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Como a dependência de semicondutores
taiwaneses pode evitar um conflito
armado entre China e Estados Unidos
How the dependence on Taiwanese semiconductors might prevent an armed conict bet-
ween China and the United States
Cómo la dependencia de los semiconductores taiwaneses puede prevenir un conicto
armado entre China y Estados Unidos
Recebido em:01 de agosto de 2023
Aprovado em: 12 de dezembro de 2023
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2023v20n1p11-23
Pedro Antonio Saraiva de Carvalho Pereira Francez
1
Resumo:
O mundo está cada vez mais globalizado. Conitos outrora regionais não se aplicam
mais apenas a localidade de origem. Países interconectados entre si conseguem sentir
conitos teoricamente alheios à suas capacidades. Com a tecnologia bélica evoluindo, há
o eterno medo de eclodir uma Terceira Guerra Mundial, e estopins e possíveis fagulhas
são analisados ao redor do globo. A China tentando reaver o controle de Taiwan com
os Estados Unidos declarando que protegerá a ilha em caso de invasão militar chinesa
certamente atrai preocupações. Taiwan se protegeu das ameaças chinesas através da
educação e tecnologia, produzindo semicondutores essenciais para o funcionamento da
economia mundial. Esta especialização taiwanesa causou graus de vulnerabilidade e
sensibilidade em diversos países, onde fez com que a paz e soberania na ilha fosse essencial
para o mundo. Sob a luz da teoria da interdependência complexa de Keohane & Nye, este
artigo visa elucidar quais motivos impedem um conito armado entre China e Estados
Unidos pela independência ou anexação denitiva de Taiwan.
Palavras-chave: Interdependência Complexa; Semicondutores; Sensibilidade; Taiwan;
Vulnerabilidade.
Abstract:
e world is increasingly globalized. Regional conicts are not restricted only to the
original area anymore. Countries that have a bound of interconnection can feel the reexes
of a conict that theoretically does not concern to them. With war technology evolving,
there is the eternal fear of a ird World War breaking out, and possible start points and
Sparks are analyzed around the globe. China trying to regain control of Taiwan with the
1 Mestre em História pela Universidade Federal do Espírito Santo e Doutorando em Relações Internacionais pela Pontifícia Uni-
versidade Católica de Minas Gerais. Email: pedro.francez27@gmail.com
Artigo
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United States of America declaring that ey will protect the island in case of Chineses
military invasion certainly raises concerns. Taiwan protected itself from Chinese threats
through education and technology, producing semiconductors essential for the functioning
of the world economy. is Taiwanese specialization provoke degrees of vulnerability and
sensibility in several countries and therefore, the peace and sovereignty on the island it is
essential for the world. In the light of Keohane & Nyes Complex Interdependence theory,
this article aims to elucidate the reasons that prevent an armed conict between China
and United States for the independence or denitive annexation of Taiwan.
Keywords: Complex Interdependence; Semiconductors; Sensibility; Taiwan; Vulnerability.
Resumen:
El mundo está cada vez más globalizado. Los conictos regionales ya no se limitan
únicamente al área original. Los países que tienen un límite de interconexión pueden
sentir los reejos de un conicto que teóricamente no les concierne. Con la evolución de
la tecnología bélica, existe el temor eterno de que estalle una Tercera Guerra Mundial,
y se analizan posibles puntos de partida y chispas por todo el mundo. China intentando
recuperar el control de Taiwán, con los Estados Unidos de América declarando que
protegerán la isla en caso de una invasión militar china ciertamente genera preocupación.
Taiwán se protegió de las amenazas chinas a través de la educación y la tecnología,
produciendo semiconductores esenciales para el funcionamiento de la economía mundial.
Esta especialización taiwanesa provoca grados de vulnerabilidad y sensibilidad en varios
países y por tanto, la paz y soberanía en la isla es fundamental para el mundo. A la luz
de la teoría de la Interdependencia Compleja de Keohane & Nye, este artículo pretende
aclarar las razones que impiden un conicto armado entre China y Estados Unidos por la
independencia o anexión denitiva de Taiwán.
Palabras Clave: Interdependencia Compleja; Semiconductores; Sensibilidad; Taiwán;
Vulnerabilidad.
INTRODUÇÃO
Um conito armado entre os Estados
Unidos da América e a República Popular da
China seria devastador. Os resultados deste
confronto seriam catastrócos, se é que reme-
diáveis, pois são duas superpotências nucleares,
dois dos maiores exércitos do mundo e com
tecnologias extremamente avançadas.
Há anos observa-se no cenário internacio-
nal as animosidades escalonarem entre Estados
Unidos e China com diversos pretextos. Em
quase qualquer disputa internacional, o posi-
cionamento destes países atua como diretrizes
para países satélites, aliados e alinhados se posi-
cionarem também. E convergindo ou divergin-
do, são tomados como ‘norte posicional’ por
diversas outras nações.
