89 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte,  
ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.89 - 116, fev. 2025  
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Artigo  
A construção da narrativa do Brics:  
logros na mudança da ordem mundial  
e building of the BRICS narrative: achievements in changing the world order  
La configuración de la narrativa de los BRICS: logros en el cambio del orden mundial  
Marina Bolfarine Caixeta1  
José Paulo Silva Ferreira2  
Mayara Christina de Carvalho3  
Recebido em: 30 de abril de 2025  
Aceito em: 27 de outubro de 2025  
RESUMO  
Este artigo investiga como o Brics tem construído sua narrativa contra-hegemônica e suas  
propostas de mudança na ordem mundial. A pergunta central é: como o Brics constrói  
sua narrativa ao longo de quinze anos, visando à transformação da governança global? O  
objetivo é analisar, por meio de método de análise de conteúdo, o conteúdo das declarações  
oficiais das cúpulas do bloco entre 2009 e 2023, buscando entender a consolidação de uma  
identidade comum e de propostas alternativas ao sistema internacional predominante. A  
hipótese é a de que o Brics opera uma narrativa coesa e simbólica, articulando interesses do  
Sul global e questionando a ordem vigente. Os dados foram coletados de quinze declarações  
oficiais, e a análise destacou categorias como desenvolvimento, cooperação e comércio,  
revelando uma atuação mais simbólica em direção à uma nova ordem mundial. O estudo  
explica a evolução das narrativas do grupo e suas implicações na política internacional.  
Palavras-chave: Brics, Sul global, narrativas.  
ABSTRACT  
is article investigates how the BRICS has constructed its counter-hegemonic narrative and  
its proposals for change in the world order. e central question is: how has BRICS built its  
narrative over fifteen years, aiming at the transformation of global governance? e objective  
is to analyze, through content analysis methodology, the content of the bloc’s official summit  
declarations between 2009 and 2023, seeking to understand the consolidation of a common  
identity and alternative proposals to the prevailing international system. e hypothesis  
is that BRICS operates a cohesive and symbolic narrative, articulating the interests of the  
Global South and questioning the existing order. Data were collected from fifteen official  
declarations, and the analysis highlighted categories such as development, cooperation, and  
1 Doutora em Ciências Sociais pelo Departamento de Estudos Latino-americanos da Universidade de Brasília (UnB),  
pesquisadora da área da cooperação internacional para o desenvolvimento e profissional com experiência em gestão de  
projetos de Cooperação Sul-Sul no Brasil; no presente, realiza estágio pós-doutoral na Universidade Federal da Integra-  
ção Latino-Americana (UNILA). E-mail: marinabolfarinecaixeta@gmail.com.  
2Doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), mestre em Ciência Política e bacharel em Re-  
lações Internacionais pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Bolsista CAPES. E-mail: josepaulosilvaferreira@gmail.com.  
3 Mestra em Ciência Política pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e jornalista. E-mail: mayaracomy@gmail.com.  
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trade, revealing a more symbolic stance toward a new world order. e study explains the  
evolution of the group’s narratives and their implications for international politics.  
Keywords: BRICS, Global South, narratives.  
RESUMEN  
Este artículo investiga cómo el BRICS ha construido su narrativa contrahegemónica y sus  
propuestas de cambio en el orden mundial. La pregunta central es: ¿cómo el BRICS construye su  
narrativa a lo largo de quince años, con miras a la transformación de la gobernanza global? El  
objetivo es analizar, mediante un método de análisis de contenido, el contenido de las declaraciones  
oficiales de las cumbres del bloque entre 2009 y 2023, buscando comprender la consolidación  
de una identidad común y de propuestas alternativas al sistema internacional predominante.  
La hipótesis sostiene que el BRICS opera una narrativa cohesionada y simbólica, articulando  
intereses del Sur Global y cuestionando el orden vigente. Los datos fueron recopilados de quince  
declaraciones oficiales, y el análisis destacó categorías como desarrollo, cooperación y comercio,  
revelando una actuación más simbólica orientada hacia un nuevo orden mundial. El estudio  
explica la evolución de las narrativas del grupo y sus implicaciones en la política internacional.  
Palabras clave: BRICS, Sur Global, narrativas.  
governança global e suas instituições, na pro-  
posta de iniciativas contra-hegemônicas - como  
o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) - e  
na expansão de seus membros agregando po-  
der econômico e representatividade política em  
meio ao Sul global.  
1 INTRODUÇÃO  
Entre reforma e transformação da ordem  
mundial, o Brics se destaca tanto na literatura  
especializada quanto na prática política das re-  
lações internacionais, como uma das principais  
e mais notórias iniciativas do Sul global. Apesar  
do bloco reunir alguns países emergentes que se  
destacam em meio aos países ditos “em desen-  
volvimento”, observa-se no início deste século  
uma ascensão de todos aqueles dominados e até  
então silenciados – “the rise of the rest” (Zakaria,  
2008). Essa nova arquitetura de poder global  
vai além dos aspectos econômicos e militares  
na discussão geopolítica e abrange também as  
diferentes perspectivas sobre o mundo e pro-  
postas para a governança global.  
Essa configuração, no entanto, levanta  
questões que vão além da mera identificação de  
interesses: até que ponto o Brics representa e  
defende as demandas de um Sul global emer-  
gente ainda heterogêneo? E, ao mesmo tempo,  
em que medida ele se alinha às propostas do  
G77+China e se compromete com as causas dos  
demais países do Sul global? Diversos estudos  
têm direcionado seus esforços para compreen-  
der o potencial do Brics de contrabalançar a or-  
dem vigente e de contribuir para a construção  
de uma nova ordem mundial (Autores, 2024).  
Paralelamente, investiga-se a medida em que o  
Brics pode instrumentalizar a política externa  
de atores mais poderosos, como a China (Giac-  
caglia et al., 2022).  
Essas disputas vão além da tradicional for-  
ma de exercício de poder e alcançam uma di-  
mensão mais sutil e que se consolida ao longo  
do tempo: as narrativas. Após 15 anos de ins-  
titucionalização do bloco, notamos uma iden-  
tidade que o Brics tem assumido nas relações  
internacionais contemporâneas. Essa identida-  
de se assenta na demanda por uma reforma da  
Para Abdenur e Folly (2015) há uma la-  
cuna entre a construção de uma narrativa dis-  
ruptiva, de um lado, e as iniciativas propostas  
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e resultados alcançados, de outro. Isso é algo  
que oferece risco, pois ajuda a promover inte-  
resses ocultos dos países-membros, esvaziando  
o sentido da ação coletiva e perdendo a missão  
como bloco político de países. Embora reco-  
nheçam que se trate de uma iniciativa anti-he-  
gemônica, porquanto almeja um sistema mul-  
tipolar. Não se configura como uma ruptura  
sistêmica ao visar à expansão de sua influência  
no mundo em vez de substituição das insti-  
tuições tradicionais e estruturantes da ordem  
internacional - algo evidente nas declarações  
de cúpula.  
aguardam ações mais ousadas, impactantes e  
anti-imperialistas e reúne atores da sociedade  
civil articulados no Fórum Acadêmico de inte-  
lectuais, sindicatos e ONGs (os torcedores dos  
Brics); (c) os apoiadores do Brics em função  
de seus negócios e da manutenção da velha or-  
dem mundial capitalista (os pro-West); e (d) os  
apoiadores do Brics em função das redes de so-  
lidariedade e de defesa dos interesses públicos  
- composto por ativistas de base local e atuação  
global (os BRICS desde baixo).  
Assim, uma das características mais mar-  
cantes da ascensão do Brics na presente ordem  
mundial é a construção dessas narrativas con-  
testatórias. Ela parte de uma missão contra-  
-hegemônica, assumida pelos países do bloco  
(imediatamente) e, de forma mediata, por  
aqueles pertencentes ao Sul global. Essa últi-  
ma, manifesta-se, sobretudo, na promoção da  
justiça social prevista no relatório da Comis-  
são do Sul de 1990 e figura entre os ideais e  
princípios pactuados desde a Conferência de  
Bandung em 19554.  
Contudo, a forte atuação política do Brics  
tem sido reconhecida, sobretudo, pela sua na-  
tureza ideológica. Por um lado, o Brics promo-  
ve formas de cooperação no eixo Sul-Sul para o  
desenvolvimento e retomada das narrativas do  
direito ao desenvolvimento e da Nova Ordem  
Econômica Internacional (NOEI). Por outro  
lado, o bloco lida com o desafio de reunir dife-  
rentes posições e preocupações na concertação  
global quanto às diferentes agendas e eventos  
políticos, quase sempre irreconciliáveis, mas  
unidos em torno de reivindicações comuns,  
identificadas com essa identidade e projeto do  
Sul global.  
Incontestável tem sido a ideia de que essa  
ascensão de Brasil, Rússia, Índia, China e África  
do Sul - que agora se expande para Egito, Etió-  
pia, Irã, Arábia Saudita e os Emirados Árabes  
Unidos - é a evidência da transição hegemônica  
em curso. Observa-se uma desocidentalização  
do mundo, promovida pelo eixo sino-russo,  
rumo a outro mundo mais plural e multipolar,  
permeado de ideologias dissidentes e em busca  
Para Bond e Garcia (2014), pode-se enu-  
merar dez posturas ideológicas que explicam  
a imagem do Brics no atual cenário político  
internacional. Condicionadas aos distintos  
“lugares de fala e atuação”, elas podem ser  
agrupadas em torno de quatro posições: (a) a  
de um Brics anti-imperialista, subimperialista  
e, mesmo, interimperialista (os Brics de alto  
escalão) que se diz respeito aos chefes de Es-  
tado e seus aliados das elites corporativas dos  
países; (b) aos favoráveis ao Brics (os “pró-Bri-  
cs”), que esperam sua missão de desafiar as  
injustiças globais, e aos críticos e céticos que  
4 Na dimensão nacional, o Relatório da Comissão do  
Sul intitulado “e Challenge of the South” defende um  
desenvolvimento centrado nas pessoas e autossuficien-  
te que reconhece que a justiça social [e uma parte in-  
tegral e genuína da busca pelo desenvolvimento (South  
Commission, 1990, p.80); Prashad (2012, p.10) elege a  
justiça como um dos três temas centrais (junto à paz e  
pão-pobreza) como prioritários na enunciação dessa voz  
do Sul global.  
