O BRICS quinze anos depois: desafios e oportunidades após sua expansão ............ 3  
El BRICS quince años después: desafíos y oportunidades tras su expansión  
BRICS fifteen years later: challenges and opportunities after its expansion  
Augusto Leal Rinaldi, Laerte Apolinário Júnior  
10 anos de atuação do Conselho Empresarial do BRICS (CEBRICS).................. 12  
10 years of operations of the BRICS Business Council (BBC)  
10 años de existencia del Consejo Empresarial del BRICS (CEBRICS)  
Rafaela Mello Rodrigues de Sá, Ana Saggioro Garcia  
Alavanca para a ascensão das margens? Uma análise  
da agenda da agenda de invocação tecnológica do BRICS............................. 24  
Lever for the Rise of the Margins? An Analysis of the BRICS Technological Innovation Agenda  
¿Palanca para el Ascenso de los Márgenes? Un Análisis de la Agenda de Innovación Tecnológica de los BRICS  
Laís Melo de Souza, Henrique Zeferino de Menezes  
BRICS+: Desafios e Impasses para os Sentidos e Legados  
da Justiça de Transição do Brasil e da África do Sul ........................................ 39  
BRICS+: Challenges and Deadlocks in the Meanings and Legacies of Transitional Justice in Brazil and South Africa  
BRICS+: Desafíos y Estancamientos en los Sentidos y Legados de la Justicia Transicional en Brasil y Sudáfrica  
Júlia Battistuzzi Penachioni, Cláudia Alvarenga Marconi  
A Associação de Cidades e Municípios BRICS+:  
Paradiplomacia e o Novo Banco de Desenvolvimento...................................... 52  
e Association of BRICS+ Cities and Municipalities: Paradiplomacy and the New Development Bank  
La Asociación de Ciudades y Municipios BRICS+: Paradiplomacia y el Nuevo Banco de Desarrollo  
Kelvin Araújo da Nóbrega Dias  
O Programa Nuclear Iraniano na agenda do G-7 e BRICS:  
entre a hierarquia e a heteronomia nas relações internacionais ..................... 68  
e Iranian Nuclear Program on the G-7 and BRICS agenda: between hierarchy and heteronomy in international relations  
El Programa Nuclear Iraní en la agenda del G-7 y los BRICS: entre la jerarquía y la heteronomía en las relaciones interna-  
cionales  
Bruno Mendelski, Camila Munareto  
BRICS+: As articulações intergovernamentais dos países  
semiperiféricos do sistema-mundo moderno ..................................................... 78  
BRICS+: Intergovernmental articulations by semiperipheral states in the modern world-system  
BRICS+: Articulaciones intergubernamentales de los países semiperiféricos en el sistema-mundo moderno  
Charles Serra Tabarin, Claudete de Castro Silva Vitte, Gustavo Glodes Blum  
A construção da narrativa do Brics: logros na mudança da ordem mundial.. 89  
e building of the BRICS narrative: achievements in changing the world order  
La configuración de la narrativa de los BRICS: logros en el cambio del orden mundial  
Marina Bolfarine Caixeta, José Paulo Silva Ferreira, Mayara Christina de Carvalho  
Infraestrutura Digital dos Países BRICS............................................................... 117  
Digital Infrastructure of the BRICS Countries  
Infraestructura digital en los países BRICS  
Octávio Henrique Alves Costa de Oliveira, Renan Guimarães Canellas de Oliveira  
Notas sobre a trajetória dos BRICS: da agenda reformista  
para ator multipolar, a partir de um encontro científico................................... 128  
Notes on the BRICS’ Trajectory: From a Reformist Agenda to a Multipolar Actor, Based on an Academic Meeting  
Notas sobre la Trayectoria de los BRICS: De una Agenda Reformista a un Actor Multipolar, Basado en un Encuentro Aca-  
démico  
Giorgio Michalopoulos, Andrea Califano  
Uma Análise dos Planos Quinquenais da China como  
Impulsores para o Desenvolvimento de energias Renováveis .......................... 144  
An Analysis of China’s Five-Year Plans as Drivers for the Development of Renewable Energies  
Un Análisis de los Planes Quinquenales de China como Impulsores para el Desarrollo de Energías Renovables  
Allana Camini Moreira de Souza  
Amefricanizando as Relações Internacionais para curar  
a Afasia Racial da disciplina ............................................................................. 158  
Amefricanizing International Relations to Cure the Discipline’s Racial Aphasia  
Ameafricanizar las relaciones internacionales para curar la afasia racial de la disciplina  
Erica Paula Vasconcelos, Ramon Blanco  
Governança climática em perspectiva: reflexões a partir  
da obra “Das Negociações do Clima ao Clima das Negociações” ................... 176  
Climate governance in perspective: reflections based on the book “Das Negociações do Clima ao Clima das Negociações”  
Gobernanza climática en perspectiva: reflexiones basadas en el trabajo “Das Negociações do Clima ao Clima das Negociações”  
Mariana Ferreira Torres  
RESENHA: “The Russo-Ukrainian War: The Return of History”, de Serhii Plokhy..........179  
REVIEW: “e Russo-Ukrainian War: e Return of History” by Serhii Plokhy  
RESEÑA: “La guerra ruso-ucraniana: el regreso de la historia” de Serhii Plokhy  
Marcelo Furtado Martins de Paula  
3 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte,  
ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.3 - 11, fev. 2025  
3 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.3 - 11, fev. 2025  
Artigo  
O BRICS quinze anos depois: desafios e  
oportunidades após sua expansão  
El BRICS quince años después: desafíos y oportunidades tras su expansión  
BRICS fifteen years later: challenges and opportunities after its expansion  
Augusto Leal Rinaldi1  
Laerte Apolinário Júnior2  
Esses estudos exploram os limites e as  
potencialidades de um arranjo composto por  
potências regionais, potências estabelecidas e  
países de menor poder relativo, cuja articula-  
ção política tem dependido menos da homoge-  
neidade político-econômica entre si do que da  
convergência em torno de objetivos gerais co-  
muns, em particular a reforma das instituições  
internacionais multilaterais (Li, 2019; Cooper,  
2016).  
1 INTRODUÇÃO  
Desde a formalização do BRICS, em  
2009, as análises acadêmicas e de policy têm  
oscilado entre interpretações céticas (Petrone,  
2021; Degaut, 2015; Stephen, 2014; Pant,  
2012) e leituras mais otimistas (Vadell e Ra-  
mos, 2024; Larionova e Shelepov, 2022; Bro-  
sig, 2021; Stuenkel, 2020) quanto à viabilidade  
do arranjo de se consolidar como ator relevante  
nas relações internacionais contemporâneas. As  
pesquisas sobre o BRICS são igualmente diver-  
sas, abrangendo um amplo espectro temático,  
que vai desde suas origens, expansão e institu-  
cionalização progressiva (Stuenkel, 2020; Ra-  
mos et al., 2018) até os mecanismos que fa-  
vorecem ou dificultam a cooperação entre os  
países (Duggan et al., 2021), os desafios de  
coordenação de suas ações (Gabuev e Stuenkel,  
2024; Hooijmaaijers, 2021), os temas incor-  
porados ao longo de suas cúpulas (Kodabux,  
2023) e a identidade internacional que tem as-  
sumido no mundo hoje (Baunov, 2024; Andal  
e Muratshina, 2022).  
A literatura especializada não apresenta  
consenso quanto à melhor forma de caracte-  
rizar o BRICS. Parte dos estudiosos o define  
como um grupo de coalizão de caráter refor-  
mista, voltado à correção de assimetrias nas ins-  
tituições de governança global atuais (Hurrell,  
2018; Flemes, 2010); outro grupo o descreve  
como uma plataforma de cooperação entre  
economias emergentes com uma agenda difu-  
sa (Stuenkel, 2020; Roberts, Armijo e Katada,  
2018; Batista Júnior, 2016); formulações mais  
recentes o tratam como um clube político-di-  
plomático (Cooper e Farook, 2015) ou como  
um alinhamento estratégico entre potências  
1 Professor de Relações Internacionais na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).  
2 Professor de Relações Internacionais na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e na Fundação Armando Álvares  
Penteado (FAAP).  
4 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.3 - 11, fev. 2025  
emergentes (Rinaldi, 2021). As divergências  
quanto ao modo de defini-lo decorrem do fato  
de o BRICS combinar características como  
informalidade institucional, coordenação in-  
tergovernamental e um repertório crescente de  
mecanismos próprios de articulação política,  
sem necessariamente aderir ao formato clássico  
de uma instituição internacional, com tratado  
fundacional e acordo vinculante. Sua trajetó-  
ria de mais de quinze anos, portanto, tem sido  
marcada por um desenho institucional que  
mantém flexibilidade decisória e, ao mesmo  
tempo, preserva a soberania dos membros, per-  
mitindo que, mesmo diante de diferenças entre  
eles, cheguem a consensos.  
O contexto internacional recente, contu-  
do, tem recolocado o debate sobre a situação  
atual da ordem internacional, da qual o BRICS  
faz parte. A crise econômica global associada  
aos efeitos da pandemia de Covid-19; a guerra  
na Ucrânia desde 2022; os ataques do Hamas  
contra Israel e a consequente resposta israelense  
em Gaza e no Líbano desde 2023; os ataques  
militares dos Estados Unidos e de Israel con-  
tra o Irã em 2025 e 2026; e o acirramento da  
rivalidade estratégica entre os Estados Unidos  
e a China têm reforçado a percepção de que a  
ordem internacional atravessa um período de  
transformação, marcada particularmente pelo  
declínio do multilateralismo e do papel das  
instituições internacionais (Lake, 2025; Vadell  
e Ramos, 2024).  
Na última década e meia, uma parte dos  
estudiosos passou a sustentar a tese de que a he-  
terogeneidade dos países que compõem o BRI-  
CS dificultaria a consolidação de um arranjo  
coerente e capaz de produzir resultados práticos  
em escala global (Brosig, 2021; Prys-Hansen e  
Nolte, 2016). Com o arrefecimento do ciclo de  
crescimento econômico dos anos 2000 a 2010  
— com exceção da China e da Índia — e com  
o agravamento das tensões socioeconômicas e  
políticas internas em alguns países-membros, o  
peso das leituras críticas aumentou. O debate  
deslocou-se, então, do entusiasmo em torno  
das “potências emergentes”, muito marcado na  
primeira década do século XXI, para uma ava-  
liação mais realista de suas limitações, apontan-  
do, inclusive, para o crescente papel da China  
no arranjo (Hooijmaaijers, 2019). No entan-  
to, a relevância do BRICS não desapareceu. O  
que se alterou foi o enquadramento analítico: a  
ênfase recaiu sobre as assimetrias internas, so-  
bretudo a centralidade econômica e geopolítica  
da China, sem que isso eliminasse a importân-  
cia do arranjo como espaço de articulação e de  
ação dos países do então chamado Sul Global.  
Desde a formação do BRICS, suas cú-  
pulas anuais passaram a incorporar, de modo  
recorrente, temas como intervenções humani-  
tárias, transferência de tecnologias, programas  
de desenvolvimento, ajuda externa, alívio da  
pobreza, saúde global e combate ao terroris-  
mo3. Esse adensamento temático acompanhou  
o processo de institucionalização do arranjo,  
particularmente com a criação, em 2014, du-  
rante a Cúpula de Fortaleza, do Novo Banco  
de Desenvolvimento (NDB, na sigla em inglês)  
e do Arranjo Contingente de Reservas (CRA,  
na sigla em inglês). A partir desse momento,  
o BRICS passou a dispor de um instrumento  
financeiro próprio e aberto a outros países, des-  
tinado a financiar infraestrutura e desenvolvi-  
mento sustentável, o que deu materialidade à  
sua agenda de reforma gradual da arquitetura  
econômico-financeira internacional.  
Além disso, entre 2024 e 2025, o BRICS  
passou pela maior expansão desde sua criação,  
3 Para mais informações e acesso aos documentos oficiais das reu-  
niões de cúpula do BRICS, ver: http://www.brics.utoronto.ca/  
5 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.3 - 11, fev. 2025  
incorporando cinco novos membros e oficiali-  
zando a categoria de “país parceiro”4, o que am-  
pliou sua presença na Ásia, no Oriente Médio e  
na África. Hoje, os membros oficiais do BRICS  
são Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul,  
Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indo-  
nésia e Irã. Essa ampliação, contudo, não foi  
apenas numérica, pois alterou também o perfil  
geopolítico e econômico do arranjo, intensifi-  
cando sua inserção em regiões centrais para a  
segurança energética global e para as cadeias  
globais de valor e de suprimento (Giaccaglia,  
2024).  
políticos e econômicos. O arranjo oferece um  
espaço de circulação político-diplomática re-  
lativamente seguro para países que procuram  
contornar isolamentos diplomáticos, ampliar a  
rede de contatos, diversificar parcerias e refor-  
çar sua capacidade de barganha na governança  
global. O baixo custo de pertencimento, a pos-  
sibilidade de acesso a um repertório de coope-  
ração econômico-financeira e a expectativa de  
fortalecimento de instituições paralelas, como  
o NDB e o CRA, aumentam a procura por ele.  
A dimensão econômica do BRICS perma-  
nece um de seus principais eixos estruturantes,  
ainda que marcada por assimetrias. A centra-  
lidade da China nas cadeias produtivas, nos  
fluxos de comércio e nos investimentos intra-  
-BRICS confere ao país um papel destacado na  
dinâmica interna do arranjo, com implicações  
diretas para a distribuição de benefícios e para  
a definição de prioridades a serem buscadas. Ao  
mesmo tempo, economias como Índia, Brasil  
e Indonésia apresentam trajetórias de inserção  
internacional marcadas pelo não-alinhamen-  
to e pelo bom relacionamento com os eixos  
Ocidental e não-Ocidental. A presença de ex-  
portadores de commodities e de produtores de  
energia reforça a heterogeneidade do arranjo,  
ao mesmo tempo em que amplia sua relevância  
nos debates sobre segurança energética, transi-  
ção ecológica e governança de recursos natu-  
rais. Assim, essas características sugerem que as  
relações econômicas no interior do BRICS se  
desenvolvem em um ambiente em que coexis-  
tem oportunidades de coordenação e de apro-  
fundamento, mas também desafios de acentua-  
ção da dependência e especialização.  
Os critérios dessa ampliação podem ser  
inferidos a partir do perfil dos novos integran-  
tes. Trata-se de países com relevância geopolí-  
tica regional, capacidade de projeção política e  
econômica em suas vizinhanças, elevado peso  
demográfico e inserção estratégica em merca-  
dos energéticos e rotas comerciais (Gravilenko  
e Shenshin, 2024). Emirados Árabes Unidos e  
Irã concentram importância decisiva no setor  
global de energia, assim como o Egito e a Etió-  
pia; a Indonésia acrescenta uma economia de  
grande porte e de peso geopolítico no Sudeste  
Asiático. A criação da categoria de país par-  
ceiro, aprovada em Kazan em 2024, ampliou  
ainda mais o poder de atração do BRICS, per-  
mitindo uma forma intermediária de associa-  
ção, sem adesão plena, e reduzindo os custos  
políticos para países interessados em ingressar  
no arranjo5.  
As razões que tornam o BRICS atrativo  
para novos participantes combinam fatores  
4 Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Ser-  
viços do Brasil, “BRICS”, 25 de abril de 2025. https://www.  
A atuação crescente do NDB e de outros  
gov.br/mdic/pt-br/assuntos/enec/parcerias/brics.  
em: 17 de abril de 2026.  
Acesso  
mecanismos econômico-financeiros associa-  
dos, como a realização de comércio bilateral  
em moeda local, por exemplo, constitui um  
5 Rylan Chase, “Quais países querem entrar no BRICS?”, EBC  
Financial Group, 09 de fevereiro de 2026. https://www.ebc.  
com/pt/forex/quais-paises-querem-entrar-no-brics-lista-a-  
tualizada-2026. Acesso em: 17 de abril de 2026.  
6 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.3 - 11, fev. 2025  
decisório baseado no consenso e na informali-  
dos principais vetores de aprofundamento da  
dimensão financeira do BRICS. A ampliação  
do número de membros e a possibilidade de  
acessar crédito em moedas locais apontam para  
tentativas de reduzir a dependência de meca-  
nismos financeiros dominados pelas econo-  
mias ocidentais, particularmente dos Estados  
Unidos, e de ampliar a margem de manobra  
dos países em desenvolvimento no âmbito da  
economia global. Esses movimentos se inserem  
em um debate mais amplo, que tem ganhado  
força sobretudo desde 2022, sobre a reforma  
da arquitetura financeira internacional, no  
qual o BRICS tem reiterado a necessidade de  
maior representatividade e de revisão das es-  
truturas decisórias de instituições como o FMI  
e o Banco Mundial, bem como a importância  
de depender menos do dólar norte-americano  
(Pforr et al., 2025; Johnston, 2025; Brawley,  
2022). A continuidade dessa agenda depende,  
em grande medida, da capacidade dos países de  
articularem posições comuns e traduzirem suas  
demandas em propostas concretas de reforma  
institucional e de criação de novos arranjos  
financeiros (Peruffo et al., 2024; Liu e Papa,  
2022).  
dade institucional preserva a flexibilidade polí-  
tica que historicamente caracterizou o BRICS,  
mas impõe limites à sua capacidade de atuação  
coordenada em temas de maior sensibilidade,  
como, por exemplo, conflitos militares e inter-  
venções humanitárias (Rinaldi, 2021).  
A ausência de mecanismos supranacionais  
ou de estruturas burocráticas robustas implica  
que os avanços práticos do arranjo continuam  
dependentes da convergência política entre os  
seus membros e da disposição dos governos  
nacionais para investir capital diplomático na  
agenda comum. A ampliação do número de  
participantes tende a tornar esse processo mais  
exigente, sobretudo em áreas nas quais os in-  
teresses nacionais são mais diretamente afeta-  
dos, como a segurança internacional, a política  
energética e a integração à arquitetura financei-  
ra ocidental.  
A expansão e consolidação do BRICS  
como um polo de poder na constelação global  
também devem ser lidas à luz das transforma-  
ções atuais da economia política internacio-  
nal. A expansão político-econômica chinesa, a  
reorganização das cadeias produtivas globais, a  
financeirização e hegemonia do dólar na globa-  
lização e a crescente contestação às instituições  
de Bretton Woods coexistem com a formação  
que tem sido chamada de duas “zonas de globa-  
lização”, nas quais os Estados Unidos e a China  
articulam, cada qual à sua maneira, padrões de  
intercâmbio comercial, mecanismos financei-  
ros e iniciativas institucionais6. Nesse quadro,  
a “Belt and Road Initiative” (BRI) e a “Global  
Development Initiative” (GDI), de um lado, e  
Ao mesmo tempo, a expansão recente do  
BRICS acentuou desafios importantes. A hete-  
rogeneidade interna ampliou-se com a entrada  
de membros com perfis geopolíticos distintos,  
intensificando rivalidades já existentes, como  
as tensões entre a China e a Índia e entre os  
Emirados Árabes Unidos e o Irã (Gabuev e  
Stuenkel, 2024). A ampliação também refor-  
çou o dilema da ação coletiva em um grupo  
maior, mais diverso e menos homogêneo em  
termos de regime político, estrutura econômi-  
ca produtiva e orientações diplomáticas. Nesse  
contexto, a governança interna do arranjo assu-  
me centralidade. A manutenção de um modelo  
6 e Economist, “Globalisation has faltered. It is now being  
reshaped”. 24 de Janeiro de 2019. https://docs.google.com/  
document/d/1pgPe6c_KcEnICrU64FDkK2sdeLFmepRf/  
edit. Acesso em: 17 de abril de 2026  
7 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.3 - 11, fev. 2025  
o “Partnership for Global Infrastructure and In-  
vestment” (PGII), de outro, expressam proje-  
tos concorrentes de uma “nova” globalização.  
O BRICS insere-se nesse ambiente como um  
arranjo que visa ampliar a margem de ação de  
seus membros diante de uma ordem que pare-  
ce estar se fragmentando em áreas de influên-  
cia, marcada por rivalidades e pela erosão dos  
consensos que haviam sustentado a ordem in-  
ternacional liberal do período pós-Guerra Fria  
(Rodrigues-Triocci, 2024).  
bais7. Essa posição oferece um denominador  
comum que sustenta sua atuação externa e le-  
gitima suas propostas de reformas e de adequa-  
ções à governança global. Pode-se afirmar que  
a crise do multilateralismo confere um novo  
sentido ao papel do BRICS.  
O retorno de Donald Trump à presidên-  
cia dos Estados Unidos, em 2025, intensificou  
a pressão sobre instituições internacionais e  
recolocou o unilateralismo no eixo central da  
política externa norte-americana8. A ameaça de  
tarifas adicionais contra os países do BRICS,  
reiterada por Trump, ilustra a centralidade da  
coerção econômica no novo cenário internacio-  
nal9. Em reação, o BRICS reafirmou, em 2025,  
o compromisso com o multilateralismo, o di-  
reito internacional e a reforma das instituições  
financeiras globais, ao mesmo tempo em que  
condenou medidas protecionistas e unilaterais.  
A Cúpula do Rio de Janeiro, em julho de 2025,  
aprovou 126 compromissos e reiterou a defesa  
de uma governança global mais inclusiva, com  
ênfase em finanças, saúde, inteligência artifi-  
cial, clima, paz e segurança, além de reformas  
no FMI e no sistema das Nações Unidas. Esse  
quadro indica que a consolidação do BRICS  
ocorre em um momento de profunda contes-  
tação da ordem internacional liberal e de enfra-  
quecimento das bases políticas que sustentaram  
a governança multilateral no ciclo anterior.  
A dimensão geopolítica da conjuntura  
internacional recente reforça esse diagnóstico.  
A reativação de coalizões de contenção no In-  
do-Pacífico, como o QUAD, e a expansão da  
OTAN para o Leste europeu indicam uma  
reorganização mais ampla das constelações de  
poder. Nesse sentido, a importância do BRICS  
deriva, em grande medida, de sua capacidade  
de reunir países da Ásia, da África e da América  
Latina em torno de uma agenda que combina  
reforma institucional, contestação de hierar-  
quias e busca por maior representatividade, e  
que navega nesse cenário sem criar hostilida-  
des, sem demandar condicionalidades e sem  
exigir lealdades.  
A atual crise do multilateralismo reforça  
a relevância desse tipo de arranjo. A redução  
do compromisso das grandes potências com  
instituições internacionais, a proliferação de  
medidas unilaterais e o enfraquecimento de  
mecanismos multilaterais de resolução de dis-  
putas contribuem para a erosão das bases nor-  
mativas da ordem internacional (Lake, 2025).  
Nesse cenário, o BRICS tem buscado afirmar  
uma agenda que combina a defesa do multi-  
lateralismo, a crítica às práticas protecionistas  
e a demanda por maior inclusão dos países em  
desenvolvimento nos processos decisórios glo-  
7 Ministério das Relações Exteriores do Brasil, “Declara-  
ção de Líderes do BRICS: Declaração do Rio de Janeiro”,  
06 de julho de 2025. https://www.gov.br/mre/pt-br/ca-  
nais_atendimento/imprensa/notas-a-imprensa/declaracao-  
de-lideres-do-brics-2014-rio-de-janeiro-06-de-julho-de-  
2025#:~:text=1. Acesso em: 16 de abril de 2026.  
8 James M. Lindsay, “First 100 Days: Trump’s Foreign Policy  
Disruption Is Just Beginning”, Council on Foreign Relations,  
29 de abril de 2025. https://www.cfr.org/articles/first-100-  
days-trumps-foreign-policy-disruption-just-beginning.  
Acesso em: 17 de abril de 2026.  
9 Aime Williams, “Trump threatens Brics nations with 100% tariffs  
if they undermine dollar”, 30 de novembro de 2024. https://www.  
ft.com/content/18b3d51d-1e4b-4189-bae2-c31248b6526b?syn-  
25a6b1a6=1. Acesso em: 16 de abril de 2026.  
8 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.3 - 11, fev. 2025  
A celebração de seus quinze anos, por-  
tanto, oferece uma oportunidade adequada  
para avaliar os limites e as potencialidades de  
um arranjo que se consolidou como uma das  
expressões mais visíveis das transformações  
contemporâneas da política internacional. E  
é nesse contexto que se insere este Dossiê. Ele  
reúne trabalhos que buscam apresentar uma  
reflexão ampla sobre o lugar do BRICS na or-  
dem internacional contemporânea, com ênfase  
nas transformações recentes associadas à sua  
expansão, às mudanças na economia política  
internacional e à reconfiguração das dinâmicas  
geopolíticas globais.  
realizado na Universidade Federal da Bahia,  
o estudo aponta que, ao longo de seus quinze  
anos de existência, o arranjo deslocou progres-  
sivamente seu foco da reforma das instituições  
econômicas globais para uma atuação mais  
pragmática, orientada pela cooperação Sul-Sul  
e pela busca de maior autonomia estratégica no  
sistema internacional. Ao enfatizar as tensões  
entre ambições transformadoras e limitações  
estruturais, especialmente no campo econômi-  
co-financeiro e nas assimetrias internas, o arti-  
go contribui para o Dossiê ao oferecer uma in-  
terpretação abrangente da evolução da agenda  
temática e da atuação do BRICS, destacando  
os dilemas centrais que marcam seu comporta-  
mento contemporâneo.  
Nesse ambiente, o estudo de sua trajetória  
e atuação internacional oferece um ponto de  
entrada para o exame das dinâmicas contem-  
porâneas da política internacional e dos papéis  
do BRICS nela, contribuindo, assim, para uma  
compreensão mais precisa dos desafios e das  
possibilidades que se colocam ao arranjo na se-  
gunda década do século XXI.  
Já o artigo de Rafaela Mello Rodrigues de  
Sá e Ana Saggioro Garcia analisa a atuação do  
Conselho Empresarial do BRICS (CEBRICS),  
destacando a importância dos atores privados  
na consolidação do arranjo. Ao examinar mais  
de uma década de funcionamento do Conse-  
lho, o estudo evidencia como a articulação en-  
tre grandes empresas multinacionais contribui  
para adensar as relações intra-BRICS e para a  
definição de agendas econômicas prioritárias,  
sobretudo em conexão com o Novo Banco de  
Desenvolvimento. A principal contribuição das  
autoras reside em deslocar o foco analítico das  
cúpulas governamentais para as dinâmicas em-  
presariais, revelando uma dimensão frequen-  
temente subexplorada do arranjo nos estudos  
sobre ele.  
2 APRESENTAÇÃO DOS  
ARTIGOS  
Os trabalhos reunidos neste Dossiê refle-  
tem a diversidade temática e analítica que ca-  
racteriza os estudos sobre o BRICS. Em con-  
junto, eles oferecem uma visão multifacetada  
do arranjo, explorando suas dimensões insti-  
tucionais, discursivas, econômicas e políticas,  
bem como os desafios decorrentes de sua re-  
cente expansão.  
Na mesma linha de análise de agendas  
mais recortadas, Laís Melo de Souza e Henri-  
que Zeferino de Menezes investigam a coope-  
ração em inovação tecnológica no âmbito do  
BRICS. O artigo demonstra que, embora a  
inovação seja central para o desenvolvimento  
socioeconômico dos países membros, a coope-  
O artigo de Giorgio Michalopoulos e An-  
drea Califano analisa a trajetória do BRICS, a  
partir da evolução de sua agenda, inicialmen-  
te reformista, até sua consolidação como ator  
geopolítico em uma ordem internacional mul-  
tipolar. Com base em um debate acadêmico  
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ração nessa área enfrenta limitações estruturais,  
como a fragilidade institucional e as restrições  
financeiras. Ao combinar análise institucional  
e estudos de caso, os autores contribuem para  
compreender os limites práticos de uma das  
agendas mais estratégicas do arranjo.  
multipolaridade. Trata-se de uma contribuição  
importante para o debate sobre a identidade do  
BRICS e seu posicionamento diante da ordem  
internacional liberal.  
A dimensão discursiva e identitária do  
BRICS é explorada por Marina Caixeta, José  
Paulo Ferreira e Mayara Carvalho, que anali-  
sam a construção da narrativa contra-hegemô-  
nica do BRICS ao longo de suas declarações  
oficiais. O estudo aponta para a consolidação  
de uma identidade comum orientada à reforma  
da governança global, ainda que marcada por  
tensões entre discurso e prática. A análise con-  
tribui para o debate sobre o papel simbólico do  
BRICS na política internacional.  
Ainda no campo econômico-tecnológico,  
Octávio Oliveira e Renan Canellas examinam  
as infraestruturas digitais nos países do BRICS,  
destacando desafios relacionados à exclusão di-  
gital e à insuficiência de investimentos. O arti-  
go explora as limitações dos mecanismos atuais  
de cooperação e aponta a necessidade de maior  
coordenação para enfrentar as desigualdades  
estruturais . Trata-se de uma contribuição im-  
portante para compreender os desafios do de-  
senvolvimento digital no Sul Global, de modo  
geral e, em especial, no BRICS.  
A emergência de novos atores nas relações  
intra-BRICS é analisada por Kelvin Dias, que  
examina a criação da Associação de Cidades e  
Municípios BRICS+. Ao enfatizar a paradiplo-  
macia e o papel de atores subnacionais, o artigo  
demonstra como o arranjo tem se expandido  
para além da esfera estatal, criando novas for-  
mas de articulação e de acesso ao financiamen-  
to internacional, especialmente por meio do  
Novo Banco de Desenvolvimento. A pesquisa  
amplia o escopo analítico do BRICS ao incor-  
porar a dimensão local e subnacional à com-  
preensão de seu comportamento.  
Já o artigo de Allana Camini Moreira de  
Souza, embora centrado na política energéti-  
ca chinesa, oferece insights importantes para  
compreender o papel da China no BRICS.  
Ao analisar os Planos Quinquenais chineses  
como instrumentos de promoção das energias  
renováveis, o estudo discute a centralidade do  
Estado e do planejamento estratégico no repo-  
sicionamento econômico do país, contribuin-  
do, assim, para os debates sobre as assimetrias  
internas no arranjo.  
No campo da segurança internacional,  
Bruno Mendelski e Camila Munareto com-  
param as narrativas do G7 e do BRICS sobre  
o programa nuclear iraniano. A partir de uma  
abordagem construtivista, o artigo mostra que,  
enquanto o G7 adota uma retórica hierárqui-  
ca, o BRICS privilegia discursos mais concilia-  
dores e orientados pelo direito internacional,  
ainda que sem romper com as assimetrias exis-  
tentes. A contribuição central reside na análise  
do papel discursivo do BRICS na governança  
global na área de segurança.  
A dimensão normativa e política do BRI-  
CS é explorada por Júlia Penachioni e Cláudia  
Marconi, que analisam as tensões enfrentadas  
pelo Brasil e pela África do Sul no campo dos  
direitos humanos e da justiça de transição.  
O artigo evidencia os dilemas decorrentes da  
inserção desses países em um arranjo amplia-  
do que inclui países com regimes não-demo-  
cráticos, destacando os desafios de conciliar  
compromissos normativos com estratégias de  
política externa em um contexto de crescente  
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Uma perspectiva analítica mais estru-  
turalista é aprofundada por Charles Tabarin,  
Claudete Vitte e Gustavo Blum, que situam  
o BRICS+ no contexto da teoria do sistema-  
-mundo. O artigo interpreta o arranjo como  
uma articulação de países semiperiféricos que  
buscam coordenar interesses em um cenário  
de reconfiguração da economia política global.  
Essa abordagem permite compreender o BRI-  
CS não apenas como um arranjo político, mas,  
principalmente, como parte de transformações  
estruturais na economia capitalista global.  
por um lado, amplia sua representatividade e  
capacidade de articulação com o Sul Global,  
por outro, aprofunda tensões internas e inde-  
cisões quanto à sua identidade e capacidade de  
atuação concertada. Os trabalhos aqui reuni-  
dos sugerem que o futuro do BRICS depen-  
de, em grande medida, de sua capacidade de  
conciliar diversidade interna com algum grau  
de coordenação efetiva, bem como de traduzir  
suas ambições em resultados concretos.  
Esperamos, assim, que este Dossiê contri-  
bua para o avanço do debate acadêmico sobre  
o BRICS e para uma melhor compreensão de  
seu papel nas transformações em curso na polí-  
tica internacional da segunda década do século  
XXI.  
Por fim, o Dossiê também inclui duas rese-  
nhas que dialogam com temas relevantes para o  
contexto internacional em que o BRICS se inse-  
re. A resenha de Mariana Ferreira Torres aborda  
a governança climática global, destacando a im-  
portância das negociações multilaterais, enquan-  
to a de Marcelo de Paula discute a guerra rus-  
so-ucraniana, oferecendo uma contextualização  
histórica e geopolítica do conflito. Ambas contri-  
buem para situar o BRICS em debates mais am-  
plos da política internacional contemporânea.  
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Em conjunto, os artigos deste Dossiê evi-  
denciam que o BRICS, quinze anos após sua  
criação, não pode ser compreendido por meio  
de uma única lente analítica ou de uma única  
área temática. Trata-se de um arranjo complexo  
que combina dimensões institucionais, discur-  
sivas e materiais e cuja relevância deriva tan-  
to de sua atuação em temas e áreas relevantes  
das relações internacionais quanto de seu papel  
como representante de um conjunto de gran-  
des potências, potências emergentes e países de  
menor desenvolvimento relativo no mundo.  
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Artigo  
10 anos de atuação do Conselho  
Empresarial do BRICS (CEBRICS)  
10 years of operations of the BRICS Business Council (BBC)  
10 años de existencia del Consejo Empresarial del BRICS (CEBRICS)  
Rafaela Mello Rodrigues de Sá1  
Ana Saggioro Garcia2  
Recebido em: 18 de março de 2025  
Aceito em: 12 de agosto de 2025  
RESUMO:  
Este trabalho objetiva expandir a análise sobre os BRICS para além das cúpulas de chefes  
de Estado, e examinar a articulação dos empresários das grandes empresas multinacionais  
dos países. Nesse sentido, serão analisados os 10 anos de existência do Conselho Empresarial  
do BRICS, desde o início dos diálogos, passando pela construção do Conselho, até a  
consolidação deste arranjo. Além da avaliação deste processo, a pesquisa também defende  
que é possível identificar convergências de interesses entre o Conselho e as dinâmicas de  
financiamento do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB). Considerando os BRICS para  
além das cúpulas de chefes de Estado, este artigo examina a articulação dos empresários das  
grandes empresas multinacionais no âmbito do Conselho Empresarial do BRICS. Através  
dos 10 anos de existência deste arranjo, o artigo investiga a construção dos diálogos e  
consolidação deste arranjo.  
Palavras-Chave: BRICS; Conselho Empresarial do BRICS; Novo Banco de  
Desenvolvimento  
ABSTRACT:  
is study aims to expand the analysis of BRICS beyond the summits of heads of state  
and to examine the coordination of business leaders from large multinational companies  
in member countries. In this sense, it analyzes the 10 years of existence of the BRICS  
Business Council, from the initial dialogues through its formation to the consolidation  
of this arrangement. In addition to evaluating this process, the research also argues that  
it is possible to identify convergences of interests between the Council and the financing  
dynamics of the New Development Bank (NDB). By considering BRICS beyond the  
summits of heads of state, this article examines the coordination of business leaders from  
large multinational companies within the framework of the BRICS Business Council.  
rough the 10 years of existence of this arrangement, the article investigates the  
development of dialogues and the consolidation of this structure.  
1 Doutoranda em Ciência Política (Relações Internacionais) na McMaster University, Canadá e pesquisadora associada do Public  
Banking Project.  
2 Professora adjunta de Relações Internacionais no programa de pós-graduação de ciências sociais Desenvolvimento, Agricultura e  
Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Pesquisadora associada do BRICS Policy Center.  
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Keywords: BRICS; BRICS Business Council; New Development Bank  
RESUMEN:  
Este trabajo tiene como objetivo ampliar el análisis de los BRICS más allá de las cumbres  
de jefes de Estado y examinar la articulación de los empresarios de las grandes empresas  
multinacionales de los países miembros. En este sentido, se analizan los 10 años de  
existencia del Consejo Empresarial de los BRICS, desde el inicio de los diálogos, pasando  
por la construcción del Consejo, hasta la consolidación de este arreglo. Además de la  
evaluación de este proceso, la investigación también sostiene que es posible identificar  
convergencias de intereses entre el Consejo y las dinámicas de financiamiento del Nuevo  
Banco de Desarrollo (NDB). Al considerar los BRICS más allá de las cumbres de jefes de  
Estado, este artículo examina la articulación de los empresarios de las grandes empresas  
multinacionales en el marco del Consejo Empresarial de los BRICS. A través de los 10  
años de existencia de este arreglo, el artículo investiga la construcción de los diálogos y la  
consolidación de esta estructura.  
Palabras clave: BRICS; Consejo Empresarial de los BRICS; Nuevo Banco de Desarrollo  
1 INTRODUÇÃO  
Durante os mais de 15 anos de existência  
do BRICS, as cúpulas anuais realizadas entre  
os líderes de governo proporcionaram espaços  
para que outros atores pudessem estreitar o diá-  
logo e promover debates por agendas e interes-  
ses comuns. A participação de novos atores e  
o engajamento de novos grupos possibilitou o  
estabelecimento de uma série de arranjos bus-  
cando coordenações em determinadas agendas.  
Esta ampliação dos esforços de articulação e  
diálogo nos mais variados setores pode ser com-  
preendida como cooperação ou alinhamento  
intra-BRICS (Stuenkel, 2017, p. 40; Rinaldi,  
2021, p. 141).  
também a construção do Conselho Empresarial  
do BRICS (CEBRICS), em 2013. Em ambos  
os espaços, a intenção era de promover plata-  
formas de cooperação, coordenação e articula-  
ção entre os empresários, almejando estreitar os  
laços econômicos, comerciais, de negócios e de  
investimento entre eles (SABTT, 2022; Garcia,  
2017).  
Compreender a atuação do CEBRICS du-  
rante estes mais de 10 anos de existência pos-  
sibilita uma reflexão sobre o papel dos atores  
e dos grupos empresariais nos BRICS. Dessa  
forma, o artigo tem como objetivo examinar a  
articulação dos empresários dos países BRICS  
através das reuniões e iniciativas realizadas pelo  
Conselho Empresarial durante 2013 a 2023.  
Portanto, a pesquisa buscará apresentar uma  
radiografia dos 10 anos de atuação do CEBRI-  
CS, com base em uma análise documental a  
partir dos relatórios, documentos oficiais e dis-  
cursos disponibilizados. Nesse sentido, serão  
Uma das áreas de coordenação surgida  
durante os primeiros anos do BRICS foi a ar-  
ticulação entre grupos empresariais. A criação  
do Fórum Empresarial ocorreu em 2010, du-  
rante a segunda cúpula do agrupamento. Após  
o fortalecimento deste espaço de diálogo entre  
os empresários dos países BRICS, foi proposta  
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evidenciados não só os detalhes da estrutura  
organizacional do conselho, como também os  
principais interesses e suas agendas prioritárias.  
Além da avaliação deste processo, a pes-  
quisa também defende que é possível identifi-  
car convergências de interesses entre o Conse-  
lho e as dinâmicas de financiamento do Novo  
Banco de Desenvolvimento (NDB). Tanto  
durante a etapa de construção e concepção do  
banco do BRICS, quanto durante os anos de  
consolidação da instituição, há comunicações,  
sugestões e orientações realizadas por parte do  
conselho em direção ao NDB, demonstrando  
o apoio dos empresários à iniciativa (Garcia,  
2017, p. 384). Nesse sentido, o conselho pode  
ser avaliado como um arranjo que traduz as de-  
mandas e os interesses dos grupos empresariais  
do BRICS. Por sua vez, essas demandas acabam  
convergindo em termos de setores, projetos e  
temas prioritários nas operações e nas ativida-  
des do NDB.  
vante observar as relações entre os grupos em-  
presariais, que se organizam no Conselho Em-  
presarial do BRICS (CEBRICS). Esta é uma  
iniciativa dos grupos empresariais buscando  
articular demandas e interesses comuns entre  
suas economias. Esta estrutura de diálogo foi  
criada em 2013, complementando 10 anos de  
existência no ano passado. O conselho pode ser  
entendido como um fortalecimento do Fórum  
Empresarial do BRICS que vem ocorrendo to-  
dos os anos, desde 2010 (Garcia, 2017, p. 383).  
O fórum, que geralmente se reúne às vés-  
peras das cúpulas de chefes de Estado do BRI-  
CS, tem o objetivo de expandir e diversificar o  
comércio e os investimentos mútuos entre os  
países do agrupamento, auxiliando também  
na identificação de novas oportunidades de  
negócios (SABTT, 2022). A primeira reunião  
do fórum aconteceu em 14 de abril de 2010,  
na cidade do Rio de Janeiro, sendo um encon-  
tro conjunto entre os membros do BRIC3 e do  
IBAS4 (Cunha, 2010, p. 52).  
