158 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte,  
ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.158 - 175, fev. 2025  
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Artigo  
Amefricanizando as Relações Internacionais  
para curar a Afasia Racial da disciplina  
Amefricanizing International Relations to Cure the Discipline’s Racial Aphasia  
Ameafricanizar las relaciones internacionales para curar la afasia racial de la disciplina  
Erica Paula Vasconcelos1  
Ramon Blanco2  
Enviado em: 27 de agosto de 2024  
Aceito em: 07 de agosto de 2025  
RESUMO  
O presente artigo tem como objetivo problematizar a disciplina de Relações Internacionais,  
apontando como cura/resistência a categoria político-cultural da amefricanidade, cunhada  
por Lélia Gonzalez. Para isso, emprega-se o conceito de afasia racial para demonstrar o  
esquecimento deliberado no campo teórico da disciplina acerca dos processos racializados e  
da legitimação do racismo epistêmico, considerados indissociáveis da arquitetura das relações  
internacionais. Nesse sentido, o argumento do artigo é de que a amefricanidade é o elemento  
central para curar a disciplina da afasia racial. Para desenvolver esse argumento, o artigo  
está estruturado em duas seções. A primeira aborda a contextualização da afasia racial e  
como ela se operacionaliza na dimensão teórica mainstream da disciplina, especificamente  
na negação da raça e do racismo. A segunda demonstra como a categoria da amefricanidade  
pode curar a afasia racial e suas potencialidades para pensar o quadro teórico da disciplina.  
A análise crítica da disciplina de Relações Internacionais presente neste artigo contribui para  
o debate de que suas teorias são estruturadas pelo ocidente, demonstrando a necessidade da  
1 Doutoranda em Relações Internacionais no Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro  
(IRI PUC-Rio), bolsista CNPq. É especialista e mestra em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações  
Internacionais da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (PPGRI-UNILA), e bacharel em Humanidades e em  
Relações Internacionais pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB-Bahia). Integrante do  
Coletivo de Pesquisadores Negros de Relações Internacionais e do Núcleo de Estudos para a Paz (NEP). Atua como coordenadora  
da Comissão de Equidade Étnico-Racial e do Fórum de Discentes da Pós-Graduação, ambos da Associação Brasileira de Relações  
Internacionais (ABRI), e é pesquisadora no Laboratório de Estudos Afrocentrados em Relações Internacionais da Universidade de  
Brasília (LACRI-UnB), do grupo de pesquisa Direito Internacional Crítico (DICRI) e do Núcleo de Saberes Ancestrais e Populares  
2 Bolsista Produtividade em Pesquisa do CNPq, é Professor Associado da Universidade Federal da Integração Latino-Americana  
(UNILA), onde é Professor Permanente no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais, além do Programa de  
Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Paraná. É autor de Peace as Government: e Will to Normalize  
Timor-Leste (Lexington Books, 2020) e, em coautoria com Alexsandro Eugênio Pereira, Teorias Contemporâneas de Relações In-  
ternacionais (Intersaberes, 2021). O autor agradece o apoio financeiro proporcionado às suas investigações pela Pró-Reitoria  
de Pesquisa e Pós-Graduação da UNILA sob os seguintes instrumentos financeiros: PRPPG No 109/2017, PRPPG No  
58/2018, PRPPG No 110/2018, PRPPG No 149/2018, PRPPG No 154/2018, PRPPG No 25/2019, PRPPG No 80/2019,  
PRPPG No 66/2020, PRPPG No 104/2020, PRPPG No 105/2020, PRPPG No 166/2021, PRPPG No 191/2021, PRPPG  
No 205/2021,PRPPG No 77/2022, PRPPG No 90/2022, PRPPG No 102/2023, PRPPG No 121/2023, PRPPG/IMEA No  
16/2023, PRPPG No 118/2024, PRPPG No 05/2025. Além disso, o autor agradece o apoio financeiro recebido pelo Programa de  
Pesquisa Básica e Aplicada (PBA — Chamadas Públicas 09/2021 e 23/2024) da Fundação Araucária de Apoio ao Desen-  
volvimento Científico e Tecnológico do Paraná e pela Bolsa de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desen-  
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amefricanidade para repensar a política internacional entre atores e comunidades.  
Palavras-chave: Relações Internacionais; Amefricanidade; Lélia Gonzalez; Raça e  
Racismo.  
ABSTRACT  
is article aims to problematize the discipline of International Relations, pointing to the  
political-cultural category of Amefricanity, coined by Lélia Gonzalez, as a cure/resistance.  
To this end, the concept of racial aphasia is used to demonstrate the deliberate neglect  
in the theoretical field of the discipline of racialized processes and the legitimization of  
epistemic racism, considered inseparable from the architecture of international relations. In  
this sense, the article argues that Amefricanity is the central element to cure the discipline  
of racial aphasia. To develop this argument, the article is structured in two sections. e  
first addresses the contextualization of racial aphasia and how it is operationalized in the  
mainstream theoretical dimension of the discipline, specifically in the denial of race and  
racism. e second demonstrates how the category of Amefricanity can cure racial aphasia  
and its potential to think about the theoretical framework of the discipline. e critical  
analysis of the discipline of International Relations present in this article contributes to the  
debate that its theories are structured by the West, demonstrating the need for Amefricanity  
to rethink international politics between actors and communities.  
Keywords: International relations; Amefricanity; Lélia Gonzalez; Race and Racism.  
RESUMEN  
Este artículo se propone problematizar la disciplina de las Relaciones Internacionales,  
señalando la categoría político-cultural de la ameafricanidad, acuñada por Lélia  
Gonzalez, como una cura/resistencia. Para ello, se utiliza el concepto de afasia racial para  
demostrar la negligencia deliberada en el campo teórico de la disciplina de los procesos  
racializados y la legitimación del racismo epistémico, considerado inseparable de la  
arquitectura de las relaciones internacionales. En este sentido, el artículo argumenta que  
la ameafricanidad es el elemento central para curar la disciplina de la afasia racial. Para  
desarrollar este argumento, el artículo se estructura en dos secciones. La primera aborda  
la contextualización de la afasia racial y cómo se operacionaliza en la dimensión teórica  
dominante de la disciplina, específicamente en la negación de la raza y el racismo. La  
segunda demuestra cómo la categoría de ameafricanidad puede curar la afasia racial  
y su potencial para pensar el marco teórico de la disciplina. El análisis crítico de la  
disciplina de Relaciones Internacionales presente en este artículo contribuye al debate de  
que sus teorías son estructuradas desde Occidente, demostrando la necesidad de que la  
ameafricanidad repense la política internacional entre actores y comunidades.  
Palabras clave: Relaciones Internacionales; Ameafricanidad; Lélia Gonzalez;Raza y  
racismo.  
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de linguagem que afeta a comunicação sobre as  
temáticas de raça e racismo. Para tratar da afasia  
racial é necessário recorrer à categoria político-  
-cultural da amefricanidade, cunhada por Lélia  
Gonzalez, que, além de poder curar essa afasia,  
usa formas de resistências4 para construção de  
outros saberes. Para desenvolver seu argumento,  
o artigo está estruturado em duas seções. A pri-  
meira aborda a contextualização da afasia racial e  
como ela se operacionaliza no campo teórico da  
disciplina. A segunda demonstra como a catego-  
ria da amefricanidade pode curar a afasia racial  
por meio de suas potencialidades, alcançando o  
quadro teórico da disciplina sob a lente crítica  
de Lélia Gonzalez. A análise crítica da disciplina  
de Relações Internacionais presente neste artigo  
contribui para o debate de que suas teorias são  
estruturadas pelo ocidente, demonstrando a ne-  
cessidade da amefricanidade para repensar a po-  
lítica internacional entre atores e comunidades.  