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da equidade no interior e exterior das nações -  
ao menos discursivamente.  
presença, inclusive, tem contribuído para con-  
figurar uma nova ordem na comunicação, as-  
sentada na construção dessas narrativas - “Fra-  
ming a new global communication order would  
also entail reconfiguring discourses on strategic  
communication, including soft power” (ussu e  
Nordenstreng, 2021, p.9).  
Assim, a mudança das instituições, nor-  
mas, interesses, ideologias, e culturas, comple-  
menta-se com a mudança na ordem retórica,  
reforçando a importante contribuição do Brics  
ao longo desse período na veiculação de infor-  
mações, visões e ideias  
De fato, uma disputa por sentidos e inter-  
pretações é algo que não se pode negligenciar  
na política. Nesse sentido, este artigo discute a  
seguinte questão: Como o Brics tem construí-  
do sua narrativa ao longo desses quinze anos  
visando à transformação da ordem mundial?  
Por meio da revisão da literatura e da análise de  
conteúdo das declarações das cúpulas anuais,  
lançamos como hipóteses dessa pesquisa, que:  
o Brics tem operado na ordem discursiva mun-  
dial por meio da construção de uma narrativa  
coesa alinhada ao projeto e identidade do Sul  
global. Como pressuposto, assentamo-nos na  
ideia de que há uma reforma da ordem global  
em curso, promovida, dentre outros atores,  
pelo Brics.  
e BRICS nations pose a challenge by pro-  
viding a complementary, if not a counter  
narrative, especially in the context of inter-  
national development. […] e framing of  
a new global communication order would  
also entail reconfiguring discourses on  
communication and media systems in rela-  
tion to international political and economic  
structures and dynamics (ussu; Nordens-  
treng, 2021, p.8).  
As narrativas veiculadas nas declarações  
oficiais do Brics parecem ter mais projeção na  
mídia global do que as iniciativas, instituições  
e normas propostas pelo bloco. A despeito da  
relativa pouca visibilidade do Brics na mídia  
brasileira em comparação com a atenção dada  
a certas agendas e políticas dos países membros  
(Santos; Cazzamatta, 20245, é importante re-  
conhecer que o agrupamento tem estado muito  
presente na mídia internacional, sobretudo as-  
sociado às mudanças geopolíticas globais. Essa  
A pesquisa se instrumentaliza pelo méto-  
do da análise do conteúdo e pela técnica siste-  
mática (ou automática) de exploração do corpus  
- as quinze declarações oficiais, produzidas após  
a realização das cúpulas de chefes de Estado e  
de governo do bloco. A partir de uma análise  
do conjunto de textos, a pesquisa propõe al-  
gumas categorias relevantes ao demonstrar a  
constituição de uma narrativa coesa e que ope-  
ra simbolicamente na construção de uma outra  
ordem mundial.  
5 “A partir de uma análise de conteúdo quantitativa  
e longitudinal (2011-2019), examinamos 1.451 ma-  
térias publicadas pelos jornais O Estado de S. Paulo e  
O Globo. A imprensa brasileira discute, principalmen-  
te, potências globais, países em crise, estados vizinhos  
e os principais parceiros comerciais do Brasil. A China  
(5.1%) é o país dos BRICS com mais visibilidade, prova-  
velmente devido ao seu poderio geopolítico e fortes laços  
econômicos com o Brasil. Questões relacionadas à Rús-  
sia (4.1%), especialmente aquelas envolvendo segurança  
e justiça, também recebem um foco considerável. Temas  
envolvendo a Índia (1%) e a África do Sul (0.8%) rece-  
bem significativamente menos atenção midiática. O pró-  
prio bloco BRICS exibe uma visibilidade relativamente  
baixa, o que pode dificultar o seu reconhecimento entre  
o público brasileiro.” (Santos; Cazzamatta, 2024, p.1).  
Na primeira parte analisamos o Brics  
como ator que opera por meio da construção  
de narrativas por meio das quais contesta a or-  
dem mundial vigente, assentado no Sul global,  
uma identidade e projeto na política interna-  
cional. Trata-se de uma perspectiva crítica e  
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construtivista que entende o Brics como um  
bloco contra-hegemônico que, portanto, busca  
atuar para uma transformação gradual das ins-  
tituições do sistema internacional. Na segunda  
parte, apresentamos como a visão e proposta  
do bloco sobre a ordem mundial nova e alter-  
nativa está formalmente expresso nas declara-  
ções oficiais. Na terceira, explicamos como as  
posições do bloco em relação a distintos temas  
e agendas da governança global compõem essa  
narrativa construída para disputar poder com o  
Norte global, identificando as posições comuns  
alcançadas pelo bloco diante das divergências  
em busca de verificar como a heterogeneidade  
do Brics impacta seu potencial transformativo  
da política internacional. A partir daí se torna  
mais visível que a maior contribuição do Brics  
tem sido mais simbólica do que material, ca-  
minha lenta e continuamente para essa nova  
ordem mundial, de caráter mais reformador e  
menos disruptivo.  
compartilhados”. Sabendo que a estrutura e  
a agência são mutuamente constitutivas e co-  
-determinadas, as narrativas enunciadas pelos  
agentes se tornam um mecanismo por meio  
do qual os atores interagem e permitem que as  
ideias e identidades sejam compartilhadas en-  
tre eles. Dessa forma, a mudança estrutural é  
resultado da contínua definição e revisão dos  
agentes de quem eles são (em relação uns aos  
outros) e ao que pretendem ser.  
Sabe-se que as reivindicações por voz e  
poder são parte do Sul global desde seu apare-  
cimento nas relações internacionais. Assim, o  
Brics constitui-se em meio à geopolítica pós-  
-colonial com um caráter anti-imperialista,  
conforme Wallerstein (2014),  
Na esteira do declínio pós-hegemônico do  
poder, prestígio e da autoridade estaduni-  
denses, o mundo parece ter se organizado  
em uma estrutura geopolítica multipolar.  
Na atual situação, com oito, dez e doze sig-  
nificantes potências políticas, os BRICS  
são, definitivamente, parte do novo cenário.  
Mediante seus esforços para forjar novas es-  
truturas no cenário mundial, tal como a es-  
trutura intrabancária, sentar-se lado a lado e  
substituir o Fundo Monetário Internacional  
(FMI), certamente estão enfraquecendo ain-  
da mais o poder dos Estados Unidos em ou-  
tros segmentos do antigo Norte em favor do  
Sul ou, pelo menos, dos próprios BRICS. Se  
a definição de anti-imperialismo é a redução  
do poder dos Estados Unidos, então o BRI-  
CS certamente representa uma força anti-im-  
perialista (Wallerstein, 2014, p.485-486).  
2 O BRICS E A CONSTRUÇÃO  
DE NARRATIVAS  
CONTESTATÓRIAS  
A elaboração e veiculação de narrativas  
têm sido um importante instrumento de dis-  
puta e afirmação de poder, sob iniciativa tanto  
de atores privados quanto públicos. As narra-  
tivas servem muito bem ao exercício de poder.  
Por isso, estão em constantes disputas e fazem  
parte do processo de instituição e consolidação  
de determinados posicionamentos e visões de  
mundo, pois moldam tanto as atividades das  
organizações quanto o comportamento dos su-  
jeitos.  
A despeito de não ser possível apontar um  
ponto de inflexão nesta transição promovida  
pelo Brics, há uma construção de narrativa em  
marcha que não pode ser desprezada. Da Con-  
ferência Afro-Asiática de Bandung de 1955 em  
diante, observa-se uma identidade coletiva para  
a constituição de um mundo mais justo, equili-  
brado e satisfatório para todos.  
Conforme explica Wendt (2014, p.127),  
“Instituições são feitas de normas e regras, que  
são fenômenos ideológicos - “modelos mentais  
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ned unities of the past or in the divine realm.  
Others are merely defensive, seeking to sur-  
vive in the present. And yet others find the  
present intolerable, and nudge us into the  
future. (Prashad, 2012, p.18)  
2.1 O Sul global: um projeto e uma  
identidade do Sul global para o  
BRICS  
Os problemas enfrentados pelas nações  
mais pobres e a falta de representatividade  
nas instituições intergovernamentais – desta-  
que para o Conselho de Segurança das Nações  
Unidas (CSNU) – somam-se à demanda por  
reparação histórica. Essa combinação reflete a  
consequente capacidade dos países do Sul de  
resolver os problemas sociais - algo inerente à  
emergência dos novos países no sistema inter-  
nacional, criado pelo sistema colonial europeu.  
Assim, o Brics parece querer assumir o legado  
do então Terceiro Mundo e do atual Sul global  
por meio de um projeto coletivo para afirmar-  
-se e vencer os desafios que lhe são inerentes.  
Nesse sentido, interessa o que estabelece a Co-  
missão do Sul (1990) sobre os desafios enfren-  
tados pelo Sul e, recentemente, o Congresso de  
Havana que retoma a ideia de NOEI - Nova  
Ordem Econômica Internacional6.  
Lembrando que esse projeto é eminente-  
mente político, já que a solução para os pro-  
blemas enfrentados pelo Sul não é de natureza  
técnica ou cultural. Os problemas sociais das  
desigualdades (no plural) se veem dentro e en-  
tre os países e estão relacionados à prosperida-  
de, propriedade e ao poder, algo que precisa ser  
revisado por esse projeto. Tendo isso em vista,  
o Sul global é um lugar de grandes disputas e  
conflitos, o que requer diferentes táticas e estra-  
tégias projetadas - algo ainda inacabado, para  
Prashad (2012), e que perfaz a missão do Brics.  
Segundo esse autor, o bloco tem algumas limi-  
tações, a saber: (1) as políticas domésticas dos  
países membros parecem praticar uma espécie  
de “neoliberalismo com características do Sul”,  
com a venda de commodities e baixa remu-  
neração do trabalho, em benefício do Norte;  
(2) a aliança ainda não foi capaz de criar uma  
fundação institucional com uma autoridade, a  
despeito da demanda por mais democracia na  
ONU, BM e FMI – o que talvez esteja emer-  
gindo no cenário mais recente (após 2014) com  
o NBD; (3) a formação do bloco não endossou  
uma alternativa ideológica para o neoliberalis-  
mo; e (4) o projeto do Brics não tem habilida-  
de para desafiar o domínio militar dos Estados  
Unidos e da OTAN.  
