Uma crise de múltiplas dimensões: uma reflexão sobre o processo de
integração regional da Europa próximo de completar sete décadas ............. 2
A multiple-dimension crisis: reflections on Europes regional integration process close to completing seven decades
Una crisis multidimensional: una reflexión sobre el proceso de integración regional de Europa cerca de completar siete décadas
Patrícia Nasser de Carvalho
Tendências e desafios da Política Externa de Bolsonaro: resgate do
choque das civilizações, declínio da ordem liberal e rupturas internas ......... 10
Trends and challeges of Bolsonaros Foreign Policy: rescuing the clash of civilizations, the decline of the liberal order and
internal disruptions
Tendencias y desafíos de la política exterior de Bolsonaro: rescate del choque de civilizaciones, declive del orden liberal e
rupturas internas
Klei P. Medeiros
Vinícius H. Vilas Boas
Enrico M. Andrade
Les origines du conflit syrien (2011-2018): de l’hégémonie Baathiste
à la suprématie néolibérale ............................................................................... 19
As origens do conflito sírio (2011-2018): da hegemonia Baathista à supremacia neoliberal
e origins of the Syrian conflict (2011-2018): from Ba’athist hegemony to neoliberal supremacy
Felipe Costa Lima
The Beijing Consensus and the New Silk Road in Africa: Chinese
investments in new disputes of hegemony ....................................................... 27
O Consenso de Pequim e a Nova Rota da Seda na África: investimentos chineses em novas disputas de hegemonia
El Consenso de Pekín y la Nueva Ruta de la Seda en África: inversiones chinas en nuevas disputas de hegemonía
Lucas Gualberto do Nascimento
Vulnerabilidade socioambiental: uma análise do ciclone
Idai em Beira – Moçambique e suas implicações internacionais .................... 39
Socio-environmental vulnerability: an analysis of Idai hurricane in Beira – Mozambique and its international implications
Vulnerabilidad socio ambiental: un análisis del ciclón Idai en Beira - Mozambique y sus implicaciones internacionales
Aureliane Aparecida de Araújo
Tomé Francisco Chicombo
Joelton Carneiro de Lima
Resenha: Livro Sobre a Guerra organizado por José Luís Fiori
examina a relação entre a guerra e a ética ..................................................... 52
Simone Kawakami Gonçalves Costa
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Uma crise de múltiplas dimensões: uma
reflexão sobre o processo de integração
regional da Europa próximo de
completar sete décadas
A multiple-dimension crisis: reflections on Europes regional integration process close to
completing seven decades
Una crisis multidimensional: una reflexión sobre el proceso de integración regional de
Europa cerca de completar siete décadas
Patrícia Nasser de Carvalho
1
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2020v17n1p2
Recebido em: 21 de dezembro de 2018
Aprovado em: 19 de agosto de 2019
Resumo
Após quase sete décadas em curso, o processo de integração regional da Europa experimenta
a sua mais grave crise, que tem múltiplas dimensões. A partir de uma leitura conjuntural,
o objetivo deste artigo é refletir sobre como se caracteriza essa atual crise, de que forma ela
impõe desafios e quais são eles.
Palavras-chave: Europa. Integração Regional. Crise.
Abstract
After almost seven decades in progress, Europes regional integration process is experiencing
its most serious crisis, which is a multiple-dimensions one. From a conjuncture analysis,
the objective of this article is to reflect on how this current crisis is characterized, how it
imposes challenges and what they are.
Keywords: Europe. Regional Integration. Crisis.
Resumen
Después de casi siete décadas en progreso, el proceso de integración regional de Europa
experimenta su crisis más grave, que tiene múltiples dimensiones. A partir de una lectura
conyuntural, el objetivo de este artículo es reflexionar sobre cómo se caracteriza esta crisis
actual, cómo impone desafíos y cuáles son ellos.
Palabras clave: Europa. Integración regional. Crisis.
1 Doutora em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora Adjunta do De-
partamento de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, Brasil, Orcid: http://
orcid.org/0000-0002-8152-9779.
Artigo
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O processo de integração regional da
Europa experimenta a sua mais grave crise de
múltiplas dimensões com traços de crise estru-
tural. Pensar esse processo de forma crítica, a
partir de uma leitura conjuntural, quando ele
está próximo de completar sete décadas, é um
exercício que permite refletir sobre seus pontos
de fragilidades e seus desafios atuais, a despeito
dos seus históricos alcances e inovações em vá-
rios aspectos das relações internacionais.
Em termos fiscais, essa crise é consequência
da Crise da Zona do Euro e da grande dificul-
dade de solucioná-la de maneira coordenada. A
união monetária, em construção desde o início
dos anos 1970, mas em vigor desde a década
de 1990, submeteu todos os seus membros, em
estágios diferentes de desenvolvimento político
e econômico, a denominadores comuns em ter-
mos de disciplina macroeconômica sem dispor
de instrumentos compatíveis com as condições
de cada um. O choque de consequências assi-
métricas, provocado pela crise financeira nor-
te-americana de 2008, explicitou ainda mais as
falhas estruturais da integração monetária. As
economias da Zona do Euro se dividiram em
credoras, da parte norte ou do centro, e de-
vedoras, localizadas ao sul ou na periferia do
continente. Isso aconteceu porque os países da
periferia europeia, sobretudo a Grécia, experi-
mentaram largos déficits fiscais, em razão da
abundante oferta de crédito e baixas taxas de ju-
ros em seus mercados, no início dos anos 2000,
além de desequilíbrios acumulados na balança
comercial e aumento dos custos trabalhistas,
tendo em vista a rigidez estrutural das suas eco-
nomias e crescimento econômico com endivi-
damento em anos anteriores. Em 2009, quando
os impactos da crise financeira norte-americana
atingiram a Europa, o mercado de crédito priva-
do entrou em colapso, aprofundando os déficits
fiscais e, consequentemente, as dívidas públicas
desses países. Assim, difíceis negociações para a
adoção de programas de socorro financeiro a go-
vernos e bancos subordinaram os membros mais
frágeis da Zona do Euro a diversas combinações
de políticas de austeridade fiscal e de reformas
estruturais draconianas (HALL, 2016), as quais
geraram mais desequilíbrios e desagrados.
Isso ocorreu porque a partir de 2010, a
saída para a crise fiscal, que se configurou na
Zona do Euro, foi conduzida por processos de
barganha por concessões entre as instituições da
União Europeia (UE) e as economias nacionais
da Zona do Euro. Desde os anos 1990, a po-
lítica monetária dos Estados membros da UE
seguia as diretrizes da autoridade supranacional,
o Banco Central Europeu (BCE). Isso implicou
em menor autonomia decisória sobre elas por
parte dos governos nacionais. No que se refere à
política fiscal, embora suas metas também fos-
sem comuns aos Estados membros, ela perma-
neceu a cargo dos governos nacionais e era rigo-
rosa ao estabelecer limites de gastos e de dívidas
públicas. Por esse motivo, a política fiscal se tor-
nou uma das questões mais prementes da pers-
pectiva das autoridades nacionais e europeias,
tornando-se um tema politizado, ao sujeitar as
economias desequilibradas a uma severa disci-
plina macro. A política monetária, em contra-
partida, manteve-se uma questão mais técnica.
No auge da crise, entre 2010 e 2011, e na
ausência de um “emprestador de última instân-
cia” ou uma estrutura política centralizada e teo-
ricamente preparada para lidar com as crescen-
tes dívidas públicas, a Troika – composta pela
Comissão Europeia, pelo BCE e pelo Fundo
Monetário Internacional (FMI) –, passou a su-
pervisionar ainda mais rigorosamente a políti-
ca fiscal dos Estados periféricos (CAPORASO;
RHODES, 2016). Além disso, ela proveu assis-
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tência financeira para os países mais vulneráveis
a partir da criação de fundos e instrumentos,
aplicados essencialmente no âmbito intergo-
vernamental. Insuficientes para restabelecer o
equilíbrio macroeconômico (MARZINOT-
TO, 2016), na prática, essas medidas paliativas
esconderam o fracasso de décadas do projeto
neoliberal de integração da Europa dirigido por
uma elite transnacional desde os anos 1980,
beneficiada com a transnacionalização e a glo-
balização da economia europeia (VAN APEL-
DOORN, 2012).
Dessa forma, além de seguir as diretrizes
comuns de políticas macroeconômicas esti-
puladas pelas instituições comunitárias para
a formação da União Monetária Europeia
(UME), como taxas de câmbio fixas e regimes
de economia política, as quais deixaram peque-
no raio de manobra aos Estados membros da
UE para gerir sua política monetária, desde os
anos 1970, os países mais vulneráveis da perife-
ria europeia sofreram de distintas formas com
o rigoroso plano de ajustes, sobretudo após a
crise da Zona do Euro. Frente à pressão para
liberalização do capital nos mercados financei-
ros desregulados pelas economias mais fortes,
as quais aspiravam, prioritariamente, à estabi-
lidade macroeconômica e à desregulamentação
financeira, a flexibilização de salários se tornou
um mecanismo de ajustamento, colocando
mais tensão sobre países que já eram deficitá-
rios (STOCKHAMMER, 2014), os que eram
também os economicamente mais fragilizados.
Por conseguinte, os conflitos políticos do-
minaram as respostas à Crise da Zona do Euro.
O Banco Central expandiu suas funções no
amplo escopo das negociações com os Estados
membros. O Conselho Europeu, formado pe-
los chefes de Estado e de governo, além do seu
presidente e o da Comissão Europeia, ganhou
mais poder do que inicialmente concebido
pelo Tratado de Lisboa (em vigor desde 2009).
Em certa medida, em algumas áreas, o Conse-
lho tomou o espaço, que anteriormente era da
Comissão Europeia, sobretudo no que se refere
ao seu papel de proponente de agenda e de ini-
ciadora das propostas legislativas (FABBRINI,
2013). Especialmente nas áreas bancária e de
política fiscal, o tradicional método comunitá-
rio de tomada de decisões, – centrado na tría-
de Comissão Europeia-Parlamento Europeu
(PE)-Conselho de Ministros da UE – perdeu
força para as decisões centradas em instituições
intergovernamentais, que se manifestaram nas
cúpulas e em acordos não baseados em trata-
dos, mas dominados por alguns poderosos
Estados membros. Antes da crise, a importân-
cia do Conselho já crescia; depois dela, face à
urgência das respostas às situações de crise, o
Conselho ganhou maior status político. Essa as-
censão foi apoiada por forças muito poderosas,
em particular pela Alemanha. Portanto, na área
monetária e bancária, o poder político das ins-
tituições intergovernamentais prevaleceu sobre
o supranacionalismo da Comissão Europeia,
criada para ser a instância responsável pela ela-
boração de propostas de novos atos legislativos
europeus, e onde deveriam ser buscadas solu-
ções comunitárias para a retomada do equilí-
brio macroeconômico a partir do gerenciamen-
to compartilhado de recursos para resgates de
economias (OTERO-IGLESIAS, 2017).
Como consequência disso, grande parte
das economias europeias periféricas enfrenta,
há mais de uma década, estagnação ou baixo
ritmo de recuperação, altos índices de desem-
prego e gradativos obstáculos à melhoria da sua
competitividade, revertidos na crescente desi-
gualdade socioeconômica e de salários (DUN-
GACIU, 2017). Esse cenário pode ser explica-
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do também pelo fato de que a crise fiscal das
economias da Zona do Euro se transformou
em uma crise financeira (BULMER; JOSEPH,
2016), tendo em vista que a ameaça de bancar-
rota dos países do Sul face às suas altas dívidas
públicas deixou os bancos do Norte altamente
expostos ao risco e as economias credoras dessa
região pouco abertas à concessão de novos cré-
ditos (SCHIMMELFENNING, 2018).
A crise do processo de integração regional
da Europa tem como uma de suas outras ver-
tentes a crise migratória, um tema que, da pers-
pectiva de políticos e de cidadãos, representa
uma ameaça externa, pois a entrada de migran-
tes é constantemente relacionada ao seu con-
tinuado temor de ataques terroristas e outros
crimes e com o aumento dos gastos públicos
com políticas destinadas a esse grupo. Grandes
fluxos de migrantes, os quais há anos chegam
às fronteiras da UE por meios ilegais, vindos
especialmente do Norte da África e do Oriente
Médio, aumentaram drasticamente a partir de
2015 (METCALFE-HOUGH, 2015). Des-
sa forma, a segurança nacional de cada país se
tornou prioridade para muitos governos nacio-
nais europeus, os quais, a despeito de que desde
2003 viessem buscando soluções conjuntas, a
partir de uma política de asilo e de refúgio mais
integrada através da aprovação de uma série de
diretivas e regulamentos comuns, não espera-
vam que o número de pessoas pedindo refúgio
se elevasse em proporções tão alarmantes como
nos últimos anos (BUONANNO, 2017).
Com a escalada da pressão migratória
sobre a Europa, muitos Estados membros da
UE preferiram aplicar soluções individuais de
natureza nacionalista, como o fechamento das
fronteiras externas, suspendendo parcialmente
as regras de livre trânsito na área de Schengen
(PIROZZI; TORTOLA; VAI, 2017). Eles tam-
bém se opuseram ao sistema de quotas de refu-
giados criado para aliviar a situação de países
que estão na linha de frente de entrada de flu-
xos de pessoas, alegando diferenças econômicas
e culturais com os migrantes, e que esse sistema
estaria em vigor como um instrumento impos-
to pela Alemanha, a sua maior defensora. Sen-
do assim, a área de Schengen permanece sem
um mecanismo comum de divisão dos custos
de recebimento desses imigrantes entre Estados
membros e organizações supranacionais que
possam, de fato, apoiar de modo coordenado
os Estados membros da UE nas áreas de segu-
rança, inteligência, justiça e direitos humanos.
Com efeito, apesar de que a UE tenha
avançado em várias políticas relacionadas às
suas fronteiras externas, nos últimos anos, a sua
abordagem para a imigração irregular e para
os exilados ainda não conseguiu se basear na
solidariedade e na partilha das responsabilida-
des (BUONANNO, 2017), como prevê a Po-
lítica de asilo da UE. As divergências entre os
líderes dos países europeus ajudam a alimentar
os discursos xenófobos de partidos de extrema
direita, que, mais do que nunca, defendem a
aplicação de rigor sem precedentes na política
de migração.
No que se refere à crise geopolítica, as ati-
tudes confrontantes da Rússia em relação à UE
e à comunidade internacional, sobretudo após
a anexação da Criméia, em 2014, mostraram a
tônica do plano de poder expansivo russo em
sua área de influência, além do seu esforço para
travar uma guerra normativa com a Europa. Ao
erodir o consenso liberal ocidental do pós-Guer-
ra Fria, negar a ideia de mundo unipolar nos dias
atuais e apoiar os partidos europeus de extrema
direita na UE, os russos se utilizam de meios não
convencionais, como hacking, espionagem e ma-
nipulação da mídia (LIIK, 2018) para se colocar
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como uma grande potência global. Além disso,
os diversos problemas étnicos, religiosos, políti-
cos e territoriais nos países vizinhos a UE, espe-
cialmente na Turquia, onde há a maior concen-
tração de potenciais refugiados e asilados cujo
destino é a Europa, e o seu atual governo, que
se coloca contra o bloco europeu em variados
aspectos, elevam a sensação de vulnerabilidade
da sociedade europeia na fronteira com a Ásia.
Em reação, a política de defesa continua
se desenvolvendo em nível europeu. Desde que
foi apresentada, em 2016, a Estratégia Global
da UE (EUGS) para Política Externa e de Segu-
rança Comum (PESC) tem como objetivo pro-
mover a cooperação mais estreita em segurança
e defesa de maneira mais pragmática, após a
identificação dos seus desafios urgentes, além
de reafirmar que a ordem internacional deve se
assentar em normas e instituições multilaterais.
De fato, esse é um importante passo e um
sinal de que a UE busca ampliar a sua projeção
internacional. Contudo, ainda parece muito di-
fícil que a Estratégia alcance consenso interno
sobre o uso comum das capacidades militares
dos Estados membros (PIROZZI; TORTO-
LA; VAI, 2017). No caso da política externa,
acontece o mesmo. Apesar de que a reforma
institucional, determinada pelo Tratado de Lis-
boa tenha melhorado os seus mecanismos de-
cisórios, a posição internacional da UE foi en-
fraquecida nos últimos dez anos. Enfatizando o
soft power, a preferência por soluções jurídicas,
primando pela democracia como valor histó-
rico e pela diplomacia multilateral como ins-
trumento político, a UE tem enfrentado difi-
culdades de se ajustar a um mundo multipolar
governado cada vez mais pela disputa de poder
refletida no aumento das tensões geopolíticas.
