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Do Pequeno ao Grande Líbano: os
desafios contemporâneos da República
Libanesa
From Small to Greater Lebanon: the contemporary challenges of the Lebanese Republic
Del Pequeño al Gran Líbano: los desafios contemporáneos de la República Libanesa
Danny Zahreddine
1
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2020v17n2p29
Recebido em: 15 de julho de 2020
Aceito em: 27 de agosto de 2020
Resumo
Marcado por uma história de múltiplos conflitos internos, e de intervenções externas, a
República Libanesa é o resultado de decisões pretéritas que foram fundamentais na deter-
minação dos seus dilemas atuais. Este artigo apresenta uma análise histórica da criação
do Líbano, desde a formação do Emirado do Monte Líbano, passando pelo mandato
francês, até a criação do «Grande Líbano», bem como uma reflexão sobre seus dilemas
contemporâneos.
Palavras-chave: Líbano. Minorias Religiosas. Guerra Civil.
Abstract
Marked by a history of multiple internal conflicts and external interventions, the Lebanese
Republic is the result of past decisions that were fundamental in determining its current
dilemmas. is article presents a historical analysis of the creation of Lebanon, from the
formation of the Emirate of Mount Lebanon, through the French mandate, until the crea-
tion of “Greater Lebanon”, as well as a reflection on its contemporary dilemmas.
Keywords: Lebanon. Religious Minorities. Civil war.
Resumen
Marcada por una historia de múltiples conflictos internos e intervenciones externas, la
República Libanesa es el resultado de decisiones pasadas que fueron fundamentales para
determinar sus dilemas actuales. Este artículo presenta un análisis histórico de la creación
del Líbano, desde la formación del Emirato del Monte Líbano, pasando por el mandato
francés, hasta la creación del “Gran Líbano”, así como una reflexión sobre sus dilemas
contemporáneos.
Palabras clave: Líbano. Minorías religiosas. Guerra civil.
1 Doutor em Geografia pelo Programa de Pós Graduação em Tratamento da Informação Espacial (PUC Minas). Professor do
Departamento de Relações Internacionais da PUC Minas. Membro permanente do Programa de Pós Graduação em Relações
Internacionais (PUC Minas). Líder do Grupo de Estudo Oriente Médio e Magreb - CNPq (GEOMM). ORCID: https://orcid.
org/0000-0001-7400-0300
Artigo
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Introdução
Os protestos que se desencadearam no Lí-
bano a partir de outubro de 2019, e a grande
explosão ocorrida no Porto de Beirute em 04
de agosto de 2020 são reveladores das tensões
que envolvem a sociedade libanesa e seu siste-
ma político. Essas manifestações que adentra-
ram o ano de 2020 são resultado de uma série
de questões. Os ecos do passado ainda refletem
diretamente nos dilemas contemporâneos dos
libaneses, e se manifestam na tomada de deci-
são dos atores políticos do regime sectário em
vigor, nos desafios da política internacional e
nas crises econômicas que assolam o país, no
transcurso desses quase 80 anos da Proclama-
ção da República Libanesa.
O dia 1° de setembro de 1920 foi uma data
marcante para a história do Líbano e para seu
futuro. A criação do “Grande Líbano”, por de-
creto do então General francês Henri Gouraud,
afetaria profundamente as relações político-
-sociais dos grupos confessionais pertencentes
a esta nova entidade nacional. Neste sentido,
entender o processo histórico que levou à cria-
ção da República Libanesa e os desafios de sua
sociedade multiconfessional é de fundamental
importância para a compreensão de seus dra-
mas atuais e de suas possibilidades futuras.
Oficialmente, o governo libanês reconhece
18 comunidades religiosas
2
, que participam da
vida política do país. Esta realidade é reveladora
da complexidade que é lidar com a cena política
do Estado. Entre os libaneses existem percep-
2 Os grupos confessionais libaneses são: Alauitas, Armênios
Católicos, Armênios Ortodoxos, Assírios, Caldeus Católi-
cos, Católicos Romanos, Coptas, Drusos, Gregos Católicos
Melquitas, Gregos Ortodoxos de Antioquia, Ismaelitas, Ju-
deus, Maronitas, Protestantes, Siríacos Católicos, Siríacos
Ortodoxos, Sunitas, Xiitas.
ções muito particulares acerca da origem do Es-
tado e da identidade nacional de seus cidadãos.
Com frequência vemos nas comunidades
diaspóricas libanesas, grupos defendendo o le-
gado fenício como a principal fonte identitá-
ria. Para outros, a identidade árabe é a prin-
cipal referência nacional. Tais percepções são
defendidas por grupos religiosos distintos,
gerando uma perspectiva muito particular de
unidade nacional (KAUFMAN, 2004). Desta
forma, buscarei indicar neste artigo os elemen-
tos que levaram à criação do Líbano contem-
porâneo, e os fatores que tornam a solução dos
problemas atuais um grande desafio para a so-
ciedade libanesa.
O Emirado do Monte Líbano
A criação do Emirado do Monte Líbano
no Império Otomano pelos emires drusos da
dinastia Maan, pode ser considerada um dos
fatores primordiais para o desenvolvimento da
futura nação libanesa. Neste sentido, a forma
como o Império controlava suas possessões ter-
ritoriais e as minorias religiosas, permitiram a
organização de forças políticas e sociais locais,
o que contribui para o processo de formação do
futuro Líbano.
O atual território libanês é constituído ba-
sicamente por duas cadeias montanhosas que
se estendem de norte a sul, com um fértil vale
ao centro e o mediterrâneo banhando a sua
costa. A região do Emirado do Monte Líba-
no era formada pela área compreendida entre
o litoral mediterrâneo até o cume da primeira
cadeia montanhosa em direção a leste, o Monte
Líbano, tendo como limite norte o Sanjak
3
de
3 Sanjak era uma divisão administrativa do Império Otomano
que pode ser definido como um distrito de um Vilayet.
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Trípoli (que não compunha o Emirado), e o
limite sul o Sanjak de Sidon (que também não
compunha o Emirado). O Sanjak de Beirute
era a sede do Vilayet
4
de Beirute, que controlava
os Sanjaks de Latakia, Tripoli, Akkar e Nablus.
De acordo com Traboulsi (2012), a cria-
ção do Emirado do Monte Líbano, como uma
região autônoma dentro do Império Otomano,
em 1523, teve impacto fundamental para o iní-
cio da consolidação da futura nação libanesa
por alguns fatores: o primeiro deles diz respeito
à integração de todo Monte Líbano, a partir de
uma autoridade local constituída, expandindo
em alguns momentos tais possessões até à Sí-
ria e à Palestina histórica; a segunda se relaciona
à presença considerável de cristãos na região; a
terceira aponta para o precoce desenvolvimen-
to da atividade produtiva naquela área, com a
implementação da produção e comercialização
da seda, pelos príncipes drusos e cristãos ma-
ronitas; e o quarto fator diz respeito ao longo
relacionamento do emirado com a dimensão in-
ternacional e as experiências de intervenções ex-
ternas sofridas a partir das potências europeias.
Todas essas características, consolidadas
em um período que abrange o ano 1523 a
1842, foi um primeiro momento de formação
daquilo que seria conhecido como o pequeno
Líbano. O Emirado do Monte Líbano era uma
unidade semiautônoma, pertencente ao Impé-
rio Otomano, que era administrada por emires
locais reconhecidos e aceitos pelo Império. A
manutenção desta elite local estava ligada ao
controle das terras e à arrecadação de tributos
pela utilização e produção destas propriedades.