Prashad (2012) explica a proposta do Sul  
global como projeto, a multiplicidade colocada  
a serviço de objetivos comuns que sirva para  
protestar contra o status quo e criar um mundo  
melhor.  
e global South is this: a world of protest,  
a whirlwind of creative activity. ese pro-  
tests have produced an opening that has no  
easily definable political direction. Some of  
them turn backwards, taking refuge in imagi-  
Além de um projeto político coletivo, o Sul  
global deve ser entendido como uma identidade  
na política internacional. Essa identidade enseja  
a necessária cooperação e solidariedade entre po-  
vos e países em vista da superação de um sistema  
desigual em vários aspectos (econômicos, sociais  
e políticos). Por isso, se torna uma oportunidade  
6 A Declaração Final de Havana convoca todos a reno-  
var o Movimento dos Países Não-Alinhados, a renovação  
da NOEI para o novo contexto do século XXI, a afir-  
mar o poder do Sul global mediante criação de novas e  
alternativas instituições, buscar inspiração na revolução  
cubana para pensar a transformação ampla do sistema  
internacional, e a construção de um bloco planetário  
com pessoas e nações de forma a cultivar a solidariedade.  
so em: 24 nov. 2025.  
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de se distinguir para se afirmar (Caixeta e Mene-  
zes, 2021). Brun (2022) fala de uma inversão de  
rótulos, já que esse Sul deixa de ser uma fraqueza  
e se torna uma força política para a veiculação de  
certas reivindicações, ideias e narrativas.  
2.2 As narrativas: uma mudança de  
dentro do sistema internacional  
Por um lado, o Sul global nos convoca a as-  
sumir a perspectiva oferecida pela Teoria Crítica,  
em que a contra-hegemônia e reformismo ins-  
trumentalizam as análises - o que, também, nos  
faz pensar o mundo de outra forma. Por outro  
lado, a atuação desse Sul nos remete ao construti-  
vismo, cujas formas de interação do bloco e seus  
membros com o sistema internacional também se  
manifesta na construção de sentidos e significa-  
dos para os eventos internacionais. Ambos, entre-  
tanto, apontam para a importância das narrativas  
para o Brics, principalmente veiculadas nas decla-  
rações oficiais como meio de disputa de poder e  
reivindicação por uma governança global demo-  
crática em uma ordem mundial multilateral.  
De fato, tanto as iniciativas propostas  
O Sul global como possibilidade de uma  
nova perspectiva para as Relações Internacio-  
nais (Tickner e Smith, 2021) é, também, o que  
Prashad (2012) ressaltou como sendo o poten-  
cial criativo do projeto do Sul global. E o que  
Cox (1981) propõe como sendo o papel da teo-  
ria crítica - que é aquela que se compromete  
com a mudança do curso da história e dedica-  
-se a entender a complexidade política e social  
dos eventos, os pensando de outro modo. Ele  
deve fazer emergir e coexistir as múltiplas for-  
mas de vida (vozes e histórias) que estiveram  
escondidas por trás do projeto universalizante  
europeu/ocidental. Neste artigo, entendemos o  
Brics como um evento político que permite a  
construção de significados intersubjetivamente  
compartilhados na prática (política) social alte-  
rando a agência e as estruturas com forte apelo  
para as narrativas veiculadas e sua influência na  
opinião pública global (via mídia).  
quanto as narrativas enunciadas pelo Brics ex-  
plicitam descontentamentos contra a ordem  
vigente, questionamentos sobre a baixa repre-  
sentatividade da maioria dos países do mun-  
do nas organizações internacionais, e reivin-  
dicações por um sistema mais justo contra o  
acirramento da diferença entre os privilegiados  
e os prejudicados com as normas de institui-  
ções financeiras e comerciais internacionais - a  
OMC, o FMI e o BM. Bezerra e Bueno (2022)  
explicam, através da Teoria Crítica, que os paí-  
ses se unem contra algumas (e não todas) das  
estruturas presentes no sistema internacional.  
Por fim, baseamo-nos em Alden et al.  
(2010), para quem, no atual contexto, não se  
trata de questionar a inefetividade das institui-  
ções e iniciativas do Sul, mas reconhecer que as  
transformações em curso assumem tanto uma  
dimensão ideacional como material. A concre-  
tização das aspirações do bloco deveria ser averi-  
guada pela associação entre a identidade coleti-  
va do Sul e seus resultados concretos em termos  
político-econômicos. Uma leitura predomi-  
nantemente materialista do Sul como um ator  
concreto torna-se difícil sem a devida referência  
à sua dimensão ideológica ou simbólica, e sem  
o reconhecimento do que essa ordem significa  
para a formação da opinião pública global.  
BRICS countries united their agendas against  
some (not all) structures present in the interna-  
tional system with which they disagree. As emer-  
ging countries, they started a dual movement:  
contesting outdated hierarchies and established  
structures of world politics while presenting  
an alternative view that stands for change; and  
building new forms of cooperation, including  
the creation of a new international organization.  
(Bezerra; Bueno, 2022, p.332).  
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Dessa forma, torna-se possível discutir a  
postura contra-hegemônica do bloco, tanto  
na sua dimensão material quanto ideacional e  
simbólica, tal qual sugere Cox (1981)7. Afinal,  
além dos recursos materiais e das instituições,  
as ideias formam parte da tríade de categorias  
que conformam as estruturas hegemônicas no  
meio internacional. A desconstrução dos dis-  
cursos teóricos e das práticas sociais na base  
da reprodução do status quo em benefício dos  
privilegiados é uma das formas que Bezerra e  
Bueno (2022) enquadram o marco teórico  
crítico na análise do comportamento do Bri-  
cs. O agrupamento também propõe alternati-  
vas emancipatórias à ordem dominante - por  
exemplo, o Novo Banco de Desenvolvimento.  
Por meio do construtivismo social, inves-  
tigamos como o discurso é parte de uma or-  
dem social em que se disputa poder. Giddens  
(2013) sugere que há propriedades estruturais  
que governam os sistemas sociais (e políticos)  
que são compostas por esquemas interpretati-  
vos, elementos normativos e poder presentes  
nas práticas sociais. O que Giddens (2013) de-  
nominou como “estruturação” são as condições  
que governam a continuidade ou transmutação  
de estruturas. Ou seja, há uma instância inter-  
mediária que possibilita a interação entre os  
agentes, em suas práticas sociais, em uma de-  
terminada estrutura, formada por regras e re-  
cursos.  
interações dos agentes, a saber: a significação,  
ou seja, os processos de construção de significa-  
dos coletivos ou intersubjetivamente comparti-  
lhados; a dominação, tendo por base o acesso  
aos recursos de poder; e a legitimação das ins-  
tituições (normas e regras) que já existem. Em  
uma dessas dimensões, a comunicação é o que  
possibilita essa interação na prática social entre  
os agentes - é onde se expressam os esquemas  
interpretativos que produzem significados nos  
sistemas sociais. As narrativas podem ser enten-  
didas aqui como sendo os esquemas interpre-  
tativos.  
Nesse sentido, a contestação pode ser en-  
tendida como a crítica aos significados consoli-  
dados na estrutura que possibilita a veiculação  
de novos esquemas interpretativos. Contestar,  
então, é parte da disputa de poder por meio de  
novos sentidos no exercício da agência. Trata-  
-se do que os atores intencionam (inter)agir e  
dos significados determinados pela ordenação  
estrutural de sistemas de signos, segundo expli-  
ca Giddens (2013) - daí a dimensão simbólica,  
veiculada pelas narrativas.  
A partir disso, considerando que a ordem  
do discurso abrange: (1) os modos relativamen-  
te estáveis de agir - ou seja, os tipos de lingua-  
gem ligados a uma atividade social particular  
(gêneros); (2) as formas de representar - ou os  
tipos de linguagem usado para construir al-  
gum aspecto da realidade de uma perspectiva  
particular, o que se denomina de discursos, no  
plural; e (3) as maneiras de identificar(-se) em  
práticas sociais - ou os tipos de linguagem usa-  
dos por uma categoria particular de pessoas e  
relacionado com sua identidade (estilos). En-  
tendemos que as narrativas contestatórias são  
simultaneamente uma forma de ação, de repre-  
sentação e de identificação (Fairclough, 2003).  
As narrativas mencionadas aqui são enten-  
Essa interação entre agentes e estruturas  
ocorre por meio dos sistemas sociais. Há três  
instâncias desse sistema social onde ocorrem as  
7 Cox (1981) entende o Sul Global (então-Terceiro  
Mundo) como estando investido de uma vocação con-  
tra hegemônica na ordem mundial já que possui a ca-  
pacidade (e motivação) para formular uma outra visão  
de mundo. Bezerra e Bueno (2022) tratam de melhor  
enquadrar o Brics na Teoria Crítica das RI a partir do  
marco conceitual e histórico.  
97 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.89 - 116, fev. 2025  
didas como sinônimas dos discursos no lato sen-  
su - ou seja, abrangem as formas de representar  
o mundo (as imagens), construindo significa-  
dos para a realidade da política internacional a  
partir da perspectiva particular do Sul global e  
do bloco - especialmente, para construir novas  
imagens, símbolos e ideias8. Nesse sentido, ao  
questionar as desigualdades entre e no interior  
dos países, as lutas hegemônicas, as relações de  
dominação, os textos das declarações oficiais  
(os eventos) alteram a prática social da política  
internacional e, ao mesmo tempo, são determi-  
nados por ela.  
fluenciar a opinião pública e, com isso, ganhar  
apoio dos demais atores – a persuasão da arena  
política. De acordo com Sanahuja (2013), as  
distintas versões sobre um mesmo fato confi-  
guram diferentes expectativas, papéis e condu-  
ta dos sujeitos envolvidos. Sobre o multilate-  
ralismo, por exemplo, há múltiplas narrativas.  
Enquanto os Estados Unidos impulsionam  
o multilateralismo hegemônico e a Europa o  
multilateralismo normativo, os países em de-  
senvolvimento promovem o multilateralismo  
revisionista. Isto com vistas a buscar legitimar  
discursivamente determinadas normas e con-  
dutas para alcançar objetivos e práticas diferen-  
tes daquelas vigentes.  
Daí a importância de certos construtos so-  
ciais para avaliar a ordem discursiva. Com base  
em Ramalho e Resende (2011), podemos dizer  
que tanto a ideologia do Brics está assentada  
nas representações dos aspectos do mundo que  
podem servir de contribuição para estabelecer,  
manter e mudar as relações sociais de poder,  
dominação e exploração, quanto sua contra-  
-hegemonia se faz pela contestação do poder  
ocidental. Poder que se mostra econômica e  
politicamente dominante e, por meio de um  
discurso dominante, busca o consentimento  
dos demais atores.  