1 INTRODUÇÃO  
Estamos vivendo em uma época em que ‘o  
velho não morreu e o novo ainda não pôde nas-  
cer3, pois esse novo pode acabar sendo afogado  
pelas vísceras e sangue coagulado das antigas,  
que ressuscitam corpos novos, transformando-  
-os em zumbis. Isso impede, com insistência e  
violência, o surgimento do novo vindo de novas  
comunidades, epistemologias, potências ances-  
trais ou qualquer narrativa que fuja do comum  
ocidental. Esse cenário não muda quando ana-  
lisamos a dimensão mainstream da disciplina de  
Relações Internacionais (RI), sobre a qual, neste  
artigo, pautamos a omissão da disciplina em re-  
lação à raça e seus desdobramentos, como o ra-  
cismo, como elementos centrais que atravessam  
tanto o cenário da política internacional quan-  
to seu campo teórico. Esse cenário representa  
o esforço calculado da disciplina de não querer  
falar, ouvir ou enxergar os processos racializa-  
dos na formação de seu próprio eixo teórico, o  
que a torna limitada, como área de estudo, para  
compreender os fatores que envolvem desigual-  
dades, marginalizações e subalternidades.  
2 PROBLEMATIZANDO  
A AFASIA RACIAL NA  
DIMENSÃO MAINSTREAM DA  
DISCIPLINA DE RELAÇÕES  
INTERNACIONAIS  
Dessa forma, o presente artigo problema-  
tiza a afasia racial da disciplina de RI, eviden-  
ciando como as teorias cristalizam o racismo em  
suas composições e, assim, prejudicam a análi-  
se de estruturas indissociáveis da raça, que for-  
maram a arquitetura do sistema internacional.  
Nesse sentido, o argumento do artigo é de que  
a disciplina sofre de afasia racial, um distúrbio  
Evidenciar a presença da raça na dimen-  
são mainstream das Relações Internacionais  
(RI) para delinear o acometimento da afasia  
racial pela disciplina é o objetivo central desta  
seção. Iniciaremos com o autor Amitav Achar-  
4 O conceito de resistência, neste artigo, se espelha na concepção  
de Amílcar Cabral, que foi um líder que dialogava tanto com  
a prática quanto com o campo teórico. Por isso, entendia que,  
para a teoria revolucionar, ela precisava compreender as con-  
dições locais (De Paula, 2024), envolvendo relações, convívio,  
dificuldades, precariedades e desigualdades. Nesse sentido, essa  
visão de Amílcar explica sua defesa pelo que chamou de “arma  
da teoria” (De Paula, 2024), ou seja, a luta como ferramenta  
de visibilidade profunda da realidade social, sendo também o  
gatilho revolucionário de mudança. Dessa forma, equiparamos  
esse sentido de luta ao que chamamos de resistência.  
3 Em contraposição à frase original “o velho está morrendo e o novo  
não pôde nascer”, de autoria gramsciana, que descreve o estado  
de crise e transição na obra “Cadernos do Cárcere” (1999), essa  
frase foi tema do 9º Encontro da Associação Brasileira de Relações  
Internacionais (ABRI), ocorrido em julho de 2023, na Pontifícia  
Universidade Católica de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Du-  
rante o evento, foram apresentadas novas formas de saberes para  
reconstruir, desconstruir, descolonizar e aquilombar o campo de  
Relações Internacionais, que ainda conserva conhecimentos tra-  
dicionais, geralmente provenientes de discursos eurocêntricos.  
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ya (2022), que conceitua raça como parte da  
condição humana ao longo da história, sendo a  
base fundamental “científica, lucrativa, ofensiva,  
geopolítica e normativa para organizar a ordem  
mundial” (Acharya, 2022, p. 26). Dessa forma,  
o autor mobiliza o segundo conceito, equipa-  
rando raça a um grupo social predominante ao  
qual as pessoas frequentemente se consideram  
pertencentes, com base em características físicas  
como a cor da pele, o formato dos olhos, o na-  
riz, os fios capilares etc. (Acharya, 2022).  
teceu através de marcadores da diferença feno-  
típica, de status, classe e poder político (Barder,  
2021). Esses marcadores, que representam a  
materialização da raça, são representados pelo  
que Du Bois chamou de linha de cor global.  
Essa ‘linha’ de cor do século XX, apesar de ser  
um elemento visual por ser condicionada por  
cores, representa traços contínuos que definem  
formas, padrões e direções nas relações entre ra-  
ças de homens mais escuros e mais claros. Nes-  
se caso, essa linha de cor torna-se internacio-  
nal porque sua dimensão alcança continentes,  
como Ásia, África, América e as ilhas do mar  
(Du Bois, 1903).  
Ainda sobre a mobilização do conceito de  
raça, o autor Alexander Barder, na obra intitu-  
lada Global Race War (2021), afirma que a raça  
passa a ser entendida como uma perspectiva nas  
relações internacionais, sendo uma caracterís-  
tica organizadora central da política mundial  
(Barder, 2021). O autor também afirma que  
a centralidade racial na política mundial se dá  
pela expansão do colonialismo europeu, que  
teve profundas ramificações para o surgimento  
da ideia de global através da apropriação geno-  
cida de terras na América do Sul. Além disso,  
destaca a escravização dos africanos, que foi  
uma economia política transnacional racializa-  
da e baseada na hierarquia racial (Barder, 2021).  
A expansão do colonialismo5 e o desen-  
De fato, ao analisar de forma pluralizada  
esse ‘problema’ que essa linha de cor represen-  
ta, percebe-se que ela codificou cores por linhas  
que definiram sequências de padrões raciais para  
catalogação de diferentes espécies — não da bo-  
tânica ou zoologia, mas da espécie humana. Esse  
problema toma novos contornos porque a raça  
passa a ser utilizada como um dispositivo de ca-  
talogação do diferente, ou seja, dos não bran-  
cos, em um processo de transição para validar  
sua humanidade, através do uso da violência  
extrema, legalizada e normalizada pelos Estados  
coloniais. O que entendemos sobre esse processo  
de transição para a validação da presença de ‘hu-  
manidade’ nos não brancos, na visão de Hender-  
son (2015), está relacionado à relação entre uma  
figura ‘Deus’ e o homem branco.  
cadeamento de processos racializados, imple-  
mentados pela violência, tornam a raça mais  
do que um conceito, já que pressupõe sua ma-  
terialização através de uma lógica imaginária  
da compreensão de desenvolvimento que acon-  
Essa figura divina, que na concepção da  
religião eurocristã é caracterizada como onipo-  
tente (todo-poderoso), onisciente (todo-sábio)  
e onipresente (presente em todos os lugares),  
foi usada como elemento estético para tornar  
o divino/sobrenatural e o homem/natural em  
um único ser divino. Esse sui generis de Deus-  
-homem-branco, que se assemelha à relação de  
cumplicidade entre ambos, segundo Hender-  
5 O colonialismo, neste caso, representa a junção entre coloni-  
zação e civilização para descivilizar os não brancos, coloniza-  
dos e, assim, brutalizar seu humanismo em prol da defesa do  
homem branco e do desenvolvimento do processo colonial  
sustentado por equações desonestas, compostas por: cristia-  
nismo igual a civilização e paganismo igual a selvageria, as  
quais só poderiam resultar nas abomináveis consequências  
dos colonialistas e racistas (Césaire, 2000). Além disso, o co-  
lonialismo se multiplicou, tornando-se disruptivo, “descivili-  
zador”, desumanizador, explorador, racista, violento, brutal,  
cobiçoso e “coisificante” no mundo (Ndlovu, 2018, p. 11).  