Por serem nações referências na região,
o objetivo – de todas as nações, mas princi-
palmente – das nações hegemônicas é manter
e/ou ampliar o que Morgenthau chamou de
status quo. Tanto os Estados Unidos quanto
a China são as maiores zonas de inuência
para os países ao seu redor, seja com comér-
cio, cultura, costumes, política ou através da
potencial força militar. A nação em que o ob-
jetivo externo se congura mais em conservar
o poder em seu favor do que modicar a dis-
tribuição do mesmo, persegue uma política
de manutenção do status quo (Morgenthau,
2003, p. 88).
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Manter o status quo, em suma, signica
um preservar e ampliar sempre o poder pen-
dendo a balança do mesmo para si e utilizando
das mais variadas táticas para tal feito, a m de
restringir ameaças futuras de desaos de po-
der. Em nossa leitura, China e Estados Unidos
se encontram nesta situação. Mesmo teorica-
mente não participando da mesma região de
interesse, ambos são superpotências, fato que
faz o status quo não se restringir ao aspecto re-
gional, pois através de comércio, alianças polí-
ticas, soft power e dentre outras táticas, a zona
de inuência de ambos os países transcendem
as fronteiras regionais.
E essa abrangência do alcance do pode-
rio e inuência destas superpotências é que
faz com que o medo de se eclodir um con-
ito armado em qualquer lugar do mundo,
quando envolvido duas ou mais superpotên-
cias hegemônicas, se escalone em uma guer-
ra de proporções catastrócas, afetando todo
o globo de maneira substancialmente, assim
como a Primeira e a Segunda Guerra mun-
dial. Conitos regionais que pouco afetam a
dinâmica de países hegemônicos, infelizmen-
te não chamam a atenção para uma resolução
rápida, haja vista que o custo de uma resposta
efetiva, pode variar dentre apenas nanceiro
ou se indispor com uma outra superpotência,
como por exemplo, o mais novo conito bé-
lico entre Rússia e Ucrânia iniciado em 2020,
não negligenciando a história de desavenças
passadas que ainda se encontram sem resolu-
ção, como a Crimeia, em 2014.
Dentre as razões pela disputa russo-u-
craniana se encontra a disputa pelo status quo
regional não só dos países envolvidos direta-
mente na guerra, mas de outras hegemonias,
como Estados Unidos da América e potên-
cias europeias. De acordo com Mearsheimer
(2014, p.77), os americanos e a gana dos países
membros da OTAN de pressionar as frontei-
ras russas provocaram a tomada da Crimeia,
em 2014, em uma retaliação russa que deveria
ser óbvia e esperada e continua: “[...] o ociden-
te vem se movendo em direção ao quintal da
Rússia e ameaçando seus principais interesses
estratégicos” (Mearsheirmer, 2014a, p. 77-78,
tradução nossa)
2
.
Em outra perspectiva do conito, temos
o argumento de que a Ucrânia não entraria na
OTAN, que é uma organização militar, mas
sim em um acordo de livre-mercado entre
a Europa, o que não signicaria uma amea-
ça bélica (Sestanovich, 2014, p. 174), e que
a política externa russa não se tornou mais
agressiva em resposta às políticas americanas,
mas sim como resultado das dinâmicas de suas
políticas internas, como seu processo eleitoral
fraudulento, que gerou insatisfação interna e
pressionou a agenda externa russa (Mcfaul,
2014, p. 169).
Independente da perspectiva adotada, sa-
lienta-se a disputa pelo status quo. O próprio
Mearsheimer (2014b, p. 175), em resposta a
Sestanovich e McFaul na mesma revista, reco-
nhece que a expansão da União Europeia e a
promoção da democracia são ameaças aos in-
teresses russos o que corrobora que a disputa
pelo status quo das hegemonias está presente
em ambos os entendimentos do conito. E,
como a Ucrânia, Taiwan se encontra entre
uma disputa de duas hegemonias, China e Es-
tados Unidos, em busca da ampliação de seus
respectivos status quo.
2 “[...] the West had been moving into Russias backyard and
threatening its core strategic interests.
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A DISPUTA VELADA PELO
STATUS
QUO DE TAIWAN
China e Estados Unidos debatem constan-
temente pela disputa de soberania em diversas
frentes de conitos ao redor do mundo. Muitas
vezes, terceirizando suas participações para evi-
tar o choque direto entre si, seja apoiando lados
opostos de um conito já existente, como por
exemplo a situação Norte e Sul coreana.
Quando a disputa é diretamente da par-
te com o país hegemônico, a outra hegemonia
nancia, incentiva, apoia o outro lado, pois,
pensando no cenário global como um todo.
Em um cenário de disputa de poder, visando a
política externa de cada país, qualquer conito
que possa enfraquecer uma superpotência rival,
vale o investimento ou até a não interferência
para solucioná-lo.
