$2,00 por dia
(INEGB, 2014), sendo as mulheres mais afe-
tadas pela pobreza. No que tange à dimensão
do reconhecimento, as desigualdades de gênero
estabelecem padrões de exclusão com base em
papéis a serem desempenhados pelas mulheres,
bem como as sujeitam a práticas culturais que
violam sua autonomia.
8
A tradicional esfera da
domesticidade, que reserva à mulher a casa e
o cuidado dos familiares, restringe as possibili-
dades de acesso ao mercado formal e à política
(FIGUEIREDO; GOMES, 2016).
Outrossim, os efeitos da colonização ainda
se fazem presentes no âmbito das relações étni-
cas, que estabelecem hierarquias com base na-
queles que ocuparam um lugar privilegiado na
interação com os colonizadores, incidindo, por
sua vez, nas desigualdades de gênero de forma
interseccional com a etnicidade (FIGUEIRE
DO; GOMES, 2016). Finalmente, persiste em
Guiné-Bissau um déficit na representação das
mulheres nos espaços de poder formais. Embora
em 2018 o governo tenha aprovado uma lei de
paridade para garantir uma representação míni-
ma de 36% das mulheres nas instituições políti-
cas, ainda se nota a ausência feminina em deter-
minados espaços, como é o caso da diplomacia.
Neste contexto, as mulheres bissau-gui-
neenses enfrentam obstáculos particulares no
que tange ao leque de oportunidades de inte-
8 Uma das práticas culturais mais emblemáticas que afeta
diretamente a autonomia das mulheres bissau-guineenses é
a mutilação genital feminina. Segundo Abdenur, “48% das
população feminina foi sujeita à mutilação genital feminina
e excisão” (ABDENUR, 2018, p. 5).
gração social e inserção no mercado e na polí-
tica. Se em determinado momento da História
recente de Guiné-Bissau a presença feminina
foi desejável para viabilizar a independência
do país, uma vez liberto e fundado o Estado
bissau-guineense, as mulheres passaram a ser
excluídas dos espaços de poder, seja nos cargos
eletivos, seja nas burocracias de Estado e polí-
ticas públicas. Como consequência, obstáculos
nas três dimensões supracitadas dificultam não
só o ingresso, como o exercício da diplomacia
por diplomatas mulheres em Guiné-Bissau.
Metodologia
De forma a compreender os obstáculos às
mulheres bissau-guineenses no pré- e pós-ingres-
so à carreira diplomática, conduzimos entrevis-
tas em profundidade com duas diplomatas mu-
lheres e um diplomata homem, todos atuantes
no momento de realização desta pesquisa. Em
Guiné-Bissau, coexistem dois tipos de diploma-
tas: por indicação política e de carreira. O di-
plomata político é aquele indicado pelo partido
político no poder, mas que não tem necessaria-
mente formação na área. Já o diplomata de car-
reira é aquele que possui formação na área de di-
plomacia e não é indicado pelo partido político.
Segundo o diplomata de carreira entrevistado:
Quando falamos de embaixador de carreira
ou diplomata de carreira, ele é um funcio-
nário efetivo do Ministério de Negócios Es-
trangeiros já há mais de 10 anos e que tem
formação na diplomacia. Para ser diplomata
ou embaixador, como requisito a pessoa tem
de subir alguns degraus como adido, primei-
ro-secretário, segundo-secretário, conselhei-
ro, ministro de segunda-classe e, finalmente,
embaixador. Cumprido isso, é chamado de
diplomata de carreira. Quanto ao diplomata
político, ele é mais ligado ao partido políti-
co, e por isso vários países não o aceitam, tais
como: Luxemburgo, Holanda e Suíça.
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No que tange às diplomatas entrevistadas,
suas biografias são distintas. A entrevistada K.,
9
diplomata de carreira, possui uma trajetória pe-
culiar no contexto mais amplo da educação em
Guiné-Bissau, vez que é uma pessoa com uma
vivência no exterior. K. estudou em Portugal
e fez a sua formação em diplomacia no Brasil,
no Instituto Rio Branco. Já P., diplomata polí-
tica, estudou o Ensino Primário na cidade de
Farim e teve formação na área Técnica Indus-
trial e Comércio de Bissau. Em 1966, foi para
Portugal estudar o curso de Serviço Social. Em
1977, trabalhou como Responsável Adjunta
na Direção dos Assuntos Sociais na Secretaria
do Estado dos Combatentes da Liberdade da
Pátria. Foi também Ministra de Estado, ocu-
pando, em determinado momento, o cargo de
embaixadora. Por se tratar de uma diplomata
política, sua indicação ao cargo foi feita pelo
ex-presidente Malam Bacai Sanha.