Poucos Estados Membros estão dispostos a se
subordinar à política externa comum da UE
de caráter essencialmente supranacional (LEH-
NE, 2017). Apesar do Tratado de Amsterdã
(1999) ter criado o posto de Alto Representan-
te da PESC e de outras inovações, os governos
e as instituições europeias ainda preferem man-
ter relações diplomáticas essencialmente indivi-
duais em muitos temas. Como resultado, a UE
não consegue ser a potência normativa global
que pretende, por exemplo, ao manter relações
com países os quais não são democracias e não
aceitam interferência em seus assuntos inter-
nos. Além disso, mais recentemente, a PESC
não parece conferir fôlego para que a UE se
coloque no mesmo nível de Estados Unidos e
China no jogo competitivo global no comércio
e na diplomacia.
Para agravar essa situação, desde a eleição
de Donald Trump à presidência dos Estados
Unidos, em novembro de 2016, as relações
transatlânticas estão abaladas. As provocações
do presidente norte-americano aos líderes eu-
ropeus e as posições políticas dicotômicas em
vários assuntos em ambos os lados do Atlântico
parecem esfriar o seu relacionamento, alinhado
desde o final da Segunda Guerra Mundial, à
medida que se coloca o prospecto de desmo-
bilização norte-americana do sistema regional
de segurança coletiva na Europa, representa-
do pela Organização do Tratado do Atlântico
Norte (OTAN), de 1948. Em julho de 2018,
Trump criticou os europeus por supostamen-
te se “aproveitarem” dos recursos dos Estados
Unidos dentro da aliança transatlântica (NYE,
2017). Mesmo que esse sistema não seja des-
guarnecido no curto prazo, até porque o presi-
dente dos Estados Unidos não é o único ator da
política externa desse país, os norte-americanos
pressionam a UE para ampliar a sua contri-
buição financeira à OTAN. Trump ainda vem
atacando a unidade europeia e se colocando
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contra os pilares do Sistema Internacional libe-
ral multilateral instituído pelos Aliados capita-
listas no pós-Segunda Guerra.
As tensões entre os Estados Unidos e a UE
acerca do futuro das estruturas globais de go-
vernança multilaterais se manifestam em várias
áreas. A maior parte das estruturas globais de
governança é vista como incapaz de enfrentar os
desafios atuais. Elas estão enfraquecidas como
alavancas de cooperação transatlântica (WIC-
KETT, 2018), à medida que norte-americanos
e europeus estão enfrentando desafios internos
e internacionais similares. A dificuldade de
competir com a China nos mercados domésti-
co e internacional é um deles. Suas consequên-
cias para a adaptação da estrutura produtiva e
a contratação de mão-de-obra são diretas para
todos os países do mundo. No caso da UE, efe-
tivamente, as reações políticas nacionalistas e
populistas dos partidos que exploram a ideia de
que as elites abandonaram as classes trabalha-
doras nas últimas décadas cativam os cidadãos
(RILEY; GHILLÈS, 2016) e reforçam a ideia
de que os Estados membros devem deman-
dar que as políticas comuns sejam adotadas
de distintas formas e, dependendo do caso, de
modo mais flexível, ou mesmo com múltiplas
velocidades (LERUTH; LORD, 2015). Sem
dúvida, o Reino Unido é o maior exemplo de
integração diferenciada na Europa, muito antes
da aprovação de sua saída da UE no referendo
popular de junho de 2016, o Brexit.
A “crise existencial” da UE como proje-
to político, econômico e social (SANAHUJA,
2012), em grande medida ainda pode ser cre-
ditada às dificuldades das instituições europeias
de alcançarem soluções coletivas frente às diver-
sas posições individuais, dada a sua frágil capa-
cidade de harmonização dos interesses políticos
e das condições socioeconômicas dos Estados
membros da UE. Philippe Schmitter (1970),
experiente pesquisador sobre o processo de
integração da Europa, chamou a atenção para
isso décadas atrás, ao identificar que o projeto
de integração regional da Europa estava sendo
construído sobre expectativas frustradas e desa-
pontamentos das suas partes porque não foram
institucionalizados mecanismos eficientes no
âmago do projeto integrativo para promover a
harmonização política, orçamentária e tributá-
ria entre os Estados membros. Essa é uma das
características de uma unidade federativa da
Europa, como previram os primeiros projetos
de união no pós-Segunda Guerra Mundial.
Em trabalho mais recente, o mesmo au-
tor conclui, como consequência disso, que
a atual crise política da UE não somente ga-
nhou magnitude maior que o esperado, tanto
supranacional quanto intergovernamental, mas
também parece ter penetrado negativamente
nas instituições políticas nacionais dos Esta-
dos membros (SCHMITTER, 2015). Embora
desde 2009 novas medidas e tratados tenham
sido aprovados e introduzidos na tentativa de
atenuar as pressões do mercado sobre os Es-
tados membros mais fragilizados da Zona do
Euro, eles foram considerados ineficazes pelos
mercados financeiros e ilegítimos por muitos
cidadãos (FABBRINI, 2013).
De modo especial, nos últimos anos, as
dificuldades de manutenção da legitimidade
das instituições supranacionais da UE, concen-
tradas em Bruxelas, vêm implicando na dimi-
nuição do entusiasmo dos seus Estados mem-
bros e da sociedade para apoiar o avanço do
processo de integração regional, uma vez que se
amplia a sua desconfiança sobre os custos ver-
sus os benefícios de participar dele. Aos olhos
de muitos cidadãos, a UE continua sendo uma
tecnocracia (HALL, 2016) e a sua legitimidade
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está pautada basicamente na sua capacidade de
promover prosperidade no continente. Segun-
do Habermas (2012), ao longo das décadas,
a elite burocrata europeia falhou em reforçar
para os cidadãos a história de superação das
rivalidades interestatais dos países da Europa,
alcançando a paz pela integração.
A fragilidade político-institucional da UE
e a sua incapacidade de minimizar insatisfações
e harmonizar decisões sobre temas sensíveis re-
sultam nos atuais conflitos distributivos e na frá-
gil coesão política, econômica e territorial entre
os seus Estados membros (SANAHUJA, 2012)
e cada vez mais em cidadãos que não se sentem
parte importante desse projeto porque poucos
decidem sobre ele. A despeito de os instrumen-
tos democráticos terem sido fortalecidos na
UE, sobretudo com o desenvolvimento e par-
ticipação dos partidos políticos no Parlamento
Europeu (PE), e que o Tratado de Lisboa tenha
lhe conferindo maior poder de codecisão como
órgão legislativo, ironicamente foi ampliado o
espaço para que os líderes nacionais proteges-
sem sistemas políticos domésticos de forma
autocrática. Isso pôde ser percebido nos atos
autoritários recentes que ocorreram em vários
países do Leste Europeu, onde houve vários epi-
sódios de cerceamento à liberdade de expressão
e restrição de direitos políticos. Isso demonstra
que os valores democráticos da UE estão sen-
do atacados. Assim, a crise política coloca mais
pressão sobre o arcabouço político-institucional
europeu (PIROZZI, TORTOLA; VAI, 2017),
que repercute no crescente euroceticismo.
Por fim, há uma crise de liderança na UE.
A Alemanha, que historicamente teve esse pa-
pel no processo de integração da Europa, parece
relutar em se colocar no fronte das negociações
em defesa da união política e das instituições
supranacionais. Ainda que ela continue reto-
ricamente afirmando que o caminho político
para a UE é a concessão de soberania nacional
dos Estados membros às instituições comunitá-
rias supranacionais e uma união cada vez mais
federalizada da Europa (OTERO-IGLESIAS,
2017), a sua posição reflete o desejo de que as
instituições europeias sigam, acima de tudo, o
modelo alemão de promoção de estabilidade
macroeconômica (SCHILD, 2013). Os ale-
mães estão mais empenhados em proteger seus
próprios interesses e, por conseguinte, insistem
na disciplina fiscal como condição primordial
para o avanço da integração regional (PETER-
SON, 2011). Como consequência disso, a lide-
rança da Alemanha na UE se enfraquece, pois
ela não consegue o apoio de muitos dos seus
demais parceiros do bloco em outras questões.
Diante deste cenário, próximo do pro-
cesso de integração da Europa completar sete
décadas e face a essa crise de múltiplas dimen-
sões, é provável que ele tenha que continuar se
adaptando, mesmo que isso signifique grada-
tivamente mais exceções às regras existentes e
integração em diferentes velocidades.
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10 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.10 - 18, mai. 2020
Tendências e desafios da Política Externa
de Bolsonaro: resgate do choque das
civilizações, declínio da ordem liberal e
rupturas internas
Trends and challeges of Bolsonaro’s Foreign Policy: rescuing the clash of civilizations, the
decline of the liberal order and internal disruptions
Tendencias y desafíos de la política exterior de Bolsonaro: rescate del choque de civiliza-
ciones, declive del orden liberal e rupturas internas
Klei P. Medeiros
1
Vinícius H. Vilas Boas
2
Enrico M. Andrade
3
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2020v17n1p10
Recebido em: 15 de junho de 2019
Aprovado em: 06 de outubro de 2019
Resumo:
Aqui propomos que o olhar externo de Bolsonaro, do chanceler e do incipiente movimento
conservador brasileiro encontram eco em abordagens como a do “choque das civilizações”,
de Huntington - que parece estar sendo resgatada e adaptada ao contexto da década de
2010. Isso soma-se à uma desconfiança da ordem liberal global e a tentativas de transfor-
mar o ethos e o funcionamento tradicional do Itamaraty.
Palavras-chave: Política Externa de Bolsonaro. Choque das Civilizações. Ordem liberal global.
Abstract:
Here we propose that the external view of Bolsonaro, the chancellor and the incipient
Brazilian conservative movement is echoed in approaches such as Huntington’s “clash of
civilizations” - which seems to be being rescued and adapted to the context of the 2010s.
Added to this, there is a distrust of the global liberal order and attempts to transform the
ethos and traditional functioning of the Ministry of Foreign Affairs.
Keywords: Bolsonaro Foreign Policy. Clash of Civilizations. Global liberal order.
1 Professor de Relações Internacionais na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas), doutorando no Pro-
grama de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp-Unicamp-PUC-SP) e mestre em Ciência Política pela Universidade Federal
do Rio Grande do Sul (UFRGS). Poços de Caldas, Minas Gerais, Brasil. ORCID ID: https://orcid.org/0000-0003-0241-7742
2 Pesquisador do Grupo de Pesquisa das Potências Médias (GPPM-PUC-Minas), bolsista do Fundo de Incentivo à Pesquisa (FIP-
-PUC-Minas) e graduando em Relações Internacionais na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas). Poços
de Caldas, Minas Gerais, Brasil. ORCID ID: https://orcid.org/0000-0003-4203-5546
3 Pesquisador do Grupo de Pesquisa das Potências Médias (GPPM-PUC-Minas), bolsista do Fundo de Incentivo à Pesquisa (FIP-
-PUC-Minas) e graduando em Relações Internacionais na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas). Poços
de Caldas, Minas Gerais, Brasil. ORCID ID: https://orcid.org/0000-0002-1988-3398
Artigo
10 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte,
ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.10 - 18, mai. 2020
11 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.10 - 18, mai. 2020
Introdução
As primeiras medidas do Governo Bolso-
naro no âmbito externo, como a viagem à Is-
rael e aos Estados Unidos (EUA), bem como
as mudanças no Itamaraty, levaram a uma dis-
cussão entre acadêmicos e policymakers a respei-
to da visão de mundo dos atuais formuladores
da política exterior brasileira. Portanto, aqui
se investiga a lógica por trás do pensamento
conservador brasileiro como vinculada a uma
ressignificação do “choque das civilizações” no
pós-Guerra Fria, somado à recente discussão a
respeito do suposto declínio da ordem interna-
cional liberal. Ao mesmo tempo, as primeiras
ações do governo Bolsonaro demonstram uma
ruptura interna no pragmatismo e na racio-
nalidade-burocrática, típicos da diplomacia
brasileira e, consequentemente, um desafio no
sentido de conferir coerência aos receptores in-
ternacionais e internos de tal política nos pró-
ximos anos.
Neste artigo, não defendemos que a abor-
dagem do “choque das civilizações” é de fato
uma boa fonte de explicação para as relações
internacionais atuais, mas sim que é uma
perspectiva que explica como o incipiente
movimento conservador brasileiro enxerga o
mundo. Incubada ao longo dos anos 2000, a
explicação culturalista, religiosa e civilizacional
é resgatada aos fins da década de 2010. Sua res-
significação e interpretação por parte dos to-
madores de decisão brasileiros são apresentadas
aqui como estreitamente vinculadas ao debate
recente sobre o fracasso da ordem liberal. Esta é
acusada de não ter sido capaz de conter a mul-
tipolarização e a diversificação de um mundo
cada vez menos ocidental.
O conservadorismo dos anos
2010 e a ressignificação do
choque das civilizações como
interpretação do desafio
multipolar
O mundo pós-Guerra Fria é marcado por
uma tendência à multipolaridade sistêmica e a
um questionamento da unipolaridade estadu-
nidense. No nível da ordem internacional, se
ao fim da Guerra Fria interpretava-se o mo-
mento como o “fim da história” e o triunfo
do liberalismo internacional (FUKUYAMA,
1992), outras interpretações sugeriram mudan-
ças identitárias e simbólicas, que direcionam a
política global a uma reconfiguração conflitiva
baseada em parâmetros culturais. Essa segunda
interpretação, concebida por Samuel Hunting-
ton (1996), embora inicialmente concernente
ao contexto dos anos 1990, permite compreen-
der uma série de processos que se intensificam
na segunda metade dos anos 2010.
Segundo Huntington (1996), no pós-
-Guerra Fria, o mundo é tanto multipolar
quanto “multicivilizacional”. Neste contexto,
Resumen:
Proponemos aquí que la mirada externa de Bolsonaro, del canciller y del incipiente mo-
vimiento conservador brasileño se hace eco en enfoques como el del “choque de civilizacio-
nes”, de Huntington, que parece estar siendo rescatado y adaptado al contexto de los años
2010. A esto se agrega una desconfianza en el orden liberal global e intentos de transfor-
mar el ethos y el funcionamiento tradicional del Ministerio de Relaciones Exteriores.
Palabras clave: Política Exterior de Bolsonaro; Choque de civilizaciones; Orden liberal global.
12 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.10 - 18, mai. 2020
a política local se torna étnica e a política glo-
bal se torna civilizacional, de modo que as dis-
tinções mais importantes entre as pessoas são
culturais, tornando a cultura uma força tanto
divisível quanto unificadora. As forças de inte-
gração no mundo geraram “contraforças” cul-
turais e consciência civilizacional, incitando a
produção de inimigos para reforçar diferenças
identitárias, que crescem conforme a religião
é revitalizada e relacionada a pautas políticas
(HUNTINGTON, 1996).
Nos anos 1990 e 2000, a ideia de choque
das civilizações se atrelava à cisão entre a civili-
zação árabe-muçulmana e o mundo ocidental,
sobretudo com a ascensão da temática do terro-
rismo e sua associação com a comunidade mu-
çulmana. Na década de 2010, verifica-se, por
parte do movimento conservador, um olhar
mais atento e desconfiado sobre a ascensão chi-
nesa e a sua conexão com a Rússia como amea-
ças ao mundo ocidental. Por outro lado, estu-
dos sobre “mundo pós-ocidental’ (ACHARYA;
BUZAN, 2009; KUPCHAN, 2012; STUEN-
KEL, 2016) se difundiram, em meio a uma
crescente ascensão geoeconômica da Ásia e a
uma disputa global pelo controle geopolítico
sobre o Oriente Médio como área estratégica
entre Europa, Rússia e China.
Mesmo que o movimento conservador
tenha uma longa trajetória interna em alguns
países, como nos Estados Unidos, o descon-
tentamento com a crise econômica, após 2008,
parece ter reforçado o movimento no sentido
de culpar o “estrangeiro” e o mundo oriental
por problemas que derivam, muitas vezes, de
falhas governamentais internas. Esse processo
interno envolve uma desconfiança da democra-
cia em geral (CASTELLS, 2018), por um lado,
e uma tentativa de inserir na política externa
uma forma de ação que garanta a preservação
da cultura judaico-cristã e um enfrentamento
mais incisivo em relação às diversas civilizações
orientais, por outro. Se a globalização era vista
como benéfica aos EUA e à Europa nos anos
1990, ao proporcionar difusão econômica e
de soft power cultural para todas as regiões do
globo, agora o movimento é inverso: a globa-
lização e a abertura são vistas como ameaças
aos seus antigos defensores, seja pela ascensão
econômica de regiões periféricas e semi-perifé-
ricas, seja por proporcionar maior facilidade de
influência de civilizações antes invisíveis.