No caso do Sul global e, em especial, do  
Brics, discute-se sobre o alcance desse reformis-  
mo (Abdenur; Folly, 2015), ou postura contra-  
-institucionalista (Chaturvedi et al., 2021), sem  
uma explícita abordagem inovadora (Stuenkel,  
2015). Pois, apesar de não romper com a estru-  
tura vigente, o bloco contesta alguns de seus  
componentes. Neste caso, as narrativas servem  
para mudar de dentro o sistema internacional,  
articulando por meio dessa dimensão simbólica  
e ideacional, convergente à dimensão material  
das iniciativas - a comunicação ou significados.  
Nesta discussão, entendemos as narrativas  
extraídas das declarações anuais das Cúpulas do  
Brics tanto como produção de consensos entre  
os países membros sobre diferentes agendas e  
temas, quanto como construção coletiva e con-  
solidação de visões de mundo comuns. Impor-  
tante ressaltar que a construção das narrativas  
do bloco é uma forma de agência do Brics na  
política internacional e se desenrola paralela-  
mente à proposição de iniciativas.  
De fato, as narrativas nas relações inter-  
nacionais constituem-se em meios muito estra-  
tégicos e efetivos no exercício do poder e da  
sanção. Por meio delas, os atores podem in-  
8 Para Fairclough (2003), nos discursos se entrelaçam a  
linguagem e a prática social já que são o momento irre-  
dutível e integrante da vida social, o modo particular de  
representar parte do mundo com base em interesses es-  
pecíficos. Mobilizamos esse autor como uma perspectiva  
teórica que mostra a dialética linguagem-sociedade e que  
explica o texto e seus elementos em função da prática  
social, da interpretação do que foi dito em um contexto  
social. Não utilizaremos, porém, a Análise de Discurso  
Crítica para entender as Declarações, mas a análise de  
conteúdo, em razão do alto volume do material a ser  
analisado (corpus).  
Assim, a reforma da ordem mundial rei-  
vindicada pelo bloco por meio das narrativas  
contesta certas ideias como forma de projetar  
98 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.89 - 116, fev. 2025  
e incrementar seu poder. Esse processo ocorre  
paralelamente com o incremento da sua par-  
ticipação no PIB mundial e à proposição de  
iniciativas como o NBD e o ACR (Arranjo  
Contingente de Reserva), desde a Cúpula de  
Fortaleza em 2014. Além disso, no presente,  
o Mecanismo de Cooperação Interbancária  
(ICM), da Iniciativa de Pagamentos Transfron-  
teiriços do BRICS (BCBPI) e da Companhia  
de (Re)seguros do Brics - anunciados na Cú-  
pula de Kazan, na Rússia, em 2024 - somam-se  
às instituições de Bretton Woods, ao dólar e ao  
SWIFT (sistema de comunicação interbancá-  
ria).  
ma a nos permitir observar como teria ocorrido  
a consolidação de uma narrativa do Brics até o  
momento. Afinal esse processo se aproximaria  
mais de uma construção, ou seja, algo inten-  
cional e premeditado ou de uma consolidação  
que vai se dando com a intensificação dos diá-  
logos e consensos? Ressalta-se que o conteúdo  
das declarações mencionadas, assim como de-  
mais metadados da análise de conteúdo, estão  
disponíveis em dataset dos autores (2025), no  
repositório Harvard Dataverse.  
A análise de conteúdo, segundo Bardin  
(2011), pode ser resumida como um conjunto  
de técnicas de análise das comunicações que,  
por meio de procedimentos sistemáticos e obje-  
tivos de descrição do conteúdo das mensagens,  
busca chegar a indicadores (quantitativos ou  
não) os quais permitam a inferência de conhe-  
cimentos relativos às condições de produção/  
recepção (variáveis inferidas) destas mensagens.  
Trata-se, portanto, da explicação e classificação  
do conteúdo das mensagens como uma con-  
tribuição da pesquisa a uma possível dedução  
lógica e justificada do tema selecionado, desta-  
cando a origem das mensagens de interesse, seu  
emissor, seu contexto e, eventualmente, seus  
efeitos.  
Ressalta-se que, ainda que de forma não-  
-intencional, a construção de narrativa é um  
processo que evolui ao longo de um período e  
nos permite entender como o coletivo dos paí-  
ses do bloco percebe e representa certos proble-  
mas e eventos do sistema internacional. Como  
uma agência que vai moldando a estrutura, essa  
construção de narrativa vai produzindo novas  
instituições, valores e regras por meio da sele-  
ção e frequência de certas agendas prioritárias,  
projetos de cooperação e realização de eventos  
e reuniões.  
A análise de conteúdo se mostra como o  
método mais apropriado para coletar expres-  
sões chave que denotem as representações,  
ideias e interesses comuns retirados dos textos  
produzidos como resultado das cúpulas anuais  
do bloco de que participam os chefes de Esta-  
do e de governo. Os discursos oficiais oferecem  
pontos de comum acordo entre os países, sendo  
as ausências de certos temas e posicionamentos  
entendidos como possíveis divergências entre  
os países ou omissões propositais.  
3 AS CÚPULAS E  
DECLARAÇÕES OFICIAIS DO  
BRICS: O CONTEÚDO DAS  
NARRATIVAS  
A análise dos documentos oficiais do blo-  
co instrumentalizou-se pelo método da análi-  
se de conteúdo – tendo por referência Bardin  
(2011). De maneira diacrônica, as declarações,  
em inglês, das quinze cúpulas anuais dos Brics,  
realizadas entre 2009 e 2023, foram seleciona-  
das como corpus empírico. O objetivo foi bus-  
car evidências para a hipótese proposta, de for-  
Com base em Bardin (2011, p.123), a  
análise de conteúdo realizada adotou diferentes  
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fases: (i) a pré-análise do corpus selecionado; (ii)  
a exploração do material; e (iii) o tratamento  
dos resultados e a interpretação. Na primeira  
fase, em sintonia com nossa pergunta de pes-  
quisa e hipótese inicialmente elaboradas: (a)  
selecionamos as quinze declarações oficiais (de  
2009 a 2023) como corpus para análise - o cor-  
pus é guiado pelas regras da exaustividade, ho-  
mogeneidade e pertinência; (b) realizamos uma  
“leitura flutuante” dos textos, e identificamos  
algumas categorias de interesse para a pesquisa;  
(c) analisamos sistematicamente as declarações  
em função de índices de natureza quantitativa e  
qualitativa - ou seja, frequência de aparição de  
certos termos e as ideias associadas a determi-  
nados temas; e (d) apresentamos os dados en-  
contrados à luz dos objetivos-guia e hipótese da  
pesquisa, por meio de critérios e classificações.  
3.1 Temas de consenso: a  
codificação das declarações  
A análise das declarações que resultam  
como discurso oficial coletivo dos membros  
dos Brics remete à ideia de que o agrupamento  
opera na ordem discursiva, de onde oferece im-  
portante contribuição para o projeto e identi-  
dade do Sul global. Nesse sentido, procedemos  
à codificação dessas declarações em torno de  
algumas categorias que se sobressaem na leitu-  
ra dos textos das declarações, de forma guia-  
da pela pergunta e hipótese da pesquisa. Para  
a realização desse inventário e classificação, os  
termos foram diferenciados das categorias, en-  
tão, em inglês as palavras environment e climate  
na tabela abaixo, somente foram considerados  
quando estavam alinhados aos elementos que  
aparecem na explicação dessas categorias.  
Quadro 1- As categorias analíticas semânticas (significados)  
Explicação  
Codificação  
Desenvolvimento (Development)  
Desenvolvimento sustentável; mudança de paradigma do  
desenvolvimento econômico  
Cooperação (Cooperation)  
Comércio (Trade)  
ODA (0,7% do PIB); assistência aos países em desenvolvi-  
mento; transferência de tecnologia; perdão das dívidas  
Comércio multilateral; rodada Doha; fortalecimento da  
OMC; fim do protecionismo; comércio e  
Financiamento (Financial)  
Meio Ambiente (Environment)  
IED, perdão da dívida; bancos multilaterais de desenvolvi-  
mento  
Tecnologias “limpas”; Declarações do Rio de Meio Am-  
biente e Desenvolvimento; proteção ambiental; como uma  
das dimensões do desenvolvimento sustentável  
Agricultura (Agriculture)  
Cooperação agrícola; modernização e transição agrícola;  
produtividade agrícola; segurança alimentar  
Alimentos (Food)  
Segurança alimentar global  
Desigualdade (Inequality)  
Desigualdades socioeconômicas; exclusão social; agenda  
global do desenvolvimento; desigualdade de gênero; em-  
prego e renda; pandemia  
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Pobreza (Poverty)  
Energia (Energy)  
Clima (Climate)  
Erradicação da pobreza extrema; fome; agenda global  
(ODM e ODS);  
Cooperação energética; novos investimentos e infraestru-  
tura energética; assistência para eficiência energética;  
Mudanças climáticas; descarbonização; impactos negativos  
na segurança alimentar; Convenção Quadro da ONU;  
energias renováveis; adaptação agrícola  
Governança (Governance)  
Paz (Peace)  
Governança global para agendas relevantes; agendas glo-  
bais, estruturas institucionais; governança global econômi-  
ca; arquitetura internacional; ONU  
Convenção Internacional contra o Terrorismo; mundo  
harmônico de prosperidade comum  
Fonte: elaboração nossa.  
3.2 Consolidação de uma narrativa:  
a intensidade dos termos  
Nesse sentido, a frequência das categorias  
ao longo do período analisado (2009 a 2023)  
revela a intensidade das categorias “cooperação”  
e “desenvolvimento” em relação às demais, ex-  
plicada pelo próprio propósito do bloco, segui-  
da das categorias “paz”, “comércio”, “energia”  
e “finanças”. Observamos, em contrapartida,  
que a categoria “desigualdades” representa pou-  
co mais de 1% do percentual da cooperação.  
Isso pode ser explicado pelo fato de que aqui  
não se trata das desigualdades entre os países,  
mas das desigualdades dentro dos países, estan-  
do associada à exclusão social, pobreza e outras.  
Enquanto isso, as desigualdades estruturais no  
sistema internacional - reforma das instituições  
e representatividade dos países - aparecem asso-  
ciadas às categorias de “governança”.  
Uma observação importante é de que há  
um processo de consolidação de uma narrativa.  