Existiam obrigações que estes emires locais de-
veriam cumprir junto ao Império Otomano,
4 Vilayet era uma divisão administrativa do Império Otoma-
no que pode ser definido como província ou departamento.
Um Vilayet era composto por vários Sanjaks.
dentre elas a coleta e envio de impostos (tax
farms), e o controle da região frente aos inimi-
gos do Império (TRABOULSI, 2012).
O Emirado do Monte Líbano era ocupa-
do majoritariamente por cristãos maronitas e
drusos, além de outras minorias cristãs e mu-
çulmanas. Até o ano de 1841 o Emirado foi
governado por emires drusos, muçulmanos
sunitas, e por uma ocasião, por um Emir de
descendência sunita mas convertido ao cristia-
nismo maronita. Porém, dois foram os Emires
que mais influenciaram a criação do Líbano
moderno, o Príncipe Fakhreddine II da dinas-
tia Maan (1572-1635), e o Emir Bashir Shihab
II (1767-1850).
Fakhreddine II foi responsável pela maior
integração do Monte Líbano, pois além de seu
forte controle sob a região, estimulou o desen-
volvimento da produção de seda e a participa-
ção das comunidades maronitas nesta atividade.
Além disto, Fakhreddine II também incentivou
o deslocamento de cristãos maronitas para ou-
tras regiões do Monte Líbano, principalmente
áreas próximas do vale do Békaa e do Shouf,
porção sul do território, ocupado majoritaria-
mente por drusos, para o desenvolvimento da
atividade com a seda (SALIBI, 1988, p. 67).
O emir druso conseguiu ocupar uma gran-
de porção do território que ia além do próprio
Monte Líbano, como o vale do Békaa, a cidade
de Palmira (atual Síria), áreas da atual Jordânia
e Palestina, o que gerou desconfiança no sultão
otomano. Fakhreddine II também foi respon-
sável pela tentativa de tornar independente o
emirado, com o apoio dos Maronitas, Vaticano
e dos Médicis de Florença.
Quando os planos para independência fo-
ram descobertos pelos otomanos, exilou-se por
cinco anos em Florença. De volta ao Monte
Líbano buscou retomar o controle da região.
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Ao final, sem o apoio da comunidade drusa,
acabou sendo capturado pelo exército otomano
e levado a Constantinopla, onde foi executa-
do dois anos após sua prisão, em abril de 1635
(TRABOULSI, 2012).
Já Bashir Shihab II foi o mais longevo dos
emires no poder no Monte Líbano, de 1788
a 1840. Bashir pertencia a uma família sunita,
que parte se converteu ao cristianismo maroni-
ta. Ele foi responsável pelo recrudescimento das
relações sectárias entre maronitas e drusos, fa-
vorecendo os maronitas em alguns momentos,
reduzindo a influência política e econômica dos
drusos, e levando a embates sectários cada vez
mais constantes entre estes dois grupos religio-
sos. Com o fim da presença egípcia na região,
e a retomada do controle Otomano, o Emir
foi exilado com sua família em Malta. Muitas
características do sectarismo religioso do Líba-
no moderno advêm das políticas adotadas por
Bashir Shihab II (TRABOULSI, 2012).
Em 1841, os confrontos sectários entre dru-
sos e maronitas aumentaram consideravelmente,
em função do sistema otomano de controle da
terra, que se assemelhava a um sistema feudal,
não-sectário, em que os senhores locais eram res-
ponsáveis pela coleta de impostos, pelo uso da
terra e pelo controle da ordem local. Este sistema
era conhecido como Iqta’a, e os responsáveis pela
sua realização o Muqata`ji (KHALAF, 2002).
Boa parte das terras estava sob o controle
dos drusos, enquanto os maronitas, campo-
neses e comerciantes em sua maioria, estavam
submetidos a este sistema feudal em áreas de
maioria cristã
5
. Os agricultores maronitas ini-
5 É importante ressaltar que também existiam Muqata`jis
maronitas, principalmente na região de Keserwan, onde
praticavam a mesma função que os emires drusos. A con-
centração maior de emires drusos se dava na região ao sul do
Monte Líbano (Jabal Shouf).
ciaram greves e ataques contra os responsáveis
pelas terras nesse período, em sua maioria dru-
sos. É importante salientar que nesse momen-
to, a população cristã Maronita do Emirado do
Monte Líbano era bem superior à população
drusa (HARRIS, 2012).
Em 1843 o Império Otomano decidiu di-
vidir o Emirado em duas províncias (Qayma-
qam duplo), ao norte, administrada pelos ma-
ronitas, e ao sul, administrada pelos drusos,
separadas pela antiga estrada que ligava Beirute
a Damasco. Isto representou o fim do Emira-
do do Monte Líbano. A decisão otomana foi
resultado da intensa pressão da Áustria, Reino
Unido e França. Porém, a ação tornou a rela-
ção entre drusos e maronitas ainda mais ten-
sa, pois exacerbou o sentimento sectário entre
estas duas comunidades. Terras drusas que
estavam localizadas na porção norte, sofriam
ataques de agricultores maronitas, e cidades de
maioria cristã, na porção sul do Monte Líba-
no (administrada pelos drusos) não aceitavam
a autoridade drusa. A divisão do Monte Líba-
no aprofundou o sentimento identitário das
comunidades confessionais, gerando um ciclo
de violência constante, com ações de ambos os
lados (TRABOULSI, 2012).
O ápice desta tensão se deu no ano de
1860, quando após uma série de revoltas ma-
ronitas contra propriedades drusas, gerou uma
resposta drusa que levou à morte de milhares de
maronitas, principalmente nas cidades de Zah-
le, Deir al Qamar e Damasco. (TRABOULSI,
2012). Um aspecto importante para entender a
intensificação dos embates é a própria influên-
cia que França e Reino Unido tiveram nas co-
munidades maronita e drusa respectivamente.
Os franceses, apoiando os maronitas, enviavam
dinheiro e armas, além de estimular o embate
contra os drusos. Os ingleses, intercediam pelos
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Muqata`ji drusos frente ao Império Otomano,
para a manutenção de sua autoridade local e
terras (HARRIS, 2012). O embate internacio-
nal entre França e Reino Unido também se re-
fletia no Monte Líbano.
O impacto da morte de milhares de cris-
tãos maronitas levou os franceses a pressiona-
rem os Otomanos a criarem uma província
autônoma no Monte Líbano. Esta província
teria o objetivo de resguardar as vidas e o le-
gado do cristianismo no Oriente Médio, além
dos interesses geopolíticos e econômicos da
própria França. Vale lembrar que o Império
Otomano já utilizava o sistema de Millet an-
tes das reformas Tanzimat, que conferia às mi-
norias confessionais relativa autonomia. Além
disso, o império já se encontrava em franca
decadência, o que facilitou o pleito francês e a
intervenção europeia. Esse momento também
representou o início da falência do sistema se-
mifeudal Otomano, representado pelo sistema
Iqta’a e os Muqata`jis, e o início da ascensão
política e econômica dos maronitas, em detri-
mento dos drusos.
Figura 1 - O Qaymaqam Duplo do Monte Líbano
Fonte: Elaborado e adaptado pelo autor com dados de (GARNIER, 1861).
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Do Pequeno Líbano à
República Libanesa
Em 9 de junho de 1861 o Império Otoma-
no criou a província semiautônoma do Monte
Líbano. O Mutassarifat do Monte Líbano foi
governado por vários cristãos não libaneses, sob
a supervisão da França, Reino Unido, Áustria,
Prússia e Rússia (TRABOULSI, 2012). Este
sistema funcionou até 1915, e quando os Oto-
manos perderam a Primeira Guerra Mundial,
franceses e ingleses ocuparam a região, sob os
auspícios dos Acordos secretos de Sykes Picot.
