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ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.52 - 67, fev. 2025  
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Artigo  
A Associação de Cidades e Municípios  
BRICS+: Paradiplomacia e o Novo Banco  
de Desenvolvimento  
e Association of BRICS+ Cities and Municipalities: Paradiplomacy and the New  
Development Bank  
La Asociación de Ciudades y Municipios BRICS+: Paradiplomacia y el Nuevo Banco de  
Desarrollo  
Kelvin Araújo da Nóbrega Dias1  
Recebido em: 12 de outubro de 2024  
Aceito em: 23 de setembro de 2025  
RESUMO  
Este artigo analisa a formação da Associação de Cidades e Municípios BRICS+,  
sublinhando a paradiplomacia como ferramenta para a articulação política e a busca por  
financiamento junto ao Novo Banco de Desenvolvimento (NDB). A problemática central  
investiga como a Associação pode fortalecer a atuação internacional dos municípios do  
bloco e facilitar seu acesso a recursos para projetos de desenvolvimento sustentável. A partir  
de uma abordagem qualitativa de análise documental, o estudo examina o papel do NDB  
como financiador de projetos subnacionais. Conclui-se que a Associação representa uma  
plataforma estratégica que amplia a projeção internacional dos municípios, embora sua  
atuação permaneça mais cooperativa e complementar às políticas dos Estados nacionais.  
Palavras-chave: BRICS+; Novo Banco de Desenvolvimento; paradiplomacia.  
ABSTRACT  
is paper analyzes the formation of the BRICS+ Association of Cities and Municipalities,  
emphasizing paradiplomacy as a tool for political coordination and the search for  
financing from the New Development Bank (NDB). e central issue investigates how the  
Association can strengthen the international performance of the bloc’s municipalities and  
facilitate their access to resources for sustainable development projects. Using a qualitative  
approach to document analysis, the study examines the role of the NDB as a financier of  
subnational projects. It concludes that the Association represents a strategic platform that  
expands the international projection of municipalities, although its actions remain more  
cooperative and complementary to the policies of national states.  
Keywords: BRICS+; New Development Bank; paradiplomacy.  
RESUMEN  
Este artículo analiza la formación de la Asociación de Ciudades y Municipios BRICS+,  
destacando la paradiplomacia como herramienta para la articulación política y la búsqueda de  
1 Doutorando em Sociologia na UFPE. Bacharel e Mestre em Relações Internacionais pela UEPB. Contato: kelvinkand@gmail.com  
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financiamiento junto al Nuevo Banco de Desarrollo (NDB). La problemática central investiga  
cómo la Asociación puede fortalecer la actuación internacional de los municipios del bloque  
y facilitar su acceso a recursos para proyectos de desarrollo sostenible. A partir de un enfoque  
cualitativo de análisis documental, el estudio examina el papel del NDB como financiador de  
proyectos subnacionales. Se concluye que la Asociación representa una plataforma estratégica  
que amplía la proyección internacional de los municipios, aunque su actuación sigue siendo  
más cooperativa y complementaria a las políticas de los Estados nacionales.  
Palabras clave: BRICS+; Nuevo Banco de Desarrollo; paradiplomacia.  
res passaram a se destacar em temas globais, ar-  
ticulando-se em redes e fóruns transnacionais  
para influenciar políticas e garantir recursos  
financeiros. Nesse contexto, os países que inte-  
gram o BRICS+ têm observado o crescimento  
de articulações municipais que transcendem os  
interesses puramente nacionais. A criação da  
Associação de Cidades e Municípios BRICS+,  
em junho de 2024, reflete essa tendência, como  
um movimento de cooperação para enfrentar  
desafios comuns, especialmente no acesso a fi-  
nanciamentos (BRICS Policy Center, 2024).  
Uma das principais motivações dessa nova  
1 INTRODUÇÃO  
O BRICS+ representa um grupo de países  
emergentes em termos de desenvolvimento eco-  
nômico. Inicialmente, o agrupamento foi for-  
mado por quatro nações: Brasil, Rússia, Índia e  
China, sob o nome BRIC. No entanto, em 14 de  
abril de 2011, a inclusão da África do Sul (South  
Africa, em inglês) resultou na adição da letra “S”  
ao acrônimo (Oliver, 2013). Mais recentemente,  
em 1º de janeiro de 2024, o bloco foi expandido  
com a adesão de novos membros plenos: Egito,  
Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Etió-  
pia e Irã (Laboissière; Verdélio, 2023).  
associação é facilitar o acesso dos municípios  
ao Novo Banco de Desenvolvimento (NDB),  
criado em 2014 para apoiar o financiamento  
de projetos de infraestrutura e desenvolvimen-  
to sustentável nos países membros do BRICS+  
e outras economias emergentes (BRICS Policy  
Center, 2018; Bocchini, 2024). Além de possi-  
bilitar a troca de experiências, a iniciativa visa  
ampliar a capacidade dos municípios em captar  
recursos internacionais para projetos de impac-  
to local, contribuindo para o desenvolvimento  
sustentável. A crescente relevância de tais ini-  
ciativas evidencia como a paradiplomacia não  
se restringe apenas a acordos comerciais, mas  
também à obtenção de financiamento e ao for-  
talecimento das políticas públicas locais.  
A emergência de tais articulações subna-  
cionais não é um fenômeno isolado, mas um  
sintoma de transformações estruturais na ordem  
global. O tradicional sistema westphaliano, ca-  
racterizado pelo monopólio dos Estados-na-  
ção na condução da política externa, tem sido  
desafiado por dinâmicas de interdependência  
complexa e pela ascensão de novos atores. Nes-  
se cenário, que alguns teóricos descrevem como  
pós-westphaliano (Kreuder-Sonnen; Zangl,  
2015) ou até mesmo neomedieval (Bull, 2002),  
o poder se torna mais difuso e as fronteiras entre  
o doméstico e o internacional, mais porosas.  