De acordo com Morgenthau (2003,
p.64), a política de status quo é uma posição
de poder já estabelecida contra a tentativa de
se implantar uma nova. A China é uma su-
perpotência consolidada no continente asiá-
tico, e os Estados Unidos também têm sua
inuência naquela região através de bases mi-
litares, como na Coreia do Sul e no Japão
3
,
acordos bilaterais
4
e vantagens econômicas
5
.
E o conito entre China e Estados Unidos
3 De acordo com o Defense Manpower Data Center (2023),
os Estados Unidos possuem 24.159 mil militares america-
nos na ativa em bases dentro da Coreia do Sul e 53.246 mil
militares em bases no Japão, fora civis militares ou famílias
de militares.
4 Acordos bilaterais em diversas áreas como a Declaração de
Washington, na segurança, que prevê, dentre outros, o envio
de um submarino nuclear americano periodicamente para
a Coreia do Sul, além de inserir o país no “guarda-chuva
nuclear de proteção americana (e White House, 2023).
5 O mais recente deles é o acordo rmado entre Estados uni-
dos e Japão que isenta ambos os países de impostos e taxas
sobre exportação de minerais críticos para a produção de
baterias de carros elétricos. A China possui amplo domínio
neste mercado e os americanos almejam diminuir a vulnera-
bilidade deles sobre o tema (Swanson, 2023).
pela independência ou não de Taiwan não
foge a essa regra.
Em 1970, ainda no contexto de um
mundo bipolar devido a Guerra Fria (1947-
1991), Taiwan sofreu um duro golpe contra
a sua independência e autonomia, que ainda
não é declarada. As Nações Unidas concediam
o assento chinês em suas reuniões para a Re-
pública da China, que hoje é conhecida por
Taiwan. Isto era feito, porque a capital de toda
China ocialmente estava sediada em Taipei,
no pós-segunda guerra mundial. Havia este
embate entre a ONU e a China continental
no período de Guerra Fria, pois os países oci-
dentais capitaneados pelos Estados Unidos
não almejavam conceder poderes ao regime
comunista que se instaurava formalmente na
parte continental do país desde 1949, iniciado
por Mao Tsé-tung. Para as nações ocidentais,
possuíam diferenciações entre a China conti-
nental e a ilha em que conhecemos hoje como
Taiwan, sendo respetivamente República Po-
pular da China (China Continental) e Repú-
blica da China (Taiwan).
A República da China (Taiwan) era con-
siderada como a “China Livre” pelas nações
ocidentais. Por este fator, o assento chinês na
ONU, bem como poder de voto e veto, repre-
sentações em assembleias e conselhos, e parti-
cipações em formalidades estavam assegurados
pelo governo presente em Taipei, e não na Chi-
na Continental (Ko, 2004, p. 146).
Porém, em 1971, depois de extensas
negociações e principalmente por receio do
poderio e preocupação de ambos com os so-
viéticos da URSS e de como uma aliança en-
tre China e Estados Unidos auxiliaria nesta
questão (Tucker, 2005, p. 117), o assento na
ONU, que antes pertencia a Taiwan, foi con-
cedido à China Continental, e Pequim logo
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se apressou em determinar medidas que ga-
rantissem que Taiwan não se rebelasse, como
restrições de liberdades, aumentando seu con-
trole na ilha, na década de 70.
Com a ilha sob controle da China, resta-
vam poucas alternativas a Taiwan, ou o con-
fronto bélico direto, que seria um fracasso to-
tal e resultaria em milhares de mortes, ou um
plano mais a longo prazo, que a princípio, o
governo chinês acharia lucrativo e consegui-
ria passar desapercebido. Este projeto consiste
em utilizar o mercado e as vantagens compa-
rativas do país aumentando a dependência de
agentes externos à sua economia e atrelando-a
a sua independência. Basicamente utilizando
o mercado e as vantagens de Taiwan contra a
própria China.
No contexto de dominância, Taiwan da
década de 70 era dispendiosa. O impacto das
crises globais do petróleo atingiu a economia
da ilha – assim como sentida em todo o glo-
bo -, ampliando a situação de dependência da
China, haja vista que a maioria dos acordos
comerciais bilaterais foram suspensos devido
ao não-reconhecimento de Taiwan como um
Estado independente pós-1971, por conse-
guinte, países mantendo acordos bilaterais
com a província rebelde sinalizava à Chi-
na que não respeitavam sua soberania sobre
aquele território, o que geraria conitos e in-
disposições internacionais com os chineses e
seus aliados, sob o qual a maioria esmagadora
dos países preferiu evitar, inclusive os Estados
Unidos, que suspendeu as ajudas e facilita-
ções de empréstimos para não agredir a sobe-
rania chinesa.
