128 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte,  
ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.128 - 143, fev. 2025  
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Artigo  
Notas sobre a trajetória dos BRICS: da  
agenda reformista para ator multipolar,  
a partir de um encontro científico1  
Notes on the BRICS’ Trajectory: From a Reformist Agenda to a Multipolar Actor, Based  
on an Academic Meeting  
Notas sobre la Trayectoria de los BRICS: De una Agenda Reformista a un Actor Multi-  
polar, Basado en un Encuentro Académico  
Giorgio Michalopoulos2  
Andrea Califano3  
Enviado em: 15 de novembro de 2024.  
Aceito em: 09 de abril de 2026.  
RESUMO  
Este artigo, baseado em um debate acadêmico sobre os BRICS na Universidade Federal  
da Bahia, analisa a trajetória dos BRICS, que sai de uma agenda reformista no sistema  
econômico global para uma força geopolítica na ordem multipolar. Inicialmente oposto à  
hegemonia dos EUA, o grupo adotou uma visão pragmática da globalização, reforçando a  
solidariedade Sul-Sul e estabelecendo-se como um contrapeso às potências tradicionais.  
Palavras-chave: Globalização; Multipolarismo; BRICS  
ABSTRACT  
is article, based on an academic debate about the BRICS held at the Federal University  
of Bahia, analyzes the BRICS trajectory, from a reformist agenda in the global economic  
system to a geopolitical force in the multipolar order. Initially opposing US hegemony,  
the group adopted a pragmatic approach to globalization, strengthening South-South  
solidarity and positioning itself as a counterbalance to traditional powers.  
Keywords: Globalization; Multipolarity; BRICS  
RESUMEN  
Este artículo, basado en un debate académico sobre los BRICS realizado en la  
Universidade Federal de Bahía, analiza la trayectoria de los BRICS, desde una agenda  
reformista en el sistema económico global hasta convertirse en una fuerza geopolítica en  
el orden multipolar. Inicialmente opuesto a la hegemonía de EE. UU., el grupo adoptó  
un enfoque pragmático hacia la globalización, fortaleciendo la solidaridad Sur-Sur y  
equilibrando a las potencias tradicionales.  
Palabras clave: Globalización; Multipolaridad; BRICS  
1 Another BRICS in the Wall: Novos muros de protecionismo ou uma força para um mundo multipolar?, realizado na Universidade  
Federal da Bahia em 23 de abril de 2024 e organizado pelos autores.  
2 Mestre em Economia Política pela Università degli Studi di Roma “La Sapienza” e doutorando em Economia pelo Centro de Desenvol-  
vimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Bolsista da Fundação de Amparo à  
3 Doutor em Economia e Ciências Sociais outorgado pelo IUSS Pavia conjuntamente à Scuola Superiore Sant’Anna Pisa. Professor  
visitante do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal da Bahia (PPGRI-UFBA). (andrea.  
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Se Oliver Stuenkel comenta: “As atuais  
divisões sobre o Irã são simplesmente o mais  
recente lembrete do que o BRICS realmente  
é: uma coalizão frouxa e muitas vezes bagun-  
çada de países que cooperam onde seus inte-  
resses se sobrepõem e discordam onde não se  
sobrepõem”6, achamos que vale a pena percor-  
rer a trajetória do grupo, mostrando como os  
complexos desafios econômicos e financeiros  
levaram a um afastamento do ímpeto de con-  
testação e profunda reforma da ordem interna-  
cional, num contexto em que as disputas geo-  
políticas globais pressionam crescentemente os  
países a se posicionarem entre blocos antagô-  
nicos.  
1 INTRODUÇÃO  
De acordo com o presidente dos Estados  
Unidos, “BRICS is dead”: os BRICS estão  
mortos, e isso desde fevereiro de 20254. Se na  
época a declaração, proferida poucos minutos  
antes de um encontro com o Primeiro-Minis-  
tro indiano Narendra Modi a jornalistas reuni-  
dos na Casa Branca, podia ser ignorada como  
mais uma das tiradas hiperbólicas e contradi-  
tórias de Donald Trump, talvez motivada pelo  
ressentimento pela adesão de aliados históricos  
dos Estados Unidos (Emirados Árabes Unidos  
e Arábia Saudita), agora, um ano depois, pa-  
rece mais uma provocação ao debate e à análi-  
se científica. Em 28 de fevereiro de 2026, tem  
início a campanha de bombardeios ao Irã por  
parte de Estados Unidos e Israel. A ausência de  
reação coordenada dos demais países do BRI-  
CS foi absoluta, nem mesmo um documento  
conjunto foi produzido. A Índia, na prática,  
apoiou o ataque – e o primeiro-ministro Modi  
havia levado a Israel, e pessoalmente ao pri-  
meiro-ministro Netanyahu, com tons e formas  
muito calorosos, toda a sua proximidade com o  
Estado de Israel apenas 48 horas antes do lan-  
çamento das bombas que decapitaram as lide-  
ranças políticas iranianas. A reação do Irã atin-  
giu, entre outros países, os dois novos membros  
do BRICS mencionados acima5, os quais estão,  
de fato, participando do ataque de um membro  
da aliança.  