Ele aponta para certos consensos que se desdo-  
bram em iniciativas práticas, em vez de uma  
construção, que revelaria uma consolidação con-  
tínua e planejada (no curto e longo prazo). Isso  
seria algo difícil de se alcançar visto não somente  
a natureza dessa aliança (não institucionalizada),  
mas ainda as trocas de governo nos países mem-  
bros (o caso do Brasil e da África do Sul, nesse  
sentido, é revelador da instabilidade desse coleti-  
vo) e as crises do sistema internacional.  
Observamos que, nessa ordem discursiva,  
o avanço das narrativas está relacionado mais  
a um decurso temporal, com certo amadure-  
cimento de ideias e consolidação de algumas  
posições coletivas sobre determinadas agen-  
das da governança global. A intensificação das  
agendas de cooperação, apresentadas na próxi-  
ma subseção, e a definição aparente em certos  
pronunciamentos coletivos sobre determinada  
questão global se constituem nesse avanço.  
A desigualdade (no singular) aparece, en-  
tretanto, marcada como sendo um desafio do  
desenvolvimento dos países em desenvolvimen-  
to, especialmente dos menos desenvolvidos.  
São escassas suas aparições - Ex. D2 (2010);  
D5 (2013) (Autores, 2025). A crítica comu-  
mente veiculada de que a agenda de gênero não  
encontra consenso no bloco parece não fazer  
101 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.89 - 116, fev. 2025  
sentido aqui, pois a análise de conteúdo mostra  
a desigualdade de gênero como um problema  
a ser superado. Na ordem discursiva há pelo  
menos 3 declarações que a mencionam como  
um problema: D6 (2014), D7 (2015) e D10  
(2018). A categoria “pobreza”, nesse sentido, é  
um tema que costuma estar associado à desi-  
gualdade e às agendas globais (ODM e ODS),  
sendo comum expressões como “erradicação da  
pobreza” e “pobreza extrema” (Autores, 2025).  
O fato de as categorias “alimentação” e  
2025).  
Por fim, a categoria “governança” aponta  
para o tema da injustiça da pretendida gover-  
nança multilateral global democrática. Sendo  
assim, a categoria está associada ao pleito pela  
reforma da arquitetura global, à reforma de  
quotas e da governança do FMI e do BM, a  
tomada de decisão coletiva de agendas relevan-  
tes e de interesse comum global, a centralidade  
da ONU na governança global e no fortaleci-  
mento de um multilateralismo mais equitativo  
e representativo, com destaque para o reconhe-  
cimento da importância de se fortalecer a go-  
vernança urbana e local.  
“agricultura” possuírem praticamente a mesma  
frequência total nas declarações - 57 e 69 vezes  
- mostra que, pelo menos na narrativa, a pro-  
dução agrícola aparece alinhada à preocupação  
e intenção em promover a segurança alimentar  
(food security). A narrativa quanto a “agricultu-  
ra” aparece associada à cooperação, comércio,  
produtividade, modernização, bem como ao  
desenvolvimento e agricultura sustentável, sis-  
tema alimentar, transição agrícola e segurança  
alimentar (Autores, 2025).  
Interessante notar que há muita ênfase  
na temática da energia em relação ao clima.  
A frequência de aparição de energia (240 ve-  
zes) e clima (84 vezes) pode ser uma evidência  
do princípio das “responsabilidades comuns,  
porém diferenciadas”. Há uma preocupação  
maior do Sul global em garantir seu crescimen-  
to e desenvolvimento econômico, atribuindo  
aos países desenvolvidos à maior responsabili-  
dade, também o uso de tecnologias limpas e  
descarbonização. A categoria “meio ambiente”  
(79 vezes) reforça a preocupação com a prote-  
ção do meio ambiente e a prioridade dada ao  
desenvolvimento sustentável, cuja referência à  
ECO-92, que discutia a associação complexa  
entre desenvolvimento e meio ambiente, apa-  
rece diversas vezes nas declarações (Autores,  
102 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.89 - 116, fev. 2025  
Gráfico 1 - Frequência da aparição dos termos nos textos das declarações  
Fonte: elaboração nossa, baseado em BRIC (2009, 2010) e BRICS (2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, 2018, 2019, 2020,  
2021, 2022, 2023)9.  
Quais são as contestações fundantes e es-  
truturais do Brics quanto à ordem mundial?  
Como elas se alinham ao projeto e identidade  
do Sul global? Desses se extraem os índices: (i)  
a frequência que aparecem certas palavras-cha-  
ve; e (ii) a forma como alguns temas aparecem  
caracterizadas ou mencionadas em expressões  
ou sentenças ou palavras-chave.  
A figura abaixo apresenta uma nuvem de pa-  
lavras gerada através do programa Iramuteq. Esta  
técnica provém de uma visão geral das palavras-  
-chave de um texto, destacando os termos mais  
frequentes e, consequentemente, os principais  
temas tratados nas declarações. Quanto maior  
e mais central um termo na nuvem de palavras,  
maior é a sua frequência no corpus analisado.  
9 Vide metadados anexos no Harvard Dataverse, Autores (2025), para melhor visualização da frequência das categorias  
em cada uma das declarações  
103 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.89 - 116, fev. 2025  
Figura 1: Nuvem de palavras das Declarações Oficiais  
Fonte: elaboração dos autores, baseado em BRIC (2009, 2010) e BRICS (2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, 2018, 2019,  
2020, 2021, 2022, 2023).  
Utilizando o mesmo programa, o Iramu-  
teq, realizou-se também a análise de similitude  
dos termos mais frequentes. Enquanto a nuvem  
de palavras apresentada anteriormente mos-  
tra apenas as palavras mais citadas (frequên-  
cia) sem suas conexões, a análise de similitude  
identifica e organiza os termos conforme suas  
co-ocorrências. Desta forma, os termos são es-  
truturados em uma árvore de associações que  
revela quais palavras costumam aparecer juntas  
e formando, assim, blocos temáticos inter-re-  
lacionados. Essa técnica permite compreender  
as relações semânticas e estruturais entre os ter-  
mos mais recorrentes, evidenciando núcleos de  
sentido compartilhado.  
104 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.89 - 116, fev. 2025  
Figura 2: Análise de similitude dos termos mais frequentes  
Fonte: elaboração nossa, baseado em BRIC (2009, 2010) e BRICS (2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, 2018, 2019, 2020,  
2021, 2022, 2023).  
O Iramuteq identificou seis grupos (ou  
clusters) principais: o primeiro, em azul claro,  
reúne termos relacionados à reforma financeira  
e à governança econômica global; o segundo,  
em amarelo, refere-se à diplomacia multilate-  
ral; o terceiro, em vermelho, está associado ao  
papel do Brics na governança global; o quarto,  
em roxo, diz respeito ao diálogo e à coopera-  
ção interestatal ou bilateral; o quinto, em ver-  
de, envolve termos ligados ao desenvolvimento  
econômico e às economias emergentes; e o sex-  
to, em azul escuro, agrupa referências às rela-  
ções Sul-Sul.  
105 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.89 - 116, fev. 2025  
3.3 A intensificação da cooperação  
intrabloco: as agendas setoriais  
cance quanto à variedade das pastas executivas,  
bem como houve maior aprofundamento dos  
debates intergovernamentais - ambos frutos da  
coordenação entre os países e a pactuação de  
trabalhos conjuntos.  
Uma constatação ao analisar as declarações  
é a expansão da agenda de cooperação entre os  
membros do bloco que não apenas mostram a  
evolução de certos temas, criando consensos,  
como também a inclusão de agendas setoriais  
gradualmente ao longo do tempo. Isso enfra-  
quece o argumento de que o bloco perde potên-  
cia com o passar do tempo ou ao incluir novos  
membros em decorrência da heterogeneidade.  
O Brics, como um grupo menor e assentado na  
identidade e projeto do Sul global, mostra-se  
como o elemento central das Declarações.  
A partir do aumento da cooperação intra-  
bloco infere-se que o bloco alcança gradualmen-  
te maior consenso quanto a distintas questões  
da política internacional, expande os planos de  
trabalho para cada vez mais temas e, em decor-  
rência disso, se torna mais propositivo quanto a  
iniciativas práticas do bloco. O gráfico 2 (abai-  
xo) mostra esse aumento por meio do número  
de páginas e de artigos das declarações anuais10,  
já que a extensão das mensagens oficiais do blo-  
co aponta para os interesses comuns e medidas  
coletivas conforme discutido mais adiante.  
O levantamento das principais agendas  
setoriais aponta para um aumento de consenso  
entre os países do Brics. Nota-se o maior al-  
Gráfico 2 - Aumento do trabalho de cooperação do Brics (2009- 2023)  
Fonte: elaboração dos autores, baseado em BRIC (2009, 2010) e BRICS (2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, 2018, 2019,  
2020, 2021, 2022, 2023).1011  
10 10 Fazemos a ressalva de que como os textos das declarações não estão disponíveis em um sítio da web oficial, a busca de termos  
foi feita com base nas declarações disponíveis em Autores (2025).  
11 Vide tabela anexa em Autores (2025), para melhor visualização da frequência da aparição das categorias em cada uma das declarações  
106 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.89 - 116, fev. 2025  
Adicionalmente, o gráfico 3 (abaixo) mostra  
o incremento das agendas setoriais nas declarações  
das 15 cúpulas dos países do Brics, de 2009 a 2023.  
Por meio de um processo sistemático e estrutura-  
do, as declarações foram analisadas identificando  
os respectivos planos de ação e reuniões setoriais.  
Foram consideradas apenas as reuniões lideradas  
por ministros, vice-ministros, conselheiros e altos  
funcionários. Essa escolha foi feita para garantir  
que a análise refletisse as discussões de alto nível e a  
relevância das decisões tomadas nas cúpulas.  
de atuação discutidas em: Relações Exteriores,  
Segurança, Saúde, Educação, Economia, Agri-  
cultura, Ciência e Tecnologia, Meio Ambiente,  
Cultura, Trabalho e Emprego, e Comunica-  
ções. Ainda que incompletos12, os dados mos-  
tram algumas tendências, prioridades e áreas  
de maior interesse do Brics. O gráfico 3 abaixo  
mostra o aumento da cooperação interna dos  
Brics (2009-2023), bem como, de que forma  
os diferentes setores aparecem ao longo dessa  
agenda cooperativa anual.  
