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ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.78 - 88, fev. 2025  
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Artigo  
BRICS+: As articulações intergoverna-  
mentais dos países semiperiféricos do  
sistema-mundo moderno  
BRICS+: Intergovernmental articulations by semiperipheral states in the modern world-system  
BRICS+: Articulaciones intergubernamentales de los países semiperiféricos en el sistema-  
-mundo moderno  
Charles Serra Tabarin1  
Claudete de Castro Silva Vitte2  
Gustavo Glodes Blum3  
Recebido em: 14 de outubro de 2024  
Aceito em: 21 de outubro de 2025  
RESUMO  
Recentes alterações na estrutura do Sistema Internacional vêm auxiliando a formação  
de novas articulações entre países. Neste artigo, avalia-se a emergência e expansão dos  
BRICS+ enquanto uma destas rearticulações, que permite aos países da semiperiferia do  
sistema-mundo moderno conjugar interesses em meio às mudanças econômicas globais.  
Palavras-chave: BRICS+, semiperiferia, articulação internacional.  
ABSTRACT  
Recent changes in the structure of the international system have been contributing to  
the formation of new connections between countries. is paper assesses the emergence  
and expansion of the BRICS+ as one such restructuring, enabling countries on the semi  
periphery of the modern world-system to combine interests amid global economic changes.  
Keywords: BRICS+, semiperiphery, international articulation.  
RESUMEN  
Los cambios recientes en la estructura del sistema internacional han contribuido a la  
formación de nuevas conexiones entre países. Este artículo evalúa el surgimiento y la  
expansión de los BRICS+ como una de estas reestructuraciones, que permiten a los países  
semiperiféricos del sistema-mundo moderno aunar intereses en un contexto de cambios  
económicos globales.  
Palabras clave: BRICS+, semiperifería, articulación internacional.  
1 Doutorando em Universidade Estadual de Campinas. Mestre em Geografia pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia do  
E-mail: c135330@dac.unicamp.br.  
2 Professora do Departamento de Geografia e do Programa de Pós Graduação em Geografia da Universidade Estadual de Campinas  
(Unicamp). Mestrado pela Fundação Getúlio Vargas (SP) e Doutorado em Geografia pelo Programa de Pós-Graduação em Geo-  
3 Bolsista do Programa Institucional de Pós-Doutorado (PIPD-CAPES) no Departamento de Geografia e no Programa de Pós-Graduação em  
Geografia do Instituto de Geociências da Unicamp. Doutor em Geografia pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Esta-  
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Enquanto persistem as desigualdades es-  
truturais advindas da divisão internacional do  
trabalho, há um reordenamento geoeconômi-  
co, que contempla um crescimento relativo de  
economias do Sul Global, maior protagonismo  
de nações emergentes nas negociações multi-  
laterais e tentativas de criação de instituições  
financeiras alternativas às da ordem instituída  
no pós-Segunda Guerra Mundial (Martins;  
Nonnenberg, 2025; Mota; Coelho, 2025).  
Dentre elas, destaca-se o aprofundamento da  
ligação entre países em desenvolvimento com  
grande participação na economia mundial, so-  
bretudo com relação aos países em desenvol-  
vimento que foram, a partir dos impactos da  
crise financeira de 2008, alçados a uma posi-  
ção relativa mais favorável na discussão sobre a  
economia mundial (Blank; Kim, 2015; Delga-  
do; Valera, 2022).  
1 INTRODUÇÃO  
A primeira metade da década de 2020  
viu emergirem dinâmicas importantes para a  
compreensão da reorganização do sistema in-  
ternacional. Somando-se aos impactos da pan-  
demia de COVID-19 em diferentes setores da  
política e da economia internacional (Qua-  
glia; Verdun, 2023; Rodríguez-Pose; Burlina,  
2021), apresenta-se um conjunto de diferentes  
desafios à organização neoliberal do sistema  
internacional que prevaleceu do fim dos anos  
1990 até o início dos anos 2000. Alguns teóri-  
cos vêm propondo, para a compreensão deste  
novo momento da organização do sistema in-  
ternacional uma perspectiva em que prevalece  
a crise de diversas formas de governança global  
(Helleiner, 2024).  
