73 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.68 - 77, fev. 2025
analisadas, ficando de fora apenas em 20179.
O vocábulo “nuclear” é o segundo mais usado
no contexto das considerações do grupo sobre
o Irã, aparecendo vinte e quatro vezes (3%), fi-
cando atrás somente da menção ao nome do
país. Considerando a busca por dupla de pa-
lavras, constata-se que referências diretas ao
programa nuclear iraniano (“nuclear iraniano”;
“arma nuclear”; “programa nuclear”) constitui-
-se na mais recorrente expressão, com dezenove
aparições (4%).
verá desenvolver ou adquirir uma arma nu-
clear” (repetidos nas declarações do G-7 de
2024, 2023, 2022, grifos nossos); “Partilhamos
plenamente dois objetivos: garantir que o Irã
nunca adquira armas nucleares e promover
a paz e a estabilidade na região” (G-7, 2019,
destaque próprio); “Estamos empenhados em
garantir permanentemente que o programa
nuclear do Irã permaneça pacífico” (G-7,
2018, destaque próprio).
As expressões terminativas “nunca deve-
rá adquirir uma arma nuclear”; “garantir per-
manentemente que o programa nuclear do Irã
permaneça pacífico”, claramente apontam para
um posicionamento hierárquico, do estilo top-
-down, na retórica do G-7. Assim como afirma
Onuf (1998), os atos de fala diretivos, ao dizer
aos agentes o que eles devem fazer, procuram
garantir a manutenção das relações subordi-
nadas, de modo que cabe ao Irã, tão somente,
obedecer a esta determinação de não dispor de
armas nucleares. Somado a isso, há a norma-
tividade envolvida na fala, tendo em vista que
“constantemente repetidos, os mesmos velhos
atos de fala se transformam em convenção, pois
todos passam a acreditar que as próprias pala-
vras, e não os falantes que as pronunciam, são
responsáveis pelo que acontece” (ONUF, 1998,
p. 66, tradução livre)”. Nesse sentido, podemos
inferir que a enfática negativa da possibilidade
do Irã de obter armas atômicas por parte do
G-7 visa contribuir para a descredibilização in-
ternacional de tal possibilidade.
Em termos de atos de fala, sobressaem-se
os comissivos, e os diretivos. Sobre os primeiros,
destaca-se o enquadramento do programa nu-
clear iraniano no âmbito multilateral. O acordo
JCPOA e a AIEA são mencionados em seis das
dez declarações, conforme seguem exemplos:
“Reafirmamos nosso forte compromisso com
uma resolução diplomática” (...) (G- 7, 2014,
destaque próprio); “Acolhemos com satisfação
as discussões substantivas (...) entre os mem-
bros do JCPOA” (G-7, 2021); “Uma solução
diplomática continua sendo a melhor maneira
(...)” (G-7, 2022, 2023, destaque próprio).
Contudo, nota-se que mesmo em um
ambiente retórico que formalmente privile-
gia a multilateralidade e o compromisso, há
a presença de elementos/esforços diretivos/
hierárquicos. Em outras palavras, a importân-
cia da saída diplomática e multilateral para a
questão nuclear iraniana é acompanhada, fre-
quentemente, por promessas e disposições do
G-7 em garantir que Teerã jamais possua armas
nucleares. Esta diretriz consta em sete das nove
declarações em questão. Exemplos: “reiteramos
a nossa determinação de que o Irã nunca de-
Outro ponto que merece destaque na aná-
lise é a omissão do G-7 em suas declarações
da saída unilateral dos EUA do JCPOA, ra-
zão que impactou sensivelmente a viabilidade
do acordo (MOUSAVIAN, 2023). Conforme
Freeden, os silêncios desempenham funções
políticas cruciais, não sendo acidentais ou in-
9 Em 2017, o G7 mencionou apenas o programa nuclear
norte-coreano. Considerando que havia um certo otimismo
pela recente assinatura do JCPOA, o fato de não mencionar
o programa nuclear nesse contexto pode indicar que a ques-
tão foi potencialmente normalizada pelo grupo.