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son (2015), justifica o porquê dos brancos se  
colocarem como figuras divinas que, ao mesmo  
tempo, possuem a autonomia do Deus sobera-  
no, justificando assim sua distinção biológica  
dos não brancos (Henderson, 2015).  
Dessa forma, ompson (2015) entende  
a raça como um sistema de relações globais de  
poder que, ao longo do tempo, tende a se ma-  
nifestar de maneira diferente no espaço, através  
de vários níveis. O autor baseia-se na política  
comparativa e na teoria racial crítica, reiteran-  
do que a raça é uma norma que acomete as  
políticas domésticas e as relações entre os Es-  
tados-nação (ompson, 2015). Como conse-  
quência dos mecanismos de diversas formas de  
desigualdade dentro de uma lógica de hierar-  
quias racializadas nas relações, o racismo surge  
como prática costumeira e política de domina-  
ção, baseada no conceito especioso da própria  
raça (Henderson, 2015).  
Ou seja, os homens de raça branca cria-  
ram um mundo de ficção no qual se colocaram  
como civilizados, ocupando um estágio supe-  
rior de desenvolvimento, caracterizado por  
comportamentos morais, sociais e culturais.  
Colocaram os não brancos, nesse mundo de  
ficções, como fardos do homem branco, pois,  
este assumiu a missão de atravessar a escada  
evolutiva junto aos não brancos para alcançar a  
civilização e a cultura dos brancos. Neste caso,  
“os não-brancos teriam de ser ensinados por  
brancos que – muitas vezes de forma magnâni-  
ma – assumiram esse “fardo” para que estas ra-  
ças inferiores pudessem se elevar acima de suas  
barbárie e selvageria” (Henderson, 2015, p. 20,  
tradução livre)  
Nesse caso, o racismo pode ser equiparado  
à prática de inferiorização, por meio da dife-  
rença, tornando-se elemento central da política  
global, contornado por linhas invisíveis, para  
separar, subjugar e dominar as raças não bran-  
cas. Ou seja, o racismo não é apenas precon-  
ceito ou fanatismo, ele se tornou uma crença  
presente nas práticas políticas, refletindo no  
poder institucional, principalmente o estatal  
(Henderson, 2015). Partindo desses pressu-  
postos, a obra “Hidden in Plain Sight: Racism  
in International Relations eory”, expõe a exis-  
tência da profunda cumplicidade das Relações  
Internacionais em um nível teórico na manu-  
tenção da linha global de cores. O autor afirma  
que, apesar da raça ter exercido papel central  
no desenvolvimento das dinâmicas políticas  
nas relações internacionais, a disciplina de RI  
tem sido surpreendentemente omissa quanto  
à questão racial (Henderson, 2015). Ou seja,  
essa omissão das RIs, possui relação direta com  
a continuação do colonial racional, sendo este  
um projeto da supremacia branca para dividir  
as raças promovendo hierarquização como ele-  
mento de validação de superioridade.  
Ainda nesse raciocínio, Henderson (2015)  
reafirma o pensamento dubosiano ao repre-  
sentar a raça por uma linha de cor, conside-  
rando o problema nas relações entre raças de  
homens escuros e homens claros, entendendo  
essas relações como expoentes de hierarquia e  
dominação por parte dos europeus brancos e  
seus principais desdobramentos diaspóricos  
nas Américas e na África, com os não brancos  
ocupando posições subordinadas. Pontua tam-  
bém que alguns princípios doutrinários da área  
científica foram influenciados por imaginá-  
rios raciais, contribuindo para a disseminação  
desses nos Estados. Por exemplo, a teleologia  
evolutiva supremacista branca, que moldou as  
políticas domésticas a partir da escravidão, tor-  
nando as invasões, colonizações e genocídios  
ações legítimas de adaptação e evolução (Hen-  
derson, 2015).  
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Neste caso, os brancos eram os portado-  
res das habilidades intelectualmente e por isso  
tinham a tutela sobre os não brancos, o que  
mais tarde ficou conhecido como o “fardo do  
homem branco6” (Henderson, 2015, p. 47,  
tradução livre). Então, a partir dessa ideia de  
omissão-negação normalizada na disciplina,  
podemos ressaltar dois fatores que contribuem.  
O primeiro é o ‘supremacismo branco’, que  
refere-se à dominação dos grupos brancos que  
construíram a disciplina, com fortes ideologias  
que influenciaram fortemente o campo acadê-  
mico. Essa manipulação pelo supremacismo  
branco sobre os interesses do campo baseia-se  
na superioridade natural do branco sobre o ne-  
gro ou diferentes grupos da humanidade, o que  
pode estar fortemente ligado ao nazismo (Hen-  
derson, 2015).  
locados no mundo subjugado, inferiorizados e  
marcados por desigualdades sociais que os im-  
possibilitam de ascensão social ou de viver em  
igualdade (Henderson, 2015).  
Os autores Zvobgo e Loken (2020), na  
obra intitulada “Why Race Matters in Interna-  
tional Relations: Western dominance and white  
privilege permeate the field. It’s time to change  
that”, reafirmam essa omissão-negação da raça  
nas Relações Internacionais, como evidência  
do domínio ocidental e do privilégio branco na  
conjuntura da política internacional, que por  
isso cria dinâmicas racistas no campo teórico.  
Ou seja, esse esforço calculado das RI em re-  
lação à omissão-negação da raça no seu campo  
teórico, na obra intitulada “rough, against,  
and beyond the racial state: the transnational  
stratum of race”, o autor ompson (2015) cha-  
ma de ‘afasia racial’. Segundo o autor, a afasia  
racial se constitui nos termos da colonização,  
porém nega a continuação da mesma na con-  
temporaneidade, por isso, há uma reprodução  
do racismo sob formas dessa atualidade, como  
desigualdades, preconceitos, subalternidades,  
etc. (ompson, 2015).  
O segundo fator é representado pelo  
‘dualismo racial’, que se refere à instituciona-  
lização de imaginários dicotômicos, como su-  
perior ou inferior, civilizado ou incivilizado,  
humano ou não humano, com alma ou sem  
alma, etc., utilizados para a normalização dos  
processos opressivos nas relações sociais e esta-  
tais. Ou seja, esse dualismo racial, que forma  
uma separação (invisível, porém perceptível)  
entre povos, também é utilizado pela suprema-  
cia branca para manter o controle não só do  
campo teórico da disciplina, mas também do  
mundo. Enquanto isso, os não brancos são co-  
De fato, é importante destacar que, apesar  
de esse conceito ser mobilizado pelo autor para  
problematizar a disciplina de RI, as caracterís-  
ticas descritas do que representa a afasia racial  
dialogam com o próprio conceito de afasia. No  
campo da neurologia, a palavra ‘afasia’ repre-  
senta um “enfraquecimento ou perda do poder  
de captação ou expressão das palavras como  
símbolos, provocada por alguma lesão em al-  
guns centros cerebrais e não devido a algum  
defeito na audição ou na fonação” (Araújo, et  
al., 2023, p. 5).  
6 O “fardo do homem branco” era apresentado como um ato  
de misericórdia divina apresentado como uma árdua missão,  
atribuída ao homem branco para que pudesse agir em ‘fa-  
vor’, como um ato afetivo, das raças consideradas inferiores,  
elevando-as acima de sua barbárie e selvageria (Henderson,  
2015), ou seja, as tornando em humanos cristãs e civilizadas.  
As raças não eram biologicamente inferiorizadas, mas tam-  
bém representadas como corpos em estado de conflito per-  
pétuo, já que não aceitavam a ‘civilização’. Por isso, a “mis-  
são civilizadora” foi vista como um “fardo para o homem  
branco”, que poderia usar a força (violência) para impor a  
civilização (Henderson, 2015).  