As entrevistas com as diplomatas foram
realizadas em Guiné-Bissau no período de 26
de fevereiro a 17 de março de 2019. As duas
mulheres diplomatas pertencem, cada uma,
às categorias supracitadas. Após as entrevistas,
mantivemos contato com as diplomatas para
apontamentos complementares. As conversas
foram gravadas em formato .mp3, realizadas em
criolo, traduzidas e transcritas para o português.
O roteiro de perguntas da entrevista bus-
cou compreender os diversos significados dos
obstáculos sociais e, mais precisamente, de gê-
nero antes e depois do ingresso na carreira. As
perguntas orientaram-se, sem menção direta,
pela questão de pesquisa. Na seção seguinte,
são apresentados fragmentos que evidenciam
9 Embora as diplomatas e o diplomata entrevistados tenham
expressado não haver impedimentos na revelação de seus nomes,
optamos por preservar a confidencialidade de suas identidades,
tendo em vista os eventos políticos em Guiné-Bissau.
esses obstáculos. Eles são articulados em tor-
no de uma narrativa suplementada com uma
discussão sobre os problemas de gênero que in-
cidem sobre a participação feminina na diplo-
macia guineense.
Vale ressaltar a ausência de dados qualita-
tivos e quantitativos suplementares para confe-
rir apoio aos achados desta pesquisa. O quan-
titativo de mulheres diplomatas representando
a República de Guiné-Bissau não está disponi-
bilizado nos meios oficiais, nomeadamente, no
site do Ministério dos Negócios Estrangeiros,
da Cooperação e das Comunidades.
10
Estima-
tivas não oficiais indicam que 5,88% das 17
embaixadas mantidas por Guiné-Bissau sejam
chefiadas por mulheres, ao passo que 5,00%
dos seus consulados seriam chefiados por con-
sulesas. As duas diplomatas que participaram
das entrevistas fazem parte desse conjunto pe-
queno de mulheres no ministério, havendo se
disponibilizado para fornecer informações so-
bre suas trajetórias e vivências.
As diplomatas por elas
mesmas
Nesta seção, analisamos as entrevistas vi-
sando a compreender como os obstáculos de gê-
nero incidem sobre a presença feminina no cor-
po diplomático bissau-guineense. Na primeira
parte, tratamos dos obstáculos antes do ingresso
na carreira diplomática. Na segunda, discuti-
mos os obstáculos uma vez que a diplomata já
se encontra dentro do serviço diplomático.
10 Os autores, com apoio institucional da Unilab, reitera da-
mente solicitaram ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, da
Cooperação e das Comunidades da República de Guiné-Bissau
informações sobre o quantitativo atual e na série histórica dos
diplomatas bissau-guineenses, identificados por gênero e data
de ingresso. Os dados, porém, não foram fornecidos.
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Obstáculos Pré-ingresso
Independentemente da forma de ingresso
na carreira diplomática – se por indicação polí-
tica ou por aprovação em exames de admissão –,
um dos principais obstáculos enfrentados pelas
mulheres bissau-guineenses é de ordem estru-
tural, qual seja, o baixo nível de escolaridade.
Segundo dados do Instituto Nacional de Esta-
tística de Guiné-Bissau (2017), a situação das
mulheres é precária: enquanto a taxa de alfa-
betização dos homens entre 15 e 24 anos foi
de 70,4% em 2014, a taxa para mulheres na
mesma faixa etária e no mesmo período foi de
50,5%. Ademais, apenas 20,4% da população
concluiu o Ensino Médio em 2014 (INEGB,
2017).
