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O FUTURO DO TRABALHO
ASSALARIADO SEGUNDO A LEI GERAL
DA ACUMULAÇÃO CAPITALISTA NA
PERSPECTIVA DA NOVA REVOLUÇÃO
TECNOLÓGICA.
THE FUTURE OF WAGE LABOR ACCORDING TO THE GENERAL LAW OF
CAPITALIST ACCUMULATION IN THE PERSPECTIVE OF THE NEW TECH-
NOLOGICAL REVOLUTION
EL FUTURO DEL TRABAJO ASALARIADO SEGÚN LA LEY GENERAL DE
ACUMULACIÓN CAPITALISTA DESDE LA PERSPECTIVA DE LA NUEVA
REVOLUCIÓN TECNOLÓGICA.
Noêmia Lazzareschi
1
Marcelo Augusto Vieira Graglia
2
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2023v20n1p24-38
Recebido em: 15 de agosto de 2023
Aceito em: 06 de fevereiro de 2024
RESUMO
Este artigo discute as transformações que vêm afetando o mundo do trabalho, e suas
perspectivas de futuro, segundo a lei geral da acumulação capitalista, especialmente
considerando o contexto da nova revolução tecnológica baseada na expansão da
inteligência articial e de outras tecnologias digitais. Aponta, ainda, os fenômenos do
taylorismo/fordismo, as crises que os sucederam, o processo de globalização da economia e
as implicações sociais da reestruturação produtiva.
Palavras-chave: Futuro Do Trabalho; Lei geral da Acumulação Capitalista; Revolução
Tecnológica; Inteligência Articial.
ABSTRACT
is article discusses the transformations that have been aecting the world of work, and
its future prospects, according to the general law of capitalist accumulation, especially
1 Doutora em Ciências Sociais pelo Instituto de Filosoa, Ciências e Letras da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP.
Professora de Sociologia da Faculdade de Ciências Sociais e do Programa de Estudos Pós-Graduados da PUCSP. Contato: acyr.
noemia@terra.com.br
2 Doutor em Tecnologias da Inteligência e Design Digital pela PUC-SP; Engenheiro Mecânico e Mestre em engenharia pela UNESP;
Pós-doutor em Inteligência Articial e Impactos Sociais pela PUC-SP; Prof. do depto. de Administração da PUC-SP e Coordenador
do Programa de Estudos Pós-Graduados em Tecnologias da Inteligência e Design Digital. Contato: marcelograglia@me.com
Artigo
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INTRODUÇÃO
O início do século XXI marca o adven-
to de uma nova onda de inovação tecnológica,
que se forma, especialmente, a partir da expan-
são das tecnologias digitais. Realidade virtual e
aumentada, blockchain, computação quântica,
robótica avançada e, de forma destacada, in-
teligência articial, são parte de um conjunto
de tecnologias disruptivas, cujo potencial de
aplicação em diversos campos pode impactar
fortemente diversos aspectos da vida humana:
o social, o econômico, o educacional, entre
outros. A magnitude das transformações que
já se iniciam permite classicar este fenômeno
como uma nova revolução tecnológica (Gra-
glia; Huelsen, 2020).
Sistemas baseados em inteligência arti-
cial e, mais recentemente, os modelos LLM
Large Language Models, ou grandes modelos
de linguagem, concretizados através do lança-
mento de produtos como o ChatGPT da em-
presa Open AI, o Bard, da Google e o Bing
do Facebook, são capazes de gerar textos sos-
ticados, relatórios técnicos, trabalhos escolares,
artigos cientícos, poemas, códigos de compu-
tação, entre outros, podendo adotar, inclusi-
ve, o estilo de autores cujos materiais estejam
disponíveis na internet. Também os produtos
DALL-E, lançado pela Open AI e o Midjour-
ney desenvolvido pelo laboratório de pesqui-
sa independente Midjourney Inc. localizado
na cidade de São Francisco, EUA, processam
linguagem natural e são capazes de gerar ima-
gens em diferentes estilos, como imagens foto
realistas e mesmo pinturas de objetos ou rostos
humanos, por exemplo, a partir de descrições
textuais. Estamos, pois, vivendo uma verdadei-
ra revolução tecnológica como desdobramento
do processo de reestruturação produtiva que se
iniciou nas últimas décadas do século XX com
o desenvolvimento das tecnologias da informa-
ção de base microeletrônica.
Estas recentes tecnologias digitais têm po-
tencialidade para transformar radical e profun-
damente não só o mundo do trabalho nos mais
diferentes ramos da vida econômica, como
também a maioria das atividades humanas e
todas as dimensões da vida social e da vida de
todas as pessoas no curtíssimo prazo, dado o
seu poder de rápida difusão e sua enorme ca-
pacidade de substituir tarefas cognitivas tipica-
considering the context of the new technological revolution based on the expansion of
articial intelligence and other digital technologies. It also points out the phenomena
of Taylorism/Fordism, the crises that followed them, the process of globalization of the
economy and the social implications of productive restructuring.
Key words: e Future Of Work; General Law of Capitalist Accumulation; Technological
Revolution; Articial Intelligence.
RESUMEN
Este artículo analiza las transformaciones que vienen afectando al mundo del trabajo, y
sus perspectivas futuras, según la ley general de la acumulación capitalista, especialmente
considerando el contexto de la nueva revolución tecnológica basada en la expansión de
la inteligencia articial y otras tecnologías digitales. También señala los fenómenos del
taylorismo/fordismo, las crisis que les siguieron, el proceso de globalización de la economía
y las implicaciones sociales de la reestructuración productiva.
Palabras clave: Futuro Del Trabajo; Ley General De Acumulación Capitalista; Revolución
Tecnológica; Inteligencia Articial.
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mente, e até então, executadas exclusivamente
por humanos.