Dentre estas importantes modificações,  
encontra-se a alteração do eixo central de es-  
truturação da política e da economia inter-  
nacionais, um processo que não é originário  
apenas deste recorte temporal, mas que se viu  
acelerar ao longo dos últimos anos. A estrutura  
anterior, pautada na hegemonia estadunidense  
e a centralidade sistêmica dos Estados Unidos e  
seu eixo norte-atlântico de atuação geopolítica  
(Hurrell, 2005; Moniz Bandeira, 2017), vê-se  
atualmente enfraquecida em sua capacidade de  
ordenamento das relações internacionais. Ao  
mesmo tempo, emergem estruturas e arquite-  
turas que buscam se não se opor diretamente a  
estas arquiteturas neoliberais centradas na hege-  
monia americana, pelo menos criar alternativas  
lideradas por um outro Estado – a República  
Popular da China (RPC) – para o engajamento  
de países em desenvolvimento com a dinâmica  
econômica e política do sistema internacional  
(Carmody; Taylor; Zajontz, 2022; Gouvea;  
Kapelanis; Terra, 2021).  
É neste âmbito que se insere a discussão  
apresentada. Tomando a reorganização da polí-  
tica e da economia internacionais que vem mar-  
cando a última década no Sistema Internacional  
(Stuenkel, 2018), busca-se identificar de que  
forma a expansão do BRICS em direção a um  
agrupamento maior de países na forma de BRI-  
CS+ em 2024 pode ser compreendido enquanto  
um efeito da reorganização do sistema-mundo  
ao fim do primeiro quartel do século XXI.  
Para isso, inicialmente revisitou-se a teoria  
do sistema-mundo moderno, sobretudo a par-  
tir das contribuições de Immanuel Wallerstein  
(Wallerstein, 2004; 2005), Giovanni Arrighi e  
Beverly Silver (Silver; Arrighi, 2012). A articula-  
ção deste arcabouço teórico permite tentar com-  
preender o estado atual do sistema-mundo mo-  
derno em 2025, assim como compreender de  
que forma o BRICS e posteriormente o BRICS+  
emerge enquanto um mecanismo de reunião de  
interesses de países pertencentes à semiperiferia.  
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Posteriormente, buscou-se sistematizar os  
principais acontecimentos no entorno da for-  
mação desta articulação internacional, incluin-  
do os debates e as incongruências internas re-  
lativamente à expansão e integração de outros  
países. Estes elementos permitirão, na última  
parte, refletir a respeito do papel do bloco ex-  
pandido, o BRICS+, enquanto um mecanismo  
de contestação hegemônica ou enquanto uma  
alternativa às instituições centradas na hegemo-  
nia dos EUA e consolidadas no período anterior.  
A revisão teórica realizada, assim como os  
mia-mundo capitalista, sistema esse que não é o  
primeiro a nível mundial, porém o que melhor  
se estabeleceu e se enraizou a ponto de perdurar.  
De acordo com Wallerstein, o elemento central  
para o entendimento desse sistema é a divisão  
internacional do trabalho (Wallerstein, 2005).  
A divisão internacional do trabalho é cen-  
tral para compreender o funcionamento da  
economia-mundo atual e explica, na visão de  
Wallerstein (2005), as condições e contradições  
da atualidade dos países, visando a acumulação  
incessante de capital. Com essa dinâmica, há  
uma divisão básica em dois agrupamentos de  
processos produtivos (processo central e proces-  
so periférico), que guiam a economia dos países  
do globo, a grosso modo (Silver; Arrighi, 2012).  
Os processos produtivos centrais envol-  
vem produtos que utilizam tecnologia avan-  
çada, exigem mão de obra mais qualificada e  
geram altos lucros. Ou seja, variam do desen-  
volvimento de manufaturas das mais simples  
àquelas mais sofisticadas e intensivas em capi-  
tal, ligadas atualmente a tecnologias da infor-  
mação, robótica ou biotecnologia, por exemplo  
(Wallerstein, 2005). Apesar da denominação  
de processos centrais em um primeiro momen-  
to, é dito por Wallerstein que “os processos  
centrais tendem a agrupar-se em alguns poucos  
Estados e passam a constituir a maior parte das  
atividades produtivas desses Estados” (Wallers-  
tein, 2005, p. 47 – tradução nossa). Sendo as-  
sim, a esses Estados passa-se a denominar países  
centrais, que conseguem vender seus bens e ser-  
viços a preços relativamente mais altos no mer-  
cado mundial, agregando lucros sobre as outras  
nações (Wallerstein, 2005).  
dados econômicos reunidos permitiram con-  
siderar o BRICS e o BRICS+ enquanto uma  
semiperiferia no Sistema Internacional, ainda  
que conte com a presença de um país cada vez  
mais central para a economia global, que é a  
China. As discussões internas foram analisadas  
com base nas declarações conjuntas emitidas  
em encontros destes países no âmbito desta  
iniciativa, assim como por meio de uma aná-  
lise de conteúdo com relação a matérias jor-  
nalísticas e declarações na mídia. A discussão  
deste material reunido, à luz da revisão teórica  
relativa não apenas à teoria do sistema-mundo  
moderno, mas também com relação à ideia de  
hegemonia, é realizada ao final deste trabalho.  