Nos últimos anos, o fenômeno da para-  
diplomacia tem emergido como uma estraté-  
gia fundamental para governos subnacionais,  
como municípios e cidades, que buscam maior  
inserção nas relações internacionais. Esses ato-  
A paradiplomacia, conforme analisado  
por Duchacek (1984), refere-se à atuação de  
governos subnacionais, como municípios, na  
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arena internacional, almejando estabelecer re-  
lações diretas com entidades estrangeiras. Este  
processo de “micro diplomacia global” permite  
que as cidades integrem redes de cooperação,  
promovendo seus interesses e necessidades lo-  
cais. Soldatos (1990) complementa ao discutir  
como essa dinâmica pode levar à fragmentação  
da diplomacia nacional, criando tensões entre  
os níveis federal e municipal. No contexto da  
Associação BRICS+, essa interação evidencia a  
procura por financiamento e apoio em projetos  
que incidem as demandas específicas das locali-  
dades no cenário global.  
mento tanto do banco quanto da recém-criada  
Associação de Cidades e Municípios BRICS+.  
A revisão bibliográfica, por sua vez, fundamen-  
tou a discussão teórica sobre paradiplomacia e  
o papel de cidades e novos atores nas relações  
internacionais, articulando o objeto de estudo  
com o debate acadêmico consolidado.  
A criação da Associação de Cidades e Mu-  
nicípios BRICS+ deve ser compreendida como  
a formalização de uma tendência de coopera-  
ção subnacional já existente no bloco, e não  
como um ponto de partida isolado. O fomento  
a uma relativa autonomia na atuação interna-  
cional das cidades já era visível em uma série  
de articulações anteriores, com destaque para  
as edições inaugurais do Fórum de Coopera-  
ção de Cidades Amigas e Governos Locais do  
BRICS+ (2011), do Fórum de Urbanização  
do BRICS+ (2013), do Fórum Municipal In-  
ternacional do BRICS+ (2019) e do Fórum  
do Futuro Urbano do BRICS+ (2024). Nesse  
contexto, o presente estudo argumenta que a  
nova Associação representa um fortalecimento  
e uma institucionalização da paradiplomacia  
municipal. Por se tratar de um objeto recen-  
te e de um estudo com caráter prospectivo, a  
análise recorre a projetos de financiamento do  
NDB anteriores à criação da Associação para  
compreender o histórico de engajamento do  
banco com atores subnacionais.  
Diante dessa realidade, o presente artigo  
objetiva analisar como a criação da Associa-  
ção de Cidades e Municípios BRICS+ pode  
representar um avanço no campo da paradi-  
plomacia, focando no acesso a mecanismos de  
financiamento internacional. A pergunta que  
orienta essa discussão é: de que forma a Asso-  
ciação pode fortalecer a atuação internacional  
dos municípios do BRICS+ e facilitar o acesso  
ao NDB? Para responder a essa questão, o texto  
se organiza em três partes: a primeira contex-  
tualiza a paradiplomacia e o papel dos muni-  
cípios no cenário global; a segunda examina  
o NDB como instrumento de financiamento  
subnacional; e a terceira investiga a criação da  
associação como um marco no fortalecimento  
das relações entre os municípios do BRICS+.  
A presente pesquisa foi desenvolvida a  
partir de uma abordagem qualitativa, empre-  
gando como método a análise documental,  
que se concentrou em fontes primárias, como  
os acordos de criação e os relatórios de projetos  
do NDB, declarações oficiais das cúpulas do  
BRICS+ e comunicados de instituições como  
a Associação Brasileira de Municípios (ABM).  
Esses documentos forneceram a base empírica  
para compreender a estrutura e o funciona-  
2 A PARADIPLOMACIA E OS  
MUNICÍPIOS NO CENÁRIO  
GLOBAL  
A paradiplomacia, como visto, refere-se  
às atividades internacionais realizadas por go-  
vernos subnacionais, como os municípios, que  
têm se tornado atores significativos no cenário  
global. Esse fenômeno é impulsionado pela  
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globalização, descentralização e a necessidade  
de enfrentar questões globais que impactam  
localmente, como mudanças climáticas e direi-  
tos humanos. Municípios estão cada vez mais  
estabelecendo departamentos de relações in-  
ternacionais, buscando proteger interesses lo-  
cais, promover o desenvolvimento sustentável  
e adotar normas internacionais que abordem a  
proteção ambiental e os direitos das minorias  
(Bartmann, 2006; Ljungkvist, 2015). Isso de-  
safia as noções tradicionais de diplomacia esta-  
tal e demonstra a importância da colaboração  
entre diferentes níveis de governo.  
ricas brasileiras ampliaram esse espaço, o autor  
diferencia uma paradiplomacia cooperativa de  
outra mais confrontativa. Com a Associação  
BRICS+ em tela, sua institucionalização junto  
ao NDB revela como a paradiplomacia pode  
transitar entre cooperação e contestação, cons-  
tituindo uma política externa local inserida em  
arranjos globais.  
A ordem de Westphália, que por séculos  
definiu o Estado como o único ator soberano  
e legítimo nas relações exteriores, vem sendo  
erodida por processos de globalização e inter-  
dependência. Duchacek (1990) descreve esse  
fenômeno como o das soberanias perfuradas,  
uma vez que os fluxos transfronteiriços de ca-  
pital, informação e pessoas interferem no con-  
trole estatal absoluto. Nesse ambiente de inter-  
dependência, a distinção rígida entre política  
interna e externa se desfaz. Questões globais,  
como mudanças climáticas, pandemias e crises  
financeiras, produzem impactos diretos e ime-  
diatos nas localidades, exigindo respostas que  
os governos centrais, por vezes, são incapazes  
ou lentos demais para fornecer. É essa lacuna  
que impulsiona os municípios a buscarem au-  
tonomia e protagonismo internacional, desa-  
fiando as noções tradicionais de diplomacia e  
demonstrando a importância da colaboração  
entre diferentes níveis de governo.  
A literatura sobre paradiplomacia apon-  
ta tanto para limites conceituais quanto para  
a consolidação empírica do fenômeno. Prado  
(2018) evidencia que a divisão clássica entre  
paradiplomacia e protodiplomacia não abar-  
ca situações em que entes subnacionais, sem  
pretensões separatistas ou complementares em  
torno do Estado-nação, geram tensões relevan-  
tes com o governo central. Já Tavares (2016)  
demonstra que cidades e estados se consolida-  
ram como atores de peso na governança global,  
inclusive figurando entre as maiores economias  
do mundo e articulando-se em redes multi-  
laterais. No caso da Associação BRICS+, essa  
dupla perspectiva é útil, pois ao mesmo tempo  
em que o arranjo desafia os enquadramentos  
tradicionais, também confirma a centralidade  
crescente da ação internacional subnacional em  
estruturas transnacionais ligadas a instituições  
como o NDB.  
