Resenha: Has China Won? The Chinese Challenge to American Primacy ....... 2
Daniel de Oliveira Vasconcelos
Relações Internacionais: o estado da disciplina ................................................ 6
International Relations: the state of the discipline
Relaciones Internacionales: el estado de la disciplina
Felipe Leal Albuquerque
China’s quest for oil: Brazil-China relations in the oil sector (2000-2018) .......... 16
A busca da China por petróleo: as relações Brasil-China no setor petrolífero (2000-2018)
La búsqueda de petróleo: las relaciones Brasil-China en el sector petrolero (2000-2018)
Rafael Almeida Ferreira Abrão
Inserção da celulose brasileira e de seus principais
concorrentes no mercado internacional ........................................................... 28
Inserting the brazilian wood pulp and its main competitors in the international market
Insertando de celulosa brasileño y sus principales competidores en el mercado internacional
Mateus Monteiro Piedade Lyrio
Naisy Silva Soares
Lyvia Julienne Sousa Rêgo
W20 em Riade: empoderamento econômico de mulheres
na cúpula de 2020 ............................................................................................... 39
W20 in Riyadh: economic empowerment of women at the 2020 summit
W20 en Riad: empoderamiento económico de las mujeres en la cumbre de 2020
Bárbara Lopes Campos
O BRICS reset num mundo multipolar? .............................................................. 45
El BRICS reset en un mundo multipolar?
e BRICS reset in a multipolar world?
Javier A. Vadell
A Cúpula de Lideranças Globais sobre o Clima e a
criação do momentum político para a COP 26 .................................................. 50
e Leaders Summit on Climate and the political momentum pre-COP 26
La Cumbre de Líderes sobre el Clima y el impulso político para la COP 26
Mariana Balau Silveira
2 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.2 - 5, mai. 2021
Resenha: Has China Won? The Chinese
Challenge to American Primacy
Daniel de Oliveira Vasconcelos1
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2021v18n1pX Recebido em: 21 de junho de 2020
Aceito em: 15 de agosto de 2020
1 Daniel Vasconcelos é mestre em Estudos sobre a China, com foco em Política e Relações Internacionais, pela Academia Yenching
da Universidade de Pequim. Pesquisa política ambiental e energética e urbanização na China. ORCID iD: https://orcid.org/0000-
0002-8675-6727
Resenha
2 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte,
ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.2 - 5, mai. 2021
O livro Has China Won? e Chine-
se Challenge to American Primacy, de Kishore
Mahbubani, se insere dentro do recente debate
sobre a ascensão da China e os desaos de sua
acomodação no atual sistema internacional.
Por isso, a obra não é bem uma tentativa de
responder se a China já atingiu o apogeu do
seu sucesso econômico, como sugere a primeira
parte de seu título, mas sobretudo uma minu-
ciosa análise sobre a crescente rivalidade entre
China e Estados Unidos. Mahbubani, que fora
embaixador de Singapura na ONU e fundador
da Escola de Políticas Públicas da Universida-
de Nacional de Singapura, utiliza tanto de ex-
tensa bibliograa especializada, quanto da sua
própria vivência e de sua rede de contatos para
traçar os contornos da rivalidade China-EUA.
Dedica, também, considerável parte ao que
chama de infundadas concepções sobre a Chi-
na. Aliás, o desconhecimento mútuo é, segun-
do o autor, fator chave para o entendimento
do atual acirramento entre as duas grandes po-
tências. O livro é, dessa forma, organizado em
nove capítulos que intercambiam entre análises
sobre a China e sobre os EUA.
O embate geopolítico entre a China e
os EUA é, portanto, inevitável. Contudo, de
acordo com Mahbubani, no Capítulo 1: “In-
trodução”, para compreendermos esse conito
que guiará a política internacional das próxi-
mas décadas, precisamos “pensar o impensá-
vel”. Uma questão fundamental que surge é: os
EUA podem perder? Já que, para a maioria dos
estadunidenses, é inconcebível uma derrota da
mais poderosa democracia do mundo para uma
sociedade comunista supostamente fechada,
essa é uma pergunta que poucos fazem. Seria
aqui um dos principais erros estratégicos que
sustentam a crescente incapacidade dos EUA
em se adequar à ordem mundial do século XXI:
a ideia de que sua sociedade inerentemente vir-
tuosa guiará a civilização para a paz. Mas, como
esclarece Mahbubani, a China – como também
os países em desenvolvimento – aprendeu com
o ocidente as melhores práticas na economia,
ciência e tecnologia. Junto a isso, a China é
uma civilização bastante resiliente, como de-
monstra sua própria história de mais de dois
mil anos. Portanto, estaria longe da verdade
uma vitória inequívoca dos EUA.
3 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.2 - 5, mai. 2021
Os primeiros dois capítulos após a intro-
dução são dedicados à identicação dos maio-
res erros estratégicos cometidos pela China e
pelos EUA, erros que levaram ao atual recru-
descimento de uma rivalidade conituosa. Em
relação à China, no Capítulo 2, Mahbubani
argumenta que seu maior erro estratégico foi
o de alienar importantes grupos que compõem
a sociedade estadunidense. Principalmente
compostos de empresas e conglomerados eco-
nômicos, esses grupos se viram sucessivamente
ignorados e seus interesses comprometidos por
conta das políticas econômicas chinesas, como
a transferência obrigatória de tecnologia, o rou-
bo de propriedade intelectual e a imposição de
barreiras não-tarifárias. Isso criou uma situação
inédita no debate público estadunidense: um
consenso e uma forte convicção sobre a ameaça
chinesa, em que houve apoio às ações do gover-
no Trump até mesmo entre as lideranças polí-
ticas de oposição e os pragmáticos empresários
que há décadas lucram com a abertura chinesa.
Do lado da China, seriam três os principais fa-
tores que contribuíram para essa alienação: a
relativa autonomia provincial e local, a arro-
gância experimentada na China após a crise
global de 2008 e a fraqueza da liderança central
na década de 2000.
Para os Estados Unidos, cujas análises es-
tão sintetizadas nos Capítulos 3, 5 e 7, Mah-
bubani diz não haver dúvidas da falta de uma
estratégia compreensiva em relação à China.
Distanciando-se do pensamento pragmático
que reinou na Guerra Fria, inuenciado por
George Kennan, os EUA fracassaram no desen-
volvimento de uma estratégia de longo prazo
não somente por conta das ações imprudentes
do atual governo Trump, mas principalmente
pela visão de mundo equivocada de todo o es-
tablishment político. Como exemplos, o autor
cita o uso do dólar como uma arma econômica
e a explosão da desigualdade nos EUA como
indicativos de que a auto concepção da socie-
dade estadunidense como adaptável, justa e de-
mocrática, que sempre ocupará a vanguarda do
mundo, não condiz com a realidade das últimas
décadas. A falta de uma estratégia condizente
com o mundo do século XXI estaria, com isso,
ligada à própria inexibilidade do pensamento
estadunidense em conceber o mundo como ele
realmente é, ou seja, um mundo multipolar,
em que a ação dos EUA muito se distancia da
benevolência pacíca. Pelo contrário, o autor
entende que certos aspectos da sociedade esta-
dunidense sofrem com um processo de “ossi-
cação”, de forma similar àquela percebida no
ocaso da dinastia Qing, na China. O preço de
se reconhecerem como inerentemente virtuo-
sos e insubstituíveis acarretaria na impossibili-
dade de os Estados Unidos mudarem de rumo.
Os demais capítulos que dizem respeito
à China abordam duas problemáticas centrais
nos estudos ocidentais: a ideia do expansio-
nismo chinês, explicitada no Capítulo 4, bem
como a possibilidade de a China se tornar mais
democrática, abordada no Capítulo 6. De acor-
do com Mahbubani, se é verdade que a China,
ao longo de sua história, ocupou nações vizi-
nhas, ela também soube construir a paz na sua
convivência regional. Com a ascensão chinesa,
há maior preocupação pela manutenção de
sua soberania do que com um expansionismo
desenfreado. Nesse sentido, a assertividade da
política militar chinesa é muito mais defensiva
do que ofensiva. Além disso, a concepção da
civilização chinesa não é universalista, como
assim se assume a cultura estadunidense, e, por
isso, não haveria intenção, por parte da China,
em promover uma “sinização” do mundo. A
resolução do impasse de Taiwan e Hong Kong,
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que é vista pelo ocidente como evidência do
expansionismo chinês, é identicada pelo go-
verno comunista sob a ótica de uma correção
histórica de uma herança imperialista japonesa
e europeia. Da mesma forma, Mahbubani vê
que a ação chinesa no Mar do Sul da China é
reativa, fruto de uma percepção de ameaça pela
incursão da marinha estadunidense na região e
da corrida por reclamação de terras iniciada por
países vizinhos.
Sobre potencial transição para um sistema
democrático, Mahbubani oferece, no Capítulo
6, uma visão diferente do mainstream ocidental.
Tendo uma opinião positiva a respeito do atual
líder chinês, Xi Jinping, o autor expõe que uma
China estável e dinâmica economicamente
contribui para o desenvolvimento socioeconô-
mico do seu povo, como também produz bens
públicos globais. Se a China se democratizasse
de forma abrupta, como queriam os ocidentais
ao investirem na estratégia de abertura econô-
mica chinesa, mais provável seria a ascensão de
lideranças nacionalistas raivosas, com tendên-
cias imperialistas, como o é Donald Trump nos
EUA, do que líderes pragmáticos. Uma demo-
cracia chinesa, além disso, estaria pouco apta a
contribuir para com desaos globais, haja vista
o potencial nacionalista e introvertido de sua
sociedade. Ao contrário, a governança respon-
sável da China se reproduz na resposta a esses
desaos globais, como a mudança climática, já
que a China comunista de hoje emerge como
uma “potência do status quo”, e não uma “po-
tência revolucionária”. Para o autor, os diversos
dilemas do autoritarismo chinês não impedi-
ram o crescimento econômico, a ascensão de
um sistema público meritocrático e competen-
te, e o surgimento de novas classes, que irão,
cada vez mais, pressionar o governo comunista
por mais voz. Uma transição a um futuro sis-
tema democrático, portanto, virá de dentro e
terá características distintas de uma democracia
liberal.
Kishore Mahbubani questiona: sendo o
objetivo primordial dos EUA manter sua pri-
mazia no mundo e conter a China, não seria
contra os interesses nacionais dos EUA promo-
ver a democracia na China, já que a democra-
cia é, em tese, um motor do desenvolvimento?
Diversos exemplos desde a Primavera Árabe
mostram que uma democracia imposta de fora
produz o caos. Não seria esse o real interesse
dos EUA? Com isso, Mahbubani difere reais
interesses nacionais com propaganda política,
que é comum a ambos os lados. Fornece, as-
sim, ideias interessantes para um debate ainda
muito enviesado. Ao questionar assunções ti-
das como verdades pelos ocidentais, demons-
tra que ainda lhes falta um entendimento mais
aprofundado sobre a Ásia em geral e a China
em particular. Has China Won? Tem foco, por-
tanto, na falta de entendimento entre China
e EUA, e Mahbubani aborda apenas tangen-
cialmente, no Capítulo 8, as relações da China
com a Ásia, a Europa e a África, sequer mencio-
nando a América Latina. Para ele, cada região
abordará a ascensão chinesa de forma diferente,
mas cada uma irá contrabalançar as realidades
geopolíticas da ascensão chinesa, evitando to-
mar decisões ideológicas e alianças automáticas
como acontecera na Guerra Fria. Dando me-
nos atenção a essas regiões, o autor simplica,
assim, futuras transformações sistêmicas aos
movimentos estratégicos das duas maiores po-
tências do século, mesmo que talvez sejam estes
o ponto nevrálgico para se compreender a evo-
lução do sistema internacional no século XXI.
Sua conclusão paradoxal, contida no Ca-
pítulo 9, é a de que o conito entre os EUA e a
China é, ao mesmo tempo, inevitável e contor-
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nável. Todavia, para ser contornável, dependerá
da ação assertiva de ambas as nações na produ-
ção de estratégias pragmáticas. Para o autor, se
a China deveria manter sua abertura econômi-
ca, os EUA devem, por sua vez, investir na re-
forma estrutural de sua “plutocracia”, além de
compreender melhor o mundo e evitar intervir
no desenvolvimento próprio de cada país, que
cumpre seu próprio tempo e tem suas particu-
laridades históricas. Mahbubani acredita que
uma transição democrática chinesa, por exem-
plo, estaria muito mais próxima do caso japo-
nês – onde um partido dominante governa a
ilha há décadas sob forte inuência de sua cul-
tura mais conservadora – e não de uma demo-
cracia liberal ocidental. Isso, entretanto, como
explicado no capítulo 6, dependerá da ascensão
de forças econômicas progressistas internas,
que demandarão por maior abertura política.
Assim, o autor naliza a obra esclarecendo que
os EUA e a China possuem interesses comuns
vitais, principalmente o progresso de seus po-
vos em um mundo de paz e ambientalmente
sustentável. Estes, sim, deveriam ser, para Mah-
bubani, o balizador de suas relações no futuro.
Referências
MAHBUBANI, Kishore. Has China Won? e Chinese
Challenge to American Primacy. Nova Iorque: Public Aairs,
Hachette Book Group, 2020.
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Relações Internacionais: o estado da
disciplina
International Relations: the state of the discipline
Relaciones Internacionales: el estado de la disciplina
Felipe Leal Albuquerque1
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2021v18n1pX Recebido em: 09 de setembro de 2020
Aceito em: 15 de março de 2021
Resumo
Ao longo de quase um século de desenvolvimento das Relações Internacionais, alunos e
acadêmicos deparam-se com uma variedade de campos teóricos, métodos e temas de pesquisa.
Este artigo resume a evolução histórica da disciplina, aponta os principais métodos utilizados
e identica debates contemporâneos, buscando auxiliar estudantes recém-ingressos no curso.
Palavras-chave: Relações Internacionais. Teoria das Relações Internacionais. Metodologia
Abstract
Students and academics have come across various theoretical elds, methods and research
topics over the course of the last century, when International Relations developed. With
the aim to support new students of the discipline, this article summarizes its historical
evolution, indicates the main methods used and identies the contemporary debates.
Keywords: International Relations. International Relations eory. Methodology.
Resumen
En el transcurso de casi un siglo de desarrollo de las Relaciones Internacionales,
estudiantes y académicos tienen a disposición variados campos teóricos, métodos y temas de
investigación. Este artículo resume su evolución histórica, señala los principales métodos e
identica los debates contemporáneos, buscando ayudar a los nuevos estudiantes del curso.
Palabras clave: Relaciones Internacionales. Teoría de las Relaciones Internacionales.
Metodología
1 Especialista (PUC-Rio, 2009) e mestre (UERJ, 2013) em Relações Internacionais e doutor em Ciência Política pelo Instituto de
Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL, 2020). Foi Marie Curie Fellow (2014-2017) do programa da Comissão
Europeia “Power and Region in a Multipolar Order (PRIMO-ITN)” e professor colaborador do mestrado em Ciência Política da
Universidade de Salamanca. Em 2016, foi Doctoral Researcher na Universidade de Stellenbosch, na África do Sul, e no German
Institute of Global and Area Studies (GIGA), em Hamburgo. Foi professor substituto de Política Internacional do IFCS-UFRJ e
assistente de pesquisa no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas
(CPDOC-FGV), também tendo atuado na Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). Seus principais interesses são análise
de política externa e processo decisório, métodos qualitativos e regimes multilaterais (especialmente mudança do clima, segurança
alimentar, paz e segurança internacionais e migrações).
Artigo
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ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.6 - 15, mai. 2021
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O que são as Relações
Internacionais?
Relações Internacionais é a disciplina ver-
tente da Ciência Política que visa ao estudo das
interações políticas, econômicas e sociais que
se realizam principalmente entre Estados, mas
também entre esses e atores como organizações
internacionais, empresas, organizações não
governamentais (ONG), grupos terroristas e
narcotracantes, indivíduos, entre outros. Em
outras palavras, a disciplina de Relações Inter-
nacionais (com letra maiúscula) inquire sobre
as relações internacionais (com letra minúscu-
la). Entre seus objetivos, estão o entendimento
de eventos passados, a compreensão do con-
texto hodierno e o diálogo interdisciplinar com
a História, a Economia, o Direito, a Sociologia
e a Antropologia.
Em virtude dessa amplitude, a disciplina
de Relações Internacionais envolve variadas
abordagens ontológicas, epistemológicas e me-
todológicas. Devido a sua versatilidade, a dis-
ciplina inuencia tomadores de decisões tanto
no que diz respeito à promoção da cooperação
entre os povos quanto à maximização do poder
estatal. O objeto de estudo das Relações Inter-
nacionais está num estado de constante inte-
ração entre as relações estratégico-diplomáticas
dos Estados e os vários tipos de transações per-
tinentes a um mundo cada vez mais globaliza-
do (BROWN; AINLEY, 2009).
Burchill e Linklater apontam seis dimen-
sões para a compreensão das dinâmicas interna-
cionais: (i) as relações entre os Estados, tradi-
cionalmente centrais para o campo de estudo, e
os outros atores; (ii) as relações entre as grandes
potências e os laços de ascendência dessas sobre
as nações em desenvolvimento; (iii) questões
empíricas, que não somente envolvem a distri-
buição de poder militar, domínio territorial e ta-
manho das economias, mas temas como direitos
humanos, mudanças climáticas e saúde global;
(iv) discussões éticas, a exemplo de justicações
para intervenções humanitárias; (v) disputas
metodológicas sobre a natureza das Ciências
Sociais e a adequação da análise positivista; e, -
nalmente, (vi) a interdisciplinaridade como ins-
trumento de compreensão de fenômenos inter-
nacionais (BURCHILL; LINKLATER, 2005).
Quais são os “grandes
debates”?
No decurso da história, os agrupamentos
humanos estabeleceram relações com as comu-
nidades vizinhas através da prática do comér-
cio, da diplomacia e da guerra. A este respei-
to, Tucídides descreveu, no século V a.C., o
conito entre Atenas e a vitoriosa Esparta para
racionalizar sobre o uso da guerra como ins-
trumento de poder estatal. Nicolau Maquiavel
defende, no século XVI, a moralidade diferen-
ciada do líder e enfatiza o imperativo de sobre-
vivência do Estado. omas Hobbes completa,
um século mais tarde, a base de pensamento do
realismo, campo teórico visto mais à frente, ao
argumentar a inexistência de autoridade com
monopólio do poder legítimo do uso da vio-
lência em âmbito internacional.