Quinze anos após sua fundação, observa-  
mos como os BRICS passaram de um grupo  
contestatório ao capitalismo neoliberal lidera-  
do pelos EUA, com proposta de instituições  
alternativas, para um grupo pragmático que  
tenta utilizar as regras da globalização em seu  
favor, mantendo-se algum grau de coesão ape-  
nas na disputa geopolítica global em favor de  
uma ordem multilateral (Garcia, 2017). Nes-  
se processo, as pautas de reforma das grandes  
instituições financeiras globais foram gradual-  
mente cedendo espaço a uma agenda mais am-  
pla de reforma da governança global, alinhada  
ao novo contexto geopolítico. O que parece ser  
a agenda mais sólida do grupo hoje é a inten-  
ção multipolar, presente já desde suas origens,  
como sintetizado por uma frase proferida por  
Patrus Ananias, Ministro do Desenvolvimento  
Social e Combate à Fome no primeiro governo  
de Lula, em entrevista concedida a um dos au-  
tores. Referindo-se aos BRICS, ele afirmou que  
4 HINDUSTAN TIMES. ‘BRICS estão mortos’: o novo avi-  
so de Trump à Rússia, Índia, China, África do Sul e Brasil.  
C9eZinc. Acesso em: mar. 2026.  
5 A pertença da Arábia Saudita ao grupo é, na verdade, envolta  
em incerteza, considerando que os documentos oficiais do  
último encontro no Brasil a citam entre os membros, mas  
são os próprios sauditas que negam esse status. Podemos ver  
essa ambiguidade um tanto surreal como mais um sintoma  
policycenter.org/wp-content/uploads/2025/06/A_Arabia_  
Saudita_e_o_BRICS_Policy-Brief_V.15_N.4.pdf  
6 STUENKEL, Oliver. Iran War: NATO and the G-7 Are Just  
as Divided as BRICS. Foreign Policy, 18 mar. 2026. Dispo-  
-brics-nato-g7-economics-security/. Acesso em: mar. 2026.  
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o grupo “contribui para quebrar a hegemonia  
dos Estados Unidos, especialmente, mas tam-  
bém em sintonia com o que há de mais conser-  
vador na Europa.”7  
2 A TRAJETÓRIA DOS BRICS:  
DE GRUPO REFORMISTA PARA  
POTÊNCIA GEOPOLÍTICA  
Os BRICS inicialmente se apresentaram  
como um grupo de crítica global, demandando  
um lugar na ‘‘mesa internacional’’. As nações  
BRICS desde o primeiro momento engajaram-  
-se em uma ‘‘cooperação antagonista’’ (Garcia;  
Bond, 2015). O impulso central contra a força  
unipolar dos Estados Unidos e suas instituições  
internacionais levou os BRICS a representar  
uma nova força multipolar nas relações inter-  
nacionais, que vai além dos interesses econô-  
micos individuais de cada país. É por isso que,  
ao longo do tempo, o bloco assume cada vez  
mais uma configuração de força de contrapeso  
nas relações internacionais (Kakonen, 2014),  
distanciando-se da ideia original de um grupo  
reformista.  
Nas seções seguintes, analisamos a traje-  
tória do grupo, os diferentes olhares metodo-  
lógicos para interpretar sua virada geopolítica,  
o debate em torno da desdolarização e de uma  
eventual moeda BRICS, questão central para  
compreender os limites da autonomia finan-  
ceira do grupo; e os principais mecanismos fi-  
nanceiros criados pelo agrupamento: o Arranjo  
Contingente de Reservas e o Novo Banco de  
Desenvolvimento.  
Este artigo baseia-se no evento “Another  
BRICS in the Wall,” realizado na Universidade  
Federal da Bahia. Organizado pelos autores em  
colaboração com o Programa de Pós-Gradua-  
ção em Relações Internacionais da UFBA, o  
evento contou com a participação de Ana Elisa  
Saggioro Garcia (UFFRJ), Aline Regina Alves  
Martins (UFG), Jonnas Esmeraldo Marques  
de Vasconcelos (UFBA) e James K. Galbraith  
(University of Texas). O debate se articulou em  
torno de duas questões centrais que percorrem  
também este artigo: os BRICS representam  
uma força efetiva para uma ordem multipolar  
mais equitativa ou constituem apenas mais um  
bloco geopolítico guiado por interesses nacio-  
nais? E são capazes de atuar com coesão diante  
das profundas assimetrias entre seus membros?  
Como nota Robinson (2015), foi a ins-  
tituição financeira mais predatória do planeta8  
(Goldman Sachs) que cunhou o termo BRIC,  
e o fez para sugerir que investidores transnacio-  
nais encontrariam novas oportunidades nesses  
países — o que já deveria nos dizer algo sobre  
a relação entre os BRICS e o Capital Transna-  
cional e suas intenções de reformar as institui-  
ções financeiras (Robinson, 2015). Analisando  
as declarações conjuntas dos encontros dos  
BRICS de 2009 a 2023, torna-se claro como a  
questão da reforma das instituições globais de  
governança e economia se torna cada vez mais  
secundária, dando prioridade à cooperação en-  
tre as instituições dos BRICS e as instituições  
existentes (Tabela 1).  
7 MICHALOPOULOS, Giorgio. Povertà, Patrus Ananias, ex  
ministro del governo Lula: bugie e pregiudizi sugli ultimi, un  
errore abolire il reddito. Il Fatto Quotidiano, 25 set. 2023.  
articoli/2023/09/25/poverta-patrus-ananias-ex-ministro-  
-del-governo-lula-bugie-e-pregiudizi-sugli-ultimi-un-erro-  
re-abolire-il-reddito/7302762/. Acesso em: nov. 2025.  