A análise sociológica das possíveis con-
sequências econômicas, políticas, sociais, cul-
turais de sua utilização nos remete imediata e
fundamentalmente não só ao capítulo XXIII
do livro I de O Capital – O processo de produ-
ção capitalista – de Karl Marx, como também
ao Manifesto Comunista de Marx e F. Engels,
cujo conteúdo é a apresentação clara, simples
e resumida da lógica da estrutura do modo de
produção capitalista e a antecipação de seus
diferentes estágios de realização, fundamento
teórico necessário para a compreensão da con-
temporaneidade.
Não se pretende reproduzir aqui aqueles
textos, mas apenas lembrar que a compreen-
são das novas transformações dos mundos do
trabalho e suas implicações sociais está ali su-
gerida, devendo-se apenas atualizá-las. Repor-
tando-se inicialmente aos séculos XIX e XX,
constata-se, tal como previsto por Marx, que
alterações nos meios de produção, isto é, no ca-
pital constante, provocam alterações na soma
global dos salários, isto é, no capital variável.
Em outras palavras: alteram a composição or-
gânica do capital:
“Chamo a primeira composição segundo
o valor, e a segunda de composição técni-
ca. Há estreita correlação entre ambas. Para
expressá-la, chamo a composição do capital
segundo o valor, na medida em que é deter-
minada pela composição técnica e reete as
modicações desta, de composição orgânica
do capital” (Marx, 1971, p.713).
As alterações no capital constante, graças,
sobretudo, à introdução da máquina a vapor,
propiciaram o início do processo de industria-
lização no século XVIII e sua intensicação no
século seguinte, ampliando muito signicativa-
mente o número de trabalhadores assalariados,
operários em sua grande maioria, em quase to-
dos os países da Europa ocidental.
Este artigo tem como objetivos demonstrar:
1) os efeitos sociais imediatos e perversos
do processo de reestruturação do mundo do
trabalho com a introdução das tecnologias di-
gitais, como a inteligência articial, e de novas
técnicas de organização do processo de produ-
ção e de prestação de serviços;
2) que os prognósticos mais otimistas
sobre as consequências econômicas, políticas,
sociais e culturais da introdução das inovações
tecnológicas e organizacionais das últimas dé-
cadas do século passado que revolucionaram o
mundo do trabalho e permitiram vislumbrar
o advento de um mundo novo, de uma nova
sociedade na qual os trabalhadores disporiam
não só de melhores condições materiais de
vida, mas, sobretudo, de tempo para sua auto
realização, tornando realidade o sonho de toda
a humanidade de ter “direito à preguiça”, resul-
taram do total desconhecimento da lógica da
acumulação capitalista.
A argumentação teórica deste artigo se
fundamenta na literatura nacional e interna-
cional da Sociologia Geral e da Sociologia do
Trabalho, cujo conteúdo permite o aprofunda-
mento da análise e compreensão das diferentes
etapas do processo de realização e desenvolvi-
mento do modo de produção capitalista, tal
como indicadas nos três diferentes itens que o
constituem.
O primeiro item ou seção deste artigo tra-
ta de demonstrar as repercussões sobre o mun-
do do trabalho, a vida econômica e a vida social
da introdução e consolidação das inovações or-
ganizacionais e tecnológicas que deram origem
a duas novas formas de organização do proces-
so de trabalho, conhecidas como “taylorismo
e “fordismo”.
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Em seguida, no item II, uma análise da
crise econômica dos anos 60 e as reações das
empresas e dos governos estabelecidos para o
seu enfrentamento, cujo processo culminou
com uma nova reestruturação do processo de
trabalho e com a globalização da economia.
Reestruturação do processo de trabalho e
suas implicações sociais é a questão do item III
deste texto. Aqui a preocupação é apresentar o
toyotismo”, uma nova forma de organização
do processo de trabalho que conjuga novas tec-
nologias de base microeletrônica e novas técni-
cas gerenciais de trabalho, dando início à uma
verdadeira revolução no mundo do trabalho
com o desenvolvimento das tecnologias da in-
formação, hoje tecnologias digitais, ferramen-
tas da indústria 4.0 e do ChatGPT.
Esse item do artigo se desdobra na análise
das implicações sociais das inovações tecnoló-
gicas e organizacionais em curso, tais como o
aumento dos índices de desemprego e do mer-
cado informal de trabalho, a exigência de no-
vas e sosticadas competências prossionais, a
consolidação de novas e precárias relações de
trabalho, etc.
E nas Considerações Finais encontra-se
um breve retrospecto da situação atual vivi-
da pelos trabalhadores de todos os países in-
dustrializados do mundo, caracterizada pelo
agravamento de suas possibilidades nos mer-
cados de trabalho e, portanto, pelo agrava-
mento de suas possibilidades de sobrevivência
que, no entanto, poderá ser a origem de no-
vos rearranjos institucionais como expressão
de novas formas de resistência dos trabalha-
dores atingidos.
TAYLORISMO/FORDISMO:
“AUMENTAR CAPITAL É,
PORTANTO, AUMENTAR O
PROLETARIADO”
O século XX assistiu ao assalariamento da
maior parte das populações dos países indus-
trializados com a consolidação do taylorismo e,
fundamentalmente, do fordismo, como formas
de organização do processo de trabalho, seja do
trabalho de produção de bens, seja do processo
de prestação de serviços, comprovando a tese
do capítulo XXIII de O Capital segundo a qual
Aumentar o capital é, portanto, aumentar o
proletariado.” (Marx, 1971, p. 714).
Com efeito, por suas especicações téc-
nicas e organizacionais, com ênfase na acen-
tuação da divisão técnica do trabalho, taylo-
rismo/fordismo geraram milhões e milhões de
empregos; aumentaram a produtividade do
trabalho e as taxas de lucros dos capitalistas,
pois quanto maior o número de trabalhadores
assalariados maior sempre será a produtividade
do trabalho nas condições tecnológicas dadas
e, em decorrência, maior será a taxa da mais-
-valia; elevaram os salários; tornaram possível
a distribuição de muitos benefícios sociais de-
vido ao fortalecimento do poder de barganha
dos sindicatos; baratearam as mercadorias e
permitiram o ingresso dos trabalhadores na
sociedade de consumo, considerando-se que a
produção padronizada em massa exigia e exige
a mesma proporção de consumo, ou seja, con-
sumo de massa.