Somente no século XVIII é que se come-
ça a olhar para as relações entre coletividades
com base nas prerrogativas dos Estados nacio-
nais, então em processo de formação, graças a
lósofos como Jean-Jacques Rousseau e Imma-
nuel Kant, que, juntamente com John Locke
e John Stuart Mill, compõem os alicerces do
pensamento liberal da disciplina. Já o termo
“Relações Internacionais” surge com Jeremy
Bentham em 1789.
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As Relações Internacionais ganham esta-
tura de disciplina acadêmica com a fundação,
em 1919, do departamento de Política Inter-
nacional da Universidade de Aberystwyth, no
País de Gales. Ainda com o mundo sob o trau-
ma da Primeira Guerra Mundial, a nova disci-
plina foi inspirada pelo ideário do presidente
norte-americano Woodrow Wilson e teve por
propósito inicial o desenvolvimento de estudos
sobre guerra e paz, bem como de instrumental
teórico que pudesse evitar novos conitos. A
escola diplomática Edmund A. Walsh da Uni-
versidade de Georgetown e a London School
of Economics, situadas nos Estados Unidos e
no Reino Unido, também fazem parte dos es-
forços iniciais de conguração de uma discipli-
na organizada, mais tarde estudada em outras
instituições europeias e norte-americanas. Para
além do interesse acadêmico, portanto, o avan-
ço das Relações Internacionais como discipli-
na ocidental estava diretamente relacionado
aos interesses político-estratégicos desses paí-
ses. Com o tempo, a disciplina passa a ganhar
maior escopo temático e diversidade.
A evolução das Relações Internacionais
é marcada por quatro grandes debates, carac-
terizados pelo diálogo entre distintas corren-
tes teóricas. Essas teorias têm como objetivo
principal constituir métodos e conceitos que
permitam explicar e entender a ocorrência de
determinados fenômenos. É possível inferir as
teorias como “lentes” através das quais o ana-
lista busca perceber o contexto abstrato que o
cerca e os conceitos daí derivados como meios
de operacionalização da realidade. Por sua pró-
pria amplitude e interdisciplinaridade, a disci-
plina aborda uma pluralidade de aspectos que
vão desde o equilíbrio de poder e o estudo da
guerra até discussões sobre agentes, estruturas
e preferências individuais. Paradoxalmente, a
riqueza teórico-conceitual das Relações Inter-
nacionais diculta o estabelecimento de deno-
minadores comuns e de pontos de contato que
perpassem todos os momentos de evolução da
disciplina.
O primeiro grande debate (i) dá-se entre
o realismo e o liberalismo, as correntes teóricas
fundacionais das Relações Internacionais. Con-
comitante ao momento que vai de 1919 a 1939
ao período imediatamente posterior à Segunda
Guerra Mundial, o debate centrou-se em diver-
gências ontológicas. A abordagem realista parte
de uma leitura pessimista da natureza humana
e tem como premissas a centralidade de Esta-
dos unitários e “racionais”; a ausência de Le-
viatã em ambiente internacional anárquico, o
que faz com que cada Estado objetive ampliar a
sua segurança em relação aos demais; e a busca
pela sobrevivência. Medo, prestígio, guerra e a
procura de garantir o “interesse nacional” de-
terminam o comportamento estatal. Entre os
variados modelos de análise do realismo, desta-
ca-se o “dilema do prisioneiro”, uma ilustração
da teoria dos jogos que denota como a ausência
de informações claras e a desconança mútua
podem impedir a cooperação. Edward Carr,
Hans Morgenthau, Raymond Aron e Kenneth
Waltz são os principais expoentes dessa verten-
te teórica.
A tradição liberal, por sua vez, advém
da contribuição de teóricos contratualistas
europeus do século XVIII, preocupa-se com
as relações entre indivíduos, sociedades e go-
vernos e pondera como essas podem afetar a
vida internacional. A existência de governos
democráticos e a interdependência gerada pelo
livre comércio contribuem para a consecução
da “paz perpétua” entre os Estados (KANT,
2003). Além disso, para autores como Norman
Angell, Alfred Zimmern e o próprio Woodrow
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Wilson sociedades podem autorregular-se por
meio de instituições, o que garantiria regras
mínimas de convivência entre os Estados e evi-
taria o surgimento de ameaças. A realização de
interesses individuais levaria, pois, a ganhos co-
letivos. O pensamento liberal é qualicado de
“idealista” pelos teóricos realistas e perde força
com o início das hostilidades que levaram à Se-
gunda Guerra Mundial. A sua inuência, no
entanto, é perceptível com o estabelecimento
das Nações Unidas, a evolução do Direito In-
ternacional e a aplicação do princípio de auto-
determinação dos povos.
O pensamento liberal também inuencia
a teoria funcionalista, que advoga pela integra-
ção e pela governança coletiva como formas de
superação de discórdias. A importância do fun-
cionalismo é renovada com os escritos de Ernst
B. Haas. Principal expoente do neofunciona-
lismo nos anos 1950 e 1960, o autor defendia
que a integração regional em áreas especícas
– como a economia – dinamizaria, por meio
de um processo de “spill-over”, as possibilidades
de cooperação em outros setores (E. HAAS,
1958). O atingimento da paz ocorreria por
meio da constituição de agências especializadas
e organismos internacionais – por exemplo, a
Comunidade Europeia do Carvão e do Aço –
que assumiriam funções até então exclusivas
dos Estados.
O segundo grande debate (ii) ocorre en-
tre os tradicionalistas, como eram comumente
chamados os realistas e liberais, e os behavio-
ristas, inspirados pelas ciências naturais. Nos
anos 1950 e 1960, a “revolução” behaviorista
dene as abordagens clássicas como demasiado
normativas e propõe mudanças metodológicas.
Com foco em análises quantitativas, na pro-
cura de conclusões “generalizáveis” e baseado
no positivismo, o behaviorismo trata a ciência
como algo neutro e técnico, de modo que fe-
nômenos sociais deveriam ser explicados indi-
vidualmente e testados de forma empírica. Se,
para autores como os da Escola de Frankfurt o
behaviorismo era uma abordagem conservado-
ra e reducionista, para outros representou um
modo de avançar a produção de conhecimento
de acordo com parâmetros replicáveis e dota-
dos do rigor cientíco. O behaviorismo teve
inuência na evolução metodológica das Rela-
ções Internacionais, notadamente na academia
norte-americana.
O terceiro grande debate (iii) retoma o
primeiro. Faz referência à reedição da disputa
entre realismo e liberalismo, atualizados como
neorrealismo e neoliberalismo. O contexto era
o dos anos 1970, quando ocorria a détente entre
Estados Unidos e União Soviética. A teoria rea-
lista não conseguiu prever e tampouco forne-
ceu ferramentas analíticas que explicassem sa-
tisfatoriamente o porquê do colapso da União
Soviética. Além disso, não abrangia a multipli-
cidade de atores internacionais que operavam
por meio do Estado e à margem dele, como
organizações não governamentais (ONG), or-
ganizações internacionais e empresas. Já os li-
berais precisavam superar a imagem de serem
demasiado idealistas e distantes do fato de que
o tabuleiro internacional era também palco de
jogos de força entre as grandes potências.
Neoliberais (também conhecidos como
institucionalistas neoliberais) como Joseph
Nye e Robert Keohane enfatizam a relevância
de atores não estatais e armam que proble-
mas econômicos, políticos e sociais não são
somente causados pelo comportamento dos
Estados ou plenamente controlados por esses
(KEOHANE; NYE JR., 1977). Ainda que
permanecesse importante, o poder militar era
complementado pelas conexões entre socieda-
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des, aumento dos uxos transnacionais e am-
plitude das temáticas internacionais. Em con-
cessão ao pensamento realista, os neoliberais
reconhecem a existência da anarquia em nível
sistêmico. No entanto, por estarem interde-
pendentes em ambiente anárquico, os Estados
buscariam implementar canais de cooperação,
estabelecer instituições e tratados e limitar a
possibilidade de conito. Ao contrário da visão
realista, que considera as instituições interna-
cionais como reexos da distribuição de poder
entre os estados e subprodutos da ação desses,
a vertente neoliberal observa-as como mecanis-
mos de coordenação que têm poder de agência
e minimizam os jogos de soma zero e o “dilema
do prisioneiro”. Organizações internacionais,
portanto, para a promoção de parâmetros mí-
nimos para a regulação da vida internacional.
A inuência do neoliberalismo também é per-
ceptível na obra de autores como John Ruggie,
que desenvolve o conceito de multilateralismo.
Posteriormente, a matriz liberal expande
seu escopo teórico com a incorporação de novas
perspectivas provenientes, por exemplo, da So-
ciologia e da História, e amplia o diálogo com
a escola construtivista. Os estudos sobre paz e
segurança internacionais são renovados, com
especial enfoque em temas como intervencio-
nismo humanitário e uso da força e o papel de
instituições internacionais e regionais no pós-
-Guerra Fria. Em contínuo debate com autores
realistas, trabalhos como os de John Ikenberry
rearmam a resiliência da ordem liberal esta-
belecida pelos Estados Unidos e minimizam o
declínio relativo de Washington. Já Joseph Nye
reinterpreta concepções sobre poder com os
conceitos de soft e smart power.
O neorrealismo (ou realismo estrutural)
reforça cânones realistas clássicos, como a cen-
tralidade estatal, a desconança mútua e a anar-
quia. Destaca, no entanto, a inuência do siste-
ma internacional como variável chave. O foco
está na estrutura e não em atores individuais,
não sendo relevante a realidade doméstica dos
Estados. Em obra paradigmática, Kenneth
Waltz argumenta que o sistema internacional
é denido pela distribuição de capacidades
(WALTZ, 2010). Como bolas de uma mesa
de bilhar, os Estados têm seu comportamen-
to limitado pela estrutura. Mudanças, quando
ocorrem, são raras e connadas à conguração
anárquica ou hierárquica. Também referência
no campo neorrealista, Robert Gilpin discute
como mudanças sistêmicas dependem da atua-
ção do Estado hegemônico e da concentração
de poder desse frente aos demais.
O realismo ganha diversidade nos anos
1990 com o surgimento de derivações conheci-
das como realismo ofensivo e realismo defensi-
vo, desenvolvidas por nomes como John Mear-
sheimer. Ademais, é possível distinguir outra
vertente recente do realismo, conhecida como
realismo neoclássico, associada a Fareed Zaka-
ria e Gideon Rose. Diferentemente do neor-
realismo, o realismo neoclássico faz concessões
ao campo liberal e inclui o nível de análise do-
méstico como essencial para a compreensão das
decisões estatais.
Apesar das diferenças, neorrealismo e
neoliberalismo aproximam-se na importância
conferida à variável sistêmica como princípio
orientador, ao positivismo como teoria losó-
ca e aos Estados como entidades mais relevan-
tes. Essa proximidade levou autores como Ole
Waever (1996, p. 161) a dizer que o debate era
articialmente construído, inventado por con-
ta de propósitos ilustrativos e didáticos. Na
mesma direção, Robert Keohane e Lisa Martin
(1999, p. 3) armam que os dois campos teóri-
cos são “meios-irmãos”.
11 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.6 - 15, mai. 2021
O debate entre o neorrealismo e o neolibe-
ralismo inuencia o desenvolvimento da teoria
de regimes e da Escola Inglesa. Regimes refe-
rem-se a normas, princípios, regras e processos
decisórios por meio dos quais as expectativas
estatais convergem quanto a uma determinada
área temática. Ainda que mais próxima da pers-
pectiva neoliberal, a teoria de regimes também
atraiu a atenção de autores mais próximos do
realismo, como Susan Strange e Joseph Grieco.
A Escola Inglesa tem como principais ex-
poentes Hedley Bull, Adam Watson e Martin
Wight e apresenta-se como uma via media en-
tre as correntes realista e liberal. Inspirada pelo
estudo da história e pelo “racionalismo” de
Hugo Grotius, um dos precursores do Direito
Internacional, a Escola Inglesa tem perspecti-
va evolucionista das Relações Internacionais.
Os Estados fazem uso de, portanto, interesses,
valores, regras, instituições, normas e práticas
compartilhados que possibilitam o convívio
cooperativo e a moderação da anarquia, o que
Adam Watson dene como “raison de système
(WATSON, 1992, p. 14). Conceitos como or-
dem e justiça são centrais para a Escola Inglesa
e dialogam com concepções de sociedade inter-
nacional que Hedley Bull nomeou “pluralista
e “solidarista”. A corrente teórica ganhou novas
interpretações a partir de autores como Barry
Buzan, Edward Keene e Andrew Hurrell que
discutem, por exemplo, a integração de países
não-ocidentais e o papel de regiões na socieda-
de internacional criada pelo Ocidente.
O construtivismo torna-se uma das prin-
cipais escolas de pensamento das Relações In-
ternacionais na transição das décadas de 1980
e 1990. Considera a realidade como social-
mente construída por atores e estruturas, de
modo que não há antecedência ontológica en-
tre eles (ONUF, 1989). Para Nicholas Onuf,
por exemplo, a linguagem é o meio pelo qual
interpretam-se e estabelecem-se as relações en-
tre indivíduos e sociedades, produzindo atos
de fala e tendo impactos na prática política.
Atores, como é o caso dos Estados, agem não
apenas no contexto de, mas também sobre as
instituições/estruturas, o que faz com que o
construtivismo rejeite condições pré-determi-
nadas e privilegie a mudança. Ideias, valores e
crenças atribuem signicado ao mundo mate-
rial, o que ajuda a esclarecer as várias formas
de comportamento estatal e de congurações
sistêmicas. Por isso, Estados que compartilham
características comuns, como forma de gover-
no ou modelo econômico, tendem a ver-se de
modo positivo (WENDT, 1987).
Para além desses elementos unicadores,
é possível dizer que o construtivismo se di-
vide em vertentes mais próximas das teorias
tradicionais e em abordagens mais pluralistas.
Autores como Alexander Wendt, Martha Fin-
nemore, Kathryn Sikkink e Peter Katzenstein
fazem parte do primeiro grupo. Em geral, eles
mantêm as mesmas bases epistemológicas e
metodológicas das teorias de matriz realista e
liberal e dialogam criticamente com o campo
mainstream da disciplina. Essa tentativa de
criação de canais de diálogo e de manutenção
de aparência “cientíca” é questionada por au-
tores como Richard Ashley, Michael Shapiro e
R. B. J. Walker, considerados por realistas e li-
berais como radicais e associados ao pós-estru-
turalismo por negarem a existência de teorias
neutras e por defenderem a inclusão de múlti-
plas narrativas na construção do conhecimen-
to e de temas como subjetividade, relativismo,
intertextualidade e culturas de resistência e de
emancipação. Autores clássicos como Michel
Focault, Jacques Derrida e Pierre Bordieu in-
uenciam os escritos pós-estruturalistas.
12 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.6 - 15, mai. 2021
A diculdade das teorias tradicionais de
explicarem o m da Guerra Fria abriu espa-
ço não só para a organização do pensamento
pós-estruturalista, mas também para aborda-
gens como a da teoria crítica. A teoria crítica
mantém a importância do caráter estrutural
das Relações Internacionais, partindo de fun-
damentos do marxismo e das ideias de Antonio
Gramsci e da Escola de Frankfurt para analisar
e propor mudanças emancipatórias. A teoria
crítica dialoga com o materialismo da teoria de
sistema-mundo2 de Immanuel Wallerstein e da
teoria da dependência de Fernando Henrique
Cardoso e Enzo Falleto e preserva conteúdos
como mecanismos de dominação e de exclusão
e relações de dependência como neoimperialis-
mo e neocolonialismo. Teóricos críticos como
Robert Cox e Andrew Linklater propõem que
o conhecimento seja repensado a partir de con-
tribuições sociológicas, antropológicas, losó-
cas e psicológicas.
O quarto grande debate das Relações In-
ternacionais (iv) está centrado na disputa me-
todológica e epistemológica entre positivistas e
pós-positivistas, aqui incluídas as experiências
teóricas do pós-estruturalismo, ambientalis-
mo,3 pós-modernismo,4 teoria crítica e de abor-
2 A teoria de Wallerstein observa o mundo como sistema
social no qual há uma divisão territorial do trabalho hierar-
quizada em centro, semiperiferia e periferia e estabelecida de
acordo com relações de produção. Tem relação direta com a
teoria de dependência, abordagem teórica neomarxista que
explica as relações desiguais entre centro e periferia como
reprodutoras do subdesenvolvimento.
3 A teoria ambientalista, também conhecida como “green
theory”, tem por base discussões sobre meio ambiente e cará-
ter interdisciplinar, englobando de perspectivas próximas ao
institucionalismo neoliberal até visões críticas ao sistema ca-
pitalista como um todo e ao modo como estados e atores in-
ternacionais operam e agem frente a problemas de ação cole-
tiva, advogando pela descentralização de estruturas de poder.
4 Como matriz teórica, o pós-modernismo questiona as ba-
ses pretensamente racionais, cientícas e delimitadas no
tempo e no espaço das relações internacionais, buscando
ultrapassar limites disciplinares e desconstruindo visões tra-
dicionais. Autores como James Der Derian defendem que
teorias individuais são incapazes de explicar a complexidade
dagens do feminismo.5 Divide, de um lado,
autores “racionalistas”, que buscam fatos ob-
serváveis e que são afeitos ao positivismo como
método cientíco e, de outro, os “reexivis-
tas”, ou refratários ao paradigma metodológi-
co dominante por considerarem-no supercial
e predeterminante. Os pós-positivistas refu-
tam a existência de uma “realidade objetiva”,
acreditam que valores e intencionalidade não
podem ser dissociados da produção do conhe-
cimento e, por essa razão, buscam desenvolver
estudos que incluam a visão do “outro”. Obras
que abordem lentes de gênero, classe e raça
(CHOWDHRY; NAIR, 2004; TICKNER,
1992), além de modelos de análise alternativos,
são privilegiados pelos pós-positivistas.