8 Robinson (2015): “at it was perhaps the most predatory  
financial institution on the planet that coined the term BRIC,  
and did so in order to suggest that transnational investors would  
find new opportunities in these countries (…)”.  
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Tabela 1: evolução das pautas dos BRICS.  
Fonte: Elaboração dos autores a partir das Declarações Conjuntas dos encontros anuais dos BRICS mais recentes.  
As declarações conjuntas de 2009, em que  
os membros fundadores reforçavam o papel  
central do G20 no enfrentamento da crise fi-  
nanceira e se comprometiam a promover refor-  
mas nas instituições financeiras internacionais,  
agora pertencem a um passado distante. Em  
pouco tempo, o tom do BRICS sofreu trans-  
formações significativas. Ignorado no âmbito  
do FMI e de outras instituições internacionais,  
o bloco passou a promover suas próprias ini-  
ciativas, culminando na Cúpula de Fortaleza  
de 2014 com um posicionamento considera-  
velmente menos entusiasta em comparação  
ao primeiro encontro. A ênfase deslocou-se,  
então, para o fortalecimento da coordenação  
intra-BRICS em contextos internacionais e  
para a defesa das reformas propostas. Os re-  
presentantes do grupo declararam-se “decep-  
cionados” com a ausência de implementação  
das reformas do FMI. Este comunicado con-  
junto marcou o primeiro momento em que a  
ambição reformista do agrupamento deixou de  
ser um foco central. Diante da falta de respos-  
ta das instituições financeiras internacionais  
às propostas de reforma, os países do BRICS  
passaram a desenvolver instrumentos próprios  
de cooperação financeira, deslocando progres-  
sivamente o eixo de atuação dos mecanismos  
globais para a cooperação Sul-Sul. É nesse con-  
texto que, em 2014, foi oficialmente fundado  
o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD),  
uma instituição multilateral criada pelos países  
do BRICS com o objetivo de financiar projetos  
de infraestrutura e desenvolvimento sustentá-  
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vel nos países do Sul Global9, constituindo-se  
como uma alternativa às instituições financei-  
ras internacionais dominadas pelas potências  
ocidentais tradicionais.  
Nesta seção, utilizaremos os dois primeiros  
olhares para evidenciar como os interesses do-  
minantes no plano nacional tendem a preva-  
lecer nas relações entre os países membros dos  
BRICS e seus parceiros, revelando as comple-  
xas disputas internas que dificultam a constru-  
ção de uma cooperação econômico-financeira  
e empurram o agrupamento progressivamente  
Ao longo dos anos depois da Cúpula de  
Fortaleza, a agenda dos BRICS começa a ga-  
nhar autonomia por meio das instituições cria-  
das no âmbito do agrupamento, e o foco das  
declarações conjuntas passa a enfatizar cada vez  
mais a interação e a cooperação entre as insti-  
tuições dos BRICS e as internacionais. Mesmo  
o G20, inicialmente descrito nos comunicados  
como “central” na governança global, começa  
a perder relevância. Tanto é que, na Cúpula de  
Nova Délhi de 2021, em plena crise pandêmi-  
ca, no “Joint Statement” o termo G20 não foi  
mencionado uma única vez. Mostrando assim  
como os BRICS começam a estabelecer não  
apenas uma autonomia, mas também uma  
identidade geopolítica própria.  
para uma  
configuração de força geopolítica  
multipolar.  
A análise a partir do “olhar de cima” im-  
plica considerar os Estados-nação e suas respec-  
tivas corporações na disputa pelo poder. Nes-  
sa abordagem, os países membros dos BRICS  
buscam acumular capacidades econômicas,  
políticas e militares em relação às potências  
tradicionais (Garcia, 2024). Por exemplo, a Ín-  
dia, sob a liderança de Narendra Modi, tem se  
aproximado tanto da Rússia quanto dos Esta-  
dos Unidos, ao mesmo tempo em que man-  
tém tensões com a China. No Brasil, durante  
o governo de Jair Bolsonaro, houve uma apro-  
ximação com os Estados Unidos e um distan-  
ciamento em relação à China, evidenciando  
fissuras no bloco. No entanto, as relações co-  
merciais nunca foram questionadas, tanto que,  
em 2022, as trocas bilaterais entre o Brasil e  
a China atingiram um recorde histórico, su-  
perando os Estados Unidos (Gráfico 2). No  
entanto, o ano de 2023 marcou uma virada  
geopolítica significativa com a introdução do  
BRICS Plus, convidando seis novos membros  
a se juntarem ao grupo. A entrada de grandes  
produtores de petróleo tem o potencial de for-  
talecer o poder econômico do BRICS como  
conjunto. Nesse momento, o BRICS parece se  
tornar um polo de atração para países que não  
se identificam com os valores liberais ocidentais  
ou que enfrentam sanções e restrições do Oci-  
dente, como o Irã. A partir da perspectiva de  
2.1 Como os diferentes “olhares”  
sobre os BRICS evidenciam a virada  
geopolítica do grupo  
As relações entre os países membros dos  
BRICS são marcadas por assimetrias e disputas  
que tornam difícil a construção de uma coope-  
ração econômico-financeira.  
A metodologia dos três olhares proposta  
por Garcia (2024), ‘de cima’, ‘para os lados’ e  
‘bottom-up’, oferece chaves de interpretação  
sobre o passado e o futuro do agrupamento.  
