O Business 20 (B20) como mais um fórum político para a
classe capitalista transnacional ......................................................................... 2
Business 20 (B20) as another political forum for the transnational capitalist class
Business 20 (B20) como otro foro político para la clase capitalista transnacional
Pedro Henrique Schneider Parreiras
Como a dependência de semicondutores taiwaneses
pode evitar um conflito armado entre China e Estados Unidos ........................ 11
How the dependence on Taiwanese semiconductors might prevent an armed conict between China and the United States
Cómo la dependencia de los semiconductores taiwaneses puede prevenir un conicto armado entre China y Estados Unidos
Pedro Antonio Saraiva de Carvalho Pereira Francez
O FUTURO DO TRABALHO ASSALARIADO SEGUNDO
A LEI GERAL DA ACUMULAÇÃO CAPITALISTA NA
PERSPECTIVA DA NOVA REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA. ..................................... 24
THE FUTURE OF WAGE LABOR ACCORDING TO THE GENERAL LAW OF CAPITALIST ACCUMULATION
IN THE PERSPECTIVE OF THE NEW TECHNOLOGICAL REVOLUTION
EL FUTURO DEL TRABAJO ASALARIADO SEGÚN LA LEY GENERAL DE ACUMULACIÓN CAPITALISTA
DESDE LA PERSPECTIVA DE LA NUEVA REVOLUCIÓN TECNOLÓGICA.
Noêmia Lazzareschi, Marcelo Augusto Vieira Graglia
Adis Abeba como modelo de reflexão sobre a
Cooperação Sul-Sul e desenvolvimento de uma Cidade
Global na África Oriental .................................................................................... 39
Addis Abeba como modelo de reexión sobre la cooperación Sur-Sur y el desarrollo de una Ciudad Global en África Oriental
Addis Ababa as a model for reection on South-South Cooperation and the development of a Global City in East Africa
João Pedro Silveira Martins
Review: The architects of international relations: building
a discipline, designing the world, 1914–1940/ Jan Stöckmann (2022) ............. 51
Reseña: Los arquitectos de las relaciones internacionales: construyendo una disciplina, diseñando el mundo, 1914-1940/ Jan
Stöckmann (2022)
Resenha: Os arquitetos das relações internacionais: construindo uma disciplina, projetando o mundo, 1914–1940/ Jan
Stöckmann (2022)
Horácio de Sousa Ramalho
2 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.3, p.2 - 10, abr. 2023
O Business 20 (B20) como mais um
fórum político para a classe capitalista
transnacional
Business 20 (B20) as another political forum for the transnational capitalist class
Business 20 (B20) como otro foro político para la clase capitalista transnacional
Pedro Henrique Schneider Parreiras
1
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2023v20n1p2-10
Recebido em:19 de março de 2021
Aprovado em: 13 de setembro de 2023
Resumo
O presente estudo objetiva discutir se o Business 20 (B20), um fórum derivado do G20,
vem se consolidando na última década como mais um fórum para elite corporativa global.
Para tal é mobilizada a análise de redes sociais para construir uma rede de relações entre os
principais fóruns políticos globais.
Palavras chaves: B20, fóruns políticos globais, classe capitalista transnacional.
Abstract
is study aims to discuss whether Business 20 (B20), a forum derived from the G20,
has consolidated itself in the last decade as another forum for the global corporate elite. To
this end, the analysis of social networks is mobilized to build a network of relationships
between the main global political forums.
Keywords: B20, global policy groups, transnational capitalist class.
Resumen
Este estudio tiene como objetivo discutir si Business 20 (B20), un foro derivado del G20,
se ha consolidado en la última década como un foro más para la élite empresarial global.
Para ello, se moviliza el análisis de las redes sociales para construir una red de relaciones
entre los principales foros políticos globales.
Palabras clave: B20, foros políticos globales, clase capitalista transnacional.
1 Professor substituto do Departamento de Ciências Econômicas da UFMG. Doutor em Sociologia pela UFMG, mestre em Rela-
ções Internacionais pela PUC Minas. E-mail: phs.parreiras@hotmail.com
Resenha
2 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte,
ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p.2 - 4, abr. 2023
3 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.3, p.2 - 10, abr. 2023
Introdução
Nas últimas décadas se intensicou o deba-
te acerca da emergência de uma classe capitalista
em âmbito internacional, um processo que ganha
novos contornos com a globalização neoliberal.
Para alguns autores (Robinson; Harris, 2000; Ro-
binson, 2005; 2010; Harris, 2003) a globalização
seria uma nova fase no capitalismo, marcada pela
emergência de uma classe capitalista transnacio-
nal (CCT) e pelo processo de transnacionalização
do Estado (ETN). Nesta perspectiva o aparato
do Estado transnacional vem sendo mobilizado
pela CCT para a intensicação dos processos
globalizantes. Dentre as várias instituições e or-
ganizações que compõem o ETN, destacamos
os fóruns políticos globais, espécies de hubs para
a elite corporativa global que ajudam na formu-
lação de consenso em torno de variantes do dis-
curso neoliberal, no tocante que reúnem várias
vezes ao longo de um ano, diretores corporativos
e interesses capitalistas oriundos de várias partes
do mundo. (Carroll; Carson, 2003). Exemplos de
fóruns notórios são: Fórum Econômico Mundial,
Bilderberg e a Comissão Trilateral.
Para lidar com a crise de 2008, o G20 –
deixado de lado desde o nal da crise asiática –
reformulou-se em cúpula de líderes. Parte desta
reformulação foi a intensicação do diálogo com
o setor privado – grandes instituições nanceiras,
corporações transnacionais e pequenas e médias
empresas das principais economias emergentes.
Este movimento dá origem ao B20 (Business 20),
um fórum que vem se institucionalizando desde
2010 para garantir que os interesses do setor pri-
vado sejam pautados pelo G20. Reunindo milha-
res de diretores anualmente em diversas ativida-
des em temáticas que variam da regulamentação
do setor nanceiro ao emprego, o B20 tem con-
seguido levar suas demandas aos principais lí-
deres mundiais com sucesso. (Ramos; Parreiras,
2019). Diante da importância dos fóruns políti-
cos privados e da crescente institucionalização do
B20, a seguinte pergunta mostra-se relevante: o
B20 pode ser considerado como mais um fórum
político global da elite corporativa transnacional?
Para tentarmos responder a tal questão nos vale-
mos da análise da rede relacional obtida através
do compartilhamento de diretores/participantes
entre o B20 e outros fóruns já consolidados na
literatura nos anos de 2010 e 2017.
O trabalho está organizado da seguinte
forma: primeiro estabelecemos o referencial
teórico. Na sequência apresentamos as princi-
pais características do B20. Em seguida parti-
mos para análise da rede relacional dos fóruns,
apresentando os dados obtidos. Por m fare-
mos nossas considerações nais.
Classe capitalista
transnacional (CCT), estado
transnacional (ETN) e os fóruns
políticos globais
Com a intensicação dos processos agluti-
nados sob a alcunha de “globalização” a partir da
década de 1970, os debates em torno da emer-
gência e consolidação de uma classe capitalista em
âmbito internacional ganham novo fôlego. O foco
passa a ser um processo transnacional de forma-
ção de classe capitalista. (Robinson; Harris, 2000).
Este processo deve ser entendido como histórico,
remontando ao próprio processo de internacio-
nalização do capital, um processo que gradativa-
mente vai se expandindo para além dos circuitos
de produção do Atlântico Norte e vai englobando
segmentos das burguesias nacionais e burocracias
estatais de vários países. (Pijl, 1998; Gill, 2003).
Em termos analíticos, a CCT seria com-
posta, de acordo com Robinson e Harris
4 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.3, p.2 - 10, abr. 2023
(2000), pelos proprietários e controladores do
capital transnacional, ou seja, os donos e ge-
renciadores dos principais meios de produção
mundiais – as corporações transnacionais e as
instituições nanceiras privadas. Gill (2003)
acrescenta também ao bloco, parte dos princi-
pais políticos e funcionários públicos dos países
centrais capitalistas e de parte dos países menos
desenvolvidos. Por sua vez, Sklair (2000) sis-
tematiza quatro frações ou grupos interligados
no interior da CCT. Seriam eles os seguintes:
1) proprietários e controladores (executivos) das
corporações transnacionais e suas liadas locais
- a fração corporativa; 2) burocratas e políticos
globais - a fração estatal; 3) prossionais globais
- a fração técnica; 4) comerciantes e a mídia - a
fração consumidora. A existência de uma quin-
ta fração é apontada por Harris (2003), consti-
tuída pelo complexo industrial/militar.
A CCT estaria no centro da tentativa de
construção de um bloco histórico em âmbito
transnacional. O bloco seria composto por forças
econômicas e políticas guiadas pelos processos de
acumulação e produção voltados para o transna-
cional, constituindo assim, o “bloco globalista”.
(Robinson; Harris, 2000). É importante perceber
este bloco como um projeto de hegemonia
2
trans-
nacional; mas, um projeto que ainda está incom-
pleto e é alvo de contestações. (Robinson, 2005).
Esta CCT instrumentalizou o aparato de
Estado Transnacional (ETN), “[...] uma rede
frouxa composta de instituições políticas e eco-
nômicas inter e supranacionais, juntamente com
aparatos de estado nacionais que foram penetra-
dos e transformados por forças transnacionais,
e ainda não adquiriu (e podem nunca adquirir)
2 Tanto a noção de bloco histórico como a de hegemonia
mobilizadas remetem à tradição gramsciana em Relações
Internacionais. Para mais detalhes sobre estes conceitos ver
Morton (2007).
qualquer forma centralizada.” (Robinson, 2010,
p.10). As instituições do ETN buscam coorde-
nar o capitalismo global, assim como garantir a
expansão capitalista para além das fronteiras na-
cionais através de um sistema legal e regulatório
supranacional construído ao longo das últimas
décadas – corporicado em organizações inter-
nacionais e fóruns políticos globais – com o in-
tuito de garantir a manutenção e reprodução da
economia global (Robinson, 2010).
3
Dentro do aparato ETN destacamos os fó-
runs políticos globais. Estes fóruns são espécies de
hubs para a elite corporativa global, atuando para
forjar “[...] visões estratégicas e morais, assim como
as políticas, informando os interesses capitalistas
transnacionais.” (Carroll; Carson, 2003, p. 31).
Sendo assim, os fóruns de formulação de política
fazem parte do aparato do Estado transnacional,
no qual a economia global é decidida (Harris,
2013), ajudando na criação de consenso em torno
de variantes do discurso neoliberal. (Carroll; Car-
son, 2003). Em síntese, “[...] são agências de lide-
rança política e cultural, cujas atividades são parte
integrante da formação de uma classe capitalista
transnacional.” (Carroll; Carson, 2003, p. 53).
Empiricamente, estes fóruns são importan-
tes para a rede corporativa global, que por sua
vez é utilizada como indício da formação de uma
CCT. As diversas reuniões destes grupos contri-
buem para aproximar os diretores e executivos
das principais corporações mundiais, integran-
do-os em uma elite corporativa. Em resumo, os
fóruns políticos globais “[...] fornecem um -
cleo duro politicamente e socialmente ativo para a
rede corporativa global [...]” (Carroll, 2010:192),
atuando como pontos de integração na estrutura
de poder corporativo global. (Carroll, 2010).
3 O conceito de ETN mobilizado por Robinson (2010) é
derivado diretamente do conceito de internacionalização do
Estado de Cox (1981).
5 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.3, p.2 - 10, abr. 2023
Os principais fóruns políticos globais
apontados pela literatura – e que serão utiliza-
dos neste trabalho - são os seguintes: o grupo
Bilderberg, a Comissão Trilateral (CT), a Câ-
mara Internacional de Comércio (CIC), o UN
Gobal Compact (UNGC), o Fórum Econômico
Internacional (FEM), o Council on Foreign Re-
lations (CFR), e o World Business Council For
Sustainable Development (WBCSD).
Diante destas discussões, nosso argumen-
to é de que, inicialmente de um ponto de vista
teórico, o B20 pode ser compreendido como
mais um ponto de integração para a elite corpo-
rativa global, um fórum que ainda não foi con-
siderado como importante na rede corporativa
global, mas que pode estar contribuindo – em
conjunto com os demais fóruns - para a forma-
ção de uma classe capitalista transnacional. A
seguir trataremos das principais características
do B20 que nos levaram a tal argumento.
O B20
O B20 (Business 20) surge de um processo
de expansão de atividades do G20 oriunda de
sua reformulação inerente à crise nanceira de
2008. Esta expansão envolve o fortalecimento
do diálogo com setores da sociedade civil e do se-
tor privado. Dentre os vários grupos de diálogos
4
que surgem desta expansão de atividades, o B20
destaca-se pela sua crescente atuação junto às cú-
pulas anuais do G20. (Ramos; Parreiras 2019).
O B20 realizou o seu primeiro encontro ocial
em 2010, na Cúpula de Toronto. De lá até aqui,
o fórum organizou mais onze encontros ociais,
sendo o último no ano de 2020 organizado em
Riade, Arábia Saudita, reunião realizada via ví-
deo conferência devido a pandemia global. Em
4 Existem mais cinco grupos de diálogo com o G20: Civil 20,
ink 20, Labour 20, Youth 20 e o Women 20.
cada um dos encontros é produzido um docu-
mento contendo recomendações do setor pri-
vado aos líderes do G20. Estas recomendações
encontram respaldo no próprio G20, no tocante
em que várias recomendações acabam sendo in-
corporadas na própria declaração dos líderes do
Grupo dos 20. (Ramos; Parreiras 2019).
O B20 organiza-se em torno de forças tare-
fas que procuram dialogar com a própria agenda
de discussões estabelecidas pelo G20 para a cú-
pula anual. O número de executivos envolvidos
nas discussões do B20 vem aumentando consi-
deravelmente, passando de mais de uma centena
representando 119 empresas e organizações na
Cúpula de Seul, para centenas de executivo re-
presentando 547 empresas e organizações na Cú-
pula de Hamburgo. Geralmente as reuniões do
B20 recebem o apoio direto dos grandes sindi-
catos de empresas e câmaras de comércio do país
que está a sediar as reuniões, além do contarem
com o envolvimento direto da Câmara Interna-
cional de Comércio (CIC) e de grandes empresas
de consultoria. (Ramos; Parreiras 2019).
No geral não há uma regra clara de repre-
sentatividade no B20, como um número especí-
co de executivos por país membro do G20, por
exemplo. Mas existem alguns padrões. Primeiro
o país que está a sediar a cúpula do G20/B20 é o
que possui mais empresas/organizações - sediadas
em seu território - representadas nas discussões do
B20. Segundo, o pertencimento ocial ao G20
não garante ao país uma representatividade no
B20. Terceiro, as empresas/organizações sediadas
nos países do Atlântico Norte são as mais comuns
dentre as empresas representadas nas discussões
do B20, mas há uma crescente presença das em-
presas sediadas na Ásia, principalmente China,
Índia e Coréia do Sul.
5
(Ramos; Parreiras 2019).
5 Aqui estão descritas apenas as características gerais do B20.
Para mais detalhes ver Ramos e Parreiras (2019).
6 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.3, p.2 - 10, abr. 2023
Desta forma, ao longo de mais de uma
década, o B20 vem se consolidando como um
importante ponto de interação entre elites lo-
cais e regionais com as elites centrais do capi-
talismo. Diante destas características do B20
e diante das discussões teóricas em torno da
importância dos fóruns políticos internacio-
nais para os processos de uma CCT e de um
ETN, é possível propor a seguinte hipótese:
H1 – o B20 está consolidando-se como um
fórum político global inserido na rede cor-
porativa global, tornando-se assim, mais um
lócus para a formação e consolidação de uma
CCT, ou seja, revela-se como parte integrante
do aparato do Estado Transnacional.
O B20 na rede de fóruns
privados
Para vericarmos a hipótese levantada
acima, realizaremos uma análise da rede de
relações do B20 com os outros sete fóruns
políticos globais citados anteriormente. Esta
rede de relações é estabelecida através do
compartilhamento de participantes em co-
mum entre os fóruns. Ou seja, se dois fóruns
possuem o mesmo participante é criado um
link entre eles. Para construir esta rede levan-
tamos os dados referentes aos participantes
do B20 e dos outros sete fóruns para os anos
de 2010 e 2017. Estes dados foram obtidos
através de documentos ociais e websites o-
ciais das organizações. Os anos foram selecio-
nados com base na disponibilidade de dados,
tendo em vista a diculdade de se obter dados
públicos acerca de alguns fóruns. Inclusive,
a CIC foi inserida apenas na rede de 2017
devido à ausência de dados para este fórum
em 2010. Estes dados nos permitiram cons-
truir duas redes de relações entre os fóruns,
uma para 2010 e uma para 2017. Estas redes
foram elaboradas através de matrizes de adja-
cências geradas e analisadas através do softwa-
re Ucinet (Borgatti; Everett; Freeman, 2002),
o qual também foi utilizado para a elaboração
dos grafos (imagens) das redes e os cálculos
das métricas de centralidade. Os dados obti-
dos sobre os fóruns e seus participantes estão
sumarizados na Tabela 1.
Tabela 1 - Os Principais Fóruns Políticos
Globais e o Número Respectivo de Partici-
pantes/Diretores em 2010 e 2017.
FÓRUM
2010
2017
Bilderberg 124 130
Comissão Trilateral (CT) 223 433
Câmara Internacional de Comércio (CIC) - 6
Fórum Econômico Mundial (FEM) 66 77
UN Global Compact (UNGC) 10 15
Council on Foreign Relations (CFR) 31 54
World Business Council For Sustainable Develop-
ment (WBCSD)
15 16
B20 105 1320
Fonte: Elaborado pelo autor.
Com base nos grafos (Imagem 1 e Ima-
gem 2) podemos fazer algumas inferências
iniciais. Tanto em 2010 quanto em 2017 o
B20 está interligado direta e indiretamen-
te aos demais fóruns políticos globais. Em
2010 o B20 possuía 5 links com Bilderberg,
4 links com a CT, 2 com o FEM e 1 com o
WBCSD. Em 2017 os links foram: 6 com
a CT, 4 com o FEM, 3 com a CIC, 2 com
Bilderberg e 1 com o UNGC. De um ponto
de vista quantitativo é possível afirmar que
com o passar dos anos desde a sua fundação,
o B20 ficou cada vez mais integrado a rede
de fóruns privados, aumentando tanto o seu
número de links – 12 para 16 – quanto o
número de relações diretas com outros fó-
runs – 4 para 5.
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Imagem 1 - Rede dos Fóruns Internacionais em 2010
Fonte: Elaborado pelo autor.
Imagem 2 - Rede dos Fóruns Internacionais em 2017
Fonte: Elaborado pelo autor.