Os americanos eram responsáveis por
mandar ajudas substanciais para desenvolver
a indústria, bem como utilizava a ilha como
um ato de resistência ao comunismo que se
implementara pouco a pouco no leste asiático,
com aportes principalmente na década de 50 e
60. Para se ter um parâmetro, 31% de todo o
investimento estrangeiro que os Estados Uni-
dos da América realizavam ao redor do mun-
do em agricultura, indústria e tecnologia entre
os anos 1951-1953 era localizado em Taiwan
(Ko, 2004, p. 171).
Com essa baixa brusca no orçamento,
Taiwan precisou se reinventar. O cenário re-
gional do leste asiático em meados dos anos
70 era o investimento em tecnologia, princi-
palmente encabeçado por Coreia do Sul, Ja-
pão e Hong Kong, esta última, em situação se-
melhante a Taiwan, já que estava sob domínio
britânico, almejava a independência, porém,
retornada aos domínios chineses ocialmente
em 1984, como Taiwan.
O contexto em que se encontra Taiwan é
o de independência não reconhecida pelos de-
mais países do sistema internacional. De fato,
Taiwan é coagida com ameaças bélicas diretas
a não iniciar um processo de independência,
pois caso faça, eclodirá uma guerra. Constan-
temente posições e discursos ociais direta-
mente ameaçam Taiwan, como por exemplo
o discurso do hoje ex-Ministro da Defesa
Wu Qian: “Nós estamos falando sério com as
Forças pela independência de Taiwan: Aque-
les que brincam com fogo irão se queimar, e
a independência de Taiwan signica guerra
(Zhen, 2021, tradução nossa)
6
.
6 “We are seriously telling those Taiwan Independence
forces: those who play with re will burn themselves,
and Taiwan Independence means war”
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A DEFESA DAS FRONTEIRAS
PELA INTERDEPENDÊNCIA
COMPLEXA
De acordo com Wendt (1999, p. 202),
um Estado para ser designado como tal, neces-
sita possuir cinco características basilares, são
estas: Uma ordem institucional legal funcio-
nando; uma organização que detenha o mo-
nopólio e o uso legitimado da força e violência
(leia-se polícia e forças de segurança); uma or-
ganização com soberania; uma sociedade e um
território estabelecido. Embora Taiwan não
possua sua independência reconhecida formal-
mente por órgãos internacionais e a maioria
dos países do mundo, a ilha possui característi-
cas de um Estado-nação. O formalismo da in-
dependência de Taiwan não existir não impede
a ilha de praticar sua independência de fato,
haja vista que possui identidade corporativa de
Estado (Kuntić, 2015).
Notório que, contando exclusivamente
com suas próprias forças militares, Taiwan não
se sustentará em um conito armado contra a
China. Então, o governo da ilha de Formosa
submeteu-se à China militarmente e atua em
outras frentes para igualar a balança de poder
dentre as nações. Os investimentos massivos
em tecnologia e em educação na área tecno-
lógica foram o trunfo para Taiwan ganhar no-
toriedade e maior relevância, não só regional,
mas globalmente.
Keohane e Nye explicam o conceito de
vulnerabilidade e sensibilidade como fatores
que quanticam uma interdependência entre
atores internacionais. Em suma, a sensibilida-
de, é o ato de um Estado conseguir responder
com rapidez a quaisquer eventuais contratem-
pos internacionais, e a vulnerabilidade é me-
dida através dos custos desta resposta – sejam
políticos, econômicos, sociais, etc. - se ela foi
efetiva ou deixou sequela à nação (Keohane;
Nye, 2012, p. 231-234).
Um país é sensível a outro quando algo
acontece além-fronteiras e o país sente. Quan-
to mais sensível um país é em relação a outro,
maior sua dependência, haja vista que a esta-
bilidade do país não depende apenas de seu
governo, mas sim, se o outro país está fazendo
um bom trabalho também. E vulnerabilidade
é o ato de conseguir responder para minimizar
os danos causados pela sensibilidade. Se um
país conseguir responder com altivez sua sen-
sibilidade, ele é mais sensível que vulnerável.
A China ao nal da década de 1970, épo-
ca cuja as mudanças da ONU já se congu-
ravam estabelecidas, pouco era ‘sensível’ ou
vulnerável’ a Taiwan. Se uma crise ocorresse na
ilha, afetaria o preço dos peixes no continente,
talvez um ou outro imbróglio militar, todavia
controlado e nada fora do esperado.
Porém, a recíproca não valia para ambos.
Com Taiwan fora da ONU, seus acordos eco-
nômicos independentes do governo de Pequim
praticamente inexistiam, e os que se mantive-
ram, não eram substanciais. A sensibilidade so-
bre o que acontecia na China era enorme, e a
vulnerabilidade acompanhava, pois o poder de
resposta também não existia.