A noção de interdependência comple-  
xa, desenvolvida por Keohane e Nye (2012),  
redefine as relações internacionais ao propor  
que o mundo é uma densa rede de conexões  
que transcende os Estados e inclui atores não  
estatais, como corporações multinacionais e  
ONGs. Neste cenário, o poder militar perde  
sua centralidade como principal instrumento  
de política externa, e a agenda global se expan-  
de para além das questões de segurança, dando  
importância a temas econômicos, ambientais e  
Neste raciocínio, Rodrigues (2021) sus-  
tenta que a paradiplomacia deixou de ser fe-  
nômeno periférico para se afirmar como di-  
mensão estrutural das relações internacionais,  
articulando cidades e estados a redes multilate-  
rais e a agendas globais. Além de indicar que a  
autonomia constitucional e as condições histó-  
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sociais. Como resultado, a profunda intercone-  
xão entre os atores torna a cooperação não ape-  
nas uma estratégia, mas uma necessidade para  
solucionar desafios transnacionais, valorizando  
o papel das instituições internacionais.  
aponta que as cidades globais emergem como  
centros de serviços financeiros e operacionais  
de grande importância para o comércio inter-  
nacional, o que, segundo Bocayuva e Santos  
Júnior (2012), também é observado nas cida-  
des-BRICS+, que atuam semelhantemente ao  
atrair investimentos internacionais e sediar me-  
gaeventos.  
Na arena internacional, os municípios  
têm uma função essencial na implementação  
de políticas que promovem o desenvolvimento  
sustentável, lidando diretamente com questões  
como mudanças climáticas, equidade social e  
crescimento econômico. Um dos principais  
aspectos da atuação das cidades é a adaptação  
dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável  
(ODS) da ONU a nível local, como a redução  
da pobreza e o acesso à água potável (UN-Ha-  
bitat; UNDP; UCLG, 2019; UNHCR, 2024).  
Ademais, as cidades lideram ações climáticas,  
promovendo o uso de energia renovável e in-  
fraestrutura resiliente. A colaboração inter-  
nacional, por meio de redes como a Cidades  
e Governos Locais Unidos (UCLG), também  
permite que os municípios troquem experiên-  
cias e superem desafios comuns (UCLG, 2021).  
Não menos importante, os municípios atuam  
no desenvolvimento econômico ao atrair inves-  
timentos e promover a inclusão social, garan-  
tindo que todos os moradores tenham acesso a  
serviços essenciais e oportunidades mais justas  
(UN-Habitat; UNDP; UCLG, 2019; UNH-  
CR, 2024).  
As cidades-BRICS+, definidas como me-  
gacidades com atributos de cidades-globais, são  
primordiais na estrutura de governança global  
(Bocayuva; Santos Júnior, 2012). Segundo Van  
Der Ploeg e Poelhekke (2008), as megacida-  
des se inserem na globalização por meio de seu  
grande potencial produtivo e de consumo. No  
entanto, diferentemente das megacidades tra-  
dicionais, as cidades-BRICS+ buscam atender  
às demandas globais, mas também se afirmar  
como protagonistas da expansão do capitalismo  
global. Lefebvre (2001) e Harvey (2005; 2012)  
sugerem que o direito à cidade e a mobilida-  
de social são elementos centrais para a trans-  
formação urbana, e as cidades dos BRICS+  
são exemplos disso. A migração em massa para  
essas áreas urbanas intensifica os conflitos por  
melhores condições de vida e infraestrutura, o  
que pressiona os governos locais e nacionais a  
adotarem políticas públicas mais inclusivas.  
Em um marco para a cooperação inter-  
nacional entre municípios, representantes das  
cidades do BRICS+ reuniram-se em Kazan,  
Rússia, para formalizar a criação da Associação  
de Cidades e Municípios BRICS+, com a pre-  
sença da Associação Brasileira de Municípios  
(ABM), destacando a importância da colabo-  
ração global. A nova associação visa fortalecer  
a cooperação entre os municípios do BRICS+,  
promovendo o desenvolvimento sustentável  
e o bem-estar local, com presidência rotativa  
entre os cinco países do bloco, inicialmente li-  
Nos últimos anos, as cidades dos BRICS+  
têm se tornado atores cada vez mais centrais no  
cenário global, especialmente ao se consolida-  
rem como centros de qualificação profissional  
e inovação tecnológica. Essas cidades, como  
Xangai e Rio de Janeiro, são exemplos de como  
a globalização e o capital privado estão remo-  
delando o espaço urbano, tornando-as vetores  
de transformação socioeconômica (Bocayuva;  
Santos Júnior, 2012). Sassen (2001; 2010)  
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derada pelo prefeito de Kazan, Ilsur Metshin  
(BRICS Policy Center, 2024; ABM, 2024).  
Essa iniciativa reflete a reorganização estraté-  
gica das relações entre municípios, reconhe-  
cendo os desafios globais, como as mudanças  
climáticas e o desenvolvimento sustentável, e  
possibilitando a articulação direta com atores  
internacionais e mecanismos de financiamento  
como o NDB, promovendo a paradiplomacia,  
a descentralização do poder e das decisões no  
sistema internacional.  
África do Sul, o Fórum estabeleceu uma plata-  
forma global para que os municípios dos paí-  
ses membros pudessem trocar experiências e  
desenvolver soluções para desafios comuns, fo-  
cando no desenvolvimento socioeconômico, na  
atração de investimentos e na inovação tecno-  
lógica. A relevância da iniciativa cresceu expo-  
nencialmente, sendo inclusive mencionada nas  
declarações oficiais das cúpulas do BRICS+ de  
Moscou (2020) e Pequim (2022), o que con-  
feriu legitimidade a essa esfera de cooperação  
subnacional. O Fórum demonstrou um notável  
amadurecimento, saltando de 700 participan-  
tes em sua primeira edição para mais de 7.000  
em 2023, e se tornou um espaço profícuo para  
a assinatura de centenas de acordos de coope-  
ração em áreas diversas como urbanismo, sus-  
tentabilidade, cultura e comércio (IMBRICS,  
2025). Dessa forma, a trajetória do Fórum ilus-  
tra a construção de uma agenda internacional  
própria pelos municípios, criando a confiança e  
a base institucional necessárias para a posterior  
formalização de uma associação permanente.  