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Outro dado importante são os linkers, ou
aqueles indivíduos que estabelecem os links
entre os fóruns. Com base e na Tabela 2, po-
demos perceber que de maneira geral, tanto a
rede 2010 quanto a de 2017, são constituídas
por small linkers, ou seja, aqueles diretores/
participantes que interligam apenas 2 fóruns.
Em 2010 havia apenas um big linker (interli-
gando 4 fóruns ou mais) que interligava o B20
a outros 3 fóruns: Bilderberg, CT e WBCSD.
No mesmo ano, dos 3 mid linkers (diretores/
participantes que interligam 3 fóruns) 1 parti-
cipava do B20; e dos 24 small linkers, 8 inter-
ligavam o B20 a outros fóruns. Em 2017 dos
2 mid linkers, 1 interligava o B20 a outros dois
fóruns (CT e Bilderberg) e dos 29 small linkers
13 eram membros do B20. Diante destes dados
conseguimos perceber que parcela considerável
dos linkers das redes de fóruns políticos globais
integram o B20.
Tabela 2 - Linkers
2010 2017
Small linkers 24 29
Mid linkers 3 2
Big linkers 1 -
Total 28 31
Fonte: Elaborado pelo autor.
No presente estudo é de grande interesse
a centralidade dos fóruns na rede de relações.
Um ator é muito central em uma rede quando
ele está engajado em muitas relações. (Lazega;
Higgins, 2014). Para avaliarmos a centralidade
dos atores na rede de fóruns privados, iremos
utilizar três medidas: centralidade de grau (de-
gree), centralidade de proximidade (closeness) e
a centralidade de intermediação (beteweeness) –
apresentadas na Tabela 3. A centralidade nos é
cara, pois, estudos já demonstraram que os fó-
runs privados de formulação de política são im-
portantes para a rede corporativa global atuan-
do como intermediadores na rede de diretores
das principais corporações mundiais. (Carroll;
Carson, 2003; Carroll, 2010). Desta forma,
acreditamos que a análise da relação do B20
com os demais fóruns e de sua centralidade
na rede de relação com estes, é um importante
indicativo de que ele também pode ser consi-
derado como mais um ponto de integração na
estrutura de poder corporativo global.
A simples medida da centralidade de
grau (degree) dos nodos – que indica o núme-
ro de arcos incidentes sobre o nodo - já nos
revela importantes informações sobre a rede
dos fóruns políticos globais. Em 2010 os três
fóruns com maior centralidade de grau eram:
Bilderberg com 32% do total de arcos da rede
incidindo sobre ele; CT com 29% e o B20
com 15%. Já em 2017 os três fóruns ainda
são os mais centrais, contudo a uma mudan-
ça substancial nos valores. A CT passa a ser o
fórum mais central da rede com 39% do total
de arcos da rede incidindo sobre ela; enquanto
o B20 agora aparece como o segundo fórum
mais central com 28%; seguido de Bilderberg
com 25%. O aumento da centralidade de
grau do B20 entre 2007 e 2010 é expressiva,
tendo o score praticamente dobrado. Outro
fórum que apresentou um aumento vertigino-
so em sua centralidade de grau foi o CFR, que
praticamente triplicou seu score, tornando-se
o quarto fórum com a maior centralidade de
grau da rede.
A centralidade de proximidade (closeness)
indica a proximidade de um ator com relação
aos demais atores da rede, revelando a rapi-
dez ou facilidade com que um ator interage
com os demais; tendo em vista que esta me-
dida, em síntese, é o número mínimo de pas-
sos (clics) que o ator deve realizar para entrar
em contato com os demais. (Lazega; Higgins,
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2014). O score closeness varia de 0 a 1, sendo
que 1 indica que o ator é adjacente a todos os
outros. Em 2010 os fóruns com maiores sco-
res de proximidade eram a CT com 1 – com
ligações diretas com todos os outros fóruns da
rede; Bilderberg com 0,85 e o B20, FEM e o
WBCSD, os três com 0,75. Em 2017 os dois
fóruns com maior centralidade de proximida-
de são o B20 e Bilderberg, ambos com 0,78,
seguidos pela CT com um score de 0,63. En-
tre 2010 e 2017 o B20 passou a ser, ao lado de
Bilderberg, o fórum com maior centralidade
de proximidade, enquanto a CT reduziu a sua
centralidade, não estando mais ligada direta-
mente a todos os fóruns.
Última dentre as medidas de centralidade
mobilizadas para o estudo, a centralidade de in-
termediação (beteweeness) advém do controle que
um ator da rede exerce sobre dois outros atores. A
ideia é que, quanto “[...] mais um ator se encon-
trar “no meio”, como ponto de passagem obriga-
tório por caminhos que outras pessoas devem to-
mar para se encontrar, mais central ele será [...]”.
(Lazega; Higgins, 2014, p. 44). Em 2010 apenas
a CT – 43,3 – e Bildeberg – 10,0 – intermedia-
vam relações na rede. Já em 2017 o B20 também
passa a intermediar relações na rede em conjunto
com os outros dois fóruns. Além, o B20 passa a
ser o fórum mais central na rede de um ponto de
vista da intermediação, possuindo o maior score.
Tabela 3 - Índices de Centralidade
Degree 2010 Degree 2017 Closeness 2010 Closeness 2017 Betweeness 2010 Betweeness 2017
B20 0.154 0.286 75.000 77.778 0 54.762
BIL 0.321 0.250 85.714 77.778 10.00 42.857
CIC - 0.054 - 46.667 - 0
CFR 0.064 0.179 60.000 50.000 0 0
CT 0.295 0.393 100.00 63.636 43.33 7.143
FEM 0.077 0.089 75.000 58.333 0 0
UNGC 0.013 0.018 54.545 46.667 0 0
WBCSD 0.077 0.018 75.000 46.667 0 0
Fonte: Elaborado pelo autor.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante das discussões e análises apresen-
tadas podemos concluir que a nossa hipótese
“H1: o B20 está consolidando-se como um fó-
rum privado de formulação de política inserido
na rede corporativa global, tornando-se assim,
mais um lócus para a formação e consolidação
de uma CCT” foi em parte corroborada. Além
de estar inserido na rede de fóruns internacio-
nais, ligado direta e indiretamente através de
membros em comum aos principais fóruns
consolidados pela literatura, o B20 revelou-se
como um elemento importante na própria rede
de fóruns internacionais. Desde o ano de fun-
dação o B20 revela-se central na rede. O úni-
co big linker da rede de 2010, interligando 4
fóruns, também era um membro do B20. Em
todas as medidas de centralidade para os dois
anos analisados, o B20 encontra-se entre os três
fóruns mais centrais. Em 2017, o fórum reve-
la-se o principal – ao lado de Bilderberg - em
termos de proximidade, estando interligado a
quase todos os fóruns. Já em termos de inter-
mediação, em 2017, o B20 revela-se como o
fórum mais central da rede.
10 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.3, p.2 - 10, abr. 2023
Se os fóruns políticos globais - como a CT
e o FEM - podem ser apontados como parte
integrante no processo formação de uma CCT,
nos quais seus integrantes atuam em prol da
estabilidade e reprodução do sistema capitalista
e suas relações sociais; o B20, também pode ser
apontado como um potencial novo lócus para a
formação e consolidação de uma CCT. O com-
partilhamento de vários integrantes com os de-
mais fóruns e a sua centralidade na própria rede
dos fóruns internacionais, credenciam o B20
como mais um importante ponto de integração
na estrutura de poder corporativo global. Con-
tudo, comparado aos demais fóruns, o B20
ainda carece de institucionalização e status.
Todavia, a sua presidência rotativa – acompa-
nhando o G20 - o aproxima das comunidades
de negócios locais e regionais, o que lhe confere
a possibilidade de aproximar as elites dos cen-
tros tradicionais das elites emergentes.
De qualquer forma, os pontos levantados
no presente trabalho ainda carecem de maiores
estudos, principalmente acerca do próprio pa-
pel do B20 na rede corporativa global. Ainda
assim, é possível apontarmos que há indícios de
que o B20 vem adquirindo importância similar
aos demais fóruns privados de formulação de
políticas.
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11 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p11 - 23, abr. 2023
Como a dependência de semicondutores
taiwaneses pode evitar um conflito
armado entre China e Estados Unidos
How the dependence on Taiwanese semiconductors might prevent an armed conict bet-
ween China and the United States
Cómo la dependencia de los semiconductores taiwaneses puede prevenir un conicto
armado entre China y Estados Unidos
Recebido em:01 de agosto de 2023
Aprovado em: 12 de dezembro de 2023
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2023v20n1p11-23
Pedro Antonio Saraiva de Carvalho Pereira Francez
1
Resumo:
O mundo está cada vez mais globalizado. Conitos outrora regionais não se aplicam
mais apenas a localidade de origem. Países interconectados entre si conseguem sentir
conitos teoricamente alheios à suas capacidades. Com a tecnologia bélica evoluindo, há
o eterno medo de eclodir uma Terceira Guerra Mundial, e estopins e possíveis fagulhas
são analisados ao redor do globo. A China tentando reaver o controle de Taiwan com
os Estados Unidos declarando que protegerá a ilha em caso de invasão militar chinesa
certamente atrai preocupações. Taiwan se protegeu das ameaças chinesas através da
educação e tecnologia, produzindo semicondutores essenciais para o funcionamento da
economia mundial. Esta especialização taiwanesa causou graus de vulnerabilidade e
sensibilidade em diversos países, onde fez com que a paz e soberania na ilha fosse essencial
para o mundo. Sob a luz da teoria da interdependência complexa de Keohane & Nye, este
artigo visa elucidar quais motivos impedem um conito armado entre China e Estados
Unidos pela independência ou anexação denitiva de Taiwan.
Palavras-chave: Interdependência Complexa; Semicondutores; Sensibilidade; Taiwan;
Vulnerabilidade.
Abstract:
e world is increasingly globalized. Regional conicts are not restricted only to the
original area anymore. Countries that have a bound of interconnection can feel the reexes
of a conict that theoretically does not concern to them. With war technology evolving,
there is the eternal fear of a ird World War breaking out, and possible start points and
Sparks are analyzed around the globe. China trying to regain control of Taiwan with the
1 Mestre em História pela Universidade Federal do Espírito Santo e Doutorando em Relações Internacionais pela Pontifícia Uni-
versidade Católica de Minas Gerais. Email: pedro.francez27@gmail.com
Artigo
11 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte,
ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p.5 - 11, abr. 2023
12 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p11 - 23, abr. 2023
United States of America declaring that ey will protect the island in case of Chinese’s
military invasion certainly raises concerns. Taiwan protected itself from Chinese threats
through education and technology, producing semiconductors essential for the functioning
of the world economy. is Taiwanese specialization provoke degrees of vulnerability and
sensibility in several countries and therefore, the peace and sovereignty on the island it is
essential for the world. In the light of Keohane & Nyes Complex Interdependence theory,
this article aims to elucidate the reasons that prevent an armed conict between China
and United States for the independence or denitive annexation of Taiwan.
Keywords: Complex Interdependence; Semiconductors; Sensibility; Taiwan; Vulnerability.
Resumen:
El mundo está cada vez más globalizado. Los conictos regionales ya no se limitan
únicamente al área original. Los países que tienen un límite de interconexión pueden
sentir los reejos de un conicto que teóricamente no les concierne. Con la evolución de
la tecnología bélica, existe el temor eterno de que estalle una Tercera Guerra Mundial,
y se analizan posibles puntos de partida y chispas por todo el mundo. China intentando
recuperar el control de Taiwán, con los Estados Unidos de América declarando que
protegerán la isla en caso de una invasión militar china ciertamente genera preocupación.
Taiwán se protegió de las amenazas chinas a través de la educación y la tecnología,
produciendo semiconductores esenciales para el funcionamiento de la economía mundial.
Esta especialización taiwanesa provoca grados de vulnerabilidad y sensibilidad en varios
países y por tanto, la paz y soberanía en la isla es fundamental para el mundo. A la luz
de la teoría de la Interdependencia Compleja de Keohane & Nye, este artículo pretende
aclarar las razones que impiden un conicto armado entre China y Estados Unidos por la
independencia o anexión denitiva de Taiwán.
Palabras Clave: Interdependencia Compleja; Semiconductores; Sensibilidad; Taiwán;
Vulnerabilidad.
INTRODUÇÃO
Um conito armado entre os Estados
Unidos da América e a República Popular da
China seria devastador. Os resultados deste
confronto seriam catastrócos, se é que reme-
diáveis, pois são duas superpotências nucleares,
dois dos maiores exércitos do mundo e com
tecnologias extremamente avançadas.
Há anos observa-se no cenário internacio-
nal as animosidades escalonarem entre Estados
Unidos e China com diversos pretextos. Em
quase qualquer disputa internacional, o posi-
cionamento destes países atua como diretrizes
para países satélites, aliados e alinhados se posi-
cionarem também. E convergindo ou divergin-
do, são tomados como ‘norte posicional’ por
diversas outras nações.
Por serem nações referências na região,
o objetivo – de todas as nações, mas princi-
palmente – das nações hegemônicas é manter
e/ou ampliar o que Morgenthau chamou de
status quo. Tanto os Estados Unidos quanto
a China são as maiores zonas de inuência
para os países ao seu redor, seja com comér-
cio, cultura, costumes, política ou através da
potencial força militar. A nação em que o ob-
jetivo externo se congura mais em conservar
o poder em seu favor do que modicar a dis-
tribuição do mesmo, persegue uma política
de manutenção do status quo (Morgenthau,
2003, p. 88).
13 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p11 - 23, abr. 2023
Manter o status quo, em suma, signica
um preservar e ampliar sempre o poder pen-
dendo a balança do mesmo para si e utilizando
das mais variadas táticas para tal feito, a m de
restringir ameaças futuras de desaos de po-
der. Em nossa leitura, China e Estados Unidos
se encontram nesta situação. Mesmo teorica-
mente não participando da mesma região de
interesse, ambos são superpotências, fato que
faz o status quo não se restringir ao aspecto re-
gional, pois através de comércio, alianças polí-
ticas, soft power e dentre outras táticas, a zona
de inuência de ambos os países transcendem
as fronteiras regionais.
E essa abrangência do alcance do pode-
rio e inuência destas superpotências é que
faz com que o medo de se eclodir um con-
ito armado em qualquer lugar do mundo,
quando envolvido duas ou mais superpotên-
cias hegemônicas, se escalone em uma guer-
ra de proporções catastrócas, afetando todo
o globo de maneira substancialmente, assim
como a Primeira e a Segunda Guerra mun-
dial. Conitos regionais que pouco afetam a
dinâmica de países hegemônicos, infelizmen-
te não chamam a atenção para uma resolução
rápida, haja vista que o custo de uma resposta
efetiva, pode variar dentre apenas nanceiro
ou se indispor com uma outra superpotência,
como por exemplo, o mais novo conito bé-
lico entre Rússia e Ucrânia iniciado em 2020,
não negligenciando a história de desavenças
passadas que ainda se encontram sem resolu-
ção, como a Crimeia, em 2014.
Dentre as razões pela disputa russo-u-
craniana se encontra a disputa pelo status quo
regional não só dos países envolvidos direta-
mente na guerra, mas de outras hegemonias,
como Estados Unidos da América e potên-
cias europeias. De acordo com Mearsheimer
(2014, p.77), os americanos e a gana dos países
membros da OTAN de pressionar as frontei-
ras russas provocaram a tomada da Crimeia,
em 2014, em uma retaliação russa que deveria
ser óbvia e esperada e continua: “[...] o ociden-
te vem se movendo em direção ao quintal da
Rússia e ameaçando seus principais interesses
estratégicos” (Mearsheirmer, 2014a, p. 77-78,
tradução nossa)
2
.
Em outra perspectiva do conito, temos
o argumento de que a Ucrânia não entraria na
OTAN, que é uma organização militar, mas
sim em um acordo de livre-mercado entre
a Europa, o que não signicaria uma amea-
ça bélica (Sestanovich, 2014, p. 174), e que
a política externa russa não se tornou mais
agressiva em resposta às políticas americanas,
mas sim como resultado das dinâmicas de suas
políticas internas, como seu processo eleitoral
fraudulento, que gerou insatisfação interna e
pressionou a agenda externa russa (Mcfaul,
2014, p. 169).
Independente da perspectiva adotada, sa-
lienta-se a disputa pelo status quo. O próprio
Mearsheimer (2014b, p. 175), em resposta a
Sestanovich e McFaul na mesma revista, reco-
nhece que a expansão da União Europeia e a
promoção da democracia são ameaças aos in-
teresses russos o que corrobora que a disputa
pelo status quo das hegemonias está presente
em ambos os entendimentos do conito. E,
como a Ucrânia, Taiwan se encontra entre
uma disputa de duas hegemonias, China e Es-
tados Unidos, em busca da ampliação de seus
respectivos status quo.
2 “[...] the West had been moving into Russias backyard and
threatening its core strategic interests.
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A DISPUTA VELADA PELO
STATUS
QUO DE TAIWAN
China e Estados Unidos debatem constan-
temente pela disputa de soberania em diversas
frentes de conitos ao redor do mundo. Muitas
vezes, terceirizando suas participações para evi-
tar o choque direto entre si, seja apoiando lados
opostos de um conito já existente, como por
exemplo a situação Norte e Sul coreana.
Quando a disputa é diretamente da par-
te com o país hegemônico, a outra hegemonia
nancia, incentiva, apoia o outro lado, pois,
pensando no cenário global como um todo.
Em um cenário de disputa de poder, visando a
política externa de cada país, qualquer conito
que possa enfraquecer uma superpotência rival,
vale o investimento ou até a não interferência
para solucioná-lo.
De acordo com Morgenthau (2003,
p.64), a política de status quo é uma posição
de poder já estabelecida contra a tentativa de
se implantar uma nova. A China é uma su-
perpotência consolidada no continente asiá-
tico, e os Estados Unidos também têm sua
inuência naquela região através de bases mi-
litares, como na Coreia do Sul e no Japão
3
,
acordos bilaterais
4
e vantagens econômicas
5
.
E o conito entre China e Estados Unidos
3 De acordo com o Defense Manpower Data Center (2023),
os Estados Unidos possuem 24.159 mil militares america-
nos na ativa em bases dentro da Coreia do Sul e 53.246 mil
militares em bases no Japão, fora civis militares ou famílias
de militares.
4 Acordos bilaterais em diversas áreas como a Declaração de
Washington, na segurança, que prevê, dentre outros, o envio
de um submarino nuclear americano periodicamente para
a Coreia do Sul, além de inserir o país no “guarda-chuva
nuclear de proteção americana (e White House, 2023).
5 O mais recente deles é o acordo rmado entre Estados uni-
dos e Japão que isenta ambos os países de impostos e taxas
sobre exportação de minerais críticos para a produção de
baterias de carros elétricos. A China possui amplo domínio
neste mercado e os americanos almejam diminuir a vulnera-
bilidade deles sobre o tema (Swanson, 2023).
pela independência ou não de Taiwan não
foge a essa regra.