Os desdobramentos do fim da Primeira
Guerra Mundial foram sentidos fortemente no
Oriente Médio. As promessas feitas ao Xerife de
Meca, Hussein Ibn Ali, pelos britânicos, de cria-
ção de um Reino Árabe, de acordo com as Cartas
Hussein-Mcmahon (KAMRAVA, 2005), junta-
mente com as aspirações francesas e das elites
locais (cristãos libaneses e muçulmanos árabes),
gerou uma disputa acirrada entre estes grupos.
Faissal, filho de Hussein, que havia chegado
em Damasco, bem como os muçulmanos que vi-
viam no vale do Békaa e na porção sul do Líbano,
defendiam a manutenção de uma Grande Síria, li-
gada ao mundo árabe. Os cristãos Ortodoxos que
também moravam nesta área apoiavam o pleito
árabe, e eram contra a anexação de tais terras para
a criação de um Grande Líbano. Por outro lado, o
Patriarca Maronita Elias Huwayik e boa parte dos
cristãos libaneses (principalmente os maronitas),
e os próprios franceses, almejavam a criação de
um Grande Líbano (TRABOULSI, 2012).
A ideia de um Grande Líbano nascia da
vontade da França e dos Maronitas de criar
uma entidade política cristã no Oriente Mé-
dio que fosse viável. Neste sentido, o “Pequeno
Líbano” seria extremamente dependente econo-
micamente das nações vizinhas, se mantivesse
somente a região do Monte Líbano. Desta for-
ma, a pressão exercida pelo Patriarca Maronita
Elias Huwayik sobre as autoridades francesas
surtiu o efeito esperado quando da saída do Pri-
meiro Ministro francês Georges Clemenceau.
Esta nova Unidade Política agregaria ao Mon-
te Líbano as cidades de Sidon e a região sul até a
fronteira com a Palestina; Trípole e o antigo Sanjak
de Akkar, e todo o Vale do Békaa até o cume do
Antilíbano. Após o avanço das forças francesas em
Damasco, e a retirada de Faissal da região, o Ge-
neral Gouraud finalmente oficializa a criação do
Grande Líbano em 1 de setembro de 1920.
Este momento é crucial para os desafios
do Líbano contemporâneo, pois até 1920, 80%
da população do Monte Líbano era cristã, e o
restante formado por drusos e outras minorias
muçulmanas (HARRIS, 2012). O “Pequeno
Líbano” englobava aproximadamente o que foi
o Emirado do Monte Líbano. Neste território,
com aproximadamente 4.000 km
2
, a predomi-
nância era dos cristãos maronitas.
A decisão de alargar as fronteiras do “Peque-
no Líbano” buscava viabilizar economicamente
uma nova entidade nacional, pois o Monte Líba-
no já havia experimentado situações de fome ex-
trema ao final do século XIX e durante a Primeira
Guerra Mundial. A existência de limitada terra
agricultável, da decadência da indústria da seda e
a própria conjuntura da guerra, foram os fatores
principais que levaram à fome. A integração do
Vale do Békaa e das grandes cidades litorâneas vi-
sava minorar esta fragilidade. Porém, ao agregarem
tais áreas, os Cristãos Maronitas que compunham
58% do total da população do Monte Líbano
diminuíram sua representatividade demográfi-
ca para 33% (HARRIS, 2012), não sendo mais
o grupo confessional majoritário, em função dos
milhares de muçulmanos que habitavam as novas
regiões anexadas. A busca pela viabilidade econô-
mica criou um profundo dilema político e social.
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Neste sentido, o decreto do General Gou-
roud criou um Líbano cristão extremamente
dependente do mandato francês, pois seu apoio
aos Maronitas deveria ser mais contundente
em função de duas razões principais: das po-
pulações muçulmanas que não queriam fazer
parte desta nova unidade política e pela dimi-
nuição da proporção entre cristãos e muçul-
manos. De um lado temos cristãos maronitas
que visam criar no Líbano a sua pátria, ligada à
Europa, por outro lado, muçulmanos sunitas e
xiitas que querem se manter ligados à “Grande
Síria”. É deste cenário que as divisões da socie-
dade libanesa vão se aprofundar, pois além do
sectarismo religioso herdado do século XIX, a
absorção de outras comunidades confessionais
em número expressivo tornará mais difícil o
pacto social e político deste novo país.
Na tentativa de criar uma solução para
a questão política e identitária libanesa, uma
constituição é elaborada em 1926. Essencial-
mente liberal e de espírito democrático, a cons-
tituição indicava a divisão igualitária de espaço
político para cristãos e muçulmanos; aponta
Figura 2 – Pequeno e Grande Líbano
Fonte: Elaborado e adpatado pelo autor com dados de (SALIBI, 1988)
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que o sistema confessional deve ser temporá-
rio e transitório, e que o Líbano seria um país
pertencente ao mundo árabe. Porém, a consti-
tuição libanesa não indicou como seria a dis-
tribuição de cargos e funções entre as religiões,
algo que será resolvido com o Pacto Nacional
em 1943. É importante salientar que a consti-
tuição libanesa é criada sob o mandato francês,
sendo o Líbano ainda subordinado àquele país.
Em 1932 a França, juntamente com as
autoridades libanesas, elabora um censo de-
mográfico para auxiliar na construção da ci-
dadania libanesa, haja vista o fim do Império
Otomano. Além disto, o censo seria importan-
te pois serviria de base para o estabelecimento
da representação política do país e a divisão do
poder entre as comunidades confessionais, no
governo, parlamento e no serviço público.
Para Maktabi (1999) os resultados do
Censo de 1932 revelaram uma metodologia
enviesada, que buscava favorecer um Líbano
majoritariamente cristão. A aceitação da in-
clusão de emigrantes no censo foi legitimada
por Lei em 19 de dezembro de 1931, emitida
menos de um mês antes do anúncio da reali-
zação do censo, pelo Decreto 8837 em 15 de
janeiro de 1932. A lei estipulava que deveria
se considerar os emigrantes que haviam deixa-
do o país a partir de 30 de agosto de 1924. A
questão é que milhares de cristãos foram acei-
tos, mesmo tendo emigrado antes de 30 de
agosto de 1924.
Outro ponto interessante levantado por
Maktabi (1999) é sobre os estrangeiros no
censo de 1932. Observa-se em documentos da
época a disposição das autoridades francesas
e libanesas em garantir para os cristãos armê-
nios e de outras nacionalidades, que entraram
no país como refugiados, o direito à cidadania
libanesa, em função da relação com o cristia-
nismo. No entanto, populações curdas, que
também se refugiaram no Líbano, mas de ori-
gem muçulmana, não receberam o mesmo tra-
tamento, sendo considerados estrangeiros. Este
e vários exemplos revelam o esforço que França
e as autoridades libanesas sob o mandato fran-
cês, empreenderam para garantir um sistema
político com maioria cristã. Estas informações
podem ser observadas claramente na tabela 1,
sobre o resultado do Censo de 1932.
Tabela 1 – Residentes e Emigrantes Libaneses por Grupo Religioso de Acordo
com o Censo de 1932
Fonte: Maktabi (1999), página 235
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O controle restritivo da concessão de cida-
dania libanesa foi uma política comum adotada
pelo governo até a guerra civil de 1975. Den-
tre as razões para tais políticas, e para ausência
de outro censo demográfico, estava o interesse
de manter a ideia de que o Líbano se mantinha
majoritariamente cristão, em uma realidade que
já estava em franca transformação (MAKTABI,
1999). Por esta razão a questão demográfica é
tão sensível até os dias de hoje, pois será sobre ela
que todo o sistema político libanês se sustentará.