9 O conceito de ‘Sul Global’ é utilizado aqui em consonância  
com a própria definição adotada pelo Novo Banco de De-  
senvolvimento (NBD), que em seu estatuto constitutivo se  
apresenta como um banco cujos membros fundadores são  
países do Sul Global, entendidos como economias emergen-  
tes e em desenvolvimento que buscam maior representativi-  
dade nas instituições financeiras internacionais. Ver Agree-  
ment on the New Development Bank — Fortaleza’, julho  
uploads/2022/11/Agreement-on-the-New-Development-  
-Bank.pdf. Acesso em: nov. 2024.  
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“olhar de cima”, conclui-se que os BRICS estão  
se afastando de uma agenda reformista para se  
consolidarem como uma aliança geopolítica,  
guiados por conveniências em direção ao agru-  
pamento dos Estados-nação (Garcia, 2024).  
A análise “para os lados” aborda as relações  
com a China, exportando principalmente ma-  
térias-primas como petróleo, carvão e minério,  
além de produtos agrícolas, como a soja no  
caso do Brasil. Em contrapartida, a Índia regis-  
tra um déficit comercial com a China, embora  
sua pauta de exportação seja um pouco mais  
diversificada. Focando na relação bilateral Chi-  
na-Brasil, é possível observar que a China supe-  
rou os Estados Unidos como principal parceiro  
comercial do Brasil ao longo dos 15 anos dos  
BRICS.  
intra-BRICS que se articulam em relações co-  
merciais, alianças, instituições comuns e ações  
conjuntas. Ao analisar as relações comerciais,  
é notável que a África do Sul, o Brasil e a Rús-  
sia apresentam uma balança comercial positiva  
Gráfico 1: Efeito BRICS: Comércio Bilateral Brasil-China (2009-2022),  
Fonte: elaboração dos autores a partir de estatísticas da OMC, 2023 (data.wto.org, acesso em: nov. 2024)  
Como dito, trata-se de uma troca desi-  
gual, em que o Brasil exporta de forma quase  
exclusiva matérias-primas e produtos agrícolas  
(Gráfico 2). De fato, embora os BRICS profes-  
sem uma suposta solidariedade econômica, as  
relações comerciais refletem uma dependência  
histórica do Brasil das exportações de maté-  
rias-primas e produtos agrícolas e da importa-  
ção de produtos tecnologicamente avançados  
da China. Isso pode constituir evidência de  
como o interesse chinês prevalece sobre uma  
lógica de solidariedade econômica que poderia  
e deveria incentivar também a transferência de  
tecnologia.  
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Gráfico 2: Decomposição das Exportações do Brasil para a China de 2021 a 2023,  
Acesso em: nov. 2024.  
Assim, as relações intra-BRICS acabam  
por reproduzir e reforçar uma tradicional divi-  
são internacional do trabalho. Essa divisão co-  
loca os países exportadores de matérias-primas  
em uma posição economicamente subalterna  
em relação à China, que, por sua vez, exporta  
produtos de maior valor agregado, destacando-  
-se como principal centro de poder econômico  
dentro do BRICS.  
3. PERSPECTIVA DE UM  
SISTEMA MONETÁRIO  
INTERNACIONAL  
DESDOLARIZADO E O  
POTENCIAL DO BRICS  
3.1 O pluralismo político na questão  
financeira e monetária ao estourar a  
crise de 2008  
A ausência de coordenação entre os países  
membros em instituições multilaterais, como  
na Organização Mundial do Comércio (OMC)  
destaca a conveniência dos BRICS em apresen-  
tar-se como uma força alternativa no sistema  
multipolar. As assimetrias econômicas entre  
os membros, evidenciadas, entre outras coisas,  
pelas relações comerciais analisadas, tornam a  
coordenação econômica Sul-Sul um objetivo de  
difícil concretização no curto prazo, reforçando  
a primazia da agenda geopolítica sobre a agenda  
de reforma econômico-financeira do grupo.  
O sistema financeiro dos Estados Unidos  
concentra praticamente todas as transações fi-  
nanceiras globais (Martins, 2015), mesmo quan-  
do o país não está diretamente envolvido como  
parte ativa. No sistema de Bretton Woods, es-  
tabelecido em 1944, e com a criação do FMI e  
do Banco Mundial em 1947, o dólar já ocupava  
uma posição central na economia global, ao lado  
do ouro, formando o chamado padrão dólar-  
-ouro. No entanto, em 1971, com o anúncio de  
Nixon sobre o fechamento do mercado de ouro  
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e o fim da conversibilidade do dólar em ouro,  
iniciou-se a transição para o fim desse sistema.  
A partir de então, o ouro perdeu seu papel cen-  
tral, e o dólar consolidou-se como a principal  
moeda internacional, marcando o início do que  
se convencionou chamar de padrão dólar-dólar  
(Martins, 2015). Ao adentrar na era que Eichen-  
green denomina como o “não-sistema” de Bret-  
ton Woods (Eichengreen, 2002), observa-se uma  
evolução do sistema financeiro global caracteriza-  
da por “remendos marginais” e uma progressiva  
desregulamentação (Amato, Fantacci, 2009).  