Em 1970, ainda no contexto de um
mundo bipolar devido a Guerra Fria (1947-
1991), Taiwan sofreu um duro golpe contra
a sua independência e autonomia, que ainda
não é declarada. As Nações Unidas concediam
o assento chinês em suas reuniões para a Re-
pública da China, que hoje é conhecida por
Taiwan. Isto era feito, porque a capital de toda
China ocialmente estava sediada em Taipei,
no pós-segunda guerra mundial. Havia este
embate entre a ONU e a China continental
no período de Guerra Fria, pois os países oci-
dentais capitaneados pelos Estados Unidos
não almejavam conceder poderes ao regime
comunista que se instaurava formalmente na
parte continental do país desde 1949, iniciado
por Mao Tsé-tung. Para as nações ocidentais,
possuíam diferenciações entre a China conti-
nental e a ilha em que conhecemos hoje como
Taiwan, sendo respetivamente República Po-
pular da China (China Continental) e Repú-
blica da China (Taiwan).
A República da China (Taiwan) era con-
siderada como a “China Livre” pelas nações
ocidentais. Por este fator, o assento chinês na
ONU, bem como poder de voto e veto, repre-
sentações em assembleias e conselhos, e parti-
cipações em formalidades estavam assegurados
pelo governo presente em Taipei, e não na Chi-
na Continental (Ko, 2004, p. 146).
Porém, em 1971, depois de extensas
negociações e principalmente por receio do
poderio e preocupação de ambos com os so-
viéticos da URSS e de como uma aliança en-
tre China e Estados Unidos auxiliaria nesta
questão (Tucker, 2005, p. 117), o assento na
ONU, que antes pertencia a Taiwan, foi con-
cedido à China Continental, e Pequim logo
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se apressou em determinar medidas que ga-
rantissem que Taiwan não se rebelasse, como
restrições de liberdades, aumentando seu con-
trole na ilha, na década de 70.
Com a ilha sob controle da China, resta-
vam poucas alternativas a Taiwan, ou o con-
fronto bélico direto, que seria um fracasso to-
tal e resultaria em milhares de mortes, ou um
plano mais a longo prazo, que a princípio, o
governo chinês acharia lucrativo e consegui-
ria passar desapercebido. Este projeto consiste
em utilizar o mercado e as vantagens compa-
rativas do país aumentando a dependência de
agentes externos à sua economia e atrelando-a
a sua independência. Basicamente utilizando
o mercado e as vantagens de Taiwan contra a
própria China.
No contexto de dominância, Taiwan da
década de 70 era dispendiosa. O impacto das
crises globais do petróleo atingiu a economia
da ilha – assim como sentida em todo o glo-
bo -, ampliando a situação de dependência da
China, haja vista que a maioria dos acordos
comerciais bilaterais foram suspensos devido
ao não-reconhecimento de Taiwan como um
Estado independente pós-1971, por conse-
guinte, países mantendo acordos bilaterais
com a província rebelde sinalizava à Chi-
na que não respeitavam sua soberania sobre
aquele território, o que geraria conitos e in-
disposições internacionais com os chineses e
seus aliados, sob o qual a maioria esmagadora
dos países preferiu evitar, inclusive os Estados
Unidos, que suspendeu as ajudas e facilita-
ções de empréstimos para não agredir a sobe-
rania chinesa.
Os americanos eram responsáveis por
mandar ajudas substanciais para desenvolver
a indústria, bem como utilizava a ilha como
um ato de resistência ao comunismo que se
implementara pouco a pouco no leste asiático,
com aportes principalmente na década de 50 e
60. Para se ter um parâmetro, 31% de todo o
investimento estrangeiro que os Estados Uni-
dos da América realizavam ao redor do mun-
do em agricultura, indústria e tecnologia entre
os anos 1951-1953 era localizado em Taiwan
(Ko, 2004, p. 171).
Com essa baixa brusca no orçamento,
Taiwan precisou se reinventar. O cenário re-
gional do leste asiático em meados dos anos
70 era o investimento em tecnologia, princi-
palmente encabeçado por Coreia do Sul, Ja-
pão e Hong Kong, esta última, em situação se-
melhante a Taiwan, já que estava sob domínio
britânico, almejava a independência, porém,
retornada aos domínios chineses ocialmente
em 1984, como Taiwan.
O contexto em que se encontra Taiwan é
o de independência não reconhecida pelos de-
mais países do sistema internacional. De fato,
Taiwan é coagida com ameaças bélicas diretas
a não iniciar um processo de independência,
pois caso faça, eclodirá uma guerra. Constan-
temente posições e discursos ociais direta-
mente ameaçam Taiwan, como por exemplo
o discurso do hoje ex-Ministro da Defesa
Wu Qian: “Nós estamos falando sério com as
Forças pela independência de Taiwan: Aque-
les que brincam com fogo irão se queimar, e
a independência de Taiwan signica guerra
(Zhen, 2021, tradução nossa)
6
.
6 We are seriously telling those Taiwan Independence
forces: those who play with re will burn themselves,
and Taiwan Independence means war”
16 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p11 - 23, abr. 2023
A DEFESA DAS FRONTEIRAS
PELA INTERDEPENDÊNCIA
COMPLEXA
De acordo com Wendt (1999, p. 202),
um Estado para ser designado como tal, neces-
sita possuir cinco características basilares, são
estas: Uma ordem institucional legal funcio-
nando; uma organização que detenha o mo-
nopólio e o uso legitimado da força e violência
(leia-se polícia e forças de segurança); uma or-
ganização com soberania; uma sociedade e um
território estabelecido. Embora Taiwan não
possua sua independência reconhecida formal-
mente por órgãos internacionais e a maioria
dos países do mundo, a ilha possui característi-
cas de um Estado-nação. O formalismo da in-
dependência de Taiwan não existir não impede
a ilha de praticar sua independência de fato,
haja vista que possui identidade corporativa de
Estado (Kuntić, 2015).
Notório que, contando exclusivamente
com suas próprias forças militares, Taiwan não
se sustentará em um conito armado contra a
China. Então, o governo da ilha de Formosa
submeteu-se à China militarmente e atua em
outras frentes para igualar a balança de poder
dentre as nações. Os investimentos massivos
em tecnologia e em educação na área tecno-
lógica foram o trunfo para Taiwan ganhar no-
toriedade e maior relevância, não só regional,
mas globalmente.
Keohane e Nye explicam o conceito de
vulnerabilidade e sensibilidade como fatores
que quanticam uma interdependência entre
atores internacionais. Em suma, a sensibilida-
de, é o ato de um Estado conseguir responder
com rapidez a quaisquer eventuais contratem-
pos internacionais, e a vulnerabilidade é me-
dida através dos custos desta resposta – sejam
políticos, econômicos, sociais, etc. - se ela foi
efetiva ou deixou sequela à nação (Keohane;
Nye, 2012, p. 231-234).
Um país é sensível a outro quando algo
acontece além-fronteiras e o país sente. Quan-
to mais sensível um país é em relação a outro,
maior sua dependência, haja vista que a esta-
bilidade do país não depende apenas de seu
governo, mas sim, se o outro país está fazendo
um bom trabalho também. E vulnerabilidade
é o ato de conseguir responder para minimizar
os danos causados pela sensibilidade. Se um
país conseguir responder com altivez sua sen-
sibilidade, ele é mais sensível que vulnerável.
A China ao nal da década de 1970, épo-
ca cuja as mudanças da ONU já se congu-
ravam estabelecidas, pouco era ‘sensível’ ou
vulnerável’ a Taiwan. Se uma crise ocorresse na
ilha, afetaria o preço dos peixes no continente,
talvez um ou outro imbróglio militar, todavia
controlado e nada fora do esperado.
Porém, a recíproca não valia para ambos.
Com Taiwan fora da ONU, seus acordos eco-
nômicos independentes do governo de Pequim
praticamente inexistiam, e os que se mantive-
ram, não eram substanciais. A sensibilidade so-
bre o que acontecia na China era enorme, e a
vulnerabilidade acompanhava, pois o poder de
resposta também não existia.
O investimento alocado em educação
e tecnologia rendeu frutos a longo prazo. O
maior exemplo fora a criação do Parque In-
dustrial de Ciências Hsinchu, inaugurado
no nal de 1980. Este complexo incentivava
a produção de prossionais focalizando na
área tecnológica além de descobertas de no-
vas tecnologias. A situação de ‘dependência
entre países ou atores variados é denido por
Keohane e Nye (2012, p. 7) como quaisquer
situações que afetam signicantemente sua
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política interna oriunda de forças externas. O
Hsinchu não despertou os radares chineses de
ameaça, pois, em teoria, seria proveitoso ter
em seu domínio uma formação de mão-de-
-obra qualicada e descobertas tecnológicas,
mesmo que em uma província rebelde, além
de que os chineses não previram que cariam
dependentes, sensíveis e vulneráveis a curto
prazo da tecnologia taiwanesa.
Mas isso aconteceu. Taiwan se desenvol-
veu tecnologicamente a ponto de produzir
56% de todos os semicondutores no mundo
(Prashad, 2023, p.1) e 92% dos mais avan-
çados, que possuem componentes menores
que 10 nanômetros e maior capacidade (Bu-
chholtz, 2023, p. 1). Esses semicondutores
são essenciais para o funcionamento de apa-
relhos de uso cotidiano, como televisores, ce-
lulares, videogames, computadores, e também
os de tecnologias mais avançadas, e até bélica.
Com um amplo domínio de mercado em uma
área tão relevante, todos os países do mundo
aumentaram a sensibilidade e vulnerabilidade
sobre o que acontece em Taiwan. Nenhum
país no mundo consegue, a curto prazo, subs-
tituir Taiwan e sua produção de semiconduto-
res com tanta eciência, o que levaria a para-
lisação de produção de diversas empresas caso
uma guerra eclodisse, proporcionando uma
crise nanceira catastróca.
Os países ocidentais, capitaneados pelos
Estados Unidos, também não almejam que a
produção do praticamente “monopólio mun-
dial” de semicondutores que Taiwan possui,
caia nas mãos do governo de Pequim, pois se-
ria uma arma letal contra os países ocidentais.
Colocando em perspectiva com acontecimen-
tos recentes, a Rússia invadiu militarmente a
Ucrânia com nenhuma resistência militar do
ocidente, não porque eles não queiram inter-
ferir, mas a Rússia detém o maior abasteci-
mento de gás natural da Europa, que é um
bem essencial para o aquecimento das casas,
devido ao inverno rigoroso europeu. Todos
os reexos que o ocidente fez para repudiar
a guerra não envolveram combater com tro-
pas diretamente a Rússia. Se restringiram em
respostas econômicas através de sanções, blo-
queio de contas, retirada do sistema Swift, e
nanciamento de armamentos, mantimentos,
ajudas humanitárias para a Ucrânia.
Nem mesmo os Estados Unidos, que di-
retamente não possui tanta vulnerabilidade
ou sensibilidade ao interrompimento do for-
necimento do gás russo, consegue atuar beli-
camente em prol da Ucrânia, pois, os america-
nos possuem indiretamente vulnerabilidade e
sensibilidade ao continente europeu. E se uma
crise sem precedentes ocorrer no Velho Conti-
nente – que é o que aconteceria em caso de in-
terrompimento abrupto do fornecimento de
gás russo -, os Estados Unidos sentiriam seus
aliados e parceiros comerciais de longa data
perecerem, diminuírem importações e expor-
tações, dentre outros reexos, levando a uma
crise americana também.
Do outro lado, também é custoso para a
Rússia cortar o fornecimento de gás, que po-
deria levar a uma guerra de proporções catas-
trócas, e não localizada apenas na Ucrânia.
A postura do presidente americano Joe Biden
sobre o conito russo-ucraniano sempre reitera
a não-interferência direta militar.
“Nós não procuramos uma guerra entre
OTAN e Rússia. [...] Enquanto os Estados
Unidos ou nossos aliados não são atacados,
nós não estaremos diretamente engajados
neste conito enviando tropas americanas
para lutar na Ucrânia ou para atacar as Forças
Russas.” (Biden, 2022)
18 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p11 - 23, abr. 2023
Sobre Taiwan, as declarações do governo
americano são diferentes. Em caso de invasão
chinesa, as declarações de chefes de Estado
americanos não se restringem a questões econô-
micas e políticas. Os Estados Unidos, de fato,
já declararam reiteradas vezes que defenderiam
militarmente Taiwan em caso de invasão chine-
sa para tentar controlar a província rebelde. Joe
Biden, atual presidente americano, no dia 23
de maio do ano de 2022 em visita ao Japão ar-
mou o compromisso de defender Taiwan mili-
tarmente quando interpelado por um repórter
(Liptak; Judd, 2022, p.1). Sob a ótica america-
na, o controle político e econômico de Taiwan
não é tratado como um problema interno chi-
nês. O praticamente monopólio da produção
de semicondutores no mundo faz com que a
independência da província rebelde seja fator
fundamental à política externa do ocidente. Os
semicondutores atualmente são bens essenciais
para produção da maioria dos aparelhos ele-
trônicos. Até o momento, insubstituíveis. Esta
dependência do produto taiwanês atua como
um “escudo de silício” protegendo a ilha de
eventuais ataques chineses para a retomada de
controle do seu território.
Esta mudança de postura entre a situa-
ção da Ucrânia e Taiwan pelos Estados Uni-
dos exemplica como os americanos possuem
maior vulnerabilidade e sensibilidade se a pro-
dução de semicondutores taiwaneses carem
sob controle exclusivo chinês. A curto prazo,
a produção de grãos da Ucrânia consegue ser
substituída. Os preços de alguns produtos ao
redor do globo aumentarão, os reexos de um
conito desta magnitude são sentidos em di-
versos países, principalmente os menos abas-
tados, onde o aumento de preço de produtos
alimentícios acarretam em fome. Mas há a pos-
sibilidade de substituir as importações ucrania-
nas, utilizar de outros países que produzem os
grãos, haja vista que o país não é o maior pro-
dutor da área. Esta mesma lógica se aplica para
energia nuclear e equipamentos, outro comér-
cio em que Kiev possui destaque. A escassez do
produto se deverá ao preço aplicado à ele, e não
a inexistência da mercadoria em si.
O mercado de semicondutores é diferente
do mercado de grãos ou energia nuclear ucra-
niano. Taiwan é líder disparada no seguimento,
e quando se trata de nanotecnologia em semi-
condutores, produz mais de 90% no mundo,
deixando para trás a Coreia do Sul, que é a se-
gunda colocada.
Bens de primeira necessidade utilizam de
semicondutores para funcionar. Em caso de
uma guerra e paralização da produção, em-
presas de tecnologia ao redor do mundo como
Apple, Google, Microsoft, Samsung, Sony, e
outras empresas que empregam tecnologia em
seus produtos, como a indústria automobilís-
tica, por exemplo, seriam forçadas a parar suas
produções pela escassez de semicondutores.
A quantidade de empregos e produtos
dependentes destes componentes é incalculá-
vel. Taiwan utiliza a sensibilidade e vulnerabi-
lidade dos países à seus semicondutores como
autodefesa da China. A dependência dos Es-
tados Unidos dos semicondutores taiwaneses
é considerada uma proteção – ‘Escudo de Silí-
cio’ - contra ameaças da China de reintegração
de posse.
A China continental não detém o con-
trole das fábricas taiwanesas. Taiwan atua in-
dependentemente das políticas chinesas em
diversas áreas. Apesar de possuírem relações
comerciais, elas não demonstram um sen-
timento de pertencimento. Há relações co-
merciais e leis estritamente direcionadas para
investimentos de chineses do continente. Tai-
19 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p11 - 23, abr. 2023
wan não é regida pelas normas constitucionais
chinesas, mas sim possui sua própria consti-
tuição e autonomia para aplicá-la. É expres-
samente proibido pessoas liadas ao Partido
Comunista Chinês, militares ou ex-militares
de investirem na ilha, mesmo que como civis.
Outras grandes companhias chinesas muitas
vezes são restritas a investirem em ‘áreas não-
-estratégicas’ denidas pelo governo de Tai-
wan (Taiwan, 2022).
Dado o exposto acima, Taiwan possui di-
versas restrições sobre capital da China con-
tinental dentro da ilha, mesmo que advindo
de civis. A regulação que perpassa um chinês
do continente ou até um taiwanês que mora
no continente é diferenciada. Existem leis du-
ríssimas que regulam o cidadão que possuiu
contato com o continente. Nenhum cidadão
da China continental pode entrar em Taiwan
sem a autorização da autoridade competente
taiwanesa, e mesmo as que forem autorizadas a
entrada, não poderão participar de atividades
que sejam inconsistentes com o visto
7
. Mesmo
os cidadãos da China continental que apli-
carem para um visto de reunião familiar será
entrevistado, colhido as impressões digitais e
registrado. Expressamente proibido entrar sem
estas etapas
8
. (Taiwan, 2022)
7 Art. 10: “No people of the Mainland Area may enter into
the Taiwan Area without permission of the competent au-
thorities. Any of the people of the Mainland Area who are
permitted to enter into the Taiwan Area may not engage in
any activity inconsistent with the purposes of the permis-
sion. Rules governing the granting of permission referred
to in the preceding two paragraphs shall be drafted by the
competent authorities concerned and submitted to the Exe-
cutive Yuan for approval.
8 Art. 10-1: “Any of the people of the Mainland Area who
apply to enter into the Taiwan Area for family reunion, resi-
dency, or permanent residency shall be interviewed, nger-
printed, and registered for record; where it fails to be inter-
viewed or ngerprinted, no permission shall be granted to
its application for family reunion, residency, or permanent
residency. Governing rules thereof shall be prescribed by the
competent authorities.
O capital chinês em Taiwan é extrema-
mente regulado. Os chineses, mesmo empresas
compostas por civis, não podem investir em
segmentos não autorizados pelo governo taiwa-
nês. E, caso autorizados, há diversas regulações
sobre qual a porcentagem máxima da empre-
sa que poderá pertencer a chineses, bem como
regulações pesadas, até expondo ao governo
taiwanês a lista de acionistas, mesmo que mi-
noritários, e o balancete interno de lucros da
empresa (Taiwan, 2023).
Esta regulação extrema é justicada pela
segurança nacional. O hoje ex-Ministro da
Economia Su Chi-yen enquanto estava no
cargo declarou em entrevista que companhias
chinesas são restritas a investir em setores não-
-sensíveis, como atacado e varejo. proteger a
inteligência empresarial [de Taiwan] é uma
questão de segurança nacional” (Oung, 2020).