Para acomodar os interesses da população
cristã e da população muçulmana, em 1943
políticos representantes destes dois grupos reli-
giosos aceitam a criação de um acordo não-es-
crito, conhecido como Pacto Nacional. O Pacto
Nacional representou a divisão do poder políti-
co nas principais esferas decisórias e de poder:
governo, parlamento e serviço público. Tendo
como base o resultado do Censo de 1932, o
Pacto Nacional estabeleceu que o presidente do
Líbano seria um cristão maronita, o Primeiro
Ministro um muçulmano sunita, o presidente
do parlamento um muçulmano xiita, e as ca-
deiras do parlamento seriam divididas em uma
proporção de 6 cristãos para 5 muçulmanos,
isto significava 54 cadeiras para cristãos (Maro-
nitas, Gregos Ortodoxos e Gregos Católicos) e
45 para muçulmanos (sunitas, xiitas e drusos).
Essa proporção se repetiria em todas as esferas
decisórias. Este é o sistema confessional libanês
fundado em 1943. Como aponta Zisser (2000),
a forma final do Pacto Nacional foi dada em
uma reunião do futuro presidente do Líbano, o
cristão Maronita Bechara el Khoury, juntamen-
te com seu futuro Primeiro Ministro, o sunita
Riad al-Solh, no dia 19 de setembro de 1943.
Para Calfat (2018), o sistema político li-
banês pode ser definido como uma forma de
democracia consociativa, própria de socieda-
des que são marcadas por forte componente
de pluralidade étnico-religiosa e fragmentação
política. O conceito de regimes ou instituições
consociais foi apresentado pelo cientista polí-
tico holandês Arendt Lijphart. Para o autor,
“Democracia consocial significa um governo
formado por um cartel de elites projetado para
transformar uma democracia com uma cultura
política fragmentada em uma democracia está-
vel” (LIJPHART, 2008, p. 31, tradução nossa)
6
.
Sistemas políticos consociativos buscam
evitar o conflito a partir da distribuição da re-
presentatividade minoritária de tais grupos no
executivo e no parlamento, e geralmente são re-
presentados por suas elites. A despeito de estar
inserido em uma região geopoliticamente ins-
tável, de 1943 a 1975, o país manteve-se relati-
vamente estável, com alguns momentos de cri-
se mais aprofundada, como nos anos de 1958
e 1968. Boa parte das crises estavam ligadas à
Guerra Fria, ao conflito palestino-israelense e a
polarização dos partidos políticos libaneses de
acordo com suas comunidades religiosas.
Da Independência à Guerra
Civil de 1975
Em 21 de setembro de 1943 Bechara el
Khoury foi eleito o primeiro presidente do
Líbano independente, e escolheu Riad al-So-
lh como seu Primeiro Ministro. A eleição de
Khoury representou um duro golpe para os
franceses, pois seu posicionamento era de aca-
bar com o mandato francês e implementar o
Pacto Nacional, com o intuito de apaziguar os
medos de cristãos e muçulmanos e viabilizar o
novo Estado. O Pacto Nacional sinalizou para
6 Consociational democracy means government by elite cartel
designed to turn a democracy with a fragmented political
culture into a stable democracy.
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os cristãos do Líbano que seu país se manteria
independente, e não seria absorvido por ne-
nhuma nação árabe. Ao mesmo tempo, para
os muçulmanos, o Pacto nacional significaria a
preservação da identidade árabe do Líbano e o
afastamento da interferência francesa no país.
O mês de novembro de 1943 foi simbó-
lico para a história libanesa, pois representou
a última tentativa do governo em acabar com
o mandato francês. No dia 8 de novembro de
1943 uma proposta de emenda constitucional é
apresentada à Câmara libanesa. O movimento,
feito pelo novo governo (Khoury e Solh), suge-
ria a remoção de qualquer menção ao papel da
França como força mandatária do Líbano da
constituição. A proposta foi aprovada e criou
uma profunda crise com o governo francês (De
Gaulle), que em 11 de novembro de 1943 pren-
deu praticamente todo o governo recém-eleito
no forte de Rashaya (ROGAN, 2009). Após
intensos protestos no Líbano, e forte pressão
internacional, especialmente dos britânicos, no
dia 22 de novembro de 1943, Khouri, Solh e o
restante dos detidos são liberados. Em função
deste fato que se comemora no dia 22 de no-
vembro o dia da independência libanesa. Nasce
desta forma a República do Líbano.
Nos anos seguintes os desafios foram gran-
des, e vários momentos colocaram em dúvida
a governabilidade do país. As variáveis exter-
nas e a sensibilidade às questões demográficas,
aos poucos começaram a erodir a estabilidade
política e social. A Primeira Guerra Árabe Is-
raelense de 1948; o grande fluxo de refugiados
palestinos e os posteriores embates entre a Or-
ganização para Libertação da Palestina (OLP)
e Israel, em território libanês, acarretarão cada
vez mais impactos para o cenário doméstico.
Além disso, as guerras civis de 1958 e 1975
revelarão as dificuldades de se manter o Pacto
Nacional diante dos desafios da Política Inter-
nacional e dos antagonismos presentes entre
cristãos e muçulmanos no Líbano.
O período de 1952 a 1958 foi especial-
mente turbulento. A eleição do presidente Ca-
mille Chamoun, juntamente com uma série de
outras variáveis externas e domésticas, criou
uma combinação que levaria o país a uma bre-
ve guerra civil. Podemos citar como principais
razões para a crise de 1958 os seguintes pontos:
o perfil centralizador e mais autoritário do pre-
sidente; o ambiente de polarização política que
ocorria no Oriente Médio, em razão da ascensão
do Pan-Arabismo e da liderança do presidente
egípcio Gamal Abdel Nasser; a Guerra Fria e a
preocupação do presidente estadunidense Eise-
nhower com a expansão do comunismo pelo
Oriente Médio; e a aproximação do governo
libanês com os Estados Unidos (EUA). Todos
estes fatores combinados geraram um ambiente
de extrema instabilidade interna.
A relação com os países árabes começou
a se deteriorar quando Chamoun se recusou a
cortar relações com Reino Unido e França, a
pedido das nações árabes e islâmicas, em razão
da Guerra do Canal de Suez em 1956. A pos-
tura do presidente libanês, de falta de solidarie-
dade com o governo egípcio, colocou em rota
de colisão os partidos muçulmanos (incluindo
drusos), em sua maioria de orientação Pan-ara-
bista, com os partidos cristãos, em sua maioria
de direita e pró-ocidente.
A oposição era representada pelos seguin-
tes partidos: Partido Socialista Progressita, Par-
tido Comunista Libanês e Al Mourabitoun,
entre outros. Rashid Karami, Kamal Jumblatt
e Saeb Salam foram as principais lideranças de
oposição. Já os partidos de apoio ao governo
eram formados pelo próprio partido do presi-
dente, o Partido Nacional Liberal, as Falanges
39 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.2, p.29 - 47, ago. 2020
Libanesas (Kataeb), e outras forças políticas
cristãs. O presidente Camille Chamoun, assim
como Pierre Gemayel e Naim Moghabghab,
além do próprio Exército Libanês, representa-
vam a base de apoio do governo.