11
Ainda no que tange aos dados socioe-
conômicos, na sociedade guineense as mulhe-
res constituem a camada mais pobre, princi-
palmente em famílias chefiadas pela mulher
(MARTINS et al., 2013). Segundo o Relató-
rio sobre a Situação de Direitos Humanos na
Guiné-Bissau:
A disparidade de gênero é mais do que mani-
festa no sistema nacional do ensino, na me-
dida em que, se as proporções de raparigas e
de rapazes são quase idênticas a nível do en-
sino de base elementar (nos quatro primeiros
anos), não é o caso para os outros níveis de
ensino. Com efeito, a partir do ensino de base
complementar (5° e 6° anos) e, até ao ensi-
no superior, a taxa das raparigas é apenas de
40%. (MARTINS et al., 2013, p. 65)
Não por acaso, uma das entrevistadas,
a diplomata política P., relata a diferença na
forma que se educam a mulher e o homem em
Guiné-Bissau como causa importante para a
baixa presença feminina no corpo diplomá-
tico. Segundo ela, as mulheres são subordi-
11 Para dados mais detalhados sobre outros indicadores
educacionais, ver Silva et al. (2016, p. 119).
nadas por uma educação de domesticidade,
e poucas tiveram oportunidade de obter uma
educação formal. Portanto, a educação for-
mal (ou falta dela) é um obstáculo forte para
as mulheres ingressarem na diplomacia, como
relata a diplomata:
Eu digo que existe ainda fraca participação
das mulheres na carreira diplomática, porque
ainda temos poucas mulheres formadas nesta
área. Se formos ver a taxa de analfabetismo,
encontraremos uma taxa maior das mulheres
analfabetas mais do que dos homens, então
isso já é um obstáculo para termos mulheres
na diplomacia. Mesmo que hoje estejamos
vendo algumas melhorias, ainda é pouco.
Logo, este aspecto marca muito as impossi-
bilidades para as mulheres, que elas vão en-
frentar até chegarem ao nível de serem aceitas
como uma pessoa capacitada, competente e
igual a um homem. Uma das críticas do gêne-
ro é que o problema não é uma mulher, mas
a questão intelectual, de formar mulheres e
homens da mesma forma. Assim, todas as
coisas têm que ser partilhadas sem hierarquia.
Então, este fato é lamentável, porque exis-
te diferença na educação e até hoje persiste.
Felizmente, hoje existem várias ONGs, com
parceria com o Estado, se posicionando acer-
ca desta questão, a fim de ajudar na educação
e formação das mulheres. Portanto, fico feliz
em ver que as mulheres estão tendo voz e vez.
Uma coisa é ter voz, outra é ter vez.
Ainda no que tange ao pré-ingresso, um
dos obstáculos fundamentais é que algumas
mulheres desistem da carreira por entenderem a
diplomacia como um lugar dos homens, impró-
prio para elas. As poucas referências de outras
mulheres neste lugar retroalimentam este fato,
como atestam as estimativas da proporção de
embaixadoras e consulesas na diplomacia bis-
sau-guineense apresentadas na seção anterior.
Outro obstáculo que impede as mulheres
de se inserirem na diplomacia refere-se às duas
categorias de diplomata no país, quais sejam:
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diplomatas políticos
e diplomatas de carreira.
Ambas as formas excluem as mulheres, porém
a categoria que resulta da indicação do partido
político tende a ser mais excludente, vez que os
partidos dificilmente escolhem ou indicam mu-
lheres para assumir a diplomacia. Por isso, não
é surpresa que o corpo diplomático da Guiné-
-Bissau apresente uma baixa presença feminina,
vez que ainda não é acessível para uma mulher a
inserção não só por meio do ingresso na carreira,
mas também no espaço mais amplo dos partidos
políticos. Como resultado da falta de representa-
tividade na esfera diplomática, as mulheres têm
menos chances de influenciar as normas criadas
e de desconstruir a visão masculinizada sobre a
esfera (AGGESTAM; TOWNS, 2019).
12
Nota-se, portanto, que os problemas so-
cioeconômicos influenciam diretamente nas
oportunidades de obtenção de educação for-
mal, requisito fundamental para o ingresso na
carreira diplomática. Essa situação é corrobo-
rada pelo fato de as duas diplomatas entrevis-
tadas nesta pesquisa provirem de famílias com
renda alta, conseguindo preencher os requisitos
educacionais do cargo. Porém, apesar de suas
características diferenciadas, seus relatos apon-
tam para desigualdades de gênero que superam
a dimensão socioeconômica. O elemento de
reconhecimento também incide como fator de
hierarquização de gênero, principalmente no
exercício da carreira.