Se considerarmos Taiwan um país, a ilha ca-
ria proporcionalmente em terceiro dentre os
Estados que mais aplicam fundos em pesqui-
sa e desenvolvimento, com cerca de 3,5% do
produto Interno Bruto apenas para este m
(Cauti, 2022, p.1).
Mesmo em segmentos considerados não-
-sensíveis por Taiwan, a lei da ilha restringe
porcentagem e regula com atenção os investi-
dores advindos da China continental, mesmo
estrangeiros ou até taiwaneses que lá residem.
Já no quesito defesa nacional, há dois aspectos
relevantes: primeiramente, o fato dos semicon-
dutores, bem como todo o complexo Hsinchu
direcionarem seus progressos também para a
tecnologia militar (So, 2006, p. 71), sendo os
semicondutores necessários para radares, dro-
nes e até em mísseis teleguiados, assim, incre-
mentando a indústria bélica não só de Taiwan,
mas de parceiros comerciais que possam vir a
defender a ilha em caso de uma invasão chinesa.
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O segundo aspecto é que ser o grande
produtor de semicondutores mundial, fazen-
do com que os Estados Unidos da América
possuam uma alta sensibilidade sobre o que
acontece em Taiwan, é um reforço à seguran-
ça da ilha de quaisquer eventuais conitos
armados que ameacem sua independência
de fato. Em um mundo interconectado, o
que acontece em Taiwan reetirá dentro das
fronteiras americanas enquanto os Estados
Unidos não reduzir esta dependência dos se-
micondutores taiwaneses.
Combinando a massiva produção e avan-
çada capacidade de manufaturar os chips tec-
nológicos com a dependência mundial dos
semicondutores, Taiwan consegue se proteger
das ameaças chinesas contra sua independên-
cia e soberania. A manobra taiwanesa está ca-
talogada na academia como “o escudo de silí-
cio”, que em conjunto com a economia forte e
superavitária da ilha, se tornam essenciais para
a segurança nacional do país (Nordin; Stün-
kel, 2022, p.5).
O fato de os semicondutores taiwaneses
não possuírem até a presente data substitutos
à altura em qualidade e tamanho de produ-
ção, além da tecnologia para tal ser extrema-
mente protegida por Taiwan como questão
de segurança nacional, torna países hegemô-
nicos e com poderio militar alto, como os
Estados Unidos, vulneráveis ao que acontece
na ilha. A defesa da soberania de Taiwan pe-
los americanos é provocada por esta vulnera-
bilidade. Ao contrário dos produtos oferta-
dos pela Ucrânia, Taiwan e seu praticamente
monopólio da produção de semicondutores
- produto este essencial e sem substituição no
mercado - implicam com que a importância
da independência da província rebelde seja
fundamental para a economia americana.
Por outro lado, a existência de uma Taiwan
independente da China, todavia, está inter-
conectada a produção e monopólio dos semi-
condutores, além da incapacidade de subs-
tituição deste componente. Keohane e Nye
(2012, p. 233) utilizam o termo ‘interdepen-
dência de vulnerabilidade’ para explicar este
fenômeno. Atores podem ter suas escolhas
de ação limitadas pela interdependência. A
declaração dos Estados Unidos armando ca-
tegoricamente que defenderão militarmente
Taiwan em caso de tentativa de ocupação mi-
litar chinesa pode indicar que suas opções de
ação no conito tenham sido limitadas pela
vulnerabilidade que o país possui causada pe-
los semicondutores.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em suma, o “escudo de silício” atua com
uma arma de defesa para Taiwan, pois uma
ação contra a ilha acarretaria uma ameaça a ca-
deia de suprimentos global de semicondutores,
sem substituição imediata, nem há uma sina-
lização de substituição a curto e médio prazo
para a indústria taiwanesa no mundo.
O fato de os semicondutores serem pro-
dutos essenciais para diversas áreas e não pos-
suírem substituições faz com que a sensibili-
dade e vulnerabilidade de países hegemônicos
perpasse pelo que acontece na ilha.
Ameaças a soberania de Taiwan são senti-
das mesmo em países tidos como hegemônicos.
O não-desejo de que a indústria de semicondu-
tores que sob domínio exclusivo chinês é uma
forte motivação para os países aliados dos Esta-
dos Unidos, principalmente ocidentais – mas
não descartando aliados orientais como Japão e
Coreia do Sul -, entrem em conito bélico para
defender a autonomia de Taiwan.
21 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p11 - 23, abr. 2023
Acordos econômicos são feitos bilate-
ralmente com Taiwan, como se a ilha fosse
independente, perpassando a autoridade do
governo chinês, que considera este ato uma
afronta, mandando mensagem para forças
dentro do país que almejam a soberania com-
pleta da ilha (G1, 2023, p.1). Porém, apesar
da indisposição da China com os Estados
Unidos, temos um impasse generalizado onde
ambos os países dependem de Taiwan para a
produção de semicondutores, inclusive para
fazer guerras, pois se trata de matéria-prima
essencial utilizada nas indústrias bélicas de
todo o mundo.
Também é característica do “escudo de
silício” o fato de que diversas indústrias e
economias seriam afetadas por um conito
bélico em Taiwan, pois a produção de semi-
condutores estaria em risco e o custo de uma
guerra seria maior que o ganho, mesmo para
o lado vencedor do conito, graças a inter-
dependência complexa que o mundo possui.
Duas superpotências, as maiores economias
mundiais, Estados Unidos e China, juntos
são responsáveis pelos maiores volumes no
mercado nanceiro, seja de importações ou
exportações, inclusive entre as partes, o que
os tornam sensíveis e vulneráveis, dependen-
tes uns dos outros.
As demonstrações de poder entre os paí-
ses na região, seja através de declarações de seus
representantes ou de manobras militares, carac-
terizam um soft power para manter o status quo
regional, não deixando sem resposta as ações de
seus rivais, além de demarcarem posição numa
tentativa de demonstrar hegemonia.
Antes de iniciar um conito armado, os
países estudam os custos do conito, e estes
custos não são apenas nanceiros. Morgenthau
(2003, p. 295-320) dene este estudo como
avaliação do poder nacional”, onde além da
lógica simplista de avaliar seu poder bélico pe-
rante o do adversário, é considerada toda for-
ma de poder no cálculo avaliativo. Relações
políticas, geopolítica, custos, tempo... todos
estes exemplos fazem parte de uma avaliação
de poder. E esta avaliação precisa ser honesta,
isenta de nacionalismos, pois apenas um erro
de cálculo pode custar a soberania nacional e a
prosperidade do país.
Os Estados Unidos depender de Taiwan
em diversos aspectos de sua economia por con-
ta dos semicondutores faz com que não apenas
o exército de Taiwan seja levado em conta em
uma “avaliação do poder nacional” feita pela
China, mas também o dos Estados Unidos e de
todos os outros países aliados aos americanos
que, por algum motivo, seriam persuadidos a
auxiliá-los em um possível conito armado.
Este é o “escudo de silício” de Taiwan, que
prospera devido a dependência mundial dos
semicondutores produzidos na ilha rebelde. O
quanto esta proteção irá durar? Não podemos
precisar. Depende do avanço da tecnologia e do
investimento em semicondutores pelos outros
países. Mas Taiwan ainda tem outras artima-
nhas para garantir que perdure este domínio
do mercado: o preço de sua mão-de-obra e
produção. Países com amplas leis trabalhistas
e impostos mais altos dicilmente conseguirão
competir com os preços de Taiwan.
O investimento em pesquisa e desenvolvi-
mento ser alto em Taiwan não causa espanto aos
analistas internacionais, pois este investimento
também atua como um investimento em defe-
sa nacional, que todo o país possui. Através do
investimento e desenvolvimento e da ciência, o
escudo de silício” que permeia a ilha formosa
está cada vez mais reforçado, mantendo intacta
suas fronteiras, seus quase 24 milhões de ha-
22 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p11 - 23, abr. 2023
bitantes e resguardando sua autonomia como
país independente, que a China insiste em cha-
mar de ‘província rebelde’.
Enquanto persistir a dominância global
no mercado dos semicondutores em Taiwan,
bem como a continuidade da importância dos
mesmos semicondutores como matéria-prima
de produtos essenciais para a economia glo-
bal, um conito armado na região continuará
desestimulado devido ao alto custo e a vulne-
rabilidade dos países ao produto. O futuro e
a vinda de novas tecnologias também podem
complicar Taiwan, mas pelos investimentos
em educação, tecnologia e desenvolvimento da
ilha, os taiwaneses estão se preparando para ele.
Com isto, o “escudo de silício” ca cada vez
mais reforçado, blindando o país sem levan-
tar nenhuma parede, mas a interdependência
complexa o faz mais intransponível que muitos
tanques de fabricação chinesa ou americana.
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24 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p.24 - 38, abr. 2023
O FUTURO DO TRABALHO
ASSALARIADO SEGUNDO A LEI GERAL
DA ACUMULAÇÃO CAPITALISTA NA
PERSPECTIVA DA NOVA REVOLUÇÃO
TECNOLÓGICA.
THE FUTURE OF WAGE LABOR ACCORDING TO THE GENERAL LAW OF
CAPITALIST ACCUMULATION IN THE PERSPECTIVE OF THE NEW TECH-
NOLOGICAL REVOLUTION
EL FUTURO DEL TRABAJO ASALARIADO SEGÚN LA LEY GENERAL DE
ACUMULACIÓN CAPITALISTA DESDE LA PERSPECTIVA DE LA NUEVA
REVOLUCIÓN TECNOLÓGICA.
Noêmia Lazzareschi
1
Marcelo Augusto Vieira Graglia
2
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2023v20n1p24-38
Recebido em: 15 de agosto de 2023
Aceito em: 06 de fevereiro de 2024
RESUMO
Este artigo discute as transformações que vêm afetando o mundo do trabalho, e suas
perspectivas de futuro, segundo a lei geral da acumulação capitalista, especialmente
considerando o contexto da nova revolução tecnológica baseada na expansão da
inteligência articial e de outras tecnologias digitais. Aponta, ainda, os fenômenos do
taylorismo/fordismo, as crises que os sucederam, o processo de globalização da economia e
as implicações sociais da reestruturação produtiva.
Palavras-chave: Futuro Do Trabalho; Lei geral da Acumulação Capitalista; Revolução
Tecnológica; Inteligência Articial.
ABSTRACT
is article discusses the transformations that have been aecting the world of work, and
its future prospects, according to the general law of capitalist accumulation, especially
1 Doutora em Ciências Sociais pelo Instituto de Filosoa, Ciências e Letras da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP.
Professora de Sociologia da Faculdade de Ciências Sociais e do Programa de Estudos Pós-Graduados da PUCSP. Contato: acyr.
noemia@terra.com.br
2 Doutor em Tecnologias da Inteligência e Design Digital pela PUC-SP; Engenheiro Mecânico e Mestre em engenharia pela UNESP;
Pós-doutor em Inteligência Articial e Impactos Sociais pela PUC-SP; Prof. do depto. de Administração da PUC-SP e Coordenador
do Programa de Estudos Pós-Graduados em Tecnologias da Inteligência e Design Digital. Contato: marcelograglia@me.com
Artigo
24 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte,
ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p.12 - 21, abr. 2023
25 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p.24 - 38, abr. 2023
INTRODUÇÃO
O início do século XXI marca o adven-
to de uma nova onda de inovação tecnológica,
que se forma, especialmente, a partir da expan-
são das tecnologias digitais. Realidade virtual e
aumentada, blockchain, computação quântica,
robótica avançada e, de forma destacada, in-
teligência articial, são parte de um conjunto
de tecnologias disruptivas, cujo potencial de
aplicação em diversos campos pode impactar
fortemente diversos aspectos da vida humana:
o social, o econômico, o educacional, entre
outros. A magnitude das transformações que
já se iniciam permite classicar este fenômeno
como uma nova revolução tecnológica (Gra-
glia; Huelsen, 2020).
Sistemas baseados em inteligência arti-
cial e, mais recentemente, os modelos LLM
Large Language Models, ou grandes modelos
de linguagem, concretizados através do lança-
mento de produtos como o ChatGPT da em-
presa Open AI, o Bard, da Google e o Bing
do Facebook, são capazes de gerar textos sos-
ticados, relatórios técnicos, trabalhos escolares,
artigos cientícos, poemas, códigos de compu-
tação, entre outros, podendo adotar, inclusi-
ve, o estilo de autores cujos materiais estejam
disponíveis na internet. Também os produtos
DALL-E, lançado pela Open AI e o Midjour-
ney desenvolvido pelo laboratório de pesqui-
sa independente Midjourney Inc. localizado
na cidade de São Francisco, EUA, processam
linguagem natural e são capazes de gerar ima-
gens em diferentes estilos, como imagens foto
realistas e mesmo pinturas de objetos ou rostos
humanos, por exemplo, a partir de descrições
textuais. Estamos, pois, vivendo uma verdadei-
ra revolução tecnológica como desdobramento
do processo de reestruturação produtiva que se
iniciou nas últimas décadas do século XX com
o desenvolvimento das tecnologias da informa-
ção de base microeletrônica.
Estas recentes tecnologias digitais têm po-
tencialidade para transformar radical e profun-
damente não só o mundo do trabalho nos mais
diferentes ramos da vida econômica, como
também a maioria das atividades humanas e
todas as dimensões da vida social e da vida de
todas as pessoas no curtíssimo prazo, dado o
seu poder de rápida difusão e sua enorme ca-
pacidade de substituir tarefas cognitivas tipica-
considering the context of the new technological revolution based on the expansion of
articial intelligence and other digital technologies. It also points out the phenomena
of Taylorism/Fordism, the crises that followed them, the process of globalization of the
economy and the social implications of productive restructuring.
Key words: e Future Of Work; General Law of Capitalist Accumulation; Technological
Revolution; Articial Intelligence.
RESUMEN
Este artículo analiza las transformaciones que vienen afectando al mundo del trabajo, y
sus perspectivas futuras, según la ley general de la acumulación capitalista, especialmente
considerando el contexto de la nueva revolución tecnológica basada en la expansión de
la inteligencia articial y otras tecnologías digitales. También señala los fenómenos del
taylorismo/fordismo, las crisis que les siguieron, el proceso de globalización de la economía
y las implicaciones sociales de la reestructuración productiva.
Palabras clave: Futuro Del Trabajo; Ley General De Acumulación Capitalista; Revolución
Tecnológica; Inteligencia Articial.
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mente, e até então, executadas exclusivamente
por humanos.
A análise sociológica das possíveis con-
sequências econômicas, políticas, sociais, cul-
turais de sua utilização nos remete imediata e
fundamentalmente não só ao capítulo XXIII
do livro I de O Capital – O processo de produ-
ção capitalista – de Karl Marx, como também
ao Manifesto Comunista de Marx e F. Engels,
cujo conteúdo é a apresentação clara, simples
e resumida da lógica da estrutura do modo de
produção capitalista e a antecipação de seus
diferentes estágios de realização, fundamento
teórico necessário para a compreensão da con-
temporaneidade.
Não se pretende reproduzir aqui aqueles
textos, mas apenas lembrar que a compreen-
são das novas transformações dos mundos do
trabalho e suas implicações sociais está ali su-
gerida, devendo-se apenas atualizá-las. Repor-
tando-se inicialmente aos séculos XIX e XX,
constata-se, tal como previsto por Marx, que
alterações nos meios de produção, isto é, no ca-
pital constante, provocam alterações na soma
global dos salários, isto é, no capital variável.
Em outras palavras: alteram a composição or-
gânica do capital:
“Chamo a primeira composição segundo
o valor, e a segunda de composição técni-
ca. Há estreita correlação entre ambas. Para
expressá-la, chamo a composição do capital
segundo o valor, na medida em que é deter-
minada pela composição técnica e reete as
modicações desta, de composição orgânica
do capital” (Marx, 1971, p.713).
As alterações no capital constante, graças,
sobretudo, à introdução da máquina a vapor,
propiciaram o início do processo de industria-
lização no século XVIII e sua intensicação no
século seguinte, ampliando muito signicativa-
mente o número de trabalhadores assalariados,
operários em sua grande maioria, em quase to-
dos os países da Europa ocidental.
Este artigo tem como objetivos demonstrar:
1) os efeitos sociais imediatos e perversos
do processo de reestruturação do mundo do
trabalho com a introdução das tecnologias di-
gitais, como a inteligência articial, e de novas
técnicas de organização do processo de produ-
ção e de prestação de serviços;
2) que os prognósticos mais otimistas
sobre as consequências econômicas, políticas,
sociais e culturais da introdução das inovações
tecnológicas e organizacionais das últimas dé-
cadas do século passado que revolucionaram o
mundo do trabalho e permitiram vislumbrar
o advento de um mundo novo, de uma nova
sociedade na qual os trabalhadores disporiam
não só de melhores condições materiais de
vida, mas, sobretudo, de tempo para sua auto
realização, tornando realidade o sonho de toda
a humanidade de ter “direito à preguiça”, resul-
taram do total desconhecimento da lógica da
acumulação capitalista.
A argumentação teórica deste artigo se
fundamenta na literatura nacional e interna-
cional da Sociologia Geral e da Sociologia do
Trabalho, cujo conteúdo permite o aprofunda-
mento da análise e compreensão das diferentes
etapas do processo de realização e desenvolvi-
mento do modo de produção capitalista, tal
como indicadas nos três diferentes itens que o
constituem.
O primeiro item ou seção deste artigo tra-
ta de demonstrar as repercussões sobre o mun-
do do trabalho, a vida econômica e a vida social
da introdução e consolidação das inovações or-
ganizacionais e tecnológicas que deram origem
a duas novas formas de organização do proces-
so de trabalho, conhecidas como “taylorismo
e “fordismo”.
27 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p.24 - 38, abr. 2023
Em seguida, no item II, uma análise da
crise econômica dos anos 60 e as reações das
empresas e dos governos estabelecidos para o
seu enfrentamento, cujo processo culminou
com uma nova reestruturação do processo de
trabalho e com a globalização da economia.
Reestruturação do processo de trabalho e
suas implicações sociais é a questão do item III
deste texto. Aqui a preocupação é apresentar o
toyotismo”, uma nova forma de organização
do processo de trabalho que conjuga novas tec-
nologias de base microeletrônica e novas técni-
cas gerenciais de trabalho, dando início à uma
verdadeira revolução no mundo do trabalho
com o desenvolvimento das tecnologias da in-
formação, hoje tecnologias digitais, ferramen-
tas da indústria 4.0 e do ChatGPT.
Esse item do artigo se desdobra na análise
das implicações sociais das inovações tecnoló-
gicas e organizacionais em curso, tais como o
aumento dos índices de desemprego e do mer-
cado informal de trabalho, a exigência de no-
vas e sosticadas competências prossionais, a
consolidação de novas e precárias relações de
trabalho, etc.