Desse modo, a homogeneidade promovi-
da pela globalização neoliberal nos anos 1990
passou a ser vista como culpada na década de
2010. A ascensão da extrema-direita em paí-
ses como a Itália, Hungria, Polônia, Brasil e,
mesmo nos Estados Unidos, tem explicito ca-
ráter cultural, uma vez que a defesa de “valores
ocidentais” é discurso presente na retórica de
líderes destes Estados. Interessante é notar que,
segundo a definição de Huntington (1996),
a civilização ocidental é composta apenas por
Estados Unidos e Europa Ocidental, o que ex-
clui o Brasil do grupo. Ainda assim, a defesa do
Ocidente e da sociedade judaico-cristã é discur-
so recorrente na nova política externa brasileira.
Mas por que no Brasil essa discussão é só
recuperada agora? Ao longo do século XX, o
país evitou envolver-se nas disputas entre gran-
des e superpotências; mas, em momentos deci-
sivos e, como um todo, esteve sempre atrelado
à órbita de influência norte-americana e euro-
peia. Com as políticas de Cooperação Sul-Sul
e a aproximação com China, Índia e Rússia,
sobretudo no âmbito dos BRICS, na década de
2000 e 2010, o movimento conservador brasi-
leiro passou a enxergar a ascensão do Oriente
como parte de um mesmo processo globali-
zante vinculado à permissividade com que a
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estratégia liberal norte-americana concebeu o
mundo no início do Pós-Guerra Fria. Portan-
to, os policy-makers atuais no Brasil vinculam a
ascensão de novas regiões e civilizações, típicos
da tendência multipolar, às falhas da lógica da
ordem liberal concebida nos anos 1990.
O declínio da ordem
internacional liberal visto
como esperança para reerguer
o Ocidente
A ideia de ordem liberal considera a pos-
sibilidade de interdependência e múltiplas in-
fluências culturais e civilizacionais. Portanto,
passou a ser associada, por movimentos conser-
vadores, ao declínio do Ocidente. Ordem é uma
amálgama de instituições internacionais que
ajudam na governança das interações entre os
Estados que fazem parte dela. No caso específico
da ordem internacional liberal, essas instituições
são pautadas nas regras e valores liberais, como
a promoção do livre comércio, da democracia
liberal, do multilateralismo e da defesa dos di-
reitos humanos (MEARSHEIMER, 2018).
Ikenberry (2018) afirma que essa ordem
está em crise, agravada pela eleição de Trump,
primeiro presidente estadunidense desde a dé-
cada de 1930 que é ativamente hostil à ordem
internacional liberal. Os Estados Unidos, des-
de o fim da bipolaridade, moldava e expandia
a ordem internacional liberal de acordo com
seus interesses. Porém, desde 2017, o princi-
pal patrocinador da ordem não se mostra mais
capaz e disposto a administrá-la. O atual pre-
sidente norte-americano já fez declarações que
vão na contramão do internacionalismo libe-
ral em relação a comércio, multilateralismo,
meio-ambiente, direito internacional, tortura e
direitos humanos (IKENBERRY, 2018). Tam-
bém, nesse contexto, verifica-se o declínio da
democracia liberal, motivado pela desconfian-
ça da população em relação às instituições que
a governam. Essa ruptura entre governantes e
governados leva à deslegitimação da represen-
tação política, que culmina na ascensão de lide-
ranças que se autodeclaram anti-establishment,
fazendo posteriormente a população aceitar
um “autoritarismo soft” (CASTELLS, 2018).
Por conseguinte, o conservadorismo emer-
gente argumenta ter a intenção de proteger o
Ocidente de seu declínio, uma vez que a or-
dem internacional liberal não teria sido capaz
de cumprir essa tarefa: por seu caráter de defesa
dos direitos humanos de maneira mais ampla,
e a pautas mais específicas, como defesa dos di-
reitos dos refugiados e da comunidade LGBT+,
o liberalismo globalizado é culpado pela “crise
moral” que o Ocidente vive. Também o livre-
-comércio e o multilateralismo, outros impor-
tantes princípios da ordem liberal, são respon-
sabilizados pelas crises econômicas e migratórias
da década de 2000 e 2010 (ARAÚJO, 2019).
Visto isso, enquanto o choque das civili-
zações fornece a matriz civilizacional, cultural e
religiosa para o movimento conservador inter-
pretar o mundo atual, a ordem liberal é posta
como prejudicial por estimular o declínio do
Ocidente e permitir a ascensão de novas regiões
e civilizações, mudanças que geralmente são in-
terpretadas no mainstream acadêmico como a
passagem da unipolaridade para a multipola-
ridade - em termos apenas de distribuição de
capacidades. Uma boa parte do mainstream
acadêmico não confere contornos subjetivos e
identitários para essa narrativa sistêmica. A di-
ferença existe, portanto, mais no modo de con-
tar a história e nos métodos imaginados para
conter potências desafiantes, algo já visto no
contexto da Guerra Fria, por exemplo.
14 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.10 - 18, mai. 2020
Conservadorismo a la
brasileira: Bolsonaro, as
rupturas no Itamaraty, o
dogmatismo e a moralidade
A administração de Bolsonaro, apesar das
promessas de campanha de uma “desideologiza-
ção” das políticas doméstica e externa
4
, amarra
um discurso conservador, ocidentalista e cris-
tão ao interesse de aproximação com os EUA e
Israel, na esperança de obter ganhos com esses
alinhamentos, bem como conformar um bloco
de resistência à emergência do mundo árabe-
-muçulmano e chinês, vistos como estranhos e
ameaças à verdadeira “alma brasileira”.
Mesmo que tais tendências pudessem ser
imaginadas antes da posse, os primeiros me-
ses de Bolsonaro demonstraram uma série de
rupturas na política externa, embora com uma
tentativa frequente de amenizar tais transfor-
mações. Um dos primeiros marcos para a polí-
tica externa foi o discurso do presidente no Fó-
rum Econômico de Davos. Ali, diante de uma
plateia composta pela elite econômica mundial
e interessados em liberalização, Bolsonaro sua-
vizou seu discurso mais radical, que tradicio-
nalmente é usado para agradar o público bra-
sileiro. Esse fato demonstrou, primeiro, que
não houve um choque do público interessado
em economia e, segundo que, mesmo sendo
conservador, o presidente se propõe a um pro-
jeto neoliberal no nível econômico (EM SEU
4 “Países, que buscaram se aproximar mas foram preteridos
por razões ideológicas, têm muito a oferecer ao Brasil, em
termos de comércio, ciência, tecnologia, inovação, educação
e cultura” (TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL, 2018).
“O Brasil voltará a ser um país livre de amarras ideológicas
[...] Precisamos criar um círculo virtuoso para a economia
que traga a confiança necessária para permitir abrir nossos
mercados para o comércio internacional, estimulando a
competição, a produtividade e a eficácia, sem o viés ideoló-
gico” (BOLSONARO, 2019).
DISCURSO..., 2019). Talvez essa seja uma das
marcas desse conservadorismo à la brasileira,
pois une uma dimensão moralizante com um
projeto econômico neoliberal, diferentemente
de outros grupos de extrema-direita que toma-
ram poder e têm apostado na proteção do mer-
cado nacional, como é o caso de Trump.
Na visita aos EUA, o tom eufórico do
presidente e de sua comitiva foi acompanhado
de diversas concessões por parte de Brasília à
Washington, como a permissão do uso da Base
de Alcântara para lançamento de foguetes e sa-
télites, a facilitação no visto de entrada destes no
Brasil e a intenção de avaliar a saída do Brasil da
lista de países em desenvolvimento com trata-
mento preferencial na Organização Mundial do
Comércio (OMC) (OLIVEIRA, 2019). Em tro-
ca, foram diversas promessas por parte dos EUA:
a promessa de apoio à entrada do Brasil na Orga-
nização para a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico (OCDE) e a promessa de tratamen-
to preferencial ao Brasil como aliado extra-Orga-
nização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN)
(MARS; GORTÁZAR, 2019) - algo que sequer
fora mencionado na cúpula posterior da OTAN
em que os EUA participaram (BULLA, 2019).
Essa visita apontou, pois, para a tendência à re-
cuperação do chamado “americanismo ideológi-
co” na política externa brasileira (SOARES DE
LIMA; ALBUQUERQUE, 2019).
Na visita a Israel, também marcada por
contornos religiosos e ideológicos, o presidente
brasileiro foi incapaz de concretizar uma de suas
principais promessas de campanha– a mudan-
ça da embaixada de Tel-Aviv para Jerusalém –,
frustrando Netanyahu, Trump, e boa parte do
eleitorado evangélico de Bolsonaro. A abertura
de um escritório comercial em Jerusalém foi a
solução encontrada para cumprir parcialmente
a promessa, medida que não agradou nenhum
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dos lados (STUENKEL, 2019a). Além disso, a
tensão criada pela intenção de mudança da em-
baixada pode prejudicar a exportação de carnes
para os países árabes (CARNEIRO, 2019).
O contorno estratégico seria a intenção de
buscar em Israel apoio à modernização tecnológica
do país, tanto na área militar quanto na importa-
ção de sistemas de irrigação para auxiliar a agricul-
tura nordestina (PARCERIA..., 2018). No nível
religioso, a visita simboliza a preservação da civi-
lização judaico-cristã, atrelada à crença da Frente
Parlamentar Evangélica brasileira de que Jerusalém
será o palco do apocalipse e de que a conversão dos
judeus ao cristianismo é um precedente do retorno
de Cristo à Terra (DUCHIADE, 2019).
Em maio de 2019, enquanto o chance-
ler brasileiro Ernesto Araújo realizou visitas a
países de governos conservadores na Europa
(EM VIAGEM..., 2019; APÓS..., 2019a), o
vice-presidente General Mourão realizou visita
à China, onde Xi Jinping reforçou o discurso
de que seu país está interessado no desenvol-
vimento do Brasil (XI..., 2019). O vice fora
incumbido desde o início a coordenar as rela-
ções com os BRICS, sobretudo China e Rússia
(SCHUQUEL, 2019). Isso demonstra que di-
ferentes atores-chave no governo realizam tare-
fas diplomáticas distintas, evidenciando contra-
dição e falta de coerência, sobretudo entre dois
eixos: Paulo Guedes (Ministro da Economia) e
Gen. Mourão, em uma linha mais vinculada à
tradicional ordem liberal (chamada pelos con-
servadores de “globalista
5
) e o presidente e o
5 O termo “globalismo” é tradicionalmente pouco utilizado
na área de Relações Internacionais e, recentemente, passou
a ser difundido entre grupos específicos, com fins político-
-partidários, interessados na rejeição dos regimes interna-
cionais e do multilateralismo. Mesmo que ainda falte con-
sistência e discussão teórica sobre o termo, aqui utiliza-se
apenas para ilustrar a dicotomia e a contradição dentro do
Itamaraty comandado por Ernesto Araújo.
chanceler adotando discursos mais alinhados à
postura “anti-globalista”(STUENKEL, 2019b).
Verifica-se, pois, dentro da gestão do Itamaraty,
a presença do dogmatismo contornando o prag-
matismo e da moralidade tentando se impor so-
bre a tradicional racionalidade burocrática (AL-
LISON, 1969; FIGUEIRA, 2011) do órgão.
No âmbito sul-americano, destacaram-se
a visita à Argentina, marcada por apoio vela-
do à reeleição do presidente de centro-direita
Maurício Macri (APÓS..., 2019b). O discurso
da equipe econômica brasileira oscilou entre
aprofundar o Mercosul, inclusive cogitando
a adoção de uma moeda comum (IDEIA...,
2019) e, por outro lado, após resultados par-
ciais que apontaram vitória da oposição à Ma-
cri na Argentina, ameaças do Brasil abandonar
o Mercosul (O JOGO..., 2019). Também,
nesse contexto, chegou-se ao acordo comercial
Mercosul-União Europeia, que ainda necessi-
ta ratificação e aceitação de países europeus.
O acordo viu-se ameaçado pela discordância
de países europeus, como a França, em relação
à política ambiental brasileira na Amazônia e
o aumento no número de queimadas (MA-
CRON..., 2019). Além disso, o agrobusiness
brasileiro tradicionalmente tem interesse na
expansão de negócios através de uma política
ambiental mais frouxa, o que permitiria a esse
setor ter mais vantagens comerciais em relação
à produção agrícola europeia.
O discurso de Bolsonaro na abertura da
Assembleia Geral da ONU de 2019 represen-
tou, em meio à atenção da opinião pública
internacional voltada para a Amazônia e para
o Brasil, que o governo não tem interesse em
levar em conta posições estrangeiras sobre a
preservação ambiental no país. Pelo contrário,
o discurso reforçou o viés conservador da po-
lítica externa em consonância com movimen-
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tos semelhantes a nível global (GUIMÓN,
2019). Ademais, percebeu-se o tom anti-eu-
ropeu (com acusações de “colonialismo”) e
críticas a Cuba, à Venezuela e ao marxismo
(SANCHES, 2019). A contradição principal
reside no fato de que o agronegócio é um dos
principais eixos de apoio ao governo Bolso-
naro, mas compete com a União Europeia e
fornece alimentos em massa para a China. Os
EUA, por outro lado, tem comércio concor-
rente com o Brasil, e não complementar (LI-
VRE..., 2019). A dificuldade de agregar nas
relações externas os interesses econômicos e os
ideológicos em uma lógica coerente traz im-
previsibilidade para os receptores estrangeiros
da política externa brasileira.
Figura 1 – Quadro sintético das tendências e contradições na política externa de Bolsonaro
Fonte: elaborado pelos autores (2019)
Conclusões: tendências e
desafios
O suposto atrito civilizacional se tornou
uma forma de interpretar a realidade pós-
-Guerra Fria por parte de grupos conservado-
res, acrescentando uma narrativa de disputa
que supera a lógica geopolítica e geoeconômi-
ca e aposta na ideia de uma espécie de Nova
Guerra Fria Multipolar. A política externa bra-
sileira de Bolsonaro dialoga, portanto, interna-
cionalmente, com uma tendência conservado-
ra e religiosa-civilizacional. Essa interpretação
de mundo é respaldada também pelo movi-
mento conservador (sobretudo o norte-ameri-
cano), pela própria política externa de Trump
e, academicamente, por abordagens como a
do “choque das civilizações”, de Huntington.
Mais do que isso, a lógica do choque das ci-
vilizações se mescla com a discussão sobre a
ineficiência da ordem internacional liberal em
dar conta das transformações que ameaçam o
mundo ocidental. Ascendem, nesse sentido,
interpretações de que a aposta na globalização
e no liberalismo, nos anos 1990 e 2000, fo-
ram estratégias inadequadas para lidar com a
ascensão do mundo oriental (China, Rússia e
mesmo Oriente Médio) e, agora, seria necessá-
rio adotar uma postura mais dura e conserva-
dora em relação às regiões emergentes.
17 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.10 - 18, mai. 2020
O Brasil, por sua vez, se agarra a essa nova
interpretação de mundo. Entretanto, o fato de se-
rem poucos (ao menos por enquanto) os países
que enxergam as relações internacionais dessa for-
ma pode resultar em isolamento e incompreensão
no âmbito global. Também isto leva o país a usar
como bengala o governo Donald Trump, o que
pode ser um risco, dada a necessidade de diversifi-
cação em um mundo complexo. No nível interno,
a substituição do pragmatismo pelo dogmatismo,
e da racionalidade burocrática por um senso de
moralidade, implica também em resistências no
Itamaraty, em alguns setores do governo (como
economia e setor militar) e na própria sociedade
civil, dificultando sua implementação. Ao fim e
ao cabo, o movimento conservador brasileiro ain-
da precisa amadurecer e desenvolver sua própria
auto-imagem, respondendo de uma maneira coe-
rente qual é o papel do país em termos culturais
globais e a função que exerceu e exerce em relação
à multipolarização do globo e à emergência de
múltiplas civilizações. Como país multirreligioso
e multirracial, produzir narrativas unificadoras
que legitimem a atual política externa é um enor-
me desafio. Mesmo que o público-alvo de algu-
mas ações externas sejam os eleitores domésticos, é
bem provável que a coalizão de grupos sociais que
o elegeu não se sustente e se fragmente. Sobretudo
se for considerado que o neoliberalismo econômi-
co e a visão de mundo das atuais elites brasileiras
dificilmente se coadunam com o conservadorismo
internacional. O híbrido liberalismo-conservado-
rismo é capaz de modificar trajetórias políticas
internas em um país, mas apresenta contradições
que podem levar à formação de novos blocos go-
vernamentais e rearranjo de forças.
Entretanto, neste artigo, não buscou-se expli-
car os fatores que levaram à absorção tardia da ideia
de choque de civilizações por parte do movimento
conservador brasileiro. Isso exigiria compreender
as mudanças nas correlações de forças sociais inter-
nas ao Brasil
6
. O que aqui buscou-se demonstrar
foi como a perspectiva de Bolsonaro e de seu chan-
celer mescla elementos civilizacionais, religiosos e
culturais com uma compreensão da ordem liberal,
das instituições e regimes internacionais pós-1945
como inadequados à defesa da civilização ociden-
tal, da qual consideram o Brasil fazer parte.