12 Aggestam e Towns (2018, p. 3-4) apontam que o espaço
diplomático é profundamente generificado. As normas e
práticas da diplomacia conferem determinados roteiros
de comportamentos a depender do gênero. Elas apontam,
ainda, que a presença cada vez maior em algumas academias
diplomáticas (como é o caso da Suécia) (NIKLASSON;
ROBERTSON, 2018) têm produzido alterações na
condução da política externa ao subverter esses roteiros
generificados por meio do próprio questionamento das
noções de masculinidade e feminilidade.
Obstáculos na Carreira
Uma vez que uma mulher supere os
desafios estruturais e individuais de acesso
à carreira diplomática, interpõem-se novos
obstáculos no exercício diário da profissão.
Estes assumem diversas formas, em geral mais
sutis na perspectiva das entrevistadas, mas que
se constituem como formas de hierarquizar
a presença feminina na diplomacia bissau-
guineense. Como relata a entrevistada K.:
Bem, você sabe que no nosso país se verifi-
cam muito os problemas de gênero em todas
as esferas e os problemas socioeconômicos
afetam mais as mulheres do que os homens.
Vou te falar uma coisa, temos várias mulheres
que prestaram concurso, mas o maior proble-
ma é a permanência delas aqui. Têm muitas
mulheres com formação superior e com mais
capacidade do que muitos homens, mas estão
estagiando há mais de 6 anos
13
.
Percebe-se no relato que um dos principais
desafios na relação com os diplomatas homens
é o do reconhecimento do mérito e das qualifi-
cações das mulheres. O tratamento como esta-
giária, em que são desempenhadas funções tí-
picas de secretária,
14
revela uma disparidade no
exercício da profissão profundamente marcada
pela clivagem de gênero. O estágio de cinco ou
seis anos apresenta-se, portanto, como um pos-
sível tratamento diferenciado em comparação
ao dado a homens que ingressam pelo mesmo
13 Esse tratamento diferenciado evoca um episódio em
campo com uma funcionária do Ministério que se recusou
a dar entrevista. Segundo ela, sua vida se resumiu a estagiar
e sua recusa se justificou pela seguinte fala: “Não vou dar
entrevista, porque não me consideram diplomata”.
14 Ao longo das entrevistas, as diplomatas transpareceram
o desconforto com funções que mais lembram as de uma
secretária ocupada de agenda e questões logísticas de
seus superiores, do que de fato funções arquetípicas da
diplomacia, tais como elaboração da política externa e
negociações internacionais.
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processo.
15
Nesse sentido, este primeiro obstá-
culo demonstra-se uma ferramenta de exclusão
e de discriminação das mulheres nesse espaço.
Porém, o tratamento diferenciado e su-
balterno não se limita apenas ao exercício das
funções de diplomacia, mas também às possi-
bilidades de ascensão na carreira. Um dos mais
flagrantes e evidentes resultados das discrimi-
nações de gênero é a baixa nomeação de mu-
lheres ao cargo de embaixadoras. As razões são
variadas, desde o fato de a mulher ser casada,
ou pura e simplesmente pelo fato de se trata-
rem de mulheres, supostamente impróprias
pelo seu gênero para ocupar um cargo de ta-
manha envergadura política. Podemos observar
isso no trecho abaixo, relatado por K.:
Comecei como adido, depois subi para pri-
meira-secretária e em seguida a segunda-se-
cretária. Havia homens que entraram depois
de mim, mas que foram nomeados como em-
baixadores antes de mim. Existe essa diferen-
ça, mas o importante é que eu não desisti e
consegui chegar lá, mesmo depois de enfren-
tar vários obstáculos. Espero que as próximas
mulheres que querem seguir a carreira não
passem pelo que eu passei. Na verdade, tenho
a certeza de que elas já estão tendo dificulda-
des: temos poucas mulheres diplomatas. Hoje
estamos lutando para mudar este cenário.