Além disso, a afasia, também é conceituada  
como “um distúrbio da comunicação que surge  
quando há danos nas áreas do cérebro que con-  
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trolam a linguagem, o que afeta a compreensão e  
a produção da linguagem” (Araújo, et al., 2023,  
p. 5). Esse distúrbio apresenta-se através das difi-  
culdades mais comuns, que são: falar, interferindo  
não no intelecto nem no conhecimento preserva-  
do, mas nas formas de expressão da comunica-  
ção e do discurso. No entendimento, as palavras  
ficam confusas, dificultando o entendimento e a  
compreensão, por último, na leitura e na escrita,  
prejudicando a habilidade de organizar palavras,  
frases e elaborar textos (Araújo, et al., 2023).  
No dicionário Oxford (2025), a palavra  
‘afasia’, no grego ‘aphasía’ e no francês ‘aphasie’,  
era usada como uma forma doutrinária que rea-  
firmava o pensamento de que “segundo a qual  
o espírito humano não pode atingir nenhuma  
certeza a respeito da verdade” (Oxford, 2025).  
Essa doutrina ceticista partia do ponto de que,  
intelectualmente, alguns seres humanos eram  
compostos por dúvidas permanentemente ina-  
tas, o que os tornava incapazes de ter uma com-  
preensão absoluta da realidade. Na concepção  
filosófica, a afasia é vista como uma condição  
de abstinência consciente de qualquer juízo,  
originada pelo reconhecimento da ignorância a  
respeito de tudo que transcende as possibilida-  
des cognitivas do ser humano (Oxford, 2025).  
De fato, tanto no conceito da doutrina  
do ceticismo quanto na perspectiva filosófica,  
a afasia representa uma limitação calculada e  
não patológica, ou seja, evidencia a negação, a  
abstinência do inconsciente para a compreen-  
são da realidade. Não distante desse conceito, a  
‘afasia racial’ é um termo mobilizado para tor-  
nar evidente a condição calculada da discipli-  
na de RI, que apresenta dificuldades de falar e  
de gerar um vocabulário que associe palavras e  
conceitos apropriados, bem como dificuldades  
de compreender o que é falado (Stoler, 2011;  
ompson, 2015).  
A afasia racial foi inspirada na literatura da  
autora Ann Stoler (2011), intitulada “Colonial  
Aphasia: Race and Disabled Histories in France”,  
em seu discurso na Primeira Conferência Tran-  
satlântica. Destacando a situação colonial de  
alguns continentes, ela ressaltou a centralidade  
da história colonial da França e dos EUA, onde  
utilizavam termos como ‘história esquecida’,  
‘buraco de memória’ e ‘amnésia coletiva’ (Stoler,  
2011). Dentro desse contexto, a situação colo-  
nial possui o sentido de esquecimento, apaga-  
mento de um determinado contexto histórico,  
por isso, podemos usar termos como ‘amnésia  
colonial’ e ‘amnésia histórica’, ambos referin-  
do-se à ausência de migração da historiografia  
sobre o período colonial (Stoler, 2011).  
A expressão “afasia colonial” passa a ser  
utilizada para problematizar a situação da Fran-  
ça moderna, por manter o colonialismo e re-  
produzir relações de dominação. Apesar disso,  
conserva-se um tipo de esquecimento, deslo-  
camento e ocultamento proposital da história  
colonial. Por fim, a autora destaca que o termo  
afasia colonial não é um fenômeno restrito à  
França, já que podemos analisar outras expe-  
riências de países que passaram por processos  
de colonização e que apagam ou esquecem  
como esse passado feriu e ainda prolifera no  
presente (Stoler, 2011).  
Dessa forma, Anievas, Manchanda e Shil-  
liam (2015) fazem uma analogia sobre ficção e  
realidade para explicar que a disciplina conser-  
va um esquecimento proposital sobre o papel  
da raça e a produção do racismo. Eles afirmam  
que as Relações Internacionais (RI), no siste-  
ma internacional, funcionam como se estives-  
sem no enredo de um filme, no qual se supõe  
que tenham caído acidentalmente, batido a  
cabeça e, por isso, esquecido o passado racista  
(Anievas, Manchanda e Shilliam, 2015). Essa  
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analogia com a ambientação de cinematografia  
critica o modo como a disciplina adquire esse  
“distúrbio”, que, por outro lado, é falso. Assim,  
o esquecimento é calculado e fictício, pois fin-  
ge-se a queda e a batida na cabeça. Além dis-  
so, essa analogia descreve um cenário em que  
a afasia racial da disciplina é uma ficção que  
não pode ser considerada como amnésia, já que  
esta indica uma série de eventos que levam ao  
esquecimento sem intenção deliberada.  
e inclusão, romantizadas por acordos de coo-  
peração em diversas áreas — seja no âmbito  
doméstico ou internacional, como segurança,  
saúde, educação e direitos humanos — dentro  
de uma estrutura estatal que coloca todos como  
iguais perante a lei. Porém, dependendo da cor  
dos sujeitos que compõem esse “todos”, eles  
são inseridos à margem, onde há precarização  
no sistema de saúde, marginalização da cultu-  
ra musical, religiosa e culinária. Esses sujeitos  
também se tornam alvos centrais das políticas  
de morte — não importa quantas vezes se grite  
“eu não consigo respirar”, como George Floyd,  
ou quantas Marielles Franco sejam assassinadas  
por lutarem contra o genocídio da população  
negra. No campo das RI, a centralidade conti-  
nuará focada na política externa entre China e  
Brasil e seus desdobramentos.  
Enquanto a afasia racial indica um esque-  
cimento calculado, com a intenção de apagar o  
passado racista das RI, negando-o no presente  
— que também é racista — (Anievas, Man-  
chanda e Shilliam, 2015), essa dificuldade de  
reconhecer o passado eo presente racistas co-  
necta-se ao silêncio coletivo diante da conjun-  
tura de opressão, dominação e desigualdade nos  
órgãos internacionais e nos Estados. Apesar de  
professarem compromissos normativos e legais  
com a igualdade racial, continuam a produzir a  
estratificação racial que persiste nos países con-  
siderados em desenvolvimento (ompson,  
2015, p. 45, tradução livre).  
Concomitante a esse debate, os auto-  
res Bhambra et al. (2020), no artigo “Why Is  
Mainstream International Relations Blind to  
Racism?”, enfatizam alguns problemas relacio-  
nados à negação do papel da raça, frequente-  
mente negligenciado pela disciplina, como o  
racismo, a brutalidade policial e a continuação  
do colonialismo. De fato, esses problemas evi-  
denciam as dimensões da afasia racial, tanto na  
arquitetura da política internacional quanto  
na própria disciplina. Os autores referem-se  
à presença negada do racismo na disciplina e  
ao colonialismo como elemento perpetuado.  
Por isso, consideram que Westfália não deveria  
marcar o nascimento dos Estados modernos,  
mas sim o colonialismo (Bhambra et al., 2020).  
Neste caso, o colonialismo representa “um  
Dessa forma, entende-se que o acome-  
timento da afasia racial pela disciplina de RI  
afeta também os pesquisadores da área, que  
se omitem em discutir a questão racial e dão  
centralidade a assuntos mainstream. Conse-  
quentemente, suas análises críticas tornam-se  
fragilizadas, ao ponto de entenderem a política  
internacional sob um único ângulo eurocêntri-  
co. Além da comunidade acadêmica, a afasia  
racial também acomete os órgãos internacio-  
nais e suas entidades, bem como as instituições  
estatais, tornando-as cada vez mais “daltôni-  
cas”, ou seja, com dificuldade de perceber ou  
distinguir cores e suas singularidades.  
tipo de domínio trajado em política externa”,  
que, no entanto, deveria considerar seriamen-  
te os legados racializados sob as condições de  
discriminação (Bhambra et al., 2020, p. 18).  