Neste contexto, a crise de 2008 emerge  
Ao mesmo tempo, a China começou a im-  
plementar políticas mais assertivas para a inter-  
nacionalização de sua moeda, o que permite um  
maior uso do renminbi (RMB) nas transações  
internacionais. Embora algumas dessas iniciati-  
vas já existissem anteriormente, foi após a crise  
de 2008 que tais ações se tornaram significati-  
vamente mais incisivas. Nos anos seguintes, a  
China criou o Sistema de Pagamentos Inter-  
bancário Transcontinental (CIPS), que viabiliza  
a realização de pagamentos internacionais em  
RMB. Também o Novo Banco de Desenvolvi-  
mento (NBD) se insere nesse contexto de cres-  
cente crítica à centralidade do dólar nas relações  
internacionais após a crise de 2008. Embora a  
reforma do FMI tenha aumentado marginal-  
mente o poder de voto do Brasil e da China de  
2% para 3%, essa mudança não afetou a posi-  
ção dominante dos Estados Unidos. No FMI,  
o peso de voto de cada país é calculado com  
base em uma fórmula específica, na qual 50%  
desse peso é determinado pelo PIB. Contudo,  
o dólar continua a ser a moeda predominante  
nas transações internacionais e o crescimento  
de moedas alternativas, como a chamada moeda  
BRICS, no comércio e nas transações interna-  
cionais, ainda se revela um desafio considerável.  
como um marco significativo, não apenas pela  
sua magnitude, mas também por intensificar de  
maneira mais evidente as críticas ao papel central  
do dólar na economia global. Embora críticas ao  
sistema monetário já existissem anteriormente,  
também antes da criação do sistema de Bretton  
Woods e em outras conjunturas, a crise de 2008  
representa um ponto crucial para o ressurgimen-  
to e a intensificação desse debate nas relações  
internacionais. A crise teve origem nos Estados  
Unidos e, em virtude da centralidade da arqui-  
tetura monetária e financeira americana, rapi-  
damente se transformou em uma crise de escala  
global. Este contexto desencadeou um debate  
político acerca do papel central de uma moeda  
sob o controle de um único Estado e a possibi-  
lidade de uma reforma do sistema monetário e  
financeiro internacional. É nesse contexto que os  
países do então BRIC buscavam imprimir uma  
dimensão reformista à sua missão, com o objeti-  
vo de desafiar a hegemonia do sistema monetário  
internacional dominado pelo dólar. A ênfase nes-  
se aspecto é evidente na primeira declaração con-  
junta de Ecaterimburgo: “Estamos comprome-  
tidos em avançar com a reforma das instituições  
financeiras internacionais, de forma a refletir as  
mudanças na economia global” (Bric, 2009, p. 1)  
3.2 As sanções à Rússia e a  
chamada à desdolarização.  
Desde 1950, os Estados Unidos têm sido os  
principais emissores de sanções ao redor do mun-  
do10. Atualmente, um terço11 das sanções ativas  
globalmente é de origem americana. A eficácia  
10 Veja também: Trading with the Enemy Act - TWEA  
(1917); USA Patriot Act (2001)  
11 Os EUA têm sanções sobre um terço de todos os países,  
60% das nações pobres. Matéria do Washington Post:  
ve/2024/us-sanction-countries-work/. cesso em: nov. 2024  
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com que os EUA aplicam essas sanções é susten-  
tada por sua influência econômica global e pela  
centralidade do dólar no sistema financeiro inter-  
nacional. Essa dinâmica permite que os Estados  
Unidos exerçam uma pressão significativa sobre  
outros países e entidades que desrespeitam suas  
políticas ou interesses estratégicos (Martins, Coe-  
lho, 2023; Califano, Vieira, 2025). Em 2022,  
as sanções contra a Rússia se intensificaram em  
decorrência da guerra na Ucrânia, resultando no  
congelamento de 50% das reservas russas. Como  
observa Galbraith: “Esses saldos, congelados ou  
não, são apenas saldos. São reservas. Sua perda  
se refletiria nos balanços, mas não na atividade  
corrente. Enquanto a Rússia mantiver um supe-  
rávit comercial, as reservas permanecem inativas;  
seu status não tem efeito na atividade econômica  
geral na Rússia, nem na capacidade financeira do  
Estado russo” (Galbraith, 2023, p.2). E é por isso  
que ganham mais força as sanções que penalizam  
o comércio da Rússia e suas transações em dóla-  
res com países terceiros.  
lações com a Rússia. Em maio de 2023, Lula  
declarou que “o sonho dos BRICS é ter uma  
moeda, assim como a União Europeia fez”13. Ele  
expressou frustração com o fato que “apenas um  
país tem controle sobre a impressão de dólares  
e faz o que quiser”. Essa declaração intensificou  
o debate internacional sobre a desdolarização,  
especialmente com a China desempenhando  
um papel crucial nesse movimento por meio de  
acordos bilaterais e outros instrumentos finan-  
ceiros e monetários. Em 23 de outubro de 2024,  
durante a 16ª Cúpula do BRICS, realizada em  
Kazan, na Rússia, Lula retomou enfaticamente  
a questão da criação de uma moeda BRICS.  
3.3 Uma moeda para os BRICS?  
O BRICS está, de fato, explorando a  
possibilidade de uma moeda única para tran-  
sações entre bancos centrais, um movimento  
que pode trazer diversas implicações. Um dos  
principais benefícios dessa iniciativa seria a  
redução da dependência do dólar americano,  
permitindo que os países membros realizem  
transações diretas em suas moedas locais. Isso  
poderia facilitar investimentos e empréstimos  
sem a necessidade da intermediação do dólar,  
potencialmente diminuindo custos de transa-  
ção e aumentando a eficiência. Entretanto, essa  
proposta enfrenta desafios significativos. Um  
deles é a resistência de instituições financeiras  
já consolidadas que operam majoritariamente  
em dólar. Como mostra o Gráfico 1, a ascensão  
da moeda chinesa no cenário internacional é  
significativa, mas ainda minoritária em relação  
à magnitude do uso do dólar.  