Quais são os métodos
utilizados?
Afora as discussões teóricas e epistemoló-
gicas, a evolução das Relações Internacionais
envolve o debate entre diferentes abordagens
metodológicas. Em termos gerais, é possível
identicar as tradições metodológicas quantita-
tiva e qualitativa como as principais no campo
de estudos das Relações Internacionais.
das relações internacionais, especialmente em circunstância
marcada por maior interpenetração e porosidade de limites
e fronteiras institucionais. Para Richard Devetak, conceitos
como o de soberania estatal são anacrônicos e funcionam
como profecias autorrealizáveis, devendo abrir espaço para a
temas como diversidade étnica, multiculturalismo, e o papel
de grupos indígenas e minorias.
5 As abordagens feministas têm em comum o uso do gênero
como categoria de análise, a partir da armação do gênero
como identidade socialmente construída e passível de per-
petuar desigualdades, hierarquias e opressões, visto que é
sujeita a disputas de poder. Ponto comum entre as aborda-
gens feministas é a ideia de que as correntes teóricas tradi-
cionais ignoraram as discussões sobre gênero e sua dimensão
política. Além disso, autoras como Lori Handrahan trazem
a relevância de visões interseccionais que incluem debates
sobre raça, classe e etnia. Essas agendas transbordam para
temas como, por exemplo, construção da paz e situações de
pós-conito, estudados por nomes como Cynthia Enloe.
13 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.6 - 15, mai. 2021
A tradição quantitativa envolve, como
exemplos mais comuns, o método estatístico
(inclui-se a análise bayesiana) e o método expe-
rimental.6 Baseia-se na aplicação de técnicas e
raciocínio das ciências naturais, do uso da ma-
temática e de softwares de pesquisa quantitati-
va. Insere-se, portanto, na corrente losóca do
positivismo. Entre seus objetivos estão o teste
de hipóteses, o estabelecimento de padrões, a
manipulação de variáveis e, no caso do método
experimental, o uso de grupos de controle. Fa-
ceta comum do método quantitativo é o exame
de grande quantidade de casos (Large-N).
A tradição metodológica qualitativa en-
contra-se tanto no campo do positivismo quan-
to no do pós-positivismo. No que diz respeito
a métodos qualitativos positivistas usados nas
Relações Internacionais, cita-se o process-tra-
cing e o método comparativo. O process-tracing
vale-se da reexão quantitativa sobre o teste de
hipóteses para aplicá-la à análise qualitativa de
um caso especíco (within-case analysis) (BEA-
CH; PEDERSEN, 2013). Analistas buscam
observar como fatores explicativos e resultados
(outcomes) estão inter-relacionados pela existên-
cia de mecanismos causais. O “caminho” entre
fatores e resultados é identicado por meio de
técnicas de recolha de dados como entrevistas e
trabalho de arquivo. Já o método comparativo
pretende comparar mais de um caso (small-N)
a partir das suas variáveis e/ou resultados. Am-
bos os métodos são úteis para a identicação e o
desenvolvimento de novas hipóteses e teorias7.
Mais recentemente, esforços têm sido
envidados para aproximar as tradições quanti-
tativa e qualitativa do campo positivista. São
6 A análise bayesiana utiliza-se da estatística para responder pergun-
tas de pesquisa que tenham por base o estudo de probabilidades.
7 O método histórico-comparativo origina-se como subpro-
duto do método comparativo.
os chamados métodos mistos (mix methods),
a exemplo do método de análise qualitativa
comparativa (em inglês, qualitative comparative
analysis ou QCA) (RAGIN, 2008). Diversos
autores têm conjugado o uso de ferramentas
estatísticas com a análise qualitativa de casos es-
pecícos e produzido estudos faseados que rela-
cionam a análise inicial de muitos casos (large-
-N) com a investigação aprofundada de poucos
ou apenas um caso (small-N ou within-case
analysis). Métodos como a análise de discurso e
a análise de conteúdo também podem situar-se
na conjunção entre perspectivas quantitativas e
qualitativas (GOERTZ, 2017).
Por m, ressalta-se o uso de métodos
oriundos de outras disciplinas, como é o caso
da etnograa. O uso de entrevistas não estrutu-
radas (abertas) e de observação participativa e a
construção de histórias de vida são técnicas de
coleta de dados habitualmente associadas à An-
tropologia e à Geograa. Por meio desta abor-
dagem, pesquisadores podem examinar como
indivíduos e grupos humanos interpretam a
realidade, rejeitando a existência de uma “reali-
dade concreta e replicável”. No curso do traba-
lho, o analista inuencia e é ao mesmo tempo
inuenciado pela atividade de investigação.
Debates contemporâneos
As Relações Internacionais enfrentam
uma série de desaos no século XXI. Além da
necessidade de compreender e explicar o difuso
contexto internacional hodierno, a disciplina
precisa transpor a histórica vinculação ao mun-
do ocidental e, particularmente, aos Estados
Unidos. Ademais, é necessário avaliar critica-
mente se ainda faz sentido estudar as Relações
Internacionais de acordo com os grandes de-
bates e/ou com áreas teóricas bem delimitadas,
14 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.6 - 15, mai. 2021
bem como repensar os avanços metodológicos
realizados até o presente momento.
Em primeiro lugar, os estudiosos das Re-
lações Internacionais encontram um mundo
muito mais complexo do que durante o perío-
do de vigência do conito bipolar. O mundo
pós-Guerra Fria é marcado pela proliferação e
aumento da importância de temas como o ter-
rorismo, a saúde global, os direitos humanos, os
uxos de refugiados, a segurança cibernética e
as tecnologias de informação e de comunicação,
as mudanças climáticas, a segurança alimentar e
a não proliferação nuclear, entre outros. O de-
clínio relativo dos Estados Unidos no âmbito
econômico mas a sua ainda primazia militar,
associado à mudança do centro de gravidade
mundial para a Ásia, especialmente em função
da ascensão de países como a China e a Índia,
faz com que analistas de variadas tradições teóri-
cas questionem-se em que realidade estaríamos
vivendo: se em um mundo unipolar, bipolar,
multipolar, uni-multipolar (HUNTINGTON,
1999), multi-multipolar (FRIEDBERG,
1994), multimodal (WOMACK, 2016), mul-
tiplex (ACHARYA, 2014), pós-Americano
(ZAKARIA, 2008), pós-ocidental (STUEN-
KEL, 2016), policêntrico (DERICHS, 2014),
G-zero (BREMMER, 2013), ou sem polarida-
des denidas (R. HAAS, 2008). Autores tam-
bém dividem-se entre aqueles que acreditam na
continuidade e resiliência da ordem liberal em
vigor, como John Ikenberry (2018), e outros,
como John Mearsheimer (2019), que observam
a emergência de um mundo multipolar capita-
neado por Estados Unidos e China e marcado
por dinâmicas de conito e cooperação entre
suas visões de ordem internacional.
O segundo desao enfrentado pelas Re-
lações Internacionais relaciona-se diretamente
com essa incerteza. Uma vez que a congura-
ção sistêmica se torna menos norte-americana
e menos ocidental, como readequar a produção
de conhecimento da disciplina? Como tornar
as Relações Internacionais realmente “interna-
cionais”? Ainda dominada por publicações no
eixo anglo-saxão, a disciplina tem iniciado um
lento processo de interlocução com perspecti-
vas e autores e autoras não-ocidentais. Um dos
principais elementos desse “encontro” é o fato
de que há perspectivas fora do eixo transatlân-
tico que questionam conceitos, teorias e epis-
temologias que foram criadas a partir do pen-
samento e da história ocidentais (ACHARYA;
BUZAN, 2007; SIKKINK, 2014). Outra
questão relevante é investigar se de fato existe
um diálogo de iguais ou se vigora uma visão
condescendente do eixo Europa-Estados Uni-
dos, voltada não para a troca de perspectivas,
mas para a mera incorporação do que é “di-
ferente” (TICKNER; WAEVER, 2009; BIL-
GIN, 2008; ZARAKOL, 2011). Igualmente,
deve-se evitar o risco de se criarem novas es-
sencialidades, como “escolas nacionais” de Re-
lações Internacionais, e efetivamente pluralizar
a produção do conhecimento.
Por m, uma terceira vertente da agenda
de investigação atual é sobre métodos e inter-
disciplinaridade. Por um lado, observa-se um
crescimento do número de trabalhos que li-
dam com o realismo cientíco, o que contribui
para o pluralismo metodológico e para a busca
de um caminho intermediário entre métodos
quantitativos e qualitativos. Processo seme-
lhante tem ocorrido com autores que buscam
ampliar a comunicação entre visões raciona-
listas e reexivistas. Por outro lado, a evolução
das Relações Internacionais tem-na aproxima-
do de outras disciplinas, o que amplica o seu
escopo de atuação e favorece o surgimento de
novas estratégias de investigação.
15 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.6 - 15, mai. 2021
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16 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.16 - 27, mai. 2021
China’s quest for oil: Brazil-China
relations in the oil sector (2000-2018)1
A busca da China por petróleo: as relações Brasil-China no setor petrolífero (2000-2018)
La búsqueda de petróleo: las relaciones Brasil-China en el sector petrolero (2000-2018)
Rafael Almeida Ferreira Abrão2
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2021v18n1pX Recebido em: 11 de agosto de 2020
Aceito em: 05 de abril de 2021
Resumo
Este artigo investiga de que forma a China se tornou uma força relevante no setor de
petróleo brasileiro. Os resultados mostram o Brasil como parte da estratégia da China de
diversicação de fontes do fornecimento de petróleo e o empenho das empresas chinesas
para participar de projetos no país latino-americano.
Palavras-chave: Brasil; China; Petróleo e Gás.
Abstract
is article reviews in what way China has developed into a sizable force in the Brazilian
oil sector. Findings show Brazil as part of Chinas strategy of oil supply diversication and
the endeavor of Chinese companies to be part of projects in the Latin American country.
Keywords: Brazil; China; Oil and Gas.
Resumen
Este artículo revisa como China se ha convertido en una fuerza considerable en el sector
petrolero brasileño. Los resultados muestran que Brasil es parte de la estrategia de China
para diversicación de sus fuentes de petróleo y el esfuerzo de empresas chinas para
participar de proyectos en el país latinoamericano.
Palabras-clave: Brasil; China; Petróleo y Gas.
1 is study was sponsored by the Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) - Finance Code 001.
2 Ph.D. candidate at the Federal University of ABC (UFABC). Aliated Fellow at the International Institute for Asian Studies
(IIAS). Leiden, Netherlands. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9405-0719
Artigo
16 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte,
ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.16 - 27, mai. 2021
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Introdução
Energy is not just a regular commodity
traded on world markets. In political economy
analyses, energy is a strategic commodity and,
despite the increasing relevance of other energy
sources, oil continues to play a crucial role in
the world economy. Oil is a requirement for
all states, but at the same time, is not equally
distributed around the globe. It is a rare and
non-renewable resource and, above all, it is es-
sential for the survival, security, and well-being
of all states (FUSER, 2013). Energy is a fun-
damental element of the world economy and
it is a mandatory condition to mobilize other
resources (AMINEH; GUANG, 2017). Ener-
gy is a source of power.
Historically, oil and the fear of paralyzing
oil ows have mobilized countries economi-
cally and militarily to gain access to resour-
ces beyond their state borders. Japan entered
World War II to gain access to oil reserves in
Indonesia, while Nazi Germanys army invaded
the Soviet Union with the ambition to conquer
the oil-rich Caucasus region. e United Sta-
tes’ (USA) oil predominance was central to the
outcome of World War II. Later, the dispute
between international companies and oil-rich
underdeveloped countries for control of said
countries’ main hydrocarbon reserves sparked
decolonization and nationalism movements. In
the 1970s, the two oil shocks created not only a
global economic crisis but also a group of weal-
thy and powerful oil-producing nations with a
high capacity to inuence international aairs.
ese are just a few examples of the oil indus-
try’s inuence among many wars, revolutions,
assassinations, coups d’état, and other relevant
episodes in contemporary history. According
to Yergin:
Over almost a century and a half, oil has
brought out both the best and worst of our civi-
lization. It has been both a boon and a burden.
Energy is the basis of industrial society. And of
all energy sources, oil has loomed the largest
and the most problematic because of its cen-
tral role, its strategic character, its geographic
distribution, the recurrent pattern of crisis in
its supply—and the inevitable and irresistible
temptation to grasp for its rewards (YERGIN,
1991, p. 780).
Finally, energy is essential to both Brazil’s
and Chinas development. While China needs
to fulll its energy demand with overseas re-
sources, Brazil can boost industrial develop-
ment and enhance social welfare using income
generated by its new oil and gas deep-sea pro-
jects. But more than that, energy is essential to
the world economy since it is a requirement
for the development and production of goods
and services. Energy is also at the core of sus-
tainability and global climate change debates.
e investigation about the prole of Chinas
energy investments has been examined in inter-
national literature, with a more specic focus
given to Asia and Africa, but not as much in
Brazil. To ll this gap, this study means to brie-
y contribute to understanding the role of two
major global players in the political economy of
energy: Brazil, the Latin American largest eco-
nomy and resource-rich nation, and China, the
world’s fastest-growing economy in the last de-
cades and largest energy consumer in the world.
In this article, we aim to review in what
way China has developed into a sizable force
in the Brazilian oil sector. Our argument is
built upon a comprehensive analysis of data
and literature review. e structure of the pa-
per is divided into ve sections, including this
introduction. e following section presents
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the Chinese import-dependent path. e third
section explains how Brazil ts Chinas strategy
of energy supply security. e fourth addresses
the growing Chinese inuence in the Brazilian
oil sector through trade, investment, and -
nance. Finally, the conclusion summarizes the
results, showing Brazil as part of Chinas strate-
gy of oil supply diversication and the Chinese
companies targeting greeneld projects in the
Brazilian pre-salt elds since they have limited
opportunities in other parts of the world.
The Chinese Thirst for Oil
In the last two decades, Chinas energy in-
vestments around the globe have increased ex-
ponentially. is move is part of a state-led eco-
nomic globalization strategy of State-Owned
Enterprises (SOE) and a part of Chinas rise as
a global political and economic power (AMI-
NEH; GUANG, 2018). eir strategic focus
on becoming world market leaders prompted
Chinese National Oil Companies (NOCs)
to ensure supply security from resource-rich
countries, as well as to meet Chinas high le-
vel of import-dependency. Chinas dependence
on fossil energy imports exposes the countrys
energy security to plenty of geopolitical risks,
as many oil-producing regions and internatio-
nal transportation routes are historically unsta-
ble (PARRA, 2004). As argued by Hughes and
Lipscy (2013, p. 450), “the politics of energy is
reemerging as a major area of inquiry for poli-
tical science after two decades of relative quiet.
One reason is the growth in demand in China
while Lee (2012, p. 75) highlights that “Chinas
energy consumption has expanded and its rise
has become the dominant geopolitical issue of
our time, Beijings energy security policy has
become one of the major discussion topics”.
Energy security refers to the need to safe-
guard sucient resources to meet the national
demand (YERGIN, 2006) and, consequently,
it becomes a component of national security,
requiring the state to act by diplomatic, econo-
mic, and military means (KLARE, 2016). In
the Chinese case, Lee (2012) argue:
Governments in all major economies, demo-
cratic and authoritarian, view energy security
as an inherent component of their national
interest. [...] In China, the denition is much
stricter than in other energy-importing cou-
ntries (such as the United States and Japan)
since Beijing considers not just reliable and
uninterrupted but also a cheap supply of
energy as essential to its national and domes-
tic political interest (LEE, 2012, p. 77-78).
Chinas integration into the global system
has been pushing the world to a multipolar or-
der and is rapidly spreading Chinese political
and economic inuence on dierent countries
and regions by trade ows, direct investments,
nance, and diplomatic relations. e growing
transnational activities from Chinas largest
NOCs - China National Petroleum Corpora-
tion (CNPC), China Petroleum and Chemical
Corporation (Sinopec), and the China Natio-
nal Oshore Oil Corporation (CNOOC) - are
now crucial to the country’s energy supply se-
curity. Some analysts like Amineh and Guang
(2017, p. 40) argue that once the NOCs be-
come transnational actors, the state loses its
monopoly control over the actions of the com-
panies, although still maintaining relevant par-
ticipation in the companies’ decisions. Never-
theless, Hogenboom (2014) adds that although
the Chinese state no longer centrally controls
the NOC’s international strategy3, it continues
3 We take “strategy” as a NOC’s means of achieving long-
term objectives and “performance” as a NOC’s economic ef-
ciency in nding, developing, and delivering hydrocarbon
resources (VICTOR; HULTS; THURBER, 2012).
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to encourage and support investments in natu-
ral resource sectors, ensuring Chinas insertion
into the global economy and turning the coun-
try’s companies into increasingly transnational
players.
China was in the past an oil-exporting
country and after decades of economic growth
became a net oil importer in 1993. e coun-
try has become the largest energy consumer in
the world in 2011, surpassing the USA (EIA,
2015). To demonstrate Chinas oil reliance, we
estimate the country’s structural dependency
rate. At rst, we measure Chinese apparent con-
sumption using the methodology as follows:
en, we calculate Chinas structural
dependency on oil imports.
In other words,
Hence, we could measure Chinas
structural dependency rate on oil imports.
After clarifying the methodology, we can de-
termine Chinas rate of dependence on oil imports.
Firstly, since the oil production had no signicant
expansion, Chinese net oil imports increased stea-
dily to fulll the Chinese growing energy demand.
Chart 1. China’s oil production vs. net oil and oil products imports (kilotons, 2000-2018)
Source: Data from IEA, 2020. Authors elaboration.
e expansion in consumption was accom-
panied by the increase in net oil imports bet-
ween 2000 and 2018, the most recent year with
available data, resulting in a scenario of structu-
ral dependency on oil imports. e Chinese oil’s
structural dependency boost from 86.202 to
484.900 kilotons between 2000 and 2018, al-
most six times higher than previously registered.
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By 2000, the structural dependency rate
in China was 35%, ten years later this rate rose
to 58% and has continued to grow to a high of
72% in 2018.
Chart 2. China’s apparent consumption vs. structural dependency (kilotons, 2000-2018)
Source: Data from IEA, 2020. Authors elaboration.