Esse domínio colonial continuado — que pro-  
O daltonismo, nesse sentido, é utilizado  
para problematizar a falsa ideia de democracia  
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move formas de discriminação negadas e, por  
sua vez, legalizadas pela disciplina — insere-se  
como obstrução calculada do discurso, ou seja,  
como impedimento premeditado da circulação  
da mensagem sobre os problemas gerados pelos  
processos racializados. Essa obstrução é uma  
disfunção causada pela afasia racial. Para além  
disso, os autores consideram como negligên-  
cia a omissão da disciplina sobre esses aspectos  
e apontam o racismo intelectual como efeito  
desse problema. Contudo, entende-se que o  
racismo intelectual não abarca todos os fatores  
relacionados à omissão da disciplina.  
as entende como produtos construídos a partir  
das experiências (Zvobgo e Loken, 2020). Ou  
seja, essa corrente teórica parte da premissa de  
que as instituições autoritárias devem ser aboli-  
das para que o Estado perca seu poder e autori-  
dade sobre os indivíduos, visando uma socieda-  
de formada por associações livres e voluntárias.  
No entanto, a raça continua sendo um tema  
isolado e distante da realidade do campo, o que  
evidencia o crescente acometimento da afasia  
racial pela disciplina de RI. Na seção seguinte,  
evidenciaremos a categoria político-cultural da  
amefricanização como cura e resistência à afasia  
racial na disciplina, além de pontuar suas con-  
tribuições para o campo.  
Por outro lado, a afasia racial evoca a ideia  
de negação — do racismo, do colonialismo, da  
dominação e do eurocentrismo. Assim, o ra-  
cismo intelectual é um grande problema, mas  
representa apenas uma das dimensões da afasia  
racial. A afasia racial também se manifesta no  
campo teórico das RI, causando um esqueci-  
mento calculado com o objetivo de apagar o  
passado/presente racista da disciplina. Os auto-  
res Zvobgo e Loken (2020) problematizam esse  
campo teórico, afirmando que algumas teorias,  
ao conservarem o racismo, revelam seu enraiza-  
mento no eurocentrismo — como a teoria do  
liberalismo. Esta foi construída sob uma base  
eurocêntrica e, por isso, justificou o imperialis-  
mo branco, o que não é amplamente reconheci-  
do no campo das RI (Zvobgo e Loken, 2020).  
Como mencionado anteriormente, o “im-  
3 AMEFRICANIZANDO AS  
RELAÇÕES INTERNACIONAIS:  
TRATANDO A AFASIA RACIAL  
DA DISCIPLINA ATRAVÉS  
DA RESISTÊNCIA ÁFRICA-  
AMÉRICA LATINA E CARIBE  
Delinear como a categoria político-cultu-  
ral da amefricanidade pode curar e possibilitar  
outros vieses de resistência contra a afasia ra-  
cial na disciplina de RI é a principal discussão  
desta seção. Para tanto, iniciaremos contextua-  
lizando o debate apresentado pela autora Lélia  
Gonzalez, que resgata as problemáticas sobre  
os efeitos do imperialismo, marcado pela pro-  
dução acadêmica branca e colonialismo, como  
discutido na seção anterior, os quais estão im-  
bricados no conceito de afasia racial. A autora  
propõe a categoria político-cultural da amefri-  
canidade como uma ‘cura’. Na obra intitulada  
“A categoria político-cultural de amefricani-  
dade”, publicada em 1988, Gonzalez debate  
a relação entre imperialismo e colonialismo,  
afirmando que ambos são elementos contínuos  
perialismo branco” refere-se à ideia de império  
justificado pela crença de uma raça superior,  
utilizada para legitimar as “missões civilizado-  
ras” contra outras raças. Dessa forma, os au-  
tores também criticam o construtivismo, que,  
embora possa ser utilizado para analisar contex-  
tos diversos sobre questões raciais e as práticas  
promovidas pelo racismo, não centraliza as de-  
sigualdades e divisões causadas pela raça, e sim  
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na estrutura social do Brasil, resultando no ra-  
cismo. Ela conceitua o racismo como a própria  
ciência da superioridade eurocristã (Gonzalez,  
1988, p. 71).  
durante a era do imperialismo em zoológicos  
humanos e as fazendas de reprodução humana  
na América do Norte, nas quais os não brancos  
eram equiparados a animais reprodutores (Au-  
tor, 2024).  
A autora destaca que a ciência é insepa-  
rável da posição de superioridade eurocristã, a  
imposição forçada do catolicismo e a violên-  
cia europeia de apropriação, que foram trans-  
formadas em conhecimento, sob a ótica do  
positivismo. A relação entre esses elementos,  
para a classificação, é chamada pela autora de  
‘triádicas’ do evolucionismo, as quais deram  
origem às diversas ciências humanas. Ou seja,  
essa ciência positivista, que transformou essas  
‘triádicas’ em conhecimento tido como verdade  
universal, utilizou o método científico da ob-  
servação, experimentação e estratificação nos  
não-brancos, com o objetivo de explicar fenô-  
menos naturais e sociais.  
Nesse sentido, há duas formas de enten-  
der essa triádica. A primeira refere-se ao pró-  
prio conceito da palavra, que iguala “triádica”  
a “tríade”, ou seja, um determinado fenômeno  
composto por três elementos, sendo intima-  
mente ligado a um conjunto que possui inte-  
rações (Oxford, 2025). Além disso, triádicas  
também pode representar uma tipicidade para  
formar um conceito central, seja de grupos de  
três partes, estruturas com três partes ou rela-  
ções entre três elementos (Oxford, 2025). A  
segunda forma de entender sua conceituação  
é mencionada pela autora no debate sobre os  
efeitos da ‘superioridade acadêmica ocidental’  
(Gonzalez, 1988).  
Dentro desse raciocínio, entendemos que  
foi essa mesma ciência, enquanto ferramenta  
de poder, que, por ser universalizada, foi usada  
para classificar e nomear, marcando um novo  
contexto na história da humanidade. Esse pro-  
cesso originou as disciplinas voltadas para o  
‘homem’, como disciplina para estudar o ser  
humano, suas relações com a sociedade, com  
a cultura e com o ambiente, como as discipli-  
nas de história, filosofia, geografia, antropolo-  
gia, etc. No entanto, as fontes primárias desse  
conhecimento, na verdade, funcionaram como  
um laboratório de observação, classificação e  
experimentação dos seres humanos não bran-  
cos. Por exemplo, os não brancos foram classi-  
ficados como selvagens, não humanos, justifi-  
cando-se pela teoria darwinista da evolução das  
espécies (Gonzalez, 1988). Outros exemplos  
incluem a teoria do criminoso nato, presente  
em Luomo Delinquente de Cesare Lombro-  
so, as exposições animalizadas dos africanos  
Neste caso, o racismo é o eixo de produ-  
ção do conhecimento, sendo a própria ciência  
que utilizou a ideia de superioridade da heran-  
ça do colonialismo, com dominação econômi-  
ca e cultural, além da exploração de territórios  
e populações não brancas, para a expansão e  
desenvolvimento do projeto colonial, contro-  
lando esses outros territórios e povos. Este de-  
bate dialoga com a concepção de Henderson  
(2015), que entende que o campo teórico das  
RI foi formado por/para supremacistas bran-  
cos, que tornaram a disciplina uma contínua  
reprodução do colonialismo racional, elevando  
hierarquias entre raças, justificadas intelectual-  
mente pelo imperialismo e pelo conceito do  
“fardo do homem branco” (Henderson, 2015,  
p. 20).  