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Acesso em: 11 jun. 2019.
6 Por exemplo, sugere-se aqui pesquisas que identifiquem como
movimentos ascendentes em termos religiosos no Brasil estive-
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19 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.19 - 26, mai. 2020
Les origines du conflit syrien (2011-
2018)
1
: de l’hégémonie Baathiste à la
suprématie néolibérale
As origens do conflito sírio (2011-2018): da hegemonia Baathista à supremacia neoliberal
e origins of the Syrian conflict (2011-2018): from Ba’athist hegemony to
neoliberal supremacy
Felipe Costa Lima
2
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2020v17n1p19
Reçu le 25 mai 2019
Accepté le 17 septembre 2019
Résumé
L’objectif de cet article réside dans la démonstration de l’influence du néolibéralisme et des
réformes néolibérales dans le conflit syrien (2011-2018). Afin d’atteindre cet objectif, il
est indispensable de mettre l’accent sur la perte hégémonique du parti Baath, surtout à
partir des changements des « idées/habitudes » du Baathisme au néolibéralisme.
Mots clés : Baathisme. Néolibéralisme. Hégémonie.
Resumo
O objetivo deste artigo é a demonstração da influência do neoliberalismo e de suas respec-
tivas reformas sobre conflito sírio (2011-2018). A fim de atingir esse objetivo, a análise
da perda hegemônica do partido Baath será indispensável, principalmente a partir das
mudanças das “ideias/hábitos” do Baathismo ao neoliberalismo.
Palavras chave : Baathismo, Neoliberalismo, Hegemonia.
Abstract
e goal of this article is to explicit the influence of neoliberalism and its reforms as con-
cerns the Syrian War (2011-2018). To achieve this goal, it is crucial to contemplate the
hegemonic loss of the Baath Party, mainly from the changes concerning the ‘ideas/habits
from Ba’athism to neoliberalism.
Keywords : Ba’athism, Neoliberalism, Hegemony.
1 Article basé sur le mémoire « Analyse critique de l’évolution du droit international à la lumière de l’exemple syrien : du colo-
nialisme au néocolonialisme », qui a été soutenu le 5 septembre 2018 à l’Université de Strasbourg, France.
2 Professeur temporaire de civilisation lusophone et d’histoire de l’Amérique Latine à l›Institut d›études Romanes de l›Université
de Strasbourg, France ; doctorant en Droit International à l’Université de Strasbourg, ainsi que doctorant à la Pontifícia Univer-
sidade Católica de Minas Gerais, Brésil (Bourse CAPES) (Cotutelle de thèse). Numéro ORCID 0000-0001-6390-3950.
Artigo
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ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.19 - 26, mai. 2020
20 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.19 - 26, mai. 2020
Introduction
Le néolibéralisme constitue un phéno-
mène global, malgré ses spécificités locales, au
regard des caractéristiques singulières des pays
et des régions dans le monde (GRAMSCI,
1982; MORTON, 2007; WORTH, 2010).
Le mouvement pro-marché est né d’une pers-
pective nationale (États-Unis), qui s’est ensuite
étendue au contexte mondial afin de profiter à
ce pays. Il semble que les États-Unis étaient le
principal articulateur et bénéficiaire de l’impo-
sition du néolibéralisme dans le monde, tout
comme le Royaume-Uni l’était pendant l’hé-
gémonie libérale (ARRIGHI; SILVER, 2003).
Selon Cox e Schechter (2002), l’empire amé-
ricain a pour modus operandi la tentative de
contrôler les États, à travers la structuration de
son système économique dans un vaste marché
de capitaux, de biens et de services.
À partir des conceptions de l’École de
Francfort, ses riches héritages des concepts,
idées et pratiques analytiques marxiens, ainsi
que les études d’autres théoriciens – comme Lu-
kacs, Gramsci, Benjamin, Adorno et Horkhei-
mer – ont alors été développés et réinterprétés
à la réalité contemporaine. Dans ce contexte,
le néolibéralisme constitue un exemple primor-
dial, vu l’objectif des classes dominantes trans-
nationales (PIJL, 2005) de transformer leurs
intérêts particuliers en des intérêts universels.
Dans ces conditions, en particulier, l’idéologie
(MARX; ENGELS, 1999) constitue le chemin
pour établir ces intérêts comme les seuls raison-
nables et universellement valables (telle une loi
éternelle) (HIRSHC, 1975).
Les changements dans l’organisation de
la production, de la distribution et des modes
de consommation promus par l’idéologie néo-
libérale ont eu pour conséquence une profonde
crise sociale à l’échelle mondiale. Concernant
la Syrie, bien que certains objectifs fondamen-
taux ont été satisfaits, par exemple l’augmen-
tation de la productivité, des gains d’efficacité
et une meilleure allocation des ressources, le
néolibéralisme a imposé des conséquences ca-
tastrophiques aux conditions sociales de la po-
pulation syrienne (KADRI; MATAR, 2016).
Pendant la recherche hégémonique, la
coercition et le consensus sont les moyens de
mise en œuvre principaux (GRAMSCI, 1982).
S’agissant du consensus, la diffusion d’une
culture et d’un mode de pensée particulier
au sein de la société, notamment à travers des
ramifications de l’État, se révèlent essentiels,
étant donné que les idéaux et les bases poli-
tiques des sociétés ont besoin d’être connectés
aux conditions économiques fortifiées.
C’est pourquoi, nous rechercherons dans
un premier temps, les piliers de la construc-
tion hégémonique Baathiste. Ensuite, nous
analyserons les changements économiques, so-
ciaux, politiques et idéologiques causés par les
reformes néolibérales en Syrie, notamment au
cours du gouvernement de Bachar al-Assad et
ses effets sur l’hégémonie Baathiste.
Lorsque la Syrie était au bord du conflit,
deux logiques idéologiques contradictoires se
sont établies: les promesses socialistes de dé-
veloppement initiées par l’État, à partir d’un
contrôle coercitif autocratique (l’idéologie
Baathiste) et la possibilité de mobilité vers le
haut et le plaisir des consommateurs (des ini-
tiatives personnelles appuyées par l’idéologie
du marché). Dans ce contexte, nous voulons
mettre en évidence que le conflit syrien actuel
peut être expliqué à partir de ce changement
hégémonique, bien que d’autres raisons soient
aussi indispensables pour l’expliquer, étant
donné sa complexité.
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Afin d’atteindre ces objectifs analytiques,
il est indispensable, à notre avis, d’appliquer la
méthode des structures historiques de Robert
Cox (1981), sachant que la théorie critique se
révèle une méthodologie cruciale pour la com-
préhension des changements hégémoniques
au niveau du monde. Nonobstant, bien que
les contextes des capacités matérielles et l’ins-
titutionnalisation soient fondamentaux à cette
appréhension, nous approfondirons surtout
l’encadrement des idées et habitudes en Syrie
à partir d’analyses macro-historiques de la pé-
riode de l’hégémonie Baathiste et du néolibéra-
lisme. Dans cet encadrement, les trois axes de
domination de ompson (2000) seront fon-
damentaux: la coercition, les élites médiatrices,
et le développement d’un ordre civil.
La construction de
l’hégémonie baathiste – des
idées et habitudes autochtones
Il est indispensable de mettre en évidence
la métamorphose de la bourgeoisie d’État sy-
rienne depuis la révolution Baathiste jusqu’à
la révolte syrienne des années 2010. Le coup
d’état du Parti Baath pendant les années 1960
a conduit à des profonds changements dans la
société syrienne. Ces réformes ont commencé
avec le gouvernement d’Abdel Nasser entre
1958-1961 (pendant l’union entre la Syrie et
l’Égypte) et ont été développées après la révo-
lution (JOYA, 2010).
La classe militaire Baathiste, dans le cadre
de l’étatisme du Parti Baath, dans les années
1970 et 1980, tirait ses privilèges directement
de la domination informelle des institutions pu-
bliques et de son utilisation pour ses propres in-
térêts et de ses circonscriptions. Par conséquent,
cette classe militaire avait un profond besoin du
gouvernement central et de la division de pou-
voir imposé par celui-ci (JOYA, 2010).
Il semble que la force de ce médiateur
Baathiste ne se compare pas avec la force des
élites nationalistes médiatrices de la période
postcoloniale. Concernant la construction de
l’ordre civil, l’extension des « tentacules » éta-
tiques ont atteint les niveaux les plus profonds
depuis la fin de l’Empire Ottoman (THOMP-
SON, 2000). En ce sens, l’axe de médiation,
bien qu’essentiel, était moins important au
cours du régime Baathiste, par rapport au ré-
gime colonial précédent. De ce fait, le renfor-
cement du contexte des idées et habitudes a été
mis en place, compte tenu de l’amélioration
des conditions de vie de la population et, ainsi,
l’expansion de l’idéologie baathiste socialiste.
Concernant la construction et la présence
de l’État dans l’ordre civil, une brève analyse des
changements dans les zones rurales du régime
Baathiste liés au néolibéralisme nous donnera
une idée des changements relatifs à la promo-
tion du bien-être entre ces périodes. La montée
de l’aile gauche du Baath et son arrivée au pou-
voir en 1966 ont conduit à d’intenses réformes,
comme la limitation de la propriété privée, des
nationalisations, la redistribution des terres,
l’amélioration des conditions de travail, le sa-
laire minimum, la limitation de la journée
de travail, transformant, par conséquent, une
agriculture marquée par des relations féodales
(TAHA, 2014).
Par ailleurs, dans les journaux, dans la té-
lévision et lors des spectacles orchestrés par le
gouvernement d’Hafez al-Assad, ce dernier était
symbolisé comme le « père » de la nation. En ce
sens, le culte de la personnalité d’Hafez al-As-
sad participait à une stratégie politique disci-
plinaire de dissimulation publique, en utilisant
une forme subtile mais efficace de pouvoir. Par
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ailleurs, la rhétorique officielle du parti Baath
mettait l’accent sur la fierté de ce parti dans le
commandement de la politique étrangère de la
nation, afin d’étendre un large consensus en fa-
veur d’une résistance nationale, en raison des
conspirations étrangères par rapport à la Sy-
rie (WEDEEN, 2013). De ce fait, le domaine
idéologique privilégié Baathiste a conduit, en
utilisant les concepts de Slavoj Zizek (1995), à
une soumission consciente à l’autorité (l’obéis-
sance, la conviction, la légitimité). En outre,
il est indispensable de souligner qu’il existait
des alternatives bien définies, avec une force
idéologique vis-à-vis du capitalisme libéral,
comme le socialisme soviétique et le Welfare
State (WEDEEN, 2013). En ce sens, une alter-
native idéologique autochtone a été appliquée
au territoire syrien par le gouvernement révo-
lutionnaire des années 1960, approfondissant
profondément ces idées et habitudes.
Néanmoins, la crise économique du mi-
lieu des années 1980 a provoqué des change-
ments profonds en Syrie (JOYA, 2010). Les
causes de cette crise ont été essentiellement la
chute des prix internationaux du pétrole en
1986, laquelle a conduit à une chute brutale
des flux d’aide des pays arabes conservateurs
vers la Syrie, ainsi que le déficit de la balance
des paiements. De surcroît, la priorité donnée
aux dépenses militaires, surtout après la guerre
israélo-arabe en 1973 et les accords de Camp
David de 1979 , a drainé des ressources prove-
nant d’autres contextes, notamment des pro-
jets de développement et d’infrastructure. En
conséquence, l’infrastructure de base n’a pas
jamais été réhabilitée et les niveaux de produc-
tion ont chuté (KADRI; MATAR, 2016). À
partir de ces bases, ainsi que des changements
causés par l’expansion de l’idéologie néolibé-
rale et le « manque d’alternatives » idéologiques
en raison de la crise et de la chute de l’ex-Union
Soviétique, les contre-réformes du régime de
Hafez al-Assad se sont approfondies à la fin des
années 1980.
Ces réformes s’écartaient des stratégies de
substitution aux importations de la période
Baathiste précédente. Parmi elles, nous trou-
vons le retranchement de l’État des services so-
ciaux et du secteur public, notamment à travers
des privatisations des entreprises et propriétés
publics (KADRI; MATAR, 2016).
Ce processus d’accumulation par expro-
priation et dépossession se révèle essentiel afin
de comprendre les nouveaux phénomènes glo-
baux. Cela est particulièrement le cas pour les
pays émergents dans le monde avec un modèle
de développement précédemment concentré
sur l’État, comme la Syrie. Il s’agit d’une force
pro-capitaliste intense au regard de la proléta-
risation de la main-de-œuvre et en raison de
la rupture des relations productives capitalistes
(la vente d’entreprises étatiques au secteur pri-
vé) et non capitalistes (des « attaques » contre
l’agriculture de subsistance) (HARVEY, 2004).
Plus précisément, à partir du processus d’accu-
mulation par dépossession et de la conséquente
transformation des contrôleurs en propriétaires
de moyens de production, 5% de la population
ont alors contrôlé plus de 50% de l’économie
(KADRI; MATAR, 2016).
En concluant cette première partie, le pas-
sage d’une économie dirigée par l’État à une
économie axée sur le marché a affecté profon-
dément un des piliers hégémoniques du parti
Baath, c’est-à-dire, les privilèges et le patronage
à sa circonscription ; ainsi, les idées et habitudes
originales Baathiste ont été remplacées par des
idéologies « extérieures ». En outre, le détour-
nement des ressources vers les nouveaux riches
a renversé les réformes progressistes du régime
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socialiste Baathiste. Le pilier de la promotion
du bien-être de la population, à travers des
services sociaux, et de la stabilité économique
(l’ordre civil) ont été profondément affectés par
la réduction du rôle du régime socialiste Baa-
thiste. De ce fait, la diminution du consente-
ment provoquée par ces réformes a mis en péril
l’hégémonie du parti Baath en Syrie.
La fin de l’hégémonie
baathiste en Syrie – des idées
et habitudes non-autochtone
À l’avis de Hinnebusch (2015), Bachar
al-Assad, depuis le début de son gouvernement,
a choisi de se ranger du côté de la nouvelle
bourgeoise commerciale au lieu de la vieille
garde Baathiste. Par conséquent, au regard de
la grande influence de ce parti à la campagne,
ce choix a concrètement signifié la perte de sa
base de soutien social rural sur le long-terme.
S’agissant de l’intensification des réformes
néolibérales, l’ouverture profonde de l’écono-
mie a engendré d’autres conséquences telles que
l’augmentation du taux de chômage (16,5%
en 2009) et celles du taux de pauvreté (dans
les zones rurales, 62% ; en général, 34,3% en
2010) (KADRI; MATAR, 2016).
Avant d’analyser plus attentivement les
conséquences économiques et politiques, nous
présenterons les conséquences idéologiques de
ces réformes dans la perspective de mettre en
évidence toutes les caractéristiques cruciales
pour le changement hégémonique et, par
conséquent, l’influence de ce dernier par rap-
port au conflit syrien.
Sous le gouvernement de Bachar al-Assad,
quelques pratiques ont persisté, notamment le
culte de la personnalité. De ce fait, selon We-
deen (2013), la rhétorique officielle sous Bachar
al-Assad n’a jamais complètement abandonné les
usages qui rappellent l’ancien régime de son père.
Pour autant, les changements ont été profonds.
En premier lieu, le contrôle de la rhéto-
rique du conflit n’était pas absolu, au regard
du défi d’autres interprétations du conflit par
d’autres chaînes de télévision par satellite,
comme l’Al-Jazeera et l’Al-Arabiyya. En outre,
depuis le début du soulèvement en 2011, des
critiques du président dans les réseaux sociaux
ont émergé, une chose impossible pendant la
période de Hafez. Toutefois, les ambiguïtés par
rapport à l’ère de Hafez al-Assad ont été les
sources principales de la perte du consente-
ment au gouvernement de Bachar al-Assad
(WEDEEN, 2013).
L’ère du marché capitaliste a imposé de
nouvelles subtilités vis-à-vis de la domination
Baathiste. L’idéal de modernité du marché capi-
taliste a fait apparaître le plaisir de consommer
comme l’objectif principal d’un individu dans
une société. A cet égard, le président lui-même
et la première dame ont construit l’image d’un
élitisme politique cosmopolite.
En outre, la propagande de l’État définis-
sait difficilement ses ennemis comme c’était le
cas pendant la période de Hafez al-Assad. Les
« fantasmes » les plus anciens comme la souve-
raineté nationale ou le multiculturalisme dis-
paraissaient peu à peu (WEDEEN, 2013).