A formalização da Associação BRICS+ em  
O nível e a natureza do engajamento de  
cada município serão influenciados por seus  
contextos domésticos. Schiavon (2019), em  
seu estudo comparativo de sistemas federais,  
demonstra que as permissões constitucionais e  
os mecanismos de coordenação entre governos  
centrais e subnacionais são decisivos. O autor  
classifica os países em exclusivos, complemen-  
tares ou inclusivos quanto à participação dos  
entes subnacionais na política externa. Essa  
tipologia se mostra pertinente para investigar  
a Associação BRICS+, pois a capacidade de  
atuação de um município de um sistema “com-  
plementar” como o brasileiro ou o sul-africano  
será distinta da de um município de um siste-  
ma “exclusivo” como o indiano, onde o gover-  
no central exerce maior controle. Logo, a asso-  
ciação provavelmente atuará como um mosaico  
de capacidades institucionais distintas, e não  
como um bloco homogêneo.  
Kazan abriu caminho para uma agenda intensa  
de cooperação, com a presidência brasileira do  
BRICS+ em 2025 servindo como um catali-  
sador estratégico. Eventos como o IMBRICS  
no Rio de Janeiro (maio de 2025) e o BRICS  
Urban Future Forum em Moscou (setembro de  
2025) foram programados para dar seguimen-  
to aos debates. De forma elementar, a primeira  
Assembleia Geral da Associação BRICS+ de  
Cidades e Municípios foi agendada para ocor-  
rer em Maricá (RJ) no mesmo período, conso-  
lidando o papel da associação como a principal  
plataforma para a articulação de uma agenda  
urbana comum entre os membros, focada em  
desenvolvimento sustentável e na aplicação de  
tecnologias urbanas (Blanchet, 2025).  
A formalização da Associação de Cida-  
des e Municípios BRICS+ em 2024 não foi  
um evento isolado, mas sim o resultado de um  
processo gradual de articulação paradiplomáti-  
ca que se consolidou ao longo de vários anos,  
principalmente por meio do Fórum Municipal  
Internacional do BRICS+ (IMBRICS). Inicia-  
do em 2019 em São Petersburgo, a partir de  
uma proposta concebida no ano anterior na  
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seus instrumentos de captação, destacam-se a  
emissão de títulos em moeda local, como os 3  
bilhões de yuan emitidos na China em 2016,  
com maturidade de cinco anos. O banco já  
recebeu classificação de risco “AAA” (a mais  
elevada possível, significa que a capacidade de  
uma entidade pagar seus compromissos finan-  
ceiros é excepcional, representando um risco de  
inadimplência mínimo) por agências chinesas  
e tem buscado ampliar seu reconhecimento  
internacional. Até 2016, havia desembolsado  
cerca de US$ 1,5 bilhão em projetos, com con-  
centração na China e na Índia. Sua estrutura é  
composta por um Conselho de Governadores  
e um Conselho de Administração, ambos com  
cinco assentos distribuídos igualmente entre  
os países fundadores, e a presidência é rotati-  
va. A política socioambiental do banco segue  
parâmetros internacionais, como os Princípios  
do Equador, incluindo critérios relativos a im-  
pacto ambiental, deslocamento involuntário e  
povos indígenas (BRICS Policy Center, 2018).  
O NDB (2014) possui duas instâncias  
3 O NDB E O FINANCIAMENTO  
SUBNACIONAL  
O NDB, uma das principais iniciativas do  
BRICS+, foi criado com o propósito de finan-  
ciar projetos de infraestrutura e promover o de-  
senvolvimento sustentável em países emergen-  
tes. A criação do NBD foi planejada durante a  
Quinta Cúpula do BRICS+, realizada em Dur-  
ban, África do Sul, em 27 de março de 2013  
(Brasil, 2015). Posteriormente, em 15 de julho  
de 2014, no primeiro dia da Sexta Cúpula do  
BRICS+, realizada em Fortaleza, Brasil, foi  
assinado o acordo que instituiu o NBD, com  
capital inicial de 100 bilhões de dólares, além  
de um fundo de reserva com o mesmo valor  
(NDB, 2014), entrando em vigor no encontro  
seguinte, em Ufá na Rússia, em 2015 (BRICS  
Policy Center, 2018). Com sede em Xangai, o  
NDB busca impulsionar o crescimento econô-  
mico, bem como competir com instituições fi-  
nanceiras tradicionais como o Banco Mundial  
e o Banco Interamericano de Desenvolvimento  
(Lewis; Trevisani, 2014; Costa, 2023).  
principais de gestão: o Conselho de Governa-  
dores e o Conselho de Administração, cada um  
composto por representantes dos cinco países  
fundadores. A presidência do banco é ocupa-  
da em sistema de rodízio, sempre por um re-  
presentante de um dos membros do BRICS+,  
enquanto os demais países indicam os vice-pre-  
sidentes, de modo que cada fundador, exceto  
o que exerce a presidência, conte com ao me-  
nos um assento nessa vice-liderança. O presi-  
dente, eleito pelo Conselho de Governadores,  
não pode acumular a função de governador ou  
diretor. Ele participa das reuniões do Conse-  
lho de Governadores, mas não tem direito a  
voto, salvo em casos de empate no Conselho de  
Administração, do qual faz parte. Atua como  
chefe da equipe operacional, sendo responsável  
Consoante o BRICS Policy Center (2018),  
o NDB tem como objetivo mobilizar recursos  
para projetos de infraestrutura e desenvolvi-  
mento sustentável nos países do BRICS+ e em  
outras economias em desenvolvimento, atuan-  
do de forma complementar às instituições fi-  
nanceiras multilaterais existentes. Seu capital  
autorizado é de US$ 100 bilhões, com aporte  
inicial de US$ 50 bilhões, igualmente dividi-  
do entre os cinco membros fundadores. Parte  
desses recursos (US$ 10 bilhões) corresponde a  
capital realizado e o restante a capital exigível.  
Apesar da possibilidade de novos países adquiri-  
rem participação, os BRICS+ mantêm controle  
de 55% das ações, assegurando a prioridade de  
atender às necessidades do Sul Global. Entre  
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pela condução dos negócios ordinários do ban-  
co, pela organização interna e pela nomeação  
e demissão de funcionários. Cabe-lhe também  
recomendar ao Conselho de Governadores  
a indicação ou dispensa de vice-presidentes.  