A segunda reunião ocorreu em Sanya, na  
China, nos dias 13 e 14 de abril de 2011, onde  
foi assinado um Memorando de Entendimen-  
to (MoU) que identifica os pontos focais para  
a coordenação das atividades comerciais entre  
os países BRICS (Ratho, 2012, p. 09; Brasil,  
2011).  
2 FORMAÇÃO E  
CONSOLIDAÇÃO DO CEBRICS  
O agrupamento BRICS representa a po-  
tencialidade de coordenações e cooperações  
entre países do Sul Global em temas interna-  
cionais. O diálogo entre os cinco países iniciou  
no âmbito das finanças, através da agenda con-  
junta de reforma das instituições financeiras  
multilaterais, mas logo se expandiu para outras  
esferas de atuação, construindo cooperações in-  
tra-BRICS e esforços institucionais conjuntos,  
como o NDB (Stuenkel, 2017, p. 40).  
Já a terceira reunião foi em Nova Delhi,  
na Índia, no dia 28 de março de 2012, quando  
foi lançado um Joint Statement que destaca oito  
recomendações das empresas e associações em-  
presariais do fórum para os governos e líderes  
dos países BRICS. Dentre elas: a reiteração de  
que a ordem econômica mundial está mudan-  
do e os processos da agenda política econômica  
Além da arena financeira, as dinâmicas de  
coordenação entre os BRICS também atingi-  
ram diversos aspectos de cooperação, alcançan-  
do também as dinâmicas entre os empresários  
dos países BRICS. Nesse sentido, torna-se rele-  
3 Ainda sem a letra “S”, pois ainda não havia a participação  
efetiva da África do Sul.  
4 Fórum de diálogo entre Índia, Brasil e África do Sul.  
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internacional deve refletir o peso das econo-  
mias emergentes; o estímulo às transações co-  
merciais entre os países BRICS e incentivos à  
maior cooperação no setor financeiro a partir  
da criação de um banco de desenvolvimento e  
um fundo de investimento, afim de promover  
o comércio em moedas locais dos países BRI-  
CS; além de destacar o objetivo de promoção  
do crescimento sustentável e do incentivo à  
fontes de energia renováveis e da relevância das  
Pequenas e Médias Empresas (PMEs) para es-  
timular os governos à implementarem políticas  
de inovação em diversas áreas (BRICS Business  
Forum, 2012, p. 01-02).  
Após sua fundação, a primeira reunião do  
conselho ocorreu na cidade de Johanesburgo,  
na África do Sul, em agosto de 2013, quando  
foi descrito que o conselho constituirá uma  
plataforma que irá:  
fortalecer e promover os laços econômicos,  
comerciais, de negócios e de investimento  
entre as comunidades empresariais dos cinco  
países BRICS, bem como garantir que haja  
um diálogo regular entre estas comunidades  
das nações BRICS e os governos dos países  
BRICS (BRICS Business Council, 2013, p.  
01, tradução própria).  
Dessa forma, o conselho permite a constru-  
ção de um espaço de diálogo entre os grupos em-  
presariais dos países BRICS, possibilitando coor-  
denação de interesses conjuntos e cooperação em  
diversos setores, uma vez que reúne associações de  
negócios de cada um dos países do BRICS, afim  
de promover o envolvimento frequente entre as  
comunidades empresariais (Stuenkel, 2017, p.  
135). Nessa perspectiva, os líderes acreditam que:  
Considerando as temáticas centrais dessas  
recomendações do fórum empresarial, é impor-  
tante destacar que algumas demandas e interes-  
ses são convergentes com os objetivos do Novo  
Banco de Desenvolvimento (NDB) do BRI-  
CS, desde antes do Conselho Empresarial ser  
fundado, principalmente a preocupação com a  
sustentabilidade e com as energias renováveis.  
Nos dias 26 e 27 de março de 2013, na  
cidade de Durban, na África do Sul, ocorreu  
o quarto encontro do fórum empresarial e foi  
nesta ocasião que foi lançado o Conselho Em-  
presarial do BRICS (Foro de São Paulo, 2013).  
Nesse sentido, é importante destacar que o  
conselho foi fundado oficialmente apenas em  
2013, mas as reuniões do fórum entre os em-  
presários já vinham ocorrendo desde os primei-  
ros diálogos entre os BRICS em 2010 (Garcia,  
2017, p. 383). Com a constituição do Conse-  
lho Empresarial, as reuniões anuais do fórum  
continuam ocorrendo frequentemente. Nos úl-  
timos dois anos, em 2020 e 2021, as temáticas  
dos encontros giraram em torno dos efeitos da  
pandemia de COVID-19 nas relações comer-  
ciais e de investimento nos países BRICS (BRI-  
CS Business Council, 2021).  
A voz e as opiniões do Conselho Empresarial  
do BRICS podem influenciar a agenda da  
cooperação intra-BRICS [...] (encontrando)  
uma base estrutural para construir e fortale-  
cer as relações comerciais e de investimento  
que apoiem o desenvolvimento industrial  
(BRICS Business Council, 2013, p. 01, tra-  
dução própria, grifo nosso).  
Desse modo, o arranjo poderia ser conside-  
rado uma plataforma que facilita o estudo do am-  
biente de negócios de cada um dos países, uma  
vez que as equipes identificam os setores-chave  
que merecem atenção, além de detectarem as  
barreiras e os gargalos que dificultam a promoção  
do comércio, do investimento e da realização de  
negócios entre os países. A partir disso, os relató-  
rios anuais descrevem e sinalizam os problemas  
encontrados e potenciais soluções recomendadas  
às esferas governamentais do BRICS, em forma  
de recomendações a serem implementadas (BRI-  
CS Business Council, 2014, p. 03).  
16 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.12 - 23, fev. 2025  
Apesar das diferenças entre a economia  
dos cinco países, em termos de estrutura pro-  
dutiva, nível de abertura ao exterior, regime de  
câmbio e desafios sociais, o conselho busca arti-  
cular oportunidades de cooperação na perspec-  
tiva do setor privado, apresentando iniciativas e  
recomendações aos governos de seus países para  
fomentar os laços comerciais e de investimento  
(BRICS Business Council, 2015, p. 2). Dessa  
maneira, “o conselho tem encontros regulares  
e funciona com um papel consultivo junto aos  
chefes de Estado” (Ramos; Garcia; Pautasso;  
Rodrigues, 2018, p. 16).  
empresas que lidera as atividades, em conjunto  
com um secretariado e diversos membros, in-  
cluindo empresas e organizações empresariais.  
Além disso, há um presidente escolhido entre  
os CEOs líderes de cada seção (BRICS Busi-  
ness Council, 2019, p. 13). Essa presidência é  
rotativa e anual, de acordo com o país sede das  
reuniões do agrupamento BRICS.  
Os presidentes e membros de cada país  
se reúnem para debater as pautas gerais, mas  
também são divididos em grupos de trabalho  
temáticos. Por isso, além das atividades de pre-  
sidentes e membros, há também líderes que  
conduzem as atividades desses grupos de traba-  
lho. Os membros destes grupos discutem e se-  
lecionam políticas e recomendações mais espe-  
cíficas e técnicas sobre seus setores de atuação,  
direcionando aos governos. Durante o ano, os  
grupos de trabalho realizam pesquisas e análises  
sobre a situação do setor e preparam recomen-  
dações específicas e propõem projetos e inicia-  
tivas que são apresentadas ao conselho, em um  
segundo momento, repassadas aos governantes  
(BRICS Business Council, 2014).  
Considerando isso, o CEBRICS deve ser  
compreendido como um “mecanismo consul-  
tivo dos chefes de Estado e de Governo que  
discute e aponta prioridades para fortalecer e  
promover as relações econômicas, comerciais e  
de investimento”, desde a perspectiva do setor  
privado empresarial, responsabilizando-se não  
só por identificar os problemas e os gargalos,  
mas também oportunidades e áreas específicas  
para promover estas relações (BRICS Business  
Council, 2019, p. 35).  
Dessa forma, tanto o fórum quanto o  
conselho empresarial podem ser considerados  
exemplos dos esforços da cooperação intra-  
-BRICS para além dos Estados-nacionais. Esta  
dinâmica vem sendo organizada com uma es-  
trutura própria e encontros anuais liderados  
pelos grupos empresariais do grupo, como será  
examinado na seguinte seção.  
É importante mencionar que as reuniões  
entre o conselho e membros dos grupos de tra-  
balho ocorrem duas vezes ao ano, sendo uma  
delas durante as cúpulas de chefes de Estado  
dos BRICS (BRICS Business Council, 2019,  
p. 13), criando um espaço de interação direta  
entre os empresários e governantes.  
Os grupos de trabalho mencionados se  
dividem em setores. Nos primeiros anos de  
atuação haviam apenas cinco setores, porém  
as agendas de relevância foram aumentando,  
promovendo a inclusão de outras temáticas a  
serem discutidas e avaliadas. Em 2014, os gru-  
pos eram divididos nos seguintes setores: (a)  
infraestrutura; (b) manufatura; (c) serviços fi-  
nanceiros; (d) energia e economia verde; e (e)  
3 ESTRUTURA  
ORGANIZACIONAL DO  
CONSELHO EMPRESARIAL  
O CEBRICS é composto por 5 seções  
nacionais, cada uma representando um país.  
Estas seções possuem um CEO de uma das  
17 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.12 - 23, fev. 2025  
desenvolvimento de habilidades (BRICS Busi-  
ness Council, 2014, p. 4-5). Na reunião reali-  
zada em 2015 houve a adição de mais um setor:  
o agronegócio. Mais recentemente, outros três  
temas de relevância levaram à constituição de  
grupos de trabalhos específicos: aviação, econo-  
mia digital e desregulamentação (BRICS Busi-  
ness Council, 2023)  
NDB, em 2017, realizado entre o presidente  
do banco na época, Sr. K.V. Kamath, e os cinco  
presidentes do CEBRICS (Novo Banco de De-  
senvolvimento, 2017).  
No ano seguinte, duas reuniões conjuntas  
foram realizadas entre representantes do conse-  
lho e do banco. Em março de 2018, uma das  
reuniões anuais do CEBRICS foi realizada em  
Xangai, reunindo mais de 250 executivos parti-  
cipantes do conselho e representantes do NDB,  
quando ocorreu a passagem da presidência ro-  
tativa do Conselho Empresarial da China para  
a África do Sul (Novo Banco de Desenvolvi-  
mento, 2018a). A segunda reunião em 2018  
foi realizada em julho, quando o CEBRICS  
e o NDB organizaram juntos um “Business  
Breakfast” em Durban, na África do Sul. Neste  
evento, estiveram presentes membros da admi-  
nistração do banco e empresários do conselho,  
que discutiram, principalmente, as oportuni-  
dades de investimento e as perspectivas para  
fortalecer a cooperação entre os dois arranjos,  
e reiteraram a grande contribuição que o CE-  
BRICS poderia desempenhar na identificação  
e implementação dos projetos do banco (Novo  
Banco de Desenvolvimento, 2018b).  
Estes grupos de trabalho também expres-  
sam as áreas que mais demandam investimen-  
tos, indicando possíveis projetos que poderiam  
obter financiamento do banco de desenvolvi-  
mento do BRICS. Desse modo, é importan-  
te destacar a estreita relação do conselho com  
o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB),  
já que tanto durante a etapa de construção e  
concepção do banco, quanto durante os anos  
de consolidação da instituição, houve comuni-  
cações, sugestões e orientações realizadas pelo  
Conselho em direção ao NDB, demonstrando  
o apoio dos empresários à iniciativa (Garcia,  
2017, p. 384).  
Desde reuniões, encontros e conversas  
mútuas entre o CEBRICS e o NDB, é possível  
examinar que o Conselho compreende que o  
banco é um mecanismo importante para a coo-  
peração entre os países BRICS, estabelecendo  
papel positivo na promoção dos laços econô-  
micos e de negócios, favorecendo a construção  
de infraestrutura para melhorar a conectivida-  
de entre os países, servindo como uma plata-  
forma de compartilhamento de informações  
dos projetos prospectivos, e também como um  
instrumento de prevenção de riscos em relação  
ao acesso ao crédito (BRICS Business Council,  
2015, p. 11).  
Além disso, há aproximações anuais du-  
rante o Fórum Empresarial que ocorre anual-  
mente. Nos encontros anuais, o fórum busca  
sempre convidar o presidente do NDB ou  
executivos do banco, para mobilizar ações de  
parceria entre os arranjos (Fórum Empresaria,  
2023).  
A figura abaixo apresenta um resumo das  
principais atividades que sinalizam para re-  
lações de convergência entre o CEBRICS e o  
NDB.  
Uma das ações que marcaram as relações  
entre os dois arranjos foi a assinatura de um  
Memorando de Entendimento (MoU) em  
Cooperação Estratégica entre o CEBRICS e o  
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Figura 1 - Evolução dos Encontros entre CEBRICS e NDB.  
Fonte: elaboração própria.  
Em relação a atual estrutura, a figura a se-  
guir apresenta os nomes dos empresários que  
compõem o núcleo central do CEBRICS e as  
respectivas empresas que representam seus países.  
Neste contexto, cabe destacar que diversas  
empresas multinacionais são estatais e possuem  
alguma relação estreita com seus governos,  
principalmente no caso da China. Outras ins-  
tituições podem ser categorizadas como asso-  
ciações ou federações que representam setores  
específicos, que atuam no âmbito dos grupos  
de trabalho, como é o caso da Federação das  
Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) no  
Brasil e da Federação de Câmaras de Comércio  
e Indústria da Índia.  
Figura 2 - Presidentes e Membros do Conse-  
lho Empresarial do BRICS em 2023.  
Em relação aos setores que estas empresas  
representam, há uma distribuição em relação  
às temáticas dos grupos de trabalho, apesar de  
certos setores se destacarem, com mais empre-  
sas representantes que outros, como o de Ma-  
nufatura, Infraestrutura e Financeiro.  
Portanto, a estrutura do CEBRICS foi se  
consolidando durante estes 10 anos, construin-  
do arranjos para ampliar a cooperação entre  
os setores e as empresas, além de estabelecer  
aproximações com o NDB. A convergência do  
Conselho com o banco também pode ser ob-  
servada através da avaliação das agendas e in-  
teresses prioritários, como será investigado na  
seguinte seção.  
Fonte: elaboração própria com base em BRICS Business Cou-  
ncil (2023).  
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equipe da China, que iria facilitar a realização  
deste portal em parceria com o secretariado do  
CEBRICS. Atualmente a plataforma está em  
operação5, hospedando informações gerais so-  
bre o conselho, além de um banco de dados das  
principais empresas do BRICS (BRICS Busi-  
ness Council, 2014, p. 09).  
4 AGENDAS PRIORITÁRIAS DO  
CEBRICS  
Em relação à evolução das pautas centrais  
debatidas pelo conselho, observamos que as  
demandas iniciais eram mais gerais, buscan-  
do bases fundamentais para o fortalecimento  
das trocas comerciais, porém com o progresso  
das discussões e com as mudanças no contexto  
internacional, as agendas se direcionam para  
questões mais específicas.  
Além da reafirmação de demandas an-  
teriores - como a facilitação de trocas people-  
-to-people6 com a simplificação dos processos  
de vistos, a aceleração do estabelecimento do  
NDB, a harmonização de padrões técnicos e a  
criação de ambientes favoráveis para a promo-  
ção do comércio e de investimentos – o relató-  
rio também destaca ações direcionadas ao con-  
tinente africano. Nesse sentido, são sugeridos a  
construção de um ambiente mais favorável para  
realização de negócios entre a África e os países  
do BRICS, aumentando a cooperação de agên-  
cias financeiras, promovendo o comércio de  
bens de valor agregado e parcerias em diversos  
setores, como agro-processamento, mineração,  
manufatura de valor agregado e infraestrutura  
(BRICS Business Council, 2014, p. 07).  
O primeiro documento lançado pelo  
conselho foi o “Joint Statement of the BRICS  
Business Council Meeting” em 2013, após a  
realização da reunião em Johanesburgo. Neste  
documento, diversas propostas foram apresen-  
tadas, principalmente em direção à cooperação  
em diversos setores, além da busca por parce-  
rias público-privadas entre os países BRICS e  
a África (BRICS Business Council, 2013, p.  
01). Além disso, o documento também ex-  
pressa diversas recomendações para os gover-  
nos do BRICS, como: (a) facilitar a expedição  
de vistos de negócios e a criação um cartão de  
negócios do BRICS para favorecer as relações  
comerciais; (b) melhorar a conectividade; (c)  
criar uma plataforma de troca de informa-  
ções do conselho; (d) aumentar a cooperação  
na harmonização de normas técnicas; (e) de-  
monstrar interesse pela aceleração da criação  
de um Banco de Desenvolvimento do BRICS;  
e (f) aumentar o comércio de valor agregado  
entre os BRICS (BRICS Business Council,  
2013, p. 02).  
No documento lançado em 2015, desta-  
cam-se prioridades na agenda de discussão, re-  
presentando recomendações-chave aos governos  
do BRICS, que em certa medida sintetiza as  
principais recomendações dos empresários aos  
governantes, nos primeiros anos do conselho: a)  
Criação de um ambiente de negócios favorável,  
com o fornecimento de informações sobre como  
realizar negócios em seus respectivos países, com  
foco na promoção da transparência sobre as le-  
gislações locais e requisitos para comércio e in-  
vestimentos; b) Estabelecimento de uma infraes-  
trutura para suportar o pagamento em transações  
No relatório anual publicado em 2014,  
estas propostas e recomendações são aprofun-  
dadas e detalhadas, além de somarem novas  
ideias e sugestões. A criação de um portal entre  
os negócios do BRICS, para acelerar a troca de  
informações entre os atores, foi direcionada à  
5 Link para acessar a plataforma: http://www.brics-info.org  
6 Relações entre grupos transfronteiriços que estabelecem co-  
municações, trocas e interações.  
20 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.12 - 23, fev. 2025  
comerciais em moedas locais dos países BRICS;  
c) Discussões para a facilitação de viagens de  
negócios, com a possibilidade de criação de um  
BRICS Business Travel Card”, assim como acor-  
dos de isenção de vistos recíprocos e acordos de  
facilitação de vistos; d) Implementação de facili-  
tações de comércio, cooperando principalmente  
em demandas comuns nos acordos da OMC;  
e) Negociações em direção a convergências e  
cooperações nas regulações dos países BRICS,  
buscando estreitar as relações entre as autorida-  
des regulatórias; f) Promover a cooperação no  
desenvolvimento de infraestrutura, a fim de ge-  
rar crescimento econômico, maior qualidade de  
vida para a população e preservação ambiental;  
g) Melhorar os laços de investimento, incenti-  
vando iniciativas para facilitação de investimen-  
tos e projetos conjuntos; h) Reconhecer o papel  
consultivo do CEBRICS no estabelecimento de  
diálogos com as estruturas governamentais dos  
países; i) Endossar as recomendações do CEBRI-  
CS ao Novo Banco de Desenvolvimento (BRI-  
CS Business Council, 2015, p. 04).  
vantagens de recursos e experiência para construir  
uma relação de longo prazo, estável e mutuamente  
benéfica e, em conjunto, promoverão a coopera-  
ção entre os países do BRICS e o desenvolvimento  
deles” (Novo Banco de Desenvolvimento, 2017a,  
tradução própria). Essa relação se tornou ainda  
mais estreita no ano seguinte, 2018, quando uma  
das reuniões do conselho empresarial foi realizada  
em Shanghai (China), com a presença do NDB,  
favorecendo a troca de informações e iniciativas  
em conjunto entre os dois arranjos (Novo Banco  
de Desenvolvimento, 2018a).  
Já no relatório anual de 2019, destaca-se a  
relevância da inovação para o desenvolvimento  
econômico, uma vez que diversas recomenda-  
ções e prioridades apontadas estão relaciona-  
das com setores da tecnologia e promoção de  
inovação, como por exemplo: a) elementos  
mais técnicos nas relações comerciais - com-  
partilhamento de melhores práticas na área  
de biotecnologia e certificados fitossanitários  
eletrônicos; b) ferramentas de fomento à ino-  
vação - estabelecimento de uma rede de hubs  
de inovação, incentivo a iniciativas de P&D e  
promoção financeira e técnica de projetos e so-  
luções de plataformas digitais da Indústria 4.0  
(BRICS Business Council, 2019, p. 10-11)  
A partir de 2020, com o decorrer das dis-  
cussões envolvendo a pandemia de Covid-19, os  
documentos lançados pelo conselho enfatizam a  
relevância dos desafios que surgiram com a crise sa-  
nitária. No relatório anual foram mencionadas di-  
versas recomendações aos governantes com o obje-  
tivo de criar soluções e mecanismos para mitigar os  
efeitos da pandemia, a partir da busca por formas  
de minimizar as interrupções no comércio global  
e de equilibrar três fatores em questão (a recupera-  
ção rápida, a continuidade de empresas e setores e  
a consideração pelas questões ambientais e sociais),  
além do empenho em iniciativas de cooperação no  
Na agenda de 2016, houve a inclusão  
de outras demandas que merecem destaque,  
como o apoio a iniciativas conjuntas, visando  
o desenvolvimento de mercados nacionais, e  
assessorados pelos grupos de trabalho do CE-  
BRICS, além da promoção de laços comerciais  
inter-regionais e da remoção de barreiras admi-  
nistrativas entre os BRICS. Além disso, tam-  
bém é expressado um anseio pela promoção de  
uma cooperação entre o CEBRICS e o NDB  
(BRICS Business Council, 2016, p. 02).  
Dessa forma, em 2017, após diversas men-  
ções nos documentos oficiais do conselho empre-  
sarial, a relação com o NDB foi formalizada através  
da assinatura de um Memorando de Entendimen-  
to com o CEBRICS. Este documento destaca  
que ambos os lados aproveitarão “suas respectivas  
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fornecimento de equipamentos e medicamentos e  
no compartilhamento de experiências e melhores  
práticas (BRICS Business Council, 2020, p. 72).  
Na reunião de 2021 ainda foram discutidos os  
aspectos referentes à pandemia, porém, os empresá-  
rios avaliaram o período de recuperação pós-pan-  
dêmica como uma oportunidade para endereçar  
desafios globais como a agenda de desenvolvimento  
sustentável de forma conjunta, alinhando os objeti-  
vos da Agenda 2030 com as iniciativas para recupe-  
ração econômica (BRICS Business Council, 2021,  
p. 03). Nesse sentido, o conselho destacou ações e  
prioridades a serem consideradas não só pelas em-  
presas nos países BRICS, mas também pelos gover-  
nos, abrangendo os elementos que contribuam para  
o cumprimento da Agenda 2030 (BRICS Business  
Council, 2021, p. 83-84).  
O relatório de 2022/2023 apresenta um  
apanhado das principais prioridades e ativi-  
dades do conselho empresarial, salientando as  
demandas e os elementos em destaque durante  
os últimos 10 anos. Neste âmbito, o documen-  
to demonstra três áreas de atuação: a) parcerias  
entre governos e empresas; b) promoção de co-  
mércio e investimento; c) aprendizado e com-  
partilhamento de conhecimento. Além disso,  
o relatório também evidencia novas iniciativas  
que estão planejadas para os próximos 10 anos,  
incluindo eventos para promoção do comércio  
digital, parcerias visando o desenvolvimento  
sustentável, ações buscando a cooperação nas  
cadeias de produção, entre outras propostas  
(BRICS Business Council, 2023, p. 11-13).  
Como sintetizado na tabela abaixo:  
Tabela 1: Síntese dos 10 anos de atividades do CEBRICS  
Fonte: elaboração própria7.  
7 Com base em BRICS BUSINESS COUNCIL, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, 2018, 2019, 2020, 2021, 2023.  
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Nesse sentido, é possível afirmar que o  
CEBRICS é um arranjo no escopo do agru-  
pamento BRICS que traduz as demandas e  
os interesses dos grupos empresariais de seus  
membros. A partir de seu papel na coordena-  
ção dos interesses dos grupos empresariais dos  
países BRICS, o Conselho também buscaria se  
colocar como uma organização que estabelece a  
função de um conselho consultivo para os exe-  
cutivos do NDB, compreendendo as agendas  
e as demandas estratégicas para a promoção de  
relações comerciais, de investimento e de ne-  
gócios (Ramos; Garcia; Pautasso; Rodrigues,  
2018, p. 16).  
tar sua incidência sobre os governos. A articulação  
entre os empresários, mediante esta estrutura, cria  
um espaço para maior aproximação de interesses  
e demandas comuns e estabelece um canal de in-  
teração entre os atores privados e governos.  
Nesse sentido, este espaço de coordenação  
de políticas e demandas extrapola o âmbito do  
conselho empresarial em si, pois os membros  
se empenham para apresentar propostas e re-  
comendações não apenas aos governos – com  
relatórios que são apresentados nas cúpulas  
anuais do BRICS -, como também aos executi-  
vos do NDB, a partir do mapeamento de áreas  
prioritárias para o financiamento de projetos.  
Dessa maneira, além da avaliação da consoli-  
dação do Conselho Empresarial, o artigo também  
defende que há convergências de interesses entre  
o Conselho e as dinâmicas de financiamento do  
Banco, desde do início da concepção da institui-  
ção. Nesse sentido, o CEBRICS pode ser avalia-  
do como um arranjo que traduz as demandas e  
os interesses dos grupos empresariais do BRICS.  
Por sua vez, essas demandas acabam convergindo  
em termos de setores, projetos e temas prioritários  
nas operações e nas atividades do NDB.  
Por sua vez, o banco atente as demandas  
setoriais dos atores que compõem o conselho.  
A própria materialidade dos financiamentos  
realizados representa um movimento de con-  
vergência do banco com o conselho, uma vez  
que os setores atendidos pelos projetos são  
correspondentes com as demandas destacadas  
pelo CEBRICS. As duas principais pautas de  
interseção entre eles são a grande demanda por  
infraestrutura e o grande interesse em inves-  
timentos sustentáveis. Estas agendas acabam  
sendo correspondidas no financiamento ofere-  
cido pelo NDB, em que se destacam os proje-  
tos para o setor de transporte, energia limpa e  
desenvolvimento urbano (Novo Banco de De-  
senvolvimento, 2023).  
Dessa forma, os 10 anos de existência desta  
estrutura demonstra diversos motivos para que  
este arranjo seja analisado, principalmente com-  
preendendo seu papel frente às discussões no âm-  
bito governamental e institucional do BRICS.  
Entretanto, é necessário refletir a atuação  
do CEBRICS no atual cenário de expansão do  
agrupamento, com a entrada de 6 novos países-  
-membros no grupo (Egito, Etiópia, Irã, Emira-  
dos Árabes Unidos, Arábia Saudita e Indonésia).  
Nesse sentido, novos atores e empresas passam  
a integrar esta esfera de diálogo e cooperação,  
o que pode levar a mudanças e transformações  
nas pautas e agendas de interesse, além de novas  
oportunidades e desafios nesta nova estrutura.  
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS  
Este artigo teve o objetivo de fazer um ba-  
lanço dos 10 anos do Conselho Empresarial do  
BRICS, mostrando a evolução da sua constitui-  
ção e das temáticas tratadas. O CEBRICS pode  
ser considerado como um instrumento de articu-  
lação entre as empresas multinacionais dos países  
BRICS com vistas a debater prioridades e aumen-  
23 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.12 - 23, fev. 2025  
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24 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte,  
ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.24 - 38, fev. 2025  
24 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.24 - 38, fev. 2025  
Artigo  
Alavanca para a ascensão das  
margens? Uma análise da agenda da  
agenda de invocação tecnológica do  
BRICS1  
Lever for the Rise of the Margins? An Analysis of the BRICS Technological Innovation  
Agenda  
¿Palanca para el Ascenso de los Márgenes? Un Análisis de la Agenda de Innovación Tec-  
nológica de los BRICS  
Laís Melo de Souza2  
Henrique Zeferino de Menezes3  
Recebido em: 14 de novembro de 2025  
Aceito em: 12 de agosto de 2025  
RESUMO  
Este artigo analisa a agenda de inovação do BRICS, destacando seu potencial estratégico  
no desenvolvimento socioeconômico e no reposicionamento dos países do bloco no cenário  
internacional. O artigo apresenta uma visão da estrutura institucional do bloco e  
examina, a partir de dois estudos de caso, o potencial quanto às limitações da cooperação  
em inovação tecnológica dos países, além dos obstáculos e perspectivas para ampliação do  
impacto global do BRICS. Embora o BRICS enfrente desafios estruturais nessa agenda,  
como um engajamento frágil e instável, além de limitações financeiras e orçamentárias, o  
grupo busca, por meio de parcerias e mecanismos colaborativos, estimular a transferência  
de tecnologia e promover o desenvolvimento sustentável.  
Palavras-chave: BRICS; inovação tecnológica; cooperação internacional.  
ABSTRACT  
is paper analyses the BRICS innovation agenda, highlighting its strategic potential for  
socioeconomic development and for repositioning the bloc’s countries in the international  
arena. e paper presents an overview of the bloc’s institutional structure and examines,  
through two cases, the potential and limitations of technological innovation cooperation  
among the countries, as well as the obstacles and prospects for expanding BRICS’s global  
1 Os autores agradecem ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (420318/2023-2) e ao Instituto Nacio-  
nal de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU) pelo apoio à pesquisa.  
2 Laís Melo de Souza é graduada em Relações Internacionais pela Universidade Federal da Paraíba e atualmente é mestranda  
em Economia do Desenvolvimento e Estudos Internacionais na Friedrich-Alexander-Universität Erlangen-Nürnberg, Alemanha.  
Email: olalais.melo@gmail.com.  
3 Henrique Zeferino de Menezes é professor do Departamento de Relações Internacionais e do Programa de pós-graduação em  
Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Email: hzmenezes@ccsa.ufpb.br. Orcid:  
https://orcid.org/0000-0002-1385-7957  
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impact. Although BRICS faces structural challenges in this agenda, such as fragile and  
unstable engagement, along with financial and budgetary constraints, the group seeks,  
through partnerships and collaborative mechanisms, to foster technology transfer and  
promote sustainable development.  
Keywords: BRICS; technological innovation; international cooperation.  
RESUMEN  
Este artículo analiza la agenda de innovación de los BRICS, destacando su potencial  
estratégico en el desarrollo socioeconómico y en el reposicionamiento de los países del bloque  
en el escenario internacional. El artículo presenta una visión de la estructura institucional  
del bloque y examina, a partir de dos estudios de caso, tanto el potencial como las  
limitaciones de la cooperación en innovación tecnológica entre los países, además de los  
obstáculos y perspectivas para ampliar el impacto global de los BRICS. Aunque los BRICS  
enfrentan desafíos estructurales en esta agenda, como un compromiso frágil e inestable, así  
como limitaciones financieras y presupuestarias, el grupo busca, mediante asociaciones y  
mecanismos colaborativos, fomentar la transferencia de tecnología y promover el desarrollo  
sostenible.  
Palabras clave: BRICS; innovación tecnológica; cooperación internacional.  
(FMI, 2024; Statista, 2024). Recentemente,  
na cúpula de Kazan, realizada no final de 2024,  
foram definidos novos critérios de adesão ao  
bloco, além do convite para a participação de  
mais 13 países como “estados parceiros”4.  
1 INTRODUÇÃO  
O termo “BRIC” foi cunhado em 2001  
pelo economista do Goldman Sachs Jim  
O’Neil para destacar o potencial econômico de  
Brasil, Rússia, Índia e China. Com o tempo,  
o grupo se institucionalizou, realizando sua  
primeira cúpula oficial em 2009, na cidade de  
Ecaterimburgo. Desde então, o bloco vem se  
fortalecendo, seja em razão de seu alargamento  
geográfico, do aumento do seu poder econô-  
mico ou da complexificação da sua agenda e  
arquitetura institucional.  
Outra dimensão importante da institucio-  
nalização do bloco está na formação de fóruns  
permanentes de discussão e de cooperação téc-  
nica, além da criação de organismos internacio-  
nais, como o Novo Banco de Desenvolvimento  
(NBD) e o Arranjo Contingente de Reservas  
(ACR). Como consequência, o BRICS tam-  
bém passou por um processo de diversificação  
de sua agenda de cooperação, abrangendo ques-  
tões estruturantes, como a reforma da gover-  
nança global e de suas instituições, alcançando  
também aspectos sensíveis do desenvolvimento  
econômico e da sustentabilidade.  
A primeira ampliação do bloco aconteceu  
em 2010, com a entrada da África do Sul, le-  
vando à atualização da sigla para ‘BRICS’. Na  
cúpula de Joanesburgo, realizada em 2023, foi  
anunciada a entrada de seis novos membros -  
Argentina, Arábia Saudita, Egito, Emirados  
Árabes Unidos, Etiópia e Irã, apesar da recusa  
do país sul-americano. A versão ampliada do  
BRICS representa, em 2024, cerca de 36% do  
PIB mundial, superando os 29,64% do G7  
Apesar das diferenças e assimetrias de  
poder entre seus membros, o arranjo tem am-  
pliado sua relevância política internacional.  
4 São eles: Turquia, Indonésia, Argélia, Belarus, Cuba, Bolí-  
via, Malásia, Uzbequistão, Cazaquistão, Tailândia, Vietnã,  
Nigéria e Uganda.  
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Baseado em um discurso que reflete demandas  
particulares, mas também de interesse dos paí-  
ses periféricos, o grupo une forças para elevar  
suas posições e construir caminhos alternativos  
na governança global, consolidando-se como  
um ator político indispensável nas relações  
internacionais. Entre as agendas comuns, o  
estímulo à inovação, ao desenvolvimento in-  
dustrial e à mudança tecnológica é parte cen-  
tral e estratégica da agenda de colaboração do  
bloco, recebendo a maior parte dos esforços  
colaborativos (Papa, Han e O’Donnell, 2023).  
Na formulação política do bloco, a inovação  
e a transformação tecnológica são elementos  
estratégicos para o desenvolvimento socioeco-  
nômico dos países e para o reposicionamento  
dos países do bloco na divisão internacional do  
trabalho, com vistas à redução das desigualda-  
des globais.  
à centralidade desta agenda nos interesses de  
cooperação do BRICS, como explicam Papa,  
Han e O’Donnell (2023), este artigo se propõe  
a analisar as potencialidades e as fragilidades da  
agenda de inovação tecnológica do bloco. Para  
tanto, será realizada uma avaliação da estrutu-  
ra organizacional do bloco, com o objetivo de  
mapear os significados políticos e práticos da  
cooperação nesse campo. Para isso, será apre-  
sentada uma historicização da construção da  
agenda de inovação tecnológica do bloco, uti-  
lizando documentos e publicações produzidos  
pelo BRICS, além da elaboração de uma taxo-  
nomia organizacional do agrupamento. Nesta  
etapa, também serão apresentados dois estudos  
de caso de iniciativas concretas de cooperação  
em ciência, tecnologia e inovação, ilustrando a  
complexidade do processo de tomada de deci-  
são.  
A inovação tecnológica é central para via-  
bilizar o desenvolvimento econômico e susten-  
tável, produzindo ganhos de eficiência e pro-  
dutividade ao permitir, em certa medida, uma  
inserção competitiva no mercado internacio-  
nal. Como sintetizado por Dani Rodrik e Jose-  
ph E. Stiglitz (2024), a inovação é condição ne-  
cessária para transformações estruturais na base  
produtiva dos países, proporcionando ganhos  
econômicos relevantes que viabilizem mudan-  
ças sociais significativas. Da mesma forma, a  
inovação tecnológica tem sido tratada como  
solução necessária para o desenvolvimento sus-  
tentável, garantindo ganhos produtivos com  
efeitos sobre problemas estruturais que limitam  
mudanças sociais e ambientais mais urgentes  
(Menezes, 2020).  
A agenda de inovação do BRICS não é  
recente nem emergencial, refletindo uma com-  
preensão estratégica de longo prazo sobre o pa-  
pel da C,T&I no desenvolvimento dos países  
do bloco. Embora existam compromissos po-  
líticos, instrumentos colaborativos e objetivos  
compartilhados, o avanço dessa agenda enfren-  
ta desafios estruturais – ao mesmo tempo em  
que o BRICS busca se afirmar como protago-  
nista internacional no campo da inovação tec-  
nológica, sua arquitetura flexível e a assimetria  
de interesses entre os membros podem limitar  
a obtenção de resultados concretos. A análise  
dos casos, com foco em aspectos como o com-  
prometimento financeiro, a prevalência de me-  
canismos não compulsórios e a recorrência de  
ciclos de desengajamento, contribui para com-  
preender as dinâmicas internas da estrutura or-  
ganizativa do bloco e os limites práticos de sua  
implementação.  
Considerando a centralidade da inovação  
tecnológica para o desenvolvimento econômi-  
cos dos países e para a compreensão de dinâmi-  
cas essenciais nas relações internacionais, aliada  
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conhecimentos e produtos, serviços e pro-  
2 A CONSTRUÇÃO DA  
AGENDA DE INOVAÇÃO DO  
BRICS  
cessos inovadores, utilizando instrumentos  
adequados de investimento e financiamento;  
(iv) promover, onde apropriado, parcerias  
conjuntas do BRICS com outros atores es-  
tratégicos do mundo em desenvolvimento.”  
(Cape Town Declaration, 2014, p. 2, tradu-  
ção nossa).  
A inovação tecnológica recebe grande aten-  
ção na estratégia dos BRICS, estimulando políti-  
cas colaborativas que visem fortalecer a capacita-  
ção técnica dos países. No Action Plan 2021-2024  
essa questão é expressa de forma clara:  
O MoU estabelece as bases para promo-  
ver a colaboração em inovação, indicando mo-  
dalidades preferenciais de cooperação, como  
mecanismos compartilhados de troca de infor-  
mações e acordos para intercâmbio de capital  
humano e acesso às estruturas inovadoras dos  
países membros. Ele define os compromissos  
iniciais e os organismos a serem implementa-  
dos, além de reforçar as responsabilidades das  
entidades envolvidas. Além disso, formaliza os  
compromissos delineados na declaração da Cú-  
pula de 2015, onde os membros reafirmam :  
“Inovação é uma das principais forças pro-  
motoras do desenvolvimento sustentável glo-  
bal, desempenhando um papel fundamental  
na promoção do crescimento econômico,  
apoiando a criação de emprego, empreende-  
dorismo e reformas estruturais, aumentando  
a produtividade e a competitividade, promo-  
vendo melhores serviços aos cidadãos e en-  
frentando os desafios globais” (BRICS, 2021,  
p. 2, tradução nossa).  
A agenda colaborativa de inovação do blo-  
co começou a se formar em 2011 e foi conso-  
lidada com o Primeiro Encontro Ministerial de  
Ciência, Tecnologia e Inovação que resultou na  
Cape Town Declaration em 2014. Nessa decla-  
ração, foram definidas cinco áreas prioritárias,  
com cada país membro assumindo a liderança  
de uma: a) o Brasil em mudanças climáticas e  
mitigação de desastres naturais; b) a Rússia em  
recursos hídricos e tratamento da poluição; c) a  
Índia em tecnologia geoespacial e suas aplica-  
ções; d) a China em energia renovável e eficiên-  
cia energética; e) a África do Sul em astronomia  
(Kubota, 2019; BRICS, 2014 - tradução nossa).  
A declaração impulsiona a publicação  
“a vontade de reforçar a cooperação em ciên-  
cia tecnologia e inovação com o propósito de  
promover um desenvolvimento social e eco-  
nômico inclusivo e sustentável, diminuindo  
a diferença científica e técnica entre os países  
do BRICS e os países desenvolvidos, promo-  
vendo uma nova qualidade de crescimento  
baseada na complementaridade econômica,  
assim como encontrando soluções para os de-  
safios que a economia mundial enfrenta hoje”  
(BRICS, 2015a, p. 35, tradução nossa).  
Como resultado do MoU e da sua con-  
cepção de cooperação voluntária, foi lançado  
o BRICS Action Plan to Innovation Cooperation  
(2017), sendo o primeiro a planejar os esforços  
práticos de inovação no bloco. O Action Plan de-  
fine não somente as agendas nas quais a inova-  
ção será fomentada, mas também nomeia meca-  
nismos que irão servir de impulso para avançar  
essas temáticas. De forma específica, delimita a  
prioridade para a criação de parques científicos e  
tecnológicos nos países do BRICS, combinando  
do BRICS Memorandum of Understanding in  
Science, Technology and Innovation (MoU) que  
deveria servir como elemento estratégico, para  
“(i) fortalecer a cooperação em ciência, tec-  
nologia e inovação; (ii) lidar com desafios  
socioeconômicos globais e regionais comuns,  
utilizando experiências compartilhadas e  
complementaridades; (iii) coproduzir novos  
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o fomento à inovação com o empreendedorismo  
e a facilitação da mobilidade de recursos huma-  
nos (Dallasta Del Grossi, 2020, p. 149).  