Ou seja, essa confluência sobre a disci-  
plina do colonialismo racional, que provoca  
hierarquias entre raças, em que a raça branca é  
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justificada como superior através da sua ‘capa-  
cidade intelectual’, representa a cumplicidade  
da disciplina com o problema da linha global  
de cores, em que, apesar de a raça ter exercido  
um papel central no desenvolvimento econô-  
mico e político nas relações internacionais, a  
disciplina omite e nega essa centralidade.  
Dessa forma, Gonzalez (1988) não apenas  
aponta o discurso como ferramenta de legiti-  
mação estrutural, como também denuncia sua  
relação com a racionalidade construída pela  
ciência ocidental dominante contra os povos  
não brancos. Sendo assim, a amefricanidade é  
proposta como um tratamento para a afasia ra-  
cial, por ser uma categoria bidimensional que  
resgata as lutas e resistências dos movimentos  
sociais nos espaços político e cultural, forma-  
dos pelas vivências, experiências e memórias do  
encontro colonial entre três continentes: Áfri-  
ca, Europa e América Latina.  
Nesse sentido, “omissão-negação” são ter-  
mos compostos utilizados para evidenciar a  
atuação da disciplina, sendo ambos frutos do  
efeito da dominação do supremacismo branco  
e do dualismo racial. O primeiro termo marca a  
imposição da superioridade institucionalizada;  
o segundo representa as formas violentas utili-  
zadas para diferenciar as raças. Essa forma de  
diferenciar as raças assemelha-se muito à lógi-  
ca da catalogação, referindo-se à marca, e, por  
isso, ao ato de catalogar o outro — aquele que  
era animalizado, objetificado ou demonizado  
como menos humano. Essas formas de catalo-  
gação foram influenciadas por imaginários so-  
bre o inferior, o incivilizado, o não humano, o  
ser sem alma, etc. Assim como esses imaginários  
foram inseridos no campo teórico da disciplina  
de Relações Internacionais, também foram in-  
corporados à antropologia, filosofia, sociologia,  
entre outras áreas, representando o que a autora  
chama de “superioridade acadêmica ocidental”.  
Os autores Zvobgo e Loken (2020) reafir-  
Porém, antes de descrever essas duas di-  
mensões da categoria, é importante destacar que  
a autora apresenta a amefricanidade como uma  
categoria político-cultural criada para confron-  
tar a posição imperialista e o domínio cultural  
da América do Norte, intervindo contra a repro-  
dução inconsciente da ideia de que só existiriam  
negros — e a luta negra — nos Estados Unidos,  
e não em outros continentes (Gonzalez, 1988).  
Essa intervenção contra o domínio ocidental  
está representada no próprio conceito da cate-  
goria, que a autora menciona como a unificação  
da palavra “ame”, de América, neste caso, refe-  
rindo-se à América Latina e ao Caribe, somada  
à palavra “fricanidade”, que faz alusão à relação  
com a África. Ou seja, a amefricanidade, a prio-  
ri, seria uma forma de confrontar o colonialis-  
mo cultural da América do Norte sobre outras  
culturas, apagando a existência e as lutas dessas  
outras populações negras e latinas. Além disso,  
entendemos que essa categoria é bidimensional,  
podendo ser operacionalizada como uma ferra-  
menta para a reconstrução do corpo teórico da  
disciplina, resgatando as lutas dos movimentos  
sociais nas dimensões política e cultural.  
mam essa “omissão-negação” da raça nas Rela-  
ções Internacionais como evidência do domínio  
ocidental e do privilégio branco na conjuntura  
da política internacional. Isso contribui para a  
criação de dinâmicas racistas no campo teórico,  
representando a predominância da afasia racial  
na disciplina — o que justifica o distúrbio na  
comunicação que afeta a compreensão e a pro-  
dução da linguagem, neste caso, em relação à  
centralidade da raça nos processos constituti-  
vos da disciplina (ompson, 2015).  
Na dimensão política, a amefricanidade  
constrói o processo de tratamento da afasia  
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racial a partir das intervenções contra a conti-  
nuação do imperialismo ocidental nas estrutu-  
ras institucionais, por meio das lutas dos movi-  
mentos sociais, que reivindicam mudanças na  
sociedade. Por exemplo, o Movimento Negro  
Unificado (MNU), no qual Lélia Gonzalez foi  
ativista, organizou a luta contra a ditadura mi-  
litar, reivindicando a participação do povo ne-  
gro na sociedade brasileira, requerendo direitos  
civis e representação política. Além disso, con-  
frontaram o Estado brasileiro para viabilizar  
sanções contra atos de racismo, preconceito de  
cor ou qualquer prática de discriminação e for-  
mas de exploração (Movimento Negro Unifica-  
do, 2006). De fato, o MNU representa a luta  
pela ascensão dos povos negros e afrodescen-  
dentes, para ‘torná-los’ brasileiros (‘nacionais’),  
afastando-os da figura do escravo, de modo que  
pudessem acessar os direitos básicos para a so-  
brevivência.  
Além disso, essa primeira dimensão políti-  
ca para o tratamento da afasia racial na discipli-  
na de Relações Internacionais também possi-  
bilita a evocação dos movimentos de luta e das  
intervenções epistêmicas de protagonismo da  
África. Isso porque, na amefricanidade, a par-  
te “frica” resgata o sentido de “africanidade”,  
que representa elementos históricos, culturais  
e identitários como signos de pertencimento  
à África e seus povos. Esse resgate da africani-  
dade descentraliza a ideia de ‘universalização’  
imposta pela superioridade europeia, inverten-  
do a lógica do ‘uni’, de ‘único’, pelo ‘pluri’, de  
‘pluriversal’, mostrando que o conhecimento  
está presente em múltiplos mundos, a partir  
de outras histórias, memórias e vivências. Essa  
inversão da lógica do ‘uni’ para o ‘pluri’ desmis-  
tifica não apenas a posição em que esse ‘outro’  
foi colocado como não humano, incivilizado,  
bárbaro, etc., mas também descentraliza o do-  
mínio do conhecimento pelo Ocidente, em sua  
tentativa de conceituar, definir e classificar ou-  
tras formas de vida humana e suas lutas.  
Outro exemplo de movimento social que  
representa essa dimensão política da amefrica-  
nidade é o Movimento das Mulheres Campo-  
nesas (MMC), organizado na década de 1980  
por diversos outros movimentos de mulheres  
agricultoras espalhadas pelas diferentes regiões  
da América Latina (Radin e Corazza, 2018).  
Esse movimento se insere como uma resistên-  
cia representativa por meio do cotidiano das  
mulheres campesinas na luta pelo cuidado da  
natureza, pelo direito à terra e pelo direito à  
sobrevivência. Ambos os movimentos sociais  
apresentaram formas de resistência que resul-  
taram em efeitos contra a continuidade do co-  
lonialismo, a violência de gênero, a educação  
para negros, afrodescendentes, mulheres e mo-  
radores do campo, além de tornarem o racismo  
um crime. Por isso, eles se inserem como for-  
mas de amefricanizar a disciplina de Relações  
Internacionais.  
Alguns exemplos que evidenciam essa pri-  
meira dimensão da amefricanidade no resgate  
dos movimentos políticos e sociais no conti-  
nente africano são os seguintes: o movimento  
Anti-Apartheid na África do Sul, liderado por  
Nelson Mandela. Suas lutas centralizaram-se  
contra o sistema político totalitário de discri-  
minação racial, espacial, jurídico, político, eco-  
nômico e cultural (Pinto, 2007). Esses sistemas  
políticos totalitários começaram em 1487, com  
a chegada da colonização portuguesa, lidera-  
da por Bartolomeu Dias. Diversos grupos de  
negros africanos pertencentes aos povos bos-  
químanes, khoikhoi, xhosas, sans e zulus tor-  
naram-se escravos e mercadorias no vínculo  
comercial entre portugueses, holandeses, fran-  
ceses e alemães no século XVII (Pinto, 2007).  