E nas Considerações Finais encontra-se
um breve retrospecto da situação atual vivi-
da pelos trabalhadores de todos os países in-
dustrializados do mundo, caracterizada pelo
agravamento de suas possibilidades nos mer-
cados de trabalho e, portanto, pelo agrava-
mento de suas possibilidades de sobrevivência
que, no entanto, poderá ser a origem de no-
vos rearranjos institucionais como expressão
de novas formas de resistência dos trabalha-
dores atingidos.
TAYLORISMO/FORDISMO:
“AUMENTAR CAPITAL É,
PORTANTO, AUMENTAR O
PROLETARIADO”
O século XX assistiu ao assalariamento da
maior parte das populações dos países indus-
trializados com a consolidação do taylorismo e,
fundamentalmente, do fordismo, como formas
de organização do processo de trabalho, seja do
trabalho de produção de bens, seja do processo
de prestação de serviços, comprovando a tese
do capítulo XXIII de O Capital segundo a qual
Aumentar o capital é, portanto, aumentar o
proletariado.” (Marx, 1971, p. 714).
Com efeito, por suas especicações téc-
nicas e organizacionais, com ênfase na acen-
tuação da divisão técnica do trabalho, taylo-
rismo/fordismo geraram milhões e milhões de
empregos; aumentaram a produtividade do
trabalho e as taxas de lucros dos capitalistas,
pois quanto maior o número de trabalhadores
assalariados maior sempre será a produtividade
do trabalho nas condições tecnológicas dadas
e, em decorrência, maior será a taxa da mais-
-valia; elevaram os salários; tornaram possível
a distribuição de muitos benefícios sociais de-
vido ao fortalecimento do poder de barganha
dos sindicatos; baratearam as mercadorias e
permitiram o ingresso dos trabalhadores na
sociedade de consumo, considerando-se que a
produção padronizada em massa exigia e exige
a mesma proporção de consumo, ou seja, con-
sumo de massa.
Por tudo isso, taylorismo/fordismo per-
duraram nos Estados Unidos como formas
de organização predominantes do processo de
trabalho por mais de sete décadas no século
passado, mesmo porque o sucesso econômico
que provocaram não incentivava inovações de
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produtos e muito menos inovação do proces-
so de produção dada a elevada imobilização de
capitais de sua estrutura técnica. E o sucesso
econômico que provocaram está sintetizado
nas conhecidas expressões como: “Anos Dou-
rados”, “Anos Gloriosos”, “Décadas de Ouro
como referência aos anos de considerável cres-
cimento econômico que marcaram o século
XX no período pós Segunda Grande Guerra,
graças à universalização dessas duas formas de
organização do processo de trabalho.
No entanto, tal como previsto ainda no
capítulo XXIII, a batalha da concorrência entre
muitos capitais individuais, já concentrados,
mas ainda não centralizados, só pôde ser en-
frentada com mudanças signicativas na pró-
pria organização empresarial e do processo de
trabalho para permitir a redução dos preços
das mercadorias com o aumento ainda maior
da produtividade. E para tal foi, e sempre será,
necessário primeiramente investir maciçamen-
te em ciência e tecnologia, o que demandou, e
sempre demandará, vultosos investimentos dos
governos, ou dos grandes capitalistas ou, ainda,
dos grandes capitais que se formaram a partir
da criação das sociedades anônimas ou da fusão
de muitos capitais, eliminando os pequenos e
fazendo surgir a centralização dos capitais.
A centralização completa a tarefa da acumu-
lação, capacitando o capitalista industrial a
ampliar a escala de suas operações. É o mesmo
o efeito econômico dessa ampliação, decorra
ele da acumulação ou da centralização. E tan-
to faz que a centralização se realize pela via
compulsória da anexação, quando certos ca-
pitais se tornam centros de gravitação tão po-
derosos que quebram a coesão individual de
outros capitais, absorvendo seus fragmentos,
ou mediante a fusão de capitais já formados
ou em formação, obtida por meio de processo
mais suave de constituição de sociedades anô-
nimas” (Marx, 1971, pp.728 - 729).
Mas a centralização do capital não foi su-
ciente para enfrentar a concorrência, agora
concorrência entre grandes capitais centraliza-
dos, isto é, grandes oligopólios. Outras provi-
dências foram necessárias, como a multinacio-
nalização do capital para reduzir ainda mais os
custos da produção com a instalação de uni-
dades produtivas em países de industrialização
atrasada, com abundante força de trabalho po-
liticamente desorganizada, submetida a baixos
salários, e que ofereciam garantia de generosos
incentivos scais, sem citar a falta de restrições
legais e regulatórias sobre as condições de se-
gurança no trabalho e gestão ambiental, que
costumam demandar investimentos importan-
tes para obtenção de conformidade.
Além disso, a ampliação dos mercados era,
e é, condição indubitável para a sobrevivência
dos grandes capitais – tanto industriais quanto
nanceiros - pois, como se sabe, a realização dos
lucros se efetiva no processo de circulação das
mercadorias, isto é, no ato da venda das merca-
dorias. E à medida, que o excesso de competi-
ção e a saturação dos mercados, coloca pressão
sobre os resultados nanceiros das empresas ca-
pitalistas, estas buscam possibilidades de explo-
rar novos mercados. Assim, como armavam
Marx e Engels no Manifesto Comunista:
A burguesia não pode existir sem revolucio-
nar constantemente os meios de produção e,
por conseguinte, as relações de produção e,
com elas, todas as relações sociais.” .... “Su-
primem-se todas as relações xas, cristaliza-
das, com seu cortejo de preconceitos e ideias
antigas e veneradas; todas as novas relações se
tornam antiquadas, antes mesmo de se con-
solidar. Tudo o que era sólido se evapora no
ar, tudo o que era sagrado é profanado, e por
m o homem é obrigado a encarar com sere-
nidade suas verdadeiras condições de vida e
suas relações com a espécie” (Marx; Engels,
1978, pp. 96-97).
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A CRISE DOS ANOS 60, A
REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA
E A GLOBALIZAÇÃO DA
ECONOMIA
Nas últimas décadas do século passado,
surgiram novos padrões de concorrência em
virtude da própria multinacionalização do ca-
pital e da recuperação da economia japonesa
agora elevada à potência mundial, cuja conse-
quência inevitável foi uma nova divisão inter-
nacional do trabalho ao transformar países da
América Latina – Brasil, Argentina, México – e
do Sudeste da Ásia – Coréia do Sul, Taiwan,
Cingapura, Malásia, Indonésia, Filipinas – até
então exportadores de bens primários, em paí-
ses industrializados e exportadores de bens du-
ráveis, acirrando a competição internacional e
ameaçando os interesses econômicos dos USA
e dos países industrializados da Europa.
Ironicamente, a nova divisão internacio-
nal do trabalho foi um dos fatores determi-
nantes da crise da economia mundial - crise de
consumo - que teve início na segunda metade
da década de 1960 e atingiu seu ponto culmi-
nante em 1973, quando os países produtores
criaram a OPEP e elevaram o preço do barril
do petróleo, insumo industrial insubstituível,
provocando, em decorrência, o aumento dos
preços das mercadorias. O enfrentamento da
crise e da concorrência internacional obrigou
as empresas a novas e importantes decisões que,
mais uma vez, transformaram o mundo do tra-
balho, imprimindo-lhe uma nova fase e deter-
minando o aparecimento de um novo perl de
trabalhador, tal como demonstram as análises
de Eric Hobsbawm (1995), Manuel Castells
(1999), David Harvey (1992), dentre outros
historiadores e cientistas sociais que aqui são
retomadas e assim interpretadas:
1ª) Tornava-se evidente o esgotamento re-
lativo do paradigma taylorista/fordista por sua
rigidez tecnológica e organizacional que invia-
bilizava a inovação de produtos com sua pro-
dução padronizada em massa; como enfrentar
uma crise de consumo produzindo-se em gran-
des quantidades sempre os mesmos produtos?
2ª) A instabilidade dos mercados exigia
adaptação da produção ao dinamismo da de-
manda, agora assentada na exigência de inova-
ção e qualidade dos produtos, subvertendo a
organização do trabalho ao sobrepor a deman-
da à produção;
3ª) O aparecimento de novos padrões de
consumo a exigir a inovação de produtos;
4ª) A globalização nanceira, com o m
do Tratado de Bretton Woods, da qual se tor-
naram reféns todos os países do mundo, sobre-
tudo aqueles em processo de desenvolvimento,
onerando com juros altos e desregulamentados
as atividades produtivas já pressionadas pela
elevação dos preços dos insumos industriais
devido à crise do petróleo com a formação da
Organização dos Países Produtores de Petróleo;
5ª) A rígida regulamentação dos mercados
de trabalho em vários países industrializados e
as pressões sindicais que aumentaram os salá-
rios ao longo dos Anos Dourados e exigiram
benefícios sociais, com o consequente aumento
de impostos e encargos sociais dicultando a
sobrevivência de muitas empresas e/ou redu-
zindo consideravelmente a sua margem de lu-
cros, o que signica redução de investimentos.
(Lazzareschi, 2008)
Nesse novo cenário econômico mun-
dial, as empresas iniciaram o trabalho de
adaptação das tecnologias de informação de
base microeletrônica (tecnologias desenvolvi-
das sobretudo, mas não exclusivamente, pela
NASA – National Aeronautics and Space Ad-
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ministration – durante o período mais crítico
da Guerra Fria). Também os processos produ-
tivo e de prestação de serviços foram conju-
gados aos métodos gerenciais do processo de
trabalho aprimorados no Japão – toyotismo -,
consolidando uma nova reestruturação pro-
dutiva. Suas características principais permi-
tiram, nas palavras de David Harvey (1992,
p. 141), a exibilidade dos processos de traba-
lho, dos mercados de trabalho e dos padrões
de consumo, desatando-se os três nós górdios
que provocaram a crise econômica mundial.
Estas características deram origem à uma nova
forma de acumulação do capital, pelo autor
denominada de acumulação exível.
Novamente, não foi suciente a reorgani-
zação tecnológica e organizacional do processo
de trabalho. Era necessário, ao mesmo tempo,
ampliar os mercados consumidores, ou seja,
era necessário intensicar a internacionalização
dos mercados com a redução das barreiras al-
fandegárias e a formação de blocos econômicos
com os países vizinhos ou mesmo com países
de outros continentes, via tratados de coope-
ração, para garantir mercado para os produtos
das empresas situadas nos Estados nacionais
constituintes daqueles blocos.
Além disso, o desenvolvimento tecnológi-
co também tornou possível a internacionaliza-
ção do processo de produção e de prestação de
serviços graças à internacionalização da tercei-
rização e da subcontratação, inaugurando a era
das empresas em rede, um dos pilares da reor-
ganização das empresas fundada nos princípios
do toyotismo dos anos 70 -, juntamente com o
sistema just-in-time/kanban, cuja característica
principal é a produção orientada pela deman-
da, que supõe o m ou redução signicativa
dos estoques e o controle total da qualidade do
trabalho.
O resultado desse processo foi a conso-
lidação de uma nova lógica empresarial que
provocou, dentre outras consequências, a de-
sestruturação dos mercados de trabalho ao
dispersar o processo de produção e de presta-
ção de serviços pelo mundo, cujos desdobra-
mentos imediatos se expressam no aumento
do desemprego e do mercado informal de
trabalho; no desaparecimento de muitas ocu-
pações e surgimento de outras para as quais
se exigem novas competências prossionais
(Graglia; Basílio; Almeida, 2022); no estabe-
lecimento de novas e precárias relações de tra-
balho (terceirização, contrato temporário de
trabalho, jornada parcial de trabalho, banco
de horas, pejotição, trabalho intermitente e,
mais recentemente, uberização ou plataformi-
zação das relações de trabalho); na redução do
poder de barganha dos sindicatos; no apro-
fundamento da desigualdade entre regiões,
países e continentes, dada a desigualdade na
apropriação do conhecimento cientíco e tec-
nológico. Assim, mais uma vez, conrma-se a
tese de Marx e Engels apresentada no Mani-
festo Comunista:
A necessidade de um mercado constante-
mente em expansão impele a burguesia a
invadir todo o globo. Necessita estabelecer-
-se em toda parte, explorar em toda parte,
criar vínculos em toda parte. Por meio de
sua exploração do mercado mundial, a bur-
guesia deu um caráter cosmopolita à pro-
dução e ao consumo em todos os países.
Para desespero dos reacionários, retirou da
indústria sua base nacional. As velhas in-
dústrias nacionais foram destruídas ou es-
tão se destruindo dia a dia. São suplanta-
das por novas indústrias, cuja introdução
se torna uma questão de vida e morte para
todas as nações civilizadas” (Marx; Engels,
1978, p. 97).
31 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p.24 - 38, abr. 2023
AS IMPLICAÇÕES SOCIAIS DA
REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA
E quais as consequências humanas e so-
ciais de todo esse processo de modernização
tecnológica e organizacional em curso desde
as últimas décadas do século passado e que
hoje atingiu seu ponto culminante com as
mais sosticadas tecnologias digitais, como a
inteligência articial e suas recentes ferramen-
tas como o ChatGPT e seus modelos de ne-
gócio como a Indústria 4.0? As consequências
são muitas e de inusitada gravidade, dada a
sua potencialidade para provocar problemas
sociais cuja solução não se vislumbra nos cur-
to e médio prazos:
Em primeiro lugar, o problema conside-
rável da redução dos postos de trabalho a par-
tir da automatização e robotização do processo
de produção e da introdução de novas formas
de execução do trabalho em todos os setores
da vida econômica que se transformam graças
à utilização da inteligência articial, automa-
ção robótica de processos (ou RPA - Robotic
Process Automation), blockchain, big data e
da profusão de aplicativos para a satisfação
de um sem número de necessidades sociais,
além da recente introdução dos sistemas de
inteligência articial do tipo grandes modelos
de linguagem, que deverá transformar ainda
mais profundamente os mundos do trabalho
e a vida das pessoas.
A redução dos postos de trabalho e suas
implicações sobre a classe trabalhadora estão
claramente previstas nos dois textos eleitos
como orientação teórica para a elaboração des-
te artigo. Assim, o capítulo XXIII de O Ca-
pital trata de demonstrar que as alterações na
composição orgânica do capital com a intro-
dução de novos meios de produção ou novas
forças produtivas, especialmente novas tecno-
logias, resulta na produção progressiva de uma
superpopulação relativa ou de um exército
industrial de reserva, ou ainda, de uma popu-
lação excedente, que pode assumir diferentes
formas: utuante, latente e estagnada.
A superpopulação relativa existe sob os mais
variados matizes. Todo trabalhador dela faz
parte durante o tempo em que está desem-
pregado ou parcialmente empregado. As fases
alternadas do ciclo industrial fazem-na apa-
recer ora em forma aguda nas crises, ora em
forma crônica, nos períodos de paralisação.
Mas, além dessas formas principais que se re-
produzem periodicamente assume ela, conti-
nuamente, as três formas seguintes: utuante,
latente e estagnada” (Marx, 1971, p.743).
Marx denomina de latente a superpopula-
ção relativa que ora é repelida, ora atraída em
quantidade maior, segundo a escala da produ-
ção. O uxo de trabalhadores do campo para as
cidades gera no próprio campo uma população
supérua que Marx denomina de população
supérua sempre latente,
cuja dimensão só se torna visível quando,
em situações excepcionais se abrem todas
as comportas dos canais de drenagem. Por
isso o trabalhador rural é rebaixado ao nível
mínimo de salário e está sempre com um pé
no pântano do pauperismo.” (Marx, 1971,
p. 746)
A terceira categoria é a superpopulação re-
lativa estagnada, assim caracterizada por Marx:
“...ela constitui parte do exército de traba-
lhadores em ação, mas com ocupação total-
mente irregular. Ela proporciona ao capital
reservatório inesgotável de força de trabalho
disponível. Sua condição de vida se situa
abaixo do nível médio normal da classe tra-
balhadora e justamente isso torna-se a base
ampla de ramos especiais de exploração do
capital. Duração máxima de trabalho e mí-
nimo salário caracterizam sua existência.
(Marx, 1971, p.746)
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No Brasil, segundo a PNAD do IBGE
publicada em 07 de junho de 2023, o desem-
prego atinge 8,3% da população economica-
mente ativa, ou seja, o equivalente a 9 milhões
de pessoas. A reforma da CLT de 2017 regu-
lamentou relações de trabalho muito próximas
por sua precariedade daquelas que caracteri-
zam a população estagnada, segundo Marx: o
trabalho em domicílio, o contrato de trabalho
intermitente e, sobretudo, o trabalho platafor-
mizado ou, vulgarmente, trabalho uberizado.
Marx também se refere a outras categorias
da superpopulação relativa de trabalhadores
atingidos pelo desenvolvimento da estrutu-
ra econômica capitalista e os classica como
primeiro, os aptos para o trabalho; “segundo,
os órfãos e lhos de indigentes”; “terceiro, os
degradados, desmoralizados, incapazes de tra-
balhar”. (Marx, 1971, pp.744-745)
Na atualidade, podemos fazer menção às
categorias de trabalhadores temporariamente
desempregados e, portanto, temporariamen-
te excluídos do mercado formal de trabalho à
espera de conjunturas econômicas geradas de
emprego e aos excluídos do mercado formal
de trabalho seja por falta de qualicações ou
competências prossionais demandadas pelo
mercado de trabalho, seja por falta de condi-
ções morais para trabalhar. Para David Harvey
(1992), desde as últimas décadas do século pas-
sado, a situação dos trabalhadores no mercado
de trabalho tem se agravado muito e sua repre-
sentação consta da segunda parte de seu livro
Condição Pós-Moderna. Segundo o autor, a
estrutura do mercado de trabalho é constituída
de um centro composto de empregados:
em tempo integral, condição permanente
e posição essencial para o futuro de longo
prazo da organização” (Flexible Patterns of
Work (1986), do Institute of Personnel Ma-
nagement), grupo que diminui cada vez mais
e que se caracteriza por suas competências
prossionais de exibilidade, adaptabilidade
e mobilidade geográca. E a periferia é com-
posta de dois grupos periféricos: “o primeiro
consiste em empregados em tempo integral
com habilidades facilmente disponíveis no
mercado de trabalho” e caracterizados por
uma alta taxa de rotatividade; o segundo gru-
po “oferece uma exibilidade numérica ainda
maior e inclui empregados em tempo parcial,
empregados casuais, pessoal com contrato
por tempo determinado, temporários, sub-
contratação e treinandos com subsídio públi-
co (Harvey, 1992, p. 144).
Para Castells, (1999) a economia infor-
macional, global e em rede, cujo substrato
material são as tecnologias da informação, isto
é, as tecnologias digitais – “...distingue-se por
uma tendência a aumentar a desigualdade social
e a polarização, seja, o crescimento simultâneo
de ambos os extremos da escala social, o mais
alto e o mais baixo.” (Castells, 1999, p.420).