3 A ARQUITETURA  
INSTITUCIONAL DA AGENDA  
DE INOVAÇÃO DO BRICS  
A Cúpula de Joanesburgo, em 2018, mar-  
cou um novo ponto de virada para fortalecer a  
agenda de inovação do BRICS, com revisões  
de demandas e a introdução de novas temáti-  
cas e mecanismos (Dallasta Del Grossi, 2020).  
Nesta cúpula, além de reforçar a ambição pelo  
desenvolvimento de estruturas físicas compar-  
tilhadas, foi lançado o BRICS Partnership on  
New Industrial Revolution, voltado aos desafios  
da quarta revolução industrial.  
O objetivo desta seção é apresentar a  
agenda de inovação dos BRICS, compreenden-  
do seu desenho institucional e os instrumen-  
tos que a integram. Para isso, ela se organiza  
em três partes. Inicialmente, será apresentado  
o mecanismo organizacional geral do BRICS,  
que serve de base para a conformação da agen-  
da de inovação. Em seguida, serão delineados  
os eixos centrais que estruturam essa agenda,  
considerando suas temáticas mais relevantes,  
além de uma análise específica sobre os instru-  
mentos que a operacionalizam.  
Em 2019, com as necessidades de mu-  
dança evidenciadas no ano anterior, a agen-  
da expandiu-se além do STI Working Group,  
inaugurando uma nova estrutura mais clara e  
coordenada. Em consonância com os pilares do  
MoU (2015), a cooperação em STI foi subdivi-  
dida em quatro áreas: a) colaboração em pesqui-  
sa científica, b) fortalecimento de infraestrutura  
de pesquisa, c) inovação tecnológica, d) susten-  
tabilidade (BRICS, 2020b, p. 12). Além disso,  
foram adicionados nove novos grupos de traba-  
lho temáticos sobre questões contemporâneas,  
permitindo uma abordagem mais específica.  
O que se percebe é que a agenda de inova-  
ção do BRICS tem pilares políticos bem defini-  
dos, buscando combinar os interesses particula-  
res e equilibrar as assimetrias técnicas entre os  
membros, para avançar na construção de capaci-  
dades colaborativas. A agenda de inovação baseia  
seu desenho de prioridades em um mosaico de  
interesses de atores em desenvolvimento, ambi-  
ções compartilhadas e construção de consensos  
custosos. A seguir, apresentaremos as estruturas  
institucionais desenvolvidas, para construir uma  
base de discussão sobre as potencialidades e as  
limitações da agenda de colaboração do bloco  
no campo da inovação tecnológica.  
3.1. Taxonomia organizacional dos  
BRICS  
Como acontece com a maioria das agendas  
de cooperação dentro do BRICS, a de inovação  
está inserida nas estruturas organizacionais do  
grupo. Com o objetivo de preservar a autono-  
mia dos membros, que possuem características  
tão distintas, garantir a tomada de decisões por  
consenso e, ao mesmo tempo, criar um percur-  
so organizacional que possibilite uma agenda  
comum, o BRICS submete suas pautas a uma  
estrutura político-administrativa bem planeja-  
da e aparentemente estável.  
A organização é dividida em dois níveis  
principais. O alto nível administrativo, de ca-  
ráter estratégico, é composto pelas Summits e  
Encontros Ministeriais, que contam com a par-  
ticipação de chefes de estado ou representantes  
de alto escalão de cada membro. Este nível se  
complementa com o que se pode denominar  
de nível tático, incluindo as Senior Official  
Meetings (SOM) e os Secretariados (BRICS,  
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2020b, p. 13). Como as duas modalidades do  
nível tático não são adotadas de forma homo-  
gênea no arranjo e aparecem apenas em algu-  
mas agendas, podem ser interpretadas como  
um apêndice do nível estratégico.  
pelas diretrizes definidas pelo alto nível. Esta  
instância é responsável pela implementação  
prática das metas do grupo, contando com o  
engajamento e o trabalho de representantes  
nomeados por cada país do bloco. A figura 1  
apresenta uma representação da estrutura orga-  
nizacional do bloco.  
O baixo nível administrativo (low admi-  
nistrative level) é a esfera operacional, caracte-  
rizada por maior flexibilidade, sendo orientada  
Figura 1: Taxonomia organizacional do BRICS  
Fonte: Elaboração própria. Baseado no BRICS STI Overview (2020).  
Os Summits, nos quais os chefes de Esta-  
do dos países membros se reúnem anualmen-  
te, são o espaço dedicado à definição política  
dos consensos e dos macro objetivos do gru-  
po, além de determinar os níveis de esforços a  
serem mobilizados para avançar nos interesses  
comuns identificados. A partir dessas delibera-  
ções, os Encontros Ministeriais aprofundam as  
pautas estabelecidas nas Summits, revisitando-  
-as com o objetivo de definir os processos e ob-  
jetivos específicos a serem implementados den-  
tro do arranjo. Além destas, quando presentes e  
operantes, as Senior Official Meetings5 comple-  
mentam as discussões das pautas no alto nível.  
Os Grupos de Trabalho (GT), integra-  
dos ao baixo nível administrativo, funcionam  
como um intermediário entre as determina-  
ções do alto nível e sua execução prática. Com  
um papel essencialmente operacional, os GT  
– que em raros casos podem ser nomeados Ad-  
visory Groups – atuam sobre os interesses es-  
tratégicos e compromissos estabelecidos, con-  
vertendo-os em acordos e iniciativas concretas,  
conforme as tarefas e competências atribuídas  
pelas reuniões ministeriais. Assim, os planos e  
iniciativas representam o ponto de chegada,  
onde as pautas decididas pelo bloco são efeti-  
vamente materializadas.  
5 Apesar de se fazer ativo na estrutura da temática de Ciência,  
Tecnologia e Inovação (CTI), este não é um elemento admi-  
nistrativo regular e presente em todas as agendas.  
30 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.24 - 38, fev. 2025  
3.2. Destrinchamento da agenda de  
inovação  
de inovação tecnológica, identificando as ini-  
ciativas e mecanismos específicos disponíveis  
para implementar os interesses de inovação do  
grupo. O mapeamento detalhado dos elemen-  
tos que compõem e viabilizam essa agenda foi  
feito a partir dos Summit Reports, relatórios de  
Ministerial Meetings e outros documentos de  
trabalho do BRICS.  
A leitura e análise dos Reports6 anuais,  
produzidos como resultado dos Summits, per-  
mite apreender os elementos estruturais e os  
objetivos gerais do bloco, incluindo aqueles  
relacionados à agenda de inovação do BRICS.  
Além disso, é possível perceber a forma como  
a inovação tecnológica perpassa diversas outras  
áreas de cooperação do bloco, configurando-se  
como um esforço transversal para o alcance de  
múltiplos objetivos.  
A Figura 2 ilustra os instrumentos dis-  
poníveis, mostrando sua alocação conforme  
a taxonomia organizacional do grupo, o que  
também possibilitou traçar o perfil desses me-  
canismos e sua distribuição nas agendas sele-  
cionadas. Compreendendo o padrão organiza-  
cional do BRICS e suas principais agendas de  
inovação, a análise a seguir explora as estrutu-  
ras, planos e iniciativas que, dentro do modelo  
high-low level, buscam avançar as ambições do  
bloco. No entanto, o mapeamento é desafiador,  
principalmente devido às constantes mudanças  
na organização documental, causadas pela ro-  
tatividade anual da presidência, à falta de uma  
base de dados e documentos unificada que cen-  
tralize informações sobre instituições e planos e  
à ausência de continuidade e manutenção em  
muitos dos mecanismos criados.  
Além dos macrotemas associados ao de-  
senvolvimento econômico, ao crescimento  
mútuo e inclusivo e ao fortalecimento da go-  
vernança do bloco, é possível identificar áreas  
específicas de interesse nas quais a conexão com  
a agenda de inovação é essencial. Para aprofun-  
dar a compreensão dessa agenda, dado seu ca-  
ráter transversal, foram selecionados temas nos  
quais a inovação tecnológica desempenha um  
papel central. Esses temas incluem: desenvol-  
vimento sustentável, com foco no desenvolvi-  
mento industrial sustentável; saúde, abordando  
esforços de pesquisa para o desenvolvimento e  
produção de tecnologias farmacêuticas; tecno-  
logias da informação e comunicação (ICT),  
voltadas para a economia digital; energia, com  
ênfase em fontes renováveis; e mudanças cli-  
máticas e meio ambiente, com o objetivo de  
promover a economia verde e prevenir desas-  
tres ambientais7.  
Com base nessas categorias, foi possível  
examinar a estrutura organizacional da agenda  
6 Foram analisadas a XII, XIII, XIV e XV Summit que cor-  
respondem respectivamente aos anos de 2020, 2021, 2022  
e 2023.  
7 A divisão das temáticas adotadas para o mapeamento são  
classificações já utilizadas nos relatórios de trabalhos do pró-  
prio BRICS e também de outras organizações que estudam  
o arranjo, como o BRICS Research Group.  
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Figura 2: Mapeamento dos elementos da agenda de inovação  
Fonte: Elaboração própria, 2024.8  
8 A imagem foi construída a partir da revisão de diversos documentos de trabalho publicados pelo BRICS, com um recorte temporal  
de 2015-2023. Ainda assim, o mapeamento se limita às 5 áreas temáticas escolhidas, e também se preocupa em deixar de fora os  
instrumentos que não chegaram à implementação prática.  
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A temática com maior concentração de  
instrumentos operacionais (WG, planos e ini-  
ciativas) é a de desenvolvimento sustentável,  
acumulando 15 das 31 iniciativas contabiliza-  
das. A maturidade do modelo high-low nessa  
agenda – evidenciada por um percurso estra-  
tégico-operacional completo e pela diversidade  
e quantidade de instrumentos criados – apesar  
de já esperado, visto a transversalidade da temá-  
tica, reflete o alto interesse do BRICS em unir  
esforços para impulsioná-la. Além de essenciais  
para o crescimento doméstico dos países mem-  
bros, esta é uma pauta relevante na economia  
global e necessária para reforçar o protagonis-  
mo do grupo.  
A fase operacional do BRICS divide-se em  
duas etapas principais: a formulação de planos  
de ação e a construção de iniciativas específi-  
cas. Os planos são documentos estruturados  
que consolidam consensos e compromissos  
dos membros, enquanto as iniciativas surgem  
dessas diretrizes e são implementadas de for-  
ma prática. Essas iniciativas permitem explorar  
os canais de inovação tecnológica e expõem as  
complexidades e fragilidades dos compromis-  
sos assumidos.  
A cooperação do BRICS segue modali-  
dades definidas pelo Memorandum of Un-  
derstanding, com ênfase em programas de  
treinamento para desenvolvimento de capital  
humano, intercâmbio de informações sobre  
CT&I, pesquisa colaborativa e eventos de in-  
teresse comum (BRICS, 2015b).  
Além de reunir mais iniciativas, essa agen-  
da destaca-se por combinar diferentes moda-  
lidades de cooperação. Por meio de interesses  
convergentes em inovação e desenvolvimento  
sustentável, o BRICS implementou órgãos de  
cooperação, como o BRICS Technology Transfer  
Center, e instrumentos de compartilhamento  
de conhecimento e contatos, como a iBRICS  
Network. Também se desenvolveram instru-  
mentos para liderar temas futuros, presente  
nas declarações do BRICS PartNIR (BRICS,  
2020a) e operacionalizada pelo BRICS Part-  
NIR Innovation Center, ampliando o impacto  
do trabalho colaborativo do grupo.  
Adicionalmente, como mostrado na figu-  
ra 2, agendas como Mudança Climática e Meio  
Ambiente ainda são pouco maduras, apesar do  
Acordo de Paris ser frequentemente menciona-  
do para lidar com o tema, com responsabilida-  
des atribuídas aos países desenvolvidos (BRI-  
CS, 2023, p.17).  
3.3 Modalidade dos instrumentos à  
disposição da agenda de inovação  
33 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.24 - 38, fev. 2025  
Figura 3: Modalidade das iniciativas ligadas a agenda de inovação do BRICS  
Fonte: Elaboração própria.  
O BRICS tem promovido trocas de kno-  
w-how, cooperação em pesquisa e a criação de  
frameworks e plataformas para desenvolver  
modalidades institucionais que abrangem suas  
múltiplas agendas. Diferentemente de uma  
abordagem voltada para crescimento econômico  
imediato, o grupo busca criar capacidades estru-  
turais para ganhos futuros, considerando que o  
crescimento sustentável exige transformações es-  
truturais e inovação constante, ao contrário de  
booms temporários (Rodrik e Stiglitz, 2024).  
As iniciativas do BRICS, que se organi-  
zam em oito modalidades, têm como propósito  
estruturar uma base inicial de inovação. Essa  
estrutura possibilitaria aos países membros  
avançar tanto em projetos conjuntos quanto  
em metas individuais, considerando suas capa-  
cidades e interesses específicos.  
te com o crescimento sustentável e a inovação,  
buscando não apenas benefícios atuais, mas  
a construção de bases para o futuro (BRICS,  
2021, p. 2). Embora os resultados ainda pos-  
sam ser aprimorados, a existência desses instru-  
mentos sugere um direcionamento comum. A  
seguir apresentamos dois casos particulares de  
iniciativas de inovação executadas pelo BRI-  
CS, que exemplificam sua estrutura de ação e  
apontam para alguns dos limites da agenda de  
cooperação.  
3.3.1. O BRICS GRAIN E O BRICS  
TECHTRANSFER  
Nesta seção apresentamos dois casos que  
retratam a dinâmica high-low do processo de-  
cisório do BRICS e que exemplificam a cons-  
trução da agenda de inovação do bloco, assim  
como as dificuldades que enfrentam. Serão  
A análise demonstra que, apesar das fragi-  
lidades, o BRICS se compromete politicamen-  
34 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.24 - 38, fev. 2025  
apresentados o BRICS Global Research Advan-  
ced Infrastructure Network (GRAIN) e o BRICS  
Technology Transfer Center.  
do à inovação. A operação prática do GRAIN  
só foi viabilizada com a aprovação do Frame-  
work of BRICS STI Cooperation on Research  
Infrastructure, que forneceu o financiamento  
necessário (BRICS, 2020b, p. 35).  
O BRICS GRAIN exemplifica uma for-  
ma de rede e de plataforma de pesquisa, que  
busca acelerar a troca de know-how e expan-  
dir infraestrutura de pesquisa entre os países.  
O projeto foi apresentado e aprovado na Sum-  
mit Declaration de 2016, com apoio ministe-  
rial formalizado na 4ª Reunião Ministerial de  
Ciência, Tecnologia e Inovação. Sua execução  
foi delegada ao BRICS Working Group on  
Research Infrastructure and Mega Science Pro-  
jects, responsável por gerenciar a criação e de-  
senvolvimento da iniciativa.  
Como mencionado, o BRICS GRAIN  
busca expandir a infraestrutura de pesquisa  
nos países do bloco, facilitar o intercâmbio de  
conhecimento e fomentar projetos colaborati-  
vos. Através do BRICS GRAIN Research In-  
frastructure Platform, pesquisadores nas áreas  
de energia, nanotecnologia, biociência, física  
e astronomia podem acessar informações e  
oportunidades centralizadas. O site público  
da plataforma facilita o acompanhamento de  
atividades, listando 21 organizações parceiras e  
mais de 1,5 milhão de publicações. Ele tam-  
bém mostra a localização e o status das 31 in-  
fraestruturas de pesquisa, indicando quais estão  
operacionais e quais ainda estão em desenvolvi-  
mento (BRICS Grain, 2024).  
Com base nos princípios do Memoran-  
dum of Understanding (2015), que visa fo-  
mentar cooperação em infraestruturas de pes-  
quisa de larga escala (BRICS, 2020b, p. 35),  
o WG iniciou a implementação do BRICS  
GRAIN em 2017, tornando-o um canal volta-  
Figura 4: BRICS GRAIN e Technology Transfer Center  
Fonte: Elaboração própria.  
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Mais recentemente, há movimentações  
no sentido da criação de centros físicos de pes-  
quisa compartilhados, somando às estruturas  
produtivas dos países, o que pode facilitar as  
produções compartilhadas e exigir maiores  
compromissos políticos e financeiros. O BRICS  
Technology Transfer Center (BRICS Techtransfer)  
é o primeiro mecanismo deste tipo.  
de resultados. Com trocas de liderança e um  
perfil de compromissos pouco compulsório e  
com baixo comprometimento financeiro, mui-  
tas das iniciativas acabam entrando em fases de  
desligamento ou desengajamento, o que com-  
promete sua operação. Além disso, não existe  
uma base centralizada que possibilite o acom-  
panhamento das operações destas iniciativas  
ou que divulgue seus resultados, dificultando  
a geração de incentivos e apelos para sua ma-  
nutenção.  
O BRICS WG on Science, Technology,  
Innovation and Entrepreneurship Partnership  
(STIEP), responsável pelo BRICS Techtrans-  
fer, elaborou o BRICS Action Plan 2021-2024,  
que detalha os objetivos de inovação do grupo  
e planeja a criação do centro como um meca-  
nismo prático para implementar essa agenda  
(BRICS, 2021, p. 3). Com a aprovação do  
plano e do Enabling Framework for the Imple-  
mentation of BRICS Technology Transfer Center  
Cooperation pelos Ministros de CTI em 2021,  
o centro iniciou sua fase operacional (MOST-  
-China, 2022).  
Para se ter uma ideia das dificuldades, o  
portal do BRICS GRAIN, encontra-se desa-  
tualizado desde 2019. Mesmo com notícias  
de recentes parcerias com novas instituições  
de inovação tecnológicas (Rosatom, 2023), o  
que comprova a continuação das atividades da  
iniciativa, estas não são atualizadas no portal, o  
que prejudica fundamentalmente a percepção  
dos resultados produzidos, influenciando tam-  
bém negativamente no engajamento e apoio  
para manutenção das mesmas. Por sua vez, o  
BRICS Techtransfer ainda carece de instru-  
mentos públicos de monitoramento, dificul-  
tando a avaliação de seus resultados. No en-  
tanto, a criação do Steering Committee of the  
BRICS Technology Transfer Center Network,  
que realizou sua primeira reunião em 2022,  
visa coordenar e aconselhar a agenda do cen-  
tro, sinalizando o compromisso com o desen-  
volvimento e a potencialização das operações  
(MOST-China, 2022).  
Originado de uma proposta chinesa de  
2018, o BRICS Techtransfer é sediado na Chi-  
na, onde é administrado pelo BRICS STIEP  
WG, com o foco na facilitação da transferên-  
cia tecnológica, fortalecimento da capacitação  
técnica e promoção da conectividade de dados  
(MOST-China, 2022). Como primeiro centro  
oficial de transferência de tecnologia do grupo,  
o BRICS Techtransfer marca uma nova etapa  
para a inovação no bloco, oferecendo um espa-  
ço físico para colaborações efetivas.  
Apesar de gerar entusiasmo e indicar um  
progresso do grupo em relação ao desenvolvi-  
mento de seus instrumentos próprios, os me-  
canismos mencionados, apresentam grandes  
pontos de sensibilidade. De maneira geral, es-  
tes e outros instrumentos criados pelo BRICS,  
com exceção do NBD, falham em constância,  
mecanismos de acompanhamento e exposição  
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS  
O caminho percorrido para entender a es-  
trutura organizacional e os mecanismos e ins-  
trumentos que contornam e integram a agenda  
de inovação do BRICS nos mostram o grau de  
maturidade política desse tema para os países,  
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ao mesmo tempo que aponta suas limitações e  
desafios. Diante dos marcos da estrutura high-  
-low level que modulam a operação do BRICS  
na sua face estratégica, tática e operacional, foi  
possível verificar as pautas que possuem pro-  
tagonismo na agenda de inovação e entender  
como o arranjo explora variados mecanismos  
que acessam a inovação por diferentes vieses.  
Percebe-se que não se trata de uma agen-  
da que surgiu ‘ontem’ e não foi pensada para  
produzir resultados ‘amanhã’ - i.e esforços de  
inovação do arranjo não possuem um perfil  
emergencial ou temporário. Por interpretar a  
inovação como uma necessidade primária para  
seu alavancar futuro, e não como uma mera  
ambição momentânea, potencializada por em-  
bates tecnológicos, o BRICS tem o potencial  
de fortalecer a colaboração interna nesse campo  
e, eventualmente, acolher demandas latentes  
de outros atores com quem ocupam as margens  
do sistema.  
iniciativas, mas evitam compromissos financei-  
ros compulsórios e regras rígidas. Essa flexibi-  
lidade, embora facilite o surgimento de novas  
ações, também expõe fragilidades, como a falta  
de clareza em procedimentos operacionais.  
As instituições de inovação do BRICS  
visam expandir a transferência de tecnologia,  
capacitar capital humano, promover pesquisa  
compartilhada e criar bases de dados comuns  
(BRICS, 2017). Embora esses e outros meca-  
nismos aumentem as expectativas sobre o pro-  
tagonismo do BRICS na inovação, algumas  
ressalvas são necessárias. O foco em platafor-  
mas e redes de integração de dados, apesar de  
apoiar o processo inovador, não é suficiente  
para promover transformações estruturais que  
consolidem a liderança do grupo. Além disso,  
muitos desses mecanismos enfrentam ciclos de  
inconsistência, com períodos ativos seguidos  
por interrupções ou paralisações. Ainda que  
contemplem abordagens distintas — tanto em  
redes virtuais quanto em estruturas físicas —, o  
foco permanece na reconfiguração das estrutu-  
ras e capacidades dos membros.  
Por outro lado, trata-se de uma agenda que  
enfrenta dificuldades relevantes, que espelham,  
em grande parte, as dificuldades do próprio  
bloco em manejar seus interesses individuais.  
A análise da agenda de inovação do BRICS evi-  
dencia um entendimento robusto por parte dos  
membros acerca da importância da cooperação  
em C,T&I, além de um compromisso político  
e uma variedade de instrumentos colaborativos  
voltados ao tema. Contudo, esse compromisso  
e a presença de tais instrumentos não assegu-  
ram o sucesso. Embora abram possibilidades,  
as instituições do BRICS enfrentam fragilida-  
des, como oscilações no engajamento, baixo  
comprometimento financeiro e a predominân-  
cia de compromissos baseados em declarações  
de interesse, sem obrigatoriedade formal. Os  
planos revelam áreas de concordância entre os  
membros e servem como ponto de partida para  
O caráter não compulsório dos compro-  
missos, o baixo compliance e a voluntarieda-  
de, que, em parte, facilitam o avanço de pautas  
em um grupo tão diverso, também limitam a  
obtenção de resultados práticos. Além disso, a  
baixa vigilância dos próprios membros sobre o  
cumprimento dos mecanismos acordados e as  
fases recorrentes de desengajamento prejudi-  
cam o sucesso substancial dessa agenda, apesar  
de sua importância para o futuro do grupo.  
Embora o processo de inovação inspire  
otimismo para o desenvolvimento da periferia,  
ele ainda enfrenta limitações que frequente-  
mente se restringem a aspectos marginais, sem  
alcançar ou promover uma reforma estrutural  
profunda. Desta forma, a agenda de inovação  
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BRICS. BRICS Working Group on Science, Technology, Innova-  
do BRICS representa um esforço inicial nessa  
tion and Entrepreneurship Partnership (STIEP WG): Proposed  
direção. Superadas algumas limitações, as ins-  
Action Plan 2021-2024. India: BRICS, 2021. Disponível em:  
<https://brics2021.gov.in/brics/public/uploads/docpdf/get-  
tituições e planos de inovação delineados po-  
docu-67.pdf> Acesso em: 17 de jul. de 2024.  
dem abrir caminho para o grupo não apenas  
BRICS. First BRICS science, technology and innovation ministe-  
rial meeting: Cape Town declaration. BRICS, 2014. Disponí-  
direcionar seu desenvolvimento para o campo  
vel em: <http://www.brics.utoronto.ca/docs/140210-BRICS-  
-STI.pdf> Acesso em: 16 de jul. de 2024.  
intrabloco, mas também projetar-se, nessas te-  
BRICS GRAIN. BRICS GRAIN Research Infrastructure Plat-  
máticas, para fortalecer a governança e expan-  
form: Research Infrastructure List. BRICS, 2024. Disponível  
em: <http://brics-grain.org/?id=39>. Acesso em: 17 de jul. de  
dir parcerias no Sul Global.  
2024.  
Da forma como foi construída, a agenda  
BRICS. Joint Declaration by e Special Secretariat of Produc-  
tivity, Labor and Competitiveness on behalf of the Ministry of  
Economy of the Federative Republic of Brazil, Ministry of Indus-  
try and Trade of the Russian Federation, Ministry of Commerce  
and Industry of the Republic of India, Ministry of Industry and  
Information Technology of the People’s Republic of China, Depart-  
de inovação do BRICS não pode, ainda, ser  
considerada uma efetiva alavanca para uma  
transformação estrutural no bloco. Suas limi-  
ment of Trade, Industry and Competition of South Africa, and the  
United Nations Industrial Development Organization regarding  
strengthening cooperation in the area of New Industrial Revolu-  
tações são ainda muito significativas, resultan-  
do em políticas nacionais de desenvolvimento  
tion. Russia: BRICS, 2020a. Disponível em: <http://www.bri-  
científico e tecnológico que não se transferem  
cs.utoronto.ca/docs/200824-industry.pdf>. Acesso em: 17 de  
para uma agenda efetiva de colaboração técnica  
para o desenvolvimento conjunto de novas tra-  
jetórias tecnológicas. Uma versão mais madura  
e operacional dessa agenda teria o potencial de  
reduzir alguns dos ciclos de dependência que  
limitam a periferia, abrir possibilidades de as-  
sistência ao Terceiro Mundo e reposicionar o  
BRICS no cenário internacional. Com essa  
consolidação, o arranjo poderia se situar como  
uma potência emergente, exercendo influência  
significativa que, ao desafiar as margens, contri-  
bui para reequilibrar o centro de poder global.  
jul. de 2024.  
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39 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte,  
ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.39 - 51, fev. 2025  
39 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.39 - 51, fev. 2025  
Artigo  
BRICS+: Desafios e Impasses para  
os Sentidos e Legados da Justiça de  
Transição do Brasil e da África do Sul  
BRICS+: Challenges and Deadlocks in the Meanings and Legacies of Transitional Justice  
in Brazil and South Africa  
BRICS+: Desafíos y Estancamientos en los Sentidos y Legados de la Justicia Transicional  
en Brasil y Sudáfrica  
Júlia Battistuzzi Penachioni1  
Cláudia Alvarenga Marconi2  
Recebido em: 13 de novembro de 2025  
Aceito em: 08 de setembro de 2025  
RESUMO  
Este artigo examina as tensões enfrentadas pelo Brasil e pela África do Sul ao buscarem  
equilibrar suas relações com o Regime Internacional de Direitos Humanos e legados de  
Justiça de Transição com a crescente institucionalidade e expansão do Bloco BRICS sob  
a forma BRICS+, navegando entre a moderação da ordem liberal e a sua contestação/  
demanda por reforma, compondo uma coalizão ampliada de maioria autocrática.  
Palavras-Chave: BRICS+; Justiça de Transição; Regime Internacional de Direitos  
Humanos; Brasil; África do Sul.  
ABSTRACT  
is article examines the tensions faced by Brazil and South Africa as they seek to  
balance their relations with the International Human Rights Regime and the legacies of  
Transitional Justice with the growing institutionalization and expansion of the BRICS  
bloc in the form of BRICS+, navigating between moderating the liberal order and  
contesting/demanding its reform, while forming a broader coalition with a predominantly  
autocratic majority.  
Keywords: BRICS+; Transitional Justice; International Human Rights Regime; Brazil;  
South Africa.  
RESUMEN  
Este artículo examina las tensiones que enfrentan Brasil y Sudáfrica al intentar equilibrar  
sus relaciones con el Régimen Internacional de Derechos Humanos y los legados de  
la Justicia Transicional con la creciente institucionalización y expansión del bloque  
BRICS en la forma de BRICS+, navegando entre la moderación del orden liberal y su  
1 Doutora em Ciência Política (USP e Philipps-Universität Marburg). Pesquisadora de Pós-doutorado no Instituto de Estudos  
Avançados da USP.  
2 Doutora em Ciência Política (USP). Professora na Graduação em Relações Internacionais e do Quadro Permanente do Mestrado  
Profissional em Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais (GGFPI) da PUC-SP.  
40 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.39 - 51, fev. 2025  
contestación/demanda de reforma, conformando una coalición ampliada con mayoría  
predominantemente autocrática.  
Palabras clave: BRICS+; Justicia Transicional; Régimen Internacional de Derechos  
Humanos; Brasil; Sudáfrica.  
Assim, e na mesma direção de colaborar  
com o que Kathryn Sikkink (2011) denomi-  
nou de emergência de um Sistema Interativo e  
Descentralizado de Accountability Global a par-  
tir dos modos pelos quais a prestação de contas4  
por graves violações de direitos humanos se for-  
talece em distintos níveis e a partir de distintas  
experiências contextuais, culminando na entra-  
da em vigor em 2002 do Estatuto de Roma que  
funda o Tribunal Penal Internacional (TPI),  
Brasil e África do Sul são os dois únicos mem-  
bros do BRICS parte deste instrumento jurídi-  
co vinculante5.  
1 INTRODUÇÃO  
As mudanças na geopolítica global desen-  
cadearam um cenário internacional que desafia  
a política externa brasileira. Um mundo cada  
vez mais multipolar coloca o Brasil diante de  
decisões estratégicas que podem ter um custo  
real, sobretudo tendo em vista os compromis-  
sos históricos assumidos pelo Brasil com insti-  
tuições da ordem internacional liberal e apro-  
fundados diante da experiência democrática  
brasileira. Tais desafios podem ser ilustrados a  
partir da dinâmica observada dentro do Blo-  
co BRICS, onde o país sul-americano possui  
um papel importante tanto como moderador  
quanto como legitimador.  
No encontro de Cúpula dos BRICS em  
2023, na África do Sul, momento em que a  
guerra entre Rússia e Ucrânia se estendia por  
mais de ano, a Anistia Internacional sul-africa-  
na salientou o compromisso do país em coope-  
rar com o TPI frente aos mandados de prisão  
expedidos contra o Presidente Vladimir Putin  
e a Comissária para os Direitos da Criança do  
Gabinete do Presidente, Maria Alekseyevna  
Lvova-Belova, por uma série de crimes de guer-  
ra e outras violações do direito humanitário  
internacional previstas no Estatuto de Roma  
(Amnesty International, 2023).  
Por ser um país democrático que integra o  
grupo, a presença do Brasil no BRICS – assim  
como da África do Sul e, até certa medida, da  
Índia – funcionaria como uma barreira à alega-  
ção imediata de que o BRICS (agora já em sua  
forma BRICS+) seria uma coalizão de autocra-  
cias. Além de serem democracias de mercado  
emergentes, Brasil e África do Sul, em especial,  
possuem legados de Justiça de Transição (JT)3  
que não podem ser ignorados quando pensa-  
mos no papel de potências médias emergentes  
no cascateamento regional e global de suas ex-  
periências com a não impunidade frente a gra-  
ves violações de direitos humanos.  
Ecos dessa situação em suspenso levou o  
presidente sul-africano Cyril Ramaphosa a afir-  
mar que o partido do governo, o Congresso  
Nacional Africano (CNA), havia decidido que  
3 Para fins desse artigo não são levantadas as bases domésticas  
no Brasil que impõem desafios também significativos para a  
preservação do que este texto denomina de legados da jus-  
tiça de transição.  
4 Denominamos aqui “prestação de contas” o termo accoun-  
tability.  
5 Cf. Estados parte do Estatuto de Roma em https://asp.icc-  
-cpi.int/states-parties. Acesso: 28/06/2025.  
41 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.39 - 51, fev. 2025  
a África do Sul deveria deixar o TPI (Al Jazeera,  
2023). A Rússia acabou representada pelo Mi-  
nistro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, e  
não por Putin, aliviando o dilema que se impôs  
à África do Sul ao longo de alguns meses que  
antecederam a Cúpula.  
ses, identificando convergências e divergências  
em suas estratégias de inserção global. Como  
hipótese central, propõe-se que a expansão do  
BRICS acentua os desafios desses dois Estados  
entre preservar a sua credibilidade democrática  
e alinhar-se a uma coalizão cujo alargamento  
mais recente incorpora regimes não democrá-  
ticos. Para tanto, o artigo busca cruzar e ten-  
sionar a nova forma institucional recentemente  
assumida pelo BRICS+, com o repertório de  
direitos humanos internacionais e experiências  
de justiça de transição articulado por Brasil e  
África do Sul.  
Frente aos compromissos históricos assu-  
midos com uma cultura democrática e de di-  
reitos humanos institucionalizada regional e  
internacionalmente e que ecoa experiências de-  
mocráticas e legados de JT relevantes em am-  
bos os países, este artigo tem a ambição de ana-  
lisar um cenário internacional desafiador para o  
Brasil e África do Sul, especialmente no contex-  
to de pertencimento aos BRICS em sua versão  
alargada BRICS+: uma em que Egito, Etiópia,  
Índia, Irã e Emirados Árabes Unidos se somam  
aos também já membros China, Rússia e Índia.  
O Brasil, sobretudo considerando seu posicio-  
namento estratégico de multi-alinhamento,  
equilibra os pesos e contrapesos implicados em  
uma posição internacional ambígua. A África  
do Sul, por sua vez, que ingressou na coalizão  
através de seu primeiro alargamento, vocaliza e  
representa simultaneamente os seus interesses e  
os interesses do continente africano (Masters;  
Landsberg, 2024, p.8), ao menos até a entrada  
recente da Etiópia e do Egito no Bloco.  
2 O BRICS ENTRE SEUS  
ALARGAMENTOS E SUA  
INSTITUCIONALIDADE  
INFORMAL-FORMAL: A  
PRESENÇA BRASILEIRA E  
SUL-AFRICANA NO BLOCO  
O BRICS, grupo formado até 2023 por  
Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul,  
recebeu esse vernáculo popular (mais do que  
um mero nome), tal como Chatterjee e Naka  
(2020) sustentam, de um economista do Gold-  
man Sachs que investigava economias emer-  
gentes nos anos 2000. O primeiro encontro  
dos países relacionados a esse grupo ocorreu  
em Nova York, durante a Assembleia Geral da  
ONU de 2006 – quando a África do Sul ain-  
da não fazia parte do Bloco – sendo a Primeira  
Cúpula realizada em 2009, na Rússia.  
Diante do cenário exposto, este artigo  
problematiza o tensionamento sobre o Brasil  
e a África do Sul no sentido de conciliar os  
seus compromissos histórico-políticos com o  
Regime Internacional de Direitos Humanos  
(RIDH) e vocalizar as suas experiências com  
a JT com as pressões políticas e normativas  
derivadas da crescente institucionalidade e da  
expansão do BRICS para a forma BRICS+.  
O objetivo geral é o de enquadrar alguns dos  
impactos dessa nova configuração do Bloco so-  
bre a postura internacional de ambos os paí-  
Acompanhando a definição de Snidal e  
Vabulas (2021), assumimos que se trata de uma  
organização intergovernamental informal (OI-  
GI)6. Isto é, um fenômeno institucional cuja  
ocorrência vem aumentando gradativamente  
6 Tradução para o termo IIGO: Informal Intergovernmental  
Organization.  
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na política internacional e cujas três caracterís-  
ticas principais compreendem a “(i) associações  
de alto nível de três ou mais Estados, baseadas  
em (ii) expectativas explicitamente partilhadas,  
mas sem um tratado formal, e que (iii) realizam  
reuniões recorrentes, mas sem qualquer dispo-  
sição institucional formal, como um secretaria-  
do” (Snidal; Vabulas, 2021, tradução nossa).  
Os mesmos autores salientam que essa  
economia emergente e uma jovem democracia  
– levando os BRICs a BRICS [...]” (Chatterjee;  
Naka, 2020, tradução nossa).  
De acordo com o Planalto (2023), há três  
pilares principais em termos de diálogo desde  
então envolvidos entre seus membros: a “[...]  
cooperação em política e segurança, coopera-  
ção financeira e econômica, e cooperação cul-  
tural e pessoal”, sendo que o principal objetivo  
do grupo é “alterar o sistema de governança  
global, com uma reforma de mecanismos como  
o Conselho de Segurança da ONU, além de  
introduzir alternativas às instituições como o  
FMI e o BID para o fomento às economias  
emergentes, como é o caso do NDB [Novo  
Banco de Desenvolvimento]” (Planalto, 2023,  
p. 1).  
definição se constrói na comparação-oposição  
com a definição de organizações intergoverna-  
mentais formais (OIGF). Nessa comparação-  
-oposição, as informais tendem a ser deprecia-  
das pela sua forma flexível e pouco previsível,  
bem como o seu tamanho tende a ser menor:  
A sua dimensão mais reduzida faz sentido  
porque as OIGI são sobretudo fóruns de-  
liberativos entre Estados com preferências  
partilhadas sobre uma determinada questão.  
Além disso, uma vez que as OIGI não têm  
capacidade burocrática, são menos eficazes na  
coordenação de um maior número de mem-  
bros do que as OIGF (Snidal; Vabulas; 2021,  
p. 865, tradução nossa).  
Ademais, é possível afirmar que “A cres-  
cente legitimidade dos BRICS como “bloco  
de aspiração” e “alternativa” aos empréstimos  
ocidentais no mundo pós-crise de 2008 ma-  
nifestou-se na inauguração do Novo Banco de  
Desenvolvimento em 2014” (Chaterjee; Naka,  
2020, grifos dos autores, tradução nossa), en-  
raizando-se ainda mais a institucionalidade  
internacional desta coalizão e revelando ainda  
que desta OIGI poderiam surgir inclusive as  
condições para que uma OIGF se erguesse.  
Em agosto de 2023 ocorreu a 15ª Cúpu-  
la de Líderes dos BRICS, em Joanesburgo, na  
África do Sul. Desse encontro, resultou uma  
iniciativa de renovação, também pela via da  
ampliação de membros do referido Bloco, de-  
pois de um hiato de quase uma década: “De-  
pois de ter sido concedido à África do Sul o  
estatuto de membro de pleno direito em 2010,  
a expansão dos BRICS esteve em suspenso du-  
rante mais de uma década” (Kipgen; Chakra-  
barti, 2022, tradução nossa). Assim, foi possí-  
vel identificar na Declaração Final da Cúpula  
A entrada da África do Sul representou  
o alargamento viável dessa OIGI em seu pri-  
meiro ciclo de vida institucional-informal e  
ocorreu dois anos depois da Primeira Cúpu-  
la, consumando-se durante a Terceira Cúpula  
ocorrida na China e sob a sua presidência em  
2010. De acordo com Zhao e Lesage (2020),  
entretanto, é interessante notar que pouco an-  
tes disso o primeiro exemplo de outreach dos  
BRICs ocorreu quando o então presidente da  
África do Sul foi convidado pela primeira vez  
para a Cúpula de Brasília dos BRIC.  
A inclusão sul africana se dá sob o signo  
de uma economia e democracia emergentes:  
“Em 2011, a África do Sul juntou-se a este gru-  
po de países como um país com um desempe-  
nho econômico superior no Sul Global – uma  
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o convite para a entrada de novos membros.  
Oficialmente, os países que foram convidados  
a se tornarem membros dos BRICS a partir de  
1º de janeiro de 2024 eram a Argentina, Arábia  
Saudita, Emirados Árabes Unidos, Irã, Egito e  
Etiópia. A Argentina sob o governo de Javier  
Milei, porém, não aceitou o convite.  
forma de ampliar de modo definitivo os seus  
membros constitutivos. Conforme Kipgen e  
Chakrabarti (apud Peng, 2022, tradução nossa)  
apontam, “[...] o conceito BRICS Plus foi pro-  
posto pela primeira vez e formalmente intro-  
duzido para um melhor mecanismo de coope-  
ração com outras nações que não os BRICS”,  
e que rapidamente acaba pendulando para um  
sentido de alargamento de seus membros8.  
O alargamento de 2023 do BRICS cha-  
ma a atenção por diversos aspectos, alguns mais  
evidentes do que outros. Particularmente, é  
considerado por alguns como parte da agenda  
chinesa9, processo do qual tanto o Brasil quan-  
to a Índia se demonstraram resistentes, mas ao  
qual ambos acabaram por ceder tendo em vista  
a influência chinesa, em maior grau, e a russa  
em menor (Garcia; Ibañez, 2023).  