Enfin, alors que les promesses de la
« bonne vie » au travers du néolibéralisme du
gouvernement de Bachar al-Assad étaient éten-
dues à l’ensemble de la société syrienne, les
expériences quotidiennes de l’inégalité écono-
mique dans les classes subalternes ont contredit
cette promesse de « bonne vie » formulée par
l’autocratie néolibérale (WEDEEN, 2013). Le
monde idéalisé du régime s’est révélé en oppo-
sition avec la réalité du monde.
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Les incertitudes de la période sont liées à la
manière dont l’idéologie a cessé, depuis les an-
nées 2000, d’être le domaine privilégié du parti
Baath, qui à la fois réglementait le contenu et
contrôlait les circuits institutionnels de la dif-
fusion idéologique. En conséquence, ces nou-
velles incertitudes ainsi que la désorientation
idéologique ont rendu possible de nouvelles
occasions de transgression et de résistance, car
ces nouvelles limites raisonnables, discutables,
explicables et pensables n’étaient pas claires.
À partir des privatisations, la nomenklatu-
ra a dominé directement les domaines autre-
fois publics ; en outre, l’ouverture financière
a approfondi la dépendance de la bourgeoisie
syrienne au classes bourgeoises financières et
commerciales des puissances mondiales, no-
tamment les États-Unis. Dans ce contexte, il
y a eu une profonde diminution de la dépen-
dance de l’ancienne classe militaire Baathiste
envers le gouvernement central syrien.
Conclusion
Au cours de la période Baathiste, la classe
militaire devait s’assurer du soutien des popula-
tions de ses circonscriptions et, en retour, celle-
ci recevait des privilèges de la part du gouver-
nement. Compte tenu du contrôle direct des
anciennes propriétés publiques par la nomen-
klatura et d’une plus faible dépendance de la
bourgeoisie au gouvernement, cette fonction
des militaires n’était plus nécessaire.
Dès lors que les conséquences directes du
néolibéralisme sur l’économie ainsi que sur le
tissu social ont été soulignées, il est important de
mettre l’accent sur le retrait de l’administration
étatique syrienne et la diminution du soutien de
sa base sociale. En outre, la cooptation de l’État
par la classe marchande militaire a aussi conduit
à la diminution de la présence étatique dans le
contexte social. Ainsi, le fossé entre les riches et
les pauvres s’est creusé de manière importante.
Néanmoins, l’origine du conflit actuel ne peut
s’ expliquer par les seules conséquences écono-
miques. En effet, les changements des forces
idéologiques constituent un élément de contexte
majeur pour la compréhension du conflit.
De nouvelles formes d’interactions so-
ciales, de connexion affective, d’optimisme, et
des nouveaux modes de vie et de consommation
ont affecté directement les valeurs de l’ordre et
de l’obligation citoyenne (WEDEEN, 2013).
La cohésion des idées et habitudes Baathiste est
donc étroitement liée au régime économique de
substitution aux importations (capacités maté-
rielles) et a permis une certaine hégémonie. L’ar-
rivée du néolibéralisme a toutefois altéré la force
des piliers médiateurs et de « bien-être » ; donc,
la gestion d’un vieux régime dans le cadre du
néolibéralisme a fragilisé le pouvoir étatique et
a provoqué l’instabilité. Des vielles idées et ha-
bitudes (le socialisme et l’autocratie baathiste)
n’étaient plus en connexion avec les nouvelles
capacités matérielles (le néolibéralisme).
La base armée Baathiste (le premier pilier)
et les vestiges de l’ancien régime (le deuxième
et le troisième pilier) sont devenus les outils du
régime de Bachar al-Assad au cours du conflit
syrien contemporain. Enfin, l’application et l’in-
ternalisation par la loi interne de la Syrie des pré-
ceptes néolibérales semblent avoir joué un rôle
primordial vis-à-vis de l’instabilité de ce pays
durant le gouvernement de Bachar al-Assad.
De plus, l’expansion néolibérale et ses ma-
nifestations politiques les plus connues, telles que
les privatisations, la révision des codes de travail,
la libération des prix ou encore l’ouverture au
capital étranger et aux spéculations financières,
ont éliminé en Syrie et dans autres parties du
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monde des politiques économiques et sociales
conduites directement par les états. Le retrait de
la présence de l’état au sein de la société syrienne
a suscité d’intenses tensions entre les différentes
classes sociales, des crises fiscales, l’accroissement
de la pauvreté, l’augmentation du chômage, le
démantèlement des syndicats, la perte durable
du soutien social au régime, et l’expansion d’une
idéologie opposable aux bases Baathistes.
Par conséquent, nous pouvons affirmer que,
pendant les années 1960, le Parti Baath a trans-
formé ses intérêts particuliers en intérêts natio-
naux de la Syrie, à travers la capture de la relation
dialectique entre la structure économique (le
modèle de l’industrialisation par la substitution
d’importations et le Welfarisme construit dans ce
pays) et la superstructure idéologique (la coexis-
tence multiculturelle de la sécurité intérieure
et de la souveraineté de l’État). Néanmoins, les
changements néolibéraux ont mis en danger
cette construction hégémonique de manière pro-
fonde. De cette manière, il semble possible d’as-
surer que, alors que les idées et habitudes pendant
la période d’hégémonie Baathiste ont été mis en
place d’une façon cohérente aux préceptes écono-
miques de cette hégémonie, durant l’hégémonie
néolibérale le changement des idées et habitudes
ont mis en péril l’hégémonie du groupe révo-
lutionnaire des années 1960. En quelque sorte,
l’administration autocratique de Bachar Al-Asad
est devenue le reste d’un passé éloigné.
La complexité d’un tel conflit est évidente.
En ce sens, il ne s’agit donc pas d’affirmer que
l’expansion néolibérale représente la seule explica-
tion au conflit syrien actuel. En effet il est possible
de mettre l’accent sur d’autres aspects, comme
l’héritage colonial , les divisions sectaires, l’insa-
tisfaction à l’égard de la corruption de notoriété
publique des fonctionnaires d’État, les répressions
brutales des manifestations pacifiques, etc.
Néanmoins, il semble que les mêmes inter-
venants qui appellent aujourd’hui au concept de
« guerre juste », afin de justifier des interventions
humanitaires à la lumière du droit international,
ont soutenu et continuent de soutenir différentes
formes de pillage économique, politique et social à
l’encontre d’autres pays, causant, par conséquent,
des instabilités qu’eux-mêmes veulent réparer par
la force (BUTLER, 2011; ORFORD, 2003). Il
est indispensable de souligner que d’autres ré-
gions du monde ont également traversé des pro-
cessus coloniaux ainsi que l’expansion néolibérale
sans pour autant déclencher un conflit. Dans ce
contexte, l’importance du Moyen Orient et de
ses ressources les plus précieuses, notamment le
pétrole, peut expliquer qu’une pression impéria-
liste plus forte s’exerce sur ces pays.
L’expansion du néolibéralisme en Syrie se
révèlent être un aspect crucial pour comprendre
les origines du conflit mais également pour em-
pêcher de nouveaux conflits sur le long terme,
après sa reconstruction. Toutefois, le projet de
reconstruction de ce pays ne semble pas s’être
défini sur cet objectif de sécurité durable.
A ce sujet, le Centre Syrien d’Etudes Poli-
tiques et Stratégiques , dès 2013 , a commencé
à tracer des plans de reconstruction de la Sy-
rie, notamment en termes économiques avec
les politiques monétaires et fiscales. Parmi les
préconisations de ce centre d ‘études on trouve
celle d’une suppression presque totale des bar-
rières économiques, c’est-à-dire, une économie
complètement libéralisée (WEDEEN, 2013).
La volonté de libérer davantage un marché
déjà très ouvert et de remplacer les anciens di-
rigeants démontre qu’il n’existe pas un véritable
compromis de reconstruction démocratique de
la Syrie, c’est-à-dire, à travers le contrôle social
de la politique et de l’économie. Au contraire,
ces propositions explicitent une volonté de rem-
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placer la « cleptocratie » actuelle par une autre
plus docile aux intérêts de l’impérialisme des
grandes puissances (WEDEEN, 2013).
Ainsi, la rhétorique d’une « intervention
humanitaire » ne semble pas crédible, mais un
exercice de l’impérialisme postcolonial.
Ces attitudes orientalistes contemporaines
inondent la presse et l’esprit populaire. Les
Arabes, par exemple, sont imaginés comme
des libertins chevauchant des chameaux, avec
des nez ivres, des terroristes, des vénaux, dont
la richesse imméritée est un affront à la vraie
civilisation. L’hypothèse est toujours que,
bien qu’il appartienne à une minorité numé-
rique, le consommateur occidental a le droit
de posséder ou de dépenser (ou les deux) la
plupart des ressources du monde. Pourquoi?
Parce que, contrairement à l’Oriental, il est
un véritable être humain. (…) Il n’y a pas
d’exemple le plus pur de la pensée déshuma-
nisée (SAID, 1996, notre traduction)
3
.
Donc, ces attitudes impérialistes sont loin
d’être effacées de la société internationale, non
seulement en raison de ces intérêts économique
et politique, mais aussi de la permanence des
discours orientalistes jusqu’aujourd’hui.
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studies, 2011.
3 Essas atitudes orientalistas contemporâneas inundam a
imprensa e a mente popular. Os árabes, por exemplo, são
imaginados como libertinos a cavalgar camelos, com na-
rizes aduncos, terroristas, venais, cuja riqueza imerecida é
uma afronta à verdadeira civilização. Está sempre subjacen-
te a pressuposição de que, embora pertença a uma minoria
numérica, o consumidor ocidental tem o direito de possuir
ou gastar (ou ambas as coisas) a maioria dos recursos do
mundo. Por quê? Porque ele, ao contrário do oriental, é um
verdadeiro ser humano. (...) Não há exemplo mais puro do
pensamento desumanizado.
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The Beijing Consensus and the New Silk
Road in Africa: Chinese investments in
new disputes of hegemony
O Consenso de Pequim e a Nova Rota da Seda na África: investimentos chineses em
novas disputas de hegemonia
El Consenso de Pekín y la Nueva Ruta de la Seda en África: inversiones chinas en
nuevas disputas de hegemonía
Lucas Gualberto do Nascimento*
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2020v17n1p27
Received in: 10 de maio de 2019
Accepted in: 17 de novembro de 2019
Abstract
is paper will analyze, through several bibliographic sources, such as governmental
and academic reports, the development of Sino-African relations mainly in the sphere of
influence of the Forum on China-Africa Cooperation (FOCAC); and of Belt and Road
Initiative (BRI), also known as the New Silk Road.
Keywords: Chinese foreign policy. Sino-African relations. Belt and Road Initiative.
Resumo
Este artigo analisará, a partir de diversas fontes bibliográficas, relatórios governamentais e
acadêmicos, o desenvolvimento das relações sino-africanas principalmente na esfera de in-
fluência do Fórum de Cooperação China-África (FOCAC); e no projeto de infraestrutura e
cooperação Belt and Road Initiative (BRI), também conhecido como a Nova Rota da Seda.
Palavras-chave: Política externa chinesa. Relações China-África. Belt and Road Initiative.
Resumen
Este artículo analizará, a través de varias fuentes bibliográficas, como informes guberna-
mentales y académicos, el desarrollo de las relaciones sino-africanas, principalmente en el
ámbito del Foro de Cooperación China-África (FOCAC); y del proyecto Belt and Road
Initiavie (BRI), también conocido como la Nueva Ruta de la Seda.
Palabras clave: Política exterior chino. Relaciones China-África. Belt and Road Initiative.
Artigo
27 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte,
ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.27 - 38, mai. 2020
* Mestrando em Ciências Sociais - Relações Internacionais e Desenvolvimento, na Universidade Estadual Paulista (Unesp), Marília.
Bacharel em Relações Internacionais, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É integrante do BRICS Educational
Internship Programme, promovido pela Far Eastern Federal University (FEFU), sob a presidência russa do BRICS em 2020. Atual-
mente é pesquisador do Analytical Centre da BRICS Youth Energy Agency (BRICS YEA), parceira do Instituto Estatal de Relações
Internacionais de Moscou (MGIMO); e membro do Núcleo de Pesquisa da UFRJ sobre Geopolítica, Integração Regional e Sis-
tema Mundial (GIS/UFRJ). É membro da Rede Brasileira de Estudos da China (RBChina). Obteve estância acadêmica semestral
na Universidade Autônoma de Madri (UAM), em 2016-2017; e na Universidade Goethe de Frankfurt am Main, em 2018-2019.
Atuou como membro do Grupo de Pesquisa da Política Internacional (GPPI), especializado no estudo do BRICS; e no grupo Res-
ponsabilidade do Estado, Uso da Força e o Bloco de Constitucionalidade do Direito Internacional, ambos da Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ), de 2015 a 2018. Foi integrante do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Tecnológica (PIBIT),
em 2011-2012, pelo CEFET/RJ. Possui interesse nos seguintes temas: Política Externa Chinesa; BRICS; Economia Política Inter-
nacional; Estudos de População e Desenvolvimento; Direito Internacional Público. E-mail: lucasgdn2@gmail.com
28 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.27 - 38, mai. 2020
The Beijing Consensus:
disputes of hegemony
From a critical geopolitics perspective,
the current changes of hegemony in the in-
ternational system are not essentially a dispu-
te for supremacy between the United States
and China. Hegemony, in the perspective of
critical geopolitics, can be considered a deve-
lopment of new consensus. According to Ag-
new (2005, p. 57), in a Gramscian perspec-
tive of hegemony in geopolitics, the norms
and principles that regulate world politics
act as an element of convincing, in a relation
based on attraction and coercion. erefore,
the exercise of power is not only ascribed to
economic, political or military power, but is
part of a geopolitical idea of international
order. e Chinese ideals of harmonic pro-
gress and interdependence create incentives
towards an international order with a greater
presence of multilateralism, with multipolar
characteristics that are promoted as more
advantageous towards developing countries.
is strategy as a foreign policy tool aims to
be a convincing method as a “counter-he-
gemonic” geopolitical discourse, a form of
resistance against a so-called non-equitable
international system, in which developing
countries must seek more relevant roles
(BRITO, 2018, p. 80).
Although the Chinese state rejects this
term, some scholars are defining its interna-
tional development approach as the Beijing
Consensus, as it is the Chinese model – that
is, the terms in which the Chinese influen-
ce in the international order is going to be
pursued - for economic growth with political
principles of non-interference and self-deter-
mination (QASEM; DONGEN; RIDDER,
2011, p. 2). According to Ramo (2004, p.
11-12), the Beijing Consensus is based on the
following terms: 1) Innovation-based develo-
pment; 2) Economic success not only measu-
red by GDP per capita, but by the extent of
its sustainability; and 3) Self-determination
for China and other countries, not ruled by
the United States’ understanding of develop-
ment. ese terms are defined within a rejec-
tion of the Washington Consensus, a set of
liberal norms recommended by the United
States towards developing countries since the
1980’s. As a model for development and in-
ternational order, the Beijing Consensus has a
great presence in the discourse on Sino-Afri-
can relations, and its terms are going to be
further analyzed.
Innovation-based development
e terms of the Beijing Consensus are
being presented to the African continent as
the Chinese state offers its own development
model as an example. Regarding innovation,
China is currently the second largest investor
in research and development (R&D) world-
wide, having surpassed the European Union
in recent years.
In addition, other important indicators
of an innovation-based development are:
applications for the registration of patents,
and the level of technological qualification
of its population, especially the group known
as STEM (Science, Technology, Engineering,
and Mathematics). Figures 2 and 3 below de-
monstrate results similar to figure 1; that is,
the states that invest the most in R&D are the
ones with the highest number of patents, as
well as those with the highest level of techno-
logical qualification.
29 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.27 - 38, mai. 2020
Figure 1 - Gross national R&D expenditures, in billions of dollars, from 1996 to 2013.
* e seven largest budgets for technological innovation highlight the astonishing Chinese growth in the first decade of the twenty-
-first century. Such a massive investment indicates Chinas intention in participating in the international technological competition.
Source: American Institute of Physics, 2016.
Figure 2 - The ten most recurrent applications for patent registration by country in 2014
* e seven largest investors are among those who own more registration applications. e level of Chinese technological productivity is also
highlighted, being the first country in requests for registrations, when it is becoming the second largest investor in technological innovation.
Source: World Intellectual Property Organization (WIPO), 2016, p. 23.
30 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.27 - 38, mai. 2020
Measures of economic success
Regarding the economic success terms
promoted by the Beijing Consensus, there is a
rejection of the GDP measurement as the sole
indicator of development. e Chinese policies
are regarded as “people-focused”, due to their
development rates measured by quality of life
and human development, not minimizing de-
velopment concepts in only economic growth
(QASEM; DONGEN; RIDDER, 2011, p.
3). erefore, despite the fact that the Chine-
se state indeed pursues a higher gross domestic
product in promotion of its development mo-
del, it also promotes other results that are not
as evident, such as the fast rise of its Human
Development Index (HDI) throughout the last
three decades, as figure 4 illustrates.