Adicionalmente, preside o comitê de crédito e  
investimento, integrado pelos vice-presidentes,  
que delibera sobre operações financeiras até um  
limite fixado pelo Conselho de Administração,  
desde que não haja objeção de seus membros.  
Os mandatos de presidente e vice-presidentes  
têm duração de cinco anos, sem possibilidade  
de recondução, exceto para o primeiro grupo  
de vice-presidentes, cujo mandato inicial foi  
de seis anos. Todos os dirigentes e funcionários  
devem pautar-se exclusivamente por critérios  
técnicos e econômicos, sem interferência em  
questões políticas dos países membros. Sua  
lealdade institucional deve ser voltada apenas  
ao banco, e os Estados signatários comprome-  
tem-se a respeitar essa independência (NDB,  
2014).  
Do mesmo modo, o “Projeto de Desen-  
volvimento Sustentável das Pequenas Cidades  
de Chongqing” (NDB, 2018b) está diretamen-  
te relacionado ao desafio da urbanização acele-  
rada na China, que embora tenha trazido cres-  
cimento econômico, deixou várias pequenas  
cidades com infraestruturas insuficientes para  
acomodar a nova população. Com foco em  
equilibrar o desenvolvimento urbano e reduzir  
a disparidade entre as pequenas cidades e áreas  
centrais, o projeto visa fornecer financiamento  
para a infraestrutura sustentável de sete cida-  
des na municipalidade de Chongqing. Embora  
tenha sido cancelado, esse investimento está  
alinhado com o mandato do NDB de apoiar  
o desenvolvimento sustentável e resolver o dé-  
ficit financeiro enfrentado por essas cidades em  
crescimento.  
Diante da crescente digitalização da ges-  
tão urbana, o papel do NDB se torna ain-  
da mais central. Conforme aponta Blanchet  
(2025), o NDB pode ampliar suas linhas de  
crédito para apoiar especificamente projetos de  
cidades inteligentes que utilizem inteligência  
artificial para fins públicos, como a otimização  
da mobilidade, a gestão de riscos climáticos e a  
eficiência energética. Essa orientação estratégi-  
ca garantiria a infraestrutura digital necessária  
para a modernização dos serviços públicos, ali-  
nhando o banco à fronteira da inovação urbana  
e reforçando a cooperação Sul-Sul no campo da  
soberania digital.  
Um exemplo do NDB em ação é o “Pro-  
jeto de Desenvolvimento de Pequenas Cidades  
Históricas” na Rússia (NDB, 2018a). Por meio  
deste projeto, o NDB visa revitalizar a infraes-  
trutura urbana de pequenas cidades históricas,  
muitas das quais são destinos culturais e edu-  
cacionais importantes, mas possuem uma in-  
fraestrutura urbana precária. Além de melhorar  
as condições de transporte e instalações sociais,  
o foco também está na preservação do patri-  
mônio cultural dessas localidades, alinhan-  
do-se com o decreto presidencial russo sobre  
metas estratégicas até 2024. Isso demonstra o  
compromisso do NDB em apoiar o desenvol-  
vimento sustentável de infraestrutura, um dos  
pilares de seu mandato, ao mesmo tempo em  
que promove a conservação de valores culturais  
essenciais para o país.  
Deste modo, o NDB tem mostrado dis-  
posição em apoiar iniciativas subnacionais, es-  
pecialmente em áreas com grande impacto para  
o desenvolvimento econômico e social. Nesse  
contexto, a atuação do banco se alinha com o  
fenômeno da paradiplomacia, visto que gover-  
nos subnacionais estão cada vez mais engajados  
em iniciativas internacionais.  
60 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.52 - 67, fev. 2025  
As iniciativas financiadas pelo NDB,  
como o Chongqing Small Cities Sustainable De-  
velopment Project e o Small Historic Cities De-  
velopment Project, oferecem uma plataforma es-  
sencial para que pequenas cidades emergentes  
possam se projetar internacionalmente. Esses  
projetos, ao focarem na infraestrutura e desen-  
volvimento sustentável, criam oportunidades  
para as cidades se integrarem ao sistema inter-  
nacional por meio da cooperação, avigorando  
sua capacidade paradiplomática. O histórico de  
apoio do NDB a essas localidades serve como  
base para a consolidação de iniciativas como a  
Associação de Cidades e Municípios BRICS+,  
proporcionando a inserção internacional e a  
troca de experiências entre essas cidades. Essas  
ações ajudam a redefinir a diplomacia subna-  
cional, permitindo que as cidades estejam mais  
ativas em parcerias internacionais e agendas  
globais, sobretudo na arena do desenvolvimen-  
to sustentável e da inovação urbana.  
pode facilitar essas conexões por intermédio  
de financiamentos diretos, complementando a  
atuação federal. A ABM tem pontuado o com-  
bate às mudanças climáticas como um tema  
central em sua agenda, enfatizando a união  
entre os municípios nessa causa (ABM, 2024).  
A ABM fez um convite para a COP30, que  
ocorrerá em Belém/PA em novembro de 2025,  
o que reforça essa união. Durante a conferên-  
cia, que abordará os desafios climáticos glo-  
bais, acontecerá a primeira reunião oficial da  
Associação de Cidades e Municípios BRICS+.  
A criação dessa associação no BRICS+ repre-  
senta um paradigma para a cooperação entre  
as cidades, permitindo a troca de experiências e  
melhores práticas.  
No Brasil, a Constituição Federal de 1988  
estabelece que qualquer operação de crédito ex-  
terno por entes federativos, incluindo municí-  
pios, necessita de autorização prévia do Senado  
Federal, conforme o artigo 52, inciso III. Essa  
exigência visa assegurar que tais operações es-  
tejam alinhadas com os interesses da União e  
que não comprometam a responsabilidade fis-  
cal do país. No contexto dos BRICS+, o NDB,  
também conhecido como Banco dos BRICS+,  
tem se consolidado como uma alternativa viá-  
vel para a captação de recursos financeiros,  
especialmente para projetos de infraestrutura  
e desenvolvimento sustentável. Para que mu-  
nicípios possam acessar esses financiamentos, é  
necessário que a operação de crédito seja au-  
torizada pelo Senado Federal. Recentemente, o  
Senado aprovou autorizações para empréstimos  
internacionais destinados a estados e municí-  
pios, com garantia da União, para projetos de  
infraestrutura e desenvolvimento regional (Bra-  
sil, 2025). Essas autorizações são formalizadas  
por meio de Resoluções do Senado, que especi-  
ficam os valores, os projetos e as condições das  
A centralidade do NDB para a recém-cria-  
da associação não é fortuita e reflete a princi-  
pal motivação da paradiplomacia no Brasil e,  
possivelmente, em outros países do Sul Global.  