O investimento alocado em educação
e tecnologia rendeu frutos a longo prazo. O
maior exemplo fora a criação do Parque In-
dustrial de Ciências Hsinchu, inaugurado
no nal de 1980. Este complexo incentivava
a produção de prossionais focalizando na
área tecnológica além de descobertas de no-
vas tecnologias. A situação de ‘dependência
entre países ou atores variados é denido por
Keohane e Nye (2012, p. 7) como quaisquer
situações que afetam signicantemente sua
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política interna oriunda de forças externas. O
Hsinchu não despertou os radares chineses de
ameaça, pois, em teoria, seria proveitoso ter
em seu domínio uma formação de mão-de-
-obra qualicada e descobertas tecnológicas,
mesmo que em uma província rebelde, além
de que os chineses não previram que cariam
dependentes, sensíveis e vulneráveis a curto
prazo da tecnologia taiwanesa.
Mas isso aconteceu. Taiwan se desenvol-
veu tecnologicamente a ponto de produzir
56% de todos os semicondutores no mundo
(Prashad, 2023, p.1) e 92% dos mais avan-
çados, que possuem componentes menores
que 10 nanômetros e maior capacidade (Bu-
chholtz, 2023, p. 1). Esses semicondutores
são essenciais para o funcionamento de apa-
relhos de uso cotidiano, como televisores, ce-
lulares, videogames, computadores, e também
os de tecnologias mais avançadas, e até bélica.
Com um amplo domínio de mercado em uma
área tão relevante, todos os países do mundo
aumentaram a sensibilidade e vulnerabilidade
sobre o que acontece em Taiwan. Nenhum
país no mundo consegue, a curto prazo, subs-
tituir Taiwan e sua produção de semiconduto-
res com tanta eciência, o que levaria a para-
lisação de produção de diversas empresas caso
uma guerra eclodisse, proporcionando uma
crise nanceira catastróca.
Os países ocidentais, capitaneados pelos
Estados Unidos, também não almejam que a
produção do praticamente “monopólio mun-
dial” de semicondutores que Taiwan possui,
caia nas mãos do governo de Pequim, pois se-
ria uma arma letal contra os países ocidentais.
Colocando em perspectiva com acontecimen-
tos recentes, a Rússia invadiu militarmente a
Ucrânia com nenhuma resistência militar do
ocidente, não porque eles não queiram inter-
ferir, mas a Rússia detém o maior abasteci-
mento de gás natural da Europa, que é um
bem essencial para o aquecimento das casas,
devido ao inverno rigoroso europeu. Todos
os reexos que o ocidente fez para repudiar
a guerra não envolveram combater com tro-
pas diretamente a Rússia. Se restringiram em
respostas econômicas através de sanções, blo-
queio de contas, retirada do sistema Swift, e
nanciamento de armamentos, mantimentos,
ajudas humanitárias para a Ucrânia.
Nem mesmo os Estados Unidos, que di-
retamente não possui tanta vulnerabilidade
ou sensibilidade ao interrompimento do for-
necimento do gás russo, consegue atuar beli-
camente em prol da Ucrânia, pois, os america-
nos possuem indiretamente vulnerabilidade e
sensibilidade ao continente europeu. E se uma
crise sem precedentes ocorrer no Velho Conti-
nente – que é o que aconteceria em caso de in-
terrompimento abrupto do fornecimento de
gás russo -, os Estados Unidos sentiriam seus
aliados e parceiros comerciais de longa data
perecerem, diminuírem importações e expor-
tações, dentre outros reexos, levando a uma
crise americana também.
Do outro lado, também é custoso para a
Rússia cortar o fornecimento de gás, que po-
deria levar a uma guerra de proporções catas-
trócas, e não localizada apenas na Ucrânia.
A postura do presidente americano Joe Biden
sobre o conito russo-ucraniano sempre reitera
a não-interferência direta militar.
“Nós não procuramos uma guerra entre
OTAN e Rússia. [...] Enquanto os Estados
Unidos ou nossos aliados não são atacados,
nós não estaremos diretamente engajados
neste conito enviando tropas americanas
para lutar na Ucrânia ou para atacar as Forças
Russas.” (Biden, 2022)
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Sobre Taiwan, as declarações do governo
americano são diferentes. Em caso de invasão
chinesa, as declarações de chefes de Estado
americanos não se restringem a questões econô-
micas e políticas. Os Estados Unidos, de fato,
já declararam reiteradas vezes que defenderiam
militarmente Taiwan em caso de invasão chine-
sa para tentar controlar a província rebelde. Joe
Biden, atual presidente americano, no dia 23
de maio do ano de 2022 em visita ao Japão ar-
mou o compromisso de defender Taiwan mili-
tarmente quando interpelado por um repórter
(Liptak; Judd, 2022, p.1). Sob a ótica america-
na, o controle político e econômico de Taiwan
não é tratado como um problema interno chi-
nês. O praticamente monopólio da produção
de semicondutores no mundo faz com que a
independência da província rebelde seja fator
fundamental à política externa do ocidente. Os
semicondutores atualmente são bens essenciais
para produção da maioria dos aparelhos ele-
trônicos. Até o momento, insubstituíveis. Esta
dependência do produto taiwanês atua como
um “escudo de silício” protegendo a ilha de
eventuais ataques chineses para a retomada de
controle do seu território.