However, even though there is indeed a
strong growth when it comes to Chinese life
quality indexes, there are rising levels of ine-
quality as well, which must be controlled by the
People’s Republic of China (PRC) government
if there is an interest to promote the Chinese
development model internationally. According
to Ning Jizhe, head of the National Bureau of
Statistics (NBS), the Gini coefficient of China
remained above 0.4 in 2017, which is classified
by the United Nations as an inequality alert
line (PEOPLE’S DAILY ONLINE, 2018).
Figure 3 - Projection of the percentage of graduates in the STEM group among the OECD and
G20 countries in 2030
* ere is a Chinese and Indian dominance of the graduates in technological areas, responsible for R&D research, intellectual
property development, and the establishment of new technological standards.
Source: Organization for Economic Cooperation and Development (OECD), 2015
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Self-determination
e third and last element that composes
the Beijing Consensus is the idea of self-deter-
mination, which is often accompanied by the
principle of non-interference when conduc-
ting foreign policy. According to this principle,
“China emphasizes the need for developing
countries to actively seek independence from
outside pressure” (QASEM; DONGEN; RI-
DDER, 2011, p. 3), especially regarding the
previous principles known as the Washington
Consensus. According to Williamson (1990),
the Washington Consensus is based on ten
principles: 1) Fiscal discipline; 2) Reordering
public subsidies; 3) Tax reforms; 4) Liberaliza-
tion of interest rates; 5) Competitive exchange
rates; 6) Trade liberalization; 7) Liberalization
of Foreign Direct Investment (FDI); 8) Gene-
ralized privatization; 9) Deregulation; 10) Pro-
tection of property rights.
In fact, the Chinese development mo-
del does not reject the previous principles en-
tirely, but adapts them for its own interests. In
general, only the principles of privatization and
deregulation are not respected by the Beijing
Consensus developmental approach, since the
state-directed capitalism” (HALPER, 2012,
p. 103), in direct contrast with privatization
principles, is seen as an advantage both by the
Chinese authorities and its African allies, as
there are less or no conditionality imposed by
the Chinese when conducting business develo-
pment overseas. As Halper affirms,
Chinas political system provides a further
commercial advantage over rivals in the Uni-
ted States, Europe, and Japan. Liberal demo-
cracies must deal with powerful domestic in-
terest groups in business and the legislature.
e absence of domestic political obstacles
enables Chinese companies and government
Figure 4 - The evolution of Chinese Human Development Index (HDI) from 1990 to 2016
* Rising from 0.514 in 1990 to 0.752 in 2016, the index is an example of the image that China is promoting, as an emergent
power willing to cooperate with developing countries in new forms of consensus.
Source: United Nations Development Programme (UNDP), 2018.
32 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.27 - 38, mai. 2020
actors to forge agreements much more rapi-
dly than their Western counterparts. (HAL-
PER, 2012, p. 104)
After the exposition of the three elements
that compose the Beijing Consensus as a new de-
velopment model, section 2 further analyzes how
these ideas are shaping Sino-African cooperation,
especially the Forum on China-Africa Coopera-
tion (FOCAC) and the Belt and Road Initiative
(BRI) infrastructure initiative in the continent.
ese initiatives are based on the same principles
of the Beijing Consensus: technological develo-
pment; economic measurements beyond GDP;
and the respect for the principles of non-interfe-
rence in domestic politics of other states.
The FOCAC and the OBOR in
Africa: new forms of consensus
e generation of consensus in Africa,
such as the Forum on China-Africa Coopera-
tion (FOCAC), brings elements of Chinese fo-
reign policy in ways of convincing. is forum
had its 18
th
anniversary in 2018, as well as its
third summit. Taking place in Beijing, it has
been considered as a landmark in Sino-African
relations, as all African United Nations’ mem-
ber-states have recognized the Peoples Repu-
blic of China (PRC) as the legitimate Chinese
state, except for the state of Eswatini, former
Swaziland (BLANCHARD, 2018).
e Beijing Declaration, document of the
FOCAC summit held in 2018, is another ele-
ment of the Chinese consensus principles for
the region. In a position opposed to what is
considered as a post-colonial imposition, the
members of the forum signed not to impose
policy conditionalities on their cooperation
agreements, in a dual commitment both to
respect the one-China principle, and the so-
called “national conditions” of African coun-
tries (FOCAC, 2018).
e principles of mutual benefit, also ex-
pressed as “win-win”, and cooperation driven by
non-conditionality fit the African needs to ex-
pand economic growth - without the restraints
required by Western countries - are elements
that favor the intensification of Sino-African
development cooperation. e African con-
tinent is receiving important investments in
the coming decades, as China pledged US$60
billion for the next three years. is is a sig-
nificant sum, as it is estimated by the African
Development Bank that the African continent
needs US$130 to US$170 billion worth of in-
frastructure annually (RYDER, 2018).
Figure 5 - Types of financing as consequences of the 2018 FOCAC Summit
* As a result of the last FOCAC Summit, in 2018, the Chinese government announced US$60 billion as financing to African
countries, especially for projects supported by the Belt and Road Initiative (BRI).
Source: DAHIR, 2018
33 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.27 - 38, mai. 2020
e FOCAC initiatives are synergistically
connected to BRI projects in Africa, promo-
ting the ideals of technology development, new
measures of economic success – the so-called
people-to-people” economic development -,
and non-interference, along with the “win-win
cooperation proposals. erefore, both initiati-
ves contain the main principles of the Beijing
Consensus as strategic guidelines, and a com-
plement between the Chinese development
discourse and its initiatives being promoted.
Nevertheless, such an extensive infrastruc-
ture project among emerging countries raises
consequences on international politics, espe-
cially questions regarding negative impacts –
and skepticism about “win-win” terms - along
with challenges that may come throughout its
development. e Chinese financing policies to
Africa are being accused of “debt trap” (SHA-
BAN, 2018), even though external debt-G-
DP rates of African states are lower than their
European counterparts (RYDER, 2018), and
even neocolonialism (TIEZZI, 2018). Gascón
(2018) emphasizes that high levels of bilateral
debt may cause economic dependency in the
future, and that Chinese financing in Africa still
suffers from lack of transparency, as follows:
e beneficiary African countries – which accu-
mulate a debt higher than 100 billion dollars to
China – could be compromised for generations
and even be obligated to cede to the Asian giant
part of the infrastructures and projects built
with Yuans. […] is secrecy, which is common
on Chinese commercial operations in countries
generally lacking of democracy as Africans, rai-
ses suspicions about the loan conditions, and
brings fear that some leaders may have mort-
gaged their countries in exchange of acceding
fast money that is needed to survive and to be
presented with popularity in elections.
However, Eom (2016) affirms that there
are scarce evidences that Chinese loans aim at
natural resources, defending that Chinese inte-
rests are focused on establishing the One China
policy – it is, the non-recognition of Taiwan as
a sovereign state – and on connective infras-
tructure, communications and power.
In addition, African leaders are defending
mostly two aspects of financing China-Africa
development cooperation: lower interest rates
compared to Western counterparts; and shor-
ter average waits. According to Nigerian pre-
sident Muhammadu Buhari, during the 2018
FOCAC,
Let me use this opportunity to address and
dispel insinuations about a so-called Chinese
debt trap’. ese vital infrastructure projects
being funded are perfectly in line with Ni-
gerias Economic Recovery & Growth Plan.
Some of the debts, it must be noted, are self-
-liquidating. Nigeria is fully able to repay all
the loans as and when due, in keeping with
our policy of fiscal prudence and sound hou-
sekeeping. (SHABAN, 2018)
Firstly, as the more African countries are
being classified as “middle-income”, the har-
der it is for them to receive low-interest fi-
nancing from institutions, such as the World
Bank. erefore, countries as Nigeria, Côte
d’Ivoire and Kenya tend to perceive Chinese
financing as positive, due to lower repayment
rates (RYDER, 2018). In the case of financing
in Ghana and Democratic Republic of Con-
go (DRC), repayments were made in exports,
called as “resource-secured”: the Bui Dam,
paid with 6% of Ghanaian cocoa exports
throughout 20 years; and extensive infrastruc-
ture projects in DRC, mainly transportation
and power grids, financed by the profits from a
Sino-Congolese mining joint-venture (BRAU-
TIGAM, 2013, p. 212-213).
Second, still according to Ryder (2018),
one of the greatest advantages that African lea-
34 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.27 - 38, mai. 2020
ders seek among Chinese development coo-
peration is the dynamism that Chinese loans
provide towards financing projects in this
continent. Non-Chinese loans to Africa have
an average wait of nine years, even when the-
re is an environmental commitment, such as
in Rwanda and Ethiopia. erefore, Chinese
loans are seen as preferable as the viability and
return of the projects are prioritized, occasio-
nally being approved in two years.
Within the African demands expressed
by its leaders and the African participation
throughout FOCAC summits, the BRI stands
out as an agglutinating element of infrastruc-
ture needs between China and Africa. Chinas
proposals on infrastructure investment in Africa
are based on the expectation of an exponential
growth rate of Sino-African trade, which were
expanding at rates of fifteen to twenty percent
a year until the end of this decade (FOXMAN,
2013). us, to support the growth of such
a steady trade, the Chinese trade partnership
project with Africa is based on the establish-
ment of twelve ports, designated as Strategic
Maritime Distribution Centers (SMDC), ac-
cording to the map below.
Figure 6 - The Strategic Maritime Distribution Centers (SMDC) of the BRI
* Map describing the Chinese strategy for the insertion of the African continent into the BRI, from strategic distribution centers
established in the Indian and Atlantic Oceans. Part of the 21st Century Maritime Silk Road, it can be observed how they also
articulate with ports in South and Central America, forming a network of intensifying trade between emerging countries.
Source: EYLER, 2014.
35 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.27 - 38, mai. 2020
ese seven ports located along the In-
dian, the Atlantic, and the Mediterranean Sea
were strategically selected to promote the Chi-
nese development model in Africa through
trade. is section of the so-called 21
st
Centu-
ry Maritime Silk Road is located close to large
population centers, which provide a reasonable
distribution network of goods being imported
and exported. us, such investment in infra-
structure is sustaining the growth of Sino-Af-
rican trade, which reached US$ 385 billion in
2015, representing three quarters of the Chi-
nese trade with the European Union (FOX-
MAN, 2013; SUN; RETTIG, 2014).
Next, figure 7 illustrates key factors of
the SMDCs of the Maritime Silk Road, such
as population and GDP per capita, crucial
elements to analyze the strategic importance
of these locations to the expansion of Sino-
-African trade.
Figure 7 - The strategic African ports of the 21st Century Maritime Silk Road
* It emphasizes the size of the population centers combined, with more than 120 million people, as well as their largely-populated
neighbors. As middle-income countries with economic potential, they are crucial to further growth of the Sino-African trade.
Source: EYLER, 2014
36 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.27 - 38, mai. 2020
As a complement to the SMDCs, a land
distribution network is being developed, impro-
ving physical integration among African coun-
tries, facilitating trade intra-Africa and exports,
and bringing new levels of cooperation into the
BRI. e infrastructure agreements reached as a
result of FOCAC and BRI are representative of
a technologic-based development alongside the
exercise of the concept of “win-win” coopera-
tion, due to the African needs for infrastructure
and the Chinese needs of emerging markets.
Figure 8 illustrates the land infrastructure pro-
jects tied to the SMDCs, the land sector com-
plementary to the Maritime Silk Road.
Figure 8 - Map of the African continent highlighting the SMDC
ports with their land railway ramifications
ere are projects aiming at connecting both African coasts through railways, as it is visible from the Dar Es Salaam-Lobito railroad.
e colored countries are members of the Asian Infrastructure & Investment Bank (AIIB), an important alternative for further
infrastructure financing. Source: BREUER, 2017, p. 3
37 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.27 - 38, mai. 2020
rough the construction and expansion
of ports and infrastructure along the African
coastline as a part of the BRI, as well as the pro-
motion of new levels of trade with the countries
that are active in the activities of FOCAC, the
terms of the Beijing Consensus take part as a
guideline offered to African countries as a deve-
lopment pathway. e three main aspects of the
Chinese development model– technologic deve-
lopment, economic measurement beyond gro-
wth, and non-interference in domestic politics
– take part in the contemporary Sino-African re-
lations, as the Chinese state promotes its idea of
development as a model for emergent countries.
Conclusions
is paper intended to analyze the concept
of the Beijing Consensus as a development frame-
work of the Chinese foreign policy, especially to-
wards Sino-African relations. Based on the princi-
ple of hegemony as the capability of shaping new
kinds of norms and consensus of an international
order, the Chinese development model is being
sought by African countries with relative success.
rough the economic cooperation measu-
res implemented by the Forum on China-Africa
Cooperation (FOCAC) and the infrastructure
projects that are part of the BRI, new kinds of
consensus are being structured in Africa, and
they are applying the three aspects that define
the Beijing Consensus: a) technological deve-
lopment, through infrastructure construction;
b) economic growth measured by other means
rather than only GDP, improving development
sustainability with external debt rates below the
size of national economies; and c) preserving
the principles of non-intervention and self-de-
termination of the African partners, not looking
after regime changes in their domestic politics.
However, there are challenges that still
have to be solved for the complete establish-
ment of this consensus. Ryder (2018) highlights
that, even though most of the critics towards
BRI projects in Africa are coming from non-
-Africans, especially neocolonialist accusations
coming from European countries, the Chine-
se loans conditions need to be improved, as
they still require the strategy known as “tying”,
which is the necessity of the participation of a
Chinese company for the approval of the loan
contracts. In addition, more sources of finan-
cing are needed, as the African continent an-
nual demands on infrastructure are more than
the double of the value coming from Chine-
se investment. Moreover, there are concerns
about higher levels of transparency regarding
the content and terms of such loans, especially
in South Africa (GASCÓN, 2018).
e contemporary Sino-African rela-
tions are the best example of the application
methods of the Beijing Consensus, and these
measures have been very attractive to develo-
ping countries so far. It is a success of a Chinese
foreign policy, which seeks to promote China
as one of the leaders of an international order
marked by multipolarity and the intent of es-
tablishing new norms that shape international
relations. As long as Western powers do not
seem eager to fulfill the large demands of emer-
gent countries, it is difficult to predict compe-
tition against the Chinese model in terms of
development cooperation.
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39 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.39 - 51, mai. 2020
Vulnerabilidade socioambiental:
uma análise do ciclone Idai em Beira
– Moçambique e suas implicações
internacionais
Socio-environmental vulnerability: an analysis of Idai hurricane in Beira – Mozambi-
que and its international implications
Vulnerabilidad socio ambiental: un análisis del ciclón Idai en Beira - Mozambique y sus
implicaciones internacionales
Aureliane Aparecida de Araújo
1
Tomé Francisco Chicombo
2
Joelton Carneiro de Lima
3
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2020v17n1p39
Recebido em: 17 de abril de 2019
Aceito em: 01 de dezembro 2019
Resumo
O presente trabalho traz à tona as implicações socioambientais na rota dos ciclones. Para
tanto, variáveis pautadas no uso e ocupação do solo, o sítio urbano, a dinâmica global da
circulação da atmosfera serão utilizadas para clarificar as origens dos desastres ambientais
tendo como exemplo Beira, em Moçambique.
Palavras-chave: Desastres Naturais. Riscos. Vulnerabilidade.
Abstract
e present work brings to light the socio-environmental implications of the cyclone route.
To this end, variables based on land use and occupation, the urban site and the global
dynamics of the circulation of the atmosphere will be used to clarify the origins of environ-
mental disasters, taking Beira as an example in Mozambique.
Key words: Natural Disasters. Risks. Vulnerability.
1 Graduada em Geografia (UNIMONTES – Universidade Estadual de Montes Claros). Especialização em Geografia e Meio
Ambiente (UNIMONTES – Universidade Estadual de Montes Claros). Mestre em Geografia (UNIMONTES – Universidade
Estadual de Montes Claros). Doutoranda em Geografia – Tratamento de Informação Espacial (PUC Minas). ORCID: 0000-
0002-1868-7758
2 Graduado em Informática (UEM – Universidade Eduardo Mondlane). Mestre em Sistemas da Informação para Gestão Ambien-
tal (ESTEC - Escola Superior Técnica da Universidade Pedagógica de Moçambique). Doutorando em Geografia – Tratamento da
informação Espacial (PUC Minas). ORCID: 0000-0002-9039-7018
3 Graduado em Geografia (PUC Minas). Mestre em Relações Internacionais (PUC Minas). Doutorando em Geografia – Tratamen-
to da informação Espacial (PUC Minas). ORCID: 0000-0003-3340-9470
Artigo
39 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte,
ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.39 - 51, mai. 2020
40 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.39 - 51, mai. 2020
Introdução
O presente estudo se propõe a analisar
o impacto do fenômeno atmosférico não so-
mente nas configurações das relações interna-
cionais, mas sua intercorrência nas diferentes
proposições de articulação com os mesmos
entes internacionais. Considerando a impor-
tância econômica da Beira, cidade portuária
moçambicana, situada na zona centro leste do
país -19º 50’e 36 S e 34º 50’20 E, com cerca
de 533.825 habitantes de acordo com o censo
de 2017. A capital da província de Sofala reúne
frota de suma estratégia comercial para países
do interior da África central. A vulnerabilidade
socioambiental apresenta implicações interna-
cionais à medida que contingência fluxos de
mercadorias no Porto da Beira e, sobretudo
avassala sujeitos sobrepujados pela força da na-
tureza condicionados pela evidente fragilidade
no processo reação ao evento climático, as figu-
ras 1 e 2 mostram área de estudo.