Chart 3. China’s structural dependency rate (%, 2000-2018)
Source: IEA, 2020. Author’s elaboration.
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Consequently, the country has invested
in several energy projects overseas to meet the
needs of domestic consumption and diversi-
cation of supply to ensure supply security. It
is in this context of Chinese dependence on
oil overseas resources that Brazil is inserted on
Chinas strategy of energy supply security.
Brazil Meets Chinese Oil Needs
Brazil is still emerging as a large oil-expor-
ting country and it is expected to become an
important actor in energy global geopolitics.
In 2007, the announcement of the discovery
of large oshore resources in the pre-salt layer
changed the historical landscape of scarcity of
the country’s oil and gas reserves. After proving
the potential of the pre-salt reservoirs, Brazil is
becoming a great oil exporter. e country is
already the largest producer in Latin America,
surpassing traditional producers such as Me-
xico, Venezuela, and Ecuador. e oil output
forecast made by the Brazilian energy planning
company can be seen in the chart below:
Chart 4. Brazilian Oil Production Forecast (Mb/d)
Source: EPE, 2020, p. 152.
Brazilian oil output is predicted to in-
crease 58% between 2020 and 2029. e oil
production is set to rise from 3.2 million bar-
rels a day (Mb/d) in 2020 to 5.5 million b/d
in 2029, most of it added by the increase in
pre-salt production. In 2019, the largest oil
producers (including crude oil, all other pe-
troleum liquids, and biofuels) were the USA
(19.5 Mb/d) followed by Saudi Arabia (11.8
Mb/d), Russia (11.4 Mb/d), and Canada (5.5
Mb/d) (EIA, 2020). is indicates that Brazil
can become one of the largest oil producers in
the world by the end of the decade.
e pre-salt is the main area with a capa-
city to steadily expand the world’s oil supply
and it is therefore in the crosshairs of the U.S.
and China. Schutte (2018) classied the an-
nouncement as a new reality to the oil indus-
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try since it changed the dynamics of national
hydrocarbon policies and transformed the
country’s historical path of import dependen-
ce into one of production and exportation.
Brazils ocial proven oil reserves accounted
for 13.4 billion barrels in 2018 (ANP, 2019).
Nonetheless, Sauer and Estrella (2019) esti-
mate that, with the certication of pre-salt
oil and gas resources, this amount can achieve
more than 100 billion barrels shortly, which
can conrm that “pre-salt changes any future
scenario on the insertion of Brazil, putting the
country on another level in world geopolitics
(SCHUTTE, 2014, p. 86).
is brings challenges and opportunities
to the country’s economy and raises an intense
debate about the regulatory framework, foreign
currency appreciation, infrastructural projects,
sovereign and social funds, technological ad-
vances, and how to improve the national in-
dustry’s chains with upstream and downstream
opportunities. e regulatory framework has
changed several times due to the political pres-
sure of dierent actors. Transnational oil com-
panies, such as ExxonMobil, withdrew their
ventures in Brazil returning after a few years
when a new government took over and set a
more favorable regulation to oil transnational
companies. Meanwhile, Chinas investments
remained despite any government or regula-
tory change.
Finally, it is worth noticing the comple-
mentary character of both Brazil and Chinas
energy needs. On one hand, the discoveries in
Brazil oer plenty of resources to satisfy Chi-
nese aims of energy security and diversication
of supply, strategic assets in ultra-deep-sea wa-
ters, economic opportunities, and technolo-
gy to Chinas engineering, machinery and oil
companies. On the other hand, China oers
opportunities to help Brazil develop its expen-
sive deep-sea projects in a moment that the
country and Petrobras have scarce capital avai-
lable to carry out such ventures, which can im-
prove the country’s development opportunities
for the next decades.
Brazil-China in Linkages in the
Oil Sector
As discussed in the previous sections, Bra-
zil has become a major producer and expor-
ter of oil at a time of increasing demand from
China for this commodity. is resulted in a
growing Chinese presence in the Brazilian oil
sector, which occurred through i) the increase
of Brazilian exports to China; ii) the expansion
of Chinese investments in Brazil, and iii) the
presence of Chinese nancial institutions su-
pporting Brazilian oil projects and companies.
erefore, we analyze the three vectors of Chi-
nese expansion in the Brazilian oil sector: tra-
de, investments, and nance.
Trade
Another aspect of the relations between
the two countries is the growth of trade. Chi-
nas economic and political rise is changing the
global energy scenario since the country’s in-
creasing demand for raw materials cannot be
met by available domestic natural resources
alone. is poses a challenge to the country’s
energy security, as it relies on imports for 78%
of the crude oil it consumes (NBSC, 2018).
e country has become the largest commer-
cial partner for some of the Latin American
and Caribbean (LAC) countries. In the case
of Brazil, the rst decade of the 21st century
marked an exponential expansion of more than
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2000% in bilateral trade, reaching US$ 71.27
billion (YANRAN, 2017).
e Chinese industrialization and urbani-
zation process increased the demand for natural
resources and resulted in asymmetric commer-
cial ows between LAC countries and China.
e Chinese share of the exports in LAC rose
from 1.2% in 2000 to 9.6% in 2016, while
the imports rose from 2.5% in 2000 to 18.7%
in 2016 (HIRATUKA, 2018). e ows of
exports from LAC countries to China are not
very diversied, with most of them exporting
one or just a few goods consisting largely of
raw materials, while imports are mainly of ma-
nufactured products. South America trade rela-
tions with China consists mainly of basic pro-
ducts, especially food and energy, while China
has become a competitor to Mexico, Central
America, and the Caribbean in their national
markets and the USA, oering similar manu-
factured products to those produced in China
(CASAS; FREITAS; BASCUÑÁN, 2020).
Chinese investments are highly concen-
trated in those Latin American countries with
substantial oil reserves and petroleum is crucial
for their exports, economic growth, and public
revenues (HOGENBOOM, 2014). In Brazil, a
far more diversied economy in comparison to
other LAC countries, the Observatory of Econo-
mic Complexity (OEC) indicates that the share
of crude oil exports in 2017 was 7.9% (US$ 17.4
billion) and 43% of this amount was exported to
China. is shows that while China has multi-
ple oil suppliers, with Brazilian crude oil accou-
nting for just 5.1% of their supply, Brazil on the
other hand is increasingly dependent on expor-
ting oil to China. In 2020, during the Covid-19
outbreak, Brazil has become Chinas 4th largest
oil supplier, only behind Saudi Arabia, Russia,
and Iraq, which consolidated Brazil as a major
source and an essential part of Chinas strategy
of oil supply diversication. On the other hand,
it is important to notice that 70% of Brazil’s oil
exports were destined for China in July 2020, an
increase of 30% in a year, indicating that the re-
lations between the two countries are increasing
steadily (VALLE; PARRAGA, 2020).
Investments
Brazil has become the largest recipient of
Chinas energy investments in the world. As
stated by the Chinese Global Investment Trac-
ker (CGIT), US$ 727.5 billion were invested
in dierent energy projects throughout the
world between 2005 and 2019, of which US$
50.31 billion were directed to Brazil’s energy
sectors, topping Canada (US$ 41.84 billion),
Australia (US$ 38.37 billion), Pakistan (US$
38.87 billion) and Russia (US$ 30.85 billion).
e Chinese investments in the Brazilian oil
and gas sector are listed in the table below:
Table 1. Chinese Oil and Gas Investments in Brazil
Year Company Operation Amount
2010 Sinochem 40% Peregrino block US$ 3 billion
2010 Sinopec 40% Repsol Brasil US$ 7.1 billion
2012 Sinopec 30% Galp Energia US$ 5.2 billion
2013 CNOOC 10% Libra block US$ 700 million
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We can observe that Chinese investments
are increasing steadily, especially after the eco-
nomic and political crisis that took place in
Brazil after 2014, withstanding even the drop
in international oil prices of that same year.
ese investments are concentrated in pre-salt
assets and are mainly made by SOEs such as
CNOOC and China Southern Petroleum
Exploration and Development Corporation
(CNODC), a CNPC subsidiary. Between
2003 and 2017, SOEs accounted for 83% of
the total amount of Chinas investments in
Brazil (HIRATUKA; DEOS, 2019).
Finance
e internalization of NOCs has been
supported by the expansion of Chinese nan-
cing through large public banks (HIRATUKA;
DEOS, 2019). is movement can also be ob-
served in the Brazilian case, where Chinas oil
investments have been encouraged by nancial
institutions such as the China Development
Bank (CDB), e Export-Import Bank of Chi-
na (Exim Bank), and in a smaller amount, by
the Bank of China (BOC) and the Industrial
and Commercial Bank of China (ICBC). Since
2005, CDB and Exim Bank have provided more
than $137 billion in loan commitments to La-
tin American countries. According to the Chi-
na-Latin America Finance Database, the largest
nance amounts are destined to South Ameri-
cas resource-rich nations: Venezuela (US$ 62.2
billion), Brazil (US$ 28.9 billion), Ecuador
(US$ 18.4 billion), and Argentina (US$ 17.1
billion). e larger part of these transactions is
directed to the energy sector and are backed-
-loan arrangements in exchange for oil supply.
e Chinese energy-related loans directed to
Brazil can be seen at the following table.
Year Company Operation Amount
2013 CNPC 10% Libra block US$ 700 million
2015 TEK 1 block in the Recôncavo basin R$ 201 thousand
2016 China Investment Corporation US$ 1 billion
2016 China Investment Corporation 90% Nova Transportadora do Sudeste US$ 410 million
2017 CNPC US$ 120 million
2017 CNOOC 20% Alto do Cabo Frio Oeste block R$ 70 million
2017 CNODC 20% Peroba block R$ 400 million
2017 CNOOC 1 block in the Espírito Santo basin R$ 23.5 million
2017 TEK 2 blocks in the Recôncavo basin R$ 1.5 million
2018 Shandong Kerui Petroleum Construction of Comperj US$ 600 million
2018 CNPC 30% TT Work
2018 CNOOC 30% Pau Brasil block R$ 150 million
2019 CNOOC 5% Búzios eld R$ 3.4 billion
2019 CNODC 5% Búzios eld R$ 3.4 billion
2019 CNODC 20% Aram block R$ 1 billion
Source: AEI, 2020; SCHUTTE, 2020.
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e previous data indicates a sizable and
growing Chinese nancial presence in Brazil.
It is possible to observe that most loans were
concentrated in the energy sector (US$ 26 bil-
lion) and a large part of this amount was taken
by Petrobras (US$ 25 billion), the countrys oil
state-owned company and largest Brazilian en-
terprise. e active role of Chinas investment
and commercial banks increased signicantly
after the global crisis. According to Hiratuka
and Deos (2019), the data suggests that Chine-
se banks operate in Brazil with the strategy to
ensure the supply of natural resources to Chi-
nas growing demand. At the same time, those
banks expand markets for Chinese suppliers of
goods and services.
Even though their operations in Brazil
are still incipient (compared to the stock of
foreign direct investments), Chinese nance
to Latin America topped nancial transactions
from either the World Bank and the Inter-A-
merican Development Bank in the 2005-2019
period (GALLAGHER; MYERS, 2020). Ano-
ther sample of the Chinese banks’ relevance is
shown by their increasing international per-
formance. In 2018, four Chinese commercial
banks were the largest in the world by volu-
me of assets: ICBC, China Construction Bank
(CCB), Agricultural Bank of China (ABC),
and BOC (HIRATUKA; DEOS, 2019).
Conclusion
In this article, we seek to highlight Chi-
nas increasing dependence on oil imports.
is dependence forced the country to adopt
a strategy of diversication of oil supply, see-
king to guarantee its energy security. e gro-
wth in Chinas demand for overseas oil sources
occurred at a time when Brazil is becoming an
oil-exporting nation, which made the country,
and the new assets in the pre-salt layer, become
part of Chinas energy security strategy.
One of the main aspects of NOCs acti-
vities in Brazil is the possibility to compete in
bidding rounds of new and highly productive
areas, something unusual in other parts of the
world where the access to oil reserves is limited
Table 2 Finance: Chinese energy-related loans to Brazil
Year Purpose Lender Borrower US$ billion
2007 GASENE pipeline CDB BNDES 0.75
2008 Coal plant CDB Government 0.35
2009 Pre-salt oil eld development CDB Petrobras 7
2014 Bilateral cooperation agreement CDB Petrobras 3
2015 Bilateral cooperation agreement CDB Petrobras 1.5
2015 Bilateral cooperation agreement CDB Petrobras 3.5
2015 Leasing of platforms P-52 and P-57 ICBC Petrobras 2
2016 Supply of equipment and services EximBank Petrobras 1
2016 Debt nancing CDB Petrobras 5
2017 Oil production CDB Petrobras 5
2018 Upgrade in renery infrastructure NDB Petrobras 0.2
Source: GALLAGHER; MYERS, 2020; PETROBRAS, 2020.
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to the State-owned companies of the host cou-
ntry. e new exploratory areas of the Brazilian
pre-salt have been enabling the participation of
Chinese NOCs in greeneld projects, not only
in what is left behind by the IOCs like in other
parts of the world. In other countries, the Chi-
nese NOCs are engaging with the international
oil companies (IOCs), but in Brazil, they choo-
se to operate alongside state-owned Petrobras
rather than engage with IOCs because of the
geological expertise and the recognized techno-
logical leadership in the oshore environment
of the Brazilian company.
In short, while China ensures its energy
security and Brazil transforms into a major oil
exporter, their relations through trade, invest-
ments, and nance are developing and beco-
ming increasingly relevant.
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28 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.28 - 38, mai. 2021
Inserção da celulose brasileira e de seus
principais concorrentes no mercado
internacional
Inserting the brazilian wood pulp and its main competitors in the international market
Insertando de celulosa brasileño y sus principales competidores en el mercado internacional
Mateus Monteiro Piedade Lyrio 1
Naisy Silva Soares 2
Lyvia Julienne Sousa Rêgo 3
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2021v18n1pX Recebido em: 26 de novembro de 2020
Aprovado em: 03 de julho de 2021
Resumo
O presente artigo teve como objetivo classicar a inserção do segmento brasileiro de celulose
no comércio internacional, entre 1970 e 2019, e de seus principais concorrentes mundiais:
Estados Unidos, China e Canadá. Vericou-se que o Brasil foi o único país que apresentou
alta eciência em todas as décadas analisadas.
Palavras-chaves: posicionamento; competitividade; setor de celulose e papel.
Abstract
is article aimed to classify the insertion of the Brazilian wood pulp segment in
international trade, between 1970 and 2019, and of its main global competitors: the
United States, China and Canada. It was found that Brazil was the only country that
showed high eciency in all the analyzed decades.
Keywords: positioning; competitiveness; wood pulp and paper sector.
Resumen
Este artículo tuvo como objetivo clasicar la inserción del segmento de celulosa brasileño en
el comercio internacional, entre 1970 y 2019, y de sus principales competidores globales:
Estados Unidos, China y Canadá. Se encontró que Brasil fue el único país que mostró alta
eciencia en todas las décadas analizadas.
Palabras Clave: posicionamiento; competitividad; sector de la celulosa y el papel.
1 Economista e mestrando em economia regional e políticas públicas na Universidade Estadual de Santa Cruz. E-mail: mateus_
monteiro123@hotmail.com. Orcid: 0000-0002-7589-8455
² Economista e doutora em Ciência Florestal. Professora doutora do departamento de ciências econômicas da Universidade Estadual
de Santa Cruz. E-mail: naisysilva@yahoo.com.br. Orcid: 0000-0001-6855-0218
³ Engenheira orestal e doutora em Ciência Florestal. Professora da Universidade Federal do Sul da Bahia. E-mail: lyviajulienne@
hotmail.com. Orcid: 0000-0001-7043-6860
Artigo
28 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte,
ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.28 - 38, mai. 2021
29 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.28 - 38, mai. 2021
Introdução
A produção de celulose tem se consolida-
do como um dos principais produtos da indús-
tria orestal. De acordo com Zaeyen (1986),
foram três os fatores que consolidaram as bases
da indústria de celulose e papel brasileira: (i) a
política de incentivos scais de 1966 (Lei nº
5.106), que, ao permitir a dedução de Impos-
to de Renda para investimentos em projetos de
reorestamento aprovados pelo Instituto Bra-
sileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF),
propiciou a expansão dos maciços orestais
de espécies exóticas no Brasil, especialmente
de pinus e eucalipto; (ii) a xação pelo Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico e
Social(BNDES), em 1968, de níveis mínimos
de escala de produção para projetos que dese-
jassem apoio nanceiro; e (iii) a xação pelo
Conselho de Desenvolvimento Econômico
(CDE), em 1972, de novos níveis mínimos de
escala de produção, os quais foram adotados
também pelo BNDES e resultaram no aumen-
to expressivo da produção brasileira e no início
das exportações.
Dentre os programas do governo federal
para o segmento de celulose e papel que se des-
tacaram, citam-se: Primeiro Programa Nacio-
nal de Papel e Celulose (I PNPC) e Segundo
Programa Nacional de Papel e Celulose (II
PNPC). O I PNPC foi criado em 1974 para
impulsionar o aprimoramento da tecnologia
orestal e alcançar a autossuciência tanto em
papel quanto em celulose, possibilitando a ge-
ração de excedentes exportáveis (JUVENAL;
MATTOS, 2002),to de celulose e papel (II de-
ral para o setor que se destacaram, citam-se .
Data de 1985, a criação do II PNPC com
principal objetivo de obter linhas de nancia-
mento de longo prazo do BNDES para viabi-
lizar um novo ciclo de investimentos (SOTO,
1992). Foi com o II Programa Nacional de
Desenvolvimento que foram ampliadas as ba-
ses para a indústria nacional de celulose, a m
de reduzir a dependência em relação a fontes
externas (JUVENAL; MATTOS, 2002).
Assim, até meados da década de 1950 cer-
ca de 70% da celulose necessária para a pro-
dução de papel ainda era importada. A partir
da década de 1960 o país passou a gerar exce-
dentes exportáveis, e na década seguinte o país
passou a obter saldos positivos na balança co-
mercial do setor de celulose (HILGEMBERG
e BACHA, 2000).