Estudos empíricos, como o de Fróio (2015),  
demonstram que a busca por financiamento  
externo e a atração de investimentos são os  
principais vetores que impulsionam os gover-  
nos subnacionais para a arena internacional,  
superando outros objetivos. Nesse sentido, a  
associação funciona como uma plataforma es-  
tratégica para viabilizar o acesso a recursos que,  
de outra forma, seriam de difícil obtenção para  
os municípios individualmente.  
No caso brasileiro, ainda que a Constitui-  
ção não mencione explicitamente a possibili-  
dade de estados e municípios estabelecerem  
acordos internacionais (Brasil, 1988), o NDB,  
assim como outros organismos internacionais,  
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operações de crédito. Além disso, o NDB tem  
buscado ampliar o financiamento e a captação  
de recursos em moedas locais, com o objetivo  
de reduzir a exposição à volatilidade de juros e  
câmbio, fortalecendo os mercados de capitais  
doméstico. Essa estratégia pode beneficiar mu-  
nicípios ao possibilitar o acesso a recursos em  
moeda nacional, minimizando riscos cambiais.  
Embora o NDB tenha sido inicialmente  
concebido para financiar projetos de infraestru-  
tura e desenvolvimento sustentável em países  
membros, o banco tem se aberto à participação  
de municípios, especialmente em países com  
sistemas federativos que permitem tal envolvi-  
mento. Por exemplo, na África do Sul, algumas  
cidades têm buscado acessar financiamentos do  
NDB, embora a aprovação dependa da autori-  
zação do Tesouro Nacional e da capacidade de  
endividamento local (Maziwisa, 2019). A par-  
ticipação efetiva de municípios sul-africanos  
ainda enfrenta desafios relacionados à gestão  
financeira e à capacidade de crédito local. Não  
obstante, o NDB tem ampliado sua atuação  
por meio da abertura de escritórios regionais  
em várias partes do mundo, incluindo a Áfri-  
ca, a América do Sul, a Ásia Central e a Ásia  
do Sul, visando descentralizar suas operações e  
facilitar o acesso a financiamentos para projetos  
locais (Chin, 2024).  
melhoria da mobilidade urbana. O programa  
está diretamente alinhado aos Objetivos de De-  
senvolvimento Sustentável, em especial o ODS  
11 sobre cidades sustentáveis (NDB, 2023). O  
caso de Aracaju evidencia que, mesmo sob as  
restrições constitucionais que exigem autoriza-  
ção e garantia federal para operações de crédito  
externo, já existem mecanismos práticos pelos  
quais municípios brasileiros podem acessar re-  
cursos do NDB, reforçando a relevância da pa-  
radiplomacia no bloco, principalmente quando  
esta atuação subnacional é exercida de forma  
complementar, e não contestatória, à atuação  
internacional do Estado-nação.  
Logo, embora haja processos burocráticos  
do Estado para operações de crédito externo  
por municípios, o NDB tem se mostrado uma  
fonte importante de financiamento para pro-  
jetos de desenvolvimento, inclusive no Brasil.  
Com a devida autorização, municípios podem  
acessar esses recursos para impulsionar iniciati-  
vas locais e regionais, alinhadas com os objeti-  
vos de desenvolvimento sustentável e integra-  
ção regional promovidos pelos BRICS+.  
4 A ASSOCIAÇÃO DE CIDADES  
E MUNICÍPIOS BRICS+  
A formação da Associação de Cidades e  
Municípios BRICS+ foi formalmente esta-  
belecida durante o Fórum Internacional de  
Cidades BRICS+, realizado em 21 de junho  
de 2024, na Prefeitura de Kazan, Rússia. Este  
evento marcou um momento significativo  
para a colaboração entre governos locais de  
países membros do BRICS+ e outras nações  
parceiras. O encontro contou com a presença  
de representantes de mais de 40 cidades e lí-  
deres de associações municipais de mais de 10  
países, consolidando a criação da Associação  
Um exemplo emblemático da aproxima-  
ção entre o NDB e os municípios brasileiros  
ocorreu em outubro de 2023, quando foi assi-  
nado em Marrakesh o acordo de financiamento  
entre o banco e a Prefeitura de Aracaju. O pro-  
jeto, denominado Aracaju, Cidade do Futuro,  
previa um empréstimo de 84 milhões de dó-  
lares, garantido pela União, para modernizar a  
infraestrutura urbana da capital sergipana. As  
obras incluem a ampliação da rede de sanea-  
mento, drenagem, prevenção de enchentes e  
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de Cidades e Municípios BRICS+ (UCLGA,  
s.d.; BRICS Policy Center, 2024).  
senta um passo significativo na integração dos  
governos locais dos países BRICS+ e de outros  
parceiros globais, promovendo o desenvolvi-  
mento urbano sustentável e o fortalecimento  
das relações multilaterais. A associação contará  
com dois escritórios regionais, um nos Emira-  
dos Árabes Unidos e outro na cidade de Kazan,  
garantindo uma presença ativa e representativa  
das cidades de diferentes dimensões e contextos  
regionais dentro da estrutura organizacional  
(UCLGA, s.d.).  
O Fórum teve início com um discurso de  
boas-vindas do Rustam Minnikhanov, chefe da  
República do Tartaristão, em nome do presi-  
dente russo Vladimir Putin, onde ressaltou a  
proeminência da cooperação entre autoridades  
locais para promover o desenvolvimento sus-  
tentável e o intercâmbio de experiências entre  
os países membros. O prefeito de Kazan, Ilsur  
Metshin, reforçou a importância dessa inicia-  
tiva, frisando que essa associação será essencial  
no fortalecimento das relações entre as cidades  
e municípios do BRICS+ (UCLGA, s.d.).  
A associação recebeu o apoio de diver-  
sas nações, incluindo a África do Sul, por in-  
termédio de seu presidente da Associação de  
Governos Locais, Stofile Bheke, que salientou  
a importância da adaptação das cidades a um  
ambiente global dinâmico e da promoção da  
comunalidade e da cooperação internacional.  