Resumen
El presente trabajo saca a la luz las implicaciones socio ambientales de la ruta del ciclón.
Para esto, se utilizarán variables basadas en el uso y la ocupación del suelo, el sitio urbano,
la dinámica global de la circulación de la atmósfera para aclarar los orígenes de los desas-
tres ambientales, utilizando Beira como ejemplo en Mozambique.
Palabras clave: Desastres naturales. Riesgos. Vulnerabilidad.
Figura 1 - Localização de Moçambique
Fonte: Elaborado pelos autores (2019)
41 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.39 - 51, mai. 2020
Sob a égide das relações internacionais,
impactos ambientais perpassam fronteiras es-
taduais. Nesta lógica do entendimento dos fe-
nômenos naturais, estudos acurados indicam o
aquecimento global. Para tanto, existem incon-
táveis organizações internacionais que já insti-
tucionalizaram a questão das mudanças climá-
ticas nos seus trabalhos. As políticas ambientais
devem considerar a abordagem internacional,
nacional e até local. Esta abordagem permite
analisar as relações entre políticas locais e glo-
bais em termos de complementaridade e articu-
lação. Diante do cenário caótico desencadeado
pelo Ciclone Idai, o sítio urbano de Beira, em
Moçambique revela claramente relações de po-
der econômico desiguais. Segundo Harvey, “[n]
ão só os ricos ocupam nichos privilegiados no
habitat, enquanto os pobres tendem a trabalhar
e viver nas áreas mais tóxicas ou perigosas, mas
o mesmo desenho do ecossistema transformado
é uma reminiscência de suas relações sociais.
(HARVEY, 2018, p. 241)
A articulação de políticas ambientais
dentro de um país, entre países e a nível global
ainda constitui um desafio. Entretanto, alguns
eventos internacionais têm apontado para essa
direção, isto é, a necessidade de articulação
das políticas ambientais a partir das perspeti-
Figura 2 - Localização de Beira - Moçambique
Fonte: Elaborado pelos autores (2019)
42 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.39 - 51, mai. 2020
vas locais e globais reconhecendo o fato de que
governos diferentes apresentarem diferentes
necessidades, interesses e preferências. Assim,
remete-se às abordagens inerentes as lacunas
vigentes em securitização. De acordo com Bar-
bosa e Souza:
[a] visão tradicional da segurança ambien-
tal é orientada tanto pela ideia de escassez,
quanto pela noção de abundância de recursos
naturais. Esta perspetiva, comumente deno-
minada de “conflito ambiental”, norteia-se
pelos pressupostos tradicionais de segurança,
segundo os quais a soberania e integrida-
de territorial do Estado são o epicentro das
preocupações com segurança. (BARBOSA;
SOUZA, 2010, p. 128)
Por um lado, as imagens veiculadas atra-
vés dos satélites e outros meios de comunica-
ção acerca do ciclone Idai, mostram padrões
de construções fruto da moderna arquitetura;
por outro, o cenário de destruição evidencia
moradias aquém das normas técnicas necessá-
rias para segurança humana. Inegavelmente,
em ambos os casos o ciclone Idai deixou ras-
tros agressivos na paisagem urbana. Ao consi-
derar a província de Sofala, a cidade da Beira
destaca-se enquanto segundo centro nevrálgi-
co regional, ficando atrás apenas de Maputo.
O corredor de exportação da Beira constitui
via de escoamento dos produtos da Tanzânia,
República Democrática do Congo, Malawi,
Zâmbia, Zimbabwe, Botsuana e Angola atra-
vés do Oceano Índico. Dentre os produtos que
figuram na pauta de exportação regional, des-
tacam-se o tabaco, chá, açúcar, algodão, caju,
camarão, alumínio, gergelim, carvão mineral,
zinco, cobre, níquel e diamante dentro outros.
Neste aspeto, a ocorrência de ciclones e inun-
dações corrobora em implicações econômicos e
sociais, visto que o ciclone Idai comprometeu
a rugosidade dos fluxos comerciais em função
da intransitabilidade das rodovias. Ademais o
poder devastador dos ciclones tropicais reper-
cute nos preços das mercadorias, bem como os
custos operacionais afetando economias destes
países e, consequentemente o comércio inter-
nacional.
A figura 3 abrange a cidade da Beira e os
distritos de Dondo, Nhamatanda de Buzi in-
tegram a região de ocorrência das inundações.
Já a figura 4 trata as regiões da ocorrência de
ciclones.
Nas palavras de Ayoade (2012, p. 112) “os
ciclones tropicais nunca se originam sobre su-
perfícies terrestres. De fato, eles enfraquecem
quando se movimentam sobre o continente e
sobre superfícies aquáticas frias. Eles se formam
sobre todos os oceanos tropicais, exceto sobre
o Atlântico Sul”. No caso da costa de Moçam-
bique, a análise dos componentes atmosféricos
revela a recorrência de ventos ciclonais, em
interação com os sistemas oceano-atmosféricos.
Ao considerar escala temporal e espacial,
com uso de procedimentos meteorológicos
mais refinados vem reconhecer as mudanças
barométricas consideráveis capazes de deslocar
ventos nas mudanças de estações do ano.
Não é raro, identificar fatídicas inundações
na cidade da Beira ou distritos como Buzi, vis-
to que ocupações humanas tendem a aglomerar
nas imediações dos canais fluviais. Nestes es-
paços, o direito à moradia encontra-se negado
historicamente as populações de menor renda
em Moçambique, sobretudo aquelas oriundas
do espaço rural. Trazer à tona a questão da mo-
radia não se resume em assegurar a habitabi-
lidade em qualquer condição, mas prezar pelo
princípio do acesso a infraestrutura e aos equi-
pamentos urbanos. Na perspetiva de Lefebvre:
[p]or assim dizer, o direito à moradia aflora
na consciência social. Ele se faz reconhecer
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Figura 3 - Áreas com frequência de inundações
Fonte: Elaborado pelos autores (2019)
de fato na indignação provocada pelos casos
dramáticos, no descontentamento engendra-
do pela crise. Entretanto, não é reconhecido
formal e praticamente, a não ser como um
apêndice dos “direitos do homem” (LEFEB-
VRE, 2001, p. 19).
O espaço urbano tem se mostrado com
um ordenamento territorial assimétrico no to-
cante a ocupação do solo. A lógica do mercado
impera desrespeitando o princípio do direito
à moradia. É preciso pensar estratégias de uso
e a ocupação do solo, uma vez que no espaço
urbano há contradições marcantes, fruto da ur-
banização acelerada e concentração de renda. A
ocupação gradativa de áreas potenciais de risco
revela lacunas reinantes na arquitetura da ma-
lha urbana, sendo ela erguida nas imediações
do leito maior dos canais fluviais. Outrossim,
cabe estabelecer comparações entre as figuras
5 e 6 na perspetiva de pensar sobre os desdo-
bramentos internacionais decorrentes do ciclo-
ne Idai, visto que Beira representa rota portuá-
ria estratégica para nações africanas.
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Figura 4 - Áreas com frequência de ciclones no mundo
Fonte: Elaborado pelos autores (2019)
As bacias hidrográficas, de acordo com
Cunha e Guerra (2017, p. 353), “(...) integram
uma visão conjunta de comportamento das
condições naturais e das atividades humanas
nela desenvolvidas uma vez que, as mudanças
significativas em qualquer dessas unidades po-
dem gerar alterações, efeitos e/ou impactos a
jusante (...)”. Ao analisar a rede de drenagem
da área suscetível as inundações, torna-se no-
tória a bacia do Zambeze em virtude da maior
extensão e complexidade dos tributários. No
caso a bacia do Púngoe região fortemente im-
pactada pelas inundações do ciclone Idai, en-
contra-se ao sudoeste do Zambeze e desemboca
em estuário na cidade de Beira.
A drenagem regional aliada as chuvas tor-
renciais, ventos fortes típicos do clima tropical
oceânico implicam na vulnerabilidade ambien-
tal. Conforme Conti (1998, p. 44) “o sistema
de canais frequentemente entra em colapso,
ocorrendo transbordamento e enchentes, se-
guidos de surtos de doenças. Nas grandes cida-
des situadas nas latitudes tropicais, o fenômeno
transforma-se em calamidade em virtude da
maior violência das chuvas”. Decerto, situações
de calamidade evidenciadas com a passagem do
ciclone tropical Idai, no Sudeste da África de-
manda estudos específicos.
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Figura 5 - Hidrografia de Moçambique
Fonte: Elaborado pelos autores (2019)
Neste caso, eventos atmosféricos capazes
de impactar a economia, a organização social, a
saúde, o ambiente, a cultura, revelam a vulne-
rabilidade das sociedades humanas e a escassez
ações preventivas no tocante aos impactos at-
mosféricos no âmbito internacional.
Discussão
Deste modo, o presente estudo procura
trazer proposições naquilo que são as linhas de
orientações passíveis de convergir em algumas
ações contributivas. No esforço de preparar po-
pulações suscetíveis as inundações e ciclones, é
preciso discutir ações orientadas de acordo com
os seguintes pontos:
Riscos
Os riscos devem ser analisados sob ponto
de vista de segurança, saúde e meio ambiente
ou ecologia. É importante nesta análise desta-
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Figura 6 - Altimetria de Moçambique
Fonte: Elaborado pelos autores (2019)
car a frequência, a magnitude e as característi-
cas gerais do risco. De acordo com Gonçalves:
o risco, ou seja, a possibilidade de ocorrên-
cia do fenômeno, está ligada a capacidade
de determinada sociedade prever um even-
to natural cíclicos de a ele se ajustar-se, em
função do conhecimento de seus parâmetros:
frequência, intensidade, duração, recorrência
etc.; uma vez que os eventos extremos podem
ser atenuados, controlados, mas dificilmente
evitados. (GONÇALVES, 2003, p. 75).
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Ao se fazer esta análise podem ser tomadas
as seguintes medidas:
Evitar o risco: retirar as populações das
zonas propensas a inundações ou ciclo-
nes e ao mesmo tempo impedir que as
populações se instalem nessas zonas.
Aceitar risco: neste caso mantendo-se as
populações em zonas de risco, deve-se
fazer uma monitoria do nível do risco de
uma forma permanente traçando medi-
das de minimização dos efeitos nefastos
através de planos de contingência. O
plano de contingência deve ter em conta
os riscos biológicos e físicos. Os riscos
biológicos estão relacionados com a flo-
ra onde podemos observar, por exemplo,
doenças como malária e cólera, que são
as mais frequentes quando ocorrem es-
tes desastres naturais. Os riscos físicos
têm a ver com a poluição das águas, por
exemplo. Estas decisões devem ser toma-
das tendo em conta o grau do risco. Os
graus podem ser catastróficos, grave, sig-
nificativo, leve e inexpressivo. As autori-
dades governamentais devem fazer uma
avaliação da capacidade, investimento,
questões sociais, ecológicas entre outros
para tomar estas decisões. Na conceção
de Rosa (2003),
[o] conhecimento atualizado da distribuição
e da área ocupada pela agricultura, vegetação
natural, áreas urbanas e edificadas, bem como
informações sobre as proporções de suas mu-
danças, se tornam cada vez mais necessárias aos
legisladores e planejadores, seja ao nível de go-
verno federal, estadual ou municipal, para per-
mitir a elaboração da melhor política de uso e
ocupação do solo. (ROSA, 2003, p. 149).
Nas áreas suscetíveis ao risco, o empre-
go da análise espacial viabiliza a identificação,
mapeamento, divulgação dos dados obtidos
através das geotecnologias. Neste caso, cabe-
rá à gestão pública traçar estratégias que vão
desde a criação de setor mais apropriado para
implantação de habitações seguras até promo-
ção de espaços com menor ocorrência de riscos
inundações. Em condições normais, a decisão
de manutenção das populações é aconselhada
quando o risco é leve ou inesperado.
Quando o grau do risco torna-se catastró-
fico, grave e significativo a retirada das popula-
ções é recomendável, embora aqui deve-se frisar
a dificuldade clara de se retirar população da ca-
pital da província de Sofala, no caso da cidade
mais atingida pelos ciclones tropicais e inunda-
ções. Então deve-se avaliar outro tipo de ações.
Vulnerabilidade
Deve-se pensar em novos modelos de
construções com infraestrutura pública e pri-
vada resistentes aos vendavais, e ainda um mo-
delo de urbanização criterioso com as questões
ambientais reduzindo ocupações em áreas
propensas às inundações.
Por outro lado, deve ser feito um investi-
mento em sistemas de alerta, planos de educa-
ção das populações para tomadas de decisões
em casos de desastres naturais, investimento em
vias vicinais aptas ao acesso alternativo, vias de
escoamento das populações, sistemas de abaste-
cimento de água e energia alternativos, sistemas
de telecomunicação alternativos. Deve-se fazer
um investimento em instituições que lidam
com desastres naturais equipando-as e criando
outros órgãos competentes de acordo com as es-
pecificidades necessárias. Como lembra Spring
(2016, p. 34) deve-se considerar a alocação de
fundos para adaptação e mitigação dos efeitos
das mudanças climáticas de acordo com o índi-
ce de vulnerabilidade de cada país, uma vez que
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políticas globais de mitigação podem mudar a
direção, rumo a uma transição sustentável.
Resiliência
Cabe mencionar que, há premência na
criação de plataformas de diálogo com popu-
lações e diferentes atores da sociedade, onde os
mesmos devem ser inquiridos no tocante aos
impactos ambientais na cidade da Beira, e, so-
bretudo, na área atingida pelos ciclones da bacia
do rio Púngoe. Desse modo, vislumbra-se en-
contrar soluções a curto, médio e longo prazo.
A abordagem sobre desastres naturais na cidade
da Beira e bacia do rio Púngoe deve ter vários
atores, cada um deles tem a sua responsabilidade
face a situação de vulnerabilidade socioambien-
tal. O governo deve criar, equipar e capacitar
as instituições, e, essas por sua vez, devem lidar
com o problema de desastres naturais, a partir
da prevenção até a mitigação dos impactos.
Por outro lado, as Organizações Não
Governamentais (ONGs), setor privado, doa-
dores, associações e a academia podem tomar
parte deste processo através de elaboração de
projetos, troca de experiências, monitoramen-
to, avaliação do risco ambiental, sensibilização
das populações, criação e construção de bairros
resilientes a desastres naturais, introdução nos
currículos matérias referentes a desastres natu-
rais, investigação dos fenômenos de desastres
naturais procurando trazer soluções possíveis.
Metodologia
O presente estudo aborda as três etapas
principais, a exploratória, a fase de coleta de
dados e a fase de análise sistemática dos mes-
mos. A fase exploratória está calcada na revisão
bibliográfica relativa a vertentes convergentes
de interesse: processo de urbanização na cidade
da Beira, com especial com a drenagem do rio
Púngoe, bem como fatores climáticos regio-
nais, a organização do espaço urbano e a tênue
relação natureza e sociedade sob a perspetiva
do sistema atmosférico atuante e a ocupação
desordenada do espaço. A segunda etapa, trata
da coleta de dados, sendo eles sistematizados
por meio de mapeamento do recorte espacial
com uso de técnicas do geoprocessamento do
ARGIS 10.4. Na terceira etapa, resulta na abor-
dagem sistematizada das implicações socio am-
bientais que subjazem nas sociedades atingidas.
Resultados
Tendo em conta os aspetos socio ambien-
tais existentes na cidade da Beira em particular
na bacia do rio Púngoe notam-se elementos de
extrema vulnerabilidade. De um lado a geo-
morfologia e do outro a localização geográfica
que não jogam a favor. Trata-se de uma área
propensa a inundações e a ciclones, isto é, mes-
mo não ocorrendo ciclones as inundações cons-
tituem uma grande ameaça de escala regional.
Tais condições corroboram para investigações
acuradas entre as condições atmosféricas obser-
vadas em cidades de baixas latitudes na costa
leste africana.