Importa salientar que já era possível ras-  
trear como uma prática dos BRICS as denomi-  
nadas iniciativas de amplo alcance, como forma  
de maximizar o seu poder tanto institucional  
quanto a sua qualidade de ator da política in-  
ternacional via BRICS-Outreach Summit [Cú-  
pula de Amplo Alcance dos BRICS] (Kipgen;  
Chakrabarti, 2022). Diante do alargamento  
dos BRICS consumado em sua composição, to-  
mamos aqui uma das hipóteses iniciais de Zhao  
e Lesage (2020, p. 72, tradução nossa)7, e que  
aponta o outreach como a socialização daqueles  
que não são membros com a visão do grupo,  
compreendendo assim “[...] uma estratégia de  
grupo para influenciar os não-membros, mais  
precisamente para políticas, pontos de vista e  
interesses dos seus governos, socializando-os no  
consenso do grupo em termos de interesses e  
pontos de vista comuns”.  
O objetivo central do grupo, contudo,  
enunciado e anunciado em uma chave de con-  
testação-disputa em relação aos mecanismos de  
governança global liberal, aparentemente con-  
solidados, se fortalece frente a esse alargamen-  
to: “[...] alterar o sistema de governança global”  
(Planalto, 2023). Ademais, com a ampliação re-  
cente se torna mais presente a dimensão geopo-  
lítica que redimensiona os níveis de prioridade,  
A hipótese ganha fôlego quando nos apro-  
ximamos do conceito de BRICS Plus, que era  
visto de forma pendular entre mais uma tática  
de exercício do amplo alcance do Bloco e uma  
8 Compuseram o BRICS Plus no contexto da reunião dos  
Ministros das Relações Exteriores dos BRICS, presidida pela  
China em maio de 2022, os Ministros das Relações Exte-  
riores da Argentina, Egito, Indonésia, Cazaquistão, Nigéria,  
Arábia Saudita, Senegal, Tailândia e Emirados Árabes Uni-  
dos (Kipgen; Chakrabarti, 2022).  
9 A esse respeito, cf. Peng (2022, tradução nossa) que afirma  
que pouco depois de o Presidente chinês Xi Jinping ter sub-  
linhado a aceleração do processo de expansão dos BRICS na  
14.ª Reunião de Líderes dos BRICS em Pequim, no final de  
junho, o Irã e a Argentina anunciaram que tinham apresen-  
tado os seus pedidos formais de adesão ao grupo. Entretan-  
to, os ministros das Relações Exteriores do Cazaquistão, da  
Arábia Saudita, da Argentina, do Egito, da Indonésia, da Ni-  
géria, do Senegal, dos Emirados Árabes Unidos, da Tailândia  
e de outros países convidados participaram na reunião dos  
ministros das Relações Exteriores dos BRICS pela primeira  
vez em maio. Todas estas ações positivas são indicações claras  
de que a expansão do BRICS está acelerando”.  
7 As outras hipóteses trazidas no bojo da contribuição de Zhao  
e Lesage (2020) são cinco e indicam que (i) a relação do  
BRICS com não membros guarda relação com o aumento  
de sua efetividade no alcance de objetivos de política; e (ii)  
os BRICS se comunicam com os não membros como forma  
de maximizar a sua legitimidade em âmbito internacional;  
(iii) a relação com os não-membros se estabelece por razões  
materiais ou constitutivas por iniciativa de membros indi-  
viduais dos BRICS e ecoam os seus interesses individuais;  
(iv) a coesão política no seio do grupo no que concerne à  
estratégia de proximidade/aproximação conduz a uma forte  
institucionalização e vice-versa; (v) a institucionalização da  
aproximação com as grandes potências é difícil de se susten-  
tar sem que haja uma apropriação total do processo.  
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inicialmente de base econômica, para questões  
que abordam também alianças políticas e o sis-  
tema internacional (Garcia; Ibañez, 2023).  
Nesse segundo ciclo de alargamento, pare-  
ce recair sobre o Brasil e a África do Sul o dever  
de “[...] continuarem a assegurar que a agenda  
do Sul Global seja moldada em torno de uma  
ordem multipolar, em vez de uma ordem domi-  
nada por uma única potência, incluindo a Chi-  
na” (Parameswaran, 2024, p.1, tradução nossa).  
Em outras palavras, a presença contínua destes  
dois países nesta OIGI sugere certa moderação  
sobre o quanto da contestação vinda desta ins-  
titucionalidade é exclusiva e homogeneamente  
uma de tipo order-challenging. Esta noção de  
contestação é definida por Lesch, Zimmermann  
e Deitelhoff (2024, p. 3, tradução nossa) como  
um tipo que “[...] rejeita os princípios liberais e  
as instituições que lhes estão subjacentes”.  
rárquicas” (Heller, 2022, p. 4, tradução nossa),  
não pode se ausentar da compreensão dos im-  
pactos do alargamento dos BRICS.  
A esse mesmo respeito, e também acom-  
panhando Heller (2022, p. 2, tradução nossa),  
“Qualquer esforço de fazer um conjunto de  
alegações gerais sobre a democracia no mundo  
pós-colonial deve, de partida, preocupar-se em  
destacar a extraordinária variedade de demo-  
cracias no Sul Global”. Mesmo reconhecendo  
a heterogeneidade das feições democráticas no  
Sul Global, interessa-nos compreender o mo-  
vimento de expansão dos BRICS frente aos le-  
gados de justiça de transição construídos espe-  
cialmente pela África do Sul e pelo Brasil e com  
impacto decisivo no Regime Internacional de  
Direitos Humanos.  
Nesse sentido, a adesão a princípios e  
normas internacionais de proteção aos direitos  
humanos, em diálogo com mecanismos e ins-  
trumentos que compõem a chamada justiça de  
transição, é um dos aspectos que fazem parte da  
diferença observada entre os membros do gru-  
po, sobretudo em relação aos posicionamentos  
do Brasil e da África do Sul em relação aos ou-  
tros membros, tanto os antigos (sobremaneira  
China e Rússia) quanto os novos. Trata-se de  
uma dimensão que nos permite tratar a distân-  
cia político-ideológica entre os países do Bloco  
e como esta se amplia (e pode se aprofundar)  
na composição BRICS+.  
Diante desse quadro, resta evidente que  
uma das premissas em que se assenta o presen-  
te artigo é a recusa da simplicidade quanto à  
adoção da ideia de Sul Global, já que “O ter-  
mo Sul Global pode oferecer uma simplicidade  
atraente, porém enganadora (tal como o seu  
equivalente, “o Ocidente”)” (Ero, 2024, tradu-  
ção nossa, mantendo grifos da autora).  
Como objetivo do presente artigo, cre-  
mos que as movimentações de aproximação e  
alargamento dos BRICS não podem ser ana-  
lisadas sem considerar os papéis das dinâmicas  
democráticas do Sul Global. Ainda que hetero-  
gêneos, a construção de projetos democráticos  
sob realidades pós-coloniais, como é o caso da  
África do Sul, Brasil e Índia (todos parte da pri-  
meira fase dos BRICS), seja na construção dos  
sentidos de democracia desde o Sul Global seja  
no reconhecimento dos desafios que permeiam  
a afirmação da “[...] cidadania democrática em  
sociedades pós-coloniais profundamente hie-  
3 BRASIL, ÁFRICA DO SUL E O  
REGIME INTERNACIONAL DE  
DIREITOS HUMANOS  
Conceitualmente, o Regime Internacio-  
nal de Direitos Humanos pode ser entendido  
como um conjunto de normas, tratados, insti-  
tuições e práticas internacionais que estabele-  
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cem parâmetros universais de proteção à dig-  
nidade humana, do valor igual e dos direitos  
iguais para “todos os membros da família hu-  
mana”, sem qualquer distinção, seja de “raça,  
cor, sexo, idioma ou religião”10. Além disso,  
sustenta a ideia de que os direitos humanos  
são inalienáveis, universais, interdependentes  
e indivisíveis por essência, sendo operaciona-  
lizado por regimes jurídicos globais e regionais  
(Muñoz, 2017).  
Brasil foi em busca de uma atuação séria em  
matéria de direitos humanos no continente  
americano (Ventura, 2012).  
Já a África do Sul, com o fim do apartheid,  
aprovou uma Constituição em 1996 que asse-  
gura e protege a maioria dos direitos humanos  
reconhecidos internacionalmente, impondo  
ao Estado o dever de “respeitar, proteger, pro-  
mover e efetivar os direitos previstos na Bill of  
Rights” (Constitution of the Republic of South  
Africa, 1996, tradução livre). O país aderiu a  
instrumentos do RIDH, como a Convenção  
Internacional sobre a Eliminação de Todas  
as Formas de Discriminação Racial (ONU,  
1965; ratificada em 1998) e a Carta Africana  
dos Direitos Humanos e dos Povos (ratificada  
em 1996). A Carta, também conhecida como  
Carta de Banjul, é um instrumento regional de  
direitos humanos que visa promover e proteger  
os direitos e liberdades fundamentais no conti-  
nente africano (Pires, 1999).  
O Brasil e a África do Sul compartilham  
trajetórias marcadas por processos de transi-  
ção de regime político que, embora distintos  
em contexto e temporalidade, consolidaram  
compromissos formais com o RIDH. Tanto  
Brasil quanto África do Sul assumiram, des-  
de suas transições democráticas, um papel de  
“empreendedores normativos” (Finnemore;  
Sikkink, 1998) em diferentes momentos, ar-  
ticulando a defesa dos direitos humanos com  
agendas de desenvolvimento e combate às de-  
sigualdades.  
Tanto Brasil quanto África do Sul ratifica-  
ram também o Estatuto de Roma do Tribunal  
Penal Internacional, de 1998. Em ambos os ca-  
sos, conforme será discutido a seguir, a Justiça  
de Transição desempenhou um papel relevante  
na construção do arcabouço normativo e sim-  
bólico de direitos humanos.  
No Brasil, a redemocratização a partir de  
1985 e a promulgação da Constituição de 1988  
representaram um marco normativo, incorpo-  
rando um extenso catálogo de direitos civis,  
políticos e sociais em um contexto de abertu-  
ra à internacionalização dos direitos humanos  
(Piovesan, 2013). O país ratificou os principais  
instrumentos universais de direitos humanos,  
como o Pacto Internacional sobre Direitos  
Civis e Políticos (ONU, 1966; ratificado pelo  
Brasil em 1992) e a Convenção Americana de  
Direitos Humanos (Pacto de San José da Costa  
Rica), em 1992, além da aceitação da jurisdi-  
ção obrigatória da Corte Interamericana de Di-  
reitos Humanos, em 1998. Embora de forma  
lenta, após o processo de redemocratização o  
3.1 O legado da Justiça de  
Transição da África do Sul e do  
Brasil  
A Justiça de Transição se estabeleceu como  
campo teórico no final da década de 1980,  
como consequência de condições práticas es-  
pecíficas que ativistas de direitos humanos,  
formuladores de políticas e especialistas em  
política comparada estavam enfrentando ao  
final da Guerra Fria. Foi um período de mu-  
10 Declaração Universal de Direitos Humanos, 1948.  
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danças políticas, especialmente de transforma-  
ção de regimes autoritários para regimes mais  
democráticos, em um movimento que pode ser  
ilustrado principalmente pelo fim dos regimes  
militares na América Latina. Tais mudanças de  
regimes políticos levaram a dilemas práticos so-  
bre as melhores formas de lidar com uma tran-  
sição que se movesse de práticas de naming and  
shaming (nomear e envergonhar) – o principal  
objetivo dos movimentos/organizações inter-  
nacionais de direitos humanos até meados da  
década de 1980 – para formas de responsabili-  
zação pelos abusos cometidos no passado pelas  
mãos dos regimes repressivos anteriormente no  
poder (Arthur, 2009).  
As Comissões da Verdade se concentram  
em vítimas e sobreviventes em vez de perpetra-  
dores, como ocorre no caso dos julgamentos.  
Elas não reúnem autoridade para processar cri-  
minalmente os perpetradores, embora algumas  
sejam investidas de importantes poderes inves-  
tigativos, como “intimar, fazer buscas e apreen-  
sões, resolver direitos legais e conceder anistia  
em troca de testemunho” (Weiffen, 2012, p.  
93, tradução nossa), prática esta que foi aplica-  
da pela Comissão de Verdade e Reconciliação  
da África do Sul e na Comissão da Verdade no  
Brasil, dois Estados membros do BRICS que  
utilizaram da justiça de transição para lidar  
com graves violações de direitos humanos co-  
metidas por um regime anterior.  
As vítimas de tortura no Brasil, as viola-  
ções de direitos humanos cometidas durante a  
ditadura militar na Argentina, bem como os  
casos de outros países e regiões, como a África  
do Sul e o Leste Europeu, são exemplos que  
levaram a novas discussões sobre como lidar  
com o passado. Houve na época um apelo por  
uma justiça responsiva, de forma a priorizar  
reformas legais e institucionais, que alcança-  
ram o nível internacional. Esse movimento  
foi possível, assim como as reivindicações fo-  
ram legitimadas, graças às mudanças políti-  
cas baseadas em transições para a democracia.  
Isso porque ao mesmo tempo em que o sur-  
gimento do campo da justiça de transição foi  
responsável por inserir uma justificativa para  
a aplicação de medidas por meio de apelos a  
normas universais, incluindo às normas de di-  
reitos humanos, sua emergência foi responsá-  
vel por estabelecer um senso de legitimidade,  
na medida em que as medidas judiciais e não  
judiciais – como as Comissões da Verdade –  
estavam associadas a uma política democráti-  
ca ou conectadas à promoção da democracia  
(Arthur, 2009, p. 334).  
Acerca da África do Sul, uma visão inter-  
nacionalista de seu papel de poder emergente  
está presente na avaliação do partido denomi-  
nado Congresso Nacional Africano (CNA),  
responsável por grandes esforços anti-apartheid  
no país, e que reforça a clara costura desse papel  
com a justiça de transição e o fortalecimento  
dos direitos humanos em sua história política  
recente:  
Isto inclui valores e princípios como parte  
da promoção do interesse nacional, privilegian-  
do o diálogo em apoio das tendências globais  
que favorecem os direitos humanos, a resolu-  
ção pacífica de controvérsias, a justiça de transi-  
ção e o respeito pelo direito internacional, pelas  
normas e ação coletiva através de órgãos mul-  
tilaterais, bem como uma forte convicção do  
papel das mulheres na paz e na segurança (Mas-  
ters; Landsberg, 2024, p.7, tradução nossa).  
A Comissão da Verdade e Reconciliação  
da África do Sul, formada em 1996, foi um  
marco para o desenvolvimento do que hoje é  
um campo estabelecido e conhecido, seja pe-  
las práticas seja pela carga teórico-conceitual,  
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como Justiça de Transição, sem dele subtrair  
a sua dinâmica. A Comissão Nacional da Ver-  
dade (CNV) no Brasil, estabelecida pela Lei  
12528/2011, foi, comparativamente, um mo-  
vimento tardio: mais de trinta anos após a  
Lei de Anistia de 1979 (Lei n° 6.683/1979).  
Ainda assim, a cartografia detalhada do modo  
pelo qual o regime ditatorial brasileiro opera-  
va resultante dos trabalhos da CNV (que em  
dezembro de 2024 comemorou seus dez anos)  
revela-se emblemática na busca pela verdade,  
justiça e memória das vítimas diretas e indire-  
tas das graves e distintas violações de direitos  
humanos ocorridas durante o regime.  
a Rússia, cujo presidente, Vladimir Putin, en-  
frenta um mandado de prisão emitido pelo TPI  
em março de 2023 no contexto da guerra da  
Ucrânia. De acordo com o Tribunal, o manda-  
do tem por base práticas de crimes de guerra,  
em específico a deportação ilegal de população  
(crianças) e transferência ilegal de população  
(crianças) de áreas ocupadas da Ucrânia para  
a Federação Russa (nos termos dos artigos 8(2)  
(a)(vii) e 8(2)(b)(viii) do Estatuto de Roma)  
(ICC, 2023).  
Na relação entre o Tribunal e seus Esta-  
dos-Parte, dois princípios são fundamentais: o  
da complementaridade e o da cooperação. O  
princípio da complementaridade faz referência  
à jurisdição do Tribunal como complementar e  
adicional à do Estado-membro, de forma que  
o Estado que ratifica o Estatuto de Roma tem  
a responsabilidade e dever de exercer sua juris-  
dição penal em face de crimes internacionais  
(Piovesan & Ikawa, 2012, p. 11). Quanto ao  
princípio da cooperação, o Estatuto de Roma  
prevê que seus Estados-membros devem “coo-  
perar totalmente com o Tribunal na investiga-  
ção e no processamento de crimes que estejam  
sob a jurisdição desse” (art. 86 do Estatuto de  
Roma). O ato de cooperar com o Tribunal diz  
respeito a atividades como a “adoção de pro-  
cedimentos internos de implementação do Es-  
tatuto, a entrega de pessoas ao Tribunal, a rea-  
lização de prisões preventivas, a produção de  
provas, a execução de buscas e apreensões e a  
proteção de testemunhas” (Piovesan & Ikawa,  
2012, p. 167).  
O histórico das experiências brasileiras e  
sul-africanas com a JT faz parte do legado que  
contribuiu para a construção de um sistema  
descentralizado, porém interativo, de accoun-  
tability global. Este sistema é considerado des-  
centralizado devido à emergência de prestações  
de contas a nível nacional, estrangeiro, regional  
e internacional, sem, entretanto, um agente  
internacional de controle. Todavia, é simulta-  
neamente interativo, tendo em vista os efeitos  
das decisões entre níveis – doméstico e inter-  
nacional (Sikkink; Kim, 2013). Assim, o efeito  
de cascateamento da justiça demonstra como  
as experiências dos dois países contribuíram  
para o que é hoje tido como o Regime Inter-  
nacional de Direitos Humanos, e que culmina  
com a entrada em vigor do Estatuto de Roma  
do Tribunal Penal Internacional, em 2002.  
3.2. Desdobramentos a partir da  
ratificação do Estatuto de Roma  
Ou seja, como o TPI não tem poder de  
polícia, ele depende da cooperação de seus  
Estados-membros, que a partir do momento  
em que aderem ao Estatuto de Roma, tem a  
obrigação de colaborar com o Tribunal nesses  
casos. Devido a essa previsão legal, Putin não  
Brasil e África do Sul ratificaram, con-  
forme apontado anteriormente, o Estatuto de  
Roma do TPI. Dentre os membros dos BRICS  
que não ratificaram o Estatuto de Roma está  
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compareceu à reunião dos BRICS na África do  
Sul – embora tenha participado remotamente,  
já que a África do Sul é signatária do Estatuto  
de Roma. Embora o Brasil também seja signa-  
tário do Estatuto, o Presidente Lula deu uma  
declaração de que se Vladimir Putin viesse para  
o Brasil na próxima cúpula do G20, ele não  
seria preso. Logo o presidente do Brasil recuou,  
dizendo que seria uma decisão da justiça, mas  
emendou críticas ao Tribunal (CNN, 2023).  
O Ministro da Justiça, inclusive, sugeriu que o  
Brasil poderia rever sua adesão à jurisdição do  
TPI, visto que grandes potências como EUA,  
Rússia e China não ratificaram o Estatuto de  
Roma (G1, 2023).  
diante da avaliação de inconstitucionalidade  
do mesmo na esfera da justiça sul-africana. Em  
2017, a própria União Africana lança um mo-  
vimento de dissidência ampliado em relação ao  
TPI, pelo qual se orquestra uma saída massiva  
de países africanos da Corte11 via resolução não  
vinculante em que se “[...] apelava à retirada  
em massa dos Estados membros do tribunal,  
com alguns países a acusarem o TPI de pôr em  
xeque a sua soberania” (BBC, 2017).  
3.3. Novos desafios de velhos  
legados?  
Além das aspirações globais, os países  
membros dos BRICS lidam com seus papéis  
de potências regionais. Nesse aspecto, Brasil e  
África do Sul têm a particularidade de expe-  
rienciar processos de (re)democratização após  
um passado de regimes autoritários. Ambos fi-  
zeram parte da “diplomacia de prestígio” nos  
anos 1990, renunciando ao desenvolvimento  
de armas nucleares, e desfrutam de influência  
em seus respectivos sistemas regionais – uma  
ferramenta importante em negociações inter-  
nacionais (Braga, 2022, p. 7).  
O campo dos direitos humanos e da JT,  
particularmente através do TPI, concentra-se  
principalmente em punições retributivas para  
crimes de guerra e violações gravíssimas de di-  
reitos humanos. Embora esse modelo tenha  
obtido sucesso em alguns casos, é frequente-  
mente criticado por desconsiderar as comple-  
xidades políticas e sociais de diferentes regiões,  
particularmente de países em desenvolvimento.  
Brasil e África do Sul, como parte dos BRICS,  
têm questionado a predominância desse mo-  
delo. A África do Sul, em particular, teve ten-  
sões com o TPI em relação à sua abordagem  
retributivista, especialmente quando se tratou  
da recusa de prender líderes africanos acusados  
de crimes de guerra, como no caso do então  
presidente sudanês Omar al-Bashir (Beresford;  
Wand, 2020).  
Tratando-se de política extrema, portan-  
to, há uma complexidade adicional advinda de  
fatores como o foco no multi-alinhamento e a  
construção de alianças regionais, em adição ao  
desejo de consolidar seus papéis de liderança  
11 A saída massiva contrasta com a adesão – também massiva  
– dos Estados africanos ao Estatuto de Roma e que pode  
ter respaldo na necessidade de estabelecer “compromis-  
sos críveis” para reduzir instabilidades criadas por guerras  
civis na região. Dado que os governos envolvidos nesses  
conflitos têm dificuldade em negociar acordos que sejam  
considerados confiáveis pela oposição ou pela opinião pú-  
blica, o envolvimento com o TPI poderia ser uma medida  
conveniente. Com o objetivo de evitar que a oposição uti-  
lize táticas hostis, estes governos submetem-se ao Tribunal  
para demonstrar seu compromisso em reduzir a violência e  
buscar soluções pacíficas (SIMMONS; DANNER, 2010,  
p.227; p.234).  
O contexto coincide, inclusive, com  
uma primeira hesitação concreta em cooperar  
com o Tribunal quando de reunião de cúpula  
da União Africana (UA), em Joanesburgo, no  
ano de 2015, que contou com a presença de  
Al-Bashir. Seguiu-se à reunião um movimen-  
to de retirada do Tribunal e que fora contido  
49 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.39 - 51, fev. 2025  
regional. Quando os custos para tanto contra-  
dizem as expectativas criadas nos processos de  
democratização, temos o chamado “dilema de  
gradação” (Braga, 2022, p. 7). Essa tensão refle-  
te uma questão mais ampla dentro dos BRICS,  
onde a difusão de poder e influência precisam  
equilibrar imperativos locais e globais.  
contestação e impulsos por reforma da ordem  
liberal internacional com uma postura residual  
de equilíbrio e moderação dos legados do mul-  
tilateralismo, sobremaneira na esfera dos direi-  
tos humanos internacionais. O alargamento do  
BRICS desloca, em parte, essa coalizão para  
além de sua base inicial histórico-política de-  
mocrática – composta por Brasil e África do  
Sul (e Índia, em alguma medida) – e, nesse ce-  
nário, os legados de justiça de transição de Bra-  
sil e África do Sul assumem especial relevância  
e são simultaneamente desafiados na configura-  
ção ampliada do Bloco.  
Nesse contexto, os episódios envolvendo a  
África do Sul e Brasil – em sua dinâmica com  
os líderes dos BRICS – chamam atenção. Isso  
é devido ao compromisso dos dois países com  
o Regime Internacional de Direitos Humanos,  
aqui ilustrado pela ratificação do Tratado de  
Roma e, sobretudo, articulado ao legado de  
Justiça de Transição e democratização nos dois  
países.  
Ressaltou-se o legado de justiça de tran-  
sição, tanto da África do Sul quanto do Brasil,  
como pilar essencial do Regime Internacional  
de Direitos Humanos. Assumindo uma abor-  
dagem centrada nesses legados, o artigo desta-  
cou como as crescentes tensões entre o BRICS+  
e o RIDH se tornaram um desafio para ambos  
os países, que transitam entre a contestação/  
demandas por reforma e a moderação da or-  
dem liberal, mantendo compromissos com as  
normas internacionais de direitos humanos en-  
quanto participam de uma coalizão heterogê-  
nea, em maior parte autocrática.  
Com a entrada dos novos membros no  
Bloco, confirma-se a predominância da partici-  
pação de Estados não-democráticos no BRICS.  
A participação dos novos membros será um  
novo desafio tanto para a África do Sul quan-  
to para o Brasil em sua balança de interesses  
regionais e globais, de um lado, e seu relacio-  
namento econômico e geopolítico com os paí-  
ses membros do BRICS, testando a resiliência  
normativa de seus papeis na construção e no  
fortalecimento do Regime Internacional de Di-  
reitos Humanos.  
À medida que os BRICS ganham desta-  
que tanto enquanto arranjo institucional quan-  
to em outras arenas internacionais, o seu papel  
na contestação e na reformulação das normas  
globais se torna mais evidente. Afinal, os BRI-  
CS têm promovido uma visão mais pluralista  
e adaptável de direitos humanos, que se reflete  
tanto em suas políticas internas quanto em sua  
atuação diante de instituições internacionais,  
tais como oTPI e a própria ONU. Dessa forma,  
expressam que uma abordagem de “tamanho  
único” para determinadas normas internacio-  
nais pode não ser adequada em contextos pós-  
-coloniais e pós-conflitos. Tratando-se ainda de  
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS  
Este artigo buscou iluminar as tensões e  
desafios enfrentados pelo Brasil e pela África  
do Sul ao buscarem equilibrar suas trajetórias  
democráticas e legados de justiça de transição  
com a crescente institucionalidade e expansão  
do BRICS, especialmente sob a sua configura-  
ção ampliada e denominada de BRICS+. Am-  
bos os países assumem um papel estratégico  
e complexo, na medida em que conjugam a  
50 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.39 - 51, fev. 2025  
BBC. African Union backs mass withdrawal from ICC.  
normas globais e dos compromissos históricos  
2017. Disponível em: https://www.bbc.com/news/world-afri-  
aqui mencionados, conforme defendem Solin-  
ca-38826073. Acesso em: 20 dez. de 2024.  
BERESFORD, A., & WAND, D. Understanding bricolage in  
gen e Börzel (2014), as normas globais não são  
norm development: South Africa, the International Criminal  
simplesmente adotadas por completo, mas são  
Court, and the contested politics of transitional justice. Re-  
view of International Studies, v. 46, ed. 4, 2020.  
modificadas e adaptadas para se adequarem a  
BRAGA, P. de R. S. Democratization and graduation dilem-  
contextos políticos e culturais específicos.  
mas faced by regional powers in the Global South: A com-  
parative study of Brazil and South Africa. Brazilian Political  
Nesse sentido, resta evidente a possibilida-  
Science Review, v. 16(2), 2022.  
de de uma agenda de pesquisa que investigue  
CHATTERJEE, M; NAKA, I. Twenty years of BRICS: poli-  
tical and economic transformations through the lens of land.  
aspectos como o direito ao desenvolvimento  
Oxford Development Studies, v. 50, n.1, 2022: p. 2-13.  
(right to develop) – que se tornou um pilar cen-  
CNN. Lula diz no G20 que Putin não será preso no Brasil  
se vier ao país, 2023. Disponível em: https://www.cnnbrasil.  
tral na abordagem dos BRICS potencialmente  
com.br/internacional/lula-diz-no-g20-que-putin-nao-sera-  
-preso-no-brasil-se-vier-ao-pais/. Acesso em: 19 set. de 2023.  
em relação aos direitos humanos – em respeito  
CONSTITUTION OF THE REPUBLIC OF SOUTH  
à defesa de um direito coletivo que prioriza o  
AFRICA, 1996. Disponível em: https://www.gov.za/docu-  
desenvolvimento econômico e social no lugar  
ments/constitution/constitution-republic-south-africa-1996-  
04-feb-1997. Acesso em: 20 dez. de 2024.  
das liberdades individuais. Ademais, avançar  
ELSTER, Jon. Closing the Books: Transitional Justice in  
Historical Perspective. Cambridge University Press, 2004.  
nos estudos do alargamento do Bloco parece  
ERO, C. e Trouble With “the Global South”: What the West  
importante, principalmente por se tratar de  
Gets Wrong About the Rest. Foreign Affairs. Abril/2024. Dis-  
ponível em: https://www.foreignaffairs.com/world/trouble-  
uma institucionalidade com aspectos diferen-  
-global-south.  
ciais das formais já conhecidas e da necessidade  
FINNEMORE, M.; SIKKINK, K. International Norm Dy-  
namics and Political Change. International Organization,  
de compreensão que impõe do impacto de sua  
52(4), 1998, p. 887–917.  
ontologia contestatória frente a instituciona-  
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lidades internacionais formais. Os comporta-  
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Artigo  
A Associação de Cidades e Municípios  
BRICS+: Paradiplomacia e o Novo Banco  
de Desenvolvimento  
e Association of BRICS+ Cities and Municipalities: Paradiplomacy and the New  
Development Bank  
La Asociación de Ciudades y Municipios BRICS+: Paradiplomacia y el Nuevo Banco de  
Desarrollo  
Kelvin Araújo da Nóbrega Dias1  
Recebido em: 12 de outubro de 2024  
Aceito em: 23 de setembro de 2025  
RESUMO  
Este artigo analisa a formação da Associação de Cidades e Municípios BRICS+,  
sublinhando a paradiplomacia como ferramenta para a articulação política e a busca por  
financiamento junto ao Novo Banco de Desenvolvimento (NDB). A problemática central  
investiga como a Associação pode fortalecer a atuação internacional dos municípios do  
bloco e facilitar seu acesso a recursos para projetos de desenvolvimento sustentável. A partir  
de uma abordagem qualitativa de análise documental, o estudo examina o papel do NDB  
como financiador de projetos subnacionais. Conclui-se que a Associação representa uma  
plataforma estratégica que amplia a projeção internacional dos municípios, embora sua  
atuação permaneça mais cooperativa e complementar às políticas dos Estados nacionais.  
Palavras-chave: BRICS+; Novo Banco de Desenvolvimento; paradiplomacia.  
ABSTRACT  
is paper analyzes the formation of the BRICS+ Association of Cities and Municipalities,  
emphasizing paradiplomacy as a tool for political coordination and the search for  
financing from the New Development Bank (NDB). e central issue investigates how the  
Association can strengthen the international performance of the bloc’s municipalities and  
facilitate their access to resources for sustainable development projects. Using a qualitative  
approach to document analysis, the study examines the role of the NDB as a financier of  
subnational projects. It concludes that the Association represents a strategic platform that  
expands the international projection of municipalities, although its actions remain more  
cooperative and complementary to the policies of national states.  
Keywords: BRICS+; New Development Bank; paradiplomacy.  
RESUMEN  
Este artículo analiza la formación de la Asociación de Ciudades y Municipios BRICS+,  
destacando la paradiplomacia como herramienta para la articulación política y la búsqueda de  
1 Doutorando em Sociologia na UFPE. Bacharel e Mestre em Relações Internacionais pela UEPB. Contato: kelvinkand@gmail.com  
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financiamiento junto al Nuevo Banco de Desarrollo (NDB). La problemática central investiga  
cómo la Asociación puede fortalecer la actuación internacional de los municipios del bloque  
y facilitar su acceso a recursos para proyectos de desarrollo sostenible. A partir de un enfoque  
cualitativo de análisis documental, el estudio examina el papel del NDB como financiador de  
proyectos subnacionales. Se concluye que la Asociación representa una plataforma estratégica  
que amplía la proyección internacional de los municipios, aunque su actuación sigue siendo  
más cooperativa y complementaria a las políticas de los Estados nacionales.  
Palabras clave: BRICS+; Nuevo Banco de Desarrollo; paradiplomacia.  
res passaram a se destacar em temas globais, ar-  
ticulando-se em redes e fóruns transnacionais  
para influenciar políticas e garantir recursos  
financeiros. Nesse contexto, os países que inte-  
gram o BRICS+ têm observado o crescimento  
de articulações municipais que transcendem os  
interesses puramente nacionais. A criação da  
Associação de Cidades e Municípios BRICS+,  
em junho de 2024, reflete essa tendência, como  
um movimento de cooperação para enfrentar  
desafios comuns, especialmente no acesso a fi-  
nanciamentos (BRICS Policy Center, 2024).  
Uma das principais motivações dessa nova  
1 INTRODUÇÃO  
O BRICS+ representa um grupo de países  
emergentes em termos de desenvolvimento eco-  
nômico. Inicialmente, o agrupamento foi for-  
mado por quatro nações: Brasil, Rússia, Índia e  
China, sob o nome BRIC. No entanto, em 14 de  
abril de 2011, a inclusão da África do Sul (South  
Africa, em inglês) resultou na adição da letra “S”  
ao acrônimo (Oliver, 2013). Mais recentemente,  
em 1º de janeiro de 2024, o bloco foi expandido  
com a adesão de novos membros plenos: Egito,  
Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Etió-  
pia e Irã (Laboissière; Verdélio, 2023).  
associação é facilitar o acesso dos municípios  
ao Novo Banco de Desenvolvimento (NDB),  
criado em 2014 para apoiar o financiamento  
de projetos de infraestrutura e desenvolvimen-  
to sustentável nos países membros do BRICS+  
e outras economias emergentes (BRICS Policy  
Center, 2018; Bocchini, 2024). Além de possi-  
bilitar a troca de experiências, a iniciativa visa  
ampliar a capacidade dos municípios em captar  
recursos internacionais para projetos de impac-  
to local, contribuindo para o desenvolvimento  
sustentável. A crescente relevância de tais ini-  
ciativas evidencia como a paradiplomacia não  
se restringe apenas a acordos comerciais, mas  
também à obtenção de financiamento e ao for-  
talecimento das políticas públicas locais.  
A emergência de tais articulações subna-  
cionais não é um fenômeno isolado, mas um  
sintoma de transformações estruturais na ordem  
global. O tradicional sistema westphaliano, ca-  
racterizado pelo monopólio dos Estados-na-  
ção na condução da política externa, tem sido  
desafiado por dinâmicas de interdependência  
complexa e pela ascensão de novos atores. Nes-  
se cenário, que alguns teóricos descrevem como  
pós-westphaliano (Kreuder-Sonnen; Zangl,  
2015) ou até mesmo neomedieval (Bull, 2002),  
o poder se torna mais difuso e as fronteiras entre  
o doméstico e o internacional, mais porosas.  
Nos últimos anos, o fenômeno da para-  
diplomacia tem emergido como uma estraté-  
gia fundamental para governos subnacionais,  
como municípios e cidades, que buscam maior  
inserção nas relações internacionais. Esses ato-  
A paradiplomacia, conforme analisado  
por Duchacek (1984), refere-se à atuação de  
governos subnacionais, como municípios, na  
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arena internacional, almejando estabelecer re-  
lações diretas com entidades estrangeiras. Este  
processo de “micro diplomacia global” permite  
que as cidades integrem redes de cooperação,  
promovendo seus interesses e necessidades lo-  
cais. Soldatos (1990) complementa ao discutir  
como essa dinâmica pode levar à fragmentação  
da diplomacia nacional, criando tensões entre  
os níveis federal e municipal. No contexto da  
Associação BRICS+, essa interação evidencia a  
procura por financiamento e apoio em projetos  
que incidem as demandas específicas das locali-  
dades no cenário global.  
mento tanto do banco quanto da recém-criada  
Associação de Cidades e Municípios BRICS+.  
A revisão bibliográfica, por sua vez, fundamen-  
tou a discussão teórica sobre paradiplomacia e  
o papel de cidades e novos atores nas relações  
internacionais, articulando o objeto de estudo  
com o debate acadêmico consolidado.  
A criação da Associação de Cidades e Mu-  
nicípios BRICS+ deve ser compreendida como  
a formalização de uma tendência de coopera-  
ção subnacional já existente no bloco, e não  
como um ponto de partida isolado. O fomento  
a uma relativa autonomia na atuação interna-  
cional das cidades já era visível em uma série  
de articulações anteriores, com destaque para  
as edições inaugurais do Fórum de Coopera-  
ção de Cidades Amigas e Governos Locais do  
BRICS+ (2011), do Fórum de Urbanização  
do BRICS+ (2013), do Fórum Municipal In-  
ternacional do BRICS+ (2019) e do Fórum  
do Futuro Urbano do BRICS+ (2024). Nesse  
contexto, o presente estudo argumenta que a  
nova Associação representa um fortalecimento  
e uma institucionalização da paradiplomacia  
municipal. Por se tratar de um objeto recen-  
te e de um estudo com caráter prospectivo, a  
análise recorre a projetos de financiamento do  
NDB anteriores à criação da Associação para  
compreender o histórico de engajamento do  
banco com atores subnacionais.  
Diante dessa realidade, o presente artigo  
objetiva analisar como a criação da Associa-  
ção de Cidades e Municípios BRICS+ pode  
representar um avanço no campo da paradi-  
plomacia, focando no acesso a mecanismos de  
financiamento internacional. A pergunta que  
orienta essa discussão é: de que forma a Asso-  
ciação pode fortalecer a atuação internacional  
dos municípios do BRICS+ e facilitar o acesso  
ao NDB? Para responder a essa questão, o texto  
se organiza em três partes: a primeira contex-  
tualiza a paradiplomacia e o papel dos muni-  
cípios no cenário global; a segunda examina  
o NDB como instrumento de financiamento  
subnacional; e a terceira investiga a criação da  
associação como um marco no fortalecimento  
das relações entre os municípios do BRICS+.  
A presente pesquisa foi desenvolvida a  
partir de uma abordagem qualitativa, empre-  
gando como método a análise documental,  
que se concentrou em fontes primárias, como  
os acordos de criação e os relatórios de projetos  
do NDB, declarações oficiais das cúpulas do  
BRICS+ e comunicados de instituições como  
a Associação Brasileira de Municípios (ABM).  
Esses documentos forneceram a base empírica  
para compreender a estrutura e o funciona-  
2 A PARADIPLOMACIA E OS  
MUNICÍPIOS NO CENÁRIO  
GLOBAL  
A paradiplomacia, como visto, refere-se  
às atividades internacionais realizadas por go-  
vernos subnacionais, como os municípios, que  
têm se tornado atores significativos no cenário  
global. Esse fenômeno é impulsionado pela  
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globalização, descentralização e a necessidade  
de enfrentar questões globais que impactam  
localmente, como mudanças climáticas e direi-  
tos humanos. Municípios estão cada vez mais  
estabelecendo departamentos de relações in-  
ternacionais, buscando proteger interesses lo-  
cais, promover o desenvolvimento sustentável  
e adotar normas internacionais que abordem a  
proteção ambiental e os direitos das minorias  
(Bartmann, 2006; Ljungkvist, 2015). Isso de-  
safia as noções tradicionais de diplomacia esta-  
tal e demonstra a importância da colaboração  
entre diferentes níveis de governo.  
ricas brasileiras ampliaram esse espaço, o autor  
diferencia uma paradiplomacia cooperativa de  
outra mais confrontativa. Com a Associação  
BRICS+ em tela, sua institucionalização junto  
ao NDB revela como a paradiplomacia pode  
transitar entre cooperação e contestação, cons-  
tituindo uma política externa local inserida em  
arranjos globais.  
A ordem de Westphália, que por séculos  
definiu o Estado como o único ator soberano  
e legítimo nas relações exteriores, vem sendo  
erodida por processos de globalização e inter-  
dependência. Duchacek (1990) descreve esse  
fenômeno como o das soberanias perfuradas,  
uma vez que os fluxos transfronteiriços de ca-  
pital, informação e pessoas interferem no con-  
trole estatal absoluto. Nesse ambiente de inter-  
dependência, a distinção rígida entre política  
interna e externa se desfaz. Questões globais,  
como mudanças climáticas, pandemias e crises  
financeiras, produzem impactos diretos e ime-  
diatos nas localidades, exigindo respostas que  
os governos centrais, por vezes, são incapazes  
ou lentos demais para fornecer. É essa lacuna  
que impulsiona os municípios a buscarem au-  
tonomia e protagonismo internacional, desa-  
fiando as noções tradicionais de diplomacia e  
demonstrando a importância da colaboração  
entre diferentes níveis de governo.  
A literatura sobre paradiplomacia apon-  
ta tanto para limites conceituais quanto para  
a consolidação empírica do fenômeno. Prado  
(2018) evidencia que a divisão clássica entre  
paradiplomacia e protodiplomacia não abar-  
ca situações em que entes subnacionais, sem  
pretensões separatistas ou complementares em  
torno do Estado-nação, geram tensões relevan-  
tes com o governo central. Já Tavares (2016)  
demonstra que cidades e estados se consolida-  
ram como atores de peso na governança global,  
inclusive figurando entre as maiores economias  
do mundo e articulando-se em redes multi-  
laterais. No caso da Associação BRICS+, essa  
dupla perspectiva é útil, pois ao mesmo tempo  
em que o arranjo desafia os enquadramentos  
tradicionais, também confirma a centralidade  
crescente da ação internacional subnacional em  
estruturas transnacionais ligadas a instituições  
como o NDB.  