Em 2019, o Brasil passou a ser o segundo
maior produtor de celulose do mundo, pro-
duzindo 20.277 mil toneladas, cando atrás
apenas dos Estados Unidos, sendo que 74% da
produção nacional foi destinada ao comércio
internacional (FOODAND AGRICULTURE
ORGANIZATION - FAO, 2020; INDÚS-
TRIA BRASILEIRA DE ÁRVORES - IBA,
2019).
O crescimento das exportações brasilei-
ras de celulose está associado também ao efei-
to competitividade do segmento no comercio
internacional e o crescimento da produção é
resultado do investimento em tecnologia e pes-
quisa e do crescimento da demanda internacio-
nal (ROCHA e SOARES, 2014).
Observando os principais concorrentes do
Brasil na produção de celulose é possível obser-
var diferentes tendências. O setor de celulose
no Estados Unidos apresentou baixo cresci-
mento entre 2010 e 2019, em média a pro-
dução de celulose do país cresceu 0,645% ao
ano, enquanto que no Brasil cresceu em média
4,17% ao ano e no Canadá recuou em média
0,27% ao ano. Em 2019, os Estados Unidos
exportou US$ 5.596.710 mil, tendo uma re-
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tração de 6,04% em relação a 2018, o Canadá
exportou 6,06% menos em relação a 2018, ob-
tendo US$ 47.576,37 mil (FAO, 2020).
Em contraste aos países da América do
Norte, a produção de celulose na China vem
crescendo. Entre 2010 e 2019 a produção do
país cresceu em média 10,85% ao ano, uma taxa
de crescimento superior à evidenciada no Brasil
no mesmo período (4,17% ao ano). No comer-
cio internacional o país obteve US$ 122.693,00
mil em exportações de celulose (FAO, 2020).
O Brasil nos últimos anos tem mostrado
capacidade de competir em um nível cada vez
mais elevado, mesmo que não haja políticas
públicas destinadas ao setor. Entretanto, o ce-
nário externo nem sempre é favorável ao cres-
cimento da atividade produtiva. É necessário
realizar uma classicação especica levando em
consideração a participação do país no comer-
cio mundial do produto bem como a impor-
tância do produto para comércio mundial.
Diante disto, o presente trabalho tem
como objetivo classicar a inserção do segmen-
to brasileiro de celulose no comércio interna-
cional, de 1970 a 2019, e de seus principais
concorrentes no mercado mundial: Estados
Unidos, China e Canadá; e destacar o posicio-
namento e a eciência do segmento de celulose
para cada país no mercado internacional.
Métodos e dados
Para exercício de classicação utilizou-se a
metodologia de Fajnzylber e Mandeng (1991),
que analisaram a estrutura exportadora de países,
levando em consideração sua competitividade e
eciência no comércio internacional utilizando
como medida de competitividade a participa-
ção de determinado setor produtivo nas impor-
tações mundiais. E em termos de eciência os
autores ponderam a participação relativa de um
país nas vendas de determinado segmento pro-
dutivo (FAJNZYLBER E MANDENG, 1991).
As posições e as variações em termos de
competitividade e eciência na “matriz de com-
petitividade” conguram uma situação favorável
ou desfavorável, enquanto a variação de eciên-
cia de um país expressa alta ou baixa eciência
relativa (FAJNZYLBER E MANDENG, 1991;
SANTOS et al., 2016).
Assim, há quatro situações possíveis para
o posicionamento de um país: ótima, onde a
posição relativa do produto é favorável e o país
possui alta eciência; vulnerabilidade, onde o
país possui alta eciência relativa, mas a posi-
ção do produto é desfavorável; oportunidade
perdida, quando a posição do produto é favo-
rável mas o país possui baixa eciência relativa;
e em retrocesso, onde associada a uma posição
desfavorável do produto o país apresenta baixa
eciência relativa (Figura 1) (FAJNZYLBER,
MANDENG, 1991; SANTOS et. al., 2016).
Figura 1 – Matriz de competitividade
EFICIÊNCIA RELATIVA
DO PAÍS
RELATIVA POSIÇÃO DO PRODUTO
SITUAÇÃO DE
VULNERABILIDADE
SITUAÇÃO ÓTIMA
SITUAÇÃO DE
RETROCESSO
SITUAÇÃO DE
OPORTUNIDADES
PERDIDAS
DESFÁ VORA VEL
FA VO VEL
ALTA
BAIXA
Fonte: Fajnzylber e Mandeng (1991)
Segundo Carvalho e Silva (2005) a posição
relativa do produto é expressa por si, e refere-se à
participação das importações mundiais produto,
aqui a celulose , nas importações mundiais:
31 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.28 - 38, mai. 2021
Uma variação positiva ou igual a zero em
representa um aumento ou manutenção da par-
ticipação da celulose nas importações mundiais,
congurando uma posição favorável. Uma va-
riação negativa reete um posicionamento des-
favorável em virtude da perda de participação
no comércio internacional.
A eciência para Carvalho e Silva (2005)
é expressa por , e signica a participação relati-
va das exportações de determinado produto de
um dado país nas vendas mundiais do produ-
to. Para celulose tem-se:
Uma variação positiva ou igual a zero
de reete um ganho de competitividade no
mercado internacional da celulose. Caso ocor-
ra uma variação negativa no o país teve uma
baixa eciência na comercialização da celulose.
Tal metodologia avalia a inserção de de-
terminado país no mercado internacional num
certo instante no tempo, captando modica-
ções em curto prazo e explicando determinadas
tendências do segmento do país. As variações
observadas indicam ganhos ou perdas de merca-
dos, que ocorrem simultaneamente com modi-
cações nas tendências mundiais de demanda e
oferta por determinado produto (PENA, 2004).
Os dados foram obtidos por meio da base de
dados FAOSTAT disponibilizada pela Food and
Agriculture Organization e na Organização Mun-
dial do Comércio (OMC). O período de análise
foi 1970 a 2019 (FAO, 2020; OMC, 2020).
A análise dos resultados foi realizada por
décadas para vericar a evolução de uma década
para outra no comércio internacional da celulose.
Assim, os valores de si e sij foram estimados para
cada ano e, posteriormente, foi feita uma média
desses indicadores para cada década. Em segui-
da, foi estimada a variação desses indicadores de
uma década para outra. Os resultados apresenta-
dos sobre a variação dos indicadores iniciam-se a
partir da década de 1970, pois as estimativas do
si e sij iniciam-se em 1960, devido à indisponibi-
lidade de dados de períodos anteriores.
Buscou-se realizar a classicação dos qua-
tro maiores produtores e exportadores mun-
diais de celulose nos últimos anos, sendo res-
pectivamente Estados Unidos, Brasil, China e
Canadá, conforme FAO (2020).
Resultados e discussão
O segmento mundial de celulose vem
apresentando uma trajetória ascendente desde
a década de 1960, com um crescimento médio
anual de 2,01% ao ano (Figura 2).
Figura 2 – Produção mundial de celulose entre 1961 e 2019.
Fonte: Elaboração própria a partir de dados da FAO (2020).
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Foi possível observar diferentes tendências
produtivas do segmento em cada país. A parti-
cipação dos Estados Unidos e Canadá na pro-
dução mundial de celulose diminuíram ao lon-
go dos anos, enquanto a participação de países
como Brasil e China cresceu (Figura 3).
O Brasil a partir de 2015 passou a ter
maior peso na produção total mundial de celu-
lose superando o Canadá. A China segue apre-
sentando uma tendência semelhante e tende a
também superar o Canadá nos próximos anos.
Na década de 2010 a produção de celulose na
China cresceu em média 4,60% ao ano, en-
quanto o Canadá tem apresentado um decres-
cimento de 1,17% ao ano (Tabela 3).
Figura 3 – Participação percentual dos Estados Unidos, Canadá, Brasil e China na produção
mundial total de celulose, entre 1961 e 2019.
Fonte: Elaboração própria a partir de dados da FAO (2020).
Em 1970 as importações de celulose re-
presentaram, aproximadamente, 0,80% das
importações mundiais, mostrando que a celu-
lose havia ganhado notoriedade no comércio
internacional. Porém, desde a década de 1970
a participação da celulose nas importações
mundiais vem apresentando uma trajetória,
que embora apresente oscilações, expressa uma
nítida tendência de queda (Figura 4). A parti-
cipação da celulose no comércio internacional
vem diminuindo ao longo dos anos.
Figura 4 – Participação percentual das importações de celulose nas importações mundiais
entre 1961 e 2019.
Fonte: Elaboração própria a partir de dados da OMC (2020) e FAO (2020).
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A década de 1970 representou o período
de maior participação da celulose no comercio
internacional, em média as importações de ce-
lulose nessa década corresponderam a 0,59%
das importações mundiais. Essa participação
da celulose no comercio internacional dimi-
nuiu nas décadas seguintes chegando na déca-
da de 2010 a representar em média 0,23% das
importações mundiais (Figura 4). Isso pode ser
explicado pelo crescimento da produção nos
principais países consumidores mundiais, bem
como pelas barreiras comerciais.
Sobre o posicionamento, eciência e situa-
ção do Brasil e de seus principais concorrentes
no comércio internacional de celulose, de 1960 a
2019, por década, estes se encontram na Tabela 1.
Tabela 1 – Posicionamento, eficiência e situação do Brasil e de seus principais concorrentes
no comércio internacional de celulose de 1970 a 2019, por década.
Década Itens Brasil Estados Unidos Canadá China
1970
∆Si médio 0,289 0,289 0,289 0,289
Posicionamento Favorável Favorável Favorável Favorável
∆Sij médio 0,01 -0,06 0,10 0,0014
Eciência Alta Baixa Alta Alta
Situação Ótima Oportunidades
Perdidas Ótima Ótima
1980
∆Si médio -0,123 -0,123 -0,123 -0,123
Posicionamento Desfavorável Desfavorável Desfavorável Desfavorável
∆Sij médio 0,03 0,03 -0,004 0,001
Eciência Alta Alta Baixa Alta
Situação Vulnerabilidade Vulnerabilidade Retrocesso Vulnerabilidade
1990
∆Si médio -0,115 -0,115 -0,115 -0,115
Posicionamento Desfavorável Desfavorável Desfavorável Desfavorável
∆Sij médio 0,02 0,01 -0,02 -0,0004
Eciência Alta Alta Baixa Baixa
Situação Vulnerabilidade Vulnerabilidade Retrocesso Retrocesso
2000
∆Si médio -0,115 -0,115 -0,115 -0,115
Posicionamento Desfavorável Desfavorável Desfavorável Desfavorável
∆Sij médio 0,04 -0,04 -0,06 -0,0012
Eciência Alta Baixa Baixa Baixa
Situação Vulnerabilidade Retrocesso Retrocesso Retrocesso
2010
∆Si médio -0,016 -0,016 -0,016 -0,016
Posicionamento Desfavorável Desfavorável Desfavorável Desfavorável
∆Sij médio 0,05 0,00 -0,07 0,0007
Eciência Alta Alta Baixa Alta
Situação Vulnerabilidade Vulnerabilidade Retrocesso Vulnerabilidade
Fonte: Resultados da Pesquisa.
34 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.28 - 38, mai. 2021
Na década de 1970, Brasil, Estados Uni-
dos, Canadá e China estavam em uma posição
favorável no comércio internacional da celulo-
se. Esses países apresentaram alta eciência nes-
sa década e se enquadraram em uma situação
ótima no comércio internacional da celulose,
exceto os Estados Unidos que apresentou bai-
xa eciência se enquadrando numa situação de
oportunidade perdida (Tabela 1).
O bom desempenho do Brasil no co-
mércio internacional da celulose na década de
1970 caracterizando uma situação ótima, pode
estar associado às políticas públicas destinadas
ao segmento orestal e de celulose como a polí-
tica de incentivos scais ao reorestamento que
vigorou de 1966 a 1988, ao aproveitamento
de novas espécies orestais e ao uso da celulose
de bra curta de forma integral na produção
de papel. Destacando que na década de 1970
o governo brasileiro implementou o I Progra-
ma Nacional de Papel e Celulose que buscou a
auto suciência produtiva do setor e a geração
de excedentes exportáveis, ainda havia o incen-
tivo as plantas produtivas que apresentassem
condições favoráveis para participar no comér-
cio internacional (BNDES, 1991; HILGEM-
BERG e BACHA, 2000; ANTONANGELO
E BACHA, 1998; SOTO, 1992).
A alta eciência e a situação favorável do
Canadá no comércio internacional da celulose
resultando numa situação ótima, pode ser re-
sultado de mudanças no segmento de celulose
do país a partir da Segunda Guerra Mundial
onde houve o crescimento da fabricação quí-
mica da celulose possibilitando o uso de ou-
tras espécies orestais na produção de celulose.
Além da diversicação da produção e do mer-
cado, impulsionada, especialmente, pelo cres-
cimento da demanda por celulose por parte da
Europa e da Ásia (BOGDANSKI, 2014).
Embora a China tenha apresentado alta
eciência, posicionamento favorável e situação
ótima no comércio internacional da celulose
na década de 1970, o segmento possuía como
característica a produção em maior quantida-
de de celulose provenientes de insumos não
lenhosos como bamboo, cana e palha de ar-
roz, baixa escala produtiva e baixa tecnologia
de processamento. Contudo, por um fator es-
trutural do país, a partir do nal da década de
1970 a China passa a ter maior participação
no comércio internacional. Em meados da dé-
cada o país passou por reformas na economia,
um processo de modernização na indústria e
agricultura, maior interesse em investimentos
estrangeiros e crescimento da participação no
comércio exterior o que pode está explicando o
bom desempenho da China no comércio inter-
nacional da celulose (LI, LOU E MCCARTY,
2002; ZHUANG, DING E LI, 2005; AN-
DRADE, NARETTO E LEITE, 2015).
Os Estados Unidos, por sua vez, foi o úni-
co país que apresentou uma situação de opor-
tunidades perdidas, na década de 1970 (Tabela
1). Nesse período, o volume de celulose expor-
tado pelo país caiu. Em 1979 a produção de
celulose do país foi de 45.318 mil toneladas,
21,44% maior do que 1970, mas o volume
exportado no ano de 1979 foi de 2.624,4 mil
toneladas, 6,55% menor em relação ao início
da década (INCE et. al., 2001; FAO, 2020).
Isso pode ser devido a produtividade orestal
nos Estados Unidos ser menor e o tempo de
produção maior que em países como o Brasil
(SOARES, 2010).
Na década de 1980, o posicionamento da
celulose passou a ser desfavorável no comércio
internacional para os países em análise. Nessa
década o Estados Unidos apresentou alta e-
ciência na produção de celulose, assim como
35 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.28 - 38, mai. 2021
Brasil e China. Esses três países se enquadraram
em uma situação de vulnerabilidade. O Canadá
apresentou baixa eciência produtiva, apresen-
tando uma situação de retrocesso (Tabela 1).
Embora a celulose tenha apresentado me-
nor participação no comércio internacional o
segmento no Brasil estava em ascensão, apresen-
tando maquinário compatível a tecnologia em-
pregada no mundo e com maior integração ao
segmento orestal. Nessa década a indústria ain-
da contou com a implementação do II Progra-
ma Nacional de Papel e Celulose que propiciou
um novo ciclo de investimento ao setor (SOTO,
1992; BNDES, 1991; HILGEMBERG E BA-
CHA, 2000). Esses fatores podem estar expli-
cando a alta eciência brasileira no comércio
internacional de celulose na década de 1980.
A China, embora ainda produzisse celulo-
se em maior parte proveniente de materiais não
lenhosos, ainda era favorecida pela ascensão eco-
nômica e maior inserção no comércio interna-
cional. A China possuía uma grande demanda
interna por celulose, em 1989 o país produziu
2.077 mil toneladas de celulose, volume 54,6%
maior em relação 1980, sendo 96% consumida
no mercado interno. As exportações de celulose
da China cresceram ao longo da década 1980
e em 1989 o país exportou 83 mil toneladas
de celulose, cerca de 4% da produção nacional,
obtendo US$ 59,94 mil em exportações. Esse
volume exportado foi 276,67% maior em rela-
ção a 1980 (FAO,2020).
As exportações de celulose do Estados
Unidos seguiram uma trajetória ascendente ao
longo da década de 1980. Em 1989, o país des-
tinou 10% da sua produção nacional ao mer-
cado internacional, isto é US$ 3.520,71 mil.
Reexo da expansão produtiva evidenciada en-
tre 1970 e 1980, período onde a capacidade
produtiva dos setores de papel e celulose teve
crescimento a uma taxa de 2,4% ao ano (INCE
et. al., 2001).
O Canadá apresentou uma situação de
retrocesso inuenciado por um processo de es-
tagnação do segmento de papel entre meados
da década de 1970 e 1980. O efeito é sentido
a partir de uma queda das exportações de celu-
lose para o Estados Unidos e também pelo uso
de papel reciclado para produção de papel na
indústria (BOGDANSKI, 2014).
Na década de 1990 todos os países em
análise apresentaram posicionamento desfa-
vorável no comércio internacional da celulose.
Porém, Brasil e Estados Unidos apresentaram
alta eciência produtiva e estiveram em uma
situação de vulnerabilidade desfavorável no
comércio internacional da celulose. Enquanto
Canadá e China apresentaram baixa produtivi-
dade e uma situação de retrocesso desfavorável
no comércio internacional da commodity (Ta-
bela 1).
Nesse período o volume de exportação do
Brasil cresceu expressivamente, em 1999 o país
exportou 1.033,4 mil toneladas de celulose,
um crescimento de 301% em relação a 1990.
O segmento ainda contava com o apoio do II
Programa Nacional de Papel e Celulose. Em
1990 cerca de 24% da produção nacional foi
exportada, em 1999 esse percentual passou a
ser de 43,7% (FAO, 2020), o que pode estar
explicando a situação do país no comércio in-
ternacional da celulose nessa época.
O Estados Unidos manteve a competiti-
vidade no comércio internacional de celulose,
que foi impulsionada muito mais pela alta do
preço a partir da segunda metade da década do
que pelo volume comercializado. O país apre-
sentava um mercado pulverizado, atendia cerca
de 100 países, sendo o principal destino a Eu-
ropa e Ásia (USITC, 2002).