Por tudo isso, taylorismo/fordismo per-
duraram nos Estados Unidos como formas
de organização predominantes do processo de
trabalho por mais de sete décadas no século
passado, mesmo porque o sucesso econômico
que provocaram não incentivava inovações de
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produtos e muito menos inovação do proces-
so de produção dada a elevada imobilização de
capitais de sua estrutura técnica. E o sucesso
econômico que provocaram está sintetizado
nas conhecidas expressões como: “Anos Dou-
rados”, “Anos Gloriosos”, “Décadas de Ouro
como referência aos anos de considerável cres-
cimento econômico que marcaram o século
XX no período pós Segunda Grande Guerra,
graças à universalização dessas duas formas de
organização do processo de trabalho.
No entanto, tal como previsto ainda no
capítulo XXIII, a batalha da concorrência entre
muitos capitais individuais, já concentrados,
mas ainda não centralizados, só pôde ser en-
frentada com mudanças signicativas na pró-
pria organização empresarial e do processo de
trabalho para permitir a redução dos preços
das mercadorias com o aumento ainda maior
da produtividade. E para tal foi, e sempre será,
necessário primeiramente investir maciçamen-
te em ciência e tecnologia, o que demandou, e
sempre demandará, vultosos investimentos dos
governos, ou dos grandes capitalistas ou, ainda,
dos grandes capitais que se formaram a partir
da criação das sociedades anônimas ou da fusão
de muitos capitais, eliminando os pequenos e
fazendo surgir a centralização dos capitais.
A centralização completa a tarefa da acumu-
lação, capacitando o capitalista industrial a
ampliar a escala de suas operações. É o mesmo
o efeito econômico dessa ampliação, decorra
ele da acumulação ou da centralização. E tan-
to faz que a centralização se realize pela via
compulsória da anexação, quando certos ca-
pitais se tornam centros de gravitação tão po-
derosos que quebram a coesão individual de
outros capitais, absorvendo seus fragmentos,
ou mediante a fusão de capitais já formados
ou em formação, obtida por meio de processo
mais suave de constituição de sociedades anô-
nimas” (Marx, 1971, pp.728 - 729).
Mas a centralização do capital não foi su-
ciente para enfrentar a concorrência, agora
concorrência entre grandes capitais centraliza-
dos, isto é, grandes oligopólios. Outras provi-
dências foram necessárias, como a multinacio-
nalização do capital para reduzir ainda mais os
custos da produção com a instalação de uni-
dades produtivas em países de industrialização
atrasada, com abundante força de trabalho po-
liticamente desorganizada, submetida a baixos
salários, e que ofereciam garantia de generosos
incentivos scais, sem citar a falta de restrições
legais e regulatórias sobre as condições de se-
gurança no trabalho e gestão ambiental, que
costumam demandar investimentos importan-
tes para obtenção de conformidade.
Além disso, a ampliação dos mercados era,
e é, condição indubitável para a sobrevivência
dos grandes capitais – tanto industriais quanto
nanceiros - pois, como se sabe, a realização dos
lucros se efetiva no processo de circulação das
mercadorias, isto é, no ato da venda das merca-
dorias. E à medida, que o excesso de competi-
ção e a saturação dos mercados, coloca pressão
sobre os resultados nanceiros das empresas ca-
pitalistas, estas buscam possibilidades de explo-
rar novos mercados. Assim, como armavam
Marx e Engels no Manifesto Comunista:
A burguesia não pode existir sem revolucio-
nar constantemente os meios de produção e,
por conseguinte, as relações de produção e,
com elas, todas as relações sociais.” .... “Su-
primem-se todas as relações xas, cristaliza-
das, com seu cortejo de preconceitos e ideias
antigas e veneradas; todas as novas relações se
tornam antiquadas, antes mesmo de se con-
solidar. Tudo o que era sólido se evapora no
ar, tudo o que era sagrado é profanado, e por
m o homem é obrigado a encarar com sere-
nidade suas verdadeiras condições de vida e
suas relações com a espécie” (Marx; Engels,
1978, pp. 96-97).
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A CRISE DOS ANOS 60, A
REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA
E A GLOBALIZAÇÃO DA
ECONOMIA
Nas últimas décadas do século passado,
surgiram novos padrões de concorrência em
virtude da própria multinacionalização do ca-
pital e da recuperação da economia japonesa
agora elevada à potência mundial, cuja conse-
quência inevitável foi uma nova divisão inter-
nacional do trabalho ao transformar países da
América Latina – Brasil, Argentina, México – e
do Sudeste da Ásia – Coréia do Sul, Taiwan,
Cingapura, Malásia, Indonésia, Filipinas – até
então exportadores de bens primários, em paí-
ses industrializados e exportadores de bens du-
ráveis, acirrando a competição internacional e
ameaçando os interesses econômicos dos USA
e dos países industrializados da Europa.
Ironicamente, a nova divisão internacio-
nal do trabalho foi um dos fatores determi-
nantes da crise da economia mundial - crise de
consumo - que teve início na segunda metade
da década de 1960 e atingiu seu ponto culmi-
nante em 1973, quando os países produtores
criaram a OPEP e elevaram o preço do barril
do petróleo, insumo industrial insubstituível,
provocando, em decorrência, o aumento dos
preços das mercadorias. O enfrentamento da
crise e da concorrência internacional obrigou
as empresas a novas e importantes decisões que,
mais uma vez, transformaram o mundo do tra-
balho, imprimindo-lhe uma nova fase e deter-
minando o aparecimento de um novo perl de
trabalhador, tal como demonstram as análises
de Eric Hobsbawm (1995), Manuel Castells
(1999), David Harvey (1992), dentre outros
historiadores e cientistas sociais que aqui são
retomadas e assim interpretadas:
1ª) Tornava-se evidente o esgotamento re-
lativo do paradigma taylorista/fordista por sua
rigidez tecnológica e organizacional que invia-
bilizava a inovação de produtos com sua pro-
dução padronizada em massa; como enfrentar
uma crise de consumo produzindo-se em gran-
des quantidades sempre os mesmos produtos?