A noção de interdependência comple-  
xa, desenvolvida por Keohane e Nye (2012),  
redefine as relações internacionais ao propor  
que o mundo é uma densa rede de conexões  
que transcende os Estados e inclui atores não  
estatais, como corporações multinacionais e  
ONGs. Neste cenário, o poder militar perde  
sua centralidade como principal instrumento  
de política externa, e a agenda global se expan-  
de para além das questões de segurança, dando  
importância a temas econômicos, ambientais e  
Neste raciocínio, Rodrigues (2021) sus-  
tenta que a paradiplomacia deixou de ser fe-  
nômeno periférico para se afirmar como di-  
mensão estrutural das relações internacionais,  
articulando cidades e estados a redes multilate-  
rais e a agendas globais. Além de indicar que a  
autonomia constitucional e as condições histó-  
56 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.52 - 67, fev. 2025  
sociais. Como resultado, a profunda intercone-  
xão entre os atores torna a cooperação não ape-  
nas uma estratégia, mas uma necessidade para  
solucionar desafios transnacionais, valorizando  
o papel das instituições internacionais.  
aponta que as cidades globais emergem como  
centros de serviços financeiros e operacionais  
de grande importância para o comércio inter-  
nacional, o que, segundo Bocayuva e Santos  
Júnior (2012), também é observado nas cida-  
des-BRICS+, que atuam semelhantemente ao  
atrair investimentos internacionais e sediar me-  
gaeventos.  
Na arena internacional, os municípios  
têm uma função essencial na implementação  
de políticas que promovem o desenvolvimento  
sustentável, lidando diretamente com questões  
como mudanças climáticas, equidade social e  
crescimento econômico. Um dos principais  
aspectos da atuação das cidades é a adaptação  
dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável  
(ODS) da ONU a nível local, como a redução  
da pobreza e o acesso à água potável (UN-Ha-  
bitat; UNDP; UCLG, 2019; UNHCR, 2024).  
Ademais, as cidades lideram ações climáticas,  
promovendo o uso de energia renovável e in-  
fraestrutura resiliente. A colaboração inter-  
nacional, por meio de redes como a Cidades  
e Governos Locais Unidos (UCLG), também  
permite que os municípios troquem experiên-  
cias e superem desafios comuns (UCLG, 2021).  
Não menos importante, os municípios atuam  
no desenvolvimento econômico ao atrair inves-  
timentos e promover a inclusão social, garan-  
tindo que todos os moradores tenham acesso a  
serviços essenciais e oportunidades mais justas  
(UN-Habitat; UNDP; UCLG, 2019; UNH-  
CR, 2024).  
As cidades-BRICS+, definidas como me-  
gacidades com atributos de cidades-globais, são  
primordiais na estrutura de governança global  
(Bocayuva; Santos Júnior, 2012). Segundo Van  
Der Ploeg e Poelhekke (2008), as megacida-  
des se inserem na globalização por meio de seu  
grande potencial produtivo e de consumo. No  
entanto, diferentemente das megacidades tra-  
dicionais, as cidades-BRICS+ buscam atender  
às demandas globais, mas também se afirmar  
como protagonistas da expansão do capitalismo  
global. Lefebvre (2001) e Harvey (2005; 2012)  
sugerem que o direito à cidade e a mobilida-  
de social são elementos centrais para a trans-  
formação urbana, e as cidades dos BRICS+  
são exemplos disso. A migração em massa para  
essas áreas urbanas intensifica os conflitos por  
melhores condições de vida e infraestrutura, o  
que pressiona os governos locais e nacionais a  
adotarem políticas públicas mais inclusivas.  
Em um marco para a cooperação inter-  
nacional entre municípios, representantes das  
cidades do BRICS+ reuniram-se em Kazan,  
Rússia, para formalizar a criação da Associação  
de Cidades e Municípios BRICS+, com a pre-  
sença da Associação Brasileira de Municípios  
(ABM), destacando a importância da colabo-  
ração global. A nova associação visa fortalecer  
a cooperação entre os municípios do BRICS+,  
promovendo o desenvolvimento sustentável  
e o bem-estar local, com presidência rotativa  
entre os cinco países do bloco, inicialmente li-  
Nos últimos anos, as cidades dos BRICS+  
têm se tornado atores cada vez mais centrais no  
cenário global, especialmente ao se consolida-  
rem como centros de qualificação profissional  
e inovação tecnológica. Essas cidades, como  
Xangai e Rio de Janeiro, são exemplos de como  
a globalização e o capital privado estão remo-  
delando o espaço urbano, tornando-as vetores  
de transformação socioeconômica (Bocayuva;  
Santos Júnior, 2012). Sassen (2001; 2010)  
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derada pelo prefeito de Kazan, Ilsur Metshin  
(BRICS Policy Center, 2024; ABM, 2024).  
Essa iniciativa reflete a reorganização estraté-  
gica das relações entre municípios, reconhe-  
cendo os desafios globais, como as mudanças  
climáticas e o desenvolvimento sustentável, e  
possibilitando a articulação direta com atores  
internacionais e mecanismos de financiamento  
como o NDB, promovendo a paradiplomacia,  
a descentralização do poder e das decisões no  
sistema internacional.  
África do Sul, o Fórum estabeleceu uma plata-  
forma global para que os municípios dos paí-  
ses membros pudessem trocar experiências e  
desenvolver soluções para desafios comuns, fo-  
cando no desenvolvimento socioeconômico, na  
atração de investimentos e na inovação tecno-  
lógica. A relevância da iniciativa cresceu expo-  
nencialmente, sendo inclusive mencionada nas  
declarações oficiais das cúpulas do BRICS+ de  
Moscou (2020) e Pequim (2022), o que con-  
feriu legitimidade a essa esfera de cooperação  
subnacional. O Fórum demonstrou um notável  
amadurecimento, saltando de 700 participan-  
tes em sua primeira edição para mais de 7.000  
em 2023, e se tornou um espaço profícuo para  
a assinatura de centenas de acordos de coope-  
ração em áreas diversas como urbanismo, sus-  
tentabilidade, cultura e comércio (IMBRICS,  
2025). Dessa forma, a trajetória do Fórum ilus-  
tra a construção de uma agenda internacional  
própria pelos municípios, criando a confiança e  
a base institucional necessárias para a posterior  
formalização de uma associação permanente.  
A formalização da Associação BRICS+ em  
O nível e a natureza do engajamento de  
cada município serão influenciados por seus  
contextos domésticos. Schiavon (2019), em  
seu estudo comparativo de sistemas federais,  
demonstra que as permissões constitucionais e  
os mecanismos de coordenação entre governos  
centrais e subnacionais são decisivos. O autor  
classifica os países em exclusivos, complemen-  
tares ou inclusivos quanto à participação dos  
entes subnacionais na política externa. Essa  
tipologia se mostra pertinente para investigar  
a Associação BRICS+, pois a capacidade de  
atuação de um município de um sistema “com-  
plementar” como o brasileiro ou o sul-africano  
será distinta da de um município de um siste-  
ma “exclusivo” como o indiano, onde o gover-  
no central exerce maior controle. Logo, a asso-  
ciação provavelmente atuará como um mosaico  
de capacidades institucionais distintas, e não  
como um bloco homogêneo.  
Kazan abriu caminho para uma agenda intensa  
de cooperação, com a presidência brasileira do  
BRICS+ em 2025 servindo como um catali-  
sador estratégico. Eventos como o IMBRICS  
no Rio de Janeiro (maio de 2025) e o BRICS  
Urban Future Forum em Moscou (setembro de  
2025) foram programados para dar seguimen-  
to aos debates. De forma elementar, a primeira  
Assembleia Geral da Associação BRICS+ de  
Cidades e Municípios foi agendada para ocor-  
rer em Maricá (RJ) no mesmo período, conso-  
lidando o papel da associação como a principal  
plataforma para a articulação de uma agenda  
urbana comum entre os membros, focada em  
desenvolvimento sustentável e na aplicação de  
tecnologias urbanas (Blanchet, 2025).  
A formalização da Associação de Cida-  
des e Municípios BRICS+ em 2024 não foi  
um evento isolado, mas sim o resultado de um  
processo gradual de articulação paradiplomáti-  
ca que se consolidou ao longo de vários anos,  
principalmente por meio do Fórum Municipal  
Internacional do BRICS+ (IMBRICS). Inicia-  
do em 2019 em São Petersburgo, a partir de  
uma proposta concebida no ano anterior na  
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seus instrumentos de captação, destacam-se a  
emissão de títulos em moeda local, como os 3  
bilhões de yuan emitidos na China em 2016,  
com maturidade de cinco anos. O banco já  
recebeu classificação de risco “AAA” (a mais  
elevada possível, significa que a capacidade de  
uma entidade pagar seus compromissos finan-  
ceiros é excepcional, representando um risco de  
inadimplência mínimo) por agências chinesas  
e tem buscado ampliar seu reconhecimento  
internacional. Até 2016, havia desembolsado  
cerca de US$ 1,5 bilhão em projetos, com con-  
centração na China e na Índia. Sua estrutura é  
composta por um Conselho de Governadores  
e um Conselho de Administração, ambos com  
cinco assentos distribuídos igualmente entre  
os países fundadores, e a presidência é rotati-  
va. A política socioambiental do banco segue  
parâmetros internacionais, como os Princípios  
do Equador, incluindo critérios relativos a im-  
pacto ambiental, deslocamento involuntário e  
povos indígenas (BRICS Policy Center, 2018).  
O NDB (2014) possui duas instâncias  
3 O NDB E O FINANCIAMENTO  
SUBNACIONAL  
O NDB, uma das principais iniciativas do  
BRICS+, foi criado com o propósito de finan-  
ciar projetos de infraestrutura e promover o de-  
senvolvimento sustentável em países emergen-  
tes. A criação do NBD foi planejada durante a  
Quinta Cúpula do BRICS+, realizada em Dur-  
ban, África do Sul, em 27 de março de 2013  
(Brasil, 2015). Posteriormente, em 15 de julho  
de 2014, no primeiro dia da Sexta Cúpula do  
BRICS+, realizada em Fortaleza, Brasil, foi  
assinado o acordo que instituiu o NBD, com  
capital inicial de 100 bilhões de dólares, além  
de um fundo de reserva com o mesmo valor  
(NDB, 2014), entrando em vigor no encontro  
seguinte, em Ufá na Rússia, em 2015 (BRICS  
Policy Center, 2018). Com sede em Xangai, o  
NDB busca impulsionar o crescimento econô-  
mico, bem como competir com instituições fi-  
nanceiras tradicionais como o Banco Mundial  
e o Banco Interamericano de Desenvolvimento  
(Lewis; Trevisani, 2014; Costa, 2023).  
principais de gestão: o Conselho de Governa-  
dores e o Conselho de Administração, cada um  
composto por representantes dos cinco países  
fundadores. A presidência do banco é ocupa-  
da em sistema de rodízio, sempre por um re-  
presentante de um dos membros do BRICS+,  
enquanto os demais países indicam os vice-pre-  
sidentes, de modo que cada fundador, exceto  
o que exerce a presidência, conte com ao me-  
nos um assento nessa vice-liderança. O presi-  
dente, eleito pelo Conselho de Governadores,  
não pode acumular a função de governador ou  
diretor. Ele participa das reuniões do Conse-  
lho de Governadores, mas não tem direito a  
voto, salvo em casos de empate no Conselho de  
Administração, do qual faz parte. Atua como  
chefe da equipe operacional, sendo responsável  
Consoante o BRICS Policy Center (2018),  
o NDB tem como objetivo mobilizar recursos  
para projetos de infraestrutura e desenvolvi-  
mento sustentável nos países do BRICS+ e em  
outras economias em desenvolvimento, atuan-  
do de forma complementar às instituições fi-  
nanceiras multilaterais existentes. Seu capital  
autorizado é de US$ 100 bilhões, com aporte  
inicial de US$ 50 bilhões, igualmente dividi-  
do entre os cinco membros fundadores. Parte  
desses recursos (US$ 10 bilhões) corresponde a  
capital realizado e o restante a capital exigível.  
Apesar da possibilidade de novos países adquiri-  
rem participação, os BRICS+ mantêm controle  
de 55% das ações, assegurando a prioridade de  
atender às necessidades do Sul Global. Entre  
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pela condução dos negócios ordinários do ban-  
co, pela organização interna e pela nomeação  
e demissão de funcionários. Cabe-lhe também  
recomendar ao Conselho de Governadores  
a indicação ou dispensa de vice-presidentes.  
Adicionalmente, preside o comitê de crédito e  
investimento, integrado pelos vice-presidentes,  
que delibera sobre operações financeiras até um  
limite fixado pelo Conselho de Administração,  
desde que não haja objeção de seus membros.  
Os mandatos de presidente e vice-presidentes  
têm duração de cinco anos, sem possibilidade  
de recondução, exceto para o primeiro grupo  
de vice-presidentes, cujo mandato inicial foi  
de seis anos. Todos os dirigentes e funcionários  
devem pautar-se exclusivamente por critérios  
técnicos e econômicos, sem interferência em  
questões políticas dos países membros. Sua  
lealdade institucional deve ser voltada apenas  
ao banco, e os Estados signatários comprome-  
tem-se a respeitar essa independência (NDB,  
2014).  
Do mesmo modo, o “Projeto de Desen-  
volvimento Sustentável das Pequenas Cidades  
de Chongqing” (NDB, 2018b) está diretamen-  
te relacionado ao desafio da urbanização acele-  
rada na China, que embora tenha trazido cres-  
cimento econômico, deixou várias pequenas  
cidades com infraestruturas insuficientes para  
acomodar a nova população. Com foco em  
equilibrar o desenvolvimento urbano e reduzir  
a disparidade entre as pequenas cidades e áreas  
centrais, o projeto visa fornecer financiamento  
para a infraestrutura sustentável de sete cida-  
des na municipalidade de Chongqing. Embora  
tenha sido cancelado, esse investimento está  
alinhado com o mandato do NDB de apoiar  
o desenvolvimento sustentável e resolver o dé-  
ficit financeiro enfrentado por essas cidades em  
crescimento.  
Diante da crescente digitalização da ges-  
tão urbana, o papel do NDB se torna ain-  
da mais central. Conforme aponta Blanchet  
(2025), o NDB pode ampliar suas linhas de  
crédito para apoiar especificamente projetos de  
cidades inteligentes que utilizem inteligência  
artificial para fins públicos, como a otimização  
da mobilidade, a gestão de riscos climáticos e a  
eficiência energética. Essa orientação estratégi-  
ca garantiria a infraestrutura digital necessária  
para a modernização dos serviços públicos, ali-  
nhando o banco à fronteira da inovação urbana  
e reforçando a cooperação Sul-Sul no campo da  
soberania digital.  
Um exemplo do NDB em ação é o “Pro-  
jeto de Desenvolvimento de Pequenas Cidades  
Históricas” na Rússia (NDB, 2018a). Por meio  
deste projeto, o NDB visa revitalizar a infraes-  
trutura urbana de pequenas cidades históricas,  
muitas das quais são destinos culturais e edu-  
cacionais importantes, mas possuem uma in-  
fraestrutura urbana precária. Além de melhorar  
as condições de transporte e instalações sociais,  
o foco também está na preservação do patri-  
mônio cultural dessas localidades, alinhan-  
do-se com o decreto presidencial russo sobre  
metas estratégicas até 2024. Isso demonstra o  
compromisso do NDB em apoiar o desenvol-  
vimento sustentável de infraestrutura, um dos  
pilares de seu mandato, ao mesmo tempo em  
que promove a conservação de valores culturais  
essenciais para o país.  
Deste modo, o NDB tem mostrado dis-  
posição em apoiar iniciativas subnacionais, es-  
pecialmente em áreas com grande impacto para  
o desenvolvimento econômico e social. Nesse  
contexto, a atuação do banco se alinha com o  
fenômeno da paradiplomacia, visto que gover-  
nos subnacionais estão cada vez mais engajados  
em iniciativas internacionais.  
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As iniciativas financiadas pelo NDB,  
como o Chongqing Small Cities Sustainable De-  
velopment Project e o Small Historic Cities De-  
velopment Project, oferecem uma plataforma es-  
sencial para que pequenas cidades emergentes  
possam se projetar internacionalmente. Esses  
projetos, ao focarem na infraestrutura e desen-  
volvimento sustentável, criam oportunidades  
para as cidades se integrarem ao sistema inter-  
nacional por meio da cooperação, avigorando  
sua capacidade paradiplomática. O histórico de  
apoio do NDB a essas localidades serve como  
base para a consolidação de iniciativas como a  
Associação de Cidades e Municípios BRICS+,  
proporcionando a inserção internacional e a  
troca de experiências entre essas cidades. Essas  
ações ajudam a redefinir a diplomacia subna-  
cional, permitindo que as cidades estejam mais  
ativas em parcerias internacionais e agendas  
globais, sobretudo na arena do desenvolvimen-  
to sustentável e da inovação urbana.  
pode facilitar essas conexões por intermédio  
de financiamentos diretos, complementando a  
atuação federal. A ABM tem pontuado o com-  
bate às mudanças climáticas como um tema  
central em sua agenda, enfatizando a união  
entre os municípios nessa causa (ABM, 2024).  
A ABM fez um convite para a COP30, que  
ocorrerá em Belém/PA em novembro de 2025,  
o que reforça essa união. Durante a conferên-  
cia, que abordará os desafios climáticos glo-  
bais, acontecerá a primeira reunião oficial da  
Associação de Cidades e Municípios BRICS+.  
A criação dessa associação no BRICS+ repre-  
senta um paradigma para a cooperação entre  
as cidades, permitindo a troca de experiências e  
melhores práticas.  
No Brasil, a Constituição Federal de 1988  
estabelece que qualquer operação de crédito ex-  
terno por entes federativos, incluindo municí-  
pios, necessita de autorização prévia do Senado  
Federal, conforme o artigo 52, inciso III. Essa  
exigência visa assegurar que tais operações es-  
tejam alinhadas com os interesses da União e  
que não comprometam a responsabilidade fis-  
cal do país. No contexto dos BRICS+, o NDB,  
também conhecido como Banco dos BRICS+,  
tem se consolidado como uma alternativa viá-  
vel para a captação de recursos financeiros,  
especialmente para projetos de infraestrutura  
e desenvolvimento sustentável. Para que mu-  
nicípios possam acessar esses financiamentos, é  
necessário que a operação de crédito seja au-  
torizada pelo Senado Federal. Recentemente, o  
Senado aprovou autorizações para empréstimos  
internacionais destinados a estados e municí-  
pios, com garantia da União, para projetos de  
infraestrutura e desenvolvimento regional (Bra-  
sil, 2025). Essas autorizações são formalizadas  
por meio de Resoluções do Senado, que especi-  
ficam os valores, os projetos e as condições das  
A centralidade do NDB para a recém-cria-  
da associação não é fortuita e reflete a princi-  
pal motivação da paradiplomacia no Brasil e,  
possivelmente, em outros países do Sul Global.  
Estudos empíricos, como o de Fróio (2015),  
demonstram que a busca por financiamento  
externo e a atração de investimentos são os  
principais vetores que impulsionam os gover-  
nos subnacionais para a arena internacional,  
superando outros objetivos. Nesse sentido, a  
associação funciona como uma plataforma es-  
tratégica para viabilizar o acesso a recursos que,  
de outra forma, seriam de difícil obtenção para  
os municípios individualmente.  
No caso brasileiro, ainda que a Constitui-  
ção não mencione explicitamente a possibili-  
dade de estados e municípios estabelecerem  
acordos internacionais (Brasil, 1988), o NDB,  
assim como outros organismos internacionais,  
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operações de crédito. Além disso, o NDB tem  
buscado ampliar o financiamento e a captação  
de recursos em moedas locais, com o objetivo  
de reduzir a exposição à volatilidade de juros e  
câmbio, fortalecendo os mercados de capitais  
doméstico. Essa estratégia pode beneficiar mu-  
nicípios ao possibilitar o acesso a recursos em  
moeda nacional, minimizando riscos cambiais.  
Embora o NDB tenha sido inicialmente  
concebido para financiar projetos de infraestru-  
tura e desenvolvimento sustentável em países  
membros, o banco tem se aberto à participação  
de municípios, especialmente em países com  
sistemas federativos que permitem tal envolvi-  
mento. Por exemplo, na África do Sul, algumas  
cidades têm buscado acessar financiamentos do  
NDB, embora a aprovação dependa da autori-  
zação do Tesouro Nacional e da capacidade de  
endividamento local (Maziwisa, 2019). A par-  
ticipação efetiva de municípios sul-africanos  
ainda enfrenta desafios relacionados à gestão  
financeira e à capacidade de crédito local. Não  
obstante, o NDB tem ampliado sua atuação  
por meio da abertura de escritórios regionais  
em várias partes do mundo, incluindo a Áfri-  
ca, a América do Sul, a Ásia Central e a Ásia  
do Sul, visando descentralizar suas operações e  
facilitar o acesso a financiamentos para projetos  
locais (Chin, 2024).  
melhoria da mobilidade urbana. O programa  
está diretamente alinhado aos Objetivos de De-  
senvolvimento Sustentável, em especial o ODS  
11 sobre cidades sustentáveis (NDB, 2023). O  
caso de Aracaju evidencia que, mesmo sob as  
restrições constitucionais que exigem autoriza-  
ção e garantia federal para operações de crédito  
externo, já existem mecanismos práticos pelos  
quais municípios brasileiros podem acessar re-  
cursos do NDB, reforçando a relevância da pa-  
radiplomacia no bloco, principalmente quando  
esta atuação subnacional é exercida de forma  
complementar, e não contestatória, à atuação  
internacional do Estado-nação.  
Logo, embora haja processos burocráticos  
do Estado para operações de crédito externo  
por municípios, o NDB tem se mostrado uma  
fonte importante de financiamento para pro-  
jetos de desenvolvimento, inclusive no Brasil.  
Com a devida autorização, municípios podem  
acessar esses recursos para impulsionar iniciati-  
vas locais e regionais, alinhadas com os objeti-  
vos de desenvolvimento sustentável e integra-  
ção regional promovidos pelos BRICS+.  
4 A ASSOCIAÇÃO DE CIDADES  
E MUNICÍPIOS BRICS+  
A formação da Associação de Cidades e  
Municípios BRICS+ foi formalmente esta-  
belecida durante o Fórum Internacional de  
Cidades BRICS+, realizado em 21 de junho  
de 2024, na Prefeitura de Kazan, Rússia. Este  
evento marcou um momento significativo  
para a colaboração entre governos locais de  
países membros do BRICS+ e outras nações  
parceiras. O encontro contou com a presença  
de representantes de mais de 40 cidades e lí-  
deres de associações municipais de mais de 10  
países, consolidando a criação da Associação  
Um exemplo emblemático da aproxima-  
ção entre o NDB e os municípios brasileiros  
ocorreu em outubro de 2023, quando foi assi-  
nado em Marrakesh o acordo de financiamento  
entre o banco e a Prefeitura de Aracaju. O pro-  
jeto, denominado Aracaju, Cidade do Futuro,  
previa um empréstimo de 84 milhões de dó-  
lares, garantido pela União, para modernizar a  
infraestrutura urbana da capital sergipana. As  
obras incluem a ampliação da rede de sanea-  
mento, drenagem, prevenção de enchentes e  
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de Cidades e Municípios BRICS+ (UCLGA,  
s.d.; BRICS Policy Center, 2024).  
senta um passo significativo na integração dos  
governos locais dos países BRICS+ e de outros  
parceiros globais, promovendo o desenvolvi-  
mento urbano sustentável e o fortalecimento  
das relações multilaterais. A associação contará  
com dois escritórios regionais, um nos Emira-  
dos Árabes Unidos e outro na cidade de Kazan,  
garantindo uma presença ativa e representativa  
das cidades de diferentes dimensões e contextos  
regionais dentro da estrutura organizacional  
(UCLGA, s.d.).  
O Fórum teve início com um discurso de  
boas-vindas do Rustam Minnikhanov, chefe da  
República do Tartaristão, em nome do presi-  
dente russo Vladimir Putin, onde ressaltou a  
proeminência da cooperação entre autoridades  
locais para promover o desenvolvimento sus-  
tentável e o intercâmbio de experiências entre  
os países membros. O prefeito de Kazan, Ilsur  
Metshin, reforçou a importância dessa inicia-  
tiva, frisando que essa associação será essencial  
no fortalecimento das relações entre as cidades  
e municípios do BRICS+ (UCLGA, s.d.).  
A associação recebeu o apoio de diver-  
sas nações, incluindo a África do Sul, por in-  
termédio de seu presidente da Associação de  
Governos Locais, Stofile Bheke, que salientou  
a importância da adaptação das cidades a um  
ambiente global dinâmico e da promoção da  
comunalidade e da cooperação internacional.  
O prefeito de Ancara, Mansur Yavas, destacou  
a relevância de uma associação de autoridades  
locais para enfrentar os desafios atuais, como a  
polarização global e os conflitos, e para cons-  
truir cidades mais resilientes por meio da troca  
de experiências (UCLGA, s.d.).  
Um exemplo recente da atuação paradi-  
plomática dos municípios no âmbito do BRI-  
CS+ ocorreu em julho de 2025, quando An-  
gra dos Reis sediou o IMBRICS Summit Angra  
2025 (Rio de Janeiro, 2025). O fórum reuniu  
autoridades, empresários e especialistas para  
debater a inserção das cidades na nova multi-  
polaridade global, com foco no fortalecimento  
da paradiplomacia como forma de atuação in-  
ternacional direta, sem intermediação exclusi-  
va do governo federal (Rio de Janeiro, 2025).  
Durante o encontro, uma comitiva oficial de  
empresários russos prospectou parcerias em  
áreas como infraestrutura, segurança, inovação  
e turismo, e foi firmado um acordo entre o Fó-  
rum Internacional dos Municípios BRICS+ e  
a prefeitura de Angra para promoção conjunta  
de roteiros turísticos, articulado com o Conse-  
lho Municipal de São Petersburgo, na Rússia.  
A iniciativa é um indício de como a paradiplo-  
macia pode gerar alianças estratégicas capazes  
de promover desenvolvimento sustentável e  
ampliar a projeção internacional de cidades do  
BRICS+; articulando eventos internacionais,  
parcerias diretas e visibilidade global.  
A Associação de Cidades e Municípios  
BRICS+ visa promover o desenvolvimento  
sustentável das cidades, incentivar a coopera-  
ção socioeconômica, compartilhar as melhores  
práticas de gestão urbana e enfrentar desafios  
comuns, como a sustentabilidade ambiental,  
proteção social, intercâmbio cultural e desen-  
volvimento de infraestrutura. Durante a sessão  
de declarações, alguns participantes expressa-  
ram a necessidade de consultar seus respectivos  
governos antes de formalizar o apoio completo  
à associação, mas o documento foi aprovado  
por consenso. A criação da associação repre-  
Do mesmo modo, a consolidação das ci-  
dades do BRICS+ como polos de inovação é  
visível em diversas iniciativas que aplicam tec-  
nologias emergentes para solucionar desafios  
63 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.52 - 67, fev. 2025  
urbanos. A inteligência artificial (IA), em es-  
pecial, tornou-se um campo central de expe-  
rimentação. A China se destaca com projetos  
como o “City Brain” em Xangai, uma plata-  
forma de governança urbana que integra dados  
em tempo real. Na Índia, a cidade de Pune uti-  
liza IA para otimizar o transporte público, en-  
quanto na África do Sul, Joanesburgo e Cidade  
do Cabo aplicam a tecnologia para a prevenção  
da criminalidade e gestão de resíduos. No Bra-  
sil, para além do Rio de Janeiro, Curitiba re-  
cebeu reconhecimento internacional em 2023  
por seu uso de sensores inteligentes para geren-  
ciar o consumo de energia e otimizar a coleta  
de resíduos (Blanchet, 2025). Essa diversidade  
de aplicações demonstra um campo fértil para  
a cooperação e o intercâmbio de boas práticas  
entre os municípios do bloco.  
O BRICS+ não possui um regime de go-  
vernança multinível nos moldes de instituições  
altamente institucionalizadas, como a União  
Europeia, conforme Hocking (1993; 1999)  
discute. Trata-se, antes, de uma coalizão inter-  
governamental flexível, em que a coordenação  
principal é exercida pelos Estados nacionais  
(Beeson; Zeng, 2018). As cúpulas de chefes de  
Estado e governo constituem a instância cen-  
tral, definindo diretrizes políticas e prioridades  
gerais. A partir delas, desdobram-se instâncias  
ministeriais e setoriais — finanças, comércio,  
saúde, educação, segurança, entre outras —  
que elaboram planos de trabalho, declarações  
conjuntas e compromissos temáticos. Então,  
no caso do BRICS+ trata-se menos de um re-  
gime institucionalizado e mais de uma rede de  
cooperação em diferentes níveis — nacional,  
setorial e local. Desta maneira, a Associação de  
Cidades e Municípios BRICS+ pode ser enten-  
dida como um espaço de articulação subnacio-  
nal dentro de uma estrutura que permanece  
predominantemente intergovernamental.  
A formação da Associação de Cidades e  
Municípios BRICS+ aparenta um exemplo de  
cooperação entre diferentes níveis de governo,  
alinhada ao conceito de diplomacia multica-  
madas (Hocking, 1993; 1999). Essa forma de  
governança caracteriza-se pela interação e co-  
laboração entre diversos atores, tanto centrais  
quanto locais, transcendentais às fronteiras na-  
cionais. Isto é, as unidades subnacionais par-  
ticipam ativamente do processo diplomático e  
da política internacional, ao lado de governos  
centrais na construção das relações exteriores.  
Desta maneira, a política externa não é perce-  
bida de modo fragmentado, como sugerido por  
Duchacek (1984; 1990) e Soldatos (1990). A  
perspectiva multicamadas reforça que a diplo-  
macia internacional não é um processo linear  
ou exclusivamente centralizado, mas sim uma  
rede de interações entre atores domésticos e in-  
ternacionais, permitindo que cidades e muni-  
cípios obtenham um desempenho relevante no  
âmbito global.  
O arranjo inclui ainda grupos técnicos e  
mecanismos institucionais, como o NDB e o  
Acordo de Reserva Contingente dos BRICS+,  
que operam como braços operacionais da coo-  
peração (Chaturvedi; Saha, 2019). Esses orga-  
nismos mantêm relações estreitas com os minis-  
térios de finanças e bancos centrais, reforçando  
a centralidade dos governos nacionais no pro-  
cesso decisório. Em paralelo, redes acadêmicas e  
fóruns de pesquisa, como o BRICS inkTanks  
Council e a BRICS University League, cum-  
prem um papel de assessoramento e diplomacia  
do conhecimento, sem caráter vinculante.  
Apesar desse desenho centrado no ní-  
vel estatal, o BRICS+ tem buscado ampliar a  
participação de atores subnacionais e societais.  
Fóruns como o BRICS Urbanisation Forum  
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e o BRICS Friendship Cities and Local Go-  
vernment Cooperation Urbanisation Forum  
reúnem prefeitos, governadores e autoridades  
locais para debater políticas urbanas, sustenta-  
bilidade e inovação administrativa. Em 2024,  
a Associação de Cidades e Municípios do BRI-  
CS+ institucionaliza redes de diálogo entre go-  
vernos locais e agendas temáticas próprias. A  
participação de cidades em cooperações técni-  
cas em áreas como transporte, meio ambiente  
e desenvolvimento tecnológico indicam uma  
abertura crescente à diplomacia subnacional e  
à diplomacia multicamadas.  
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS  
A criação da Associação de Cidades e Mu-  
nicípios BRICS+ confirma uma tendência de  
reorganização do sistema internacional em di-  
reção a formatos de governança mais distribuí-  
dos e multicamadas. Ao institucionalizar a coo-  
peração entre municípios e proporcionar um  
espaço de projeção externa, o arranjo amplia a  
atuação paradiplomática, permitindo que go-  
vernos locais se tornem agentes diretos de ar-  
ticulação internacional. Esse processo respon-  
de a lacunas deixadas pelos Estados centrais,  
sobretudo diante de problemas globais que se  
manifestam em escala local, como mudanças  
climáticas, infraestrutura urbana deficiente e  
desigualdades socioeconômicas.  
No entanto, há uma diferença crucial en-  
tre a participação e a capacidade de decisão.  
Os relatórios e comunicados resultantes desses  
fóruns enfatizam recomendações, boas práticas  
e diretrizes, mas não criam obrigações formais  
aos países (Chatterjee, 2022; SA Cities, 2023).  
As cidades e governos locais, embora cada vez  
mais presentes no discurso e nas iniciativas prá-  
ticas, não dispõem de assento nas instâncias  
centrais de governança do BRICS+, como as  
cúpulas, os conselhos ministeriais ou o NDB  
(Vyas-Doorgapersad, 2022). Em outras pala-  
vras, trata-se de uma estratégia de descentrali-  
zação relativa, que confere visibilidade e espaço  
de articulação a atores subnacionais, mas não  
redistribui poder decisório efetivo.  
A associação também reforça a conexão  
entre paradiplomacia e financiamento inter-  
nacional. A possibilidade de acessar recursos  
do NDB representa um ganho material, bem  
como um reposicionamento político dos mu-  
nicípios como interlocutores legítimos nas are-  
nas financeiras multilaterais. A partir de orga-  
nização coletiva, as cidades do BRICS+ podem  
ampliar sua capacidade de negociação e reduzir  
a vulnerabilidade individual frente a requisitos  
burocráticos ou restrições impostas por estru-  
turas nacionais. Contudo, o fortalecimento  
dessa rede não elimina tensões. Persistem bar-  
reiras jurídicas e institucionais, como no caso  
brasileiro, em que a autorização do Senado  
Federal é condição para operações de crédito  
externo. Além disso, a governança do BRICS+  
permanece centrada nos Estados nacionais, o  
que limita a autonomia decisória das cidades  
e mantém a paradiplomacia em posição com-  
plementar, e não substitutiva ou contestatória,  
da diplomacia estatal. A associação, portanto,  
avança no reconhecimento do papel subnacio-  
Esse arranjo revela uma arquitetura de  
cooperação em camadas, na qual a centralida-  
de estatal convive com espaços de interlocução  
descentralizados. A nível discursivo, o BRICS+  
valoriza a multiplicidade de atores e promove  
encontros locais, mas a governança formal per-  
manece intergovernamental. Assim, o BRICS+  
pode ser compreendido como uma rede de coo-  
peração em que diferentes esferas — nacionais,  
técnicas e locais — interagem, mas com graus  
distintos de influência e capacidade de decisão.  
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nal, mas ainda carece de mecanismos que lhe  
assegurem influência efetiva nos processos de-  
cisórios do bloco. Isto não implica, entretanto,  
dependência das cidades em relação ao gover-  
no federal para estabelecer relações diretas com  
outros países, cidades, estados, regiões ou orga-  
nizações internacionais, em prol de parcerias,  
negociações e visibilidade externa.  
Neste contexto, estudos futuros devem  
replicar e averiguar os pressupostos aqui apre-  
sentados, tanto para testar a hipótese formu-  
lada quanto para explorar novas possibilidades  
analíticas. Por se tratar de um objeto recente e  
de um estudo com caráter prospectivo, é fun-  
damental que as próximas pesquisas examinem  
a trajetória da Associação de Cidades e Muni-  
cípios BRICS+, observando como os projetos  
financiados pelo NDB estão sendo negociados,  
alocados e implementados. Igualmente rele-  
vante será verificar se tais iniciativas respeitam  
as comunidades locais e os povos tradicionais  
envolvidos, e se os resultados obtidos corres-  
pondem a um desenvolvimento sustentável  
efetivo, ou se, ao contrário, reproduzem lógicas  
destrutivas e exploratórias próprias do capita-  
lismo global, apenas revestidas pelo discurso do  
progresso.  
Outro ponto a ser considerado é a diversi-  
dade de capacidades entre os municípios parti-  
cipantes. Sistemas federativos e centralizadores  
conferem margens distintas de autonomia às  
cidades, resultando em assimetrias dentro da  
própria associação. Essa heterogeneidade ten-  
de a gerar diferentes ritmos de engajamento e  
distintos graus de acesso aos recursos do NDB.  
Assim, a Associação de Cidades e Municípios  
BRICS+ pode ser compreendida como um  
mosaico de experiências locais articuladas por  
um denominador comum: a busca por interna-  
cionalização e financiamento para o desenvol-  
vimento sustentável.  
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Enfim, a iniciativa representa um marco  
para a paradiplomacia no Sul Global, consoli-  
dando as cidades como protagonistas de agen-  
das internacionais. Ao mesmo tempo, evidencia  
os limites estruturais impostos por uma ordem  
internacional ainda predominantemente esta-  
tal. O desafio futuro será equilibrar essas duas  
dimensões: ampliar a capacidade de ação das  
cidades sem romper os mecanismos de coor-  
denação com os governos nacionais. O sucesso  
da associação dependerá da sua habilidade de  
traduzir cooperação em resultados concretos,  
seja em projetos de infraestrutura, em inova-  
ção tecnológica ou em políticas ambientais. Se  
conseguir tal feito, terá não apenas fortalecido  
a paradiplomacia, mas também contribuído  
para uma redefinição prática da própria gover-  
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Artigo  
O Programa Nuclear Iraniano na agenda  
do G-7 e BRICS: entre a hierarquia e a  
heteronomia nas relações internacionais  
e Iranian Nuclear Program on the G-7 and BRICS agenda: between hierarchy and  
heteronomy in international relations  
El Programa Nuclear Iraní en la agenda del G-7 y los BRICS: entre la jerarquía y la  
heteronomía en las relaciones internacionales  
Bruno Mendelski1  
Camila Munareto2  
Recebido em: 10 de outubro de 2024  
Aceito em: 12 de agosto de 2025  
RESUMO  
Este artigo analisa a agenda discursiva do G-7 e dos BRICS frente ao programa nuclear  
iraniano, no período entre 2014-2024. Teoricamente, é usado a teoria construtivista  
de Nicholas Onuf (1989) e sua categorização dos atos de fala. Metodologicamente,  
é empregado o método comparado e a análise de conteúdo para a investigação das  
declarações oficiais anuais de cúpula dos dois blocos. Como resultados, constata-se que  
o G-7 adota predominantemente atos de fala diretivos e comissivos, expressando uma  
retórica hierárquica que coloca o Irã como agente desestabilizador e submisso às normas  
ocidentais de não proliferação nuclear. Já os BRICS empregam majoritariamente atos  
assertivos e comissivos, privilegiando a diplomacia, o direito internacional e a solução  
pacífica dos conflitos, construindo um domínio de heteronomia. Apesar do tom conciliador,  
a heteronomia também reproduz assimetrias nas relações internacionais, pois submete o  
Irã às regras estabelecidas pelas grandes potências. O estudo conclui que, enquanto o G-7  
reforça uma lógica hierárquica de controle, os BRICS projetam uma abordagem cooperativa  
e discursivamente mais inclusiva, sem, contudo, romper com a estrutura de poder vigente.  
Palavras-chave: Programa Nuclear Iraniano; BRICS; G-7.  
ABSTRACT  
is article analyzes the discursive agenda of the G-7 and the BRICS regarding the Iranian  
nuclear program between 2014 and 2024. eoretically, it uses Nicholas Onufs (1989)  
constructivist theory and his categorization of speech acts. Methodologically, it employs the  
comparative method and content analysis to investigate the official annual summit statements  
of the two blocs. e results show that the G-7 predominantly adopts directive and commissive  
speech acts, expressing a hierarchical rhetoric that positions Iran as a destabilizing agent  
1 Doutor em Relações Internacionais pela UNB, Sciences Po e Istanbul University. Professor visitante de Relações Internacionais na  
UFABC. Pesquisador no NUPRIMA e CEAI. Contato: brunomendelskidesouza@gmail.com  
2 Doutora em Estudos Estratégicos Internacionais pela UFRGS. Professora substituta de Relações Internacionais na UNIPAMPA.  
Pesquisadora do NUPRIMA. Contato: camila.hirt.munareto@gmail.com  
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and submissive to Western nuclear nonproliferation norms. e BRICS, on the other hand,  
predominantly employ assertive and commissive acts, prioritizing diplomacy, international  
law, and the peaceful resolution of conflicts, constructing a domain of heteronomy. Despite  
the conciliatory tone, heteronomy also reproduces asymmetries in international relations, as it  
subjects Iran to the rules established by the great powers. e study concludes that, while the  
G-7 reinforces a hierarchical logic of control, the BRICS project a cooperative and discursively  
more inclusive approach, without, however, breaking with the current power structure.  