36 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.28 - 38, mai. 2021
A situação de retrocesso do Canadá pode
estar associada a maior comercialização de bra
reciclada e da celulose química. O país teve au-
mento no volume exportado ao longo da década,
em 1999 foram 11.649 mil toneladas de celulo-
se exportadas, 47,8% superior a 1990, renden-
do US$ 5.018,15 mil, valor 4,12% inferior a
1990 (BOGDANSKI, 2014; FAO, 2020).
A China passou a perder competitividade
em virtude da baixa qualidade de sua celulose ain-
da em grande parte produzida por material não
lenhoso que prejudicavam o país no comércio
internacional da celulose. A falta de insumos o-
restais é um dos principais fatores para produção
de produtos de menor qualidade no país, isso afe-
tava inclusive a indústria de papel, que passou a
demandar maior volume de celulose no mercado
internacional (ZHUANG, DING E LI, 2005).
Nas duas primeiras décadas do século XXI
a celulose apresentou um posicionamento des-
favorável no comércio internacional da celulose
para todos os países considerados na análise. De
2000 a 2009, apenas o Brasil apresentou alta
eciência no comércio internacional da celulo-
se e os seus principais concorrentes no comér-
cio internacional apresentaram baixa eciência.
Assim, o Brasil encontrou-se numa situação de
vulnerabilidade e os seus concorrentes em si-
tuação de retrocesso nesse comércio (Tabela 1).
No caso brasileiro, ao longo da década, em
média, 51,27% da produção anual da celulose foi
destinada ao comercio internacional. O segmen-
to deixou de ter apoio direto de políticas públicas,
mas passou a ter apoio do Programa Nacional de
Florestas que possui como instrumento a criação
de linhas de crédito para a atividade orestal no
país. A competitividade do segmento está atre-
lada a capacidade de investimento das empresas
do segmento em tecnologia e pesquisa (BRASIL,
2000; FAO, 2020; ROCHA E SOARES, 2014).
Os Estados Unidos, China e Canadá apre-
sentaram baixa eciência e se enquadraram em
uma situação de retrocesso. No caso dos Esta-
dos Unidos uma justicativa se dá pela desace-
leração do segmento de papel, papelão e celulo-
se. A taxa de crescimento anual da capacidade
produtiva americana da celulose reduziu de
2,4% entre 1970 e 1980 para 1,9% entre 1990
e 2000. A capacidade reduzida do segmento e a
força da moeda no comércio internacional in-
uenciaram as exportações do país. No nal da
década o país ainda foi inuenciado pela forte
recessão entre 2007 e 2009 (INCE et al, 2001;
BOGDANSKI, 2014).
A China apresentava limitações em termos
de produtividade, o que resultou na intervenção
estatal no processo de reorestamento como
uma alternativa a produção de celulose. Entre-
tanto, os subsídios diretos e indiretos por parte
do governo podem resultar na competitividade
das empresas (BARR e COSSALTER, 2004).
A situação de retrocesso do Canadá pode
ser devido à recessão global entre 2007 e 2009,
mas também a mudanças no consumo de pa-
pel na América do Norte, especialmente na de-
manda de papéis grácos em virtude do cresci-
mento da concorrência da mídia digital, pelas
ações de conservação de papel e alterações nos
hábitos de leitura (BOGDANSKI, 2014).
De 2010 a 2019, o Brasil e seus principais
concorrentes no mercado internacional da ce-
lulose apresentaram posicionamento desfavo-
rável no comércio internacional deste segmen-
to. Por outro lado, o Brasil, Estados Unidos e
China apresentaram alta eciência e estiveram
em uma situação de vulnerabilidade. Já o Ca-
nadá apresentou baixa eciência e situação de
retrocesso (Tabela 1). O segmento da celulose
no Brasil conseguiu manter sua competitivi-
dade em virtude dos investimentos privados
37 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.28 - 38, mai. 2021
em pesquisa e tecnologia, praticamente não
contando com apoio estatal nessa área. O país
atingiu o patamar de maior exportador do pro-
duto apoiado em investimentos em tecnologia
e pesquisa que buscam o aumento de produ-
tividade e considerável aumento da comercia-
lização para países como a China (SOARES,
2014; FAO, 2020).
No caso do Estados Unidos a alta eciên-
cia pode ser associada a reorganização do seg-
mento produtivo no país atendendo a deman-
da interna e tornando-se mais ativa no cenário
internacional. Enquanto na China pode ser
pelo fomento do plantio em larga escala de es-
pécies orestais como o eucalipto por parte das
empresas e pelo próprio governo nacional que
buscava reduzir o décit proporcionado pela
importação de celulose pelo segmento de papel
ainda na década anterior. O segmento também
foi favorecido pelo crescimento econômico
vivenciado pelo país ao longo de toda década
(BARR E COSSALTER, 2004; MORRISON,
2019).
O Canadá foi o único país nessa década a
apresentar baixa eciência e se enquadrou em
uma situação de retrocesso. Essa situação se dá
pela dependência que se tinha do mercado do
Estados Unidos que continuou a demandar
menor quantidade do produto canadense ao
longo da década. O segmento ainda sentia os
efeitos negativos da crise do nal da década an-
terior (BOGDANSKI, 2014).
Considerações finais
Com base nos resultados obtidos, eviden-
ciou-se que o Brasil, Estados Unidos, China e
Canadá apresentam classicações distintas no
comércio internacional da celulose ao longo
das décadas analisadas.
Vericou-se que o Brasil foi o único país
que apresentou alta eciência em todas as déca-
das analisadas e que apenas na década de 1970
o Brasil e seus principais concorrentes no co-
mércio internacional da celulose apresentaram
posicionamento favorável.
Em outras palavras, o Brasil foi o único
país dentre os analisados que apresentou ganho
de competitividade no mercado internacional
da celulose em todo o período considerado. Es-
tados Unidos, Canadá e China apresentaram-
-se competitivos em alguns períodos.
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W20 em Riade: empoderamento
econômico de mulheres na cúpula de
2020
W20 in Riyadh: economic empowerment of women at the 2020 summit
W20 en Riad: empoderamiento económico de las mujeres en la cumbre de 2020
Bárbara Lopes Campos1
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2021v18n1pX Recebido em: 25 de janeiro de 2021
Aprovado em: 03 de julho de 2021
Resumo
A análise de conjuntura aborda a atuação do grupo de trabalho W20, dedicado
à promoção da igualdade de gênero, durante a cúpula de Riade. A agenda de
empoderamento econômico foi estudada a partir das recomendações elaboradas durante a
pandemia da COVID-19, e dos avanços e retrocessos no âmbito do G20.
Palavras-chave: Igualdade de gênero. G20. W20.
Abstract
e analysis addresses the work of the W20 working group, dedicated to promoting gender
equality, during the Riyadh summit. e economic empowerment agenda was studied
based on the recommendations made during the COVID-19 pandemic, and on the
advances and setbacks within the G20’s scope.
Key words: Gender equality. G20. W20.
Resumen
El análisis de coyuntura aborda el trabajo del grupo de trabajo W20, dedicado a
promover la igualdad de género, durante la cumbre de Riad. Se estudió la agenda de
empoderamiento económico a partir de las recomendaciones desarrolladas durante la
pandemia COVID-19, y los avances y retrocesos en el ámbito del G20.
Palabras clave: Igualdad de género. G20. W20.
1 Doutora em Ciência Política pela UFMG. Mestre em Relações Internacionais pela PUC Minas. E-mail: barbara.angove@gmail.
com
Artigo
39 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte,
ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.39 - 44, mai. 2021
40 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.39 - 44, mai. 2021
Introdução
O grupo de trabalho do G20 dedicado à pro-
moção da igualdade de gênero, o W20 (Women20),
completou na última cúpula de Riade o seu quinto
aniversário. Desde a sua criação em 2015, durante
a cúpula de Istambul, o grupo tem ganhado im-
portância como o órgão que impulsiona as pautas
relacionadas ao empoderamento econômico das
mulheres, sempre em associação com outros gru-
pos de trabalho, como o L20 (Trabalho), o C20
(Civil) e o B20 (Empresarial). O W20 tem pro-
duzido impactos nas declarações dos líderes e nos
comunicados ociais do G20 nos últimos anos, ao
recomendar metas para o aumento da participação
das mulheres no mercado de trabalho, medidas
para incentivar empresas e negócios liderados por
mulheres e para estimular a inclusão digital de me-
ninas e mulheres – dentre outras pautas.
A cúpula de Riade de 2020 ocorreu sob a
presidência saudita, que estabeleceu um programa
ambicioso em torno de três objetivos: salvaguar-
dar o planeta, traçar novas fronteiras e empoderar
pessoas. Nesse contexto, é interessante analisar
os possíveis avanços promovidos na agenda do
W20, seja por representar o seu quinto ano de
trabalho; seja pela sua realização na capital saudi-
ta. Apesar de possuir um histórico de relações de
gênero desiguais e regidas pelas práticas da tutela
(AL-RASHEED, 2013; MEIJER, 2010), desde
2016 a Arábia Saudita tem sido palco de mudan-
ças importantes – como a criação do Conselho
de Assuntos Familiares2, que aceleraram reformas
em direção a conquistas de direitos das mulheres
no país (WATSON-LYNN, 2020).
2 A inclusão de comitês técnicos nos conselhos facilitou mais
de vinte mudanças legislativas, que têm garantido mais li-
berdade para as mulheres sauditas, como o direito a dirigir,
a ter acesso a passaporte e a outros documentos, a solicitar
o divórcio, e à eliminação de restrições, como no modo de
se vestir em lugares públicos e de frequentar determinados
espaços (WATSON-LYNN, 2020).
Apesar do engajamento do W20 e da atua-
ção do grupo de trabalho como uma ponte en-
tre o G20 e a agenda internacional de gênero3,
se tem observado limites nas últimas cúpulas
em relação à capacidade do W20 de imputar
compromissos objetivos por parte dos países
membros (MOODY, 2015; KULIK, 2015; VÁ-
ZQUEZ, 2019). A meta mais audaciosa assumi-
da pelo G20, até então, em relação à igualdade
econômica de gênero, foi divulgada na cúpula
de Brisbane, de 2014, e estabelece o objetivo de
se reduzir o gap entre a participação masculina e
feminina no mercado de trabalho em 25% até
2025 (KULIK, 2015). Porém, após cinco anos
de atuação do W20, a meta permanece sem es-
tratégias e comprometimentos claros para ser al-
cançada por parte dos países membros.
Ademais, a cúpula de Riade acabou sendo
interceptada pela pandemia da COVID-19, que
direcionou a agenda da organização e eviden-
ciou outras camadas sobrepostas de desigual-
dade de gênero ao redor do mundo. Tendo em
vista essa conjuntura, o artigo pretende analisar
os avanços e limites da agenda da promoção da
igualdade de gênero no âmbito do W20, tendo
em vista os seus desdobramentos em 2020.
A agenda de empoderamento
econômico no contexto da
COVID-19
A cúpula de Riade, assim como toda a
agenda política de 2020, teve como ponto focal
a pandemia da COVID-19. O cenário mundial
demandou resiliência política, social e econô-
3 Incentivando o grupo a implementar a agenda das Nações
Unidas para 2030, com foco especial na implementação do
ODS 5 (Igualdade de Gênero); bem como da Declaração e
Plataforma de Pequim, levando em consideração os Prin-
cípios da CEDAW e os Princípios de Empoderamento das
Mulheres.
41 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.39 - 44, mai. 2021
mica. Enquanto a organização se ocupou com
as discussões que tratavam das medidas emer-
genciais para o combate ao novo coronavírus e
das medidas necessárias para o aquecimento da
economia no mundo pós-pandêmico, o W20 se
esforçou para evidenciar o aprofundamento das
desigualdades de gênero em meio à pandemia,
para estabelecer objetivos que pudessem ameni-
zar essas disparidades, e para recomendar medi-
das-chave em torno das estratégias de recupera-
ção econômica e de crescimento a longo prazo.
Como fruto da cúpula emergencial, em
março de 2020, o W20, em conjunto com o
B20 e o L20, ecoaram o compromisso estabele-
cido pelos líderes do G20 de:
fazer o que for preciso e usar todas as ferramen-
tas políticas disponíveis para minimizar os da-
nos econômicos e sociais da pandemia, restau-
rar o crescimento global, manter a estabilidade
do mercado e fortalecer a resiliência [e] pedir à
Organização Internacional do Trabalho (OIT)
e à Organização para Cooperação e Desenvol-
vimento Econômico (OCDE) para monitorar
o impacto da pandemia sobre o emprego (B20;
L20; W20, 2020, p. 1, tradução nossa4).
Reconhecendo que a pandemia impactaria
toda a economia mundial, os grupos enfatizaram
a dimensão das relações de trabalho, que seria
afetada de três formas fundamentais: no número
de vagas de trabalho disponíveis; na qualidade
do trabalho; e no efeito sofrido por grupos espe-
cícos, que estariam mais vulneráveis ao cenário
adverso de desemprego e insegurança – em espe-
cial as mulheres5 (B20; L20; W20, 2020).
4 To do whatever it takes and to use all available policy tools
to minimize the economic and social damage from the pan-
demic, restore global growth, maintain market stability, and
strengthen resilience”, and to “ask the International Labor
Organization (ILO) and the Organization for Economic
Cooperation and Development (OECD) to monitor the
pandemic’s impact on employment.
5 Segundo dados da Secretaria de Estatísticas Trabalhistas
dos Estados Unidos (2020), por exemplo, em dezembro de
2020 o país perdeu mais de 140.000 empregos, sendo que
todos eles eram ocupados por mulheres. Ainda, as mulheres
Além disso, essa vulnerabilidade ca evi-
dente na composição da “linha de frente contra a
COVID”, uma vez que as mulheres representam
70% dos trabalhadores do setor de saúde e de
assistência social a nível global. Dessa forma, os
grupos de trabalho ressaltaram a necessidade de
incorporar medidas para a proteção econômica
das mulheres, garantido o acesso a auxílios e be-
nefícios; assim como para a segurança das mulhe-
res na linha de frente, como estratégia, inclusive,
de garantir acesso a serviços de saúde de quali-
dade para a população (B20; L20; W20, 2020).
Já na declaração ocial do W20 durante
a cúpula de Riade, o grupo armou que as es-
tratégias do G20 de recuperação econômica de-
veriam pavimentar o caminho para uma cons-
trução igualitária, na qual as mulheres seriam
reconhecidas como atoras centrais, e que fazem
parte da solução da crise enfrentada mundial-
mente. À vista disso, o W20 recomendou oito
medidas-chave para apoiar as estratégias de recu-
peração econômica: 1) assegurar a igualdade de
representação nas instâncias de tomada de deci-
são pública e privada; 2) adotar orçamentos com
perspectiva de gênero embasados em avaliações
de impacto; 3) aumentar signicativamente o
investimento em infraestrutura social para gerar
empregos e resiliência; 4) implementar mecanis-
mos de proteção social e de renda para o empre-
go informal; 5) desenvolver e nanciar planos
de ação para estimular a participação das mu-
lheres no empreendedorismo e nos ecossistemas
de inovação; 6) aumentar o acesso de mulheres
e meninas à tecnologia digital; 7) aumentar o
acesso das mulheres a serviços nanceiros; 8)
nanciar a pesquisa de dados desagregados por
sexo no curso da pandemia (W20, 2020).
perderam 5,4 milhões de empregos ao longo de 2020 no
país; enquanto os homens perderam aproximadamente 4,4
milhões de empregos.
42 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.39 - 44, mai. 2021
Além disso, tendo em vista a oportunidade
de incentivar a adoção de estratégias de cresci-
mento econômico mais equitativas no contexto
pós-pandemia, o W20 recomendou medidas-
-chave para a promoção do empoderamento eco-
nômico de mulheres a longo prazo. O conjunto
de vinte e duas medidas foram apresentadas a
partir de sete eixos que complementam e expan-
dem as recomendações emergências em torno de:
1) reformas legais e sociais; 2) tomada de decisão
inclusiva; 3) inclusão equitativa no mercado de
trabalho; 4) inclusão nanceira; 5) inclusão digi-
tal; 6) empreendedorismo feminino; e 7) presta-
ção de contas do G20 (W20, 2020).
Portanto, o W20 reforça as suas principais
pautas dos últimos cinco anos, enfatizando a
necessidade de se assumir uma lente de gêne-
ro para pensar estratégias de crescimento e de-
senvolvimento econômico, que têm na inclu-
são das mulheres no mercado de trabalho – a
partir da inclusão digital, nanceira, política e
social – um dos seus principais potenciais para
geração de renda e crescimento sustentável. O
grupo arma e clama pela liderança do G20 na
incorporação dessa agenda tanto nas medidas
de cunho emergencial, no contexto da crise
econômica global atual, quanto na perspectiva
de construções equitativas a longo prazo.
Limites e avanços da agenda
no âmbito do G20
Apesar dos esforços do W20 em exortar os
líderes do G20 a honrarem e agirem de acordo
com os compromissos assumidos nas cúpulas
anteriores, a m de se promover a igualdade
de gênero (W20, 2020), muitas das pautas que
guiam a agenda sobre o tema na organização
permaneceram paralisadas na cúpula de 2020.
Em especial, a meta de Brisbane, assumida na
cúpula de 2014, que estabelece o compromis-
so 25x25, segue sem medidas para estimular o
seu cumprimento. Sem a criação de planos na-
cionais e sem estratégias claras para acelerar o
ritmo de implementação da meta, dicilmente
será possível reduzir o gap de participação femi-
nina no mercado de trabalho em 25% até 2025
(W20, 2020; PREYMA, 2020).
A Declaração dos Líderes de 2020, que
sintetiza a agenda e os compromissos assumi-
dos na cúpula de Riade, ainda que sinalize para
a continuidade da promoção da igualdade de
gênero e de esforços para remover as barreiras
à participação econômica e ao empreendedo-
rismo das mulheres, não se compromete como
nenhuma medida concreta. A única iniciativa a
ganhar destaque na declaração foi a Aliança para
o Empoderamento e Progressão da Representa-
ção Econômica das Mulheres (EMPOWER),
que diz respeito a alianças do setor privado para
estimular a presença feminina em posições de
liderança e que realizou o seu primeiro encon-
tro durante a presidência saudita. Além disso, o
B20, em colaboração com o W20, criou o Con-
selho de Ação da Mulher Empresarial, com a
intenção de contribuir para a promoção da par-
ticipação das mulheres no mercado de trabalho
e a sua representação em cargos de liderança
(PREYMA, 2020; G20, 2020).