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Além do movimento Anti-Apartheid na  
África do Sul, muitos outros movimentos que  
surgiram no continente africano espelham lu-  
tas e intervenções contra o domínio europeu,  
pela preservação ambiental e proteção da ter-  
ra. Por exemplo, o movimento das mulheres  
da Nigéria contra o “Delta Níger” (conflito do  
Delta do rio Níger), que se iniciou no pós-in-  
dependência da Nigéria em 1960. O conflito  
no Delta teve início depois que as descobertas  
de enormes jazidas de petróleo, em 1973, co-  
locaram a Nigéria no contexto da política eco-  
nômica mundial, com disputas pelo domínio  
de regiões entre os Estados (Moura, 2015). Isso  
desencadeou as lutas de resistência das mulhe-  
res nigerianas contra a exploração petrolífera e  
a degradação ambiental.  
por meio da luta armada, combatia o colonia-  
lismo europeu (Gonzalez, 1988). Amílcar Ca-  
bral, em seu movimento anticolonial, demons-  
trou, por meio da luta armada, que os povos  
da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, ambos na  
África, precisavam negar, com urgência, a his-  
tória do povo dominante.  
Negar esse domínio significava combater a  
usurpação violenta da liberdade dos povos co-  
lonizados. Gonzalez (2021) também relembra  
Cheikh Anta Diop, a respeito dos conhecimen-  
tos das civilizações africanas, e os escritos de Fi-  
lomena Chioma Steady sobre gênero na África  
Ocidental (Gonzalez, 2021). A partir dessas  
releituras, a autora constrói seu pensamento  
sobre a relação entre América Latina e África  
como sendo continentes inseparáveis, sobretu-  
do pela semelhança cultural entre ambos.  
A amefricanidade, portanto, é uma ca-  
tegoria que, além de resgatar a memória das  
relações entre África e América Latina — re-  
lações construídas pelo deslocamento forçado  
dentro do sistema escravista internacional, que  
formou a diáspora negra — também reafirma a  
aproximação inseparável entre esses continen-  
tes, especialmente por meio dos movimentos  
artísticos e culturais. Assim, entendemos que  
a cultura representa a segunda dimensão que  
evidencia como a amefricanidade atua no en-  
frentamento à afasia racial na disciplina de RI,  
combatendo o esquecimento calculado e o  
apagamento histórico dos povos não brancos,  
e, portanto, lutando contra o racismo presente  
no campo. Além disso, a amefricanidade ques-  
tiona o dualismo racial que estabelece uma  
separação (invisível, porém perceptível) entre  
esses povos.  
Por fim, o movimento chamado “Y’en a  
Marre” (Já Basta), liderado pela juventude se-  
negalesa, se posicionou contra as ações incons-  
titucionais do presidente Abdoulaye Wade,  
que queria permanecer no poder por meio da  
retirada dos processos eleitorais democráticos  
no Senegal, em 2011 (Nader e Aidoo, 2015).  
Nota-se que a amefricanidade transforma esses  
movimentos políticos de lutas e resistências em  
insurgências na gramática da política interna-  
cional, revelando outros tipos de relações que  
a disciplina de Relações Internacionais tende a  
omitir, por estar acometida pela afasia racial e  
por direcionar sua centralidade ao Ocidente.  
Dessa forma, esses movimentos sociais e  
políticos de resistência também nos orientam a  
traçar novos caminhos para pensar que discipli-  
na de RI queremos construir, considerando que  
ainda compactuamos com processos oriundos  
da experiência colonial. Lélia Gonzalez propõe  
uma visão semelhante ao defender o anticolo-  
nialismo presente nas produções de Amílcar  
Cabral, compreendendo que a independência,  
Nesse sentido, o aspecto cultural represen-  
ta a necessidade de centralizar os movimentos  
culturais afro-latinos, compreendendo a cultu-  
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ra como a própria identidade desses povos, que  
se conectam por meio das relações estabeleci-  
das pelo fluxo diaspórico. A própria categoria  
“amefricanidade”, quando separada silabica-  
mente, permite identificar as palavras “ame” e  
“frican”, que, ao serem unidas pela terminação  
“idade”, remetem à noção de “identidade”. Essa  
identidade, por sua vez, é usada para delinear as  
características únicas dos povos africanos e lati-  
no-americanos. Assim, a identidade a partir da  
amefricanidade reafirma a noção de identidade  
como libertação, como no movimento antico-  
lonial de Amílcar Cabral — sendo essa liber-  
tação a representação das produções culturais,  
do modo de vida e dos ancestrais desses povos.  
Segundo Lélia Gonzalez (1988), essa cul-  
tura passa por um processo de segregação racial  
devido à herança do colonialismo. A autora  
aponta que os brancos mantêm um “esforço  
contínuo para preservar sua ‘pureza’ e reafirmar  
sua ‘superioridade’, tornando a segregação uma  
solução contra os grupos não brancos” (Gon-  
zalez, 1988, p. 70). Ou seja, a cultura branca  
era aceita por ser considerada pertencente à  
raça superior, enquanto a cultura dos não bran-  
cos era vista como exótica, inferior, animales-  
ca etc., revelando que essa cultura identitária  
foi moldada por elementos de dominação e  
segregação. O mesmo ocorre no campo das  
Relações Internacionais, onde o debate sobre  
cultura é quase inexistente, sendo, em alguns  
casos, abordado de forma isolada, apenas para  
interpretar políticas externas específicas entre  
Estados.  
dimensão cultural, combatem o esquecimento  
calculado e o apagamento histórico dos povos  
não brancos no campo, promovendo, a par-  
tir das experiências da diáspora entre África e  
América Latina, novas formas de análise para  
as Relações Internacionais. Além disso, essa di-  
mensão cultural atua contra o dualismo racial  
que impõe uma separação (invisível, mas per-  
ceptível) entre esses povos, protagonizando sua  
própria resistência. Por isso, essa dimensão cul-  
tural da amefricanidade funciona como uma  
denúncia contra qualquer forma de discrimi-  
nação racial e é também um mecanismo social  
que viabiliza elementos para combater a ma-  
nutenção da diferença colonial, representando  
uma ruptura com o paradigma de dominação  
ocidental presente na disciplina (Grosfoguel,  
2011; Mignolo, 2015).  
Como exemplo de movimentos culturais  
que manifestam lutas e resistências, destacamos  
o Teatro Experimental do Negro (TEN), sob  
a liderança de Abdias do Nascimento e com a  
participação de Lélia Gonzalez. O TEN surgiu  
em 1944, no Rio de Janeiro, com o objetivo de  
promover a “valorização social do negro e da  
cultura afro-brasileira por meio da educação e  
da arte, com uma estética própria e não uma  
cópia estrangeira” (Fundação Cultural Palma-  
res, 2023, p. 3). Nota-se que a criação do TEN  
se caracteriza como uma denúncia contra a au-  
sência do protagonismo negro, bem como da  
discussão sobre os temas relacionados à popula-  
ção negra e seus desafios na sociedade brasilei-  
ra. Ou seja, o TEN representa uma ferramenta  
que pode ser utilizada para analisar a estrutura  
política do Brasil no contexto das relações in-  
ternacionais.  