A análise levou à categorização das áreas  
Gráfico 3 - O número das reuniões setoriais  
Fonte: elaboração dos autores, baseado em BRIC (2009, 2010) e BRICS (2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, 2018, 2019,  
2020, 2021, 2022, 2023). 1213  
12 Importante destacar que as cúpulas de 2009 (Ecaterimburgo/Rússia), 2010 (Brasília/Brasil), 2015 (Ufa/Rússia), 2016 (Goa/  
Índia) e 2022 (Beijing/China) e 2023 (Joanesburgo/África do Sul) não contêm planos de ação disponíveis. Essa limitação foi  
levada em consideração na análise, e a tabela reflete apenas as reuniões setoriais que puderam ser identificadas nas cúpulas que  
apresentaram planos de ação.  
13 Vide tabela no repositório Autores (2025) para melhor visualização da frequência da aparição das categorias em cada uma das  
declarações  
107 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.89 - 116, fev. 2025  
A partir dessa análise, nota-se uma agenda  
bastante holística e em constante ampliação, tal  
qual evidenciado no gráfico acima. Os dados  
revelam um aumento no número de reuniões,  
o que indica uma crescente colaboração e ne-  
cessidade de diálogo entre os países do Brics em  
resposta a desafios globais.  
sugerir um reconhecimento da importância da  
cooperação internacional e da diplomacia para  
enfrentar desafios globais, como conflitos, co-  
mércio e segurança, além de uma necessidade  
contínua de abordar desafios geopolíticos, pro-  
mover a cooperação multilateral e fortalecer os  
laços culturais.  
Destacamos algumas áreas, tais como Eco-  
nomia, Comércio e Indústria, além de Relações  
Exteriores, que têm um número significativa-  
mente maior de reuniões do que as demais -  
respectivamente, 50 e 21 reuniões. Isso pode  
indicar uma prioridade maior nessas áreas, pos-  
sivelmente devido à sua relevância nas agendas  
políticas e econômicas atuais. A área de econo-  
mia, comércio e indústria foi a que mais impul-  
sionou reuniões de ministros, vice-ministros,  
conselheiros e altos funcionários. Isso indica o  
foco do Brics em promover o crescimento eco-  
nômico e o desenvolvimento sustentável, além  
do objetivo de maior parceria em temas econô-  
mico-comerciais entre os membros. Ademais,  
importante notar que os países do Brics estão  
buscando diversificar suas economias para re-  
duzir a dependência de setores específicos,  
como a produção de commodities, e aumentar  
sua influência nas questões econômicas globais,  
incluindo a busca por uma maior representa-  
ção em instituições financeiras internacionais e  
a promoção de uma ordem econômica global  
mais multipolar.  
Ademais, outras agendas setoriais mere-  
cem destaque, a saber:  
a) Terrorismo – o apoio à Convenção da  
ONU (Comprehensive Convention  
against International Terrorrism) é  
mencionada em todas as declarações de  
cúpula do Brics e intensifica-se ao lon-  
go do tempo, com ênfase na segurança  
dos países; o agrupamento manifesta  
preocupação com os crimes cibernéti-  
cos e, a partir de 2012, com os even-  
tos no Afeganistão, a Al Quaeda e o  
ISIS são reconhecidos como fontes de  
insegurança, em especial na Ásia e na  
África;  
b) Segurança Alimentar (e nutricional) –  
o tema aparece em todas as declarações  
(à exceção de 2018), reconhecendo o  
papel e a responsabilidade do bloco em  
contribuir para a segurança alimentar  
e nutricional, tendo em vista o fato de  
que produz 1/3 dos alimentos e hospe-  
da grande parte da população do mun-  
do; a visão do Brics de que é preciso  
aumentar a produção e produtividade  
agrícola, chamando atenção para o  
impacto negativo da volatilidade dos  
preços das commodities, e para a impor-  
tância do desenvolvimento rural e agri-  
cultura familiar, além da cooperação  
em ciência e tecnologia - Brics men-  
ciona uma “Estratégia de Cooperação  
em SAN do bloco” (Strategy on Food  
Por fim, a ênfase na área econômica pode  
indicar que este é o tema mais desafiador para o  
grupo, refletindo desafios como desigualdade,  
pobreza e desemprego. O tema Relações Exte-  
riores também conta com um número signifi-  
cativo de ocorrências, 21, o que indica que a  
área é uma prioridade para os países do Brics  
- indicativo da complexidade nas interações en-  
tre os países membros. O dado também pode  
108 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.89 - 116, fev. 2025  
Security Cooperation of the BRICS Cou-  
ntries), aprovada na Cúpula de 2022;  
c) Migrações e refúgios – o fenômeno das  
migrações aparece como parte da agenda  
de cooperação entre os países do bloco  
para tratar das dinâmicas populacionais,  
o que junto ao envelhecimento, à urbani-  
zação estão as migrações; além disso, ob-  
serva-se a manifestação de apoio do bloco  
à agência da ONU encarregada de prestar  
serviços sociais aos refugiados palestinos  
(a UNRWA - United Nations Relief and  
Works Agency for Palestine Refugees in the  
Near East) e ao instituto internaiconal  
do refúgio e direito humanitário diante  
das respostas globais contra o terrorismo;  
também se nota o reconhecimento dos  
migrantes como parcela da população  
vulnerável na agenda global de desenvol-  
vimento e a necessidade de regulação in-  
ternacional efetiva para as migrações;  
a realização de eventos para avançar as  
discussões setoriais e a proposição de  
iniciativas, como o Comitê Diretivo  
do Brics para CT&I, o Centro do Brics  
para a Transferência de Tecnologia e o  
Programa de Treinamento do Brics em  
transferência de tecnologia.  
Assim, o argumento de que as hetero-  
geneidades entre os países membros do Brics  
impede que o agrupamento avance se torna  
equivocado. Nesse sentido, contestamos o que  
diz Carmody (2024) para quem disputas terri-  
toriais entre Índia e China, além da inclusão de  
países que possuem histórica inimizade como  
Irã e Arábia Saudita podem diminuir o poder  
de ação coletiva do bloco. O autor, entretan-  
to, faz uma ressalva que nos parece apropriada  
a partir dos dados levantados: “However, they  
may still be able to achieve consensus on their core  
area of concern – the need to substantially reform  
or perhaps, over time to transcend, the liberal in-  
ternational order” (Carmody, 2024, p. 12)  
Talvez essa ideia aponte para disputas  
na própria ordem discursiva, indicando uma  
contra-narrativa interessada em diminuir a in-  
fluência do bloco na ordem mundial. Ainda  
que haja tensões e disputas entre seus mem-  
bros, decorrentes das diferentes inclinações dos  
países em tão diferentes e variadas agendas e  
temas, e mais de uma década de existência, a  
emergência de um bloco que se expande de cin-  
co para 11 membros, intensifica sua agenda de  
cooperação em mais de uma dezena de temas  
e de duas dezenas de encontros anuais de alto  
nível político. Aumenta também o conteúdo  
das mensagens oficiais coletivas, tornando-se  
uma preocupação para a ordem internacional  
liberal. E isso, nos parece, elemento revelador  
da consolidação de uma narrativa coletiva e do  
incremento de poder na ordem discursiva.  
d) Ciência, tecnologia e inovação – em  
especial a transferência de tecnologia é  
uma bandeira importante para o Brics,  
que apesar de não aparecer em todas  
as declarações está relacionada a duas  
vertentes: a primeira se refere à deman-  
da do agrupamento para que os países  
em desenvolvimento tenham acesso  
aos recursos necessários para o cumpri-  
mento da Convenção-Quadro Contra  
as Mudanças Climáticas (UNFCCC),  
da Agenda 2030 dos ODS e da Con-  
venção-Quadro para a Biodiversidade,  
reforçando sempre o princípio das “res-  
ponsabilidades comuns, porém dife-  
renciadas” e o compromisso dos países  
desenvolvidos em prover assistência; a  
segunda é a cooperação intrabloco que  
se mostra cada vez mais avançada com  
109 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.89 - 116, fev. 2025  
world” e “global” nos permitiu compreender  
como o grupo tem contestado a atual configu-  
ração da ordem internacional.  
4 BRICS E SUA NARRATIVA EM  
PROL DO SUL GLOBAL  
Uma das questões centrais que podemos  
ressaltar na análise das declarações em sintonia  
com os dados levantados na ordem discursiva é  
a baixa frequência de expressões como “ordem  
mundial”, “ordem global” (ou ordem interna-  
cional/mundial) - em inglês, world/global/inter-  
national order - e Sul global - em inglês, global  
South. Ao contrário do que se imaginava, há  
uma narrativa pouco expressiva com relação à  
ideia de “ordem”.  
A análise revelou que o Brics utiliza es-  
sas terminologias para abordar questões funda-  
mentais relacionadas à governança global, en-  
fatizando a necessidade de uma representação  
mais equitativa dos países em desenvolvimento  
e emergentes. Através de discussões sobre mul-  
tipolaridade, desigualdade econômica e a im-  
portância de um sistema comercial justo, o blo-  
co articula uma crítica à hegemonia ocidental  
e propõe uma reestruturação das instituições  
financeiras internacionais.  
Isso contrasta com as reivindicações em  
prol da Nova Ordem Econômica Internacional  
(NOEI) que caracterizava no passado o grupo  
de países que compõem o atual Sul global, des-  
de as décadas de 1970-80 e o atual Congresso  
de Havana. Tal constatação pode ser mais uma  
evidência da aspiração do Brics de mudar a or-  
dem desde dentro. Isso, entretanto, se compen-  
sa com o uso dos termos “mundo” e “países em  
desenvolvimento” e com a recorrente menção à  
necessidade de reforma da governança global.  
Há, portanto, menos um esforço coleti-  
Além disso, esses países destacam a ur-  
gência de enfrentar desafios globais - como a  
mudança climática e a segurança alimentar -  
por meio de uma cooperação mais robusta e  
inclusiva. Dessa forma, a contestação do Brics à  
atual ordem mundial se dá por meio de um dis-  
curso que busca promover um novo paradigma  
de relações internacionais, onde a soberania, a  
solidariedade e o desenvolvimento sustentável  
são centrais.  