A constante aproximação de Camille Cha-
moun ao bloco de apoio estadunidense na região,
representado pelo Pacto de Bagdá
7
, e a adoção
da Doutrina Eisenhower a partir de março de
1957, gerou forte insatisfação no bloco muçul-
mano pró-árabe. A partir de manobras na legis-
lação eleitoral, o governo conseguiu reduzir os
assentos da oposição nas eleições parlamentares
subsequentes, gerando cada vez mais protestos.
Com a marginalização dos muçulmanos da po-
lítica, e da feroz repressão contra eles nas ruas, as
ações de Chamoun começaram a dividir os pró-
prios partidos cristãos, agora preocupados com
uma provável guerra civil entre muçulmanos e
cristão libaneses (TRABOULSI, 2012).
A crise se agravou em março de 1958,
quando o presidente Camille Chamoun sina-
lizou que poderia tentar estender seu mandato,
o que levou a uma resposta imediata dos prin-
cipais partidos de oposição, principalmente da-
queles ligados ao nacionalismo árabe e de ins-
piração socialista. Com a criação da República
Árabe Unida, várias personalidades do bloco de
oposição libanesa sinalizavam que o país deve-
ria se unir ao Egito e à Síria. Uma frente de
oposição foi criada com representantes muçul-
manos, drusos e de alguns partidos cristãos. Os
embates se tornaram violentos, e depois de dois
meses de confrontos, a oposição controlava
7 A Organização do Tratado Central (CENTO), mais conhe-
cida como Pacto de Bagdá, foi uma aliança militar criada em
1955, estimulado pelo governo estadunidense do presidente
Eisenhower e formado por Reino Unido, Turquia, Iraque,
Paquistão e Irã. O objetivo da Aliança era a manutenção de
auxílio mútuo entre os países em caso de agressão externa e a
contenção do avanço do bloco Soviético na região.
mais de três quartos do país. Quando da emi-
nência das forças muçulmanas e drusas de con-
trolarem o Aeroporto Internacional de Beirute
e o porto da cidade, o presidente libanês pediu
ajuda militar aos Estados Unidos, para assegu-
rar o fim dos confrontos e a manutenção de seu
mandato. Esta operação ficou conhecida como
Operação Blue Bat (TRABOULSI, 2012).
A guerra civil de 1958 revelou como o
Líbano estava exposto às disputas da Guerra
Fria, e como as visões muitas vezes antagôni-
cas de suas lideranças, que vacilavam entre uma
postura neutralista ou de reafirmação de apoio
a certos atores regionais, trazia grande insta-
bilidade para o país. Além disto, a queda de
regimes favoráveis aos Estados Unidos, como
no Iraque, aumentou a preocupação dos EUA
com o avanço Soviético no Oriente Médio.
Com a intervenção militar estadunidense em
15 de julho de 1958, as partes contenciosas en-
traram em acordo, o que garantiu o término do
mandato do presidente Camille Chamoun, e a
criação de um governo de coalizão, sob a presi-
dência do general cristão Fuad Shihab.
Os anos seguintes foram de busca por go-
vernabilidade e enfrentamento das desigualda-
des políticas e sociais que afetavam o Líbano
como um todo. Porém, a experiência da crise de
1958 não foi suficiente para impedir uma outra
guerra civil ainda mais violenta. As razões que
levaram à eclosão da Guerra Civil de 1975 fo-
ram várias, mas a questão palestina e a presença
da OLP no país, tornava as relações entre mu-
çulmanos e drusos com os cristãos maronitas
ainda mais tensa. Além disto, a transformação
do quadro demográfico libanês, a participação
ativa de Síria e Israel no conflito, bem como
a polarização da Guerra Fria, intensificou os
embates entre os partidos e as milícias armadas
nacionais e estrangeiras.
40 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.2, p.29 - 47, ago. 2020
No período que antecedeu a guerra civil de
1975, várias foram as iniciativas para reformar a
constituição libanesa e mudar o seu sistema sec-
tário. Existiam muitas visões distintas sobre qual
seria a melhor fórmula para manter a governabi-
lidade. Alguns partidos tentavam manter o status
quo, outros defendiam o fim do sistema confes-
sional ou ao menos a mudança em sua proporcio-
nalidade. Porém, as propostas não prosperaram.
A maior parte dos acadêmicos que pes-
quisam a guerra civil libanesa indicam que a
ação cada vez mais ativa da OLP no Líbano,
e o início dos embates armados entre as fações
palestinas e os partidos cristãos, elevaram dras-
ticamente a tensão no já frágil ambiente políti-
co libanês. Pode-se dizer que o massacre de Ayn
al-Rumana foi o primeiro ato para o início da
Guerra Civil Libanesa.
A eclosão da guerra foi marcada por seu pri-
meiro massacre, conhecido como o incidente
de Ayn al-Rumana, em 13 de abril de 1975,
onde 27 palestinos foram mortos por militan-
tes do Kataeb (Picard 2002: 105). Embora o
ataque tenha sido claramente cometido pelo
Kataeb, os líderes cristãos acusaram os palesti-
nos e seu líder Arafat de provocar um confron-
to em um ambiente de tensão elevada (Hanf
1993: 204). Ayn al-Rumana foi seguida por
outros massacres na chamada guerra de dois
anos, de abril de 1975 a novembro de 1976
(HAUGBØLLE, 2011, tradução nossa).
8
O início da guerra gerou a criação de
duas grandes frentes. O Movimento Nacional
Libanês (MNL), de inspiração Pan-Arabista e
8 e outbreak of the war was marked by its first massa-
cre, known as the Ayn al-Rumana incident on 13 April
1975, where 27 Palestinians were killed by Kata’ib militants
(Picard 2002: 105). Although the assault was clearly com-
mitted by Kata’ib, Christian leaders accused the Palestinians
and their leader Arafat for provoking a confrontation in an
environment of heightened tension (Hanf 1993: 204). Ayn
al-Rumana was followed by other massacres in the so-called
two-years war from April 1975 to November 1976.
liderado pelo druso Kamal Jumblatt (Partido
Socialista Progressista). O MNL era formado
por partidos muçulmanos de esquerda, parti-
dos comunistas, Pan-Arabistas e pró-soviéticos,
que apoiavam a aproximação do Líbano com
os regimes sírio, iraquiano e à causa Palestina.
Por sua vez, a Frente Libanesa (Lebanese
Front) era liderada pelo ex-presidente Camille
Chamoun (Partido Nacional Liberal), e apoia-
do por Pierre Gemayel (Partido Kataeb /Falan-
ges cristãs), o ex-presidente Suleiman Franjieh
(Movimento Marada), dentre outros. A Frente
Libanesa era um movimento majoritariamente
cristão conservador, que buscava manter o status
quo do quadro político libanês, bem como o ali-
nhamento com o ocidente, a aproximação com
Israel e a expulsão de Yasser Arafat e das forças
palestinas do Líbano (HAUGBØLLE, 2011).
De acordo com Traboulsi (2012), a guerra
Civil de 1975 pode ser dividida em três fases
principais: de 1975 a 1976; de 1977 a 1982 e
de 1983 a 1990. A primeira fase revela o maior
peso dos fatores internos e do impacto da che-
gada da direção da OLP ao Líbano após o Se-
tembro Negro. As disputas entre Palestinos e as
Falanges cristãs criaram um ambiente de pola-
rização que escalou para a formação das duas
principais frentes da guerra. Vários massacres
ocorreram nesta fase, como os de Ayn al-Ru-
mana (contra Palestinos) e o de Damour (con-
tra cristãos). Outro aspecto importante desse
momento é a tentativa de se encontrar uma
solução para o impasse libanês, a partir das for-
ças políticas internas, porém, o assassinato de
Kamal Jumblatt, a principal figura política de
oposição ao governo, em 1977, transformou o
cenário da guerra.