Já iniciativas que, anteriormente, foram
acompanhadas de ações concretas por parte das
lideranças políticas do G20, estimulando a cria-
ção de emprego, geração de renda e crescimento
econômico, como a Iniciativa Financeira para
Mulheres Empresárias (We-Fi) e a Iniciativa de
Inclusão e Educação Digital (#eSkills4Girls),
não ganharam destaque. De modo que o diálo-
go com o W20 parece ter sido menos intenso do
que em cúpulas anteriores, como a de Hambur-
go, em 2017, ou a de Buenos Aires, em 2018.
43 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.39 - 44, mai. 2021
Por outro lado, reconhecendo que as mu-
lheres são desproporcionalmente afetadas pela
pandemia da COVID-19 em termos de empre-
go, renda e como provedoras de saúde e cuidado,
os líderes do G20 se prometeram a elaborar, até
meados de 2021, regras para a tributação justa
da economia digital em expansão, e a oferecer
estratégias para lidar com a crescente segrega-
ção digital como consequência das políticas de
distanciamento social e lockdown (KIRTON,
2020). O entendimento de que a exclusão digi-
tal de mulheres impacta a saúde, a educação e a
sua participação no mercado de trabalho é um
passo importante para fortalecer ações existen-
tes e para a criação de novas estratégicas para a
promoção da igualdade econômica de gênero.
Assim, apesar do G20 ter ecoado im-
portantes discussões realizados no âmbito do
W20 – como em relação ao aprofundamento
de desigualdades de gênero como decorrência
da pandemia, à necessidade de se promover o
empoderamento econômico de mulheres como
forma de angariar recuperação econômica e à im-
portância da promoção da inclusão digital – as
recomendações, metas e ações propostas nos do-
cumentos do W20 não foram incluídas na decla-
ração ocial dos líderes. A limitação em assumir
compromissos objetivos mais uma vez esvaece a
potencial do grupo de liderar a governança global
da promoção da igualdade econômica de gênero.
Considerações finais
O W20 conseguiu pautar, nos últimos cin-
co anos, uma agenda para a promoção da igual-
dade econômica de gênero no âmbito do G20.
Em consonância com a ONU, com o Fórum
Econômico Mundial e com o Banco Mundial,
o G20 assumiu o empoderamento econômico
de mulheres como sendo um fator essencial
para a superação da desigualdade, da pobreza
e para a promoção do desenvolvimento susten-
tável. Em meio à pandemia da COVID-19, as
disparidades de gênero foram encaradas, mais
uma vez, como um problema que precisa ser
abordado por meio de estratégias para a inclu-
são nanceira, digital e pela maior participação
de mulheres nas instâncias de poder e decisão,
na direção de superar essas barreiras sistêmicas.
Os limites, portanto, não parecem ser fru-
to de uma falta de coerência dos discursos em
torno da agenda para o empoderamento eco-
nômico de mulheres, mas sim de uma paralisia
de ações, estratégias e mecanismos para presta-
ção de contas por parte da organização. Mais
urgentemente, está posto o desao para a pre-
sidência italiana, que terá a missão de facilitar
o estabelecimento de ações para a implemen-
tação o acompanhamento da meta 25x25 de
Brisbane, durante a cúpula de Roma de 2021.
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45 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.45 - 49, mai. 2021
O BRICS reset num mundo multipolar?
El BRICS reset en un mundo multipolar?
e BRICS reset in a multipolar world?
Javier A. Vadell1
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2021v18n1pX Recebido em: 06 de outubro de 2021
Aprovado em: 11 de outubro de 2021
Resumo
O objetivo desse artigo é analisar a relevância dos BRIC no contexto da 13ª cúpula soba
presidência pró-tempore da Índia que aconteceu virtualmente em setembro de 2021. O
texto avalia as perspectivas de um possível reinício da formação política BRICS frente às
expectativas da próxima cúpula a ser realizada na China em 2022
Palavras-chave: BRICS, Multipolaridade, Brasil, China, Índia, Rússia, Africa do Sul
Abstract
e objective of this article is to analyze the relevance of the BRICS in the context of the 13th
summit under the pro-tempore presidency of India that took place virtually in September
2021. e text evaluates the prospects for a possible BRICS reset as a political formation
taking into account the expectations of the next summit to be held in China in 2022
Key words: BRICS, Multipolarity, Brazil, China, India, Russia, South Africa
Resumen
El objetivo en este artículo es analizar la relevancia de los BRICS en el contexto de la 13º
cumbre bajo la presidencia pró-tempore de India que se desarrolló virtualmente en setiembre
de 2021. El texto evalúa las perspectivas de un posible reinicio de la formación política
BRICS de cara a las expectativas de la próxima cumbre a ser realizada en China en 2022
Palabras clave: BRICS, Multipolaridad, Brasil, China, India, Rusia, Sudáfrica
1 Professor e pesquisador: Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais/CNPq
Artigo
45 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte,
ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.45 - 49, mai. 2021
46 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.45 - 49, mai. 2021
BRICS es un acrónimo creado para un
grupo de cinco países emergentes o reemer-
gentes. Originalmente, fue Jim O’Neall, el
ejecutivo de Goldman Sachs, quien acuñó el
término BRICs para referirse a cuatro merca-
dos emergentes prometedores: Brasil, Rusia,
India y China. A partir de esta ‘invención’ de
los grupos más nancierizados y transnacio-
nalizados de la economía global, surgió una
formación política especíca en un contexto de
crisis económica del sistema capitalista. La pri-
mera Cumbre tuvo lugar en junio de 2009, en
Ekaterimburgo, Rusia, y reejó el compromiso
del grupo en relación a la importancia de refor-
mar las instituciones nancieras para aumentar
la participación de las potencias medias emer-
gentes en el orden internacional.
Desde 2009, las naciones que componen
los BRICS se han reunido anualmente en cum-
bres formales. En 2010, Sudáfrica fue invitada
a participar como miembro de pleno derecho,
consolidando el sello BRICS. En el proceso de
reordenamiento global e internacional, la for-
mación política BRICS (Brasil, Rusia, India,
China y Sudáfrica) se convierte en un actor
importante del sistema político internacional.
En este sentido, la creación y evolución de los
BRICS debe analizarse considerando el rol se-
cundario de las potencias medias emergentes en
los procesos decisorios de las instituciones de
gobernanza económica global, hecho que pare-
ció cambiar un poco después de la creación del
G20 – como cumbre de jefes de Estado y de
gobierno – en 2008. Los BRICS surgieron en
un contexto de crisis del sistema capitalista neo-
liberal y de legitimidad de las instituciones mul-
tilaterales criadas en Bretton Woods. En un sis-
tema político internacional multipolar, el grupo
BRICS creó mecanismos de cooperación con el
objetivo de dar una expresión más asertiva al re-
clamo mutuo para una mayor participación en
las instituciones internacionales de gobernanza.
Se puede interpretar esta formación políti-
ca surgida en un contexto de caos sistémico
(ARRIGHI, SILVER E AHMAD, 1999) y de
reacomodamiento del tablero geopolítico y de
la distribución del poder global que están dan-
do forma y sentido a un especíco sistema mul-
tipolar. Fue en ese período que el debate sobre
la emergencia o “resurgimiento” de potencias
globales tuvo lugar entre académicos y analistas
de política internacional.
De esta manera, nuestro objetivo en este
texto es analizar la relevancia de los BRICS en
el contexto de la 13º cumbre bajo la presiden-
cia pró-tempore de India que se desarrolló vir-
tualmente en setiembre de 2021.
A lo largo de trece años, el grupo de Estados
que componen los BRICS obtuvo logros en
lo que respecta a su evolución institucional
(VADELL E RAMOS, 2019), especícamente
en la cooperación nanciera cristalizada en la
creación del Nuevo Banco de Desarrollo y el
acuerdo Contingente de Reservas (NDB-CRA,
según sus siglas en inglés) y a la fuerza colectiva
de demandas por reformas institucionales de
las organizaciones internacionales. Además, los
BRICS asumieron el compromiso en los últi-
mos años de fortalecer un nuevo orden norma-
tivo multilateral – un genuino multilateralismo
– e inclusivo basado en principios regulatorios
y de Cooperación Sur-Sur (CSS).
La 13º Cumbre BRICS tuvo como tema:
BRICS @15: intra-BRICS Cooperation for Conti-
nuity, Consolidation and Consensus (BRICS, 2021),
lema que suscita la idea de un reinicio post pandémi-
co rearmando antiguas demandas, pero fortaleci-
endo aun más la necesidad de una cooperación más
profunda intra-BRICS en la nueva normalidad que
pueda surgir en un futuro próximo.
47 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.45 - 49, mai. 2021
Gregory Chin identicó tres etapas en la
evolución del BRICS a lo largo de los últimos
años. La primera estuvo centrada “en cómo el
grupo de Estados emergentes se posicionó en
relación con los acuerdos multilaterales estab-
lecidos y frente al orden global de una mane-
ra más amplia” (CHIN, 2015, p. 19). Como
ejemplo, se destacan las cuestiones de la diplo-
macia de nicho de las potencias medias tradi-
cionales y el rol de ellas en las instituciones de
la “gobernanza liberal” occidental.
En la segunda etapa primaron las cuestio-
nes y preocupaciones en torno al comporta-
miento de los actores estatales. La mayor visibil-
idad y peso económico de los países emergentes
en el sistema internacional abrieron algunos in-
terrogantes: ¿en qué medida estos países están
representados – de acuerdo con su peso en la
economía global – equitativamente en las insti-
tuciones multilaterales? ¿Estas potencias emer-
gentes se están comportando como potencias
defensoras del statu quo o como revisionistas
frente a los acuerdos multilaterales existentes?
(CHIN, 2015, p. 19). La tercera etapa tiene
que ver con los resultados del cambio parcial de
algunas normas y reglas globales o la internal-
ización de ellas por parte de los miembros del
BRICS (CHIN, 2015, pág.19).
Sin embargo, desde nuestro punto de vista,
estas etapas no deben ser entendidas necesaria-
mente como secuencias cronológicas, sino como
una totalidad compleja y superpuesta en la difícil
tarea de promoción de la cooperación internacio-
nal, la demanda por reformas y la institucionali-
zación nanciera. Idas y venidas, acercamientos y
alejamientos tácticos formaron parte del proceso
evolutivo de casi 15 años de BRICS.
En este sentido, podemos identicar una
cuarta etapa de los BRICS, cuyo péndulo osci-
ló más para un enfriamiento de las relaciones y
que estuvo muy condicionada por la pandemia
de COVID-19. En este último tiempo, se ob-
servó una especie de letargo institucional don-
de los miembros del grupo actuaron de manera
menos coordinada, como arma Vázquez, pro-
moviendo una especie de bilateralización de los
BRICS (VAZQUEZ, 2021).
La rivalidad entre Estados Unidos y China
– que se maniesta también en la geopolítica
de la región del Asia-Pacíco/Indo-Pacíco –,
el enfrentamiento fronterizo entre China e In-
dia y las narrativas anti-chinas difundidas por
el presidente brasileño, Jair Bolsonaro, siguien-
do la retórica del ex presidente de los Estados
Unidos, Donald Trump, fueron factores que
debilitaron aún más al grupo en los últimos
años. En este contexto y durante los dos años
de la pandemia, la cooperación minilateral in-
tra BRICS en áreas esenciales – especialmente
en lo que respecta a la cooperación comercial,
sanitaria y de vacunas – fueron pobres y re-
forzaron la bilateralización de las relaciones del
grupo (VAZQUEZ, 2021, p. 2).
No obstante, el establecimiento e insti-
tucionalización del NDB-CRA, la evolución
de sus actividades y la expansión de la cartera
para el desarrollo sostenible indican que los
cinco países aún participan como una coalición
minilateral. Los desafíos para el BRICS, en la
nueva normalidad” de la post pandemia de
COVID-19, pueden ser descifrados en los dis-
cursos de la decimotercera Cumbre del grupo
que se desarrolló virtualmente bajo auspicios
de la presidencia pró tempore de India.
El primer ministro de la India abrió la cum-
bre destacando que la elección del tema no fue
casual. La cooperación intra-BRICS para la con-
tinuidad, consolidación y consenso debe ser una pri-
oridad para fortalecer el BRICS (MODI, 2021).
Por su parte, el discurso del presidente brasileño
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Bolsonaro tuvo un tono conciliador con China
con explícitos agradecimientos por la cooperación
en la producción de vacunas (BOLSONARO,
2021)Rṭṭ2. Sin embargo, el discurso que antic-
ipa un “reinicio” de los BRICS fue el del presi-
dente Xi Jinping, que será el próximo antrión
en la decimocuarta cumbre, en 2022. Xi destacó
cuatro puntos esenciales: el primero y el segundo
están relacionados a cuestiones sanitarias, coop-
eración de vacunas, equiparación de estándares y
la posibilidad de creación de una vacuna contra
COVID-19 de los BRICS; en el tercer punto, el
gobierno de China insta a expandir la cooperación
a partir de la hoja de ruta del BRICS Econom-
ic Partnership 2025 en áreas estratégicas como:
comercio e inversiones, tecnología e innovación
y desarrollo verde y de bajo carbono. Además, Xi
anunció la creación de un centro de innovación
de la Nueva Revolución Industrial de los BRICS
en la ciudad de Xiamen. El cuarto punto abordó
aspectos de cooperación en seguridad y el quinto
la relación entre los pueblos (XI, 2021).
El delicado y crítico contexto de reinicio
global como analizan Dunford y Qi (2020)
tendrá un correlato en un reinicio del BRICS
como formación política de países “emergen-
tes”. Ese parece ser el compromiso expresado
en la 13º cumbre virtual como una antesala de
la 14º a realizarse en China, que quizás sea pres-
encial. La idea es estimular la cooperación in-
tra-BRICS, subsumiendo la bilateralización de
los últimos años, especialmente en áreas como
seguridad (especialmente en Eurasia con gran
protagonismo de la Organización de Shanghái
- OCS), Cooperación económica y sanitaria y
mayor intercambio entre los pueblos.
Los gobiernos de los países miembros del
BRICS parecen decididos a lanzar un nuevo tipo
2 La vacuna Coronavac e producto de la cooperación entre
el Instituto Butantan y el laboratório chino Sinovac.
de reinicio, aún en el delicado escenario de rivali-
dad entre China y Estados Unidos. Sin embargo,
no nos atrevemos a armar que el BRICS se re-
constituirá como un Contender Block (VAN DER
PIJL, 2017), sino como una formación política
en lenta transformación dónde la India, como an-
trión, y China, como motor de la recuperación
económica post COVID-19 y próximo antrión,
tuvieron gran responsabilidad para restablecer los
canales de cooperación intra-grupal minilateral
desgastados en los últimos años.
En este sentido, algunos logros de la 13º
cumbre pueden resumirse en 3 puntos: 1) en cues-
tiones de seguridad, debido a los recientes acontec-
imientos en Afganistán y al futuro del gobierno tal-
ibán, un entendimiento entre Rusia, China e India
es crucial que tuvieron reejo en la última cumbre
de la OCS; 2) en relación al comercio y a la recu-
peración económica, el creciente papel económico
de China en el grupo convirtió al gigante asiático
en un punto focal del comercio (VADELL, 2020;
VADELL E RAMOS, 2019). Esta situación
puede promover el conicto o la cooperación en-
tre las partes y dependerá de las negociaciones col-
ectivas; 3) en lo que respecta a la a conectividad e
intercambio entre personas, este tema estará más
que nunca vinculado a la cooperación sanitaria y la
diplomacia de las vacunas entre sus miembros, con
un fuerte enfoque basado en la ciencia.
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50 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.50 - 56, mai. 2021
A Cúpula de Lideranças Globais sobre o
Clima e a criação do momentum político
para a COP 26
e Leaders Summit on Climate and the political momentum pre-COP 26
La Cumbre de Líderes sobre el Clima y el impulso político para la COP 26
Mariana Balau Silveira1
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2021v18n1pX Recebido em: 02 de maio de 2021
Aprovado em: 13 de setembro de 2021
Resumo
A Cúpula de Lideranças Globais sobre o Clima ocorreu entre os dias 22 e 23 de abril e foi
um dos primeiros eventos de alto nível organizados pelo governo Biden. Os anúncios do
evento representam um prelúdio das posições dos principais agentes da governança do clima
para a COP 26, que ocorrerá em novembro desse ano em Glasgow. O presente artigo analisa
as principais metas apresentadas pelas lideranças e conclui que ainda que tenha havido um
aumento signicativo da ambição global, a cúpula não aponta para a obtenção de consenso em
relação à tópicos ainda controversos nas negociações sobre a implementação do Acordo de Paris.
Palavras-chave: Mudanças do Clima. COP 26. Acordo de Paris.
Abstract
e Leaders Summit on Climate took place in April 2021 and was one of the rst high-
level events organized by the Biden administration. e event’s announcements represent
a prelude to the positions of the main actors of climate governance pre-COP 26, that
will take place in November this year in Glasgow. is article analyzes the main goals
presented by the leaders and concludes that even though there has been a signicant
increase in global ambition, the summit does not point to consensus on topics that are still
controversial in the negotiations on the implementation of the Paris Agreement.
Key words: Climate Change. COP 26. Paris Agreement.
Resumen
La Cumbre de Líderes sobre el Clima tuvo lugar del 22 al 23 de abril y fue uno de los primeros
eventos de alto nivel organizados por el gobierno de Joe Biden. Los anuncios del evento
representan un preludio a las posiciones de los principales actores de la gobernanza climática
para la COP 26, que tendrá lugar en noviembre de este año en Glasgow. Este artículo analiza
los principales objetivos presentados por los mandatarios y concluye que si bien ha habido un
aumento signicativo de la ambición global, la cumbre no busca consensuar temas que aún son
controvertidos en las negociaciones sobre la implementación del Acuerdo de París.
Palabras clave: Cambio Climático. COP 26. Acuerdo de Paris.