Esta mudança de postura entre a situa-
ção da Ucrânia e Taiwan pelos Estados Uni-
dos exemplica como os americanos possuem
maior vulnerabilidade e sensibilidade se a pro-
dução de semicondutores taiwaneses carem
sob controle exclusivo chinês. A curto prazo,
a produção de grãos da Ucrânia consegue ser
substituída. Os preços de alguns produtos ao
redor do globo aumentarão, os reexos de um
conito desta magnitude são sentidos em di-
versos países, principalmente os menos abas-
tados, onde o aumento de preço de produtos
alimentícios acarretam em fome. Mas há a pos-
sibilidade de substituir as importações ucrania-
nas, utilizar de outros países que produzem os
grãos, haja vista que o país não é o maior pro-
dutor da área. Esta mesma lógica se aplica para
energia nuclear e equipamentos, outro comér-
cio em que Kiev possui destaque. A escassez do
produto se deverá ao preço aplicado à ele, e não
a inexistência da mercadoria em si.
O mercado de semicondutores é diferente
do mercado de grãos ou energia nuclear ucra-
niano. Taiwan é líder disparada no seguimento,
e quando se trata de nanotecnologia em semi-
condutores, produz mais de 90% no mundo,
deixando para trás a Coreia do Sul, que é a se-
gunda colocada.
Bens de primeira necessidade utilizam de
semicondutores para funcionar. Em caso de
uma guerra e paralização da produção, em-
presas de tecnologia ao redor do mundo como
Apple, Google, Microsoft, Samsung, Sony, e
outras empresas que empregam tecnologia em
seus produtos, como a indústria automobilís-
tica, por exemplo, seriam forçadas a parar suas
produções pela escassez de semicondutores.
A quantidade de empregos e produtos
dependentes destes componentes é incalculá-
vel. Taiwan utiliza a sensibilidade e vulnerabi-
lidade dos países à seus semicondutores como
autodefesa da China. A dependência dos Es-
tados Unidos dos semicondutores taiwaneses
é considerada uma proteção – ‘Escudo de Silí-
cio’ - contra ameaças da China de reintegração
de posse.
A China continental não detém o con-
trole das fábricas taiwanesas. Taiwan atua in-
dependentemente das políticas chinesas em
diversas áreas. Apesar de possuírem relações
comerciais, elas não demonstram um sen-
timento de pertencimento. Há relações co-
merciais e leis estritamente direcionadas para
investimentos de chineses do continente. Tai-
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wan não é regida pelas normas constitucionais
chinesas, mas sim possui sua própria consti-
tuição e autonomia para aplicá-la. É expres-
samente proibido pessoas liadas ao Partido
Comunista Chinês, militares ou ex-militares
de investirem na ilha, mesmo que como civis.
Outras grandes companhias chinesas muitas
vezes são restritas a investirem em ‘áreas não-
-estratégicas’ denidas pelo governo de Tai-
wan (Taiwan, 2022).
Dado o exposto acima, Taiwan possui di-
versas restrições sobre capital da China con-
tinental dentro da ilha, mesmo que advindo
de civis. A regulação que perpassa um chinês
do continente ou até um taiwanês que mora
no continente é diferenciada. Existem leis du-
ríssimas que regulam o cidadão que possuiu
contato com o continente. Nenhum cidadão
da China continental pode entrar em Taiwan
sem a autorização da autoridade competente
taiwanesa, e mesmo as que forem autorizadas a
entrada, não poderão participar de atividades
que sejam inconsistentes com o visto
7
. Mesmo
os cidadãos da China continental que apli-
carem para um visto de reunião familiar será
entrevistado, colhido as impressões digitais e
registrado. Expressamente proibido entrar sem
estas etapas
8
. (Taiwan, 2022)
7 Art. 10: “No people of the Mainland Area may enter into
the Taiwan Area without permission of the competent au-
thorities. Any of the people of the Mainland Area who are
permitted to enter into the Taiwan Area may not engage in
any activity inconsistent with the purposes of the permis-
sion. Rules governing the granting of permission referred
to in the preceding two paragraphs shall be drafted by the
competent authorities concerned and submitted to the Exe-
cutive Yuan for approval.
8 Art. 10-1: “Any of the people of the Mainland Area who
apply to enter into the Taiwan Area for family reunion, resi-
dency, or permanent residency shall be interviewed, nger-
printed, and registered for record; where it fails to be inter-
viewed or ngerprinted, no permission shall be granted to
its application for family reunion, residency, or permanent
residency. Governing rules thereof shall be prescribed by the
competent authorities.