2ª) A instabilidade dos mercados exigia
adaptação da produção ao dinamismo da de-
manda, agora assentada na exigência de inova-
ção e qualidade dos produtos, subvertendo a
organização do trabalho ao sobrepor a deman-
da à produção;
3ª) O aparecimento de novos padrões de
consumo a exigir a inovação de produtos;
4ª) A globalização nanceira, com o m
do Tratado de Bretton Woods, da qual se tor-
naram reféns todos os países do mundo, sobre-
tudo aqueles em processo de desenvolvimento,
onerando com juros altos e desregulamentados
as atividades produtivas já pressionadas pela
elevação dos preços dos insumos industriais
devido à crise do petróleo com a formação da
Organização dos Países Produtores de Petróleo;
5ª) A rígida regulamentação dos mercados
de trabalho em vários países industrializados e
as pressões sindicais que aumentaram os salá-
rios ao longo dos Anos Dourados e exigiram
benefícios sociais, com o consequente aumento
de impostos e encargos sociais dicultando a
sobrevivência de muitas empresas e/ou redu-
zindo consideravelmente a sua margem de lu-
cros, o que signica redução de investimentos.
(Lazzareschi, 2008)
Nesse novo cenário econômico mun-
dial, as empresas iniciaram o trabalho de
adaptação das tecnologias de informação de
base microeletrônica (tecnologias desenvolvi-
das sobretudo, mas não exclusivamente, pela
NASA – National Aeronautics and Space Ad-
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ministration – durante o período mais crítico
da Guerra Fria). Também os processos produ-
tivo e de prestação de serviços foram conju-
gados aos métodos gerenciais do processo de
trabalho aprimorados no Japão – toyotismo -,
consolidando uma nova reestruturação pro-
dutiva. Suas características principais permi-
tiram, nas palavras de David Harvey (1992,
p. 141), a exibilidade dos processos de traba-
lho, dos mercados de trabalho e dos padrões
de consumo, desatando-se os três nós górdios
que provocaram a crise econômica mundial.
Estas características deram origem à uma nova
forma de acumulação do capital, pelo autor
denominada de acumulação exível.
Novamente, não foi suciente a reorgani-
zação tecnológica e organizacional do processo
de trabalho. Era necessário, ao mesmo tempo,
ampliar os mercados consumidores, ou seja,
era necessário intensicar a internacionalização
dos mercados com a redução das barreiras al-
fandegárias e a formação de blocos econômicos
com os países vizinhos ou mesmo com países
de outros continentes, via tratados de coope-
ração, para garantir mercado para os produtos
das empresas situadas nos Estados nacionais
constituintes daqueles blocos.
Além disso, o desenvolvimento tecnológi-
co também tornou possível a internacionaliza-
ção do processo de produção e de prestação de
serviços graças à internacionalização da tercei-
rização e da subcontratação, inaugurando a era
das empresas em rede, um dos pilares da reor-
ganização das empresas fundada nos princípios
do toyotismo dos anos 70 -, juntamente com o
sistema just-in-time/kanban, cuja característica
principal é a produção orientada pela deman-
da, que supõe o m ou redução signicativa
dos estoques e o controle total da qualidade do
trabalho.
O resultado desse processo foi a conso-
lidação de uma nova lógica empresarial que
provocou, dentre outras consequências, a de-
sestruturação dos mercados de trabalho ao
dispersar o processo de produção e de presta-
ção de serviços pelo mundo, cujos desdobra-
mentos imediatos se expressam no aumento
do desemprego e do mercado informal de
trabalho; no desaparecimento de muitas ocu-
pações e surgimento de outras para as quais
se exigem novas competências prossionais
(Graglia; Basílio; Almeida, 2022); no estabe-
lecimento de novas e precárias relações de tra-
balho (terceirização, contrato temporário de
trabalho, jornada parcial de trabalho, banco
de horas, pejotição, trabalho intermitente e,
mais recentemente, uberização ou plataformi-
zação das relações de trabalho); na redução do
poder de barganha dos sindicatos; no apro-
fundamento da desigualdade entre regiões,
países e continentes, dada a desigualdade na
apropriação do conhecimento cientíco e tec-
nológico. Assim, mais uma vez, conrma-se a
tese de Marx e Engels apresentada no Mani-
festo Comunista:
A necessidade de um mercado constante-
mente em expansão impele a burguesia a
invadir todo o globo. Necessita estabelecer-
-se em toda parte, explorar em toda parte,
criar vínculos em toda parte. Por meio de
sua exploração do mercado mundial, a bur-
guesia deu um caráter cosmopolita à pro-
dução e ao consumo em todos os países.
Para desespero dos reacionários, retirou da
indústria sua base nacional. As velhas in-
dústrias nacionais foram destruídas ou es-
tão se destruindo dia a dia. São suplanta-
das por novas indústrias, cuja introdução
se torna uma questão de vida e morte para
todas as nações civilizadas” (Marx; Engels,
1978, p. 97).