Mais recentemente, em dezembro de  
2025, a União Europeia avançou uma propos-  
ta para utilizar os ativos soberanos russos con-  
gelados no mercado europeu para financiar a  
reconstrução da Ucrânia, com 90 bilhões de  
euros12. Desta forma, as sanções evidenciam  
que a moeda pode ser utilizada como um ins-  
trumento de política e coerção.  
Nesse cenário de sanções rigorosas contra  
a Rússia e as consequências que se espalham  
para outros países, a perspectiva de uma maior  
desdolarização da economia começou a ganhar  
destaque especialmente e com ainda maior for-  
ça entre os países que continuam a manter re-  
13 CNN BRASIL. Lula diz sonhar com moeda comum para o  
BRICS e volta criticar dependência do dólar. Disponível em:  
lula-diz-sonhar-com-moeda-comum-para-o-brics-e-volta-  
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137 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.128 - 143, fev. 2025  
Gráfico 1: Composição da Moeda das Reservas Oficiais de Câmbio Estrangeiro (COEFR) nos  
últimos 15 anos  
Fonte: Elaboração dos autores com dados do Fundo Monetário Internacional.  
Ainda não estão claras as modalidades  
operacionais para a tão proclamada moeda dos  
BRICS. Contudo, a ascensão de novas moedas  
pode sinalizar uma reconfiguração do poder  
global, mas a transição para um sistema mais  
multipolar deve ser tratada com cautela, con-  
siderando os riscos associados à instabilida-  
de econômica e à falta de confiança entre os  
países. Os BRICS parecem estar sinalizando a  
emergência de um sistema multi-monetário.  
Embora o dólar continue a ser a moeda predo-  
minante, ele poderá compartilhar esse espaço  
com diversas moedas regionais. Mas o cami-  
nho ainda é longo e todas as questões técnicas  
exigem reflexão e planejamento que ainda não  
começaram (Nogueira Batista Jr., 2023).  
4 OS MECANISMOS  
FINANCEIROS DOS BRICS: O  
ARRANJO CONTINGENTE DE  
RESERVAS E O NOVO BANCO  
DE DESENVOLVIMENTO  
Os BRICS estabeleceram um fundo vir-  
tual com um montante total de 100 bilhões de  
dólares, o Arranjo de Contingente de Reservas  
(CRA). Os países membros se comprometem a  
alocar uma parte de suas reservas internacionais  
para auxiliar qualquer um dos membros que  
enfrente uma crise no balanço de pagamen-  
tos ou uma crise de liquidez em suas contas  
externas. Como mostram os dados do Banco  
Central do Brasil14, a África do Sul se compro-  
meteu com 5 bilhões de dólares, o Brasil com  
18 bilhões, a China com 41 bilhões, e tanto  
a Índia quanto a Rússia com 18 bilhões, cada  
um podendo retirar um montante equivalente  
138 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.128 - 143, fev. 2025  
às reservas alocadas no fundo, exceto a África  
do Sul, que possui a possibilidade de sacar até  
o dobro do valor inicialmente depositado. O  
fundo é considerado virtual, uma vez que os  
recursos não estão imediatamente disponíveis,  
permanecendo sob o controle das autoridades  
dos respectivos países. Quando um país ne-  
cessita desse suporte, pode acionar o fundo. A  
lógica subjacente a esse arranjo visa aumentar  
a disponibilidade de recursos para os países  
membros.  
caso da Grécia, onde a “Troika” (composta pelo  
BCE, FMI e Comissão Europeia) impôs severas  
reformas após a crise da dívida soberana, com  
consequências econômicas graves até hoje15. A  
vinculação ao FMI se basearia em razões tanto  
técnicas quanto políticas. O argumento técni-  
co aponta que os países do BRICS carecem da  
capacidade necessária para monitorar o desem-  
penho macroeconômico dos países que tomam  
empréstimos, assegurando que estes honrem  
eventualmente o compromisso de devolução  
dos recursos emprestados. Essa dificuldade téc-  
nica decorre da ausência de um centro de in-  
teligência e supervisão macroeconômica com-  
partilhada entre os países do BRICS, o que é  
essencial para a gestão adequada dos recursos  
pelo país mutuário. O segundo argumento é de  
natureza política. Considerando que o BRICS  
funciona como um mecanismo de cooperação  
geopolítica, a disciplina de um país que recebeu  
recursos pode acarretar implicações geopolíti-  
cas significativas. Assim, a delegação ao FMI da  
função de monitoramento e disciplina macroe-  
conômica revela-se, na prática, uma solução  
estratégica para contornar essas dificuldades  
(Wuderermann, 2018; Carvalho et.al, 2015).  