O prefeito de Ancara, Mansur Yavas, destacou  
a relevância de uma associação de autoridades  
locais para enfrentar os desafios atuais, como a  
polarização global e os conflitos, e para cons-  
truir cidades mais resilientes por meio da troca  
de experiências (UCLGA, s.d.).  
Um exemplo recente da atuação paradi-  
plomática dos municípios no âmbito do BRI-  
CS+ ocorreu em julho de 2025, quando An-  
gra dos Reis sediou o IMBRICS Summit Angra  
2025 (Rio de Janeiro, 2025). O fórum reuniu  
autoridades, empresários e especialistas para  
debater a inserção das cidades na nova multi-  
polaridade global, com foco no fortalecimento  
da paradiplomacia como forma de atuação in-  
ternacional direta, sem intermediação exclusi-  
va do governo federal (Rio de Janeiro, 2025).  
Durante o encontro, uma comitiva oficial de  
empresários russos prospectou parcerias em  
áreas como infraestrutura, segurança, inovação  
e turismo, e foi firmado um acordo entre o Fó-  
rum Internacional dos Municípios BRICS+ e  
a prefeitura de Angra para promoção conjunta  
de roteiros turísticos, articulado com o Conse-  
lho Municipal de São Petersburgo, na Rússia.  
A iniciativa é um indício de como a paradiplo-  
macia pode gerar alianças estratégicas capazes  
de promover desenvolvimento sustentável e  
ampliar a projeção internacional de cidades do  
BRICS+; articulando eventos internacionais,  
parcerias diretas e visibilidade global.  
A Associação de Cidades e Municípios  
BRICS+ visa promover o desenvolvimento  
sustentável das cidades, incentivar a coopera-  
ção socioeconômica, compartilhar as melhores  
práticas de gestão urbana e enfrentar desafios  
comuns, como a sustentabilidade ambiental,  
proteção social, intercâmbio cultural e desen-  
volvimento de infraestrutura. Durante a sessão  
de declarações, alguns participantes expressa-  
ram a necessidade de consultar seus respectivos  
governos antes de formalizar o apoio completo  
à associação, mas o documento foi aprovado  
por consenso. A criação da associação repre-  
Do mesmo modo, a consolidação das ci-  
dades do BRICS+ como polos de inovação é  
visível em diversas iniciativas que aplicam tec-  
nologias emergentes para solucionar desafios  
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urbanos. A inteligência artificial (IA), em es-  
pecial, tornou-se um campo central de expe-  
rimentação. A China se destaca com projetos  
como o “City Brain” em Xangai, uma plata-  
forma de governança urbana que integra dados  
em tempo real. Na Índia, a cidade de Pune uti-  
liza IA para otimizar o transporte público, en-  
quanto na África do Sul, Joanesburgo e Cidade  
do Cabo aplicam a tecnologia para a prevenção  
da criminalidade e gestão de resíduos. No Bra-  
sil, para além do Rio de Janeiro, Curitiba re-  
cebeu reconhecimento internacional em 2023  
por seu uso de sensores inteligentes para geren-  
ciar o consumo de energia e otimizar a coleta  
de resíduos (Blanchet, 2025). Essa diversidade  
de aplicações demonstra um campo fértil para  
a cooperação e o intercâmbio de boas práticas  
entre os municípios do bloco.  
O BRICS+ não possui um regime de go-  
vernança multinível nos moldes de instituições  
altamente institucionalizadas, como a União  
Europeia, conforme Hocking (1993; 1999)  
discute. Trata-se, antes, de uma coalizão inter-  
governamental flexível, em que a coordenação  
principal é exercida pelos Estados nacionais  
(Beeson; Zeng, 2018). As cúpulas de chefes de  
Estado e governo constituem a instância cen-  
tral, definindo diretrizes políticas e prioridades  
gerais. A partir delas, desdobram-se instâncias  
ministeriais e setoriais — finanças, comércio,  
saúde, educação, segurança, entre outras —  
que elaboram planos de trabalho, declarações  
conjuntas e compromissos temáticos. Então,  
no caso do BRICS+ trata-se menos de um re-  
gime institucionalizado e mais de uma rede de  
cooperação em diferentes níveis — nacional,  
setorial e local. Desta maneira, a Associação de  
Cidades e Municípios BRICS+ pode ser enten-  
dida como um espaço de articulação subnacio-  
nal dentro de uma estrutura que permanece  
predominantemente intergovernamental.  
A formação da Associação de Cidades e  
Municípios BRICS+ aparenta um exemplo de  
cooperação entre diferentes níveis de governo,  
alinhada ao conceito de diplomacia multica-  
madas (Hocking, 1993; 1999). Essa forma de  
governança caracteriza-se pela interação e co-  
laboração entre diversos atores, tanto centrais  
quanto locais, transcendentais às fronteiras na-  
cionais. Isto é, as unidades subnacionais par-  
ticipam ativamente do processo diplomático e  
da política internacional, ao lado de governos  
centrais na construção das relações exteriores.  
Desta maneira, a política externa não é perce-  
bida de modo fragmentado, como sugerido por  
Duchacek (1984; 1990) e Soldatos (1990). A  
perspectiva multicamadas reforça que a diplo-  
macia internacional não é um processo linear  
ou exclusivamente centralizado, mas sim uma  
rede de interações entre atores domésticos e in-  
ternacionais, permitindo que cidades e muni-  
cípios obtenham um desempenho relevante no  
âmbito global.  
O arranjo inclui ainda grupos técnicos e  
mecanismos institucionais, como o NDB e o  
Acordo de Reserva Contingente dos BRICS+,  
que operam como braços operacionais da coo-  
peração (Chaturvedi; Saha, 2019). Esses orga-  
nismos mantêm relações estreitas com os minis-  
térios de finanças e bancos centrais, reforçando  
a centralidade dos governos nacionais no pro-  
cesso decisório. Em paralelo, redes acadêmicas e  
fóruns de pesquisa, como o BRICS inkTanks  
Council e a BRICS University League, cum-  
prem um papel de assessoramento e diplomacia  
do conhecimento, sem caráter vinculante.  
Apesar desse desenho centrado no ní-  
vel estatal, o BRICS+ tem buscado ampliar a  
participação de atores subnacionais e societais.  