O capital chinês em Taiwan é extrema-
mente regulado. Os chineses, mesmo empresas
compostas por civis, não podem investir em
segmentos não autorizados pelo governo taiwa-
nês. E, caso autorizados, há diversas regulações
sobre qual a porcentagem máxima da empre-
sa que poderá pertencer a chineses, bem como
regulações pesadas, até expondo ao governo
taiwanês a lista de acionistas, mesmo que mi-
noritários, e o balancete interno de lucros da
empresa (Taiwan, 2023).
Esta regulação extrema é justicada pela
segurança nacional. O hoje ex-Ministro da
Economia Su Chi-yen enquanto estava no
cargo declarou em entrevista que companhias
chinesas são restritas a investir em setores não-
-sensíveis, como atacado e varejo. proteger a
inteligência empresarial [de Taiwan] é uma
questão de segurança nacional” (Oung, 2020).
Se considerarmos Taiwan um país, a ilha ca-
ria proporcionalmente em terceiro dentre os
Estados que mais aplicam fundos em pesqui-
sa e desenvolvimento, com cerca de 3,5% do
produto Interno Bruto apenas para este m
(Cauti, 2022, p.1).
Mesmo em segmentos considerados não-
-sensíveis por Taiwan, a lei da ilha restringe
porcentagem e regula com atenção os investi-
dores advindos da China continental, mesmo
estrangeiros ou até taiwaneses que lá residem.
Já no quesito defesa nacional, há dois aspectos
relevantes: primeiramente, o fato dos semicon-
dutores, bem como todo o complexo Hsinchu
direcionarem seus progressos também para a
tecnologia militar (So, 2006, p. 71), sendo os
semicondutores necessários para radares, dro-
nes e até em mísseis teleguiados, assim, incre-
mentando a indústria bélica não só de Taiwan,
mas de parceiros comerciais que possam vir a
defender a ilha em caso de uma invasão chinesa.
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O segundo aspecto é que ser o grande
produtor de semicondutores mundial, fazen-
do com que os Estados Unidos da América
possuam uma alta sensibilidade sobre o que
acontece em Taiwan, é um reforço à seguran-
ça da ilha de quaisquer eventuais conitos
armados que ameacem sua independência
de fato. Em um mundo interconectado, o
que acontece em Taiwan reetirá dentro das
fronteiras americanas enquanto os Estados
Unidos não reduzir esta dependência dos se-
micondutores taiwaneses.
Combinando a massiva produção e avan-
çada capacidade de manufaturar os chips tec-
nológicos com a dependência mundial dos
semicondutores, Taiwan consegue se proteger
das ameaças chinesas contra sua independên-
cia e soberania. A manobra taiwanesa está ca-
talogada na academia como “o escudo de silí-
cio”, que em conjunto com a economia forte e
superavitária da ilha, se tornam essenciais para
a segurança nacional do país (Nordin; Stün-
kel, 2022, p.5).
O fato de os semicondutores taiwaneses
não possuírem até a presente data substitutos
à altura em qualidade e tamanho de produ-
ção, além da tecnologia para tal ser extrema-
mente protegida por Taiwan como questão
de segurança nacional, torna países hegemô-
nicos e com poderio militar alto, como os
Estados Unidos, vulneráveis ao que acontece
na ilha. A defesa da soberania de Taiwan pe-
los americanos é provocada por esta vulnera-
bilidade. Ao contrário dos produtos oferta-
dos pela Ucrânia, Taiwan e seu praticamente
monopólio da produção de semicondutores
- produto este essencial e sem substituição no
mercado - implicam com que a importância
da independência da província rebelde seja
fundamental para a economia americana.
Por outro lado, a existência de uma Taiwan
independente da China, todavia, está inter-
conectada a produção e monopólio dos semi-
condutores, além da incapacidade de subs-
tituição deste componente. Keohane e Nye
(2012, p. 233) utilizam o termo ‘interdepen-
dência de vulnerabilidade’ para explicar este
fenômeno. Atores podem ter suas escolhas
de ação limitadas pela interdependência. A
declaração dos Estados Unidos armando ca-
tegoricamente que defenderão militarmente
Taiwan em caso de tentativa de ocupação mi-
litar chinesa pode indicar que suas opções de
ação no conito tenham sido limitadas pela
vulnerabilidade que o país possui causada pe-
los semicondutores.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em suma, o “escudo de silício” atua com
uma arma de defesa para Taiwan, pois uma
ação contra a ilha acarretaria uma ameaça a ca-
deia de suprimentos global de semicondutores,
sem substituição imediata, nem há uma sina-
lização de substituição a curto e médio prazo
para a indústria taiwanesa no mundo.
O fato de os semicondutores serem pro-
dutos essenciais para diversas áreas e não pos-
suírem substituições faz com que a sensibili-
dade e vulnerabilidade de países hegemônicos
perpasse pelo que acontece na ilha.