1 Professora do Departamento de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Dou-
tora em Relações Internacionais pela PUC Minas. ORCID ID: https://orcid.org/0000-0002-3291-5809
Artigo
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ISSN 1809-6182, v.18 n.1, p.50 - 56, mai. 2021
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Introdução
Em março desse ano o presidente dos Es-
tados Unidos, Joe Biden, convidou 40 líderes
globais com o objetivo de discutir propostas
de combate às mudanças do clima e a promo-
ção de ações mais ambiciosas na limitação do
aumento da temperatura média global. O en-
contro, intitulado “Leaders Summit on Clima-
te2 (em tradução literal, “Cúpula de Lideran-
ças Globais sobre o Clima”) ocorreu entre os
dias 22 e 23 de abril, virtualmente. As metas
anunciadas durante a cúpula fazem parte da
tentativa de construção de um “momentum
político nos meses que antecedem a COP 26,
que acontecerá em novembro em Glasgow, no
Reino Unido.
É possível citar seis grandes destaques
do encontro: a mudança de ênfase geral
das propostas de limitação do aumento das
temperaturas médias globais em 1,5ºC, em
substituição ao foco anterior, que era em 2º C;
a meta anunciada pelos EUA, de redução das
emissões de GEE em 50% até 2030; a proposta
do governo chinês, de diminuição progressiva
do uso de carvão na matriz energética e a ade-
são do país à Emenda Kigali3; a manutenção,
por parte da União Europeia, da proposta de
longo prazo anunciada em setembro de 2020,
de redução de 55% das emissões até 2030; e o
discurso do presidente do Brasil, Jair Bolsona-
2 É importante ressaltar que a Cúpula não fez parte do calen-
dário ocial de negociações pré-COP 26. Do ponto de vista
técnico, as reuniões que antecedem uma COP são denomi-
nadas “intersecionais”. Essas seções preparatórias ocorrem
geralmente seis meses antes da COP e são conduzidas pelos
órgãos subsidiários e constituídos da Convenção, divididos
em temas como mitigação, adaptação, transparência, nan-
ciamento, tecnologia e construção de capacidades.
3 A Emenda Kigali ao Protocolo de Montreal foi negociada
em 2016 e entrou em vigor em 2019. Prevê a redução do
consumo e da produção de hidrouorcarbonetos (HFC),
que contribuem para a destruição da camada de ozônio e,
consequentemente, para as mudanças do clima.
ro, cuja atuação tem sido amplamente criticada
em virtude do crescimento agudo dos índices
de desmatamento, das denúncias de exploração
ilegal de madeira e diminuição da scalização
na região amazônica. A proposta dos Estados
Unidos representa uma mudança signicativa
da política do país para o clima – inclusive se
comparada à meta estabelecida na gestão de Ba-
rack Obama, em 2014 (de redução das emissões
entre 17 e 28% até 2025).
O artigo está dividido em três seções: na
primeira discute-se brevemente o período de
2015 a 2019, que marca a aprovação e entrada
em vigor do Acordo de Paris e as negociações so-
bre a sua implementação. A ideia é compreender
a atual estrutura da governança internacional das
mudanças do clima e as diculdades na promo-
ção de estratégias de cooperação. Em seguida
serão analisadas as principais propostas apresen-
tadas durante a cúpula de abril desse ano, dando
ênfase às declarações dos líderes de Estados Uni-
dos e China, compreendidos por autores como
Kalantzakos (2017), Oberthur e Groen (2017),
Averchenkova et al (2016), Belis et al (2015)
e Viola e Franchini (2012) enquanto agentes
centrais da governança global das mudanças do
clima. A última seção dedica-se, por m, à ree-
xão sobre a cúpula como parte da construção do
momentum político pré COP 26, buscando en-
tender se os anúncios representam soluções pos-
síveis para os principais impasses encontrados no
período de negociações sobre a implementação
do Acordo de Paris (2015-2019). O argumento
da presente análise é de que os discursos sinali-
zam para um aumento da ambição global para o
combate às mudanças do clima, mas não ofere-
cem soluções para um dos pontos mais contro-
versos nas negociações sobre a implementação
do Acordo de Paris: a transição dos MDLs para
os mecanismos de mercado previstos no artigo 6.
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O processo de negociação
para a implementação do
Acordo de Paris e o artigo da
“cooperação internacional”
O Acordo de Paris foi aprovado em 2015
durante a 21ª Conferência das Partes signatá-
rias da Convenção-Quadro das Nações Uni-
das sobre a Mudança do Clima (COP 21),
em Paris, e entrou em vigor em 2016 a partir
da raticação de 55 países (que representam
55% das emissões globais de GEE). Um dos
principais passos após a COP 21 foi o estabe-
lecimento de uma espécie de “Livro de Regras
para fornecer diretrizes sobre como os Estados
deveriam implementar e fortalecer seus planos
nacionais. O objetivo foi transformar o texto
relativamente sucinto do acordo em um siste-
ma funcional que mobilizasse ações climáticas
concretas em todos os países. As negociações
pós-Paris (2016-2019) foram marcadas, até
agora, pela tentativa de estabelecer um terre-
no comum na implementação dos artigos do
acordo, discutindo suas principais questões: as
Contribuições Nacionalmente Determinadas
(NDCs)4 (artigo 4), a transição dos Mecanis-
mos de Desenvolvimento Limpo (MDLs) (fer-
ramenta central do Protocolo de Quioto) para
mecanismos de mercado (artigo 6), comunica-
ções sobre ações de adaptação (artigo 7), relató-
4 As NDCs foram responsáveis por prover uma abordagem
mais “bottom-up” para o processo, na medida em que os go-
vernos seriam responsáveis por iniciar, ou intensicar, suas
ações nacionais em nível doméstico. Cada documento deveria
reetir a ambição das partes, sem exceções, na busca pela re-
dução de emissões, levando em conta as circunstâncias espe-
cícas de seu país e suas capabilities (UNFCCC, 2013). Essa
estratégia marcou uma mudança considerável na estrutura
anterior, estabelecida pelo Protocolo de Quioto. As NDCs se
enquadram no sistema de pledge and review, ou “prometer e
rever”, o que, segundo Depledge (2016), caracterizaria a tran-
sição da estrutura “estreita, porém forte” de Kyoto para uma
estrutura “larga, porém fraca”, com compromissos mais soltos
e vagos, mas que incluem um universo maior de países (DE-
PLEDGE, 2016, p. 04).
rios nanceiros (artigo 9), transferência de tec-
nologia (artigo 10), transparência (artigo 13),
inventário (artigo 14) e compliance (artigo 15).
Até a COP 25, ocorrida em Madrid, na
Espanha em 2019, boa parte das diretrizes
para a implementação do acordo foi deni-
da, exceto em relação ao artigo 6, que discute
a transição dos MDLs, adotados no contexto
do Protocolo de Quioto, para mecanismos de
mercado e não-mercado. O artigo dene uma
série de abordagens que exigem cooperação en-
tre as partes, permitindo-lhes implementar seus
NDCs por meio da transferência de redução
de emissões. É considerado, portanto, o “ar-
tigo da cooperação internacional” (STRECK,
UNGER, GREINER, 2020). Favorece, desse
modo, a visão de que os mercados internacio-
nais de carbono também poderiam ser instru-
mentos de política ecazes para o Acordo de
Paris. Hood (2019) e Marcu e Duggal (2019)
apontam para o fato de que cerca de metade
dos NDCs apresentados na primeira rodada fa-
zem referência ao uso de abordagens cooperati-
vas ou de mercados internacionais.
Em março desse ano, o Secretário-Geral
da ONU, Antonio Guterres, enfatizou que o
enfrentamento da crise climática envolveria
três ações imperativas: (I) atingir a neutralidade
global de carbono; (II) avançar na denição de
políticas de adaptação para proteção dos países
e povos mais vulneráveis e (III) alinhar o nan-
ciamento global a partir dos mecanismos do
Acordo de Paris (IISD, 2021a). O terceiro pon-
to depende largamente do consenso das partes
quanto ao artigo 6. As principais áreas de desa-
cordo durante as negociações foram até agora re-
lacionadas às dúvidas sobre como contabilizar as
reduções de emissões resultantes do mecanismo
previsto no artigo 6.4. Se a COP 26 não concor-
dar com uma visão compartilhada sobre como
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cooperar e passar dos MDL aos mecanismos de
mercado, “a convenção pode acabar cando li-
mitada a uma estruturea onde as partes trocam
informações e revisam o progresso” (STRECK,
UNGER, GREINER, 2020, pg. 148).
A cúpula realizada em abril desse ano,
nesse sentido, foi um passo importante na si-
nalização das propostas para o encontro de
novembro desse ano. A próxima seção discute
os principais destaques do evento e busca com-
preender se as decisões da cúpula oferecem pos-
síveis caminhos para a resolução dos impasses
na implementação do Acordo de Paris.
A Cúpula de Lideranças
Globais sobre o Clima e a
construção do momentum
pré-COP 26
A Cúpula de Lideranças Globais sobre o
Clima reuniu líderes de 40 países que, juntos,
representam mais de 80% das emissões globais
de GEE. Dentre os participantes do evento
destacam-se os 17 membros do Major Econo-
mies Forum on Energy and Climate (MEF)5,
além de países vulneráveis às mudanças do cli-
ma, como as Ilhas Marshall. Em termos gerais,
os discursos enfatizaram esforços de limitação
do aumento da temperatura média global em
1,5º C, o que sinaliza uma mudança impor-
tante: no contexto das negociações de Paris, em
2015, essa meta foi considerada pela maioria
das partes como sendo demasiadamente am-
biciosa e o discurso geral foi de compromisso
com a meta de 2ºC.
5 O MEF foi lançado em 2009 com o objetivo central de
estabelecer um diálogo contínuo e gerar liderança global
no contexto dos preparativos para a COP 15. Os 17 países
membros são África do Sul, Austrália, Brasil, Canadá, Chi-
na, Estados Unidos, França, Alemanha, Índia, Indonésia,
Itália, Japão, Coreia do Sul, México, Reino Unido, Rússia e
União Europeia (IISD, 2021b).
O encontro também ocorreu em um con-
texto marcado por críticas à gestão do presiden-
te Jair Bolsonaro, principalmente em relação
aos altos índices de desorestamento na Ama-
zônia. O discurso do líder brasileiro enfatizou
o histórico de liderança do Brasil no combate
às mudanças do clima e o compromisso do país
com o combate ao desmatamento. A fala de
Bolsonaro, porém, contrasta com a redução da
ambição climática, observada quando da publi-
cação da NDC brasileira, atualizada em dezem-
bro do ano passado, e com o histórico da atua-
ção de Ricardo Salles à frente do Ministério do
Meio Ambiente (MMA) marcada pela redução
da scalização ambiental em nível nacional.
Em entrevista à Deustche Welle, Suely
Araújo, especialista em políticas públicas do Ob-
servatório do Clima e ex-presidente do Ibama,
armou que o orçamento total do MMA para
2021 é “absolutamente insuciente”. A previsão
é de que sejam destinados R$ 83 milhões às ações
de scalização (área que Bolsonaro prometeu em
seu discurso fortalecer) em 2021. Araújo enfati-
zou que esse valor estaria aquém do mínimo ne-
cessário para o planejamento e execução de ações
de scalização (DW, 2021). Além da redução dos
recursos públicos destinados a essas atividades, o
Brasil vem perdendo recursos de fundo perdido
desde 2018, quando Bolsonaro foi eleito.
Em relação ao conteúdo das propostas
apresentadas pelos demais líderes durante o
encontro, é relevante mencionar a manutenção
da meta da União Europeia, anunciada em se-
tembro do ano passado (de redução das emis-
sões de GEE em 55% até 2030); a mudança da
proposta do governo japonês em relação à meta
anterior (o país anunciou que reduzirá entre as
emissões entre 46 e 50% até 2030, a proposta
anterior previa uma redução de 26%); o anún-
cio da adoção da Emenda Kigali por parte do
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governo chinês, além da diminuição progres-
siva do uso de carvão na matriz energética no
país; e a sinalização de Argentina e África do
Sul de que fortalecerão suas NDCs até a COP
26 esse ano (IISD, 2021b).
O grande destaque, porém, foi o conjunto
de metas anunciado pelo governo Biden duran-
te a cúpula. Em relação às propostas quantitati-
vas e objetivas, destacam-se o anúncio da meta
nacional de redução das emissões de GEE entre
50 e 52% até 2030, em relação aos níveis de
2005, além da intenção de alcançar 100% da
geração de eletricidade a partir de fontes reno-
váveis. O governo também sinalizou a intenção
de aumentar o nanciamento internacional
aos países em desenvolvimento, dobrando até
2024 o orçamento anual para o clima (sujeito
à aprovação do congresso nacional) (WHITE
HOUSE, 2021a).
Em linhas gerais, a cúpula sinaliza para a
concretização das promessas feitas por Biden
durante a campanha presidencial de 2020 e
para uma ruptura em relação à política exter-
na dos EUA do governo Trump, marcada pelo
negacionismo em relação ao caráter antropo-
gênico das mudanças do clima, pela saída do
país do Acordo de Paris e pelo desmantelamen-
to de estruturas importantes para a avaliação
de riscos climáticos, como o National Climate
Assessment.
Ainda assim, é importante reconhecer
que boa parte das propostas do governo Biden
foi apresentada como “intenção”, além de não
apresentar metas de curto prazo e de não sina-
lizar para políticas concretas quanto à transfe-
rência da redução de emissões via Acordo de
Paris. A NDC estadunidense atualizada tam-
bém não sinaliza para uma proposta do país em
relação ao artigo 6. No documento, publicado
um dia antes da cúpula, o governo arma que:
No momento, os Estados Unidos não preten-
dem usar a cooperação voluntária a partir de
abordagens cooperativas, referidas no artigo
6.2, ou o mecanismo referido no artigo 6.4
para atingir sua meta. Caso os EUA decidam
usar tal cooperação para atingir sua meta
ou para autorizar o uso de ITMOs para os
NDCs de outras partes, irá relatar sobre tal
uso ou autorização por meio de seus relató-
rios de transparência bianuais e consistentes
com qualquer orientação adotada nos termos
do artigo 6 (USA, 2021, p. 21).
A posição contrasta com a declaração con-
junta publicada pelos governos da China e dos
Estados Unidos em 17 de abril, que arma que
os dois lados vão cooperar para a promoção de
uma COP 26 bem sucedida em Glasgow, ob-
jetivando completar os arranjos institucionais
para a implementação do Acordo de Paris (ex:
artigos 6 e 13) e avançar de modo signicativo
a ambição global para mitigação, adaptação e
suporte” (WHITE HOUSE, 2021b).
Conclusões
A Cúpula de Lideranças Globais sobre o
Clima pode ser entendida como uma espécie
de prelúdio para a COP 26 que ocorrerá em
novembro desse ano. A conferência será deci-
siva para a implementação efetiva do Acordo
de Paris, que entrou em vigor em 2016 e está
nos estágios nais das negociações de seus arti-
gos. O maior impasse reside hoje na denição
das diretrizes e de consenso para a transição dos
MDLs de Quioto para os mecanismos de mer-
cado previstos no artigo 6 de Paris. A partir da
análise das propostas, principalmente aquelas
anunciadas pelos agentes centrais da governan-
ça climática – EUA e China – é possível ar-
mar que as metas nacionais indicam aumento
na ambição (principalmente se comparado ao
cenário anterior às eleições nos EUA), mas não
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sinalizam para a obtenção de consenso quanto
ao nanciamento climático via Acordo de Paris.
É possível contrapor a posição norte-
americana à proposta chinesa: enquanto Xi
Jinping mencionou, em seu discurso durante
a cúpula, a importância da cooperação – tanto
em nível internacional, quanto regionalmente
– além do papel central do “princípio das res-
ponsabilidades comuns, porém diferenciadas
(PRCPD), da cooperação sul-sul e da Belt and
Road Initiative na promoção do desenvolvi-
mento sustentável6; o discurso de Biden, por
outro lado, enfatizou os investimentos nacio-
nais em infraestrutura, inovação e na geração
de empregos. Essa diferença entre as propostas
chinesa e estadunidense evidencia a contrapo-
sição de duas diferentes estratégias observadas
no processo de negociação do Acordo de Pa-
ris e nas negociações subsequentes relativas à
sua implementação. De um lado, a defesa da
cooperação internacional como estratégia de
combate às mudanças do clima, a partir do
PRCPD; de outro, a ênfase em contribuições
nacionais e em diferenciação “sutil”, que coloca
em segundo plano a possibilidade de coordena-
ção de políticas e de promoção da cooperação
em nível internacional.
Em uma análise preliminar, é possível en-
tender a posição do governo norte-americano
como reexo dos desaos domésticos no país.
A crescente polarização interna demanda um
balanceamento complexo entre a necessidade
de reassumir a liderança multilateral, com as
mudanças do clima como pedra angular nesse
processo, e sinalizar para as demandas e neces-
sidades domésticas, de geração de empregos e
crescimento econômico. Esse difícil equilíbrio
6 Discurso completo disponível em: http://www.xinhuanet.
com/english/2021-04/22/c_139899289.htm. Acesso em
30 de abril de 2021.
foi endereçado no primeiro discurso do Secre-
tário de Estado, Anthony Blinken, em março
desse ano:
o governo estabeleceu as prioridades de políti-
ca externa da administração Biden a partir de
questões simples: ‘o que nossa política externa
representa para os trabalhadores americanos e
suas famílias? O que precisamos fazer ao redor
do mundo para tornar-nos mais fortes aqui,
em casa? E o que precisamos fazer domestica-
mente para nos fortalecer no mundo? Onde
quer que as leis para a segurança internacional
e a economia global estiverem sendo escritas,
a América estará lá e o povo americano será
a frente e o centro das nossas decisões’. (US
DEPARTMENT OF STATE, 2021).
Segundo Shapiro (2021) a necessidade de
adotar uma política externa para a classe mé-
dia não seria compatível com a estratégia de
assumir a liderança global multilateral, ao me-
nos não na mesma medida – o governo Biden
terá de priorizar uma ou outra dimensão. As
decisões da COP 26 serão importantes, nesse
sentido, para que seja possível compreender em
que medida os Estados Unidos assumirão a li-
derança na agenda do clima e contribuirão para
a obtenção de consenso na implementação do
Acordo de Paris.
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