Desse modo, a segunda dimensão da  
amefricanização das Relações Internacionais  
centraliza-se em movimentos culturais que ma-  
nifestam lutas e resistências por meio de peças  
teatrais, obras de arte, música, poesia ou pro-  
duções cinematográficas. Esses elementos, da  
Outro exemplo de movimento cultural foi  
o movimento Rastafári, que ganhou notorieda-  
de em várias partes do mundo através das músi-  
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cas do cantor e compositor jamaicano Bob Mar-  
ley. Nascido em 1945, em um vilarejo rural da  
Jamaica, ilha localizada no Caribe, Marley utili-  
zava suas letras e melodias para narrar histórias  
sobre os movimentos migratórios caribenhos,  
deslocando os sentidos de fronteiras culturais e  
étnicas (Rabelo, 2017). Assim, reafirmava as di-  
ficuldades enfrentadas pelos migrantes, denun-  
ciando as atrocidades deixadas pela colonização  
em suas terras, como a escravidão, as violações  
ambientais e as desigualdades às quais os povos  
negros são submetidos. Na música Redemption  
Song, por exemplo, ao cantar “Velhos piratas,  
sim, eles me roubaram, me venderam para na-  
vios mercantes”, Marley critica a escravidão em  
seu contexto mais brutal.  
algumas fontes as classifiquem como design ar-  
tístico tribal, as máscaras africanas transcendem  
essa definição, pois envolvem formas e histórias  
transversalizadas pelos caminhos fluviais das  
águas atlânticas, marcados por relações inter-  
nacionais comerciais e políticas. Na exposição  
intitulada Máfricas: As Áfricas do MAFRO, as  
máscaras representam o ensino e a cultura den-  
tro de quatro núcleos temáticos — entre eles,  
linguagens, mulheres e afrofuturismo — no  
Museu Afro-Brasileiro (MAFRO), localizado  
no Centro Histórico (Pelourinho) da cidade de  
Salvador, BA.  
Essas máscaras são descritas como “mani-  
festações de forças invisíveis, usadas em ritos  
agrários, funerários ou de iniciação, rememo-  
rando mitos e outras tradições, por meio de  
suas formas, movimentos, cores e materiais”  
(Museu Afro-Brasileiro, 2025). Ou seja, essas  
máscaras africanas fazem parte do acervo da  
Coleção de Cultura Material Africana e estão  
diretamente ligadas aos contextos africanos en-  
volvendo ancestralidade, linguagens e saberes  
(Museu Afro-Brasileiro, 2025).  
Ainda sobre a vida do artista, o interesse  
pela situação migratória no Caribe está liga-  
do à sua própria experiência de fuga, quando  
emigrou para os Estados Unidos em busca de  
oportunidades para sobreviver e investir em  
sua carreira musical. No entanto, seu período  
no exterior não durou muito, já que retornou  
à Jamaica ao escapar da possibilidade de ser en-  
viado à Guerra do Vietnã (Rabelo, 2017). As  
narrativas contadas por Bob Marley podem ser  
utilizadas para amefricanizar as Relações Inter-  
nacionais, pois se baseiam nas experiências mi-  
gratórias caribenhas, destacando como as estru-  
turas estatais tratam os imigrantes não brancos  
como objetos de estratificação social voltados  
à exploração da mão de obra. Trata-se de uma  
das temáticas mais debatidas no campo das RI,  
mas que, assim como a questão racial, ainda é  
pouco abordada no que se refere à situação mi-  
gratória no Caribe.  
Elas fornecem caminhos para a educação  
sobre a história da África enquanto patrimônios  
de representatividade das tradições de países do  
continente africano, como Nigéria e Benim. As  
máscaras africanas são representações artísticas  
que contribuem tanto para o conhecimento da  
África em contextos ancestrais e mitológicos  
quanto para o resgate de formações econômi-  
cas, sociais e imperiais nas relações com outros  
continentes — constituindo, assim, caminhos  
epistêmicos para amefricanizar o campo das  
RI. Partindo desses pressupostos, tanto a di-  
mensão política quanto a dimensão cultural  
possibilitadas pela amefricanidade atuam na  
cura da afasia racial da disciplina de Relações  
Internacionais, viabilizando e construindo no-  
Por fim, destacamos uma última forma de  
arte que pode ser compreendida como movi-  
mento cultural voltado à amefricanização das  
RI: as máscaras ritualísticas africanas. Embora  
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vas gramáticas para a análise da questão racial  
no campo. Como escreveu Frantz Fanon: “re-  
sistir no presente às consideradas coisas do pas-  
sado” (Fanon, 2008, p. 99, grifo nosso).  
Nesse contexto, entendemos que a catego-  
ria político-cultural da amefricanidade, cunha-  
da por Lélia Gonzalez, pode ser um caminho  
para tratar a afasia racial da disciplina, por  
meio de sua bidimensionalidade, que resgata as  
lutas e resistências dos movimentos sociais nos  
espaços político e cultural, contrapondo o do-  
mínio ocidental na produção do conhecimento  
e conferindo centralidade aos saberes da África,  
América Latina e Caribe. Essa categoria pode  
amefricanizar a disciplina de RI por meio da  
dimensão política, ao compreender as lutas dos  
movimentos sociais como intervenções contra  
a continuidade do imperialismo ocidental nas  
estruturas institucionais, que reivindicam mu-  
danças profundas na sociedade. Como exem-  
plos, podemos citar o Movimento Negro Uni-  
ficado (MNU) e o Movimento das Mulheres  
Camponesas (MMC) na América Latina, o  
movimento de mulheres na Nigéria contra a  
exploração no Delta do Níger, e o movimen-  
to da juventude senegalesa Y’en a Marre, am-  
bos no continente africano. Por outro lado, na  
dimensão cultural, é possível amefricanizar as  
RI por meio dos movimentos culturais que en-  
frentam o apagamento histórico dos povos não  
brancos, a hierarquização racial — também  
presente no campo teórico — e as diversas for-  
mas de racismo. Entre os exemplos, destacam-  
-se o Teatro Experimental do Negro (TEN), o  
movimento Rastafári (através das músicas de  
Bob Marley) e as máscaras ritualísticas africa-  
nas, que representam histórias transversalizadas  
pelas águas atlânticas.A partir dessas releituras,  
compreendemos que a amefricanidade é uma  
categoria que, além de resgatar a memória das  
resistências e das relações entre África e Améri-  
ca Latina, viabiliza formas emancipatórias den-  
tro do campo das Relações Internacionais.  
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS  
Como foi apresentado ao longo do traba-  
lho, a expansão do colonialismo representou o  
surgimento de novos processos racializados que  
institucionalizaram a violência sob ideologias  
imaginárias, baseadas na concepção da raça como  
validação de uma suposta superioridade, a partir  
da diferença fenotípica. Essa diferença constituiu  
linhas globais condicionadas pela cor da pele, de-  
finindo formas, padrões e direções nas relações  
entre o homem branco e os não brancos, espe-  
cialmente nos contextos intercontinentais entre  
Europa, África e América Latina. Diante desse  
cenário, o campo de estudo das Relações Interna-  
cionais (RI) permanece omisso em relação à raça  
e seus desdobramentos, o que representa uma li-  
mitação teórica para analisar o cenário da política  
internacional entre países, organizações interna-  
cionais e demais atores globais. Essa omissão-  
-negacionista resulta de dois fatores principais: o  
primeiro é o supremacismo branco, que repre-  
senta a dominação ideológica tanto na criação  
da disciplina quanto em suas áreas temáticas; o  
segundo é o dualismo racial, que cristaliza imagi-  
nários hierárquicos e promove a interiorização da  
inferioridade das raças não brancas, estabelecen-  
do uma separação entre os povos. Dessa forma,  
compreendemos que o campo da disciplina sofre  
com a afasia racial, que produz um esquecimen-  
to calculado — um fingimento de esquecimento  
do seu histórico racista — e nega a existência do  
racismo no contexto atual, ao mesmo tempo em  
que silencia sobre a questão racial e dá centrali-  
dade apenas a temas considerados mainstream.  
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