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AS IMPLICAÇÕES SOCIAIS DA
REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA
E quais as consequências humanas e so-
ciais de todo esse processo de modernização
tecnológica e organizacional em curso desde
as últimas décadas do século passado e que
hoje atingiu seu ponto culminante com as
mais sosticadas tecnologias digitais, como a
inteligência articial e suas recentes ferramen-
tas como o ChatGPT e seus modelos de ne-
gócio como a Indústria 4.0? As consequências
são muitas e de inusitada gravidade, dada a
sua potencialidade para provocar problemas
sociais cuja solução não se vislumbra nos cur-
to e médio prazos:
Em primeiro lugar, o problema conside-
rável da redução dos postos de trabalho a par-
tir da automatização e robotização do processo
de produção e da introdução de novas formas
de execução do trabalho em todos os setores
da vida econômica que se transformam graças
à utilização da inteligência articial, automa-
ção robótica de processos (ou RPA - Robotic
Process Automation), blockchain, big data e
da profusão de aplicativos para a satisfação
de um sem número de necessidades sociais,
além da recente introdução dos sistemas de
inteligência articial do tipo grandes modelos
de linguagem, que deverá transformar ainda
mais profundamente os mundos do trabalho
e a vida das pessoas.
A redução dos postos de trabalho e suas
implicações sobre a classe trabalhadora estão
claramente previstas nos dois textos eleitos
como orientação teórica para a elaboração des-
te artigo. Assim, o capítulo XXIII de O Ca-
pital trata de demonstrar que as alterações na
composição orgânica do capital com a intro-
dução de novos meios de produção ou novas
forças produtivas, especialmente novas tecno-
logias, resulta na produção progressiva de uma
superpopulação relativa ou de um exército
industrial de reserva, ou ainda, de uma popu-
lação excedente, que pode assumir diferentes
formas: utuante, latente e estagnada.
A superpopulação relativa existe sob os mais
variados matizes. Todo trabalhador dela faz
parte durante o tempo em que está desem-
pregado ou parcialmente empregado. As fases
alternadas do ciclo industrial fazem-na apa-
recer ora em forma aguda nas crises, ora em
forma crônica, nos períodos de paralisação.
Mas, além dessas formas principais que se re-
produzem periodicamente assume ela, conti-
nuamente, as três formas seguintes: utuante,
latente e estagnada” (Marx, 1971, p.743).
Marx denomina de latente a superpopula-
ção relativa que ora é repelida, ora atraída em
quantidade maior, segundo a escala da produ-
ção. O uxo de trabalhadores do campo para as
cidades gera no próprio campo uma população
supérua que Marx denomina de população
supérua sempre latente,
cuja dimensão só se torna visível quando,
em situações excepcionais se abrem todas
as comportas dos canais de drenagem. Por
isso o trabalhador rural é rebaixado ao nível
mínimo de salário e está sempre com um pé
no pântano do pauperismo.” (Marx, 1971,
p. 746)
A terceira categoria é a superpopulação re-
lativa estagnada, assim caracterizada por Marx:
“...ela constitui parte do exército de traba-
lhadores em ação, mas com ocupação total-
mente irregular. Ela proporciona ao capital
reservatório inesgotável de força de trabalho
disponível. Sua condição de vida se situa
abaixo do nível médio normal da classe tra-
balhadora e justamente isso torna-se a base
ampla de ramos especiais de exploração do
capital. Duração máxima de trabalho e mí-
nimo salário caracterizam sua existência.
(Marx, 1971, p.746)
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No Brasil, segundo a PNAD do IBGE
publicada em 07 de junho de 2023, o desem-
prego atinge 8,3% da população economica-
mente ativa, ou seja, o equivalente a 9 milhões
de pessoas. A reforma da CLT de 2017 regu-
lamentou relações de trabalho muito próximas
por sua precariedade daquelas que caracteri-
zam a população estagnada, segundo Marx: o
trabalho em domicílio, o contrato de trabalho
intermitente e, sobretudo, o trabalho platafor-
mizado ou, vulgarmente, trabalho uberizado.
Marx também se refere a outras categorias
da superpopulação relativa de trabalhadores
atingidos pelo desenvolvimento da estrutu-
ra econômica capitalista e os classica como
primeiro, os aptos para o trabalho; “segundo,
os órfãos e lhos de indigentes”; “terceiro, os
degradados, desmoralizados, incapazes de tra-
balhar”. (Marx, 1971, pp.744-745)
Na atualidade, podemos fazer menção às
categorias de trabalhadores temporariamente
desempregados e, portanto, temporariamen-
te excluídos do mercado formal de trabalho à
espera de conjunturas econômicas geradas de
emprego e aos excluídos do mercado formal
de trabalho seja por falta de qualicações ou
competências prossionais demandadas pelo
mercado de trabalho, seja por falta de condi-
ções morais para trabalhar. Para David Harvey
(1992), desde as últimas décadas do século pas-
sado, a situação dos trabalhadores no mercado
de trabalho tem se agravado muito e sua repre-
sentação consta da segunda parte de seu livro
Condição Pós-Moderna. Segundo o autor, a
estrutura do mercado de trabalho é constituída
de um centro composto de empregados:
em tempo integral, condição permanente
e posição essencial para o futuro de longo
prazo da organização” (Flexible Patterns of
Work (1986), do Institute of Personnel Ma-
nagement), grupo que diminui cada vez mais
e que se caracteriza por suas competências
prossionais de exibilidade, adaptabilidade
e mobilidade geográca. E a periferia é com-
posta de dois grupos periféricos: “o primeiro
consiste em empregados em tempo integral
com habilidades facilmente disponíveis no
mercado de trabalho” e caracterizados por
uma alta taxa de rotatividade; o segundo gru-
po “oferece uma exibilidade numérica ainda
maior e inclui empregados em tempo parcial,
empregados casuais, pessoal com contrato
por tempo determinado, temporários, sub-
contratação e treinandos com subsídio públi-
co (Harvey, 1992, p. 144).
Para Castells, (1999) a economia infor-
macional, global e em rede, cujo substrato
material são as tecnologias da informação, isto
é, as tecnologias digitais – “...distingue-se por
uma tendência a aumentar a desigualdade social
e a polarização, seja, o crescimento simultâneo
de ambos os extremos da escala social, o mais
alto e o mais baixo.” (Castells, 1999, p.420).