Já o período de 1977 a 1982 foi muito
influenciado pelo quadro geral do processo de
paz árabe-israelense, entre Israel e Egito, bem
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como o fim da aliança entre o recém-eleito
presidente Libanês Iliyas Sarkis com o governo
Sírio e a Frente Libanesa. É notável o grau de
oscilação da posição síria no Líbano, e como
o pragmatismo político do presidente Hafez
al Assad impactará a cada momento nos des-
dobramentos da guerra. Com o fim da Alian-
ça Tripartite (Sarkis, Governo Sírio e Frente
Libanesa), o jovem Bashir Gemayel (Partido
Kataeb), filho de Pierre Gemayel, avança no
quadro da liderança política entre os cristãos
(TRABOULSI, 2012).
A disputa intrasectária foi outro fator mar-
cante na Guerra Civil Libanesa. Essas disputas,
muito comum entre grupos cristãos, ocorriam
em razão de visões políticas distintas (favorá-
veis à presença síria ou não) e levou a uma série
de assassinatos políticos, principalmente no pe-
ríodo em tela, como o do filho do ex-presidente
Suleiman Franjieh, Tony Frangieh, que tam-
bém vitimou sua esposa e uma filha pequena
do casal, além de mais de 40 pessoas em junho
de 1978
9
. As disputas intrasectárias também
ocorriam entre os demais grupos religiosos.
Ao final destas disputas, e com o fortaleci-
mento do Partido Kataeb, Estados Unidos e Is-
rael apoiaram fortemente Bashir Gemayel para a
presidência do Líbano. A esperança de Israel em
fechar um acordo de paz com o Líbano, a partir
da aliança com o partido Falangista teria uma
dupla função: por um lado afastar a presença
Palestina e Síria do norte de Israel, e por outro,
apoiar o governo libanês em seus embates con-
tra a OLP, a oposição muçulmana e a presença
síria. Em agosto de 1982 Bashir Gemayel é elei-
to presidente do Líbano, mas alguns dias antes
de tomar posse, um atentado a bomba mata o
presidente, iniciando a última fase da guerra.
9 Este caso ficou conhecido como o Massacre de Ehden.
O período de 1983 a 1990 representou
praticamente o colapso do Estado libanês. A
invasão israelense de 1982, e a criação de uma
zona de segurança ao sul do país
10
, bem como a
fragmentação do território libanês em várias re-
giões independentes (cristãos ao norte, drusos
no Shouf, Muçulmanos no Bekká e no sul, e
Israel ao sul), tornou difícil qualquer iniciativa
política para a unificação do Estado. Este pro-
cesso de balcanização do país, juntamente com
a presença Síria e o momento final da Guerra
Fria, adicionou um elemento ainda mais mor-
tífero. Os massacres dos campos de refugiados
de Sabra e Chatilla, a destruição quase com-
pleta da infraestrutura do país e a divisão in-
trasectária permanente, levou à exaustão das
partes envolvidas. A Guerra se encerra com a
intervenção militar síria contra o governo de
Michel Aoun, que forçou a implementação do
Acordo de Ta’if.
A guerra civil libanesa de 1975 revelou os
limites do sistema político libanês, e da expo-
sição do país às disputas internacionais. Du-
rante a guerra o exército israelense promoveu
duas grandes invasões, em 1978 e em 1982. A
presença do exército sírio e de seu serviço de
inteligência em território libanês aumentou
fortemente sua influência, e o Líbano se tornou
10 A presença de Israel no sul do Líbano ocorreu em dois
momentos principais, em 1978 e 1982. Após o assassinato
de Bashir Gemayel, em 1982, Israel ocupou uma zona que
adentrava o território libanês a partir da fronteira sul, de-
signando esta área como uma zona de segurança. Durante
esse período, essa região foi ocupada pelas Forças de Defesa
de Israel, e nas áreas próximo ao rio Litani, por uma força
miliciana cristã intitulada Exército do Sul do Líbano (ESL),
fundada pelo ex-Major libanês Saad Haddad. Esta força pa-
ramilitar contava com apoio logístico e material de Israel, e
atuava contras as forças sírias, palestinas, do Hizballah e do
próprio Exército Libanês. Em maio de 2000 Israel se retira
do território do Sul do Líbano (com exceção das Fazendas de
Shebba) e os integrantes do ESL recebem refúgio em Israel.
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um território de disputa para sírios, palestinos,
israelenses, potências mundiais e milícias con-
fessionais libanesas.
Ao final da guerra o Líbano se encontrava
em ruínas e em busca de um processo de re-
conciliação. A fórmula que dá fim ao conflito
foi uma readequação do Pacto Nacional, co-
nhecido como Carta de Reconciliação Nacio-
nal, assinada no dia 22 de outubro de 1989,
na cidade Saudita de Ta’if. Este acordo ficou
conhecido como o Acordo de Ta’if. Com a As-
sembleia libanesa reunida em Ta’if, formada
por 31 parlamentares cristãos, e 31 parlamen-
tares muçulmanos, concordaram em readequar
o número e distribuição das cadeiras do par-
lamento Libanês, bem como as atribuições do
Chefe de Estado e do Chefe de Governo. O
sistema em geral continuava o mesmo, mas o
poder dos muçulmanos se tornava maior do
que antes (ROGAN, 2009).
Na prática, o acordo alterou as cadeiras
do parlamento de 99 para 108, sendo 54 para
cristãos e 54 para muçulmanos, mudando a
proporção política anterior de 6 cristãos para
5 muçulmanos para uma proporção igualitária.
Além disto, reduziu os poderes do Presidente
Maronita e fortaleceu os papeis do Primeiro
Ministro Sunita e do Presidente do Parlamen-
to Xiita. O acordo também previu o desarma-
mento de todas as milícias do Líbano, com
exceção do Hizballah, que combatia Israel no
sul do país. O Hizballah seria desarmado assim
que o território fosse liberado. A anistia geral
foi decretada, e os milicianos foram autoriza-
dos a ingressaram nas forças armadas libanesas
(ROGAN, 2009).
Ao mesmo tempo que o Acordo de Ta’if
revitalizou o Pacto Nacional a partir da reade-
quação do poder político, em razão da nova
realidade demográfica libanesa, também gerou
um outro efeito, a “legitimação” e fortaleci-
mento da influência Síria no Líbano. Esta con-
dição permitirá uma constante atuação política
síria nos assuntos internos e externos libaneses,
e perdurará até 2005, ano do assassinato do ex-
-Primeiro Ministro Rafik el Hariri.
A Segunda República e os
Desafios Contemporâneos
De 1990 a 2020, a Segunda República
Libanesa enfrentará enormes desafios. Os pri-
meiros dez anos foram marcados pela intensa
reconstrução do país, sob o governo e liderança
do Primeiro Ministro Rafik el Hariri. A revitali-
zação de Beirute e das grandes cidades, e o sen-
timento de que a “Fênix libanesa” se reergueria
novamente das cinzas estimulou o otimismo na
população em geral. Ao mesmo tempo, várias
milícias foram transformadas em partidos po-
líticos, e a polarização de tais partidos girava
em torno de uma perspectiva pró-ocidente (Es-
tados Unidos e Europa) ou pró-Árabe (Síria,
Iraque, etc.).
A saída das tropas israelenses do sul do Lí-
bano em maio de 2000 representou uma nova
transformação para o cenário político libanês,
em função do fortalecimento do grupo políti-
co-militar Hizballah, que ocupou um impor-
tante espaço na política doméstica e regional.