Observa-se, ainda, o uso de termos es-  
vo empenhado em questionar as desigualdades  
de poder do que em promover ações que resul-  
tem em maior poder de barganha dos países do  
Sul global nos distintos espaços da governança  
global. Tal fato contribui indiretamente para  
que esses possam alcançar maior representativi-  
dade nas organizações internacionais.  
pecíficos, talvez nada aleatórios, para se referir  
aos países e sua classificação no sistema inter-  
nacional. Em detrimento do Sul global - termo  
oriundo de uma mobilização política impor-  
tante e resgatando um projeto ideológico - uti-  
liza-se a denominação “países em desenvolvi-  
mento”, em consonância com o G77+China  
- “países menos desenvolvidos” (Least Develo-  
ped Countries – LDC), proposta pelas Nações  
Unidas. Além disso, “mercados emergentes e  
países em desenvolvimento” (Emerging market  
economies and developing countries – EMDC),  
terminologia sugerida pelo BM e atrelada ao  
PIB.  
Quanto à frequência das expressões,  
observamos que “ordem mundial” aparece  
apenas nas duas primeiras declarações - Ecate-  
rimburgo/Rússia em 2009 e Brasília/Brasil em  
2010. Em ambos os casos, estão associadas à  
ideia de ordem mundial multipolar, democrá-  
tica, equitativa e justa. A busca pelas palavras  
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O “Sul global” aparece em expressões  
como “Cooperação Sul-Sul”, “Cooperação  
Norte-Sul”, “Desenvolvimento desequilibrado  
Norte-Sul”, “lacuna de desenvolvimento Nor-  
te-Sul”, sendo que em apenas seis declarações  
há um artigo dedicado a tais temas. Importante  
exceção, entretanto, está na última declaração  
(Declaração de Joanesburgo de 2023), quando  
se reconhece o papel importante a ser desem-  
penhado pela presidência brasileira no G20 e  
o interesse de novos países do Sul global entra-  
rem para o Brics. Por ocasião da 16ª Cúpula em  
Kazan/Rússia de 2024, foi realizado um even-  
to sobre o tema - “BRICS and Global South:  
Building a Better World Together” - o que indica  
alguma mudança em curso na ordem discursiva  
com a menção a essa identificação dos países.  
Há mais pragmatismo, também, em  
paço para impulsionar certas articulações po-  
líticas14. Cabe-nos lembrar que o G20 reúne as  
maiores economias do mundo e, também, vem  
vivenciando expansão da sua agenda e seus ato-  
res15. Segundo alguns analistas (Norton, 2024)  
e pesquisadores (Mielniczuk, 2024), essa legi-  
timação do espaço de coordenação do G20,  
entretanto, não pode ser uma distração na de-  
finição de prioridades políticas. Esses autores  
defendem que seria mais estratégico para o blo-  
co negociar e priorizar espaços eminentemente  
contra a ordem, em vez de insistir e acreditar  
que seja possível uma mudança provocada pelo  
centro do sistema internacional.  
As declarações anuais do Brics nos mos-  
tram, ainda, os posicionamentos do coletivo  
de países quanto às várias agendas, questões  
e eventos do cenário político internacional.  
Considerando que os textos das declarações  
não possuem um formato específico, e por isso  
sua estrutura de tópicos é determinada pelo  
país que ocupa a presidência. Esse exercício  
de análise de conteúdo foi feito manualmente  
- sem assistência de softwares -, identificando  
os temas que nos pareceram mais evidentes na  
relação do bloco com o Sul global.  
buscar a NOEI sem, contudo, mencioná-la.  
Além do NBD e do ACR, agora o Brics pro-  
põe o BRIDGE, Brics Clear Platform e o Brics  
Grain Exchange - iniciativas que prevêem o uso  
das moedas nacionais dos países membros, tan-  
to no comércio intrabloco quanto nos investi-  
mentos do NDB e créditos do ACR. Ou seja,  
busca-se harmonizar entendimentos e políticas  
nacionais para propor mecanismos e sistemas  
operativos alternativos. Isso poderia explicar a  
ausência da expressão “Nova Ordem Econômi-  
ca Internacional” (ou NOEI) nas declarações  
para adoção de uma narrativa que investe na  
diplomacia multilateral, governança global de-  
mocrática, justiça global, e não deixa de con-  
tribuir com a consolidação de um imaginário  
coletivo que recorre a ideias com um horizonte  
otimista.  
14 Ressaltamos que esses grupos como G20 e G77+-  
China, diferentemente do Brics, são agremiações de pa-  
íses que buscam coordenação e fortalecimento de certas  
agendas, mas as medidas mais propositivas acontecem  
em outros espaços intergovernamentais.  
15 O G20 sob a presidência brasileira além de ter inau-  
gurado o G20 Social com ampla participação das socie-  
dades (por meio e fora de mais de 13 grupos de engaja-  
mento), também lançou a Aliança Global contra a Fome  
e a Pobreza que pretende ser aberta para a adesão de toda  
a comunidade internacional.  
Nesse sentido, a ausência de menção ao  
G77+China e a presença de várias menções ao  
G20 mostram a legitimação desse último es-  
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Figura 2 - Algumas agendas prioritárias de interesse do Sul global (2009-2022)  
Fonte: elaboração dos autores.  
O bloco manifesta apoio nas declarações  
à diversas convenções, órgãos e agências da  
ONU em áreas específicas, tomando a Carta  
das Nações Unidas e a Assembleia Geral como  
parâmetro e meio mais democrático e efetivo  
de negociações multilaterais. No campo am-  
biental, destaca o apoio à Convenção-Quadro  
das Nações Unidas sobre Mudança do Clima,  
à Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e  
Desenvolvimento, ao Protocolo de Cartage-  
na sobre Biossegurança, ao Acordo de Paris e  
aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável  
(ODS), com foco na crise climática e sustenta-  
bilidade e no uso de energias renováveis.  
nente. No âmbito da segurança internacional,  
o bloco manifesta apoio à Convenção Abran-  
gente sobre Terrorismo Internacional (CCIT)  
e à Estratégia Contra Terrorismo do Conselho  
de Segurança da ONU. E não há apoio explí-  
cito à candidatura do Brasil e Índia por Rússia  
e China para o ingresso como membros per-  
manentes do Conselho de Segurança, mas há  
a defesa de que é importante que o órgão seja  
reformado, atendendo a distribuição de poder  
atual; em contraponto, há apoio reiterado do  
bloco à entrada da Rússia na OMC16.  
Algumas prioridades do Brics pertinen-  
tes para o Sul global, se referem ao princípio  
das responsabilidades comuns, porém diferen-  
ciadas (em inglês, CBDR). A expressão é uma  
Em relação ao desenvolvimento, a ênfase  
na Agenda 2030 e a defesa da Agência das Na-  
ções Unidas de Assistência aos Refugiados da  
Palestina no Médio Oriente (UNRWA, sigla  
em inglês), além das ações de apoio à União  
Africana (NEPAD), tendo a África do Sul a  
partir de 2012 como interlocutora do conti-  
16 O apoio do bloco à candidatura russa é constante; a  
Rússia até hoje não se tornou membro da OMC, apesar  
de ter solicitado seu ingresso em 1993; esse apoio acon-  
tece juntamente às defesas do bloco aos princípios da  
transparência, legalidade e da não discriminação para o  
sistema multilateral de comércio.  
112 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.89 - 116, fev. 2025  
constante nas declarações, eminentemente atre-  
lada ao regime das mudanças climáticas, com  
exceção do ano de 2014, antevendo a Cúpula  
da Agenda de Desenvolvimento pós-2015. O  
agrupamento reconhece a Agenda 2030 como  
o centro da governança global, ressalta a im-  
portância dos “princípios do Rio de Janeiro”  
para o desenvolvimento sustentável - associan-  
do desenvolvimento e meio ambiente em uma  
relação conflituosa e marcada pelas desigualda-  
des de poder e de capacidades entre os países,  
sendo que o objetivo central da agenda é a erra-  
dicação da pobreza. A partir de 2016, o CBDR  
começa a ser utilizado agregando-se a expressão  
“respectivas capacidades” (CR), marcando essa  
diferença entre Sul e Norte global. Em 2017,  
apela-se aos países desenvolvidos para prover  
apoio financeiro, tecnológico e capacidade para  
os países em desenvolvimento para mitigação  
e adaptação às catástrofes climáticas e ambien-  
tais - sendo que, a partir de 2019, menciona-se  
que o princípio deve ser interpretado à luz das  
diferentes circunstâncias nacionais.  
diálogo paralelo e restrito aos países membros  
da OCDE e do G20 para a elaboração e apro-  
vação da Convenção-Quadro das Nações Uni-  
das sobre Cooperação Tributária Internacional  
(UNFCITC17). O tema é de grande interesse  
dos países do Sul e organizações que trabalham  
em prol da redução das desigualdades globais,  
sobretudo a de renda e riqueza. Ao estimular a  
taxação de indivíduos e empresas mais ricas e a  
redução de paraísos fiscais, há um intento em  
que Estados e seus orçamentos sejam utilizados  
para políticas públicas (sociais).  
O Brics também menciona com grande  
frequência a defesa do comércio multilateral e  
a necessidade de conclusão da Rodada Doha da  
OMC. Essa rodada é uma negociação iniciada  
em 2001 para tratar do comércio entre as na-  
ções (multilateralmente) a serviço do desenvol-  
vimento dos países e dos povos. As declarações  
finais de 2009 a 2016 do Brics afirmam que  
o avanço nas negociações (Doha Development  
Agenda) é uma questão prioritária. Desde então,  
porém, o tema perdeu força, evidenciado por  
sua ausência nas declarações seguintes, o que  
passa a ser substituído pelos informes quanto  
às reuniões ministeriais da OMC - a MC9 em  
Bali e MC11 em Nairobi. Isso não significa,  
entretanto, que a plataforma tenha abandona-  
do sua luta contra o protecionismo comercial,  
mas essas questões passam a ser resolvidas em  
instâncias técnicas e diante da irresolução elas  
estimulam outras iniciativas compensatórias no  
plano econômico e financeiro, via NBD.  
Em ⅔ das Declarações, observa-se a con-  
vocação urgente dos países desenvolvidos, no  
âmbito da Organização para a Cooperação  
e o Desenvolvimento Econômico (OCDE),  
para honrar sua promessa de destinar 0,7% do  
PIB a Assistência Oficial ao Desenvolvimento  
(AOD) em benefício dos países em desenvol-  
vimento. Trata-se de um compromisso nunca  
cumprido, essencial para a implementação da  
Agenda 2030 dos ODS.  