Também Ricardo Antunes (2019, p.19) se re-
fere a esse processo de polarização ao tratar do
proletariado de serviços, “...call centers, tele-
marketing, indústria de software e tecnologias
de informação e comunicação, hotelaria, sho-
pping centers, hipermercados, fast-food, gran-
de comércio, entre tantos outros” submetido
à degradação das condições de trabalho, seja
pela natureza do próprio trabalho – digitação,
por exemplo, seja pelos baixos salários ou pelas
relações que se estabelecem entre capital e tra-
balhadores: trabalho intermitente, temporário,
autônomo, desregulamentado.
A polarização se expressa no aumento da
desigualdade social no seio mesmo da classe
trabalhadora se considerarmos os fundamen-
tos da teoria da estraticação social cujo foco
são a renda e a posição social. Com efeito,
constata-se uma diferenciação entre traba-
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lhadores altamente qualicados, com novas e
sosticadas competências prossionais, consi-
derados essenciais para as empresas pela capa-
cidade de mobilização de seus saberes – saber
fazer, saber ser, saber agir – e a grande maio-
ria dos trabalhadores facilmente substituíveis,
seja por outros com as mesmas baixas quali-
cações prossionais, seja pela automatização
ou robotização das tarefas, tornando-se traba-
lhadores dispensáveis e, portanto, inexplorá-
veis. No entanto, lembremos, tal como o faz
Claus Oe (1985) que:
quanto mais garantido e protegido institu-
cionalmente é o emprego, menos atraente
é para os investidores empregar mais tra-
balhadores. Portanto, as vantagens para os
empregados criam riscos para a existência de
empregos, devido às estratégias racionais de
mercado dos investidores e empregadores
(Oe, 1985, p. 96).
O avanço no desenvolvimento das no-
vas tecnologias digitais tende a agravar ainda
mais o cenário do desemprego, das relações
precarizadas de trabalho e do trabalho infor-
mal, com implicações políticas muito graves
por sua potencialidade de gerar problemas
sociais que, embora previstos desde as déca-
das anteriores, continuam a preocupar as po-
pulações de todos os países do mundo pelas
diculdades de solução.
São vários os problemas que decorrem do
cenário acima apontado: se a fonte principal
dos lucros do capital é a extração da mais va-
lia, isto é, a exploração do trabalho vivo, como
obter lucros se os trabalhadores estão sendo
substituídos por máquinas e tecnologias digi-
tais sempre mais sosticadas? Como garantir
o consumo da produção e dos serviços se os
trabalhadores não têm empregos? Como garan-
tir a produção da riqueza se os investimentos
não forem lucrativos? Como, então, garantir
a reprodução simples e a ampliada do capital?
Marx e Engels respondem essas perguntas no
Manifesto Comunista, armando que o desen-
volvimento da estrutura econômica capitalista
leva a burguesia a cavar sua própria cova.
“O desenvolvimento da indústria moderna,
portanto, abala a própria base sobre a qual
a burguesia assentou seu regime de produ-
ção e de apropriação. O que a burguesia
produz principalmente são seus próprios co-
veiros. Sua queda e a vitória do proletariado
são igualmente inevitáveis” (Marx; Engels,
1987, p.105).
Em segundo lugar, o problema da forma-
ção da força de trabalho em países emergentes
como o Brasil, nos quais a grande maioria da
população trabalhadora não tem acesso a esco-
las e universidades pautadas pelos padrões de
excelência para permitir aos trabalhadores a
aquisição das competências exigidas pelo mer-
cado de trabalho.
Lembremos que, na medida em que as no-
vas tecnologias e as novas técnicas gerenciais,
isto é, a nova lógica organizacional do processo
de trabalho tende a fazer desaparecer os pos-
tos de trabalho individualmente assumidos,
enfatizando a noção de processo e não mais a
estrutura e função, perde signicado o concei-
to de qualicação prossional elaborado para
indicar as qualicações do emprego, do posto
de trabalho, ou seja, as diculdades para a rea-
lização das tarefas a ele inerentes e as qualidades
ou qualicações requeridas do trabalhador para
realizá-las bem. Por isso, a substituição do con-
ceito de qualicação prossional pelo conceito
de competência prossional.
O conceito de competência concentra-se
nas qualidades intelectuais, mentais, cultu-
rais, sociomotivacionais do trabalhador e que
lhe permitem a compreensão da totalidade do
processo de trabalho, a versatilidade em várias
34 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p.24 - 38, abr. 2023
tarefas, a capacidade de tomar decisões rápidas
e corretas e a participação em equipes multi-
funcionais. Assim, o conceito de competência
prossional enfatiza o necessário desenvol-
vimento das potencialidades de inteligência,
criatividade, espírito crítico e iniciativa e a
aquisição de conhecimentos como condição
para a empregabilidade, o que demanda maci-
ços investimentos governamentais na educação
escolarizada, investimentos inviáveis na grande
maioria dos países nos curto e médio prazos e
cujos resultados são colhidos no mínimo uma
década depois.
Além disso, as novas ferramentas da inte-
ligência articial deverão revolucionar uma vez
mais a educação, segundo o fundador do Cha-
tGPT, Sam Altman, conforme reportagem pu-
blicada pelo jornal O Estado de São Paulo do
dia 18 de junho de 2023. Num colóquio com
estudantes em Tóquio, na Universidade Keio,
Sam Altman fez as seguintes armações:
“Provavelmente, as redações nunca mais se-
rão as mesmas. Temos uma nova ferramenta
na educação. Como uma calculadora para
as palavras. E a forma como ensinamos terá
que mudar, e a forma como os estudantes são
avaliados também vai ter de mudar” (Altman,
Sam in Jornal O Estado de São Paulo, Cader-
no Metrópole, p. A17).
Apesar da proximidade com as novas fer-
ramentas da inteligência articial, seus criado-
res ainda não apontaram o rumo da necessária
revolução da educação escolarizada. Não sabem
responder as questões mais fundamentais: O
que aprender? Como ensinar? Como avaliar
as competências das pessoas? E como selecio-
ná-las para um emprego, para a realização de
um trabalho? Não há dúvida de que o objetivo
primordial da educação escolarizada será sem-
pre o desenvolvimento das potencialidades da
natureza humana para realizá-la em sua pleni-
tude. E para o mundo do trabalho? Quais serão
as novas especícas competências cobradas dos
trabalhadores? (Lazzareschi; Graglia, 2023).
Em terceiro lugar, a questão das políticas
sociais que marcaram o nascimento dos welfa-
re states, isto é, o nascimento dos Estados de
Bem Estar Social com a distribuição de muitos
benefícios sociais, como educação, assistência
médica e hospitalar, aposentadoria, seguro de-
semprego, licença saúde, etc., num contexto
atual de grave problema econômico com graves
repercussões políticas e sociais: o desemprego,
a informalidade e mesmo as relações regula-
mentadas, porém precarizadas, de trabalho
reduzem consideravelmente a arrecadação das
contribuições previdenciárias que garantiam a
distribuição daqueles benefícios e tendem a in-
viabilizar a sua manutenção.
No Brasil, embora muito acanhados, mi-
lhões de pessoas deles dependem para sobrevi-
ver e para amenizar a indignidade das condi-
ções precárias em que vivem. Reduzi-los ainda
mais e/ou, na pior das hipóteses, suprimi-los,
é provocar um verdadeiro caos político e so-
cial de consequências imprevisíveis. Reformas
tanto da legislação trabalhista quanto da pre-
videnciária foram feitas recentemente com
muitas diculdades, depois de muitos anos de
discussão acalorada, e deverão ser refeitas para
reduzir ainda mais o décit nanceiro que sem-
pre provocaram. De qualquer maneira, alguém
deverá pagar a conta e essa é mais uma questão
já formulada e que continua sem resposta.
Em quarto lugar, a questão do enfraque-
cimento do poder de barganha dos sindicatos,
ressaltando-se, no entanto, que esta ordem de
apresentação não signica a classicação da
importância das questões que hoje se impõem
enfaticamente para todos, pois todas têm o
mesmo grau de importância por gerarem pro-
35 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p.24 - 38, abr. 2023
blemas sociais de difícil solução nos curto e
médio prazos. As transformações do mundo do
trabalho institucionalizaram as negociações di-
retas entre empregadores e trabalhadores, em-
presa por empresa, e o negociado se sobrepôs
ao legislado, o que se consolidou com a refor-
ma da CLT – Consolidação das Leis do Traba-
lho, dando início ao processo de transformação
do padrão regulatório das relações de trabalho
no Brasil e do padrão de ação sindical.
Com efeito, pode-se identicar o início
da mudança do padrão de ação sindical já nos
anos de 1990, quando de conitivo passou a
ser negociador com a experiência da câmara se-
torial do setor automotivo, por exemplo, e com
os acordos celebrados entre capital e trabalho
relacionados com a organização, gestão e estra-
tégia industrial que deram prosseguimento a
esse processo, tal como aquele que se estabele-
ceu entre o Sindicato dos Metalúrgicos de São
Bernardo do Campo e a Volkswagen do Brasil
referente à reestruturação produtiva dessa em-
presa multinacional.
São muitos os autores que compartilham
dessas análises sobre o comportamento sindi-
cal dos trabalhadores das indústrias modernas
e sobre as diculdades dos sindicatos na ma-
nutenção de seu papel tradicional de represen-
tação e de defesa expressa dos interesses des-
ses trabalhadores. Dentre os autores, citem-se
Leôncio Martins Rodrigues (1999), Manuel
Castells (1999), Ricardo Antunes e João Batista
dos Santos (2015). Algumas citações, apesar de
longas, devem ser aqui apresentadas:
“Entre os fatores de debilitamento da solida-
riedade dos trabalhadores estão a dispersão da
produção (às vezes por países diferentes e dis-
tantes); a redução da dimensão das unidades
de fabricação e o aumento da produção em
pequenas empresas: a maior mobilidade do
capital internacional; a tendência em direção
a acordos por empresas e locais de fabricação;
a exibilização da produção, das normas e re-
gulamentos que regiam tarefas, hierarquias e
carreiras dos empregados; a maior heteroge-
neidade da força de trabalho em virtude do
aparecimento de novas prossões, da maior
presença da mulher e dos imigrantes no con-
junto da mão de obra. O resultado desses no-
vos desenvolvimentos não é apenas o m (ou
o começo do m) do velho modelo tayloris-
ta-fordista, mas também, como dicilmente
poderia deixar de ser, da velha classe operária
sobre a qual se apoiara o sindicalismo como fe-
nômeno de massa” (Rodrigues, 1999, p. 177).
São armações que se repetem em nume-
rosos outros textos, como no volume I do livro
A Era da Informação: Economia, Sociedade e
Cultura”, onde se lê:
“Os sindicatos de trabalhadores, principal
obstáculo à estratégia unilateral de reestrutu-
ração, foram enfraquecidos por sua incapaci-
dade de representar os novos tipos de traba-
lhadores (mulheres, jovens, imigrantes), de
atuar em novos locais de trabalho (escritórios
do setor privado, indústria de alta tecnologia)
e de funcionar nas novas formas de organi-
zação (a empresa em rede em escala global)
(Castells, 1999, p. 350).
Quanto à mudança do padrão de ação sin-
dical de conitivo para negociador, a citação a
seguir é esclarecedora e foi extraída do artigo
“Para onde foram os sindicatos” de Ricardo
Antunes e João Batista dos Santos:
“Para onde foram os sindicatos? Esse é o tema
proposto para esse dossiê. Nossa resposta à hi-
pótese apresentada no início deste artigo é que
as últimas décadas parecem empurrar o novo
sindicalismo em direção a uma esdrúxula com-
binação, síntese de, ao menos, três movimen-
tos: a velha prática peleguista, a forte herança
estatista e a forte inuência do ideário neoli-
beral (ou social-liberal), impulsionada, ainda,
pelo culto da negociação e defesa do cidadão.
Vale dizer que cada um destes elementos pode
ter prevalência em diferentes conjunturas
(Antunes; Dos Santos, 2015, p. 525).
36 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p.24 - 38, abr. 2023
A compreensão das consequências do pro-
cesso de modernização das empresas sobre o
mercado de trabalho, isto é, sobre o emprego e
sobre a empregabilidade, em outras palavras, o
temor do desemprego, foi um dos fatores deter-
minantes para a adoção do padrão negocial da
ação sindical, mesmo porque a preocupação e a
reivindicação principais e imediatas eram, e ain-
da são, a defesa do emprego ameaçado pelo de-
senvolvimento tecnológico em curso nos países
industrializados e que, inevitavelmente, atingi-
ria as empresas que se recusassem a aceitá-lo.
O ímpeto revolucionário do século XIX
foi abandonado no século XX quando a classe
trabalhadora, ao participar do jogo político ins-
titucionalizado pela burguesia, obteve muitas
vitórias na luta pela melhoria nas suas condi-
ções de trabalho, de salário e de vida, tal como
acima mencionadas, vitórias possibilitadas pelo
crescimento econômico provocado não só pela
organização taylorista/fordista do processo de
produção e de prestação de serviços, como tam-
bém pelo processo de recuperação da economia
mundial destroçada pelas duas grandes guer-
ras. E de revolucionário o movimento sindical
tornou-se conitivo ou de confronto, lutando
sempre por melhorias imediatas nas condições
de vida de todos os trabalhadores.
Como o processo de modernização tec-
nológica e organizacional é muito desigual,
atingindo diferentemente países e continentes,
ainda é possível acreditar na conquista e manu-
tenção de um emprego, de baixa qualidade na
maioria dos casos, é verdade, e na manutenção
dos direitos sociais adquiridos por mais alguns
anos. Daí a tendência à celebração de acordos
entre as partes e o sindicalismo de negociação
que, paradoxalmente, admite e até incentiva a
individualização das condições de trabalho e
de salário, fator importante no enfraquecimen-
to do próprio movimento sindical. Mas, até
quando? Segundo Marx e Engels, tal como se lê
no Manifesto Comunista, até a próxima etapa
do processo de desenvolvimento da estrutura
do modo de produção capitalista, isto é, até a
próxima etapa de realização de sua lógica.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
É inevitável considerar que os trabalha-
dores do mundo inteiro vivem hoje um dos
dilemas mais dramáticos de sua experiência
histórica. Aceitar a introdução das inovações
tecnológicas em curso signica ter de enfren-
tar os seus efeitos perversos. Ao mesmo tempo,
não a aceitar também signica ter de enfrentar
outros efeitos perversos provenientes da dimi-
nuição do ritmo do crescimento e desenvolvi-
mento econômicos.
E, como efeitos perversos, tal como acima
indicados, elencamos:
1) a ameaça de desemprego agravada pelo
surgimento e expansão das tecnologias digitais,
como a inteligência articial, com alta capaci-
dade de substituição do trabalho humano em
diversas atividades;
2) a ameaça de desinvestimento, isto é, a
intensa mobilidade dos capitais, nacionais e in-
ternacionais que, como demonstrou Buraway
nesta armação muito conhecida “O novo des-
potismo é a tirania racional da mobilidade do
capital sobre o trabalhador coletivo” (1985, p.
150), mobilidade dos capitais que se deve com-
preender como a nova forma de controle sobre
a força de trabalho e um freio para o desenvol-
vimento de suas reivindicações;
3) o acirramento da concorrência interna-
cional: a economia globalizada aumenta os riscos
de desemprego devido à maior vulnerabilidade
das empresas ante as exigências do mercado;
37 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p.24 - 38, abr. 2023
4) a especicidade da elevada qualicação
do trabalhador, incrementada também pelos
processos de transformação digital, aumenta o
grau de sua dependência da empresa, embora
seja, ao mesmo tempo, e em certa medida, fa-
tor da dependência maior da empresa em rela-
ção ao trabalhador.
Além disso, convém insistir na insegu-
rança no mercado de trabalho que se expressa
nas altas taxas de desemprego; na insegurança
no emprego que se expressa na redução rela-
tiva ou absoluta de empregos estáveis ou per-
manentes nas empresas e na adoção de novas
e precárias relações de trabalho; na inseguran-
ça na renda que se deve à exibilização dos
salários segundo a situação de cada empresa
(nanceira, rentabilidade, etc.) e de cada tra-
balhador (salário por produtividade); na in-
segurança na contratação do trabalho que se
expressa na individualização do contrato de
trabalho; na insegurança na representação do
trabalho que se expressa no declínio dos ín-
dices de sindicalização e no enfraquecimento
do poder de barganha dos sindicatos (Matto-
so, 1995).
No entanto, convém também lembrar
que os trabalhadores jamais assistiram, e não
há razões para acreditar-se que assistiram iner-
tes a seu próprio massacre. Tal como sempre
reagiram, vão reagir uma vez mais às situações
que lhes são adversas para a realização de seus
interesses e expectativas, individuais e coleti-
vos, exigindo o surgimento de novos rearran-
jos institucionais que lhes sejam favoráveis ou
simplesmente retirando o seu consentimento
com as novas condições de trabalho (Graglia;
Huelsen; Lazzareschi, 2021). Na verdade, se
no presente vivem essa situação de inseguran-
ça, não se pode eximi-los de responsabilidade,
pois que com elas consentiram como fruto de
suas avaliações racionais das possibilidades
oferecidas pelas novas tecnologias. Em outras
palavras: aceitaram e estão aceitando os ris-
cos próprios de todo processo de mudança e
saberão elaborar estratégias ostensivas de de-
fesa de seus interesses se julgaram necessário,
como sempre zeram.
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39
Conjuntura Internacional Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p.39 - 50, abr. 2023
Adis Abeba como modelo de
reflexão sobre a Cooperação Sul-Sul e
desenvolvimento de uma Cidade Global
na África Oriental
Addis Abeba como modelo de reflexión sobre la cooperación Sur-Sur y el desarrollo de
una Ciudad Global en África Oriental
Addis Ababa as a model for reflection on South-South Cooperation and the development
of a Global City in East Africa
Recebido em: 7 de março de 2022
Aprovado em: 21 de setembro de 2023
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2023v20n1p39-50
João Pedro Silveira Martins
1
Resumo
Este artigo visa aprofundar a compreensão acerca de como as políticas de cooperação sino-
etíopes, inseridas no contexto das relações Sul-Sul, estão moldando novas dinâmicas de
poder descentralizado no Sul Global e contribuindo para a formação de uma cidade global
em solo africano. O presente artigo inicia por explorar a abordagem da política externa
chinesa em relação à Etiópia e, em seguida, lança um olhar detalhado sobre um estudo de
caso que aborda a emergência de Adis Abeba como um notável polo tecnológico, político
e econômico, solidificando-se como uma forte candidata a se tornar a próxima Cidade
Global Sub-Saariana.