Fóruns como o BRICS Urbanisation Forum  
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e o BRICS Friendship Cities and Local Go-  
vernment Cooperation Urbanisation Forum  
reúnem prefeitos, governadores e autoridades  
locais para debater políticas urbanas, sustenta-  
bilidade e inovação administrativa. Em 2024,  
a Associação de Cidades e Municípios do BRI-  
CS+ institucionaliza redes de diálogo entre go-  
vernos locais e agendas temáticas próprias. A  
participação de cidades em cooperações técni-  
cas em áreas como transporte, meio ambiente  
e desenvolvimento tecnológico indicam uma  
abertura crescente à diplomacia subnacional e  
à diplomacia multicamadas.  
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS  
A criação da Associação de Cidades e Mu-  
nicípios BRICS+ confirma uma tendência de  
reorganização do sistema internacional em di-  
reção a formatos de governança mais distribuí-  
dos e multicamadas. Ao institucionalizar a coo-  
peração entre municípios e proporcionar um  
espaço de projeção externa, o arranjo amplia a  
atuação paradiplomática, permitindo que go-  
vernos locais se tornem agentes diretos de ar-  
ticulação internacional. Esse processo respon-  
de a lacunas deixadas pelos Estados centrais,  
sobretudo diante de problemas globais que se  
manifestam em escala local, como mudanças  
climáticas, infraestrutura urbana deficiente e  
desigualdades socioeconômicas.  
No entanto, há uma diferença crucial en-  
tre a participação e a capacidade de decisão.  
Os relatórios e comunicados resultantes desses  
fóruns enfatizam recomendações, boas práticas  
e diretrizes, mas não criam obrigações formais  
aos países (Chatterjee, 2022; SA Cities, 2023).  
As cidades e governos locais, embora cada vez  
mais presentes no discurso e nas iniciativas prá-  
ticas, não dispõem de assento nas instâncias  
centrais de governança do BRICS+, como as  
cúpulas, os conselhos ministeriais ou o NDB  
(Vyas-Doorgapersad, 2022). Em outras pala-  
vras, trata-se de uma estratégia de descentrali-  
zação relativa, que confere visibilidade e espaço  
de articulação a atores subnacionais, mas não  
redistribui poder decisório efetivo.  
A associação também reforça a conexão  
entre paradiplomacia e financiamento inter-  
nacional. A possibilidade de acessar recursos  
do NDB representa um ganho material, bem  
como um reposicionamento político dos mu-  
nicípios como interlocutores legítimos nas are-  
nas financeiras multilaterais. A partir de orga-  
nização coletiva, as cidades do BRICS+ podem  
ampliar sua capacidade de negociação e reduzir  
a vulnerabilidade individual frente a requisitos  
burocráticos ou restrições impostas por estru-  
turas nacionais. Contudo, o fortalecimento  
dessa rede não elimina tensões. Persistem bar-  
reiras jurídicas e institucionais, como no caso  
brasileiro, em que a autorização do Senado  
Federal é condição para operações de crédito  
externo. Além disso, a governança do BRICS+  
permanece centrada nos Estados nacionais, o  
que limita a autonomia decisória das cidades  
e mantém a paradiplomacia em posição com-  
plementar, e não substitutiva ou contestatória,  
da diplomacia estatal. A associação, portanto,  
avança no reconhecimento do papel subnacio-  
Esse arranjo revela uma arquitetura de  
cooperação em camadas, na qual a centralida-  
de estatal convive com espaços de interlocução  
descentralizados. A nível discursivo, o BRICS+  
valoriza a multiplicidade de atores e promove  
encontros locais, mas a governança formal per-  
manece intergovernamental. Assim, o BRICS+  
pode ser compreendido como uma rede de coo-  
peração em que diferentes esferas — nacionais,  
técnicas e locais — interagem, mas com graus  
distintos de influência e capacidade de decisão.  
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nal, mas ainda carece de mecanismos que lhe  
assegurem influência efetiva nos processos de-  
cisórios do bloco. Isto não implica, entretanto,  
dependência das cidades em relação ao gover-  
no federal para estabelecer relações diretas com  
outros países, cidades, estados, regiões ou orga-  
nizações internacionais, em prol de parcerias,  
negociações e visibilidade externa.  
Neste contexto, estudos futuros devem  
replicar e averiguar os pressupostos aqui apre-  
sentados, tanto para testar a hipótese formu-  
lada quanto para explorar novas possibilidades  
analíticas. Por se tratar de um objeto recente e  
de um estudo com caráter prospectivo, é fun-  
damental que as próximas pesquisas examinem  
a trajetória da Associação de Cidades e Muni-  
cípios BRICS+, observando como os projetos  
financiados pelo NDB estão sendo negociados,  
alocados e implementados. Igualmente rele-  
vante será verificar se tais iniciativas respeitam  
as comunidades locais e os povos tradicionais  
envolvidos, e se os resultados obtidos corres-  
pondem a um desenvolvimento sustentável  
efetivo, ou se, ao contrário, reproduzem lógicas  
destrutivas e exploratórias próprias do capita-  
lismo global, apenas revestidas pelo discurso do  
progresso.  
Outro ponto a ser considerado é a diversi-  
dade de capacidades entre os municípios parti-  
cipantes. Sistemas federativos e centralizadores  
conferem margens distintas de autonomia às  
cidades, resultando em assimetrias dentro da  
própria associação. Essa heterogeneidade ten-  
de a gerar diferentes ritmos de engajamento e  
distintos graus de acesso aos recursos do NDB.  
Assim, a Associação de Cidades e Municípios  
BRICS+ pode ser compreendida como um  
mosaico de experiências locais articuladas por  
um denominador comum: a busca por interna-  
cionalização e financiamento para o desenvol-  
vimento sustentável.  
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em: 02 out. 2024.  
Enfim, a iniciativa representa um marco  
para a paradiplomacia no Sul Global, consoli-  
dando as cidades como protagonistas de agen-  
das internacionais. Ao mesmo tempo, evidencia  
os limites estruturais impostos por uma ordem  
internacional ainda predominantemente esta-  
tal. O desafio futuro será equilibrar essas duas  
dimensões: ampliar a capacidade de ação das  
cidades sem romper os mecanismos de coor-  
denação com os governos nacionais. O sucesso  
da associação dependerá da sua habilidade de  
traduzir cooperação em resultados concretos,  
seja em projetos de infraestrutura, em inova-  
ção tecnológica ou em políticas ambientais. Se  
conseguir tal feito, terá não apenas fortalecido  
a paradiplomacia, mas também contribuído  
para uma redefinição prática da própria gover-  
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