Com a ascensão do Hizballah o apoio sírio e
iraniano a este grupo se transformou em uma
política de intensa intervenção destes atores
nos assuntos domésticos do Líbano, aprofun-
dando a crise política no país e colocando em
choque cristãos, sunitas, xiitas, drusos e demais
minorias. As divisões também eram sentidas
dentro dos próprios grupos confessionais, ge-
rando ainda mais dificuldade para a governabi-
lidade do país.
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O Primeiro Ministro Rafik el Hariri foi
uma forte liderança contra a presença síria no
Líbano, e recebia amplo apoio da Arábia Saudi-
ta. O ápice desta disputa foi o ataque com um
caminhão bomba contra sua comitiva em 14
de fevereiro de 2005 em Beirute, que vitimou a
ele e mais 21 pessoas. O assassinato do Primei-
ro Ministro foi apontado pela opinião pública
libanesa como de responsabilidade do governo
sírio e do Hizballah, e gerou uma grande co-
moção nacional.
A mobilização popular criou um movi-
mento conhecido como Revolução dos Cedros,
e no dia 14 de março de 2005, mais de 1,5 mi-
lhões de libaneses ocuparam a Praça dos Márti-
res em Beirute para exigir a retirada do exército
sírio do Líbano, a manutenção de sua soberania,
bem como a destituição de todo governo liba-
nês, considerado pró-Síria. A pressão nacional
e internacional foi intensa, o que levou as Na-
ções Unidas a aprovarem a Resolução 1595 do
Conselho de Segurança em 07 de abril de 2005,
que determinou o respeito à independência e
soberania do Líbano, além de uma investigação
sobre o assassinato de Hariri, sob os auspícios
do Tribunal Especial para o Líbano. Em 26 de
abril de 2005 o Exército Sírio se retirou do país.
A partir deste momento a política libanesa
se polarizou em duas grandes coalizões. A pri-
meira conhecida como 14 de Março
11
, liderada
pelo filho de Rafik el Hariri, Saad Hariri, e com
presença maciça de sunitas (partido Futuro),
parte dos cristãos (partido Kataeb, Forças Liba-
nesas e Movimento Patriótico Livre) e drusos
(Partido Progressista Socialista). Este grupo era
apoiado pela Arábia Saudita, Estados Unidos e
países europeus.
11 O nome 14 de Março originou-se em razão do grande
protesto ocorrido em Beirute no dia 14 de março de 2005,
contra o assassinato do Primeiro Ministro Rafik el Hariri.
A outra coalizão foi a 8 de Março
12
, for-
mada pelos xiitas (Partidos Hizballah e Amal),
parte dos cristãos (Movimento Marada, Parti-
do Social Nacionalista Sírio, dentre outros) e
por uma outra parte dos drusos (Partido De-
mocrático Libanês). A Síria, Irã e Rússia eram
os principais apoiadores desta aliança. Esta rea-
lidade influencia notadamente as relações polí-
ticas até a atualidade. Nos anos subsequentes,
vários partidos mudaram de coalizão, como o
caso do partido de Michel Aoun, o Movimen-
to Patriótico Livre, que se alinhou ao grupo 8
de Março, e o partido Progressista Socialista,
de Walid Jumblatt, que se torna independente,
mesmo mantendo o apoio o partido Futuro, de
Saad Hariri.
No ano seguinte, após uma incursão do
Hizballah às Fazendas de Shebba
13
, o que aca-
bou com a morte de vários soldados israelen-
ses na ação, gerou o conflito conhecido como
a Guerra do Líbano, em 2006. A resposta is-
raelense foi uma ação militar devastadora con-
tra o território libanês, o que agravou seu qua-
dro político e humanitário. Por outro lado, o
custo para o exército israelense também foi alto,
em virtude das perdas impostas pelo Hizballah.
12 O nome 8 de Março originou-se em razão de um comício
organizado pelo Hizballah e partidos aliados no dia 8 de
março de 2005, para agradecer a participação da Síria no
processo que levou ao fim da Guerra Civil de 1975 e pela
estabilização do Líbano.
13 Território libanês ocupado por Israel na Guerra de 1967,
localizado na fronteira entre Líbano, Israel e Síria (Colinas
de Golã). A controvérsia sobre a ocupação das Fazendas
de Shebba remonta o mandato francês, que indicava que
a área pertencia ao Líbano, porém, na década de 1950 foi
ocupada pelos sírios, e posteriormente por Israel, na Guer-
ra dos Seis Dias, em 1967. O território compreende uma
área pequena de aproximadamente 38 Km2, nas proximi-
dades do Monte Hermon. O Governo Libanês reafirma o
direito sobre o território, e o grupo Hizballah não aceita o
desarmamento de sua milícia armada por dizer que Israel
ainda não se retirou completamente do território libanês.
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O episódio revelou a dificuldade do controle
do exército libanês de todo território nacional,
e o papel do Hizballah como uma força para-
lela que acabava por absorver a capacidade de
ação do Exército Libanês.
A polarização política no Líbano se tor-
nou tão intensa que no ano de 2007, após o
fim do mandato presidencial, o cargo ficou em
vacância por 8 meses, pela incapacidade dos
grupos políticos encontrarem uma liderança
que pudesse acomodar os interesses dos dois
campos majoritários. Em 2014, mais uma vez,
o país ficou 30 meses sem presidente, revelando
a persistência da crise política.
Na esteira da Primavera Árabe, o Líbano
foi aparentemente pouco afetado pela onda
de protestos que se alastrou pelo Oriente Mé-
dio. Porém, nos anos subsequentes, a entrada
de mais de um milhão de refugiados sírios no
Líbano e a ativa participação do Hizballah no
conflito, gerou impactos na economia e na se-
gurança do país. A crise econômica e a carência
de empregos se aprofundou, e a reiterada inca-
pacidade do Estado libanês em prover a popu-
lação com serviços essenciais alimentou ainda
mais a insatisfação da opinião pública.
Em 2015 uma crise na coleta de lixo indi-
cou a incapacidade do Estado libanês em pro-
ver serviços públicos básicos, como a limpeza
urbana e depósito de resíduos, o que gerou o
início de protestos populares. O acúmulo do
lixo nas cidades, e o impasse do governo em re-
solver onde poderiam alocar os resíduos, mos-
trava que o embate político estava presente em
todos os níveis do governo.
Porém, os acontecimentos que abalaram o
Líbano a partir de outubro de 2019 sinalizam que
mais um momento de ruptura poderá ocorrer no
país. Após o governo anunciar o aumento de im-
posto sobre a gasolina, tabaco e chamadas via in-
ternet com aplicativos, a população iniciou uma
forte mobilização nacional. Críticas ao modelo
político confessional; à profunda crise econômica
e desvalorização da Lira Libanesa, que chegou a
perder mais de 80% de seu valor; à incapacida-
de do Estado em prover serviços públicos bási-
cos como energia elétrica, água tratada e coleta
de lixo; percepção de corrupção generalizada na
classe política e de leis que protegiam políticos e
a elite, levaram a uma mobilização geral no país.