Também Ricardo Antunes (2019, p.19) se re-
fere a esse processo de polarização ao tratar do
proletariado de serviços, “...call centers, tele-
marketing, indústria de software e tecnologias
de informação e comunicação, hotelaria, sho-
pping centers, hipermercados, fast-food, gran-
de comércio, entre tantos outros” submetido
à degradação das condições de trabalho, seja
pela natureza do próprio trabalho – digitação,
por exemplo, seja pelos baixos salários ou pelas
relações que se estabelecem entre capital e tra-
balhadores: trabalho intermitente, temporário,
autônomo, desregulamentado.
A polarização se expressa no aumento da
desigualdade social no seio mesmo da classe
trabalhadora se considerarmos os fundamen-
tos da teoria da estraticação social cujo foco
são a renda e a posição social. Com efeito,
constata-se uma diferenciação entre traba-
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lhadores altamente qualicados, com novas e
sosticadas competências prossionais, consi-
derados essenciais para as empresas pela capa-
cidade de mobilização de seus saberes – saber
fazer, saber ser, saber agir – e a grande maio-
ria dos trabalhadores facilmente substituíveis,
seja por outros com as mesmas baixas quali-
cações prossionais, seja pela automatização
ou robotização das tarefas, tornando-se traba-
lhadores dispensáveis e, portanto, inexplorá-
veis. No entanto, lembremos, tal como o faz
Claus Oe (1985) que:
quanto mais garantido e protegido institu-
cionalmente é o emprego, menos atraente
é para os investidores empregar mais tra-
balhadores. Portanto, as vantagens para os
empregados criam riscos para a existência de
empregos, devido às estratégias racionais de
mercado dos investidores e empregadores
(Oe, 1985, p. 96).
O avanço no desenvolvimento das no-
vas tecnologias digitais tende a agravar ainda
mais o cenário do desemprego, das relações
precarizadas de trabalho e do trabalho infor-
mal, com implicações políticas muito graves
por sua potencialidade de gerar problemas
sociais que, embora previstos desde as déca-
das anteriores, continuam a preocupar as po-
pulações de todos os países do mundo pelas
diculdades de solução.
São vários os problemas que decorrem do
cenário acima apontado: se a fonte principal
dos lucros do capital é a extração da mais va-
lia, isto é, a exploração do trabalho vivo, como
obter lucros se os trabalhadores estão sendo
substituídos por máquinas e tecnologias digi-
tais sempre mais sosticadas? Como garantir
o consumo da produção e dos serviços se os
trabalhadores não têm empregos? Como garan-
tir a produção da riqueza se os investimentos
não forem lucrativos? Como, então, garantir
a reprodução simples e a ampliada do capital?
Marx e Engels respondem essas perguntas no
Manifesto Comunista, armando que o desen-
volvimento da estrutura econômica capitalista
leva a burguesia a cavar sua própria cova.
“O desenvolvimento da indústria moderna,
portanto, abala a própria base sobre a qual
a burguesia assentou seu regime de produ-
ção e de apropriação. O que a burguesia
produz principalmente são seus próprios co-
veiros. Sua queda e a vitória do proletariado
são igualmente inevitáveis” (Marx; Engels,
1987, p.105).
Em segundo lugar, o problema da forma-
ção da força de trabalho em países emergentes
como o Brasil, nos quais a grande maioria da
população trabalhadora não tem acesso a esco-
las e universidades pautadas pelos padrões de
excelência para permitir aos trabalhadores a
aquisição das competências exigidas pelo mer-
cado de trabalho.
Lembremos que, na medida em que as no-
vas tecnologias e as novas técnicas gerenciais,
isto é, a nova lógica organizacional do processo
de trabalho tende a fazer desaparecer os pos-
tos de trabalho individualmente assumidos,
enfatizando a noção de processo e não mais a
estrutura e função, perde signicado o concei-
to de qualicação prossional elaborado para
indicar as qualicações do emprego, do posto
de trabalho, ou seja, as diculdades para a rea-
lização das tarefas a ele inerentes e as qualidades
ou qualicações requeridas do trabalhador para
realizá-las bem. Por isso, a substituição do con-
ceito de qualicação prossional pelo conceito
de competência prossional.
O conceito de competência concentra-se
nas qualidades intelectuais, mentais, cultu-
rais, sociomotivacionais do trabalhador e que
lhe permitem a compreensão da totalidade do
processo de trabalho, a versatilidade em várias
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tarefas, a capacidade de tomar decisões rápidas
e corretas e a participação em equipes multi-
funcionais. Assim, o conceito de competência
prossional enfatiza o necessário desenvol-
vimento das potencialidades de inteligência,
criatividade, espírito crítico e iniciativa e a
aquisição de conhecimentos como condição
para a empregabilidade, o que demanda maci-
ços investimentos governamentais na educação
escolarizada, investimentos inviáveis na grande
maioria dos países nos curto e médio prazos e
cujos resultados são colhidos no mínimo uma
década depois.
Além disso, as novas ferramentas da inte-
ligência articial deverão revolucionar uma vez
mais a educação, segundo o fundador do Cha-
tGPT, Sam Altman, conforme reportagem pu-
blicada pelo jornal O Estado de São Paulo do
dia 18 de junho de 2023. Num colóquio com
estudantes em Tóquio, na Universidade Keio,
Sam Altman fez as seguintes armações:
“Provavelmente, as redações nunca mais se-
rão as mesmas. Temos uma nova ferramenta
na educação. Como uma calculadora para
as palavras. E a forma como ensinamos terá
que mudar, e a forma como os estudantes são
avaliados também vai ter de mudar” (Altman,
Sam in Jornal O Estado de São Paulo, Cader-
no Metrópole, p. A17).