Agora, o que queremos é uma colocação fora
do país como embaixadoras. Podemos exercer
as nossas funções aqui, chegarmos ao nível de
embaixadoras, mas para sermos consideradas
mesmo como diplomatas, é necessário irmos
para missões fora. Nós, de carreira, fazemos
como os militares: começamos de baixo até o
cargo mais alto como embaixadora. Nosso de-
sejo é representar Guiné-Bissau fora do país.
15 Como inexistem dados e informações oficiais, e dado
o caráter exploratório desta pesquisa, um comparativo
com a trajetória dos homens não foi realizado no âmbito
deste artigo. As dificuldades metodológicas apontadas no
texto refletem não só os desafios de obter informações
das experiências vividas das mulheres diplomatas, como
também dos próprios homens.
Fica evidente que as diplomatas guineen-
ses passam dificuldades dentro da carreira não
por incapacidade de articular, mas pelas mar-
ginalizações institucionais, que ainda consi-
deram a mulher como incapaz de resolver os
problemas de Guiné-Bissau fora do território
nacional. Esses obstáculos, por serem elemen-
tos que invisibilizam as mulheres neste espaço,
eliminam potenciais referências de representa-
tividade feminina na política e na burocracia,
desincentivando consequentemente que outras
mulheres aspirem à carreira.
Outro fator de ordem familiar que se evi-
dencia como obstáculo na carreira é a dificulda-
de de o marido da diplomata encontrar traba-
lho no exterior. Os incentivos sociais para que
o homem abandone seu emprego para acompa-
nhar a mulher são menores, o que tornam epi-
sódicos os casos de saída de diplomatas mulhe-
res para o exterior quando isso incide na vida
profissional do marido. Já o oposto – que uma
mulher desista do seu trabalho para acompa-
nhar seu marido diplomata – é mais frequente.
Neste sentido, várias vezes as mulheres não são
mandadas em missão porque são casadas, ou
a família não está em condições de fazer toda
a mudança. Por conta das injunções culturais
e de gênero, algumas mulheres desistem de ir
para missões em prol do bem-estar da família,
e não porque não têm vontade ou não queiram
assumir o posto (BALBINO, 2011).
Quando questionadas sobre as preferên-
cias das diplomatas sobre trabalhar com che-
fes mulheres ou chefes homens e se, durante
as suas vidas profissionais, tiveram mais chefes
mulheres ou mais homens, as duas forneceram
respostas distintas:
[K.]Quando comecei a trabalhar, tive duas
mulheres que já foram minhas chefes. Tra-
balhei com Ilha Barba, que é inspiração para
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mim e foi a pessoa que mais me encorajou para
seguir a carreira diplomática. Não tive proble-
mas com ela. Também trabalhei com Eugenia
Saldanha, dávamos-nos muito bem – aliás, até
hoje temos um tratamento de respeito. Mas na
minha carreira tive mais chefes homens, mas
também foi tranquilo porque não me silencio,
porque faço meu trabalho com profissionalis-
mo. Já tive alguns problemas, mas enfrentei
com rosto para cima e com humildade, mas
para mim tanto faz mulher ou homem.
[P.] Eu sempre trabalhei com homens, mas
quando eu estava trabalhando – porque pa-
rei agora – sempre trabalhei como chefe. Fui
ministra várias vezes, nunca tive uma mulher
como chefe, então não sei como seria, mas
imagino que deva ser muito bom. Mas também
os homens com quem trabalhei sempre me res-
peitavam, tudo era na base do profissionalismo.
Esses fragmentos revelam, embora pon-
derando a relação com os homens, uma prefe-
rência pelo trabalho com as mulheres. Ambas
entrevistadas relatam a parca presença femini-
na nos espaços da diplomacia, especialmente
na posição de chefia. Embora ambas afirmem
que as relações com chefes homens sempre se
basearam no profissionalismo, existe uma ex-
pectativa de que, com uma mulher no coman-
do, o trabalho seria positivo. No contexto dos
tratamentos diferenciados, e contrapondo-se a
eles, ambas partem do entendimento de que a
mulher saberia lidar com os problemas como
um homem. Nota-se, ainda, que a questão da
representatividade como fonte de inspiração é
um elemento forte no primeiro relato. Mesmo
sem referenciar no mesmo tom, o segundo re-
lato também sinaliza, por meio da expectativa
positiva do trabalho chefiado por uma mulher,
para a importância da representatividade femi-
nina na diplomacia bissau-guineense. Embo-
ra o caso da segunda diplomata seja especial
por ter ocupado o cargo de ministra, o fato de
ambas relatarem a baixa presença feminina em
cargos de chefia indica a existência de um teto
de vidro para a trajetória das mulheres, que lhes
dificulta ocupar cargos nas mais altas hierar-
quias, como, por exemplo, o de embaixadora.