2 A ANÁLISE DO SISTEMA-  
MUNDO NA COMPREENSÃO  
DO PAPEL DOS PAÍSES SEMI-  
PERIFÉRICOS  
Immanuel Wallerstein (2005) foi um dos  
principais proponentes da análise do sistema-  
-mundo, que busca compreender o mundo não  
a partir de Estados nacionais, ou seja, uma co-  
leção de unidades isoladas de países, mas sim  
enquanto um sistema social interligado. O  
sistema-mundo moderno perpassa pela econo-  
Já os processos produtivos periféricos são  
aqueles que envolvem produtos que utilizam  
tecnologia mais simples ou intensiva em mão de  
obra pouco qualificada e geram baixos lucros.  
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pressionados pelos estados fortes e pressio-  
Essa produção é caracterizada principalmente  
pela exploração de matérias-primas, de baixo  
valor agregado. Esses processos periféricos, por  
sua vez, espalham-se por um grande número de  
Estados, sendo esses processos considerados por  
Wallerstein (2005) verdadeiramente competiti-  
vos, enquanto os centrais são vistos como mo-  
nopólios. Aos países que recebem predominan-  
temente os processos periféricos, denominou-se  
países periféricos, sendo esses tipicamente extra-  
tores de matéria-prima ou produtores de bens  
de baixo valor agregado, que são forçados a ven-  
der seus bens e serviços a preços relativamente  
mais baixos (Wallerstein, 2005).  
nando os estados fracos, [têm como] sua  
maior preocupação (...) manter-se distantes  
da periferia e fazer o possível para ascender  
ao centro. Nenhuma das duas operações é  
simples, e ambas requerem uma considerável  
interferência estatal no mercado global (Wal-  
lerstein, 2005, p. 48 - tradução nossa).  
Esses Estados frequentemente utilizam-se  
de protecionismo para assegurar suas indústrias  
nascentes, sendo os próprios Estados semipe-  
riféricos concorrentes entre si (Wallerstein,  
2005).  
Sob a ótica da Análise do Sistema-Mundo  
e os conceitos de Centro, Periferia e Semiperi-  
feria, buscamos com esse artigo identificar de  
que forma o bloco intergovernamental BRI-  
CS+ pode ser compreendido enquanto um  
efeito da reorganização do sistema-mundo ao  
fim do primeiro quartel do século XXI. Par-  
timos da premissa que, dentro da conceitua-  
ção de Wallerstein (2005), o BRICS+ pode ser  
entendido como um agrupamento de países  
semiperiféricos, liderados por um país que se  
realoca no século XXI como central (Repúbli-  
ca Popular da China), apesar de contradições  
nesse papel e, por meio dessa articulação visam  
ascender no cenário internacional, afastando-se  
da condição de periféricos e almejando a posi-  
ção de centralidade.  
Essa dinâmica, central no capitalismo do sis-  
tema-mundo, garante as desigualdades existentes  
nesse sistema o que, na visão da teoria do sistema-  
-mundo moderno significa dizer que a riqueza e  
o excedente de valor (mais-valia) fluem constan-  
temente da Periferia para o Centro, garantindo a  
acumulação de capital nas áreas centrais (Silver;  
Arrighi, 2012). Dessa forma, sob a análise do  
sistema-mundo, pode-se inferir que há uma re-  
lação funcional e de exploração mútua, em que  
Centro só é Centro porque explora a Periferia, e a  
Periferia só existe como tal por ser explorada pelo  
Centro. Eles são interdependentes, mas de forma  
hierárquica (Wallerstein, 2004; 2005).  
Entretanto, dividir o mundo em apenas  
dois agrupamentos de países não contemplava a  
realidade, sendo utilizado assim o termo “semi-  
periférico” para definir aqueles que não se encai-  
xam perfeitamente na definição de central, nem  
na de periférico. Segundo Wallerstein (2005, p.  