Apesar da proximidade com as novas fer-
ramentas da inteligência articial, seus criado-
res ainda não apontaram o rumo da necessária
revolução da educação escolarizada. Não sabem
responder as questões mais fundamentais: O
que aprender? Como ensinar? Como avaliar
as competências das pessoas? E como selecio-
ná-las para um emprego, para a realização de
um trabalho? Não há dúvida de que o objetivo
primordial da educação escolarizada será sem-
pre o desenvolvimento das potencialidades da
natureza humana para realizá-la em sua pleni-
tude. E para o mundo do trabalho? Quais serão
as novas especícas competências cobradas dos
trabalhadores? (Lazzareschi; Graglia, 2023).
Em terceiro lugar, a questão das políticas
sociais que marcaram o nascimento dos welfa-
re states, isto é, o nascimento dos Estados de
Bem Estar Social com a distribuição de muitos
benefícios sociais, como educação, assistência
médica e hospitalar, aposentadoria, seguro de-
semprego, licença saúde, etc., num contexto
atual de grave problema econômico com graves
repercussões políticas e sociais: o desemprego,
a informalidade e mesmo as relações regula-
mentadas, porém precarizadas, de trabalho
reduzem consideravelmente a arrecadação das
contribuições previdenciárias que garantiam a
distribuição daqueles benefícios e tendem a in-
viabilizar a sua manutenção.
No Brasil, embora muito acanhados, mi-
lhões de pessoas deles dependem para sobrevi-
ver e para amenizar a indignidade das condi-
ções precárias em que vivem. Reduzi-los ainda
mais e/ou, na pior das hipóteses, suprimi-los,
é provocar um verdadeiro caos político e so-
cial de consequências imprevisíveis. Reformas
tanto da legislação trabalhista quanto da pre-
videnciária foram feitas recentemente com
muitas diculdades, depois de muitos anos de
discussão acalorada, e deverão ser refeitas para
reduzir ainda mais o décit nanceiro que sem-
pre provocaram. De qualquer maneira, alguém
deverá pagar a conta e essa é mais uma questão
já formulada e que continua sem resposta.
Em quarto lugar, a questão do enfraque-
cimento do poder de barganha dos sindicatos,
ressaltando-se, no entanto, que esta ordem de
apresentação não signica a classicação da
importância das questões que hoje se impõem
enfaticamente para todos, pois todas têm o
mesmo grau de importância por gerarem pro-
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blemas sociais de difícil solução nos curto e
médio prazos. As transformações do mundo do
trabalho institucionalizaram as negociações di-
retas entre empregadores e trabalhadores, em-
presa por empresa, e o negociado se sobrepôs
ao legislado, o que se consolidou com a refor-
ma da CLT – Consolidação das Leis do Traba-
lho, dando início ao processo de transformação
do padrão regulatório das relações de trabalho
no Brasil e do padrão de ação sindical.
Com efeito, pode-se identicar o início
da mudança do padrão de ação sindical já nos
anos de 1990, quando de conitivo passou a
ser negociador com a experiência da câmara se-
torial do setor automotivo, por exemplo, e com
os acordos celebrados entre capital e trabalho
relacionados com a organização, gestão e estra-
tégia industrial que deram prosseguimento a
esse processo, tal como aquele que se estabele-
ceu entre o Sindicato dos Metalúrgicos de São
Bernardo do Campo e a Volkswagen do Brasil
referente à reestruturação produtiva dessa em-
presa multinacional.
São muitos os autores que compartilham
dessas análises sobre o comportamento sindi-
cal dos trabalhadores das indústrias modernas
e sobre as diculdades dos sindicatos na ma-
nutenção de seu papel tradicional de represen-
tação e de defesa expressa dos interesses des-
ses trabalhadores. Dentre os autores, citem-se
Leôncio Martins Rodrigues (1999), Manuel
Castells (1999), Ricardo Antunes e João Batista
dos Santos (2015). Algumas citações, apesar de
longas, devem ser aqui apresentadas:
“Entre os fatores de debilitamento da solida-
riedade dos trabalhadores estão a dispersão da
produção (às vezes por países diferentes e dis-
tantes); a redução da dimensão das unidades
de fabricação e o aumento da produção em
pequenas empresas: a maior mobilidade do
capital internacional; a tendência em direção
a acordos por empresas e locais de fabricação;
a exibilização da produção, das normas e re-
gulamentos que regiam tarefas, hierarquias e
carreiras dos empregados; a maior heteroge-
neidade da força de trabalho em virtude do
aparecimento de novas prossões, da maior
presença da mulher e dos imigrantes no con-
junto da mão de obra. O resultado desses no-
vos desenvolvimentos não é apenas o m (ou
o começo do m) do velho modelo tayloris-
ta-fordista, mas também, como dicilmente
poderia deixar de ser, da velha classe operária
sobre a qual se apoiara o sindicalismo como fe-
nômeno de massa” (Rodrigues, 1999, p. 177).
São armações que se repetem em nume-
rosos outros textos, como no volume I do livro
A Era da Informação: Economia, Sociedade e
Cultura”, onde se lê:
“Os sindicatos de trabalhadores, principal
obstáculo à estratégia unilateral de reestrutu-
ração, foram enfraquecidos por sua incapaci-
dade de representar os novos tipos de traba-
lhadores (mulheres, jovens, imigrantes), de
atuar em novos locais de trabalho (escritórios
do setor privado, indústria de alta tecnologia)
e de funcionar nas novas formas de organi-
zação (a empresa em rede em escala global)
(Castells, 1999, p. 350).
Quanto à mudança do padrão de ação sin-
dical de conitivo para negociador, a citação a
seguir é esclarecedora e foi extraída do artigo
“Para onde foram os sindicatos” de Ricardo
Antunes e João Batista dos Santos:
“Para onde foram os sindicatos? Esse é o tema
proposto para esse dossiê. Nossa resposta à hi-
pótese apresentada no início deste artigo é que
as últimas décadas parecem empurrar o novo
sindicalismo em direção a uma esdrúxula com-
binação, síntese de, ao menos, três movimen-
tos: a velha prática peleguista, a forte herança
estatista e a forte inuência do ideário neoli-
beral (ou social-liberal), impulsionada, ainda,
pelo culto da negociação e defesa do cidadão.