Mulheres na diplomacia
bissau-guineense: um balanço
das experiências
Percebeu-se, com os relatos, que as diplo-
matas bissau-guineenses ocupam um espaço do-
minado por homens. Esse achado, em si, não é
uma particularidade do caso de Guiné-Bissau: as
mulheres ainda ocupam poucos espaços na di-
plomacia (BALBINO, 2011; FRIAÇA, 2012).
A própria arena internacional é um espaço que,
tradicionalmente, é visto como de realização de
ideais de masculinidade: as próprias lideranças
de Estado e a diplomacia seriam funções im-
buídas de uma essência masculina, aversa a ca-
racterísticas femininas associadas ao pacifismo
e ao cuidado (TICKNER, 2006; ZALEWSKI,
1998). Não por acaso, o tratamento diferenciado
dado às diplomatas mulheres evidencia o caráter
masculinizado da carreira e do ministério, assim
como age de forma a obstaculizar sua ascensão
nos cargos e postos diplomáticos. O resultado é
a já vista baixa presença de mulheres diplomatas.
Essa solidão no espaço de trabalho dificul-
ta a articulação entre as mesmas. A inexistên-
cia de uma associação de mulheres diplomatas
bissau-guineenses é um reflexo dessa solidão e,
ao mesmo tempo, um entrave para promover
mudanças na estrutura de gênero da carreira.
Com uma associação, seria possível organizar
as mulheres em torno de ideias e propostas
para promover igualdade dentro do sistema.
Na solidão de suas posições, derrubar o sistema
hierárquico que privilegia o homem pelo seu
gênero é substantivamente dificultado.
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Para além dos obstáculos dentro da car-
reira, ainda existem entraves sociais para a
inserção das mulheres nos espaços políticos e
burocráticos. A persistência de desigualdades
socioeconômicas que incidem com mais for-
ça sobre as mulheres dificulta a aquisição de
educação formal, pré-requisito fundamental
para o ingresso na carreira. Ademais, os cons-
trangimentos culturais impostos pela ordem
patriarcal acabam por limitar as bissau-gui-
neenses a papéis associados à esfera doméstica
(FIGUEIREDO; GOMES, 2016), tornando
a possibilidade de ingressar na diplomacia uma
opção não disponível para uma parcela signi-
ficativa das mulheres do país. Associando-se
este fato ao histórico de baixa representativida-
de política das mulheres em Guiné-Bissau no
pós-independência (GOMES, 2016) – e que,
mesmo com a lei de paridade, ainda não se al-
terou de forma consistente e universal nas esfe-
ras políticas –, verifica-se que as três dimensões
supracitadas das teorias feministas (FRASER,
2007) são eivadas de desigualdades que pena-
lizam as mulheres bissau-guineenses. Destarte,
avançar na promoção de uma sociedade menos
hierarquizada pelo gênero perpassa fomentar
políticas públicas de redistribuição, reconheci-
mento e representação.
As entrevistas permitiram evidenciar o
desejo das diplomatas de haver mais mulheres
no corpo diplomático. Cada uma, a seu modo,
relatou a preocupação de que as próximas mu-
lheres não passem pelas dificuldades de reco-
nhecimento na carreira. Como elas salienta-
ram, as mulheres diplomatas bissau-guineenses
dispõem das competências, capacidades e pro-
fissionalismo para o exercício da profissão. Os
obstáculos produzidos por uma sociedade hie-
rarquizada pelo gênero constituem os entraves
para o devido reconhecimento das mulheres
bissau-guineenses como aptas a ocupar os altos
espaços da burocracia diplomática.