47 - tradução nossa), “alguns Estados possuem  
uma mescla quase igual de produtos centrais e  
periféricos”. Neste sentido, de acordo com a teo-  
ria, não podemos falar em processos semiperifé-  
ricos, mas sim, “Estados semiperiféricos”. Para  
Wallerstein (2005), os países semiperiféricos,  
3 BRIC, BRICS E BRICS+:  
FORMAÇÃO E DEBATES A  
RESPEITO DA EXPANSÃO  
O termo BRIC foi criado em 2001 pelo  
economista-chefe do banco de investimentos  
Goldman Sachs, Jim O’Neill, “no qual fazia  
projeções de crescimento econômico para os  
mercados em rápido desenvolvimento de Bra-  
sil, Rússia, Índia e China” (udium, 2023,  
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opõem ou não endossam a intervenção impe-  
p. 78). Conforme destaca Oliver Stuenkel  
(2017), em seu relatório denominado Building  
Better Global Economic BRICs, O’Neill “procu-  
rou criar uma categoria na qual pudesse inserir  
os países de grande território e em rápido de-  
senvolvimento que ele considerou que seriam  
instrumentais para a atual transformação eco-  
nômica global” (Stuenkel, 2017, p. 15).  
rialista no Oriente Médio e pressionam pela  
reforma do sistema de cotas nos organismos  
financeiros internacionais; têm níveis de ren-  
da per capita que oscilam entre a franja infe-  
rior da semiperiferia e a periferia, e próximos  
a média da economia mundial; e são dotados  
de mercados internos com enorme potencial  
de expansão, grandes populações e forte vo-  
cação continental e regional (Martins, 2013,  
p. 129).  
Segundo udium (2023), a avaliação de  
O’Neill se baseava na ideia de que esses qua-  
tro países, com grande população, alta produ-  
tividade e ambição econômica, estavam cada  
vez mais preparados para se integrar à econo-  
mia global, impulsionando seu crescimento e  
atuando como os seus “tijolos” (bricks, em in-  
glês) de sustentação (udium, 2023, p. 78). À  
formação original, acrescentou-se a África do  
Sul no ano de 2011. Entretanto, houve ceti-  
cismo e questionamentos, já que o país “não  
compartilha das mesmas potencialidades que  
uniram os quatro BRICs iniciais” (udium,  
2023, p. 80).  
De acordo com udium (2023), os BRI-  
CS recorrem aos seguintes tópicos em suas de-  
clarações: necessidade de fortalecimento e refor-  
ma da ONU; aprimoramento dos mecanismos  
de integração regional com a cooperação entre  
países em desenvolvimento; e aplicação das  
normas e princípios de direitos internacionais  
para além da lógica eurocêntrica.  
De forma diferente do que os processos de  
integração regional que vigoraram nas décadas  
de 1990 e 2000, os BRICS não se configuram  
como um bloco de harmonização de práticas  
legislativas ou comerciais (Prazeres, 2023). In-  
clusive, desde o surgimento desta articulação  
foi difícil utilizar o termo “bloco” para este  
agrupamento, uma vez que ele não pretende ser  
uma estrutura monolítica que cria uma autori-  
dade supragovernamental que rege algum pro-  
cesso com um objetivo específico, para utilizar  
os exemplos da União Europeia e do Mercosul  
como parâmetro (Rowlands, 2012). Tanto que  
os BRICS não têm, diferentemente destas ou-  
tras experiências históricas, um tratado consti-  
tuinte, preferindo articulações em setores mais  
específicos que grandes acordos comerciais que  
poderiam atar as outras estratégias de política  
externa e comercial dos seus membros (Macías,  
2025).  
O BRICS surgiu como uma articulação  
no sistema internacional que busca espaço nas  
organizações internacionais dominadas pelo  
Norte Global, em especial os Estados Unidos.  
Carlos Eduardo Martins (2013) defende que  
os países que fazem parte dos BRICS possuem  
muitas convergências apesar de suas diferenças  
culturais e históricas. Para o autor,  
Os países que fazem parte dos BRICS, ape-  
sar de suas diferenças culturais e históricas,  
possuem identidades históricas e estruturais  
que facilitam sua aproximação e aliança no  
sistema mundial: sofreram em maior ou me-  
nor grau a intervenção do imperialismo esta-  
dunidense e das potências europeias na des-  
truição e reconfiguração de suas formações  
sociais; possuem alto nível de convergência  
nas votações da Organização das Nações Uni-  
das (ONU) [entre 1974 e 2008], exigem a  
ampliação do seu Conselho de Segurança, se  
Apesar das grandes diferenças existentes  
entre si, “os países do BRICS mostram capa-  
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cidade de articulação pragmática e conjunta,  
contribuindo na formulação de alternativas  
para os problemas do Sistema Internacional”  
(udium, 2023, p. 81). A agenda do BRICS  
defende um Sistema Internacional baseado na  
resolução de conflitos e no respeito ao direito  
internacional, entretanto, diante da invasão da  
Ucrânia, não houve grande contestação do BRI-  
CS em relação à Rússia. De acordo com o Palá-  
cio do Planalto (2024), “o diálogo entre os paí-  
ses se dá em três pilares principais: cooperação  
em política e segurança, cooperação financeira  
e econômica, e cooperação cultural e pessoal.  