Keywords: Iranian Nuclear Program; BRICS; G-7.  
RESUMEN  
Este artículo analiza la agenda discursiva del G-7 y los BRICS respecto al programa nuclear  
iraní entre 2014 y 2024. Teóricamente, utiliza la teoría constructivista de Nicholas Onuf  
(1989) y su categorización de los actos de habla. Metodológicamente, emplea el método  
comparativo y el análisis de contenido para investigar las declaraciones oficiales de las cumbres  
anuales de ambos bloques. Los resultados muestran que el G-7 adopta predominantemente  
actos de habla directivos y complacientes, expresando una retórica jerárquica que posiciona a  
Irán como un agente desestabilizador y sumiso a las normas occidentales de no proliferación  
nuclear. Los BRICS, por otro lado, emplean predominantemente actos asertivos y  
complacientes, priorizando la diplomacia, el derecho internacional y la resolución pacífica  
de conflictos, construyendo un dominio de heteronomía. A pesar del tono conciliador, la  
heteronomía también reproduce asimetrías en las relaciones internacionales, ya que somete  
a Irán a las reglas establecidas por las grandes potencias. El estudio concluye que, mientras el  
G-7 refuerza una lógica jerárquica de control, los BRICS proyectan un enfoque cooperativo y  
discursivamente más inclusivo, sin romper, sin embargo, con la actual estructura de poder.  
Palabras clave: Programa Nuclear Iraní; BRICS; G-7.  
tenha aliviado parcialmente as tensões em tor-  
no do tema, a retirada unilateral dos Estados  
Unidos do acordo em 2018 recolocou o pro-  
grama nuclear iraniano em discussão. A recente  
adesão da República Islâmica aos BRICS4, jun-  
tamente com outros cinco países do Sul Glo-  
bal, adicionou uma nova camada a esse debate.  
Enquanto o G-7, em razão de seu peso e  
1 INTRODUÇÃO  
Especialmente a partir do início dos anos  
2000, o programa nuclear iraniano tem ocupa-  
do um lugar central nas relações internacionais.  
Desde então, o Ocidente, liderado pelo G-73,  
tem se empenhado em situar a questão nuclear  
iraniana como um item fundamental da pauta  
global, mobilizando tanto as instituições mul-  
tilaterais, quanto a opinião pública internacio-  
nal. Ainda que a assinatura do acordo JCPOA  
(Joint Comprehensive Plan of Action) em 2015  
composição, atua como avalista da atual ordem  
internacional; os BRICS representam o esfor-  
ço das principais economias emergentes em  
ampliar o seu espaço no cenário internacional  
e modificar o sistema de governança global.  
3 Fundado em 1975, o G-7 é composto por EUA, Canadá,  
Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Japão. A Rússia  
integrou o grupo entre 1998 e 2014, quando foi suspensa  
em decorrência da anexação da Criméia. A agremiação se  
reúne anualmente para abordar grandes questões globais.  
O grupo é unido pelo compartilhamento e defesa de valo-  
res como liberdade, democracia e direitos humanos (G-7  
ITALY, 2024).  
4 Formado em 2009, os BRICS tem como membros Brasil,  
Rússia, Índia, China e África. Em 2024, agregaram- se Ará-  
bia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irã.  
O grupo encontra-se anualmente, e seu diálogo ocorre sobre  
três pilares: cooperação em política e segurança, coopera-  
ção financeira e econômica, e cooperação cultural e pessoal  
(BRASIL, 2024).  
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A centralidade dos blocos na arquitetura inter-  
nacional contemporânea é exemplificada em  
dois dados. Primeiramente, ambos agrupamen-  
tos abarcam todos os membros permanentes  
do Conselho de Segurança das Nações Unidas  
(CSNU). Segundo, juntos, G-7 e BRICS cons-  
tituem cerca de 61,5% da economia mundial  
(OLIVEIRA, 2023).  
2 METODOLOGIA E APORTE  
TEÓRICO  
O método comparado e a análise de con-  
teúdo são empregados para analisar como um  
mesmo objeto (programa nuclear iraniano)  
foi tratado discursivamente por dois agentes  
distintos (G-7 e BRICS), no mesmo período  
temporal (2014-24). Na análise de conteúdo,  
investigou-se qualitativamente, e sob a guisa do  
modelo teórico dos atos de fala proposto por  
Onuf (1989), as principais expressões nas quais  
o Irã e seu programa nuclear são representados.  
Quantitativamente, mapeou-se a ocorrência  
dos termos mais usados pelo G-7 e BRICS para  
a menção ao Irã, através do site Wordcounter,  
que proporciona a contagem automática dos  
vocábulos.  
Diante disso, o presente artigo tem  
como objetivo investigar a agenda do G-7 e  
dos BRICS frente ao programa nuclear ira-  
niano, a partir do construtivismo linguístico  
de Onuf (1989) e sua categorização dos atos  
de fala. Para tanto, será feita uma análise das  
declarações oficiais das cúpulas anuais dos  
blocos de 2014 – ano em que a Rússia deixou  
o G-7 e passou a constar exclusivamente nos  
BRICS, – até a atualidade (2024). Ainda que  
recentemente o Irã tenha se juntado aos BRI-  
CS, cabe esclarecer que o recorte temporal do  
trabalho investiga o período anterior à esta  
entrada. Essa delimitação possibilita que o  
posicionamento dos BRICS sobre Teerã seja  
examinado de modo mais objetivo, ou seja,  
limitando a possível influência iraniana sobre  
as condutas do bloco. Nosso intuito é respon-  
der à seguinte pergunta de pesquisa: “Quais  
são as semelhanças e diferenças entre a agen-  
da dos BRICS e do G7 para o programa nu-  
clear iraniano?”.  
A pesquisa documental engloba as decla-  
rações oficiais anuais de cúpula do G-7 e BRI-  
CS, disponíveis na íntegra nos sites do Minis-  
tério das Relações Exteriores do Japão5 (G-7) e  
de seu homônimo brasileiro6. Foram localiza-  
das nove declarações7 de cada bloco no perío-  
do entre 2014 e 2024. A decisão de investigar  
somente as declarações oficiais das cúpulas dos  
blocos justifica-se na medida que objetivo cen-  
tral do artigo é analisar o posicionamento dos  
grupos e não dos países de maneira individual.  
Em conjunto com o método comparado,  
emprega-se o marco teórico do construtivismo  
linguístico de Onuf (1989). O autor propõe a  
Observa-se que o G-7 opta por atos de  
fala majoritariamente diretivos e comissivos em  
relação ao programa nuclear iraniano, consti-  
tuindo um domínio hierárquico. Os BRICS,  
por sua vez, adotam um tom conciliador frente  
à questão e empregam atos de fala assertivos e,  
sobretudo, comissivos, contribuindo para domí-  
nio da heteronomia.  
5 JAPAN. Ministry of Foreign Affairs of Japan. G7 / G8 – Eco-  
nomic Diplomacy. 2025. Disponível em: https://www.mofa.  
go.jp/policy/economy/summit/index.html. Acesso em: 17  
maio. 2024.  
6 BRASIL. Ministério das Relações Exteriores do Brasil. No-  
tas à Imprensa. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/  
mre/pt-br/canais_atendimento/imprensa/notas-a-imprensa.  
Acesso em: 17 maio. 2024  
7 O número total não se constitui em dez documentos, pois  
em 2020, em razão da pandemia, o G-7 não realizou en-  
contro e a cúpula dos BRICS de 2024 ainda não ocorreu no  
momento da escrita deste artigo.  
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compreensão do mundo através do estudo do  
papel da linguagem (atos de fala) e das regras.  
Para Onuf (1989), a linguagem não apenas re-  
flete a realidade, mas também a constrói. Ou  
seja, a fala e o ato são totalmente ligados: os  
atos são a expressão da fala e dos significados  
e não podem ser entendidos fora ou indepen-  
dente deles (NOGUEIRA; MESSARI, 2005).  
Para compreender os fenômenos sociais,  
Onuf (1989) categoriza os discursos em três  
tipos de atos de fala: assertivos, diretivos e co-  
missivos. Os primeiros informam como as coi-  
sas são e como o mundo funciona por meio  
de conteúdos proposicionais. Os atos de fala  
diretivos são categóricos, contendo comandos  
e ordens, ou seja, dizem aos ouvintes o que  
eles tem que fazer. Já os comissivos envolvem  
promessas, recompensas e compromissos futu-  
ros. Comumente, remetem a direitos e deveres  
(ONUF, 1989).  
gico de que seus interesses são os mesmos dos  
demais. Na heteronomia, os papéis dos agentes  
são definidos pelos papéis dos outros e não pe-  
los seus próprios, através de redes de compro-  
missos (ONUF, 1989).  
Dentro desse framework, a pesquisa ma-  
peou 29 atos de fala do G-7 que discorreram  
sobre o programa nuclear iraniano. Destes, a  
maioria são diretivos (44,8%), seguidos de co-  
missivos (37,9%) e de assertivos (17,2%). Nos  
BRICS, o tema foi abordado em 23 atos de fala,  
sendo 56,5% assertivos e 43,5% comissivos.  
Metodologicamente, foram escolhidos para a  
análise, 12 trechos de atos de fala identificados  
nas declarações do G-7, e 6 referentes aos BRI-  
CS, seguindo o critério de representatividade.  
Isto tanto no que diz respeito ao quantitativo de  
atos de fala (G-7 dispõem de mais atos de fala  
que os BRICS), quanto acerca do tipo de atos de  
fala (focou-se nas categorias mais numerosas).  
Os atos de fala estão ligados às regras, que  
possuem o papel de completar a construção das  
estruturas e das realidades sociais. As regras são  
criadas através da repetição de determinados  
atos de fala. Nesse sentido, as regras de instru-  
ção são derivadas dos atos de fala assertivos; as  
regras de direção, dos atos de fala diretivos; e as  
regras de compromisso, dos atos de fala comis-  
sivos (ONUF, 1989).  
3 BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO  
DO PROGRAMA NUCLEAR  
IRANIANO  
Iniciado ainda durante a monarquia do  
Xá Reza Pahlevi (1951-79), com a assinatura  
do “Cooperation Concerning Civil Uses of Atoms  
(1957)” entre Irã e Estados Unidos, o progra-  
ma nuclear iraniano foi suspenso após a Revo-  
lução Islâmica de 1979 e retomado apenas em  
meados da década de 1980, quando a guerra  
contra o Iraque ampliou a demanda energéti-  
ca do Irã. No entanto, foi somente em 2002,  
quando foi revelado que a República Islâmica  
estava construindo instalações de enriqueci-  
mento nuclear, que este tópico passou a ocupar  
um espaço central nas relações internacionais  
iranianas, especialmente no seu relacionamen-  
to com o Ocidente.  
Outro conjunto de conceitos relaciona-  
dos com os “atos de falae as “regras, são os  
“domínios” (rule no original em inglês), que  
podem ser entendidos como padrão de gover-  
no. São eles a hierarquia (originária das regras  
de direção); hegemonia (regras de instrução) e  
heteronomia (regras de compromisso). Na pri-  
meira, prevalecem relações de subordinação,  
de comando e hierarquia entre os Estados. Na  
hegemonia, os grupos dominantes asseguram o  
seu poder por meio do convencimento ideoló-  
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Para o Irã, o programa nuclear representa  
um projeto central para o seu desenvolvimento  
econômico e autossuficiência energética, sendo  
mobilizado como um símbolo da independên-  
cia e soberania iraniana em relação ao sistema  
internacional. Por outro lado, os Estados Uni-  
dos, Israel e seus principais aliados europeus  
enxergam o desenvolvimento nuclear iraniano  
como uma ameaça e alegam que, sob a justi-  
ficativa de fins civis, o Irã estaria encobrindo  
esforços para desenvolver armas nucleares8.  
Foi nesse contexto que, nos anos seguintes,  
enquanto a União Europeia (UE) procurou en-  
volver o Irã através de negociações com a UE–3  
(Alemanha, França e Reino Unido), Washing-  
ton implementou medidas punitivas com o ob-  
jetivo de persuadir o Irã a cessar as suas ativida-  
des nucleares (WARNAAR, 2013, p. 138). Essa  
pressão externa tornou-se ainda mais significati-  
va entre 2003 e 2013, período em que o CSNU  
emitiu seis resoluções aplicando um regime de  
sanções aos setores energético e bancário do Irã,  
em uma tentativa de isolar financeiramente o  
país (JOYNER, 2016, p. 39).  
Comprehensive Plan of Action - JCPOA). Im-  
portante destacar que representantes do G-7 e  
BRICS estiveram presentes nestas negociações.  
A assinatura do JCPOA envolveu com-  
promissos de ambos os lados. Teerã abandonou  
a sua exigência original de não reduzir o seu en-  
riquecimento de urânio, além de se submeter  
a um regime de inspeção reforçado por parte  
da Agência Internacional de Energia Atômi-  
ca (AIEA). Os EUA, por outro lado, deixam  
de lado sua insistência na interrupção total do  
programa nuclear iraniano e, juntamente com  
a UE, concordaram com uma suspensão coor-  
denada das sanções econômicas e financeiras  
que vinham sendo aplicadas ao Irã (JOYNER,  
2016, p. 62; SAIKAL, 2019, p. 216).  
Apesar do acordo ter sido considerado  
“um novo capítulo nas relações do Irã com o  
Mundo” (ROUHANI, 2015), ele não durou  
muito tempo. Em 5 de maio de 2018, o então  
presidente norte-americano, Donald Trump,  
anunciou a retirada do país do acordo nuclear.  
Ainda que tenha permanecido válido mesmo  
sem a participação dos EUA, a saída de Washin-  
gton abriu caminho para o Irã retomar o seu  
programa nuclear sem limitações e ampliou as  
tensões entre as duas nações (KHAN, 2024, p.  
45). Desde então, a ampliação das sanções ao  
Irã, o descontentamento com a fragilidade do  
acordo e as ameaças iranianas de se retirarem  
do TNP culminaram em um impasse em torno  
da questão, de modo que as tentativas de rene-  
gociação do JCPOA não foram finalizadas.  
Apesar das diferentes tentativas de se che-  
gar a um acordo sobre o programa nuclear  
iraniano, foi somente em novembro de 2013,  
que o Irã e os cinco membros permanentes do  
CSNU, mais a Alemanha (P5+1), assinaram  
um acordo provisório para introduzir uma  
maior supervisão sobre o programa nuclear.  
Essas negociações continuaram durante os dois  
anos seguintes e em 14 de julho de 2015, foi  
anunciado o Plano de Ação Conjunto (Joint  
3.1 A agenda do G-7 e a  
constituição do domínio hierárquico  
8 É importante pontuar que o Irã constantemente defende  
a natureza pacífica de suas atividades nucleares. Além de  
ser signatário do Tratado de Não-Proliferação de Armas  
Nucleares (TNP) desde 1968, em 2003, foi anunciado pu-  
blicamente que o Aiatolá Khamenei emitiu uma fatwa (lei  
islâmica) contra as armas nucleares, considerando- as “não  
islâmicas” (JOYNER, 2016, p. 14).  
A centralidade do programa nuclear ira-  
niano para o G-7 pode ser constatada a partir  
da sua presença em nove das dez declarações  
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analisadas, ficando de fora apenas em 20179.  
O vocábulo “nuclear” é o segundo mais usado  
no contexto das considerações do grupo sobre  
o Irã, aparecendo vinte e quatro vezes (3%), fi-  
cando atrás somente da menção ao nome do  
país. Considerando a busca por dupla de pa-  
lavras, constata-se que referências diretas ao  
programa nuclear iraniano (“nuclear iraniano”;  
“arma nuclear”; “programa nuclear”) constitui-  
-se na mais recorrente expressão, com dezenove  
aparições (4%).  
verá desenvolver ou adquirir uma arma nu-  
clear” (repetidos nas declarações do G-7 de  
2024, 2023, 2022, grifos nossos); “Partilhamos  
plenamente dois objetivos: garantir que o Irã  
nunca adquira armas nucleares e promover  
a paz e a estabilidade na região” (G-7, 2019,  
destaque próprio); “Estamos empenhados em  
garantir permanentemente que o programa  
nuclear do Irã permaneça pacífico” (G-7,  
2018, destaque próprio).  
As expressões terminativas “nunca deve-  
rá adquirir uma arma nuclear”; “garantir per-  
manentemente que o programa nuclear do Irã  
permaneça pacífico”, claramente apontam para  
um posicionamento hierárquico, do estilo top-  
-down, na retórica do G-7. Assim como afirma  
Onuf (1998), os atos de fala diretivos, ao dizer  
aos agentes o que eles devem fazer, procuram  
garantir a manutenção das relações subordi-  
nadas, de modo que cabe ao Irã, tão somente,  
obedecer a esta determinação de não dispor de  
armas nucleares. Somado a isso, há a norma-  
tividade envolvida na fala, tendo em vista que  
“constantemente repetidos, os mesmos velhos  
atos de fala se transformam em convenção, pois  
todos passam a acreditar que as próprias pala-  
vras, e não os falantes que as pronunciam, são  
responsáveis pelo que acontece” (ONUF, 1998,  
p. 66, tradução livre)”. Nesse sentido, podemos  
inferir que a enfática negativa da possibilidade  
do Irã de obter armas atômicas por parte do  
G-7 visa contribuir para a descredibilização in-  
ternacional de tal possibilidade.  
Em termos de atos de fala, sobressaem-se  
os comissivos, e os diretivos. Sobre os primeiros,  
destaca-se o enquadramento do programa nu-  
clear iraniano no âmbito multilateral. O acordo  
JCPOA e a AIEA são mencionados em seis das  
dez declarações, conforme seguem exemplos:  
“Reafirmamos nosso forte compromisso com  
uma resolução diplomática” (...) (G- 7, 2014,  
destaque próprio); “Acolhemos com satisfação  
as discussões substantivas (...) entre os mem-  
bros do JCPOA” (G-7, 2021); “Uma solução  
diplomática continua sendo a melhor maneira  
(...)” (G-7, 2022, 2023, destaque próprio).  
Contudo, nota-se que mesmo em um  
ambiente retórico que formalmente privile-  
gia a multilateralidade e o compromisso, há  
a presença de elementos/esforços diretivos/  
hierárquicos. Em outras palavras, a importân-  
cia da saída diplomática e multilateral para a  
questão nuclear iraniana é acompanhada, fre-  
quentemente, por promessas e disposições do  
G-7 em garantir que Teerã jamais possua armas  
nucleares. Esta diretriz consta em sete das nove  
declarações em questão. Exemplos: “reiteramos  
a nossa determinação de que o Irã nunca de-  
Outro ponto que merece destaque na aná-  
lise é a omissão do G-7 em suas declarações  
da saída unilateral dos EUA do JCPOA, ra-  
zão que impactou sensivelmente a viabilidade  
do acordo (MOUSAVIAN, 2023). Conforme  
Freeden, os silêncios desempenham funções  
políticas cruciais, não sendo acidentais ou in-  
9 Em 2017, o G7 mencionou apenas o programa nuclear  
norte-coreano. Considerando que havia um certo otimismo  
pela recente assinatura do JCPOA, o fato de não mencionar  
o programa nuclear nesse contexto pode indicar que a ques-  
tão foi potencialmente normalizada pelo grupo.  
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cidentais. Ao deixar certos tópicos fora do de-  
bate público, almeja-se controlar o que se torna  
visível ou relevante no discurso político, mol-  
dando o comportamento e as expectativas das  
pessoas (FREEDEN, 2022).  
tares e sabotagens ao programa nuclear10. Tal  
comportamento consolida o caráter hierárqui-  
co que o bloco impõe à República Islâmica.  
3.2 A agenda dos BRICS e o reforço  
da heteronomia  
Soma-se a isso o fato de que é direciona-  
da ao Irã a responsabilidade pelo fracasso do  
JCPOA e demais esforços multilaterais de não  
proliferação nuclear. Frases como “Apelamos  
ao Irã para que coopere plenamente com a  
AIEA” (G-7, 2014, 2015, destaque próprio);  
“O levantamento das sanções (...) tal como  
previsto no JCPOA, representa uma opor-  
tunidade para o Irã se reconectar com a co-  
munidade global (G-7, 2016, destaque pró-  
prio)”; “O Irã deve engajar em um diálogo  
sério” (G-7, 2024)”, indicam essa posição. Esse  
recurso retórico contribui não só para ocultar o  
distanciamento do multilateralismo por parte  
dos norte-americanos, e consequentemente, do  
G-7; como também reitera o imaginário inter-  
nacional do Irã como um país contraventor das  
normas internacionais.  
Diferentemente da perspectiva retórica  
adotada pelo G-7, o programa nuclear irania-  
no não é enquadrado pelos BRICS como um  
problema ou uma ameaça para a segurança re-  
gional e internacional. Ao contrário, adota-se  
um posicionamento mais construtivo frente  
ao tema. Isso pode ser observado a partir da  
análise dos principais termos usados em seus  
pronunciamentos, com a presença da palavra  
“diplomático” entre as dez expressões mais  
empregadas, tanto na categoria de uma pala-  
vra, quanto em duas. Isso sobressai-se, espe-  
cialmente, na medida em que o vocábulo não  
consta como entre os mais proferidos pelo G-7.  
Além disso, há também a preponderância de  
nomenclaturas que apontam para a solução pa-  
cífica da controvérsia nuclear iraniana, como:  
“JCPOA”, “meios diplomáticos”, “direito in-  
ternacional” e “paz”.  
Reforça-se assim a “tendência de usar esse  
tipo de categorização retórica estrategicamen-  
te para demonizar o outro, mesmo quando  
existem explicações compreensíveis para suas  
ações” (BEEMAN, 2005, p. 69). Esta tendên-  
cia tem orientado as relações do Ocidente com  
o Irã desde 1979 e contribui para os esforços  
das potências ocidentais em isolar e enfraque-  
cer Teerã. Além disso, observa-se que o G-7  
vem aumentando o tom contra o Irã frente a  
seu programa nuclear, o que se evidencia pela  
elevação dos atos de fala diretivos desde 2018.  
Esse posicionamento retórico do G7 é reforça-  
do pelas sanções financeiras aplicadas ao Irã ao  
longo do período analisado, juntamente com  
outras medidas punitivas, como ataques mili-  
O emprego de termos conciliadores se  
reflete nos tipos de atos de fala usados pelos  
BRICS. Antagonicamente ao G-7, os BRICS  
não executam nenhum ato de fala diretivo, e  
sim assertivos e comissivos. Sobre os primeiros,  
o bloco demonstra a necessidade de resolução  
do litígio nuclear iraniano pela via diplomática  
e multilateral: “Reiteramos a nossa opinião de  
que não existe alternativa a uma solução ne-  
gociada para a questão nuclear iraniana (BRI-  
CS, 2014, grifos nossos); “O JCPOA deve per-  
10 O assassinato de cientistas nucleares iranianos em 2007,  
a introdução do vírus Stuxnet nas instalações de Natanz  
em 2009 e as explosões na usina de Fardow em 2012 são  
exemplos dessas ações (JOYNER, 2016, p.59).  
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mitir ao Irã exercer plenamente o seu direito à  
utilização pacífica da energia nuclear” (BRICS,  
2015, destaque próprio); “Apoiamos firme-  
mente o JCPOA na questão nuclear iraniana”  
(BRICS, 2017, destaque próprio).  
e tratados assinados, as regras de compromisso  
acabam por assegurar a assimetria das relações  
(ONUF, 1989). Ou seja, para garantir o direi-  
to de uso pacífico da energia nuclear, Teerã se  
sujeita há uma série de regras e procedimentos  
internacionais (orquestrados pelas grandes po-  
tências, entre elas, Rússia e China, países-mem-  
bros dos BRICS). A assimetria nas relações  
pode ser observada pela sonegação da possibili-  
dade do Irã em obter armas nucleares, ao con-  
trário de outros países, entre os quais constam  
os seus inimigos declarados Israel, EUA e Rei-  
no Unido. A própria diplomacia (amplamente  
defendida pelos BRICS) representa, para Onuf  
(1989) um sistema de heteronomia, visto que a  
mesma funciona dentro de uma sociedade po-  
lítica hierarquicamente ordenada que a diplo-  
macia não reconhece como tal, dada sua ênfase  
na igualdade soberana.  
A perspectiva discursiva assertiva, que co-  
loca a via negocial e diplomática como a única  
saída para a questão nuclear iraniana, é com-  
plementada pelos atos de fala comissivos, que  
apontam para a crença futura na eficácia dos  
direitos e deveres determinados pelos acordos  
internacionais: “Acreditamos que a implemen-  
tação do JCPOA contribuiria fortemente para  
o fortalecimento da segurança internacional  
e regional(BRICS, 2015, grifos nossos); “Este  
plano de ação [JCPOA] deverá restaurar a ple-  
na confiança na natureza exclusivamente pa-  
cífica do programa nuclear do Irã (...) (BRICS,  
2015, destaque próprio); “Reafirmamos nosso  
compromisso com os princípios de não-inter-  
venção (...) que todos os conflitos devem ser  
resolvidos por meios pacíficos e por meio de  
esforços políticos e diplomáticos em confor-  
midade com o direito internacional” (BRICS,  
2021, destaque próprio).  
Ademais, é interessante contextualizar  
que, assim como é discutido por Onderco  
(2015), o programa nuclear iraniano ocupou  
a política internacional em um momento de  
“convulsão da arquitetura da governança glo-  
bal” , no qual “a adoção de uma posição políti-  
ca sobre o programa nuclear do Irã significava  
a adoção de uma posição sobre as instituições  
internacionais e as ferramentas de aplicação da  
governança global” (ONDERCO, 2015, p. 2).  
Dessa forma, a heteronomia presente na  
posição adotada pelos BRICS potencialmente  
desmistifica a narrativa (parcialmente aceita  
no Ocidente) de que o bloco representa uma  
ameaça revisionista para a atual ordem inter-  
nacional. No entanto, por mais que não con-  
traponha as assimetrias observadas nas relações  
internacionais, é importante pontuar que, ao  
contrário do G-7, os BRICS não reiteram a  
imagem do Irã como um agente desestabiliza-  
dor e contraventor das normas internacionais.  
Pode-se inferir assim que os BRICS utilizam  
uma retórica mais favorável ao multilateralismo e  
ao arcabouço jurídico internacional, através não  
apenas das menções à instrumentos (JCPOA) e  
a instituições (AIEA), como também ao: “direito  
internacional”, “meios pacíficos”, “esforços diplo-  
máticos”, “princípio de não intervenção”. Além  
disso, a combinação de regras de instrução com  
regras de compromisso nas declarações dos BRI-  
CS sobre o programa nuclear iraniano apontam  
para a edificação de um domínio de heterono-  
mia, no qual um conjunto de deveres e direitos  
para o Irã é determinado por outras potências.  
O domínio da heteronomia é paradoxal:  
ainda que formalmente simétrico nos contratos  
76 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.68 - 77, fev. 2025  
nifica que as relações derivadas destas normas  
sejam simétricas. O domínio da heteronomia  
edificado pelos atos de fala dos BRICS é as-  
simétrico, visto que os direitos e deveres que  
o Irã deve aderir reproduzem as disparidades  
de poder do cenário internacional. A hete-  
ronomia é completada com a hegemonia, de  
modo que os BRICS almejam participar da  
construção das ideias e crenças que sustentam  
a ordem internacional – as quais o Irã deve se  
adequar.  
4 CONCLUSÃO  
O presente artigo discutiu a agenda do  
G-7 e BRICS em relação ao programa nuclear  
iraniano, a partir das declarações oficiais de  
suas cúpulas, entre 2014 e 2024. Por meio da  
análise dos dados, observou-se que a agenda  
do G7 é composta por uma combinação de  
atos de falas diretivos e comissivos, que po-  
sicionam e condenam o Irã como uma na-  
ção que dispõe de um programa nuclear não  
transparente e de alto risco à paz. Com isso,  
a construção discursiva visa edificar regras nas  
quais Teerã é ordenado a mudar sua postura,  
constituindo um domínio hierárquico. Este é  
complementado por esforços em elaborar um  
ambiente de heteronomia, no qual o Irã é si-  
tuado dentro do conjunto de normas inter-  
nacionais sobre não proliferação internacional  
nuclear. Todavia, essa dimensão heterônima é  
integrada com comportamentos diretivos que  
obrigam o Irã a não possuir armas nucleares,  
bem como forçam o país a seguir as diretrizes  
do G-7. Ou seja, a qualidade hierárquica das  
relações funciona como fiadora da disposição  
heterônima.  
Ainda que a contemporaneidade do ob-  
jeto limite conclusões mais estáveis e defini-  
tivas, observa-se que a caracterização do Irã  
em moldes negativos guia o discurso do G-7,  
enquanto que os BRICS empregam uma qua-  
lificação mais moderada do Irã. Apesar dessas  
distinções significativas, ambos os blocos, ain-  
da que em escalas diferentes, reiteram a defesa  
da diplomacia e do direito internacional como  
modo ideal para lidar satisfatoriamente com o  
contencioso nuclear iraniano. Outro ponto de  
proximidade reside na concordância (mesmo  
que com intensidades distintas) que os dois  
agrupamentos possuem na impossibilidade do  
Irã adquirir armas nucleares.  
Os BRICS, por sua vez, se referem ao Irã  
de maneira distinta da representação do G-7.  
Um indicativo é a ausência de atos de fala di-  
retivos, ou seja, de conteúdos que expressam  
ordens e obrigações. O discurso dos BRICS  
oscila entre regras instrutivas e comissivas.  
Neste enquadramento, a retórica do bloco é  
marcada pela constante menção à necessidade  
de observância ao direito internacional e à di-  
plomacia. Chama a atenção que esta postura  
em prol do multilateralismo é mais incisiva  
por parte dos BRICS do que a do próprio  
G-7. No entanto, defender as regras do jogo,  
conforme já apontava Onuf (1989), não sig-  
Argumenta-se assim que, para o G-7, que  
opta por atos de fala majoritariamente diretivos  
e comissivos, o Irã atua como agente desestabi-  
lizador regional e seu programa nuclear é um  
potencial risco à segurança internacional. Já os  
BRICS, por meio de atos de fala assertivos e  
comissivos (mas nunca diretivos), adotam um  
tom conciliador frente à questão nuclear ira-  
niana. Isso nos permite considerar que o G-7  
posiciona a questão nuclear iraniana a partir de  
uma perspectiva hierárquica, enquanto os BRI-  
CS optam pela heteronomia.  
77 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.68 - 77, fev. 2025  
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78 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte,  
ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.78 - 88, fev. 2025  
78 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.78 - 88, fev. 2025  
Artigo  
BRICS+: As articulações intergoverna-  
mentais dos países semiperiféricos do  
sistema-mundo moderno  
BRICS+: Intergovernmental articulations by semiperipheral states in the modern world-system  
BRICS+: Articulaciones intergubernamentales de los países semiperiféricos en el sistema-  
-mundo moderno  
Charles Serra Tabarin1  
Claudete de Castro Silva Vitte2  
Gustavo Glodes Blum3  
Recebido em: 14 de outubro de 2024  
Aceito em: 21 de outubro de 2025  
RESUMO  
Recentes alterações na estrutura do Sistema Internacional vêm auxiliando a formação  
de novas articulações entre países. Neste artigo, avalia-se a emergência e expansão dos  
BRICS+ enquanto uma destas rearticulações, que permite aos países da semiperiferia do  
sistema-mundo moderno conjugar interesses em meio às mudanças econômicas globais.  
Palavras-chave: BRICS+, semiperiferia, articulação internacional.  
ABSTRACT  
Recent changes in the structure of the international system have been contributing to  
the formation of new connections between countries. is paper assesses the emergence  
and expansion of the BRICS+ as one such restructuring, enabling countries on the semi  
periphery of the modern world-system to combine interests amid global economic changes.  
Keywords: BRICS+, semiperiphery, international articulation.  
RESUMEN  
Los cambios recientes en la estructura del sistema internacional han contribuido a la  
formación de nuevas conexiones entre países. Este artículo evalúa el surgimiento y la  
expansión de los BRICS+ como una de estas reestructuraciones, que permiten a los países  
semiperiféricos del sistema-mundo moderno aunar intereses en un contexto de cambios  
económicos globales.  
Palabras clave: BRICS+, semiperifería, articulación internacional.  
1 Doutorando em Universidade Estadual de Campinas. Mestre em Geografia pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia do  
Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1782-6549.  
E-mail: c135330@dac.unicamp.br.  
2 Professora do Departamento de Geografia e do Programa de Pós Graduação em Geografia da Universidade Estadual de Campinas  
(Unicamp). Mestrado pela Fundação Getúlio Vargas (SP) e Doutorado em Geografia pelo Programa de Pós-Graduação em Geo-  
grafia da Universidade de São Paulo. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0826-1438. E-mail: claudete@unicamp.br.  
3 Bolsista do Programa Institucional de Pós-Doutorado (PIPD-CAPES) no Departamento de Geografia e no Programa de Pós-Graduação em  
Geografia do Instituto de Geociências da Unicamp. Doutor em Geografia pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Esta-  
dual de Campinas (Unicamp) e Mestre em Geografia (UFPR). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1223-7868. E-mail: gblum@unicamp.br.  
79 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.78 - 88, fev. 2025  
Enquanto persistem as desigualdades es-  
truturais advindas da divisão internacional do  
trabalho, há um reordenamento geoeconômi-  
co, que contempla um crescimento relativo de  
economias do Sul Global, maior protagonismo  
de nações emergentes nas negociações multi-  
laterais e tentativas de criação de instituições  
financeiras alternativas às da ordem instituída  
no pós-Segunda Guerra Mundial (Martins;  
Nonnenberg, 2025; Mota; Coelho, 2025).  
Dentre elas, destaca-se o aprofundamento da  
ligação entre países em desenvolvimento com  
grande participação na economia mundial, so-  
bretudo com relação aos países em desenvol-  
vimento que foram, a partir dos impactos da  
crise financeira de 2008, alçados a uma posi-  
ção relativa mais favorável na discussão sobre a  
economia mundial (Blank; Kim, 2015; Delga-  
do; Valera, 2022).  
1 INTRODUÇÃO  
A primeira metade da década de 2020  
viu emergirem dinâmicas importantes para a  
compreensão da reorganização do sistema in-  
ternacional. Somando-se aos impactos da pan-  
demia de COVID-19 em diferentes setores da  
política e da economia internacional (Qua-  
glia; Verdun, 2023; Rodríguez-Pose; Burlina,  
2021), apresenta-se um conjunto de diferentes  
desafios à organização neoliberal do sistema  
internacional que prevaleceu do fim dos anos  
1990 até o início dos anos 2000. Alguns teóri-  
cos vêm propondo, para a compreensão deste  
novo momento da organização do sistema in-  
ternacional uma perspectiva em que prevalece  
a crise de diversas formas de governança global  
(Helleiner, 2024).  
Dentre estas importantes modificações,  
encontra-se a alteração do eixo central de es-  
truturação da política e da economia inter-  
nacionais, um processo que não é originário  
apenas deste recorte temporal, mas que se viu  
acelerar ao longo dos últimos anos. A estrutura  
anterior, pautada na hegemonia estadunidense  
e a centralidade sistêmica dos Estados Unidos e  
seu eixo norte-atlântico de atuação geopolítica  
(Hurrell, 2005; Moniz Bandeira, 2017), vê-se  
atualmente enfraquecida em sua capacidade de  
ordenamento das relações internacionais. Ao  
mesmo tempo, emergem estruturas e arquite-  
turas que buscam se não se opor diretamente a  
estas arquiteturas neoliberais centradas na hege-  
monia americana, pelo menos criar alternativas  
lideradas por um outro Estado – a República  
Popular da China (RPC) – para o engajamento  
de países em desenvolvimento com a dinâmica  
econômica e política do sistema internacional  
(Carmody; Taylor; Zajontz, 2022; Gouvea;  
Kapelanis; Terra, 2021).  
É neste âmbito que se insere a discussão  
apresentada. Tomando a reorganização da polí-  
tica e da economia internacionais que vem mar-  
cando a última década no Sistema Internacional  
(Stuenkel, 2018), busca-se identificar de que  
forma a expansão do BRICS em direção a um  
agrupamento maior de países na forma de BRI-  
CS+ em 2024 pode ser compreendido enquanto  
um efeito da reorganização do sistema-mundo  
ao fim do primeiro quartel do século XXI.  
Para isso, inicialmente revisitou-se a teoria  
do sistema-mundo moderno, sobretudo a par-  
tir das contribuições de Immanuel Wallerstein  
(Wallerstein, 2004; 2005), Giovanni Arrighi e  
Beverly Silver (Silver; Arrighi, 2012). A articula-  
ção deste arcabouço teórico permite tentar com-  
preender o estado atual do sistema-mundo mo-  
derno em 2025, assim como compreender de  
que forma o BRICS e posteriormente o BRICS+  
emerge enquanto um mecanismo de reunião de  
interesses de países pertencentes à semiperiferia.  
80 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.78 - 88, fev. 2025  
Posteriormente, buscou-se sistematizar os  
principais acontecimentos no entorno da for-  
mação desta articulação internacional, incluin-  
do os debates e as incongruências internas re-  
lativamente à expansão e integração de outros  
países. Estes elementos permitirão, na última  
parte, refletir a respeito do papel do bloco ex-  
pandido, o BRICS+, enquanto um mecanismo  
de contestação hegemônica ou enquanto uma  
alternativa às instituições centradas na hegemo-  
nia dos EUA e consolidadas no período anterior.  
A revisão teórica realizada, assim como os  
mia-mundo capitalista, sistema esse que não é o  
primeiro a nível mundial, porém o que melhor  
se estabeleceu e se enraizou a ponto de perdurar.  
De acordo com Wallerstein, o elemento central  
para o entendimento desse sistema é a divisão  
internacional do trabalho (Wallerstein, 2005).  
A divisão internacional do trabalho é cen-  
tral para compreender o funcionamento da  
economia-mundo atual e explica, na visão de  
Wallerstein (2005), as condições e contradições  
da atualidade dos países, visando a acumulação  
incessante de capital. Com essa dinâmica, há  
uma divisão básica em dois agrupamentos de  
processos produtivos (processo central e proces-  
so periférico), que guiam a economia dos países  
do globo, a grosso modo (Silver; Arrighi, 2012).  
Os processos produtivos centrais envol-  
vem produtos que utilizam tecnologia avan-  
çada, exigem mão de obra mais qualificada e  
geram altos lucros. Ou seja, variam do desen-  
volvimento de manufaturas das mais simples  
àquelas mais sofisticadas e intensivas em capi-  
tal, ligadas atualmente a tecnologias da infor-  
mação, robótica ou biotecnologia, por exemplo  
(Wallerstein, 2005). Apesar da denominação  
de processos centrais em um primeiro momen-  
to, é dito por Wallerstein que “os processos  
centrais tendem a agrupar-se em alguns poucos  
Estados e passam a constituir a maior parte das  
atividades produtivas desses Estados” (Wallers-  
tein, 2005, p. 47 – tradução nossa). Sendo as-  
sim, a esses Estados passa-se a denominar países  
centrais, que conseguem vender seus bens e ser-  
viços a preços relativamente mais altos no mer-  
cado mundial, agregando lucros sobre as outras  
nações (Wallerstein, 2005).  
dados econômicos reunidos permitiram con-  
siderar o BRICS e o BRICS+ enquanto uma  
semiperiferia no Sistema Internacional, ainda  
que conte com a presença de um país cada vez  
mais central para a economia global, que é a  
China. As discussões internas foram analisadas  
com base nas declarações conjuntas emitidas  
em encontros destes países no âmbito desta  
iniciativa, assim como por meio de uma aná-  
lise de conteúdo com relação a matérias jor-  
nalísticas e declarações na mídia. A discussão  
deste material reunido, à luz da revisão teórica  
relativa não apenas à teoria do sistema-mundo  
moderno, mas também com relação à ideia de  
hegemonia, é realizada ao final deste trabalho.  
2 A ANÁLISE DO SISTEMA-  
MUNDO NA COMPREENSÃO  
DO PAPEL DOS PAÍSES SEMI-  
PERIFÉRICOS  
Immanuel Wallerstein (2005) foi um dos  
principais proponentes da análise do sistema-  
-mundo, que busca compreender o mundo não  
a partir de Estados nacionais, ou seja, uma co-  
leção de unidades isoladas de países, mas sim  
enquanto um sistema social interligado. O  
sistema-mundo moderno perpassa pela econo-  
Já os processos produtivos periféricos são  
aqueles que envolvem produtos que utilizam  
tecnologia mais simples ou intensiva em mão de  
obra pouco qualificada e geram baixos lucros.  