Ameaças a soberania de Taiwan são senti-
das mesmo em países tidos como hegemônicos.
O não-desejo de que a indústria de semicondu-
tores que sob domínio exclusivo chinês é uma
forte motivação para os países aliados dos Esta-
dos Unidos, principalmente ocidentais – mas
não descartando aliados orientais como Japão e
Coreia do Sul -, entrem em conito bélico para
defender a autonomia de Taiwan.
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Acordos econômicos são feitos bilate-
ralmente com Taiwan, como se a ilha fosse
independente, perpassando a autoridade do
governo chinês, que considera este ato uma
afronta, mandando mensagem para forças
dentro do país que almejam a soberania com-
pleta da ilha (G1, 2023, p.1). Porém, apesar
da indisposição da China com os Estados
Unidos, temos um impasse generalizado onde
ambos os países dependem de Taiwan para a
produção de semicondutores, inclusive para
fazer guerras, pois se trata de matéria-prima
essencial utilizada nas indústrias bélicas de
todo o mundo.
Também é característica do “escudo de
silício” o fato de que diversas indústrias e
economias seriam afetadas por um conito
bélico em Taiwan, pois a produção de semi-
condutores estaria em risco e o custo de uma
guerra seria maior que o ganho, mesmo para
o lado vencedor do conito, graças a inter-
dependência complexa que o mundo possui.
Duas superpotências, as maiores economias
mundiais, Estados Unidos e China, juntos
são responsáveis pelos maiores volumes no
mercado nanceiro, seja de importações ou
exportações, inclusive entre as partes, o que
os tornam sensíveis e vulneráveis, dependen-
tes uns dos outros.
As demonstrações de poder entre os paí-
ses na região, seja através de declarações de seus
representantes ou de manobras militares, carac-
terizam um soft power para manter o status quo
regional, não deixando sem resposta as ações de
seus rivais, além de demarcarem posição numa
tentativa de demonstrar hegemonia.
Antes de iniciar um conito armado, os
países estudam os custos do conito, e estes
custos não são apenas nanceiros. Morgenthau
(2003, p. 295-320) dene este estudo como
avaliação do poder nacional”, onde além da
lógica simplista de avaliar seu poder bélico pe-
rante o do adversário, é considerada toda for-
ma de poder no cálculo avaliativo. Relações
políticas, geopolítica, custos, tempo... todos
estes exemplos fazem parte de uma avaliação
de poder. E esta avaliação precisa ser honesta,
isenta de nacionalismos, pois apenas um erro
de cálculo pode custar a soberania nacional e a
prosperidade do país.
Os Estados Unidos depender de Taiwan
em diversos aspectos de sua economia por con-
ta dos semicondutores faz com que não apenas
o exército de Taiwan seja levado em conta em
uma “avaliação do poder nacional” feita pela
China, mas também o dos Estados Unidos e de
todos os outros países aliados aos americanos
que, por algum motivo, seriam persuadidos a
auxiliá-los em um possível conito armado.
Este é o “escudo de silício” de Taiwan, que
prospera devido a dependência mundial dos
semicondutores produzidos na ilha rebelde. O
quanto esta proteção irá durar? Não podemos
precisar. Depende do avanço da tecnologia e do
investimento em semicondutores pelos outros
países. Mas Taiwan ainda tem outras artima-
nhas para garantir que perdure este domínio
do mercado: o preço de sua mão-de-obra e
produção. Países com amplas leis trabalhistas
e impostos mais altos dicilmente conseguirão
competir com os preços de Taiwan.
O investimento em pesquisa e desenvolvi-
mento ser alto em Taiwan não causa espanto aos
analistas internacionais, pois este investimento
também atua como um investimento em defe-
sa nacional, que todo o país possui. Através do
investimento e desenvolvimento e da ciência, o
escudo de silício” que permeia a ilha formosa
está cada vez mais reforçado, mantendo intacta
suas fronteiras, seus quase 24 milhões de ha-
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bitantes e resguardando sua autonomia como
país independente, que a China insiste em cha-
mar de ‘província rebelde’.
Enquanto persistir a dominância global
no mercado dos semicondutores em Taiwan,
bem como a continuidade da importância dos
mesmos semicondutores como matéria-prima
de produtos essenciais para a economia glo-
bal, um conito armado na região continuará
desestimulado devido ao alto custo e a vulne-
rabilidade dos países ao produto. O futuro e
a vinda de novas tecnologias também podem
complicar Taiwan, mas pelos investimentos
em educação, tecnologia e desenvolvimento da
ilha, os taiwaneses estão se preparando para ele.
Com isto, o “escudo de silício” ca cada vez
mais reforçado, blindando o país sem levan-
tar nenhuma parede, mas a interdependência
complexa o faz mais intransponível que muitos
tanques de fabricação chinesa ou americana.
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