Cerca de 150 reuniões são realizadas anualmen-  
te em torno desses pilares” (Planalto, 2024).  
O grupo BRICS representa uma mudança  
significativa no eixo econômico global, deslo-  
cando-se dos países ocidentais em direção ao  
Sul Global, com um foco particular na Ásia.  
Como destaca Stuenkel (2017),  
Joanesburgo, houve a incorporação de 6 novos  
membros ao grupo. A seleção dos novos países  
integrantes do BRICS não obedeceu à uma ló-  
gica que poderia ser denominada de “técnica”,  
sendo um acordo entre os integrantes do gru-  
po. De acordo com o analista político Fyodor  
Lukyanov (2023), a única condição para um  
convite seria “não participar de coalizões mili-  
tares e políticas ocidentais” (Lukyanov, 2023,  
n.p.).  
A inclusão de novos membros pode am-  
pliar o poder do grupo e sua influência inter-  
nacional. De acordo com Floriano Godinho de  
Oliveira (2023),  
Alguns dos maiores produtores de petróleo e  
investidores em novas matrizes energéticas es-  
tão, agora, associados ao Bloco. Isso fortalece  
em muito o poder de barganha dos países que  
o integram e evidencia o enfraquecimento do  
poder econômico do G7, que reúne os prin-  
cipais países do “Ocidente”. (Oliveira, 2023,  
p. 2).  
O grupo dos BRICs acabou, portanto, se tor-  
nando um nome conhecido não por ser um  
conceito novo, mas porque simbolizava, de  
forma poderosa, uma narrativa que nos anos  
1990 parecia distante, mas parecia fazer sen-  
tido no meio da década de 2000: uma imensa  
transferência de poder, dos Estados Unidos e  
da Europa, para potências emergentes como  
China, Índia e Brasil (Stuenkel, 2017, p. 21).  
Assim, em 2024, quatro novos países se  
uniram ao grupo: Egito, Emirados Árabes Uni-  
dos, Etiópia e Irã. A Argentina recusou o con-  
vite para participar devido à ascensão do gover-  
no de Javier Milei. Já a Arábia Saudita ainda  
avalia o convite para integrar o grupo (Reuters,  
2024). E em 2025, a Indonésia aderiu também  
ao grupo. Com essas novas adições, o grupo  
passou a ser frequentemente conhecido como  
BRICS+, e outros países demonstram interesse  
em se juntar à aliança.  
Com isso, percebe-se que as antigas potên-  
cias dominantes estão perdendo gradualmente  
seu protagonismo, dando espaço para que no-  
vas lideranças ganhem força. Isso se reflete no  
fato de que “a elite mundial responsável por  
tomar decisões está se tornando menos ociden-  
talizada, tem menos interesses em comum e é  
mais diversificada ideologicamente, o que cria a  
necessidade de compreender as perspectivas das  
potências emergentes” (Stuenkel, 2017, p. 12).  
Na 15ª Cúpula do BRICS em 2023, rea-  
Sobre as novas nações escolhidas, Aquino  
(2024) aponta que “é nítido, à primeira vista,  
a diversidade de contextos sociopolíticos desses  
Estados, bem como a existência de atritos bila-  
terais não alinhados entre eles” (Aquino, 2024,  
p. 20). Segundo a autora, há diferentes interes-  
ses na entrada desses países, como a busca de  
oportunidades financeiras, no caso dos países do  
lizada em uma das capitais da África do Sul,  
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Oriente Médio, ou a projeção internacional e a  
ampliação do poder de barganha no contexto  
global, para os países africanos (Aquino, 2024).  
Por fim, outra categoria criada para agre-  
gar países interessados em compor o BRICS+  
foi a de Países Parceiros, que participam de  
colaborações entre os membros, sem serem  
membros permanentes. Aderiram a essa con-  
figuração os seguintes países: Belarus, Bolívia,  
Cazaquistão, Cuba, Malásia, Nigéria, Tailân-  
dia, Uganda, Uzbequistão e Vietnã (BRICS,  
2025). A inclusão dos países parceiros reflete  
uma estratégia pragmática do BRICS para ex-  
pandir sua influência sem comprometer a coe-  
são interna do grupo principal.  
ser citadas os 72% das reservas mundiais de ter-  
ras raras, 43% da produção de petróleo, 36%  
da produção de gás natural e 78% da produção  
global de carvão mineral (BRICS, 2025).  