Destaca-se também a questão da escassez  
Dadas essas premissas, havia uma expec-  
tativa de que o Arranjo de Contingente de  
Reservas (ACR) pudesse se estabelecer como  
um mecanismo alternativo robusto, dadas as  
dimensões das economias representadas pelos  
BRICS, com potencial para oferecer uma ver-  
dadeira alternativa ao Fundo Monetário Inter-  
nacional (FMI). No entanto, essa proposta tem  
se revelado bastante limitada. Consideramos  
aqui algumas das razões principais para essa  
limitação. Em primeiro lugar, o CRA comple-  
menta - de uma forma subordinada - o sistema  
global de proteção financeira ao lado de insti-  
tuições multilaterais regionais e internacionais  
como o FMI (Carvalho et al, 2015). Ironica-  
mente, os países membros receberão o apoio  
em dólares e, para acessar 100% dos recursos,  
precisarão manter ativo um programa de apoio  
financeiro pelo FMI sujeito às suas condicio-  
nantes. Para que um país tenha pleno acesso  
ao montante acordado, é necessário que este-  
ja vinculado a um programa de assistência do  
FMI; na ausência dessa condição, o país pode  
retirar até 30% do valor de sua cota (“parcela  
desvinculada”). Obviamente, para acessar os re-  
cursos do FMI, os países geralmente precisam  
implementar reformas e políticas de austerida-  
de. Até países do norte global foram impacta-  
dos severamente por essas medidas, como no  
de recursos. Ao comparar os recursos disponí-  
veis no ACR com aqueles do FMI, observa-se  
que o ACR possui uma quantidade significati-  
vamente inferior de recursos. A principal preo-  
cupação é que o CRA seja ineficaz em casos de  
grandes pressões de balanço de pagamentos, já  
que os recursos disponibilizados parecem insu-  
ficientes (Wuderermann, 2018). O exemplo da  
crise grega de 2010 demonstra que é incerto  
15 Fala-se de maneira abrangente no livro de James K. Gal-  
braith “Welcome to the Poisoned Chalice. e Destruc-  
tion of Greece and the Future of Europe”, Yale University  
Press, 2016  
139 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.128 - 143, fev. 2025  
que o CRA possa funcionar como amortecedor  
adicional, uma vez que o FMI, por exemplo,  
ofereceu à UE mais de 30 bilhões de dólares.  
Comparativamente, os limites do CRA difi-  
cilmente teriam impacto significativo para um  
país BRICS, em situação de crise semelhante.  
Existem também questões de ordem ins-  
aprovados. O primeiro aspecto notável é que  
o NDB foi criado sem um sócio majoritário.  
Os sócios fundadores têm equiparação do po-  
der de voto perante a instituição e existe uma  
dinâmica de revezamento na presidência. Além  
disso, o NBD tem um caráter inovador ao ser  
um banco voltado para apoiar projetos de in-  
fraestrutura e desenvolvimento sustentável.  
Então, o Novo Banco de Desenvolvimen-  
to (NBD) se diferencia do Banco Mundial  
por ter um foco mais delimitado. Enquanto o  
Banco Mundial financia uma ampla variedade  
de projetos em diversas áreas, o NBD tem um  
foco específico em prover recursos para finan-  
ciamento de infraestrutura e desenvolvimento  
sustentável nos países emergentes do Sul Glo-  
bal. Na sua constituição16, o NBD se apresen-  
ta como um banco “Sul-Sul”, cuja governança  
é composta por países do Sul Global. Ele se  
propõe a ser verde desde o estatuto constitu-  
tivo, colocando a sustentabilidade e o desen-  
volvimento sustentável como pilares centrais  
da instituição. Além disso, o NBD busca não  
ser intervencionista politicamente, diferente-  
mente de críticas históricas feitas ao papel de  
outras instituições econômicas. Contudo, ob-  
serva-se uma discrepância entre o número de  
projetos aprovados e os recursos efetivamente  
desembolsados. Embora mais de 13917 projetos  
tenham sido aprovados, o ritmo de desembolso  
tem ficado aquém das metas oficiais estabeleci-  
das pela própria instituição.  
titucional. No acordo firmado entre os países,  
um membro que se comprometeu a disponi-  
bilizar um determinado montante pode optar  
por não o providenciar sem enfrentar sanções  
significativas ou consequências severas. Essa di-  
nâmica torna o mecanismo de cooperação ex-  
tremamente frágil na prática e dependente de  
considerações geopolíticas (Vasconcelos, Gar-  
cia, 2023). Mais que isso, outro fator crucial é  
o risco de replicar situações de predominância  
de um país sobre os outros, elemento que os  
BRICS sempre criticaram nas instituições glo-  
bais dominadas pelos Estados Unidos, mas que  
também se apresenta no CRA. A China com-  
prometeu-se com quase metade dos recursos do  
CRA, possui de longe o maior poder de voto e  
é capaz de exercer uma influência significativa  
nas decisões operacionais, como a aprovação  
de pedidos. Seu poder de voto torna-se ainda  
mais relevante, uma vez que o país requerente  
é excluído da votação (Wuderermann, 2018).  
De qualquer maneira geral, o ACR foi criado,  
está ativo e passou por testes operacionais desde  
2016, mas nunca foi efetivamente utilizado.  
Pensando no Novo Banco de Desenvolvi-  
mento (NBD), observa-se que, quando com-  
parado ao Arranjo de Contingente de Reservas,  
ele já apresenta uma história de atividades mais  
robustas. Iniciou suas operações formalmente  
em 2014 e realizou suas primeiras operações de  
crédito em 2016, quando já possuía uma car-  
teira de investimentos anunciada na ordem de  
32 bilhões de dólares, com mais de 90 projetos  
Ao analisar a trajetória histórica, espe-  
cialmente nos anos de 2020 e 2021, o banco  
tem superado as metas estabelecidas. No en-  
tanto, durante esse período, o banco direcio-  
16 Veja “Agreement on the New Development Bank – For-  
uploads/2022/11/Agreement-on-the-New-Development-  
-Bank.pdf  
140 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.128 - 143, fev. 2025  
nou os recursos não para projetos de infraes-  
trutura, mas para iniciativas de emergência  
em resposta à pandemia de Covid-19. Em-  
bora isso tenha gerado um aumento direto e  
imediato nos desembolsos, não esteve neces-  
sariamente vinculado aos projetos tradicio-  
nais do banco, e esse padrão ainda persiste.  