81 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.78 - 88, fev. 2025  
pressionados pelos estados fortes e pressio-  
Essa produção é caracterizada principalmente  
pela exploração de matérias-primas, de baixo  
valor agregado. Esses processos periféricos, por  
sua vez, espalham-se por um grande número de  
Estados, sendo esses processos considerados por  
Wallerstein (2005) verdadeiramente competiti-  
vos, enquanto os centrais são vistos como mo-  
nopólios. Aos países que recebem predominan-  
temente os processos periféricos, denominou-se  
países periféricos, sendo esses tipicamente extra-  
tores de matéria-prima ou produtores de bens  
de baixo valor agregado, que são forçados a ven-  
der seus bens e serviços a preços relativamente  
mais baixos (Wallerstein, 2005).  
nando os estados fracos, [têm como] sua  
maior preocupação (...) manter-se distantes  
da periferia e fazer o possível para ascender  
ao centro. Nenhuma das duas operações é  
simples, e ambas requerem uma considerável  
interferência estatal no mercado global (Wal-  
lerstein, 2005, p. 48 - tradução nossa).  
Esses Estados frequentemente utilizam-se  
de protecionismo para assegurar suas indústrias  
nascentes, sendo os próprios Estados semipe-  
riféricos concorrentes entre si (Wallerstein,  
2005).  
Sob a ótica da Análise do Sistema-Mundo  
e os conceitos de Centro, Periferia e Semiperi-  
feria, buscamos com esse artigo identificar de  
que forma o bloco intergovernamental BRI-  
CS+ pode ser compreendido enquanto um  
efeito da reorganização do sistema-mundo ao  
fim do primeiro quartel do século XXI. Par-  
timos da premissa que, dentro da conceitua-  
ção de Wallerstein (2005), o BRICS+ pode ser  
entendido como um agrupamento de países  
semiperiféricos, liderados por um país que se  
realoca no século XXI como central (Repúbli-  
ca Popular da China), apesar de contradições  
nesse papel e, por meio dessa articulação visam  
ascender no cenário internacional, afastando-se  
da condição de periféricos e almejando a posi-  
ção de centralidade.  
Essa dinâmica, central no capitalismo do sis-  
tema-mundo, garante as desigualdades existentes  
nesse sistema o que, na visão da teoria do sistema-  
-mundo moderno significa dizer que a riqueza e  
o excedente de valor (mais-valia) fluem constan-  
temente da Periferia para o Centro, garantindo a  
acumulação de capital nas áreas centrais (Silver;  
Arrighi, 2012). Dessa forma, sob a análise do  
sistema-mundo, pode-se inferir que há uma re-  
lação funcional e de exploração mútua, em que  
Centro só é Centro porque explora a Periferia, e a  
Periferia só existe como tal por ser explorada pelo  
Centro. Eles são interdependentes, mas de forma  
hierárquica (Wallerstein, 2004; 2005).  
Entretanto, dividir o mundo em apenas  
dois agrupamentos de países não contemplava a  
realidade, sendo utilizado assim o termo “semi-  
periférico” para definir aqueles que não se encai-  
xam perfeitamente na definição de central, nem  
na de periférico. Segundo Wallerstein (2005, p.  
47 - tradução nossa), “alguns Estados possuem  
uma mescla quase igual de produtos centrais e  
periféricos”. Neste sentido, de acordo com a teo-  
ria, não podemos falar em processos semiperifé-  
ricos, mas sim, “Estados semiperiféricos”. Para  
Wallerstein (2005), os países semiperiféricos,  
3 BRIC, BRICS E BRICS+:  
FORMAÇÃO E DEBATES A  
RESPEITO DA EXPANSÃO  
O termo BRIC foi criado em 2001 pelo  
economista-chefe do banco de investimentos  
Goldman Sachs, Jim O’Neill, “no qual fazia  
projeções de crescimento econômico para os  
mercados em rápido desenvolvimento de Bra-  
sil, Rússia, Índia e China” (udium, 2023,  
82 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.78 - 88, fev. 2025  
opõem ou não endossam a intervenção impe-  
p. 78). Conforme destaca Oliver Stuenkel  
(2017), em seu relatório denominado Building  
Better Global Economic BRICs, O’Neill “procu-  
rou criar uma categoria na qual pudesse inserir  
os países de grande território e em rápido de-  
senvolvimento que ele considerou que seriam  
instrumentais para a atual transformação eco-  
nômica global” (Stuenkel, 2017, p. 15).  
rialista no Oriente Médio e pressionam pela  
reforma do sistema de cotas nos organismos  
financeiros internacionais; têm níveis de ren-  
da per capita que oscilam entre a franja infe-  
rior da semiperiferia e a periferia, e próximos  
a média da economia mundial; e são dotados  
de mercados internos com enorme potencial  
de expansão, grandes populações e forte vo-  
cação continental e regional (Martins, 2013,  
p. 129).  
Segundo udium (2023), a avaliação de  
O’Neill se baseava na ideia de que esses qua-  
tro países, com grande população, alta produ-  
tividade e ambição econômica, estavam cada  
vez mais preparados para se integrar à econo-  
mia global, impulsionando seu crescimento e  
atuando como os seus “tijolos” (bricks, em in-  
glês) de sustentação (udium, 2023, p. 78). À  
formação original, acrescentou-se a África do  
Sul no ano de 2011. Entretanto, houve ceti-  
cismo e questionamentos, já que o país “não  
compartilha das mesmas potencialidades que  
uniram os quatro BRICs iniciais” (udium,  
2023, p. 80).  
De acordo com udium (2023), os BRI-  
CS recorrem aos seguintes tópicos em suas de-  
clarações: necessidade de fortalecimento e refor-  
ma da ONU; aprimoramento dos mecanismos  
de integração regional com a cooperação entre  
países em desenvolvimento; e aplicação das  
normas e princípios de direitos internacionais  
para além da lógica eurocêntrica.  
De forma diferente do que os processos de  
integração regional que vigoraram nas décadas  
de 1990 e 2000, os BRICS não se configuram  
como um bloco de harmonização de práticas  
legislativas ou comerciais (Prazeres, 2023). In-  
clusive, desde o surgimento desta articulação  
foi difícil utilizar o termo “bloco” para este  
agrupamento, uma vez que ele não pretende ser  
uma estrutura monolítica que cria uma autori-  
dade supragovernamental que rege algum pro-  
cesso com um objetivo específico, para utilizar  
os exemplos da União Europeia e do Mercosul  
como parâmetro (Rowlands, 2012). Tanto que  
os BRICS não têm, diferentemente destas ou-  
tras experiências históricas, um tratado consti-  
tuinte, preferindo articulações em setores mais  
específicos que grandes acordos comerciais que  
poderiam atar as outras estratégias de política  
externa e comercial dos seus membros (Macías,  
2025).  
O BRICS surgiu como uma articulação  
no sistema internacional que busca espaço nas  
organizações internacionais dominadas pelo  
Norte Global, em especial os Estados Unidos.  
Carlos Eduardo Martins (2013) defende que  
os países que fazem parte dos BRICS possuem  
muitas convergências apesar de suas diferenças  
culturais e históricas. Para o autor,  
Os países que fazem parte dos BRICS, ape-  
sar de suas diferenças culturais e históricas,  
possuem identidades históricas e estruturais  
que facilitam sua aproximação e aliança no  
sistema mundial: sofreram em maior ou me-  
nor grau a intervenção do imperialismo esta-  
dunidense e das potências europeias na des-  
truição e reconfiguração de suas formações  
sociais; possuem alto nível de convergência  
nas votações da Organização das Nações Uni-  
das (ONU) [entre 1974 e 2008], exigem a  
ampliação do seu Conselho de Segurança, se  
Apesar das grandes diferenças existentes  
entre si, “os países do BRICS mostram capa-  
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cidade de articulação pragmática e conjunta,  
contribuindo na formulação de alternativas  
para os problemas do Sistema Internacional”  
(udium, 2023, p. 81). A agenda do BRICS  
defende um Sistema Internacional baseado na  
resolução de conflitos e no respeito ao direito  
internacional, entretanto, diante da invasão da  
Ucrânia, não houve grande contestação do BRI-  
CS em relação à Rússia. De acordo com o Palá-  
cio do Planalto (2024), “o diálogo entre os paí-  
ses se dá em três pilares principais: cooperação  
em política e segurança, cooperação financeira  
e econômica, e cooperação cultural e pessoal.  
Cerca de 150 reuniões são realizadas anualmen-  
te em torno desses pilares” (Planalto, 2024).  
O grupo BRICS representa uma mudança  
significativa no eixo econômico global, deslo-  
cando-se dos países ocidentais em direção ao  
Sul Global, com um foco particular na Ásia.  
Como destaca Stuenkel (2017),  
Joanesburgo, houve a incorporação de 6 novos  
membros ao grupo. A seleção dos novos países  
integrantes do BRICS não obedeceu à uma ló-  
gica que poderia ser denominada de “técnica”,  
sendo um acordo entre os integrantes do gru-  
po. De acordo com o analista político Fyodor  
Lukyanov (2023), a única condição para um  
convite seria “não participar de coalizões mili-  
tares e políticas ocidentais” (Lukyanov, 2023,  
n.p.).  
A inclusão de novos membros pode am-  
pliar o poder do grupo e sua influência inter-  
nacional. De acordo com Floriano Godinho de  
Oliveira (2023),  
Alguns dos maiores produtores de petróleo e  
investidores em novas matrizes energéticas es-  
tão, agora, associados ao Bloco. Isso fortalece  
em muito o poder de barganha dos países que  
o integram e evidencia o enfraquecimento do  
poder econômico do G7, que reúne os prin-  
cipais países do “Ocidente”. (Oliveira, 2023,  
p. 2).  
O grupo dos BRICs acabou, portanto, se tor-  
nando um nome conhecido não por ser um  
conceito novo, mas porque simbolizava, de  
forma poderosa, uma narrativa que nos anos  
1990 parecia distante, mas parecia fazer sen-  
tido no meio da década de 2000: uma imensa  
transferência de poder, dos Estados Unidos e  
da Europa, para potências emergentes como  
China, Índia e Brasil (Stuenkel, 2017, p. 21).  
Assim, em 2024, quatro novos países se  
uniram ao grupo: Egito, Emirados Árabes Uni-  
dos, Etiópia e Irã. A Argentina recusou o con-  
vite para participar devido à ascensão do gover-  
no de Javier Milei. Já a Arábia Saudita ainda  
avalia o convite para integrar o grupo (Reuters,  
2024). E em 2025, a Indonésia aderiu também  
ao grupo. Com essas novas adições, o grupo  
passou a ser frequentemente conhecido como  
BRICS+, e outros países demonstram interesse  
em se juntar à aliança.  
Com isso, percebe-se que as antigas potên-  
cias dominantes estão perdendo gradualmente  
seu protagonismo, dando espaço para que no-  
vas lideranças ganhem força. Isso se reflete no  
fato de que “a elite mundial responsável por  
tomar decisões está se tornando menos ociden-  
talizada, tem menos interesses em comum e é  
mais diversificada ideologicamente, o que cria a  
necessidade de compreender as perspectivas das  
potências emergentes” (Stuenkel, 2017, p. 12).  
Na 15ª Cúpula do BRICS em 2023, rea-  
Sobre as novas nações escolhidas, Aquino  
(2024) aponta que “é nítido, à primeira vista,  
a diversidade de contextos sociopolíticos desses  
Estados, bem como a existência de atritos bila-  
terais não alinhados entre eles” (Aquino, 2024,  
p. 20). Segundo a autora, há diferentes interes-  
ses na entrada desses países, como a busca de  
oportunidades financeiras, no caso dos países do  
lizada em uma das capitais da África do Sul,  
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Oriente Médio, ou a projeção internacional e a  
ampliação do poder de barganha no contexto  
global, para os países africanos (Aquino, 2024).  
Por fim, outra categoria criada para agre-  
gar países interessados em compor o BRICS+  
foi a de Países Parceiros, que participam de  
colaborações entre os membros, sem serem  
membros permanentes. Aderiram a essa con-  
figuração os seguintes países: Belarus, Bolívia,  
Cazaquistão, Cuba, Malásia, Nigéria, Tailân-  
dia, Uganda, Uzbequistão e Vietnã (BRICS,  
2025). A inclusão dos países parceiros reflete  
uma estratégia pragmática do BRICS para ex-  
pandir sua influência sem comprometer a coe-  
são interna do grupo principal.  
ser citadas os 72% das reservas mundiais de ter-  
ras raras, 43% da produção de petróleo, 36%  
da produção de gás natural e 78% da produção  
global de carvão mineral (BRICS, 2025).  
4 O BRICS+ E A BUSCA POR  
UMA NOVA ARQUITETURA  
FINANCEIRA GLOBAL  
A emergência do BRICS+ no cenário in-  
ternacional é encarada muitas vezes como uma  
afronta à hegemonia estadunidense, já que o  
grupo é formado por nações que por vezes con-  
testam o poderio hegemônico, gerando enfren-  
tamentos frequentes. Apesar disso, a reunião  
desses países, como ressaltado anteriormente,  
oficialmente visa a reforma das instituições  
criadas no pós-Segunda Guerra Mundial e do-  
minadas pelo Norte Global, buscando assim,  
maior espaço e protagonismo no cenário inter-  
nacional, já que são nações emergentes e com  
crescente relevância mundial (Macías, 2025).  
O bloco buscou, nos últimos anos, cons-  
Faz-se relevante assinalar o peso do BRI-  
CS+ quando analisamos seu peso econômico,  
populacional e de riquezas naturais. Observan-  
do o PIB nominal lastreado no dólar estadu-  
nidense, os países do BRICS+ somam 28,1%  
do PIB mundial, em 2023, ainda superado pela  
somatória do G7, encabeçado pelos EUA, com  
44,5% do PIB mundial. Entretanto, quando  
analisamos o PIB PPC, que nos traz variáveis  
sobre o poder de compra dessas economias,  
percebemos que os PIBs do BRICS+ (39,3%)  
já superam os do G7 (29,1%), demonstrando  
um maior poderio nesse quesito (World Bank,  
2025). Já quanto ao comércio internacional, o  
BRICS+ corresponde a 24% das trocas mun-  
diais (BRICS, 2025).  
truir uma estrutura internacional alternativa  
à dominada pelo Ocidente hegemônico, com  
instituições como o Novo Banco de Desenvol-  
vimento (NDB) ou New Development Bank  
(NDB)4, também conhecido como Banco do  
BRICS, além do Arranjo Contingente de Re-  
servas, além de visar a edificação de novas es-  
truturas financeiras, contornando a vigilância  
e tutela ocidental das instituições consolidadas  
em Bretton Woods (Batista Jr., 2016). Uma  
das maiores realizações do grupo foi a concre-  
tização do Novo Banco do Desenvolvimento,  
a primeira estrutura formal advinda do grupo.  
Quando comparamos área e população,  
que enriquecem o protagonismo de nações,  
entende-se que o BRICS+ supera fortemen-  
te o G7 em população (48,6% da população  
mundial vs. 9,6%) e, em área, tendo o BRICS+  
33,9% da área mundial, contra 19,4% (World  
Bank, 2025). Ademais, o BRICS+, quando  
unido, concentra importantes reservas de re-  
cursos naturais essenciais do planeta. Podem  
4 As duas versões de abreviaturas para o New Development  
Bank (NDB – em inglês - ou NBD – em português) apare-  
cerão nas citações, uma vez que cada autor opta por uma. A  
adotada pelos autores deste artigo foi a versão inglesa, con-  
forme usada originalmente pela instituição (NDB).  
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Com a resistência encontrada nos países de-  
senvolvidos pelo BRICS para reformas as insti-  
tuições financeiras, em termos de representativi-  
dade, o grupo estabeleceu a criação de um banco  
de desenvolvimento, de caráter global, “com o  
objetivo específico de financiar projetos nas áreas  
de infraestrutura e desenvolvimento sustentável”  
(Costa, 2023, p. 31). O banco tem como  
plaram setores como energia limpa, infraestru-  
tura de transporte, saneamento e inclusão digi-  
tal (NDB, 2023). Ainda segundo alguns dados  
do banco, serão construídas com seus projetos  
35 mil unidades habitacionais, 2.400 MW de  
capacidade de geração de energia renovável e  
limpa será instalada, além de 1.400 km infraes-  
trutura de túnel/canal de água a ser construída  
ou modernizada (NDB, 2025).  
propósito (…) financiar projetos a baixo custo  
financeiro –, [e] seu modelo de governança foi  
pensado de modo a privilegiar a distribuição  
igualitária do poder de voto e decisão entre  
os sócios-fundadores, sem que nenhum deles  
tivesse capacidade de veto sobre as matérias  
tratadas na instituição (Costa, 2023, p. 31).  
Vale destacar que muitos países que mani-  
festam interesse em se juntar ao BRICS buscam  
obter acesso às condições favoráveis oferecidas  
pelo NDB, especialmente aqueles que enfren-  
tam diversas instabilidades e restrições de cré-  
dito no sistema financeiro global. Essa expan-  
são também possui um objetivo geopolítico,  
funcionando como uma aliança de Estados  
que questionam a ordem internacional atual e  
trabalham para construir um contraponto à in-  
fluência dos Estados Unidos e da Europa.  
Além disso, a instituição incentiva o uso  
de moedas locais para reduzir a dependência  
do dólar estadunidense e os percalços dessa de-  
pendência para nações que se afastam da som-  
bra hegemônica. De acordo com o banco, “o  
NDB planeja se tornar um emissor regular tan-  
to em moedas fortes quanto nas moedas locais  
de seus países membros”, estabelecendo como  
elementos centrais para sua ação as “emissões  
estabelecidas nas condições de mercado, na de-  
manda dos investidores e nos requisitos de seu  
portfólio de empréstimos” (NDB, 2025, n.p.  
– tradução nossa). Dessa forma, percebe-se que  
a criação dessa instituição faz frente à ordem  
financeira estabelecida e liderada pelos Estados  
Unidos, trazendo novos caminhos que ladeiam  
a hegemonia estadunidense.  
Atualmente, são membros do banco, além  
dos 5 países fundadores do BRICS (Brasil, Rús-  
sia, Índia, China e África do Sul), Bangladesh,  
Emirados Árabes Unidos, Egito e Argélia, sendo  
o Uruguai, Uzbequistão e Colômbia classifica-  
dos como membro em potencial (NDB, 2025).  
Para Luigi e Pennaforte (2020), a criação  
do NDB pode ser vista como uma oportunida-  
de para as transformações no poder mundial,  
especialmente para a China e para a Rússia. De  
acordo com os autores,  
A criação de um possível competidor no ofe-  
recimento de recursos financeiros sob bases  
mais justas que as oferecidas pelo FMI e/ou  
Banco Mundial alteraria o tradicional centro  
de poder monetário configurado desde o fi-  
nal da II GM. Como consequência, o centro  
geopolítico de poder seria alterado, acentuan-  
do o declínio do tradicional núcleo do capi-  
talismo. A consolidação do NBD como uma  
alternativa real seria um ganho importante  
para a arquitetura geopolítica sino-russa de  
criação de outro polo geoeconômico. (Luigi;  
Pennaforte, 2020, p. 100)  
Até 2025, o Novo Banco de Desenvolvi-  
mento já havia autorizado mais de 120 pro-  
jetos, totalizando investimentos acima de 39  
bilhões de dólares. Os financiamentos contem-  
Foi criado ainda o Arranjo Contingente  
de Reservas (CRA), cujo objetivo é a criação  
de “uma plataforma de apoio, por intermédio  
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de instrumentos preventivo e de liquidez, em  
resposta a pressões de curto prazo, reais ou po-  
tenciais, sobre o balanço de pagamentos” (Pla-  
nalto, 2016). O Arranjo une capitais dos países  
membros do BRICS+ para apoiar uma possível  
crise em um dos membros, criando uma saída  
alternativa para essa nação.  
gamentos internacional substituto ao SWIFT  
(Society for Worldwide Interbank Financial Te-  
lecommunication), tradicional sistema de trans-  
ferências financeiras internacionais, altamente  
associado aos países do Ocidente. Essa substi-  
tuição visa assegurar que países que sofreram  
sanções internacionais do Ocidente, como o  
caso da Rússia, tenham uma possibilidade de  
realizar transferências e operações financeiras  
internacionais, sem bloqueios (Moniz Bandei-  
ra, 2017).  
Uma alternativa à ordem financeira hege-  
mônica ocidental é a desdolarização das transa-  
ções entre os membros do BRICS+. Paulo No-  
gueira Batista Júnior (2023) observa que, nos  
últimos anos, os Estados Unidos têm utilizado  
sua moeda de maneira cada vez mais agressiva  
para alcançar objetivos políticos e geopolíticos.  
Segundo ele, essa estratégia resultou na “milita-  
rização do dólar”, ou seja, no uso do dólar e do  
sistema financeiro ocidental como ferramentas  
para pressionar países considerados “hostis” aos  
EUA e seus aliados, como Venezuela, Rússia,  
Irã e outros. Esse uso intensivo do poder do dó-  
lar tem, segundo Batista Júnior, levado a uma  
perda de legitimidade do atual sistema mone-  
tário internacional, que tem o dólar como sua  
principal referência (Batista Jr., 2023).  
A expansão e consolidação do BRICS+ si-  
nalizam uma redistribuição gradual do poder  
no sistema internacional, refletindo o anseio de  
países semiperiféricos em ocupar um espaço de  
maior destaque nas decisões globais. Ao propor  
instrumentos financeiros alternativos e desafiar  
a hegemonia do dólar, o grupo insere-se num  
contexto de erosão da centralidade ocidental,  
com a pluralização de centros de poder. Entre-  
tanto, o BRICS+ convive com a contradição  
entre a busca por autonomia e espaço, enquan-  
to permanece como dependente da dinâmica  
global hegemonizada pelos Estados Unidos,  
refletindo uma contradição típica da semipe-  
riferia em disputa pela hierarquia global, mas  
sem um rompimento abrupto.  
O debate sobre a desdolarização ressalta  
também a discussão sobre a criação de uma  
moeda do BRICS+ em substituição à moeda  
estadunidense. Entretanto, a criação desse pro-  
jeto será difícil de executar, uma vez que envol-  
ve países de dimensões econômicas muito dife-  
rentes (Sapir, 2023). Além disso, ainda não está  
definido se a futura moeda do BRICS+ será  
utilizada exclusivamente para transações entre  
os membros do grupo — atuando como uma  
câmara de compensação para o comércio intra-  
bloco — ou se também servirá para gerenciar o  
comércio entre os países BRICS+ e o restante  
do mundo.  
5 BRICS+ COMO EXPRESSÃO  
DA SEMIPERIFERIA  
ESTRATÉGICA EM UM  
CONTEXTO DE TRANSIÇÃO  
HEGEMÔNICA  
O grupo BRICS+ por vezes é tratado sob  
o ponto de vista ocidental como um bloco de  
países que desafiam a hegemonia estaduniden-  
se, visando tomarem esse posto em futuro bre-  
ve. Entretanto, quando nos debruçamos sob  
outras perspectivas, como a da Análise do Sis-  
Por vezes, o debate que mais avança sobre  
o assunto é o da criação de um sistema de pa-  
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tema-Mundo, pode-se contemplar o BRICS+  
como uma articulação de países semiperiféricos  
que tenta desafiar a hierarquia da economia-  
-mundo capitalista, liderada atualmente pelos  
Estados Unidos, mas o fazem dentro das regras  
do próprio sistema, almejando espaço, visto  
seu peso mundial nos últimos anos.  
CS+ se articula como potência de relevância in-  
discutível, sendo colocada como contraponto  
aos Estados Unidos por diferentes visões.  
Assim, seguindo Arrighi (1996), temos um  
enfraquecimento relativo da hegemonia estadu-  
nidense e o deslocamento do dinamismo econô-  
mico para a Ásia, configurando uma nova sistê-  
mica de acumulação. Nesse contexto, a expansão  
do BRICS+ pode ser vista como a tentativa da  
semiperiferia de institucionalizar sua ascensão  
dentro de um sistema-mundo em transição.  
Ao criar mecanismos como o Novo Banco  
de Desenvolvimento, propor a desdolarização  
das transações comerciais entre seus membros  
ou articular um novo sistema de pagamentos in-  
ternacionais, o grupo não pretendeu dinamitar  
ou encerrar vínculos com o sistema financeiro  
protagonizado pelo Ocidente (Fundo Monetá-  
rio Internacional e Banco Mundial), mas sim  
criar alternativas às instituições dos países cen-  
trais (Batista Jr., 2016; Macías, 2025). Visto que  
alguns de seus membros sofreram com a exclu-  
são do sistema financeiro internacional ociden-  
talizado, por meio de sanções internacionais,  
como é o caso da Rússia, é possível considerar  
que atualmente esta demanda se torna cada vez  
mais relevante (Fiori, 2020; Maruf, 2023).  
Dessa forma, percebe-se que o BRICS+  
não se configura como um grupo que visa mu-  
danças abruptas e radicais da ordem global pro-  
tagonizada pelos Estados Unidos e Ocidente, ao  
vislumbrar-se suas ações dos últimos anos. En-  
tretanto, o grupo demonstra construir, com o  
tempo, uma estrutura alternativa especialmente  
no que diz respeito às instituições financeiras  
internacionais, tencionando garantir mais es-  
paço nesse aspecto e desprender-se de amarras  
criadas por essas instituições, que por vezes  
ameaçam a soberania e a autonomia de países  
semiperiféricos e periféricos com seu poderio.  
E ao se firmar a construção de uma nova  
configuração global nas relações centro, perife-  
ria e semiperiferia, na qual a República Popular  
da China, membro mais proeminente do BRI-  
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ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.89 - 116, fev. 2025  
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Artigo  
A construção da narrativa do Brics:  
logros na mudança da ordem mundial  
e building of the BRICS narrative: achievements in changing the world order  
La configuración de la narrativa de los BRICS: logros en el cambio del orden mundial  
Marina Bolfarine Caixeta1  
José Paulo Silva Ferreira2  
Mayara Christina de Carvalho3  
Recebido em: 30 de abril de 2025  
Aceito em: 27 de outubro de 2025  
RESUMO  
Este artigo investiga como o Brics tem construído sua narrativa contra-hegemônica e suas  
propostas de mudança na ordem mundial. A pergunta central é: como o Brics constrói  
sua narrativa ao longo de quinze anos, visando à transformação da governança global? O  
objetivo é analisar, por meio de método de análise de conteúdo, o conteúdo das declarações  
oficiais das cúpulas do bloco entre 2009 e 2023, buscando entender a consolidação de uma  
identidade comum e de propostas alternativas ao sistema internacional predominante. A  
hipótese é a de que o Brics opera uma narrativa coesa e simbólica, articulando interesses do  
Sul global e questionando a ordem vigente. Os dados foram coletados de quinze declarações  
oficiais, e a análise destacou categorias como desenvolvimento, cooperação e comércio,  
revelando uma atuação mais simbólica em direção à uma nova ordem mundial. O estudo  
explica a evolução das narrativas do grupo e suas implicações na política internacional.  
Palavras-chave: Brics, Sul global, narrativas.  
ABSTRACT  
is article investigates how the BRICS has constructed its counter-hegemonic narrative and  
its proposals for change in the world order. e central question is: how has BRICS built its  
narrative over fifteen years, aiming at the transformation of global governance? e objective  
is to analyze, through content analysis methodology, the content of the bloc’s official summit  
declarations between 2009 and 2023, seeking to understand the consolidation of a common  
identity and alternative proposals to the prevailing international system. e hypothesis  
is that BRICS operates a cohesive and symbolic narrative, articulating the interests of the  
Global South and questioning the existing order. Data were collected from fifteen official  
declarations, and the analysis highlighted categories such as development, cooperation, and  
1 Doutora em Ciências Sociais pelo Departamento de Estudos Latino-americanos da Universidade de Brasília (UnB),  
pesquisadora da área da cooperação internacional para o desenvolvimento e profissional com experiência em gestão de  
projetos de Cooperação Sul-Sul no Brasil; no presente, realiza estágio pós-doutoral na Universidade Federal da Integra-  
ção Latino-Americana (UNILA). E-mail: marinabolfarinecaixeta@gmail.com.  
2Doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), mestre em Ciência Política e bacharel em Re-  
lações Internacionais pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Bolsista CAPES. E-mail: josepaulosilvaferreira@gmail.com.  
3 Mestra em Ciência Política pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e jornalista. E-mail: mayaracomy@gmail.com.  
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trade, revealing a more symbolic stance toward a new world order. e study explains the  
evolution of the group’s narratives and their implications for international politics.  
Keywords: BRICS, Global South, narratives.  
RESUMEN  
Este artículo investiga cómo el BRICS ha construido su narrativa contrahegemónica y sus  
propuestas de cambio en el orden mundial. La pregunta central es: ¿cómo el BRICS construye su  
narrativa a lo largo de quince años, con miras a la transformación de la gobernanza global? El  
objetivo es analizar, mediante un método de análisis de contenido, el contenido de las declaraciones  
oficiales de las cumbres del bloque entre 2009 y 2023, buscando comprender la consolidación  
de una identidad común y de propuestas alternativas al sistema internacional predominante.  
La hipótesis sostiene que el BRICS opera una narrativa cohesionada y simbólica, articulando  
intereses del Sur Global y cuestionando el orden vigente. Los datos fueron recopilados de quince  
declaraciones oficiales, y el análisis destacó categorías como desarrollo, cooperación y comercio,  
revelando una actuación más simbólica orientada hacia un nuevo orden mundial. El estudio  
explica la evolución de las narrativas del grupo y sus implicaciones en la política internacional.  
Palabras clave: BRICS, Sur Global, narrativas.  
governança global e suas instituições, na pro-  
posta de iniciativas contra-hegemônicas - como  
o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) - e  
na expansão de seus membros agregando po-  
der econômico e representatividade política em  
meio ao Sul global.  
1 INTRODUÇÃO  
Entre reforma e transformação da ordem  
mundial, o Brics se destaca tanto na literatura  
especializada quanto na prática política das re-  
lações internacionais, como uma das principais  
e mais notórias iniciativas do Sul global. Apesar  
do bloco reunir alguns países emergentes que se  
destacam em meio aos países ditos “em desen-  
volvimento”, observa-se no início deste século  
uma ascensão de todos aqueles dominados e até  
então silenciados – “the rise of the rest” (Zakaria,  
2008). Essa nova arquitetura de poder global  
vai além dos aspectos econômicos e militares  
na discussão geopolítica e abrange também as  
diferentes perspectivas sobre o mundo e pro-  
postas para a governança global.  
Essa configuração, no entanto, levanta  
questões que vão além da mera identificação de  
interesses: até que ponto o Brics representa e  
defende as demandas de um Sul global emer-  
gente ainda heterogêneo? E, ao mesmo tempo,  
em que medida ele se alinha às propostas do  
G77+China e se compromete com as causas dos  
demais países do Sul global? Diversos estudos  
têm direcionado seus esforços para compreen-  
der o potencial do Brics de contrabalançar a or-  
dem vigente e de contribuir para a construção  
de uma nova ordem mundial (Autores, 2024).  
Paralelamente, investiga-se a medida em que o  
Brics pode instrumentalizar a política externa  
de atores mais poderosos, como a China (Giac-  
caglia et al., 2022).  
Essas disputas vão além da tradicional for-  
ma de exercício de poder e alcançam uma di-  
mensão mais sutil e que se consolida ao longo  
do tempo: as narrativas. Após 15 anos de ins-  
titucionalização do bloco, notamos uma iden-  
tidade que o Brics tem assumido nas relações  
internacionais contemporâneas. Essa identida-  
de se assenta na demanda por uma reforma da  
Para Abdenur e Folly (2015) há uma la-  
cuna entre a construção de uma narrativa dis-  
ruptiva, de um lado, e as iniciativas propostas  
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e resultados alcançados, de outro. Isso é algo  
que oferece risco, pois ajuda a promover inte-  
resses ocultos dos países-membros, esvaziando  
o sentido da ação coletiva e perdendo a missão  
como bloco político de países. Embora reco-  
nheçam que se trate de uma iniciativa anti-he-  
gemônica, porquanto almeja um sistema mul-  
tipolar. Não se configura como uma ruptura  
sistêmica ao visar à expansão de sua influência  
no mundo em vez de substituição das insti-  
tuições tradicionais e estruturantes da ordem  
internacional - algo evidente nas declarações  
de cúpula.  
aguardam ações mais ousadas, impactantes e  
anti-imperialistas e reúne atores da sociedade  
civil articulados no Fórum Acadêmico de inte-  
lectuais, sindicatos e ONGs (os torcedores dos  
Brics); (c) os apoiadores do Brics em função  
de seus negócios e da manutenção da velha or-  
dem mundial capitalista (os pro-West); e (d) os  
apoiadores do Brics em função das redes de so-  
lidariedade e de defesa dos interesses públicos  
- composto por ativistas de base local e atuação  
global (os BRICS desde baixo).  
Assim, uma das características mais mar-  
cantes da ascensão do Brics na presente ordem  
mundial é a construção dessas narrativas con-  
testatórias. Ela parte de uma missão contra-  
-hegemônica, assumida pelos países do bloco  
(imediatamente) e, de forma mediata, por  
aqueles pertencentes ao Sul global. Essa últi-  
ma, manifesta-se, sobretudo, na promoção da  
justiça social prevista no relatório da Comis-  
são do Sul de 1990 e figura entre os ideais e  
princípios pactuados desde a Conferência de  
Bandung em 19554.  
Contudo, a forte atuação política do Brics  
tem sido reconhecida, sobretudo, pela sua na-  
tureza ideológica. Por um lado, o Brics promo-  
ve formas de cooperação no eixo Sul-Sul para o  
desenvolvimento e retomada das narrativas do  
direito ao desenvolvimento e da Nova Ordem  
Econômica Internacional (NOEI). Por outro  
lado, o bloco lida com o desafio de reunir dife-  
rentes posições e preocupações na concertação  
global quanto às diferentes agendas e eventos  
políticos, quase sempre irreconciliáveis, mas  
unidos em torno de reivindicações comuns,  
identificadas com essa identidade e projeto do  
Sul global.  
Incontestável tem sido a ideia de que essa  
ascensão de Brasil, Rússia, Índia, China e África  
do Sul - que agora se expande para Egito, Etió-  
pia, Irã, Arábia Saudita e os Emirados Árabes  
Unidos - é a evidência da transição hegemônica  
em curso. Observa-se uma desocidentalização  
do mundo, promovida pelo eixo sino-russo,  
rumo a outro mundo mais plural e multipolar,  
permeado de ideologias dissidentes e em busca  
Para Bond e Garcia (2014), pode-se enu-  
merar dez posturas ideológicas que explicam  
a imagem do Brics no atual cenário político  
internacional. Condicionadas aos distintos  
“lugares de fala e atuação”, elas podem ser  
agrupadas em torno de quatro posições: (a) a  
de um Brics anti-imperialista, subimperialista  
e, mesmo, interimperialista (os Brics de alto  
escalão) que se diz respeito aos chefes de Es-  
tado e seus aliados das elites corporativas dos  
países; (b) aos favoráveis ao Brics (os “pró-Bri-  
cs”), que esperam sua missão de desafiar as  
injustiças globais, e aos críticos e céticos que  
4 Na dimensão nacional, o Relatório da Comissão do  
Sul intitulado “e Challenge of the South” defende um  
desenvolvimento centrado nas pessoas e autossuficien-  
te que reconhece que a justiça social [e uma parte in-  
tegral e genuína da busca pelo desenvolvimento (South  
Commission, 1990, p.80); Prashad (2012, p.10) elege a  
justiça como um dos três temas centrais (junto à paz e  
pão-pobreza) como prioritários na enunciação dessa voz  
do Sul global.  
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da equidade no interior e exterior das nações -  
ao menos discursivamente.  
presença, inclusive, tem contribuído para con-  
figurar uma nova ordem na comunicação, as-  
sentada na construção dessas narrativas - “Fra-  
ming a new global communication order would  
also entail reconfiguring discourses on strategic  
communication, including soft power” (ussu e  
Nordenstreng, 2021, p.9).  
Assim, a mudança das instituições, nor-  
mas, interesses, ideologias, e culturas, comple-  
menta-se com a mudança na ordem retórica,  
reforçando a importante contribuição do Brics  
ao longo desse período na veiculação de infor-  
mações, visões e ideias  
De fato, uma disputa por sentidos e inter-  
pretações é algo que não se pode negligenciar  
na política. Nesse sentido, este artigo discute a  
seguinte questão: Como o Brics tem construí-  
do sua narrativa ao longo desses quinze anos  
visando à transformação da ordem mundial?  
Por meio da revisão da literatura e da análise de  
conteúdo das declarações das cúpulas anuais,  
lançamos como hipóteses dessa pesquisa, que:  
o Brics tem operado na ordem discursiva mun-  
dial por meio da construção de uma narrativa  
coesa alinhada ao projeto e identidade do Sul  
global. Como pressuposto, assentamo-nos na  
ideia de que há uma reforma da ordem global  
em curso, promovida, dentre outros atores,  
pelo Brics.  
e BRICS nations pose a challenge by pro-  
viding a complementary, if not a counter  
narrative, especially in the context of inter-  
national development. […] e framing of  
a new global communication order would  
also entail reconfiguring discourses on  
communication and media systems in rela-  
tion to international political and economic  
structures and dynamics (ussu; Nordens-  
treng, 2021, p.8).  
As narrativas veiculadas nas declarações  
oficiais do Brics parecem ter mais projeção na  
mídia global do que as iniciativas, instituições  
e normas propostas pelo bloco. A despeito da  
relativa pouca visibilidade do Brics na mídia  
brasileira em comparação com a atenção dada  
a certas agendas e políticas dos países membros  
(Santos; Cazzamatta, 20245, é importante re-  
conhecer que o agrupamento tem estado muito  
presente na mídia internacional, sobretudo as-  
sociado às mudanças geopolíticas globais. Essa  
A pesquisa se instrumentaliza pelo méto-  
do da análise do conteúdo e pela técnica siste-  
mática (ou automática) de exploração do corpus  
- as quinze declarações oficiais, produzidas após  
a realização das cúpulas de chefes de Estado e  
de governo do bloco. A partir de uma análise  
do conjunto de textos, a pesquisa propõe al-  
gumas categorias relevantes ao demonstrar a  
constituição de uma narrativa coesa e que ope-  
ra simbolicamente na construção de uma outra  
ordem mundial.  
5 “A partir de uma análise de conteúdo quantitativa  
e longitudinal (2011-2019), examinamos 1.451 ma-  
térias publicadas pelos jornais O Estado de S. Paulo e  
O Globo. A imprensa brasileira discute, principalmen-  
te, potências globais, países em crise, estados vizinhos  
e os principais parceiros comerciais do Brasil. A China  
(5.1%) é o país dos BRICS com mais visibilidade, prova-  
velmente devido ao seu poderio geopolítico e fortes laços  
econômicos com o Brasil. Questões relacionadas à Rús-  
sia (4.1%), especialmente aquelas envolvendo segurança  
e justiça, também recebem um foco considerável. Temas  
envolvendo a Índia (1%) e a África do Sul (0.8%) rece-  
bem significativamente menos atenção midiática. O pró-  
prio bloco BRICS exibe uma visibilidade relativamente  
baixa, o que pode dificultar o seu reconhecimento entre  
o público brasileiro.” (Santos; Cazzamatta, 2024, p.1).  
Na primeira parte analisamos o Brics  
como ator que opera por meio da construção  
de narrativas por meio das quais contesta a or-  
dem mundial vigente, assentado no Sul global,  
uma identidade e projeto na política interna-  
cional. Trata-se de uma perspectiva crítica e  
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construtivista que entende o Brics como um  
bloco contra-hegemônico que, portanto, busca  
atuar para uma transformação gradual das ins-  
tituições do sistema internacional. Na segunda  
parte, apresentamos como a visão e proposta  
do bloco sobre a ordem mundial nova e alter-  
nativa está formalmente expresso nas declara-  
ções oficiais. Na terceira, explicamos como as  
posições do bloco em relação a distintos temas  
e agendas da governança global compõem essa  
narrativa construída para disputar poder com o  
Norte global, identificando as posições comuns  
alcançadas pelo bloco diante das divergências  
em busca de verificar como a heterogeneidade  
do Brics impacta seu potencial transformativo  
da política internacional. A partir daí se torna  
mais visível que a maior contribuição do Brics  
tem sido mais simbólica do que material, ca-  
minha lenta e continuamente para essa nova  
ordem mundial, de caráter mais reformador e  
menos disruptivo.  
compartilhados”. Sabendo que a estrutura e  
a agência são mutuamente constitutivas e co-  
-determinadas, as narrativas enunciadas pelos  
agentes se tornam um mecanismo por meio  
do qual os atores interagem e permitem que as  
ideias e identidades sejam compartilhadas en-  
tre eles. Dessa forma, a mudança estrutural é  
resultado da contínua definição e revisão dos  
agentes de quem eles são (em relação uns aos  
outros) e ao que pretendem ser.  