4 O BRICS+ E A BUSCA POR  
UMA NOVA ARQUITETURA  
FINANCEIRA GLOBAL  
A emergência do BRICS+ no cenário in-  
ternacional é encarada muitas vezes como uma  
afronta à hegemonia estadunidense, já que o  
grupo é formado por nações que por vezes con-  
testam o poderio hegemônico, gerando enfren-  
tamentos frequentes. Apesar disso, a reunião  
desses países, como ressaltado anteriormente,  
oficialmente visa a reforma das instituições  
criadas no pós-Segunda Guerra Mundial e do-  
minadas pelo Norte Global, buscando assim,  
maior espaço e protagonismo no cenário inter-  
nacional, já que são nações emergentes e com  
crescente relevância mundial (Macías, 2025).  
O bloco buscou, nos últimos anos, cons-  
Faz-se relevante assinalar o peso do BRI-  
CS+ quando analisamos seu peso econômico,  
populacional e de riquezas naturais. Observan-  
do o PIB nominal lastreado no dólar estadu-  
nidense, os países do BRICS+ somam 28,1%  
do PIB mundial, em 2023, ainda superado pela  
somatória do G7, encabeçado pelos EUA, com  
44,5% do PIB mundial. Entretanto, quando  
analisamos o PIB PPC, que nos traz variáveis  
sobre o poder de compra dessas economias,  
percebemos que os PIBs do BRICS+ (39,3%)  
já superam os do G7 (29,1%), demonstrando  
um maior poderio nesse quesito (World Bank,  
2025). Já quanto ao comércio internacional, o  
BRICS+ corresponde a 24% das trocas mun-  
diais (BRICS, 2025).  
truir uma estrutura internacional alternativa  
à dominada pelo Ocidente hegemônico, com  
instituições como o Novo Banco de Desenvol-  
vimento (NDB) ou New Development Bank  
(NDB)4, também conhecido como Banco do  
BRICS, além do Arranjo Contingente de Re-  
servas, além de visar a edificação de novas es-  
truturas financeiras, contornando a vigilância  
e tutela ocidental das instituições consolidadas  
em Bretton Woods (Batista Jr., 2016). Uma  
das maiores realizações do grupo foi a concre-  
tização do Novo Banco do Desenvolvimento,  
a primeira estrutura formal advinda do grupo.  
Quando comparamos área e população,  
que enriquecem o protagonismo de nações,  
entende-se que o BRICS+ supera fortemen-  
te o G7 em população (48,6% da população  
mundial vs. 9,6%) e, em área, tendo o BRICS+  
33,9% da área mundial, contra 19,4% (World  
Bank, 2025). Ademais, o BRICS+, quando  
unido, concentra importantes reservas de re-  
cursos naturais essenciais do planeta. Podem  
4 As duas versões de abreviaturas para o New Development  
Bank (NDB – em inglês - ou NBD – em português) apare-  
cerão nas citações, uma vez que cada autor opta por uma. A  
adotada pelos autores deste artigo foi a versão inglesa, con-  
forme usada originalmente pela instituição (NDB).  
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Com a resistência encontrada nos países de-  
senvolvidos pelo BRICS para reformas as insti-  
tuições financeiras, em termos de representativi-  
dade, o grupo estabeleceu a criação de um banco  
de desenvolvimento, de caráter global, “com o  
objetivo específico de financiar projetos nas áreas  
de infraestrutura e desenvolvimento sustentável”  
(Costa, 2023, p. 31). O banco tem como  
plaram setores como energia limpa, infraestru-  
tura de transporte, saneamento e inclusão digi-  
tal (NDB, 2023). Ainda segundo alguns dados  
do banco, serão construídas com seus projetos  
35 mil unidades habitacionais, 2.400 MW de  
capacidade de geração de energia renovável e  
limpa será instalada, além de 1.400 km infraes-  
trutura de túnel/canal de água a ser construída  
ou modernizada (NDB, 2025).  
propósito (…) financiar projetos a baixo custo  
financeiro –, [e] seu modelo de governança foi  
pensado de modo a privilegiar a distribuição  
igualitária do poder de voto e decisão entre  
os sócios-fundadores, sem que nenhum deles  
tivesse capacidade de veto sobre as matérias  
tratadas na instituição (Costa, 2023, p. 31).  