Além disso, a Declaração de 2015 men-  
ciona o “clube dos ricos” - a OCDE -, desta  
vez, para reconhecer e legitimar uma iniciativa  
da Organização, em parceria com o G20, sobre  
a cooperação tributária internacional, o BEPS  
(Based Erosion and Profit Shifting). É bom no-  
tar que o BEPS se constitui em um fórum de  
Nesse sentido, deve ser entendida a volati-  
17 Mais sobre as 11 recomendações feitas pela socie-  
dade civil à presidência brasileira do G20 que propõe  
para o grupo de países taxar os super ricos está dispo-  
ads/2024/05/G20-Recomendacoes-sobre-Tributacao-  
-Internacional_Port.pdf. Acesso em: 24 nov. 2025.  
113 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.89 - 116, fev. 2025  
lidade no preço das commodities, especialmen-  
te em decorrência da demanda por energia e  
alimentação. Sabe-se que a produção de grãos  
por parte dos países fundadores do bloco é sig-  
nificativa e, portanto, há uma preocupação em  
diminuir o risco de soberania nacional produ-  
zido pelas instabilidades econômicas globais  
e especulações do mercado financeiro. Ape-  
sar disso, apenas duas declarações, de 2011 e  
2017, ambas redigidas na China, mencionam  
essa preocupação.  
o fundamentalismo de mercado característico  
da ordem mundial (neo)liberal.  
As posições do bloco indicadas nesta ter-  
ceira seção trataram de forma mais qualitativa  
do conteúdo encontrado nos textos das decla-  
rações e complementam os dados levantados  
anteriormente. Eles nos permitem defender a  
ideia de que há uma consolidação de narrativas  
em curso, condicionada pelos distintos cenários  
internacionais, mais do que pelas mudanças de  
mandatários nos países. Ainda que não se possa  
dizer que haja um processo coerente estratégico  
desde 2009 até 2023, notamos que a maioria  
dos consensos entre os países, como as posições  
diante das diferentes agendas globais, guarda  
grande alinhamento com a identidade e o pro-  
jeto do Sul global.  
A pobreza, a exclusão social e as desigual-  
dades, sabe-se, é um dos principais problemas  
do Sul global e um dos temas mais centrais na  
Agenda 2030 dos ODS. A pobreza aparece em  
vários artigos como um endosso do Brics a esse  
objetivo central da governança global do de-  
senvolvimento. Esse termo aparece associado à  
exclusão social e desigualdade, à fome e mal-  
nutrição, às necessidades especiais dos países  
em desenvolvimento, especialmente os LDCs  
(Least Developed Countries) e os LICs (Low In-  
come Countries), além do apoio às iniciativas  
dos países africanos. Em algumas ocasiões, a  
narrativa do Brics elogia organizações como o  
BM, o FMI e o G20 em suas atuações contra a  
pobreza - algo que pode evidenciar, mais uma  
vez, a postura de menor confrontação e busca  
por maior persuasão.  
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS  
Há uma ordem discursiva que opera si-  
multaneamente à ordem social na configuração  
política internacional. O Brics, nesse sentido,  
mostra que ao longo desses 15 anos sob análise  
há uma consolidação de narrativa que parece  
não apenas veicular determinados interesses,  
mas influenciar agendas globais. Nesse sentido,  
o uso das narrativas como meio estratégico para  
um projeto político nem sempre é pensado a  
priori e como tal mirando o longo prazo. En-  
tretanto, pode-se valorizar essa atuação narra-  
tiva tanto pela sua importância em influenciar  
a opinião pública global como em alcançar  
gradualmente mais apoios nos países, construir  
parcerias e legitimar as iniciativas propostas -  
recentemente assistimos à expansão do Brics e  
à possibilidade de o agrupamento estabelecer  
parceria com a Organização de Cooperação de  
Shanghai.  
Interessante notar que os países escolhem  
priorizar em termos de agendas de cooperação  
a centralidade do Estado na condução de seus  
processos de desenvolvimento. Conforme no-  
tou Abdenur e Folly (2015), o papel do Esta-  
do no desenvolvimento doméstico, ainda que  
varie um pouco entre os cinco membros, no  
consenso coletivo, identifica-se uma aborda-  
gem mais estado-cêntrica sobre o desenvolvi-  
mento internacional, com influência chinesa e  
russa. Isso reforça a posição coletiva de recusar  
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Assim, ao fazer uso da dimensão simbólica  
do poder na veiculação dessas narrativas, no-  
tamos, ao menos, a continuidade e estabeleci-  
mento de um projeto de cooperação fortemen-  
te inspirado na Cooperação Sul-Sul coletiva  
ou multilateral. Isso porque ao reforçar valores  
como a solidariedade, o respeito à soberania e  
a busca por uma ordem multipolar justa com  
uma governança representativa, parte-se de  
uma estratégia discursiva para construir uma  
visão de internacionalismo colaborativo pro-  
posto pela ascensão do Sul global. Esse poder  
simbólico aparece articulado tanto à identidade  
quanto ao projeto desse grupo de países que re-  
correm à representatividade, ação e legitimação  
desse discurso na política internacional.  
consenso entre os países membros, contrarian-  
do, portanto, aqueles que insistem na impos-  
sibilidade do Brics de se despontar como um  
bloco de países coeso com poder para alterar  
as dinâmicas atuais da política internacional18.  
Em vez da insistência em narrativas ideo-  
lógicas, as declarações apontam para uma atua-  
ção pragmática, voltada para os planos de ação  
- alguns deles explícitos nas declarações, outros  
em peças separadas (anexadas). Além disso, o  
foco adotado pelas declarações com menção a  
“mercados emergentes” e “países em desenvol-  
vimento” é mais uma evidência desse pragma-  
tismo - em vez de recuperar marcos políticos e  
históricos do passado e reivindicações e deman-  
das antigas.  
Nesse sentido, o avanço teórico sugerido  
por essa pesquisa revela a importância da or-  
dem discursiva, junto à ordem social nas rela-  
ções internacionais. Ela especialmente ressalta  
o poder das narrativas na transformação da or-  
dem mundial vigente - algo que se torna empi-  
ricamente observável com o decurso de tempo.  
Tal qual sugerido por Buzan e Acharya (2022),  
enquanto cientistas sociais, é preciso reimagi-  
nar as relações internacionais a partir de ou-  
tros sistemas de pensamento, outras dimensões  
analíticas e outras ordens em que os eventos e  
fenômenos se realizam.  
Quanto à complexificação da cooperação  
intra-bloco, nos níveis políticos (decisórios) e  
técnicos (harmonização de políticas), há maior  
ênfase nas questões econômicas e ambientais,  
em comparação com as políticas e sociais. Tal  
qual observamos nas Convenções da ONU  
mencionadas pelo Brics ao longo dos anos,  
questões como os empréstimos e financiamen-  
tos, além da dinâmica comercial, reforçado  
pelo interesse no fim da dependência do siste-  
ma dolarizado são algumas dessas evidências.  
As agendas sociais como saúde, proteção social,  
segurança alimentar e nutricional, não parecem  
ter o mesmo destaque.  
Nossa pesquisa confirma a hipótese inicial  
de que o Brics, na ordem discursiva, está ali-  
nhado ao projeto e identidade do Sul global;  
entretanto, “reformando a partir de dentro”.  
Essa consolidação narrativa pode ser observa-  
da ao longo dos 15 anos (e 15 declarações ofi-  
ciais expedidas). Um dado interessante é o fato  
de que as Declarações Oficiais têm se tornado  
mais extensas em número de páginas, de arti-  
gos e com agendas de trabalho mais abrangen-  
tes e intensas. Isso pode indicar o aumento de  
Isso é condizente com uma construção de  
narrativa mais dedicada a medidas propositi-  
vas. O termo “Sul global” - com exceção da  
última declaração de Kazan (2024) - quase não  
18 Apesar de não haver uma estrutura existente para as  
Declarações, notamos que os 16 artigos resultantes da  
Cúpula de 2009 se transforma em 50 artigos no quarto  
encontro em 2012, 110 artigos em 2016 e chega aos 134  
artigos na última Declaração de 2024 que tem 33 pági-  
nas, marcada por inúmeros posicionamentos e propostas  
de iniciativas.  
115 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.89 - 116, fev. 2025  
AUTORES. O Brics, o Sul Global e a transformação da or-  
aparece, mas há uma defesa insistente do prin-  
dem mundial: um Novo Banco de Desenvolvimento. Mural  
cípio das responsabilidades comuns, porém  
Internacional, Rio de Janeiro, Vol.15, 2024. DOI: 10.12957/  
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diferenciadas, do compromisso dos países da  
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urgente reforma de instituições internacionais  
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- como o CSNU e o FMI, por exemplo - para  
BEZERRA, V., BUENO, E. Elements of Critical eory in  
que sejam espaços mais representativos das vo-  
BRICS: An evaluation of BRICS’s critique of global affairs.  
Vestinik of Saint Petersburg University. International Relations,  
zes do Sul global.  
spbu06.2022.307.. Acesso em: 1 jan. 2024.  
Pressupor que há uma construção de nar-  
BOND, P; GARCIA, Ana Saggioro. Perspectivas críticas sobre  
rativa por trás da atuação do Brics forma parte  
o Brics Tensões mundiais [Dossiê] Fortaleza, v. 10, n. 18, 19,  
2014. p. 15-40.  
das atuais discussões sobre as propostas da pla-  
BUZAN, Barry e ACHARYA, Amitav. Re-imagining Interna-  
taforma para reformar o sistema internacional.  
tional Relations World Orders in the ought and Practice of  
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Isso, por sua vez, supõe um alinhamento às  
versity Press, 2022.  
perspectivas teóricas críticas nas investigações  
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científicas (Autores, 2024; Bezerra e Bueno;  
2022). Nos parece importante reconhecer que  
-anteriores/joint-statement-of-the-bric-countries-leaders.pdf.  
Acesso em: 1 jan. 2024.  
a enunciação de narrativas, tal qual discutido  
BRIC. II BRIC Summit of Heads of State/Government - Joint  
anteriormente, é outra forma de manifestação  
Statement of the BRIC CountriesLeaders. Brasília, Brasil, 15  
da agência do grupo nas relações internacio-  
br/pt-br/sobre-o-brics/cupulas-anteriores/ii-bric-summit-of-  
-heads-of-state_government-joint-statement.pdf/@@down-  
nais atuais.  
load/file. Acesso em: 1 jan. 2024.  
Nesse sentido, vale lembrar que o G77+-  
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China recentemente retomou a necessidade de  
pautar a Nova Ordem Econômica Internacio-  
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