Trata-se de uma zona plana e onde desa-
gua o principal rio da zona central do país. As
chuvas que caem nos países vizinhos a mon-
tante fazem com que o nível das águas do rio
Púngoe eleve e, existindo assim, uma constante
ameaça de inundações. O presente estudo pro-
cura trazer de uma forma resumida a discus-
são do problema do ponto de vista dos riscos
ambientais. O meio ambiente, para efeitos do
presente estudo pode ser explicado como tudo
aquilo que cerca o ser vivo, incluindo a sua
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sustentação, meio sociocultural, a relação do
homem e a natureza tanto como a influência
exercida pelo homem na natureza.
Deste modo, entende-se que existe uma
necessidade de se fazer uma reflexão sobre o
modelo de sociedade que esteja preparada para
fazer frente aos riscos ambientais advindos dos
desastres naturais como é o caso das inundações
e ciclones. Para isso, tomando a cidade da Beira
e a bacia do rio Púngoe como estudos de caso a
reflexão em questão pode ser feita sob ponto de
vista dos seguintes cenários constatados:
a) Suscetibilidade: dois fatores tornam a
Beira e toda a bacia do rio Púngoe uma zona sus-
cetível a ocorrência de ciclones e inundações. O
primeiro fator é a sua localização (zona de ocor-
rência de ciclones tropicais). O segundo fator está
relacionado com a geomorfologia (uma região
planícies próximo ao estuário do rio Púngoe).
b) Risco: nos últimos anos os fenômenos
de inundações têm ocorrido com maior fre-
quência tanto como o fenômeno de ciclones
embora alguns casos com menor intensidade.
Isso torna o risco ainda maior.
c) Vulnerabilidade: Para Veyret e Riche-
mond (2007 p. 40) “a vulnerabilidade coloca
em jogo aspetos físicos, ambientais, técnicos
dados econômicos, psicológicos, sociais e
políticos. Ela não pode ser definida com
simples dados científicos ou técnicos”. Mo-
çambique é um dos dez países mais pobres do
mundo. É possível identificar o modelo de ur-
banização desordenada, falta de qualidade na
infraestrutura pública e privada, habitações
inseguras devido ao escasso poder econômico
de grande parte da população. Cabe ressaltar,
a inexistência de planos de ordenamento terri-
torial acompanhados de estudos mais aprofun-
dados no que tange populações instaladas em
zonas propensas a inundações. Por outro lado,
nota-se a falta ou deficiência de instituições
que devem responder às questões dos desastres
naturais. Não se conhece um plano de urbani-
zação desenhado para fazer frente aos eventos
catastróficos. Neste cenário, pode-se perceber
a situação da cidade da Beira enquanto cidade
altamente vulnerável aos desastres ambientais.
d) Resiliência: O ciclone Idai iniciou sua
trajetória no dia 11 de março de 2019 na ci-
dade da Beira, região central de Moçambi-
que, atingiu também no seu percurso países
vizinhos, sendo eles: Zimbabwe e Malawi. No
entanto, na cidade da Beira, ficou evidente a
fragilidade no processo reação ao evento. Re-
ceia-se que uma parcela considerável das perdas
humanas esteja vinculada à capacidade de res-
posta perante ao desastre ambiental. A escassez
de treinamento às situações de risco, tornou-
-se exposta mediante populações desalentadas
por dias penduradas em árvores desprovidas do
acesso a água. O resgate das populações ocorreu
em grande parte com a ajuda de outros países.
Notou-se a falta de meios de resgate, problemas
com fornecimento de energia, água e falta de
comunicação com as zonas afetadas. Em termos
de fornecimento de água, energia, telecomuni-
cações constatou-se uma falta de mecanismos
alternativos. Perante esse cenário, pode-se afir-
mar que a cidade da Beira não está preparada
para reagir a eventos como inundações e ciclo-
nes de modo a minimizar os efeitos negativos.
O ciclone Idai obriga-nos a fazer uma re-
flexão profunda em relação ao fenômeno das
inundações e dos ciclones, uma vez que ten-
dem a ser cíclicos. Esta reflexão deve envolver
governos, parceiros, sociedade civil, ONGs,
instituições religiosas e a academia com vista a
reduzir a vulnerabilidade das populações e tor-
nar a cidade mais resiliente aos fenômenos de
ciclones e inundações.
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Considerações finais
À luz de tais considerações, nota-se
avanços significativos no tocante ao contato de
Moçambique com as nações parceiras. Os dados
atmosféricos obtidos a partir das imagens de sa-
télites serão de grande importância no contexto
presente e futuro. Contudo, não é suficiente co-
nhecer a trajetória dos ciclones tropicais, cate-
gorizar o poder destrutivo dos mesmos, antever
a duração do fenômeno em questão, quando se
refuta em Moçambique os planos de contingên-
cia. De fato, pesquisas e estudos concernentes
a vulnerabilidade socioambiental, reportam as
geotecnologias já que estas evidenciam fenôme-
nos até então difíceis de serem espacializados.
O entrelaçamento de Moçambique e a
importância de Beira no contexto regional com
outras nações, coloca o fenômeno em conver-
gência com a agenda africana para resolução de
problemas.
Fica claro que os estudos acurados dos
riscos ambientais ampliam quantitativa e qua-
litativamente a disponibilidade de dados e in-
formações aos segmentos públicos e privados.
Cabe mencionar que, traçar estratégias de aná-
lise à mitigação socioambiental torna-se basilar,
sobretudo ao se considerar estruturas habita-
cionais precárias, relacionados com ambientes
caracterizados pela fragilidade econômica e es-
cassez de serviços públicos de qualidade.
Mediante a configuração territorial em
Beira, a significativa concentração urbana em
espaços desvalorizados é em muitos casos, a
maior representatividade das populações mais
atingidas. Somados a esses quesitos, pode se
constatar a escassez de políticas públicas volta-
das ao enfrentamento dos riscos socioambien-
tais. Neste caso, em Moçambique, subjazem as
concepções das sociedades resilientes aos riscos
ambientais. É imperativo ofertar condições
dignas de habitabilidade, bem como reduzir a
distância entre o acesso à informação e a ado-
ção de medidas preventivas.
Diante do exposto, pode-se inferir que a
passagem do ciclone Idai na cidade de Beira tor-
nou evidente a vulnerabilidade socio ambiental
no país em função das inundações, perdas hu-
manas, desorganização do espaço urbano, inci-
dência de cólera. Tratar o fenômeno ocorrido
como variável pertinente a dinâmica da circu-
lação da atmosfera implica em negligenciar ou-
tras interpretações ao risco ambiental. Todavia,
estudos como este propõem analisar de modo
coletivo a vulnerabilidade socio ambiental, seja
ela, de modo local ou regional e, assim apontar
contribuições na inesgotável discussão sobre
riscos, fragilidades, suscetibilidade na África
tropical sob a ótica da prevenção.
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52 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.52 - 54, mai. 2020
Resenha: Livro Sobre a Guerra
organizado por José Luís Fiori examina a
relação entre a guerra e a ética
Simone Kawakami Gonçalves Costa
1
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2020v17n1p52
Recebido em: 16 de julho de 2019
Aprovado em: 03 de fevereiro de 2020
1 Doutora em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, residente na cidade do Rio de Janeiro,
Brasil. Editora da revista Estratégia Internacional-Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3528-6796
Apresentação
52 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte,
ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.52 - 54, mai. 2020
O ato de guerrear é quiçá um dos mais an-
tigos da humanidade, perpassando diversas for-
mas de sociedade. As guerras podem assumir
diversas formas e almejar diferentes objetivos.
Essas variações refletem-se nos discursos que
circundam as guerras, que por sua vez revelam
suas dimensões éticas, impactando não apenas
suas justificações e objetivos, como a própria
formação e transformação do sistema interna-
cional. Frente a um tema tão candente as dife-
rentes tradições teóricas encaram o problema
da guerra, assim como da ética, sob prismas
igualmente distintos. Analisar esta relação en-
tre as guerras e as distintas éticas que subjazem
detrás de suas deflagrações, sendo cruciais para
moldar o sistema internacional desde a sua ori-
gem até a atualidade, estabelecendo um diálogo
entre as principais correntes teóricas e autores
caros às Relações Internacionais é a proposta
trazida por Sobre a Guerra lançado em 2018.
Trata-se de uma coletânea de textos orga-
nizada por José Luís Fiori, resultado dos debates
realizados em um longo ciclo de discussões que
examinou as conexões entre a guerra e a ética em
sessões abertas aos pesquisadores reunidos do
Programa de Economia Política Internacional
da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ao
longo dos 14 capítulos elaborados cada qual por
um autor abordam-se problemas são tão antigos
quanto a prática de guerrear. Não à toa, o li-
vro apresenta-se dividido em três grandes blocos
que abordam a partir de distintas matrizes teó-
ricas a relação entre a guerra e a ética, abordadas
em diálogo com as teorizações da escola realista.
O primeiro conjunto de artigos denomi-
na-se “Evolução e Conflito”, e está dedicado ao
exame da guerra em uma perspectiva de longa
duração. O artigo Guerra, ética e etologia pro-
põe uma abordagem pouco previsível ao apre-
sentar um exame de sociabilidades primatas e
suas guerras, vistas a partir da macro perspectiva
de longuíssima duração. Sugere-se assim que a
guerra tem natureza apomórfica para a huma-
nidade, isto é, está marcada pela ancestralidade
contida na própria evolução da espécie humana.
Já o artigo Evolução e moralidade busca traçar
um debate sobre como a guerra moldou a evolu-
ção da cooperação humana, tomando por base a
teoria evolucionária para investigar os efeitos do
igualitarismo primitivo na seleção natural.
53 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.52 - 54, mai. 2020
O segundo bloco de artigos intitulado jus-
tamente Guerra e ética, é apresentado como o
epicentro do livro de acordo com o organizador
da obra. Nele apresentam-se textos dedicados a
examinar a relação entre guerra, paz e justiça, e
a possibilidade de constituição de uma ordem
internacional e jurídica ética, capaz de ordenar
as relações entre distintos povos que profes-
sam diferentes preceitos éticos. Em Dialética
da guerra e da paz escrito por José Luís Fiori
analisa-se detidamente a gênese do sistema in-
ternacional como derivada das guerras, cuja
pilhagem sob a forma de tributação punitiva
imposta pelos vencedores aos vencidos lançou
as bases para a formação embrionária da hierar-
quia de forças entre as nações. Assim, o sistema
internacional emerge de um desenvolvimento
expansivo marcado pela necessidade de resol-
ver o problema do financiamento da guerra,
transformando o ato de guerrear em um ins-
trumento fundamental do enriquecimento e da
acumulação de poder. Essa natureza da guer-
ra a faria ser a peça sistêmica da expansão do
próprio capitalismo, sendo crucial para o de-
senvolvimento do sistema interestatal dentro e
fora da Europa, até finalmente se universalizar
no século XX com a globalização adquirindo
diferentes faces e argumentações éticas. Assim,
é sob a égide da hegemonia estadunidense que
se dá sucessão de formas do sistema interna-
cional, abarcando as guerras humanitárias do
final dos anos 1990, posteriormente substituí-
das pela “guerra ao terror”, que de certa forma
vigoram até o século XXI. A cada uma dessas
formas de guerra corresponde uma determina-
da “ética”. Assim, a distinção entre os conceitos
de “ética” e “justiça” assume na análise de Fiori
não só um sentido filosófico, mas atua como
um signo disruptivo, visto que a Guerra do
Golfo operou-se em meio ao reordenamento
do sistema internacional, em um processo mo-
tivado por raízes muito mais profundas que os
objetivos declarados pelos Estados Unidos. Em
verdade, como Fiori bem indica, a Guerra do
Golfo de 1991 conflui com uma transformação
de grande magnitude no sistema internacional,
traduzido no fim da Guerra Fria, e na ascensão
de um momento que distintos autores e ana-
listas caracterizaram como dominação unipolar
estadunidense.
Já em Guerra e ética em Aristóteles há um
debate crítico travado a partir das lacunas
deixadas tanto pelos realistas como pelos
liberais sobre a ética das guerras, que o artigo
busca preencher propondo um diálogo entre a
perspectiva das guerras justas e o pensamento
clássico aristotélico. Guerra, virtù e ética em
Maquiavel retoma as grandes transformações
presentes no sistema internacional contem-
porâneo ao filósofo florentino que marcam a
disseminação das guerras como formadoras do
ordenamento interestatal. Já em Guerra e li-
berdade em Mill, Kant e Hegel apresenta-se um
diálogo entre as visões otimistas europeias con-
tidas no liberalismo clássico dos dois primeiros
autores, e um contraponto com a percepção
hegeliana sobre a guerra. Em Guerra e violência
na teoria marxista oferece uma análise dos escri-
tos de Marx e Engels sobre o militarismo, en-
tendido como expressão das contradições que
emanam do poder da classe dominante. Guerra
e moral internacional em Carr, Aron e Morgen-
thau traz um exame das distinções e pontos
comuns entre os autores citados no tema da
ética da guerra. Por fim, Guerras humanitárias
e ordem ética analisa o declínio do humanismo
liberal durante os governos de Barack Obama.
Já o terceiro conjunto de artigos dedica-
-se ao exame dos principais debates teóricos
sobre a geopolítica, geoeconomia e a dinâmica
54 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.1, p.52 - 54, mai. 2020
das guerras no sistema internacional forjado no
período posterior à Segunda Guerra Mundial.
Em Guerra, moeda e finanças analisa-se a rela-
ção entre moeda, financiamento, guerra e po-
der tomada desde a era hegemônica britânica
até a ascensão do dólar, e, portanto, dos Estados
Unidos como hegemon. Em Guerra e dinâmica
sociopolítica retoma-se o pensamento estratégico
de Clausewitz e distintos autores como Weber
e Adam Smith para problematizar a definição
de guerra centrada essencialmente no comba-
te, ampliando essa noção para outros tipos de
conflitos. Guerras hegemônicas e ordem interna-
cional traz uma análise dos ciclos longos de acu-
mulação capitalista como pano de fundo para
um debate com as reflexões desenvolvidas por
Modelski e Robert Gilpin sobre as guerras cujos
efeitos resultam em transformação da dimen-
são sistêmica. Em A geopolítica estadunidense e
a Eurásia retoma-se a centralidade da região eu-
rasiana para a formação do pensamento geoes-
tratégico estadunidense, e a forma como isso
norteou as elaborações de Zbigniew Brzezinzki
e Henry Kissinger, passando ainda por outros
autores como Stephen Walt e John Mearshei-
mer para concluir com uma análise dos docu-
mentos estratégicos dos governos de George
H.W. Bush e Barack Obama. E encerrando esse
bloco está A visão confuciana e a geopolítica chi-
nesa que detalha como o confucionismo enten-
de guerra e paz, e como isso impacta as relações
interestatais da China na atualidade.
O epílogo que encerra a obra Ética cultural
e guerra infinita de autoria de José Luís Fiori
traz uma análise crítica ao documento de Estra-
tégia de Segurança Nacional de 2017, já sob o
governo de Donald Trump, na qual indica que
estamos diante de uma nova reconfiguração
do sistema internacional. Assim, com grande
riqueza analítica e teórica Sobre a Guerra traz
em suas entrelinhas uma inquietação sobre a
possibilidade de uma dinâmica de rupturas e
transformações do sistema internacional em
meio aos abalos sofridos desde a ascensão de
Donald Trump ao poder, e à sua tentativa de
estabelecer uma ordem distinta à que prevale-
ceu desde pelo menos o fim da II Guerra Mun-
dial, construída e sustentada pelos próprios Es-
tados Unidos.
A atual e crescente polarização da socie-
dade norte-americana, não apenas entre a clas-
se detentora e os despossuídos, mas entre as
próprias alas e frações das classes dominantes
e dos grupos políticos do establishment, servi-
rão de combustível para o crescimento do po-
derio militar global estadunidense. E isso não
indica qualquer recuo dos Estados Unidos cir-
cunscrito aos limites de suas fronteiras, como
alguns erroneamente interpretaram a retórica
antiglobalização de Donald Trump. Assim, a
declaração feita pelos Estados Unidos de que
não se veem mais como os porta-vozes de valo-
res universais, como consta em seu documento
que traz a nova doutrina de segurança nacional
publicado em 2018, não deve ser interpretada
como maior equilíbrio de poderes. Pelo contrá-
rio, essa declaração aceita as diferenças éticas
presentes no sistema internacional, anuncian-
do dessa maneira batalhas ainda mais belige-
rantes fomentadas pela ruptura das instâncias
que outrora davam rosto ao sistema internacio-
nal ao partilhar, ainda que discursivamente de
uma mesma ética e valores. Este é um alerta
trazido pelo livro Sobre a Guerra, que segura-
mente deve ser observado por todos nós.
Referência
FIORI, José Luís (org). Sobre a Guerra. Petrópolis: Editora
Vozes, 2018. ISBN: 978-8532658579