Vale destacar que muitos países que mani-  
festam interesse em se juntar ao BRICS buscam  
obter acesso às condições favoráveis oferecidas  
pelo NDB, especialmente aqueles que enfren-  
tam diversas instabilidades e restrições de cré-  
dito no sistema financeiro global. Essa expan-  
são também possui um objetivo geopolítico,  
funcionando como uma aliança de Estados  
que questionam a ordem internacional atual e  
trabalham para construir um contraponto à in-  
fluência dos Estados Unidos e da Europa.  
Além disso, a instituição incentiva o uso  
de moedas locais para reduzir a dependência  
do dólar estadunidense e os percalços dessa de-  
pendência para nações que se afastam da som-  
bra hegemônica. De acordo com o banco, “o  
NDB planeja se tornar um emissor regular tan-  
to em moedas fortes quanto nas moedas locais  
de seus países membros”, estabelecendo como  
elementos centrais para sua ação as “emissões  
estabelecidas nas condições de mercado, na de-  
manda dos investidores e nos requisitos de seu  
portfólio de empréstimos” (NDB, 2025, n.p.  
– tradução nossa). Dessa forma, percebe-se que  
a criação dessa instituição faz frente à ordem  
financeira estabelecida e liderada pelos Estados  
Unidos, trazendo novos caminhos que ladeiam  
a hegemonia estadunidense.  
Atualmente, são membros do banco, além  
dos 5 países fundadores do BRICS (Brasil, Rús-  
sia, Índia, China e África do Sul), Bangladesh,  
Emirados Árabes Unidos, Egito e Argélia, sendo  
o Uruguai, Uzbequistão e Colômbia classifica-  
dos como membro em potencial (NDB, 2025).  
Para Luigi e Pennaforte (2020), a criação  
do NDB pode ser vista como uma oportunida-  
de para as transformações no poder mundial,  
especialmente para a China e para a Rússia. De  
acordo com os autores,  
A criação de um possível competidor no ofe-  
recimento de recursos financeiros sob bases  
mais justas que as oferecidas pelo FMI e/ou  
Banco Mundial alteraria o tradicional centro  
de poder monetário configurado desde o fi-  
nal da II GM. Como consequência, o centro  
geopolítico de poder seria alterado, acentuan-  
do o declínio do tradicional núcleo do capi-  
talismo. A consolidação do NBD como uma  
alternativa real seria um ganho importante  
para a arquitetura geopolítica sino-russa de  
criação de outro polo geoeconômico. (Luigi;  
Pennaforte, 2020, p. 100)  
Até 2025, o Novo Banco de Desenvolvi-  
mento já havia autorizado mais de 120 pro-  
jetos, totalizando investimentos acima de 39  
bilhões de dólares. Os financiamentos contem-  
Foi criado ainda o Arranjo Contingente  
de Reservas (CRA), cujo objetivo é a criação  
de “uma plataforma de apoio, por intermédio  
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de instrumentos preventivo e de liquidez, em  
resposta a pressões de curto prazo, reais ou po-  
tenciais, sobre o balanço de pagamentos” (Pla-  
nalto, 2016). O Arranjo une capitais dos países  
membros do BRICS+ para apoiar uma possível  
crise em um dos membros, criando uma saída  
alternativa para essa nação.  
gamentos internacional substituto ao SWIFT  
(Society for Worldwide Interbank Financial Te-  
lecommunication), tradicional sistema de trans-  
ferências financeiras internacionais, altamente  
associado aos países do Ocidente. Essa substi-  
tuição visa assegurar que países que sofreram  
sanções internacionais do Ocidente, como o  
caso da Rússia, tenham uma possibilidade de  
realizar transferências e operações financeiras  
internacionais, sem bloqueios (Moniz Bandei-  
ra, 2017).  
Uma alternativa à ordem financeira hege-  
mônica ocidental é a desdolarização das transa-  
ções entre os membros do BRICS+. Paulo No-  
gueira Batista Júnior (2023) observa que, nos  
últimos anos, os Estados Unidos têm utilizado  
sua moeda de maneira cada vez mais agressiva  
para alcançar objetivos políticos e geopolíticos.  
Segundo ele, essa estratégia resultou na “milita-  
rização do dólar”, ou seja, no uso do dólar e do  
sistema financeiro ocidental como ferramentas  
para pressionar países considerados “hostis” aos  
EUA e seus aliados, como Venezuela, Rússia,  
Irã e outros. Esse uso intensivo do poder do dó-  
lar tem, segundo Batista Júnior, levado a uma  
perda de legitimidade do atual sistema mone-  
tário internacional, que tem o dólar como sua  
principal referência (Batista Jr., 2023).  