Vale dizer que cada um destes elementos pode
ter prevalência em diferentes conjunturas
(Antunes; Dos Santos, 2015, p. 525).
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A compreensão das consequências do pro-
cesso de modernização das empresas sobre o
mercado de trabalho, isto é, sobre o emprego e
sobre a empregabilidade, em outras palavras, o
temor do desemprego, foi um dos fatores deter-
minantes para a adoção do padrão negocial da
ação sindical, mesmo porque a preocupação e a
reivindicação principais e imediatas eram, e ain-
da são, a defesa do emprego ameaçado pelo de-
senvolvimento tecnológico em curso nos países
industrializados e que, inevitavelmente, atingi-
ria as empresas que se recusassem a aceitá-lo.
O ímpeto revolucionário do século XIX
foi abandonado no século XX quando a classe
trabalhadora, ao participar do jogo político ins-
titucionalizado pela burguesia, obteve muitas
vitórias na luta pela melhoria nas suas condi-
ções de trabalho, de salário e de vida, tal como
acima mencionadas, vitórias possibilitadas pelo
crescimento econômico provocado não só pela
organização taylorista/fordista do processo de
produção e de prestação de serviços, como tam-
bém pelo processo de recuperação da economia
mundial destroçada pelas duas grandes guer-
ras. E de revolucionário o movimento sindical
tornou-se conitivo ou de confronto, lutando
sempre por melhorias imediatas nas condições
de vida de todos os trabalhadores.
Como o processo de modernização tec-
nológica e organizacional é muito desigual,
atingindo diferentemente países e continentes,
ainda é possível acreditar na conquista e manu-
tenção de um emprego, de baixa qualidade na
maioria dos casos, é verdade, e na manutenção
dos direitos sociais adquiridos por mais alguns
anos. Daí a tendência à celebração de acordos
entre as partes e o sindicalismo de negociação
que, paradoxalmente, admite e até incentiva a
individualização das condições de trabalho e
de salário, fator importante no enfraquecimen-
to do próprio movimento sindical. Mas, até
quando? Segundo Marx e Engels, tal como se lê
no Manifesto Comunista, até a próxima etapa
do processo de desenvolvimento da estrutura
do modo de produção capitalista, isto é, até a
próxima etapa de realização de sua lógica.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
É inevitável considerar que os trabalha-
dores do mundo inteiro vivem hoje um dos
dilemas mais dramáticos de sua experiência
histórica. Aceitar a introdução das inovações
tecnológicas em curso signica ter de enfren-
tar os seus efeitos perversos. Ao mesmo tempo,
não a aceitar também signica ter de enfrentar
outros efeitos perversos provenientes da dimi-
nuição do ritmo do crescimento e desenvolvi-
mento econômicos.
E, como efeitos perversos, tal como acima
indicados, elencamos:
1) a ameaça de desemprego agravada pelo
surgimento e expansão das tecnologias digitais,
como a inteligência articial, com alta capaci-
dade de substituição do trabalho humano em
diversas atividades;
2) a ameaça de desinvestimento, isto é, a
intensa mobilidade dos capitais, nacionais e in-
ternacionais que, como demonstrou Buraway
nesta armação muito conhecida “O novo des-
potismo é a tirania racional da mobilidade do
capital sobre o trabalhador coletivo” (1985, p.
150), mobilidade dos capitais que se deve com-
preender como a nova forma de controle sobre
a força de trabalho e um freio para o desenvol-
vimento de suas reivindicações;
3) o acirramento da concorrência interna-
cional: a economia globalizada aumenta os riscos
de desemprego devido à maior vulnerabilidade
das empresas ante as exigências do mercado;
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4) a especicidade da elevada qualicação
do trabalhador, incrementada também pelos
processos de transformação digital, aumenta o
grau de sua dependência da empresa, embora
seja, ao mesmo tempo, e em certa medida, fa-
tor da dependência maior da empresa em rela-
ção ao trabalhador.
Além disso, convém insistir na insegu-
rança no mercado de trabalho que se expressa
nas altas taxas de desemprego; na insegurança
no emprego que se expressa na redução rela-
tiva ou absoluta de empregos estáveis ou per-
manentes nas empresas e na adoção de novas
e precárias relações de trabalho; na inseguran-
ça na renda que se deve à exibilização dos
salários segundo a situação de cada empresa
(nanceira, rentabilidade, etc.) e de cada tra-
balhador (salário por produtividade); na in-
segurança na contratação do trabalho que se
expressa na individualização do contrato de
trabalho; na insegurança na representação do
trabalho que se expressa no declínio dos ín-
dices de sindicalização e no enfraquecimento
do poder de barganha dos sindicatos (Matto-
so, 1995).
No entanto, convém também lembrar
que os trabalhadores jamais assistiram, e não
há razões para acreditar-se que assistiram iner-
tes a seu próprio massacre. Tal como sempre
reagiram, vão reagir uma vez mais às situações
que lhes são adversas para a realização de seus
interesses e expectativas, individuais e coleti-
vos, exigindo o surgimento de novos rearran-
jos institucionais que lhes sejam favoráveis ou
simplesmente retirando o seu consentimento
com as novas condições de trabalho (Graglia;
Huelsen; Lazzareschi, 2021). Na verdade, se
no presente vivem essa situação de inseguran-
ça, não se pode eximi-los de responsabilidade,
pois que com elas consentiram como fruto de
suas avaliações racionais das possibilidades
oferecidas pelas novas tecnologias. Em outras
palavras: aceitaram e estão aceitando os ris-
cos próprios de todo processo de mudança e
saberão elaborar estratégias ostensivas de de-
fesa de seus interesses se julgaram necessário,
como sempre zeram.
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