Os jovens fecharam estradas, ruas, pro-
moveram greves gerais e protestos em massa
foram observados em todo o país. No início
as manifestações eram majoritariamente pací-
ficas, e não sectárias. Os manifestantes exigiam
a saída de todo o governo, a quem responsa-
bilizavam pela condição de empobrecimen-
to contínuo da população e pelo aumento da
fome. Colocaram como condição para acabar
com a mobilização a criação de um governo de
tecnocratas, sem a presença dos políticos que
décadas ocupavam cargos públicos. Além
disto pressionavam para que a Constituição
libanesa fosse respeitada, no que diz respeito ao
fim do sistema confessional do país, solicitando
seu fim, já que a própria constituição, em seu
preâmbulo indica que : “Eliminar o sectarismo
político é um objetivo básico nacional, a ser al-
cançado de acordo com um plano de transição
(LÍBANO, 2004, tradução nossa)
14
.
Com a pandemia da COVID-19 as mani-
festações arrefeceram, porém, com a reabertura
relativa no Líbano no início de junho de 2020, os
protestos voltaram a ocorrer. No dia 6 de junho
de 2020 embates entre grupos de manifestantes
favoráveis ao ex-Primeiro Ministro Saad Hariri,
com manifestantes favoráveis ao Hizballah in-
14 Eliminating political sectarianism is a basic national objec-
tive, to be achieved according to a transitional plan.
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dicaram o crescimento de feições sectárias nos
protestos, trazendo preocupação para a socieda-
de libanesa e para a região. O aprofundamento
da violência sectária pode reviver experiências
pretéritas dolorosas que marcaram a vida dos
libaneses nas décadas de 1970 e 1980.
No dia 04 de agosto de 2020 duas explo-
sões ocorreram no Porto de Beirute. A segunda
explosão, às 18:07 (horário local), de dimensão
cataclísmica, destrói o porto da cidade. O con-
dicionamento inadequado de 2.750 toneladas
de Nitrato de Amônia
15
armazenado no depó-
sito n° 12 do porto de Beirute, levou à maior
explosão não nuclear da história do mundo
contemporâneo. A onda de choque da explosão
foi tão intensa que devastou boa parte da capi-
tal libanesa, e seus efeitos foram sentidos a cen-
tenas de quilômetros do epicentro da explosão.
A explosão foi equivalente a um terremo-
to de 3 pontos na escala Richter, e para alguns
pesquisadores, foi proporcional a 20% da ex-
plosão nuclear ocorrida na cidade Japonesa de
Hiroshima, em 1945 (SIZE..., 2020). Essa tra-
gédia gerou um número de aproximadamente
190 mortos, mais de 6.500 feridos, 300.000
desabrigados e mais de uma dezena de desapa-
recidos. As perdas materiais são projetadas em
15 bilhões de dólares (Agência Reuters, 2020).
Em um primeiro momento levantou-se a
possibilidade de um ataque aéreo ou um aten-
tado terrorista, ambas possibilidades foram des-
cartadas pelas autoridades libanesas, que indica-
ram que a explosão teria sido resultado de um
acidente. De acordo com os relatos do governo
libanês, a carga de Nitrato de Amônia havia
sido apreendida no porto de Beirute e guardada
no depósito n° 12 desde junho de 2014.
15 Substância utilizada como fertilizante, mas altamente
explosiva quando submetida à alta temperatura. Material
também utilizado para fabricação de explosivos.
Esta tragédia deixou mais evidente a in-
capacidade do Estado Libanês em lidar com
seus problemas mais triviais. O ato negligente
das autoridades locais, de permitir a guarda de
material notadamente conhecido por provocar
tragédias pelo mundo, em uma área densamen-
te povoada, e não agir no sentido de fazer valer
as inspeções e ações para correção do problema,
revela a inoperância do Estado.
O país já combalido pela crise econômica,
que elevou o número de desempregados e des-
nutridos, favoreceu o início de uma nova onda
de emigração de libaneses pelo mundo. O qua-
dro da pandemia da Covid-19, que intensifi-
cou seu contágio após a explosão do dia 04 de
agosto tornou a situação ainda mais delicada
para os grupos de risco no Líbano. A presença
de mais de um milhão de refugiados sírios e
palestinos no país
16
, que carecem de apoio in-
ternacional para auxiliar nos esforços de acolhi-
mento e manutenção desta população impac-
tam sobre a já delicada economia libanesa.
A crise política que se arrasta por anos,
que mistura o esgotamento do sistema sectá-
rio libanês e as disputas locais e regionais en-
volvendo principalmente Irã, Arábia Saudita e
Israel, dificulta a constituição de governos com
representação popular e estáveis. Estes fatores
em conjunto tornam a solução dos problemas
do Líbano ainda mais difíceis.
Os protestos voltaram com força logo
após a tragédia do dia 4 de agosto, e a praça dos
Mártires em Beirute transformou-se mais uma
vez em um campo de batalha entre os manifes-
tantes e o atual governo. A renúncia de minis-
tros e parlamentares sinalizou para o tamanho
da pressão que os políticos começaram a sofrer.
16 O Líbano é o país com o maior número per capita de
refugiados no mundo.
46 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.17 n.2, p.29 - 47, ago. 2020
O Primeiro Ministro Libanês Hassan Diab so-
licitou a prisão domiciliar de algumas autori-
dades envolvidas na gestão do porto de Beirute
desde 2014, e prometeu solicitar a antecipação
de novas eleições. Mesmo assim, não foi capaz
de lidar com a crise política, e no dia 10 de
agosto de 2020, apresentou a renúncia de seu
governo.
Porém, somente a renúncia do governo
não será suficiente para lidar com os grandes
desafios do porvir. Além da dor pelas mortes,
os feridos deverão ser tratados, os desabrigados
que perderam suas casas e propriedades deverão
ser acomodados provisoriamente e ressarcidos.
Um novo governo de transição deverá liderar a
reconstrução da capital, a retomada da econo-
mia e reformas eleitorais e políticas.
A elite política que está no poder no Lí-
bano é a mesma que levou o país à guerra civil
em 1975, e a principal reivindicação dos mani-
festantes é que ocorra uma mudança geracional
e de perfil no comando da nação. Para que tais
mudanças ocorram, o primeiro passo será con-
seguir mudar a atual legislação eleitoral, pois
em seu atual formato dificulta a participação
de partidos independentes e da sociedade civil,
privilegiando o sistema sectário em vigor e seus
respectivos currais eleitorais.
Para tornar o ambiente político ainda mais
tenso, no dia 18 de agosto de 2020, o Tribunal
Especial para o Líbano (STL), que julgava a
mais de 15 anos o assassinato do ex-Primeiro
Figura 3 – Explosão no Porto de Beirute de 04 de agosto de 2020
Fonte: Elaborado e adaptado pelo autor com dados de (NASA, 2020).
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Ministro Rafik el Hariri, divulgou seu veredito
final. O tribunal já havia indiciado três mem-
bros do grupo Hizballah como suspeitos pelo
atentado, mas em sua sentença final aponta
como responsável somente Salim Ayyash, ino-
centando os demais. Ao mesmo tempo apon-
tou que não existiram provas materiais que
pudessem indicar a participação da Síria e do
Hizballah no assassinato. Os desdobramentos
políticos desta sentença ainda serão sentidos
nos próximos anos.
É neste quadro instável que a jovem Re-
pública Libanesa busca encontrar seu caminho.
Os ecos do passado ainda assombram forte-
mente a realidade atual. As divisões internas,
e as intervenções externas têm se manifestado
repetidamente na história libanesa, e as deci-
sões do passado continuam a apresentar desa-
fios que exigirão dos libaneses fórmulas capazes
de suplantar o sectarismo. O esgotamento do
Pacto Nacional talvez esteja levando o país a
uma outra fase, e a necessidade dos libaneses
repensarem suas instituições e formas pacíficas
de governança uma tarefa urgente para as novas
gerações que habitam a Terra dos Cedros.
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