A expansão e consolidação do BRICS+ si-  
nalizam uma redistribuição gradual do poder  
no sistema internacional, refletindo o anseio de  
países semiperiféricos em ocupar um espaço de  
maior destaque nas decisões globais. Ao propor  
instrumentos financeiros alternativos e desafiar  
a hegemonia do dólar, o grupo insere-se num  
contexto de erosão da centralidade ocidental,  
com a pluralização de centros de poder. Entre-  
tanto, o BRICS+ convive com a contradição  
entre a busca por autonomia e espaço, enquan-  
to permanece como dependente da dinâmica  
global hegemonizada pelos Estados Unidos,  
refletindo uma contradição típica da semipe-  
riferia em disputa pela hierarquia global, mas  
sem um rompimento abrupto.  
O debate sobre a desdolarização ressalta  
também a discussão sobre a criação de uma  
moeda do BRICS+ em substituição à moeda  
estadunidense. Entretanto, a criação desse pro-  
jeto será difícil de executar, uma vez que envol-  
ve países de dimensões econômicas muito dife-  
rentes (Sapir, 2023). Além disso, ainda não está  
definido se a futura moeda do BRICS+ será  
utilizada exclusivamente para transações entre  
os membros do grupo — atuando como uma  
câmara de compensação para o comércio intra-  
bloco — ou se também servirá para gerenciar o  
comércio entre os países BRICS+ e o restante  
do mundo.  
5 BRICS+ COMO EXPRESSÃO  
DA SEMIPERIFERIA  
ESTRATÉGICA EM UM  
CONTEXTO DE TRANSIÇÃO  
HEGEMÔNICA  
O grupo BRICS+ por vezes é tratado sob  
o ponto de vista ocidental como um bloco de  
países que desafiam a hegemonia estaduniden-  
se, visando tomarem esse posto em futuro bre-  
ve. Entretanto, quando nos debruçamos sob  
outras perspectivas, como a da Análise do Sis-  
Por vezes, o debate que mais avança sobre  
o assunto é o da criação de um sistema de pa-  
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tema-Mundo, pode-se contemplar o BRICS+  
como uma articulação de países semiperiféricos  
que tenta desafiar a hierarquia da economia-  
-mundo capitalista, liderada atualmente pelos  
Estados Unidos, mas o fazem dentro das regras  
do próprio sistema, almejando espaço, visto  
seu peso mundial nos últimos anos.  
CS+ se articula como potência de relevância in-  
discutível, sendo colocada como contraponto  
aos Estados Unidos por diferentes visões.  
Assim, seguindo Arrighi (1996), temos um  
enfraquecimento relativo da hegemonia estadu-  
nidense e o deslocamento do dinamismo econô-  
mico para a Ásia, configurando uma nova sistê-  
mica de acumulação. Nesse contexto, a expansão  
do BRICS+ pode ser vista como a tentativa da  
semiperiferia de institucionalizar sua ascensão  
dentro de um sistema-mundo em transição.  
Ao criar mecanismos como o Novo Banco  
de Desenvolvimento, propor a desdolarização  
das transações comerciais entre seus membros  
ou articular um novo sistema de pagamentos in-  
ternacionais, o grupo não pretendeu dinamitar  
ou encerrar vínculos com o sistema financeiro  
protagonizado pelo Ocidente (Fundo Monetá-  
rio Internacional e Banco Mundial), mas sim  
criar alternativas às instituições dos países cen-  
trais (Batista Jr., 2016; Macías, 2025). Visto que  
alguns de seus membros sofreram com a exclu-  
são do sistema financeiro internacional ociden-  
talizado, por meio de sanções internacionais,  
como é o caso da Rússia, é possível considerar  
que atualmente esta demanda se torna cada vez  
mais relevante (Fiori, 2020; Maruf, 2023).  
Dessa forma, percebe-se que o BRICS+  
não se configura como um grupo que visa mu-  
danças abruptas e radicais da ordem global pro-  
tagonizada pelos Estados Unidos e Ocidente, ao  
vislumbrar-se suas ações dos últimos anos. En-  
tretanto, o grupo demonstra construir, com o  
tempo, uma estrutura alternativa especialmente  
no que diz respeito às instituições financeiras  
internacionais, tencionando garantir mais es-  
paço nesse aspecto e desprender-se de amarras  
criadas por essas instituições, que por vezes  
ameaçam a soberania e a autonomia de países  
semiperiféricos e periféricos com seu poderio.  
E ao se firmar a construção de uma nova  
configuração global nas relações centro, perife-  
ria e semiperiferia, na qual a República Popular  
da China, membro mais proeminente do BRI-  
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