Comparando o desempenho do Banco dos  
BRICS com o do Banco Asiático de Investi-  
mentos em Infraestrutura (AIIB), que é lide-  
rado pela China, observa-se uma quantidade  
de desembolsos maior pelo AIIB ( Vasconce-  
los, Garcia, 2023)  
como mostrado pelo Gráfico 3. Embora o Bra-  
sil detenha aproximadamente um quinto da  
participação total no banco, seus investimen-  
tos não representam sequer 10% do montante  
global da instituição. Ao longo do tempo, a  
região asiática, especialmente a Índia e a Chi-  
na, absorveu mais de 50% dos investimentos  
do NDB. Apenas nos últimos dois anos houve  
um aumento significativo nos recursos aloca-  
dos ao Brasil, muitos dos quais foram desti-  
nados a desembolsos relacionados à Covid-19.  
Essa distribuição evidencia uma presença limi-  
tada do banco em outras regiões do mundo,  
como a América do Sul e a América Latina, e  
especificamente no Brasil, onde a instituição  
ainda é amplamente desconhecida.  
A concentração histórica do portfólio  
de investimentos do banco na região asiática  
evidencia uma assimetria entre os membros,  
Gráfico 3: Investimentos do NDB por país no ano de 2022  
Fonte: elaboração baseada em dados extraídos por Jonnas Esmeraldo Marques de Vasconcelos, New Development Bank, Annual  
Report 2022  
141 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.128 - 143, fev. 2025  
Como visto na seção 2.1, a maior parte  
das exportações de países como o Brasil em di-  
reção à China é composta por matérias-primas,  
exacerbando a natureza historicamente expor-  
t-led dessas economias. Investimentos estru-  
turais e industriais seriam, portanto, urgentes  
para promover uma diversificação econômica.  
O círculo se fecha, porém, de forma problemá-  
tica: os investimentos do NBD são distribuídos  
de maneira assimétrica, concentrando-se majo-  
ritariamente nos países asiáticos  
como, quinze anos após sua fundação, os BRI-  
CS passaram de um grupo contestatório ao ca-  
pitalismo neoliberal liderado pelos EUA, com  
proposta de instituições alternativas, para um  
grupo fundamentalmente alinhado e pragmá-  
tico em relação à globalização, mas coeso em  
interesses geopolíticos. O que parece restar dos  
BRICS hoje é a intenção multipolar. No arti-  
go, traçamos também elementos que parecem  
indicar que as mesmas criticidades econômicas  
que os BRICS se propuseram reformar desde  
o início são tendencialmente replicadas nas re-  
lações comerciais e financeiras entre os países  
membros e dentro das próprias instituições.  
Países como o Brasil continuam dependentes  
das exportações de matérias-primas, tanto em  
relação à China quanto aos demais parceiros  
comerciais tradicionais, e os financiamentos  
do NBD para um desenvolvimento industrial  
mais robusto permanecem inferiores ao neces-  
sário e distribuídos de forma assimétrica.  
5 CONCLUSÕES  
O fim da guerra fria e o colapso da União  
Soviética, ao invés de trazer uma era de paz e  
prosperidade para o mundo, devido a unipo-  
laridade baseada nos Estados Unidos, resultou  
em uma radicalização do modo de produção  
global, no sentido de uma globalização cada  
vez mais selvagem. Isso, por sua vez, agravou  
a violência do confronto internacional entre  
capitais, criando, continuamente, vencedores  
e perdedores, com os vencedores liquidando e  
engolindo os perdedores. Essa dinâmica do ca-  
pital fez com que as forças da centralização pro-  
duzissem um confronto mais duro: desta vez,  
os Estados Unidos estão liderando, também,  
por meio da Organização do Tratado Atlântico  
do Norte (OTAN), uma nova forma de glo-  
balização (Brancaccio, Califano, 2023). Um  
feitiço que vai perder o seu trato global para  
se relacionar de acordo com alianças geopolí-  
ticas, até chegar ao ponto que países da União  
Europeia e outros estão sendo obrigados a virar  
as costas para a Rússia e China, caso queiram  
manter seu assento no bloco liderado pelos Es-  
tados Unidos.  
Isso indica que há, sem dúvida, uma con-  
veniência e um interesse no agrupamento, mas  
a reforma das dinâmicas econômicas e finan-  
ceiras permanece distante. O pragmatismo do  
grupo deslocou progressivamente a atenção  
para temas de governança global no contexto  
do multilateralismo, em detrimento de uma  
transformação estrutural das relações econômi-  
cas entre seus membros.  
O curto-circuito dos BRICS é justamen-  
te este: como demonstram os acontecimentos  
mencionados na introdução, desafiar a gover-  
nança global sem enfrentar a transformação  
estrutural das relações econômicas pode reve-  
lar-se uma ilusão. Um verdadeiro – e necessário  
– questionamento da (des)ordem internacional  
só poderá emergir do enfrentamento dos gran-  
des desequilíbrios que se desenvolveram duran-  
te os anos de abertura desenfreada dos merca-  
Dado esse contexto, enfrentado também  
pelos BRICS, não é surpreendente constatar  
142 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.128 - 143, fev. 2025  
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