
43 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.2, p.29 - 47, ago. 2020
O Primeiro Ministro Rafik el Hariri foi
uma forte liderança contra a presença síria no
Líbano, e recebia amplo apoio da Arábia Saudi-
ta. O ápice desta disputa foi o ataque com um
caminhão bomba contra sua comitiva em 14
de fevereiro de 2005 em Beirute, que vitimou a
ele e mais 21 pessoas. O assassinato do Primei-
ro Ministro foi apontado pela opinião pública
libanesa como de responsabilidade do governo
sírio e do Hizballah, e gerou uma grande co-
moção nacional.
A mobilização popular criou um movi-
mento conhecido como Revolução dos Cedros,
e no dia 14 de março de 2005, mais de 1,5 mi-
lhões de libaneses ocuparam a Praça dos Márti-
res em Beirute para exigir a retirada do exército
sírio do Líbano, a manutenção de sua soberania,
bem como a destituição de todo governo liba-
nês, considerado pró-Síria. A pressão nacional
e internacional foi intensa, o que levou as Na-
ções Unidas a aprovarem a Resolução 1595 do
Conselho de Segurança em 07 de abril de 2005,
que determinou o respeito à independência e
soberania do Líbano, além de uma investigação
sobre o assassinato de Hariri, sob os auspícios
do Tribunal Especial para o Líbano. Em 26 de
abril de 2005 o Exército Sírio se retirou do país.
A partir deste momento a política libanesa
se polarizou em duas grandes coalizões. A pri-
meira conhecida como 14 de Março
11
, liderada
pelo filho de Rafik el Hariri, Saad Hariri, e com
presença maciça de sunitas (partido Futuro),
parte dos cristãos (partido Kataeb, Forças Liba-
nesas e Movimento Patriótico Livre) e drusos
(Partido Progressista Socialista). Este grupo era
apoiado pela Arábia Saudita, Estados Unidos e
países europeus.
11 O nome 14 de Março originou-se em razão do grande
protesto ocorrido em Beirute no dia 14 de março de 2005,
contra o assassinato do Primeiro Ministro Rafik el Hariri.
A outra coalizão foi a 8 de Março
12
, for-
mada pelos xiitas (Partidos Hizballah e Amal),
parte dos cristãos (Movimento Marada, Parti-
do Social Nacionalista Sírio, dentre outros) e
por uma outra parte dos drusos (Partido De-
mocrático Libanês). A Síria, Irã e Rússia eram
os principais apoiadores desta aliança. Esta rea-
lidade influencia notadamente as relações polí-
ticas até a atualidade. Nos anos subsequentes,
vários partidos mudaram de coalizão, como o
caso do partido de Michel Aoun, o Movimen-
to Patriótico Livre, que se alinhou ao grupo 8
de Março, e o partido Progressista Socialista,
de Walid Jumblatt, que se torna independente,
mesmo mantendo o apoio o partido Futuro, de
Saad Hariri.
No ano seguinte, após uma incursão do
Hizballah às Fazendas de Shebba
13
, o que aca-
bou com a morte de vários soldados israelen-
ses na ação, gerou o conflito conhecido como
a Guerra do Líbano, em 2006. A resposta is-
raelense foi uma ação militar devastadora con-
tra o território libanês, o que agravou seu qua-
dro político e humanitário. Por outro lado, o
custo para o exército israelense também foi alto,
em virtude das perdas impostas pelo Hizballah.
12 O nome 8 de Março originou-se em razão de um comício
organizado pelo Hizballah e partidos aliados no dia 8 de
março de 2005, para agradecer a participação da Síria no
processo que levou ao fim da Guerra Civil de 1975 e pela
estabilização do Líbano.
13 Território libanês ocupado por Israel na Guerra de 1967,
localizado na fronteira entre Líbano, Israel e Síria (Colinas
de Golã). A controvérsia sobre a ocupação das Fazendas
de Shebba remonta o mandato francês, que indicava que
a área pertencia ao Líbano, porém, na década de 1950 foi
ocupada pelos sírios, e posteriormente por Israel, na Guer-
ra dos Seis Dias, em 1967. O território compreende uma
área pequena de aproximadamente 38 Km2, nas proximi-
dades do Monte Hermon. O Governo Libanês reafirma o
direito sobre o território, e o grupo Hizballah não aceita o
desarmamento de sua milícia armada por dizer que Israel
ainda não se retirou completamente do território libanês.