Nesse sentido, as entrevistas foram de
suma importância para o entendimento das de-
sigualdades de gênero na carreira diplomática
bissau-guineense, que ainda subordina as mu-
lheres a funções de secretária e, por outro lado,
não são escolhidas para missões. Estas infor-
mações só poderiam ser depreendidas por estas
vivências, que, postas em conjunto, permitem
compreender como as hierarquias de gênero
operam na diplomacia bissau-guineense.
No que tange às biografias das entrevista-
das, apesar das diferenças substantivas em suas
trajetórias, notam-se vivências de desigualdades
de gênero semelhantes. Apesar de os problemas
de gênero não serem fixos ou terem só uma
face, as diplomatas, a despeito de suas biogra-
fias, sofrem discriminação pelo próprio status
de serem mulheres. Como se evidenciou nas
entrevistas, duas mulheres de perfis e trajetórias
distintos apontaram desigualdades criadas pelo
gênero que, se não vivenciaram elas mesmas, ao
menos presenciaram.
Por outro lado, durante as entrevistas, -
cou evidente, em diferentes momentos, que o
medo de represálias no emprego silenciou uma
das entrevistadas em seus relatos sobre os pro-
blemas que as mulheres (ou, quiçá, ela mesma)
enfrentam dentro do Ministério. Compreen-
demos que é um obstáculo, mas esse silêncio
também é uma forma de resistência para per-
manecer naquele espaço. Também observamos
durante as entrevistas que um dos obstáculos
que algumas mulheres diplomatas enfrentam é
o fato de serem solteiras. A opção por não con-
trair um matrimônio, considerada incompatí-
vel com as hierarquias de gênero na sociedade
bissau-guineense, traz consequências variadas,
como serem tachadas de rótulos pejorativos,
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que ferem sua honra e dignidade (por exemplo,
serem automática e pejorativamente rotuladas
de homossexuais); assim como tampouco se-
rem escolhidas para missões, porque são vistas
como pessoas que não têm responsabilidade.
As entrevistas de campo, ao fim e ao cabo,
não só enriqueceram o conhecimento acerca
dos desafios e dos obstáculos que as mulheres
bissau-guineenses enfrentam no ingresso na
carreira e no exercício da própria diplomacia,
como serve de inspiração para que outras mu-
lheres persigam a mesma e lutem para ampliar
o acesso a este espaço. Parte desses resultados
dialoga, ainda, com as experiências de outras
mulheres em outros países no que tange à
transversalidade do fenômeno de exclusão pelo
gênero e das desigualdades e hierarquias que o
mesmo enseja.
Conclusão
A diplomacia não é um espaço livre das
hierarquias de gênero. A presença feminina nas
carreiras diplomáticas de diversos países ainda é
marcada por solidão, silêncio e ausências. Em-
bora as organizações internacionais e as lide-
ranças dos Estados estejam cada vez mais cons-
cientes da necessidade de avançar as agendas de
igualdade de gênero e direitos da mulher, a bai-
xa representatividade feminina nas burocracias
internacionais – dentre elas, a diplomacia – é
ainda uma realidade.
Ao analisarmos o caso bissau-guineense,
buscamos evidenciar os obstáculos enfrentados
pelas mulheres para ingressar na diplomacia e
exercer suas funções como diplomatas. A partir
das entrevistas, identificamos vivências seme-
lhantes que revelam como as desigualdades de
gênero operam mesmo ante às particularidades
das biografias individuais. Além das dificulda-
des materiais resultantes do contexto socioeco-
nômico de Guiné-Bissau, dinâmicas associadas
aos papéis de gênero verificam-se na experiên-
cia vivida das diplomatas.
Os relatos, à primeira vista, apontam para
uma realidade preocupante dentro da diplo-
macia de Guiné-Bissau. Entretanto, a própria
presença de mulheres rompe com as barreiras
que lhes são impostas, e sua ascensão na car-
reira, ainda que lenta, quebra os tetos de vidro
da diplomacia bissau-guineense. Ademais, no
longo percurso dos movimentos feministas do
país, a simples presença de referências femini-
nas na carreira diplomática sinaliza para pos-
sibilidades profissionais para as novas gerações
de mulheres bissau-guineenses, fortalecendo
outras agendas de representação política e
promoção de igualdade de gênero. As mulhe-
res guerreiras de outrora vislumbram, nesses
exemplos, novas possibilidades de emancipa-
ção e atuação política.
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