Palavras-Chave
:
Cidade
Global
Etiópia
China
-
Adis
Abeba
Cooperação
Sul-Sul
Abstract
This article seeks to comprehend how Sino-Ethiopian cooperation policies, within the
context of South-South relations, are generating new dynamics of decentralized power in
the Global South and contributing to the emergence of a global city in Africa. The paper
begins by delving into China’s foreign policy approach towards Ethiopia and subsequently
conducts a concise case study on the construction of a technological, political, and economic
vanguard in the city of Addis Ababa, positioning it as a strong contender to become the
next Sub-Saharan Global City.
Keywords:
Global
City
Ethiopia
-
China
-
Addis
Ababa
-
South-South
Cooperation
1 Doutor em Sociologia pela Universitat Autònoma de Barcelona. Pesquisador no Centre d’Estudis i Recerca en Migracions e
fundador da consultora Bela Vista Education for Development. Contato: jipemartins@gmail.com.
Artigo
40
Conjuntura Internacional Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p.39 - 50, abr. 2023
Resumen
Este artículo trata de comprender cómo las políticas de cooperación sino-etíopes, en
el contexto de las relaciones Sur-Sur, están generando nuevas dinámicas de poder
descentralizado en el Sur Global y contribuyendo al surgimiento de una ciudad global en
África. El artículo comienza profundizando en el enfoque de la potica exterior china
hacia Etiopía y posteriormente realiza un conciso estudio de caso sobre la construcción
de una vanguardia tecnológica, política y económica en la ciudad de Addis Abeba,
posicionándola como una firme aspirante a convertirse en la próxima Ciudad Global
subsahariana.
Palabras
clave:
Ciudad
Global
-
Etiopía
-
China
-
Addis
Abeba
-
Cooperación
Sur-Sur.
Introdução: China em África
A China consolidou sua posição como
um dos principais importadores de commodi-
ties da África durante sua fase de amplo cresci-
mento econômico nas duas primeiras décadas
do culo 21. Essa afirmativa chama a atenção
para o fato de que o desenvolvimento dos paí-
ses africanos nos anos recentes es diretamente
e intimamente ligado ao progresso chinês, por
meio da venda de produtos agrícolas e petleo
para o país asiático. Entretanto, as relações si-
no-africanas ultrapassaram a simples troca de
commodities e passaram a estabelecer um ou-
tro núcleo de operações na cooperação para o
desenvolvimento, o que tem suscitado debates
sobre a natureza do modelo de cooperação ado-
tado no Sul Global. (Vadell et al, 2014).
Um ponto de interesse digno de obser-
vação neste “modelo” de cooperação reside na
transão do discurso baseado na doação e aju-
da ao desenvolvimento, adotado pelos doado-
res, para uma abordagem de “ajuda ao desen-
volvimento apresentada pelo próprio governo
chinês. A China estabelece parcerias com di-
ferentes regiões do Sul Global (Sharma, 2016;
Li, 2013; Harris, R L., Y Arias, A. A, 2016),
especialmente no contexto deste estudo, com a
África, em consonância com sua própria ideo-
logia de política externa, que se apoia em in-
teresses ecomicos mútuos com essas nações.
Estas noções de assistência sofreram várias
transformações nos últimos anos. Os investi-
mentos diretos estrangeiros em países africanos
eram inicialmente modestos até os primeiros
anos do século XXI, mas agora eles represen-
tam um dos pilares centrais da cooperão eco-
nômica chinesa com essas nões (Hackenesch,
2011; Zhang, 2016).
No entanto, essa mudança não é algo
novo e tem suas raízes no início do século. O
Fórum de Cooperação China-África (FOCAC)
de 2000, realizado em Pequim, marcou um
momento crucial na agenda de potica externa
chinesa, com relevância significativa para as na-
ções africanas. Nessa ocaso, a China o ape-
nas se comprometeu a oferecer ajuda simples,
mas também a criar um amplo conjunto de
oportunidades que abrange acordos comerciais
ambiciosos, empréstimos com taxas atrativas
para projetos de infraestrutura, investimento
direto, assistência técnica e até mesmo capaci-
tação de trabalhadores (Hackenesch, 2011).
Durante a reunião do FOCAC em 2009,
realizada na cidade de Sharm el Sheik, Egito,
foram apresentados novos projetos com o obje-
tivo de ampliar a abrangência política da coo-
perão e incorporar questões cliticas, cien-
ficas e tecnogicas à agenda. O investimento
chinês se diferencia significativamente dos
41
Conjuntura Internacional Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p.39 - 50, abr. 2023
doadores tradicionais europeus, pois a China
fundamenta sua abordagem de cooperação na
noção de ser uma alternativa às potências tra-
dicionais do Norte Global em outras palavras
oferece uma saída da dependência dos antigos
impérios coloniais (Hackenesch, 2011).
A China está buscando se posicionar como
a “potência em crescimento líder”, que pode se
relacionar de maneira compreensiva com esses
países devido ao seu contexto histórico de co-
lonizão (Vadell, 2021). Isso a transforma em
uma alternativa justa e viável para a cooperação
fora do tradicional eixo Norte-Sul, o que ficou
ainda mais evidente com a notícia da expansão
do BRICS no ano de 2023 e tamm das obras
da chamada Nova Rota da Seda (Pautasso, Un-
garetti, 2017; Rodrigues, 2020).
De todas formas, dentro dos princípios
de sua política externa, o governo chinês rea-
firmava seu compromisso com as normas wes-
tphalianas de soberania e não interferência nos
assuntos internos na conferência Sino-Africana
de Cooperação Internacional ocorrida na pri-
meira década do século 21, momento de maior
acercamento entre China e Etiópia. (King,
2007). O objetivo da cooperão sino-africana
o é impor reformas econômicas ou políticas
aos países africanos, mas sim negociar projetos
abrangentes no campo da infraestrutura e dos
recursos de prodão por meio de acordos entre
empresas estatais chinesas e governos nacionais.
Portanto, essas relações podem ser considera-
das como uma forma de cooperão win-win
(Zhao, 2004).
China na Etiópia
A Etiópia é o único país do continente
Africano que não sofreu por um processo de co-
lonizão, exceto pela breve ocupão italiana
durante a Segunda Guerra Mundial, finalizada
quando o imperador Haile Selassie regressa ao
país. Atualmente, sua economia esancorada
na agricultura, sendo a exportação de ca uma
importante fonte de receita. No entanto, a pro-
dução agrícola é frequentemente prejudicada
por secas recorrentes. Diante desse cenário, o
governo etíope tem direcionado recursos para
áreas cruciais como segurança alimentar, edu-
cação, saúde, acesso à água potável e combate
ao HIV. Além disso, o país tem implementado
projetos ambiciosos de desenvolvimento urba-
no, por meio de grandes empreendimentos de
infraestrutura. Esses projetos requerem consi-
deráveis recursos financeiros externos, incluin-
do empstimos, e conhecimento técnico espe-
cializado. (Thakur, 2009).
O FOCAC em 2000 marcou um momen-
to de grande importância para a obtenção des-
ses recursos, uma vez que iniciou um diálogo
efetivo entre a África e a China, o qual resultou
na formulação de planos de ação destinados a
alcaar medidas internas de desenvolvimento.
no seu lançamento em 2000, a Etiópia se
destacava como o único país a ser beneficia-
do por todas as pautas de cooperação chinesa.
Entre essas medidas, merece destaque a imple-
mentação de tarifas zero para produtos etíopes,
o cancelamento de dívidas e o início de grandes
projetos de infraestrutura, visando fortalecer as
propostas do governo etíope da época. (Tha-
kur, 2009).
Os acordos voltados para a infraestrutura
abriram caminho para o ingresso de diversas
empresas chinesas em setores como transporte,
tecnologia, energia e construção civil, tais como
a China Import Export Corporation para con-
juntos de equipamentos, a Highway Bridge En-
gineering China Corporation, a China Water
Conservancy & Hydropower Engineering Cor-
42
Conjuntura Internacional Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p.39 - 50, abr. 2023
poration, a China Aviation Technology Co., a
China Wanbao Engineering Co., a China Cons-
truction Corporation, a Zhongyuan Petroleum
Prospecting, a Jiangxi International Co. e a Da-
lian Jinzhou Textile Group (Thakur, 2009).
Cumpre ressaltar que o governo etíope re-
conhece a necessidade de preservar sua sobera-
nia e interdependência, ao mesmo tempo em
que enaltece o papel da China ao compartilhar
suas experiências de desenvolvimento e ofe-
recer suporte técnico. A administração etíope
está plenamente consciente da natureza eco-
nomicamente orientada da assistência chinesa
ao país, e expressa claramente seu interesse em
manter as relões sino-etíopes pximas, com
o intuito de garantir uma continuidade cons-
tante e relevante nos fluxos de auxílio destina-
dos aos projetos planejados nos próximos anos
(Thakur, 2009).
Em contrapartida a esses benefícios eco-
nômicos, o governo etíope demonstrou seu
apoio incondicional à China em diversos fó-
runs internacionais, especialmente durante
seu período como membro da Comissão de
Direitos Humanos da ONU até 2007. Nessa
fuão, o governo etíope defendeu consistente-
mente as posições da China em relação ao Ti-
bete e Taiwan, recusando-se a condenar o país
por supostas violações de acordos referentes aos
Direitos Humanos (Thakur, 2009).
Venkataraman e Gofie (2015) sustentam
que a afinidade ideológica entre os governos
dos dois países e o próprio ritmo de desenvol-
vimento chis foram os principais catalisado-
res por trás de seus projetos cooperativos, que
estão se mostrando cada vez mais promissores.
No âmbito político, as ideologias de coexistên-
cia pacífica refletidas nos cinco princípios de
política externa da China desempenham um
papel de extrema importância na consolidação
dessas relações. Esses princípios afastam a co-
notação imperialista e intervencionista associa-
da ao Ocidente em relação à África, propondo,
em vez disso, uma cooperação que se preten-
de horizontal, fundamentada em uma base de
confiança tua entre os dois pses (Venkata-
raman; Gofie, 2015). Esses princípios são:
Panchsheel, ou os Cinco Princípios da coexis-
tência pacífica, foram pela primeira vez for-
malmente enunciados no Acordo sobre Co-
rcio e Relações entre a região do Tibet na
China e da Índia, assinado em 29 de Abril de
1954, que afirmou, em seu preâmbulo, que
os dois governos ‘decidiram entrar no acordo
presente baseados nos princípios:
I respeito tuo pela integridade territorial
e soberania;
II o-agressão mútua;
III Não interferência tua;
IV Igualdade e beneciotuos e
V Co-existência pacífica. (India, 2014, p.2)
A principal diretriz da política externa
chinesa em relação à África é o respeito pelos
países africanos”, e a não intervenção em suas
estruturas políticas parece ser rigorosamente
observada. O benefício econômico mútuo é
uma nica central nos projetos de cooperação
e encontra-se explícito na política externa chi-
nesa, que é fundamentada na ideologia de cres-
cimento a qualquer custo, tanto em seu pró-
prio território quanto no continente africano
(Venkataraman; Gofie, 2015).
As relações sino-etíopes enfrentam diver-
sos desafios em seus próximos passos, embora
a cada momento surjam oportunidades pro-
missoras para ambos os pses. De acordo com
Geda e Meskel (2010), os principais desafios in-
cluem a) empresas etíopes especializadas em ex-
portação de manufaturas competindo com ou-
43
Conjuntura Internacional Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p.39 - 50, abr. 2023
tros mercados e b) produtos manufaturados por
produtores locais sendo excluídos do mercado.
Nos últimos anos, surgiram críticas relevan-
tes que lançaram vidas sobre a natureza das
relações sino-etíopes. Alguns jornais retrataram a
Etiópia como um novo fronte na busca chinesa
por mão-de-obra barata para produtos manufa-
turados mais simples (Ethiopia Becomes... 2015),
enquanto outros criticaram o uso de trabalhado-
res chineses em projetos de infraestrutura e tecno-
logia no país. Empresas de engenharia civil, res-
ponsáveis por grandes projetos de infraestrutura
e energia,o contrataram trabalhadores locais,
o que poderia ter sido befico para a economia
etíope, e os alocaram em posições de produção de
níveis mais baixos (Geda; Meskel, 2010).
Portanto, é de suma importância analisar
os principais projetos de cooperação chinesa
com a Etiópia para compreender os impactos
na economia local, especialmente no que diz
respeito ao emprego e ao desenvolvimento do
comércio etíope. Os autores também apontam
quatro áreas de influência chinesa no país: I)
fluxos de comércio; II) fluxo de Investimento
Externo Direto, transferência de tecnologia e
integração na cadeia global de valor; III) fluxos
de ajuda; e IV) queses de governança (Geda;
Meskel, 2010, p.4). Outros pontos importantes
são mencionados como fatores intervenientes
nas relações sino-etíopes, incluindo impactos
ambientais, fluxos financeiros e a participão
em instituições de governança internacional -
ou regional (Geda; Meskel, 2010).
novo polo de tecnologia, centro de transporte
e abriga a sede da Uno Africana, resultante
da cooperação sino-etíope. No entanto, para
conduzir essa discussão, é necessário com-
preender por que a cidade se tornou um dos
destinos mais importantes para os investimen-
tos capitalistas noculo XXI (Degefa, Cheru,
2021; Cheru, Shaw, 2018; Schiere et al, 2011).
Investimentos Certeiros:
reflexões sobre a produção do
espaço nas cidades
O geógrafo inglês David Harvey (1989)
analisa em sua obra
2
sobre o Direito à Cidade
como a globalização molda o espaço urbano.
Inspirado por Marx & Engels (2003), Harvey
descreve as mudanças na produção do espaço
nas cidades, observando o surgimento de inves-
timentos imobiliários, torres de negócios e es-
paços gentrificados para a elite (Harvey, 1989).
O capital transnacional “pousa” em territórios
de alta rentabilidade durante crises de superacu-
mulação, gerando um processo de “compound
growth. O capital fictício envolve a propriedade
no sistema financeiro, transformando-a em uma
forma de religião”, monopolizando o espaço.
A constante renovação do espaço, resultante da
busca pelo lucro, gera uma destruição inovadora
e reconfiguração constante (Harvey, 2013).
No capitalismo contemporâneo, as crises
são resolvidas através do espaço. A apropria-
ção de territórios é vital. Quando
escassez
Este artigo visa analisar os investimentos
em infraestrutura na cidade de Adis Abeba
como um reflexo das positivas relações sino-e-
tíopes nas áreas de engenharia, constrão civil
e energia, contribuindo para a construção sim-
lica de uma vanguarda etíope dentro do blo-
co africano. A cidade está emergindo como um
2 O trabalho de Harvey é uma releitura importante sobre as
funções da terra e da renda na acumulação capitalista para
compreender como os investimentos financeiros são crista-
lizados na cidade e alteram, talvez porculos, toda a paisa-
gem urbana e espaço de vivência dos cidadãos para objetivos
mercantilistas (Harvey, 2013). A discussão central em seu
trabalho é como o local deixa de ser o espaço de reprodão
básica da vida para ser uma forma de produção de capital,
alterando drasticamente a vida dos cidadãos pelo uso do es-
paço na acumulação de capital (Harvey, 1989).
44
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de mão-de-obra, a produção se expande para
outros locais, ultrapassando fronteiras. A inser-
ção em novos lugares busca elasticidade e mão-
-de-obra, modificando espaços e sociabilidades
para se tornarem palcos de marketing e hibri-
dismo cultural, facilitando a venda da cultura
capitalista contemporânea (Harvey, 2013).
A Cidade Global é um paradigma molda-
do pelo processo de fixação do capital em um
terririo específico. Short (2005) ilustra como
a Globalização influencia o desenvolvimento
urbano, levando cidades a construir aeroportos
internacionais, centros de negócios e mercados
de luxo, além de sediar eventos internacionais,
trazendo portanto o debate da produção do es-
paço nas cidades para as Relações Internacio-
nais
3
(Short, 2005).
Apesar da globalização ser virtual em sua
essência e das mudaas sismicas parecerem
distantes da realidade das pessoas nas cidades,
a coordenação e operação do sistema que man-
tém esse sistema global ativo são realizadas em
territórios físicos. Em outras palavras, mesmo
que a produção global e a descentralização da
comunicação e mobilidadeo recusem a cen-
tralidade do poder, elas se manifestam nas cida-
des globais, que se reestruturam como agentes
desse sistema econômico (Sassen, 2010).
Embora Londres, Nova Iorque, Tóquio ou
Singapura sejam algumas das primeiras urbes
que vêm à mente quando pensamos no sistema
financeiro contemporâneo, novas cidades es-
tão emergindo no cenário internacional como
atores estratégicos capazes de impactar suas re-
3 Outros autores focam nas relações neoimperiais no sistema
internacional, seguindo a abordagem de Wallerstein (1976)
sobre centro e periferia. Apesar da descentralização do po-
der nas Cidades Globais (Gottdiener; Hohle; King, 2019).,
as funções globais ainda se concentram principalmente nas
cidades do Norte Global, onde ocorrem a maioria das opera-
ções financeiras, sedes de empresas e centros de pesquisa de
tecnologia e inovação (Gottdiener, Hutchison, 2011).
giões e redes globais. Um exemplo notável é a
cidade de Adis Abeba, na Etiópia, que chegou
a ser apelidada de “Dubai africana” por revis-
tas de economia durante as principais obras de
investgimento em infraestrutura e tecnologia
em meados dos anos 2010 (Addis Ababa The
Dubai..., 2015).
Figura 1: Mapa do Chifre da África com
localização de Adis Abeba
Fonte: Mapa da Etpia dentro do Chifre da África, indicando
a cidade de Adis Abeba. Google Maps, 2021.
Adis Abeba: desenvolvimento
de uma Cidade Global na
África Oriental
No ano de 2014, a consultora financeira
ATKearney, que analisa as principais cidades
globais e elabora um ranking das próximas ci-
dades globais do futuro, classificou Adis Abeba
como a terceira cidade mais proeminente para
avanço em seu posicionamento global. O rela-
tório, que abordava as cidades com potencial
de ascensão internacional, observou que, em-
bora a inovação em números absolutos o fos-
se elevada, a performance individual da cidade
entre os anos de 2008 e 2013 foi notável, im-
pulsionada pelas elevadas taxas de crescimento
45
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do país nesse período. O relatório tamm des-
tacou os progressos na promão da igualdade,
da saúde e da transparência nos negócios (At
Kearney, 2014).
O que caracteriza uma cidade global é o
fato de seu centro de poder financeiro fazer
parte do território local, além de ser uma pe-
ça-chave do mercado eletrônico e virtual em
escala global. Empresas transnacionais estabe-
lecem redes de filiais com atividades paralelas
ou conjuntas, porém situadas fisicamente em
várias localidades. A inauguração da sede de
um Organismo Internacional em uma cidade,
a escolha de uma cidade espefica para abrigar
a sede e o principal centro de atividades de uma
empresa, bem como a decisão de uma universi-
dade ou centro de tecnologia de criar seu prin-
cipal laboratório de tecnologia da informação
em determinada cidade, são fatores que defi-
nem essa condição de cidade global (Sassen,
2010; Kloosterboer, 2019).
Adis Abeba parece se adequar perfeita-
mente a esses critérios as se estabelecer como
um dos principais centros de poder no contex-
to africano, ao abrigar a sede da União Africa-
na, construída com recursos e envolvimento de
empresas chinesas a um custo de 200 milhões
de lares no icio de 2012. Esse edifício mo-
numental é agora um marco na skyline da cida-
de e foi considerado um “presente chinês para
a comunidade africana. Atualmente, a cidade
é palco das principais reunes políticas envol-
vendo a integração regional na África e emerge
como um dos centros mais relevantes de po-
lítica internacional no mundo (African Union
Opens..., 2012; Kloosterboer, 2019).
No que se refere aos sistemas de trans-
porte, Adis Abeba hoje opera como um hub
de conexões para diversos voos internacionais
com destinos à África e ao Oriente Médio. O
Aeroporto Internacional de Bole desempenha
um papel fundamental nesse contexto e está
passando por expansões significativas para a
construção de novos terminais. O projeto,
financiado por investimentos chineses, visa
aumentar a capacidade do aeroporto, propor-
cionando uma infraestrutura mais abrangente
para acomodar o fluxo crescente de passageiros
(Ethiopia Sets... 2015).
A cidade também sedia um extenso com-
plexo industrial e ostenta a distinção de ter
inaugurado a primeira linha de metrô na África
Subsaariana em setembro de 2015. Esse marco
assume um significado simbólico considerável,
refletindo a aspirão da rego em se estabele-
cer como um polo tecnológico no continente.
A rede de metrô, que cobre uma extensão de
17 quilômetros, interliga as zonas industriais
ao centro urbano (Sub-Saharan...2015). Essa
iniciativa foi financiada pelo Banco Exim e
construída pelo China Railway Group, uma
empresa estatal chinesa de transporte ferroviá-
rio (Want A New... 2015).
As linhas do met percorrem neis, atra-
vessam a região industrial ao sul da cidade e
conectam-se com os distritos de Merkato e o
centro histórico. Outra linha, com trajeto a
oeste, passa pela sede da União Africana, cruza
o governo distrital e alcança áreas residenciais
modernas. A capacidade prevista do metrô é
transportar 60 mil passageiros por hora, con-
tando com duas linhas divididas em 39 esta-
ções na área metropolitana, construídas com o
apoio da China Electric Power Equipment Te-
chnology, outra empresa estatal chinesa. O go-
verno etíope ressalta a importância crítica dessa
infraestrutura para sustentar um crescimento
econômico continuado, que mantém uma taxa
de mais de 10% ao ano (ALADE; EDELEN-
BOS; GIANOLI, 2019).
46
Conjuntura Internacional Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p.39 - 50, abr. 2023
Paralelamente a esse projeto, foi planeja-
da a construção de uma ferrovia que coonecta
Adis Abeba ao Djibuti. Além disso, estão em
andamento a construção de uma usina hidrelé-
trica, a criação de túneis diversos e a realização
de obras para nivelamento de terrenos, visan-
do facilitar futuras estruturas de transporte. A
administração das ferrovias no país ficará sob
a responsabilidade do Shenzhen Metro Group
e da China Railway Engineering Corporation,
ambas empresas estatais chinesas, pelo perío-
do de cinco anos (Alade; Edelenbos; Gianoli,
2019); Modernizing... 2015).
Todas essas operões foram viabilizadas
por meio de empréstimos do Banco da Chi-
na, que ofereceu um período de carência de
três anos e uma taxa de juros de 2,6% baseada
na Libor de seis meses. A empresa beneficiá-
ria e responsável pela construção foi a China
Railway Engineering Corporation, e o projeto
deveria ser concluído em um prazo inferior a
dois anos. O empréstimo es atrelado à dívida
pública da Etiópia, que atualmente equivale a
cerca de 60% de seu PIB, e será pago por meio
dos lucros gerados pelos projetos ferroviários
(Modernizing... 2015).
Estes são exemplos concretos que ilus-
tram como atividades com localização e
endereço físicos facilmente identificáveis
podem exercer um impacto direto sobre as
comunicações, o mercado global, o desenvol-
vimento de novas tecnologias e, consequen-
temente, contribuir para a configuração de
estruturas que descentralizam o poder glo-
bal. Isso, por sua vez, facilita a consolidação
da economia neoliberal e promove a interde-
pendência entre as nações. Nesse contexto,
Adis Abeba emerge como o epicentro de tais
dinâmicas, assumindo não apenas o papel de
um local de expressão da globalização, mas
também de um ator proeminente no panora-
ma internacional.
À medida que as operações financeiras,
burocráticas e políticas internacionais se or-
ganizam em um espaço abstrato e virtual, e à
medida que seus processos se tornam cada
vez mais informatizados, cresce a estratégia de
descentralização física e a complexidade da ad-
ministração tanto por parte das fontes centrais
de poder quanto pelos centros regionais, terri-
toriais e estratégicos, bem como pelos serviços
especializados fundamentais para o funciona-
mento do sistema. Tais serviços de infraestru-
tura de comunicação e mobilidade, tecnologia
da informação, pesquisa e manutenção, são
concentrados em cidades específicas do globo,
a fim de assegurar o funcionamento contínuo
do sistema financeiro e político contemporâ-
neo (Sassen, 1991).
Adis Abeba não destoa desse paradigma e,
graças aos investimentos chineses, está trans-
cendendo suas profundas disparidades sociais
e carências de recursos, metamorfoseando-se
em um centro de excelência em termos de
tecnologia de ponta, infraestrutura urbana e
instituições políticas no contexto do Chifre da
África. A trajetória pioneira da cidade ressal-
ta como as novas relações Sul-Sul e os inves-
timentos diretos estrangeiros chineses estão,
aparentemente, contribuindo positivamente
para o cerio das cidades globais. Esse proces-
so também engendra a inclusão de uma nova
representante do Sul global na lista de desta-
que de 2014, conforme indicado pelo relatório
da At Kearney (2014). Isso reflete a mudança
gradual nas estruturas das relações antes domi-
nadas por dinâmicas Norte-Sul, ou Centro-Pe-
riferia, ao lado do processo de descentralização
de poder e ancoragem de capital flutuante em
investimentos urbanos.
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Reflexões Finais
O crescimento da aquisição de commodi-
ties africanas por parte da China e a implemen-
tação de projetos de cooperação internacional
e desenvolvimento, nos quais empresas estatais
chinesas estão envolvidas em empreendimentos
ambiciosos no continente africano, têm susci-
tado indagações consideráveis sobre a nature-
za das relações sino-africanas no século XXI.
Ainda que alguns estudiosos sustentem que
essas dinâmicas representam uma forma con-
temponea de imperialismo, a potica externa
chinesa aparentemente não almeja redesenhar
as estruturas políticas e econômicas do conti-
nente africano da mesma maneira que as anti-
gas potências coloniais o fizeram por meio de
suas poticas intervencionistas, mesmo após as
descolonizões. A China colhe benefícios dos
investimentos e dos substanciais empréstimos
que concede aos governos locais, enquanto, por
sua vez, esses governos desfrutam de um peo-
do altamente promissor de desenvolvimento e
aprimoramento da infraestrutura, estimulados
pelo próprio crescimento chinês. Nesse senti-
do, é possível perceber que, enquanto a Chi-
na se beneficia das commodities e dos projetos
implementados na África, este último também
obtém sua parcela nos expressivos índices de
expansão econômica chinesa.
Contudo, é crucial monitorar cuidado-
samente o destino dos lucros oriundos desses
investimentos, bem como o modo pelo qual as
populações dos países beneficiados estão efe-
tivamente tirando proveito dessas relações. A
isso soma-se a consideração dos impactos da
pandemia de COVID-19, que empurrou uma
considerável parte da força de trabalho para a
informalidade, especialmente em nações de
baixa renda, afetando sobremaneira o processo
de desenvolvimento (OIT, 2021).
Na Etpia, os índices de emigração eso
em constante ascensão, o que levou o governo
a implementar medidas para conter os abusos
enfrentados pela população emigrante no ex-
terior, particularmente focadas na salvaguarda
das mulheres que trabalham no setor doméstico
no exterior. Nos últimos anos, o governo etíope
estabeleceu acordos internacionais substanciais
de migração laboral bilateral em colaboração
com a Organizão Internacional do Trabalho,
bem como realizou investimentos significativos
na capacitação de sua equipe diplomática e de
inspeção do trabalho. Isso visa gerir essa situa-
ção de maneira eficaz e manter a trajetória de
crescimento do país. (Centro Internacional de
Formação da OIT, 2018; OIT, 2019).
Trabalho informal e novos edifícios no
bairro de Piassa (2024)
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Figura 2: Treinamento para diplomatas, inspetores do trabalho e membros do Ministério do
Trabalho da Etiópia no Centro Internacional de Formação da OIT (2018).
Fonte: arquivo do autor (2018)
A fragilidade das instituições financeiras
e democráticas em países africanos apresenta
um considerável obstáculo para o desenvolvi-
mento econômico. Os recentes conflitos entre
o governo etíope e a Frente de Libertação do
Povo Tigray (TPLF), que exercia controle so-
bre a região de Tigray, têm resultado em uma
significativa crise humanitária. Essa crise inclui
uma onda de emigração para países vizinhos e
para áreas urbanas, comprometendo também
os investimentos estrangeiros no país (Cardoso,
2020; Human Rights Watch, 2022).
Adicionalmente, há a perspectiva de um
fluxo de refugiados e migrantes extremamente
vulneráveis vindos das regiões rurais em dire-
ção à capital. Diante dessa situação, torna-se
urgente a formulação de políticas abrangentes
de inclusão social e urbanização com o intuito
de atenuar as disparidades existentes (Degefa,
Cheru, 2021; Cheru, Shaw, 2018; Schiere et
al, 2011).
Para além dos conflitos, a ausência de
organizações efetivas capazes de coordenar e
assegurar uma distribuição justa e equitativa
dos lucros e vantagens advindos das relações
sino-africanas é uma preocupação relevante.
Torna-se, portanto, imprescindível a realização
de um monitoramento rigoroso dos investi-
mentos e projetos firmados entre os governos
e as empresas estatais chinesas. Esse monito-
ramento visa a uma compreensão aprofunda-
da das novas dinâmicas dos atores envolvidos
na cooperação internacional no Sul Global,
considerando o papel preponderante que essa
49
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cooperação desempenha como um motor cen-
tral do desenvolvimento acelerado nos últimos
anos (Gebregziabher, 2019).
A transformação observada em Adis Abeba
ao longo dos últimos anos constitui um exemplo
paradigtico da colaborão sino-africana para
o desenvolvimento. Através da concretização tan-
gível dos resultados oriundos dos investimentos
focalizados em um espaço geográfico específico, a
cidade emergiu como um modelo concreto. Ade-
mais, essa transformação assume um profundo
significado ideológico, uma vez que Adis Abeba
é reconhecida como um polo de relevância políti-
ca, financeira e tecnogica no futuro. Como um
presente chinês destinado ao desenvolvimento
do continente africano, essa empreitada reafirma
a natureza mutuamente befica da cooperão.
O desafio que agora se coloca consiste na formu-
lação e implementão de estratégias de gover-
naa, inclusão social para a redução das dispa-
ridades, resolução dos conflitos e enfrentamento
dos impactos da pandemia de COVID-19 na
rego do Chifre da África, bem como na plena
promoção do progresso da capital etíope.
Fonte: Foto do metrô durante visita de campo (2024)
50
Conjuntura Internacional Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p.39 - 50, abr. 2023
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Review: The architects of international
relations: building a discipline, designing
the world, 19141940/ Jan Stöckmann
(2022)
Reseña: Los arquitectos de las relaciones internacionales: construyendo una disciplina,
diseñando el mundo, 1914-1940/ Jan Stöckmann (2022)
Resenha: Os arquitetos das relações internacionais: construindo uma disciplina, proje-
tando o mundo, 19141940/ Jan Stöckmann (2022)
DOI: 10.5752/P.1809-6182.2023v20n1p51-53
Recebido em: 02 de fevereiro de 2024
Aceito em: 18 de março de 2024
Horácio de Sousa Ramalho1
O livro “The architects of international
relations: building a discipline, designing
the world, 1914–1940”, de Jan Stöckmann,
foi publicado em 2022 e traz uma nova vi-
são sobre o início das Relações Internacionais
(RI’s) enquanto um campo de conhecimento.
O autor, professor de História Moderna na
Helmut-Schmidt Universität, de Hamburgo
um dos primeiros centros de estudo das RI
faz uso de extensa documentação pessoal,
institucional e arquivos oficiais para recons-
truir os esforços de determinados homens e,
não por um acaso de negligenciadas mulhe-
res, que participaram ativamente do início
da disciplina. Os escritos dessas mulheres
cobriam vários tópicos, bem como suas pro-
postas, mas desde a sua não participação na
Conferência de Paris, seus atos sempre foram
ofuscados pelo preconceito, seja na participa-
ção dos eventos da disciplina ou lecionando
em instituições.
Mas isso não impediu a organização e
realização de aulas e conferências, publicação
de livros e panfletos. Possuíam o intuito de
educar tomadores de decisão e a população
em geral e criar um controle democrático so-
bre a política externa dos países, sob os aus-
pícios de uma nova organização internacio-
nal, a Liga das Nações e foram apoiados por
instituições como o Carnegie Endowment for
1
Mestrando em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e Bacharel
em Relações Internacionais (UFPB). Email: horaciosramalhon@hotmail.com
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Conjuntura Internacional Belo Horizonte,
ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p.31 - 37, abr. 2023
Artigo
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Conjuntura Internacional Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.20 n.1, p.52 - 54, abr. 2023
International Peace e a Rockefeller Founda-
tion e indivíduos, como Montague Burton e
David Davies
2
.
A Segunda Guerra Mundial é fundamen-
tal para o entendimento do começo da disci-
plina, pois muitos são rotulados de “idealistas”
justamente por não terem sido capazes de en-
tender ou prever como os acontecimentos da-
quele período entre guerras resultariam em um
novo confronto mundial. Com os documentos
pessoais desses acadêmicos, como cartas e diá-
rios, o autor mostra não pessoas ingênuas e com
valores desconectados da realidade da power po-
litcs, mas suas aspirações estavam em entender
das causas da guerra e como seria possível li-
mitar as ações erráticas de líderes que, de acor-
do com eles, havia causado a então chamada
Grande Guerra. A diplomacia secreta, o mili-
tarismo e as alianças precisavam ser combatidas
com a transparência política, a educação e uma
ordem internacional fundada em instituições e
sob a ideia de segurança coletiva.
O livro é dividido em oito capítulos, com
a introdução e conclusão não numerados. Na
introdução, conhecemos Fannie Fern Andrews,
que em 1915 fez parte da Central Organisation
for a Durable Peace (CODP), uma organização
que almejava encontrar respostas para a guerra
iniciada em 1914. Tal fato demonstra as pri-
meiras mobilizações, antes mesmo de 1919,
data delimitada como o princípio do campo
das RI. No capítulo 1 temos as origens da dis-
ciplina “na” guerra, e não após ela e como mui-
tos dos arquitetos participaram da conferência
de Paris, como consultores das delegações de
2 Montague Burton: empresário do ramo de vestuá-
rio e patrocinador de disciplinas de RI’s nas univer-
sidades de Oxford, Edimburgo e London School of
Economics; David Davies: industrialista, membro do
parlamento britânico e benfeitor da Universidade de
Aberystwyth.
seus países, e tentaram imprimir suas marcas na
nova ordem global. O capítulo 2 mostra como
o estudo das RI se expandiu nos dois lados do
Atlântico e, apesar das conexões entre vários
personagens e instituições, era afetado pelo co-
lonialismo, racismo e eurocentrismo da disci-
plina em seus primeiros momentos.
O capítulo 3 traz os empreendimentos
e constrangimentos, especialmente financei-
ros, para criar instituições que dariam suporte
para a Liga das Nações, sob a forma de coope-
ração intelectual emrios temas. O capítulo
4 expõe as tentativas de professores atuarem
na elaboração de tratados que buscavam evitar
ou limitar a possibilidade da guerra, através de
seus contatos com diplomatas de vários países.
O capítulo 5 traz os testes para o conceito de
segurança coletiva, com vistas em incutir em
vários governos uma
confiança
institucional
na Liga das Nações para a solução de contro-
vérsias que não pela força. Temos as propostas
de um sistema de sanções, inclusive feitas por
várias mulheres que trazem uma perspectiva
feminista das RI desde o amanhecer da dis-
ciplina, entre elas Emily Greene Balch, Lucy
Mair, Mary Sheepshanks, Rosika Schwimmer,
Lida Gustava Heymann e Anna B. Eckstein;
além das crises do entre guerras na Manchúria
e Abissínia.
O capítulo 6 fala sobre o fim dos assun-
tos globais, e foca nos ataques à academia, ex-
pondo como os arquitetos das RI lidaram com
a ascensão do fascismo na Itália e do nazismo
na Alemanha. Acadêmicos de ideais liberais e
democráticos foram exilados, auxiliados por
uma rede de apoio formada por seus colegas e
instituições filantrópicas e outros se tornaram
porta-vozes de governos autoritários e a reação
dos acadêmicos, ao criarem a ideia de “mudan-
ça pacífica”, pela qual Estados poderiam ser
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apaziguados por compensações territoriais e a
insuficiência desta medida.
Na conclusão, o autor defende que as am-
bições dos arquitetos das RI foram maiores que
o progresso analítico, em função de como eles
construíram este campo: tentando influenciar
a ordem internacional, não criaram teorias,
definições e métodos que pudessem auxiliar a
descrição, explicação ou previsão de fenômenos
internacionais. O esforço foi direcionado para
fazer, em vez de analisar assuntos internacio-
nais, cobrando um preço para estes acadêmi-
cos: o esquecimento ou colocados sob o rótulo
pejorativo de idealistas. Apesar dos enganos e
equívocos, os arquitetos das RI deixaram um
legado que continuou crescendo.
E a julgar pelo fato de que a guerra ain-
da é persistente, ou de haver questionamentos
sobre a eficácia de sanções, questões presentes
até hoje, foi o trabalho desses acadêmicos que
fez dos assuntos internacionais temas de inte-
resse público e de um pensamento crítico sobre
as decisões de governos. Longe de considerar
esse legado um insignificante, o livro de Jan
Stöckmann é uma janela para um passado ain-
da a ser desvendado.
Referências
STÖCKMANN, Jan.
The Architects of International Rela-
tions: Building a Discipline, Designing the World, 1914-
1940. Cambridge University Press, 2022.