Sabe-se que as reivindicações por voz e  
poder são parte do Sul global desde seu apare-  
cimento nas relações internacionais. Assim, o  
Brics constitui-se em meio à geopolítica pós-  
-colonial com um caráter anti-imperialista,  
conforme Wallerstein (2014),  
Na esteira do declínio pós-hegemônico do  
poder, prestígio e da autoridade estaduni-  
denses, o mundo parece ter se organizado  
em uma estrutura geopolítica multipolar.  
Na atual situação, com oito, dez e doze sig-  
nificantes potências políticas, os BRICS  
são, definitivamente, parte do novo cenário.  
Mediante seus esforços para forjar novas es-  
truturas no cenário mundial, tal como a es-  
trutura intrabancária, sentar-se lado a lado e  
substituir o Fundo Monetário Internacional  
(FMI), certamente estão enfraquecendo ain-  
da mais o poder dos Estados Unidos em ou-  
tros segmentos do antigo Norte em favor do  
Sul ou, pelo menos, dos próprios BRICS. Se  
a definição de anti-imperialismo é a redução  
do poder dos Estados Unidos, então o BRI-  
CS certamente representa uma força anti-im-  
perialista (Wallerstein, 2014, p.485-486).  
2 O BRICS E A CONSTRUÇÃO  
DE NARRATIVAS  
CONTESTATÓRIAS  
A elaboração e veiculação de narrativas  
têm sido um importante instrumento de dis-  
puta e afirmação de poder, sob iniciativa tanto  
de atores privados quanto públicos. As narra-  
tivas servem muito bem ao exercício de poder.  
Por isso, estão em constantes disputas e fazem  
parte do processo de instituição e consolidação  
de determinados posicionamentos e visões de  
mundo, pois moldam tanto as atividades das  
organizações quanto o comportamento dos su-  
jeitos.  
A despeito de não ser possível apontar um  
ponto de inflexão nesta transição promovida  
pelo Brics, há uma construção de narrativa em  
marcha que não pode ser desprezada. Da Con-  
ferência Afro-Asiática de Bandung de 1955 em  
diante, observa-se uma identidade coletiva para  
a constituição de um mundo mais justo, equili-  
brado e satisfatório para todos.  
Conforme explica Wendt (2014, p.127),  
“Instituições são feitas de normas e regras, que  
são fenômenos ideológicos - “modelos mentais  
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ned unities of the past or in the divine realm.  
Others are merely defensive, seeking to sur-  
vive in the present. And yet others find the  
present intolerable, and nudge us into the  
future. (Prashad, 2012, p.18)  
2.1 O Sul global: um projeto e uma  
identidade do Sul global para o  
BRICS  
Os problemas enfrentados pelas nações  
mais pobres e a falta de representatividade  
nas instituições intergovernamentais – desta-  
que para o Conselho de Segurança das Nações  
Unidas (CSNU) – somam-se à demanda por  
reparação histórica. Essa combinação reflete a  
consequente capacidade dos países do Sul de  
resolver os problemas sociais - algo inerente à  
emergência dos novos países no sistema inter-  
nacional, criado pelo sistema colonial europeu.  
Assim, o Brics parece querer assumir o legado  
do então Terceiro Mundo e do atual Sul global  
por meio de um projeto coletivo para afirmar-  
-se e vencer os desafios que lhe são inerentes.  
Nesse sentido, interessa o que estabelece a Co-  
missão do Sul (1990) sobre os desafios enfren-  
tados pelo Sul e, recentemente, o Congresso de  
Havana que retoma a ideia de NOEI - Nova  
Ordem Econômica Internacional6.  
Lembrando que esse projeto é eminente-  
mente político, já que a solução para os pro-  
blemas enfrentados pelo Sul não é de natureza  
técnica ou cultural. Os problemas sociais das  
desigualdades (no plural) se veem dentro e en-  
tre os países e estão relacionados à prosperida-  
de, propriedade e ao poder, algo que precisa ser  
revisado por esse projeto. Tendo isso em vista,  
o Sul global é um lugar de grandes disputas e  
conflitos, o que requer diferentes táticas e estra-  
tégias projetadas - algo ainda inacabado, para  
Prashad (2012), e que perfaz a missão do Brics.  
Segundo esse autor, o bloco tem algumas limi-  
tações, a saber: (1) as políticas domésticas dos  
países membros parecem praticar uma espécie  
de “neoliberalismo com características do Sul”,  
com a venda de commodities e baixa remu-  
neração do trabalho, em benefício do Norte;  
(2) a aliança ainda não foi capaz de criar uma  
fundação institucional com uma autoridade, a  
despeito da demanda por mais democracia na  
ONU, BM e FMI – o que talvez esteja emer-  
gindo no cenário mais recente (após 2014) com  
o NBD; (3) a formação do bloco não endossou  
uma alternativa ideológica para o neoliberalis-  
mo; e (4) o projeto do Brics não tem habilida-  
de para desafiar o domínio militar dos Estados  
Unidos e da OTAN.  
Prashad (2012) explica a proposta do Sul  
global como projeto, a multiplicidade colocada  
a serviço de objetivos comuns que sirva para  
protestar contra o status quo e criar um mundo  
melhor.  
e global South is this: a world of protest,  
a whirlwind of creative activity. ese pro-  
tests have produced an opening that has no  
easily definable political direction. Some of  
them turn backwards, taking refuge in imagi-  
Além de um projeto político coletivo, o Sul  
global deve ser entendido como uma identidade  
na política internacional. Essa identidade enseja  
a necessária cooperação e solidariedade entre po-  
vos e países em vista da superação de um sistema  
desigual em vários aspectos (econômicos, sociais  
e políticos). Por isso, se torna uma oportunidade  
6 A Declaração Final de Havana convoca todos a reno-  
var o Movimento dos Países Não-Alinhados, a renovação  
da NOEI para o novo contexto do século XXI, a afir-  
mar o poder do Sul global mediante criação de novas e  
alternativas instituições, buscar inspiração na revolução  
cubana para pensar a transformação ampla do sistema  
internacional, e a construção de um bloco planetário  
com pessoas e nações de forma a cultivar a solidariedade.  
Disponível em: https://progressive.international/. Aces-  
so em: 24 nov. 2025.  
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de se distinguir para se afirmar (Caixeta e Mene-  
zes, 2021). Brun (2022) fala de uma inversão de  
rótulos, já que esse Sul deixa de ser uma fraqueza  
e se torna uma força política para a veiculação de  
certas reivindicações, ideias e narrativas.  
2.2 As narrativas: uma mudança de  
dentro do sistema internacional  
Por um lado, o Sul global nos convoca a as-  
sumir a perspectiva oferecida pela Teoria Crítica,  
em que a contra-hegemônia e reformismo ins-  
trumentalizam as análises - o que, também, nos  
faz pensar o mundo de outra forma. Por outro  
lado, a atuação desse Sul nos remete ao construti-  
vismo, cujas formas de interação do bloco e seus  
membros com o sistema internacional também se  
manifesta na construção de sentidos e significa-  
dos para os eventos internacionais. Ambos, entre-  
tanto, apontam para a importância das narrativas  
para o Brics, principalmente veiculadas nas decla-  
rações oficiais como meio de disputa de poder e  
reivindicação por uma governança global demo-  
crática em uma ordem mundial multilateral.  
De fato, tanto as iniciativas propostas  
O Sul global como possibilidade de uma  
nova perspectiva para as Relações Internacio-  
nais (Tickner e Smith, 2021) é, também, o que  
Prashad (2012) ressaltou como sendo o poten-  
cial criativo do projeto do Sul global. E o que  
Cox (1981) propõe como sendo o papel da teo-  
ria crítica - que é aquela que se compromete  
com a mudança do curso da história e dedica-  
-se a entender a complexidade política e social  
dos eventos, os pensando de outro modo. Ele  
deve fazer emergir e coexistir as múltiplas for-  
mas de vida (vozes e histórias) que estiveram  
escondidas por trás do projeto universalizante  
europeu/ocidental. Neste artigo, entendemos o  
Brics como um evento político que permite a  
construção de significados intersubjetivamente  
compartilhados na prática (política) social alte-  
rando a agência e as estruturas com forte apelo  
para as narrativas veiculadas e sua influência na  
opinião pública global (via mídia).  
quanto as narrativas enunciadas pelo Brics ex-  
plicitam descontentamentos contra a ordem  
vigente, questionamentos sobre a baixa repre-  
sentatividade da maioria dos países do mun-  
do nas organizações internacionais, e reivin-  
dicações por um sistema mais justo contra o  
acirramento da diferença entre os privilegiados  
e os prejudicados com as normas de institui-  
ções financeiras e comerciais internacionais - a  
OMC, o FMI e o BM. Bezerra e Bueno (2022)  
explicam, através da Teoria Crítica, que os paí-  
ses se unem contra algumas (e não todas) das  
estruturas presentes no sistema internacional.  
Por fim, baseamo-nos em Alden et al.  
(2010), para quem, no atual contexto, não se  
trata de questionar a inefetividade das institui-  
ções e iniciativas do Sul, mas reconhecer que as  
transformações em curso assumem tanto uma  
dimensão ideacional como material. A concre-  
tização das aspirações do bloco deveria ser averi-  
guada pela associação entre a identidade coleti-  
va do Sul e seus resultados concretos em termos  
político-econômicos. Uma leitura predomi-  
nantemente materialista do Sul como um ator  
concreto torna-se difícil sem a devida referência  
à sua dimensão ideológica ou simbólica, e sem  
o reconhecimento do que essa ordem significa  
para a formação da opinião pública global.  
BRICS countries united their agendas against  
some (not all) structures present in the interna-  
tional system with which they disagree. As emer-  
ging countries, they started a dual movement:  
contesting outdated hierarchies and established  
structures of world politics while presenting  
an alternative view that stands for change; and  
building new forms of cooperation, including  
the creation of a new international organization.  
(Bezerra; Bueno, 2022, p.332).  
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Dessa forma, torna-se possível discutir a  
postura contra-hegemônica do bloco, tanto  
na sua dimensão material quanto ideacional e  
simbólica, tal qual sugere Cox (1981)7. Afinal,  
além dos recursos materiais e das instituições,  
as ideias formam parte da tríade de categorias  
que conformam as estruturas hegemônicas no  
meio internacional. A desconstrução dos dis-  
cursos teóricos e das práticas sociais na base  
da reprodução do status quo em benefício dos  
privilegiados é uma das formas que Bezerra e  
Bueno (2022) enquadram o marco teórico  
crítico na análise do comportamento do Bri-  
cs. O agrupamento também propõe alternati-  
vas emancipatórias à ordem dominante - por  
exemplo, o Novo Banco de Desenvolvimento.  
Por meio do construtivismo social, inves-  
tigamos como o discurso é parte de uma or-  
dem social em que se disputa poder. Giddens  
(2013) sugere que há propriedades estruturais  
que governam os sistemas sociais (e políticos)  
que são compostas por esquemas interpretati-  
vos, elementos normativos e poder presentes  
nas práticas sociais. O que Giddens (2013) de-  
nominou como “estruturação” são as condições  
que governam a continuidade ou transmutação  
de estruturas. Ou seja, há uma instância inter-  
mediária que possibilita a interação entre os  
agentes, em suas práticas sociais, em uma de-  
terminada estrutura, formada por regras e re-  
cursos.  
interações dos agentes, a saber: a significação,  
ou seja, os processos de construção de significa-  
dos coletivos ou intersubjetivamente comparti-  
lhados; a dominação, tendo por base o acesso  
aos recursos de poder; e a legitimação das ins-  
tituições (normas e regras) que já existem. Em  
uma dessas dimensões, a comunicação é o que  
possibilita essa interação na prática social entre  
os agentes - é onde se expressam os esquemas  
interpretativos que produzem significados nos  
sistemas sociais. As narrativas podem ser enten-  
didas aqui como sendo os esquemas interpre-  
tativos.  
Nesse sentido, a contestação pode ser en-  
tendida como a crítica aos significados consoli-  
dados na estrutura que possibilita a veiculação  
de novos esquemas interpretativos. Contestar,  
então, é parte da disputa de poder por meio de  
novos sentidos no exercício da agência. Trata-  
-se do que os atores intencionam (inter)agir e  
dos significados determinados pela ordenação  
estrutural de sistemas de signos, segundo expli-  
ca Giddens (2013) - daí a dimensão simbólica,  
veiculada pelas narrativas.  
A partir disso, considerando que a ordem  
do discurso abrange: (1) os modos relativamen-  
te estáveis de agir - ou seja, os tipos de lingua-  
gem ligados a uma atividade social particular  
(gêneros); (2) as formas de representar - ou os  
tipos de linguagem usado para construir al-  
gum aspecto da realidade de uma perspectiva  
particular, o que se denomina de discursos, no  
plural; e (3) as maneiras de identificar(-se) em  
práticas sociais - ou os tipos de linguagem usa-  
dos por uma categoria particular de pessoas e  
relacionado com sua identidade (estilos). En-  
tendemos que as narrativas contestatórias são  
simultaneamente uma forma de ação, de repre-  
sentação e de identificação (Fairclough, 2003).  
As narrativas mencionadas aqui são enten-  
Essa interação entre agentes e estruturas  
ocorre por meio dos sistemas sociais. Há três  
instâncias desse sistema social onde ocorrem as  
7 Cox (1981) entende o Sul Global (então-Terceiro  
Mundo) como estando investido de uma vocação con-  
tra hegemônica na ordem mundial já que possui a ca-  
pacidade (e motivação) para formular uma outra visão  
de mundo. Bezerra e Bueno (2022) tratam de melhor  
enquadrar o Brics na Teoria Crítica das RI a partir do  
marco conceitual e histórico.  
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didas como sinônimas dos discursos no lato sen-  
su - ou seja, abrangem as formas de representar  
o mundo (as imagens), construindo significa-  
dos para a realidade da política internacional a  
partir da perspectiva particular do Sul global e  
do bloco - especialmente, para construir novas  
imagens, símbolos e ideias8. Nesse sentido, ao  
questionar as desigualdades entre e no interior  
dos países, as lutas hegemônicas, as relações de  
dominação, os textos das declarações oficiais  
(os eventos) alteram a prática social da política  
internacional e, ao mesmo tempo, são determi-  
nados por ela.  
fluenciar a opinião pública e, com isso, ganhar  
apoio dos demais atores – a persuasão da arena  
política. De acordo com Sanahuja (2013), as  
distintas versões sobre um mesmo fato confi-  
guram diferentes expectativas, papéis e condu-  
ta dos sujeitos envolvidos. Sobre o multilate-  
ralismo, por exemplo, há múltiplas narrativas.  
Enquanto os Estados Unidos impulsionam  
o multilateralismo hegemônico e a Europa o  
multilateralismo normativo, os países em de-  
senvolvimento promovem o multilateralismo  
revisionista. Isto com vistas a buscar legitimar  
discursivamente determinadas normas e con-  
dutas para alcançar objetivos e práticas diferen-  
tes daquelas vigentes.  
Daí a importância de certos construtos so-  
ciais para avaliar a ordem discursiva. Com base  
em Ramalho e Resende (2011), podemos dizer  
que tanto a ideologia do Brics está assentada  
nas representações dos aspectos do mundo que  
podem servir de contribuição para estabelecer,  
manter e mudar as relações sociais de poder,  
dominação e exploração, quanto sua contra-  
-hegemonia se faz pela contestação do poder  
ocidental. Poder que se mostra econômica e  
politicamente dominante e, por meio de um  
discurso dominante, busca o consentimento  
dos demais atores.  
No caso do Sul global e, em especial, do  
Brics, discute-se sobre o alcance desse reformis-  
mo (Abdenur; Folly, 2015), ou postura contra-  
-institucionalista (Chaturvedi et al., 2021), sem  
uma explícita abordagem inovadora (Stuenkel,  
2015). Pois, apesar de não romper com a estru-  
tura vigente, o bloco contesta alguns de seus  
componentes. Neste caso, as narrativas servem  
para mudar de dentro o sistema internacional,  
articulando por meio dessa dimensão simbólica  
e ideacional, convergente à dimensão material  
das iniciativas - a comunicação ou significados.  
Nesta discussão, entendemos as narrativas  
extraídas das declarações anuais das Cúpulas do  
Brics tanto como produção de consensos entre  
os países membros sobre diferentes agendas e  
temas, quanto como construção coletiva e con-  
solidação de visões de mundo comuns. Impor-  
tante ressaltar que a construção das narrativas  
do bloco é uma forma de agência do Brics na  
política internacional e se desenrola paralela-  
mente à proposição de iniciativas.  
De fato, as narrativas nas relações inter-  
nacionais constituem-se em meios muito estra-  
tégicos e efetivos no exercício do poder e da  
sanção. Por meio delas, os atores podem in-  
8 Para Fairclough (2003), nos discursos se entrelaçam a  
linguagem e a prática social já que são o momento irre-  
dutível e integrante da vida social, o modo particular de  
representar parte do mundo com base em interesses es-  
pecíficos. Mobilizamos esse autor como uma perspectiva  
teórica que mostra a dialética linguagem-sociedade e que  
explica o texto e seus elementos em função da prática  
social, da interpretação do que foi dito em um contexto  
social. Não utilizaremos, porém, a Análise de Discurso  
Crítica para entender as Declarações, mas a análise de  
conteúdo, em razão do alto volume do material a ser  
analisado (corpus).  
Assim, a reforma da ordem mundial rei-  
vindicada pelo bloco por meio das narrativas  
contesta certas ideias como forma de projetar  
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e incrementar seu poder. Esse processo ocorre  
paralelamente com o incremento da sua par-  
ticipação no PIB mundial e à proposição de  
iniciativas como o NBD e o ACR (Arranjo  
Contingente de Reserva), desde a Cúpula de  
Fortaleza em 2014. Além disso, no presente,  
o Mecanismo de Cooperação Interbancária  
(ICM), da Iniciativa de Pagamentos Transfron-  
teiriços do BRICS (BCBPI) e da Companhia  
de (Re)seguros do Brics - anunciados na Cú-  
pula de Kazan, na Rússia, em 2024 - somam-se  
às instituições de Bretton Woods, ao dólar e ao  
SWIFT (sistema de comunicação interbancá-  
ria).  
ma a nos permitir observar como teria ocorrido  
a consolidação de uma narrativa do Brics até o  
momento. Afinal esse processo se aproximaria  
mais de uma construção, ou seja, algo inten-  
cional e premeditado ou de uma consolidação  
que vai se dando com a intensificação dos diá-  
logos e consensos? Ressalta-se que o conteúdo  
das declarações mencionadas, assim como de-  
mais metadados da análise de conteúdo, estão  
disponíveis em dataset dos autores (2025), no  
repositório Harvard Dataverse.  
A análise de conteúdo, segundo Bardin  
(2011), pode ser resumida como um conjunto  
de técnicas de análise das comunicações que,  
por meio de procedimentos sistemáticos e obje-  
tivos de descrição do conteúdo das mensagens,  
busca chegar a indicadores (quantitativos ou  
não) os quais permitam a inferência de conhe-  
cimentos relativos às condições de produção/  
recepção (variáveis inferidas) destas mensagens.  
Trata-se, portanto, da explicação e classificação  
do conteúdo das mensagens como uma con-  
tribuição da pesquisa a uma possível dedução  
lógica e justificada do tema selecionado, desta-  
cando a origem das mensagens de interesse, seu  
emissor, seu contexto e, eventualmente, seus  
efeitos.  
Ressalta-se que, ainda que de forma não-  
-intencional, a construção de narrativa é um  
processo que evolui ao longo de um período e  
nos permite entender como o coletivo dos paí-  
ses do bloco percebe e representa certos proble-  
mas e eventos do sistema internacional. Como  
uma agência que vai moldando a estrutura, essa  
construção de narrativa vai produzindo novas  
instituições, valores e regras por meio da sele-  
ção e frequência de certas agendas prioritárias,  
projetos de cooperação e realização de eventos  
e reuniões.  
A análise de conteúdo se mostra como o  
método mais apropriado para coletar expres-  
sões chave que denotem as representações,  
ideias e interesses comuns retirados dos textos  
produzidos como resultado das cúpulas anuais  
do bloco de que participam os chefes de Esta-  
do e de governo. Os discursos oficiais oferecem  
pontos de comum acordo entre os países, sendo  
as ausências de certos temas e posicionamentos  
entendidos como possíveis divergências entre  
os países ou omissões propositais.  
3 AS CÚPULAS E  
DECLARAÇÕES OFICIAIS DO  
BRICS: O CONTEÚDO DAS  
NARRATIVAS  
A análise dos documentos oficiais do blo-  
co instrumentalizou-se pelo método da análi-  
se de conteúdo – tendo por referência Bardin  
(2011). De maneira diacrônica, as declarações,  
em inglês, das quinze cúpulas anuais dos Brics,  
realizadas entre 2009 e 2023, foram seleciona-  
das como corpus empírico. O objetivo foi bus-  
car evidências para a hipótese proposta, de for-  
Com base em Bardin (2011, p.123), a  
análise de conteúdo realizada adotou diferentes  
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fases: (i) a pré-análise do corpus selecionado; (ii)  
a exploração do material; e (iii) o tratamento  
dos resultados e a interpretação. Na primeira  
fase, em sintonia com nossa pergunta de pes-  
quisa e hipótese inicialmente elaboradas: (a)  
selecionamos as quinze declarações oficiais (de  
2009 a 2023) como corpus para análise - o cor-  
pus é guiado pelas regras da exaustividade, ho-  
mogeneidade e pertinência; (b) realizamos uma  
“leitura flutuante” dos textos, e identificamos  
algumas categorias de interesse para a pesquisa;  
(c) analisamos sistematicamente as declarações  
em função de índices de natureza quantitativa e  
qualitativa - ou seja, frequência de aparição de  
certos termos e as ideias associadas a determi-  
nados temas; e (d) apresentamos os dados en-  
contrados à luz dos objetivos-guia e hipótese da  
pesquisa, por meio de critérios e classificações.  
3.1 Temas de consenso: a  
codificação das declarações  
A análise das declarações que resultam  
como discurso oficial coletivo dos membros  
dos Brics remete à ideia de que o agrupamento  
opera na ordem discursiva, de onde oferece im-  
portante contribuição para o projeto e identi-  
dade do Sul global. Nesse sentido, procedemos  
à codificação dessas declarações em torno de  
algumas categorias que se sobressaem na leitu-  
ra dos textos das declarações, de forma guia-  
da pela pergunta e hipótese da pesquisa. Para  
a realização desse inventário e classificação, os  
termos foram diferenciados das categorias, en-  
tão, em inglês as palavras environment e climate  
na tabela abaixo, somente foram considerados  
quando estavam alinhados aos elementos que  
aparecem na explicação dessas categorias.  
Quadro 1- As categorias analíticas semânticas (significados)  
Explicação  
Codificação  
Desenvolvimento (Development)  
Desenvolvimento sustentável; mudança de paradigma do  
desenvolvimento econômico  
Cooperação (Cooperation)  
Comércio (Trade)  
ODA (0,7% do PIB); assistência aos países em desenvolvi-  
mento; transferência de tecnologia; perdão das dívidas  
Comércio multilateral; rodada Doha; fortalecimento da  
OMC; fim do protecionismo; comércio e  
Financiamento (Financial)  
Meio Ambiente (Environment)  
IED, perdão da dívida; bancos multilaterais de desenvolvi-  
mento  
Tecnologias “limpas”; Declarações do Rio de Meio Am-  
biente e Desenvolvimento; proteção ambiental; como uma  
das dimensões do desenvolvimento sustentável  
Agricultura (Agriculture)  
Cooperação agrícola; modernização e transição agrícola;  
produtividade agrícola; segurança alimentar  
Alimentos (Food)  
Segurança alimentar global  
Desigualdade (Inequality)  
Desigualdades socioeconômicas; exclusão social; agenda  
global do desenvolvimento; desigualdade de gênero; em-  
prego e renda; pandemia  
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Pobreza (Poverty)  
Energia (Energy)  
Clima (Climate)  
Erradicação da pobreza extrema; fome; agenda global  
(ODM e ODS);  
Cooperação energética; novos investimentos e infraestru-  
tura energética; assistência para eficiência energética;  
Mudanças climáticas; descarbonização; impactos negativos  
na segurança alimentar; Convenção Quadro da ONU;  
energias renováveis; adaptação agrícola  
Governança (Governance)  
Paz (Peace)  
Governança global para agendas relevantes; agendas glo-  
bais, estruturas institucionais; governança global econômi-  
ca; arquitetura internacional; ONU  
Convenção Internacional contra o Terrorismo; mundo  
harmônico de prosperidade comum  
Fonte: elaboração nossa.  
3.2 Consolidação de uma narrativa:  
a intensidade dos termos  
Nesse sentido, a frequência das categorias  
ao longo do período analisado (2009 a 2023)  
revela a intensidade das categorias “cooperação”  
e “desenvolvimento” em relação às demais, ex-  
plicada pelo próprio propósito do bloco, segui-  
da das categorias “paz”, “comércio”, “energia”  
e “finanças”. Observamos, em contrapartida,  
que a categoria “desigualdades” representa pou-  
co mais de 1% do percentual da cooperação.  
Isso pode ser explicado pelo fato de que aqui  
não se trata das desigualdades entre os países,  
mas das desigualdades dentro dos países, estan-  
do associada à exclusão social, pobreza e outras.  
Enquanto isso, as desigualdades estruturais no  
sistema internacional - reforma das instituições  
e representatividade dos países - aparecem asso-  
ciadas às categorias de “governança”.  
Uma observação importante é de que há  
um processo de consolidação de uma narrativa.  
Ele aponta para certos consensos que se desdo-  
bram em iniciativas práticas, em vez de uma  
construção, que revelaria uma consolidação con-  
tínua e planejada (no curto e longo prazo). Isso  
seria algo difícil de se alcançar visto não somente  
a natureza dessa aliança (não institucionalizada),  
mas ainda as trocas de governo nos países mem-  
bros (o caso do Brasil e da África do Sul, nesse  
sentido, é revelador da instabilidade desse coleti-  
vo) e as crises do sistema internacional.  
Observamos que, nessa ordem discursiva,  
o avanço das narrativas está relacionado mais  
a um decurso temporal, com certo amadure-  
cimento de ideias e consolidação de algumas  
posições coletivas sobre determinadas agen-  
das da governança global. A intensificação das  
agendas de cooperação, apresentadas na próxi-  
ma subseção, e a definição aparente em certos  
pronunciamentos coletivos sobre determinada  
questão global se constituem nesse avanço.  
A desigualdade (no singular) aparece, en-  
tretanto, marcada como sendo um desafio do  
desenvolvimento dos países em desenvolvimen-  
to, especialmente dos menos desenvolvidos.  
São escassas suas aparições - Ex. D2 (2010);  
D5 (2013) (Autores, 2025). A crítica comu-  
mente veiculada de que a agenda de gênero não  
encontra consenso no bloco parece não fazer  
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sentido aqui, pois a análise de conteúdo mostra  
a desigualdade de gênero como um problema  
a ser superado. Na ordem discursiva há pelo  
menos 3 declarações que a mencionam como  
um problema: D6 (2014), D7 (2015) e D10  
(2018). A categoria “pobreza”, nesse sentido, é  
um tema que costuma estar associado à desi-  
gualdade e às agendas globais (ODM e ODS),  
sendo comum expressões como “erradicação da  
pobreza” e “pobreza extrema” (Autores, 2025).  
O fato de as categorias “alimentação” e  
2025).  
Por fim, a categoria “governança” aponta  
para o tema da injustiça da pretendida gover-  
nança multilateral global democrática. Sendo  
assim, a categoria está associada ao pleito pela  
reforma da arquitetura global, à reforma de  
quotas e da governança do FMI e do BM, a  
tomada de decisão coletiva de agendas relevan-  
tes e de interesse comum global, a centralidade  
da ONU na governança global e no fortaleci-  
mento de um multilateralismo mais equitativo  
e representativo, com destaque para o reconhe-  
cimento da importância de se fortalecer a go-  
vernança urbana e local.  
“agricultura” possuírem praticamente a mesma  
frequência total nas declarações - 57 e 69 vezes  
- mostra que, pelo menos na narrativa, a pro-  
dução agrícola aparece alinhada à preocupação  
e intenção em promover a segurança alimentar  
(food security). A narrativa quanto a “agricultu-  
ra” aparece associada à cooperação, comércio,  
produtividade, modernização, bem como ao  
desenvolvimento e agricultura sustentável, sis-  
tema alimentar, transição agrícola e segurança  
alimentar (Autores, 2025).  
Interessante notar que há muita ênfase  
na temática da energia em relação ao clima.  
A frequência de aparição de energia (240 ve-  
zes) e clima (84 vezes) pode ser uma evidência  
do princípio das “responsabilidades comuns,  
porém diferenciadas”. Há uma preocupação  
maior do Sul global em garantir seu crescimen-  
to e desenvolvimento econômico, atribuindo  
aos países desenvolvidos à maior responsabili-  
dade, também o uso de tecnologias limpas e  
descarbonização. A categoria “meio ambiente”  
(79 vezes) reforça a preocupação com a prote-  
ção do meio ambiente e a prioridade dada ao  
desenvolvimento sustentável, cuja referência à  
ECO-92, que discutia a associação complexa  
entre desenvolvimento e meio ambiente, apa-  
rece diversas vezes nas declarações (Autores,  
102 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.89 - 116, fev. 2025  
Gráfico 1 - Frequência da aparição dos termos nos textos das declarações  
Fonte: elaboração nossa, baseado em BRIC (2009, 2010) e BRICS (2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, 2018, 2019, 2020,  
2021, 2022, 2023)9.  
Quais são as contestações fundantes e es-  
truturais do Brics quanto à ordem mundial?  
Como elas se alinham ao projeto e identidade  
do Sul global? Desses se extraem os índices: (i)  
a frequência que aparecem certas palavras-cha-  
ve; e (ii) a forma como alguns temas aparecem  
caracterizadas ou mencionadas em expressões  
ou sentenças ou palavras-chave.  
A figura abaixo apresenta uma nuvem de pa-  
lavras gerada através do programa Iramuteq. Esta  
técnica provém de uma visão geral das palavras-  
-chave de um texto, destacando os termos mais  
frequentes e, consequentemente, os principais  
temas tratados nas declarações. Quanto maior  
e mais central um termo na nuvem de palavras,  
maior é a sua frequência no corpus analisado.  
9 Vide metadados anexos no Harvard Dataverse, Autores (2025), para melhor visualização da frequência das categorias  
em cada uma das declarações  
103 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.89 - 116, fev. 2025  
Figura 1: Nuvem de palavras das Declarações Oficiais  
Fonte: elaboração dos autores, baseado em BRIC (2009, 2010) e BRICS (2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, 2018, 2019,  
2020, 2021, 2022, 2023).  
Utilizando o mesmo programa, o Iramu-  
teq, realizou-se também a análise de similitude  
dos termos mais frequentes. Enquanto a nuvem  
de palavras apresentada anteriormente mos-  
tra apenas as palavras mais citadas (frequên-  
cia) sem suas conexões, a análise de similitude  
identifica e organiza os termos conforme suas  
co-ocorrências. Desta forma, os termos são es-  
truturados em uma árvore de associações que  
revela quais palavras costumam aparecer juntas  
e formando, assim, blocos temáticos inter-re-  
lacionados. Essa técnica permite compreender  
as relações semânticas e estruturais entre os ter-  
mos mais recorrentes, evidenciando núcleos de  
sentido compartilhado.  
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Figura 2: Análise de similitude dos termos mais frequentes  
Fonte: elaboração nossa, baseado em BRIC (2009, 2010) e BRICS (2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, 2018, 2019, 2020,  
2021, 2022, 2023).  
O Iramuteq identificou seis grupos (ou  
clusters) principais: o primeiro, em azul claro,  
reúne termos relacionados à reforma financeira  
e à governança econômica global; o segundo,  
em amarelo, refere-se à diplomacia multilate-  
ral; o terceiro, em vermelho, está associado ao  
papel do Brics na governança global; o quarto,  
em roxo, diz respeito ao diálogo e à coopera-  
ção interestatal ou bilateral; o quinto, em ver-  
de, envolve termos ligados ao desenvolvimento  
econômico e às economias emergentes; e o sex-  
to, em azul escuro, agrupa referências às rela-  
ções Sul-Sul.  
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3.3 A intensificação da cooperação  
intrabloco: as agendas setoriais  
cance quanto à variedade das pastas executivas,  
bem como houve maior aprofundamento dos  
debates intergovernamentais - ambos frutos da  
coordenação entre os países e a pactuação de  
trabalhos conjuntos.  
Uma constatação ao analisar as declarações  
é a expansão da agenda de cooperação entre os  
membros do bloco que não apenas mostram a  
evolução de certos temas, criando consensos,  
como também a inclusão de agendas setoriais  
gradualmente ao longo do tempo. Isso enfra-  
quece o argumento de que o bloco perde potên-  
cia com o passar do tempo ou ao incluir novos  
membros em decorrência da heterogeneidade.  
O Brics, como um grupo menor e assentado na  
identidade e projeto do Sul global, mostra-se  
como o elemento central das Declarações.  
A partir do aumento da cooperação intra-  
bloco infere-se que o bloco alcança gradualmen-  
te maior consenso quanto a distintas questões  
da política internacional, expande os planos de  
trabalho para cada vez mais temas e, em decor-  
rência disso, se torna mais propositivo quanto a  
iniciativas práticas do bloco. O gráfico 2 (abai-  
xo) mostra esse aumento por meio do número  
de páginas e de artigos das declarações anuais10,  
já que a extensão das mensagens oficiais do blo-  
co aponta para os interesses comuns e medidas  
coletivas conforme discutido mais adiante.  
O levantamento das principais agendas  
setoriais aponta para um aumento de consenso  
entre os países do Brics. Nota-se o maior al-  
Gráfico 2 - Aumento do trabalho de cooperação do Brics (2009- 2023)  
Fonte: elaboração dos autores, baseado em BRIC (2009, 2010) e BRICS (2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, 2018, 2019,  
2020, 2021, 2022, 2023).1011  
10 10 Fazemos a ressalva de que como os textos das declarações não estão disponíveis em um sítio da web oficial, a busca de termos  
foi feita com base nas declarações disponíveis em Autores (2025).  
11 Vide tabela anexa em Autores (2025), para melhor visualização da frequência da aparição das categorias em cada uma das declarações  
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Adicionalmente, o gráfico 3 (abaixo) mostra  
o incremento das agendas setoriais nas declarações  
das 15 cúpulas dos países do Brics, de 2009 a 2023.  
Por meio de um processo sistemático e estrutura-  
do, as declarações foram analisadas identificando  
os respectivos planos de ação e reuniões setoriais.  
Foram consideradas apenas as reuniões lideradas  
por ministros, vice-ministros, conselheiros e altos  
funcionários. Essa escolha foi feita para garantir  
que a análise refletisse as discussões de alto nível e a  
relevância das decisões tomadas nas cúpulas.  
de atuação discutidas em: Relações Exteriores,  
Segurança, Saúde, Educação, Economia, Agri-  
cultura, Ciência e Tecnologia, Meio Ambiente,  
Cultura, Trabalho e Emprego, e Comunica-  
ções. Ainda que incompletos12, os dados mos-  
tram algumas tendências, prioridades e áreas  
de maior interesse do Brics. O gráfico 3 abaixo  
mostra o aumento da cooperação interna dos  
Brics (2009-2023), bem como, de que forma  
os diferentes setores aparecem ao longo dessa  
agenda cooperativa anual.  
A análise levou à categorização das áreas  
Gráfico 3 - O número das reuniões setoriais  
Fonte: elaboração dos autores, baseado em BRIC (2009, 2010) e BRICS (2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, 2018, 2019,  
2020, 2021, 2022, 2023). 1213  
12 Importante destacar que as cúpulas de 2009 (Ecaterimburgo/Rússia), 2010 (Brasília/Brasil), 2015 (Ufa/Rússia), 2016 (Goa/  
Índia) e 2022 (Beijing/China) e 2023 (Joanesburgo/África do Sul) não contêm planos de ação disponíveis. Essa limitação foi  
levada em consideração na análise, e a tabela reflete apenas as reuniões setoriais que puderam ser identificadas nas cúpulas que  
apresentaram planos de ação.  
13 Vide tabela no repositório Autores (2025) para melhor visualização da frequência da aparição das categorias em cada uma das  
declarações  
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A partir dessa análise, nota-se uma agenda  
bastante holística e em constante ampliação, tal  
qual evidenciado no gráfico acima. Os dados  
revelam um aumento no número de reuniões,  
o que indica uma crescente colaboração e ne-  
cessidade de diálogo entre os países do Brics em  
resposta a desafios globais.  
sugerir um reconhecimento da importância da  
cooperação internacional e da diplomacia para  
enfrentar desafios globais, como conflitos, co-  
mércio e segurança, além de uma necessidade  
contínua de abordar desafios geopolíticos, pro-  
mover a cooperação multilateral e fortalecer os  
laços culturais.  
Destacamos algumas áreas, tais como Eco-  
nomia, Comércio e Indústria, além de Relações  
Exteriores, que têm um número significativa-  
mente maior de reuniões do que as demais -  
respectivamente, 50 e 21 reuniões. Isso pode  
indicar uma prioridade maior nessas áreas, pos-  
sivelmente devido à sua relevância nas agendas  
políticas e econômicas atuais. A área de econo-  
mia, comércio e indústria foi a que mais impul-  
sionou reuniões de ministros, vice-ministros,  
conselheiros e altos funcionários. Isso indica o  
foco do Brics em promover o crescimento eco-  
nômico e o desenvolvimento sustentável, além  
do objetivo de maior parceria em temas econô-  
mico-comerciais entre os membros. Ademais,  
importante notar que os países do Brics estão  
buscando diversificar suas economias para re-  
duzir a dependência de setores específicos,  
como a produção de commodities, e aumentar  
sua influência nas questões econômicas globais,  
incluindo a busca por uma maior representa-  
ção em instituições financeiras internacionais e  
a promoção de uma ordem econômica global  
mais multipolar.  
Ademais, outras agendas setoriais mere-  
cem destaque, a saber:  
a) Terrorismo – o apoio à Convenção da  
ONU (Comprehensive Convention  
against International Terrorrism) é  
mencionada em todas as declarações de  
cúpula do Brics e intensifica-se ao lon-  
go do tempo, com ênfase na segurança  
dos países; o agrupamento manifesta  
preocupação com os crimes cibernéti-  
cos e, a partir de 2012, com os even-  
tos no Afeganistão, a Al Quaeda e o  
ISIS são reconhecidos como fontes de  
insegurança, em especial na Ásia e na  
África;  
b) Segurança Alimentar (e nutricional) –  
o tema aparece em todas as declarações  
(à exceção de 2018), reconhecendo o  
papel e a responsabilidade do bloco em  
contribuir para a segurança alimentar  
e nutricional, tendo em vista o fato de  
que produz 1/3 dos alimentos e hospe-  
da grande parte da população do mun-  
do; a visão do Brics de que é preciso  
aumentar a produção e produtividade  
agrícola, chamando atenção para o  
impacto negativo da volatilidade dos  
preços das commodities, e para a impor-  
tância do desenvolvimento rural e agri-  
cultura familiar, além da cooperação  
em ciência e tecnologia - Brics men-  
ciona uma “Estratégia de Cooperação  
em SAN do bloco” (Strategy on Food  
Por fim, a ênfase na área econômica pode  
indicar que este é o tema mais desafiador para o  
grupo, refletindo desafios como desigualdade,  
pobreza e desemprego. O tema Relações Exte-  
riores também conta com um número signifi-  
cativo de ocorrências, 21, o que indica que a  
área é uma prioridade para os países do Brics  
- indicativo da complexidade nas interações en-  
tre os países membros. O dado também pode  
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Security Cooperation of the BRICS Cou-  
ntries), aprovada na Cúpula de 2022;  
c) Migrações e refúgios – o fenômeno das  
migrações aparece como parte da agenda  
de cooperação entre os países do bloco  
para tratar das dinâmicas populacionais,  
o que junto ao envelhecimento, à urbani-  
zação estão as migrações; além disso, ob-  
serva-se a manifestação de apoio do bloco  
à agência da ONU encarregada de prestar  
serviços sociais aos refugiados palestinos  
(a UNRWA - United Nations Relief and  
Works Agency for Palestine Refugees in the  
Near East) e ao instituto internaiconal  
do refúgio e direito humanitário diante  
das respostas globais contra o terrorismo;  
também se nota o reconhecimento dos  
migrantes como parcela da população  
vulnerável na agenda global de desenvol-  
vimento e a necessidade de regulação in-  
ternacional efetiva para as migrações;  
a realização de eventos para avançar as  
discussões setoriais e a proposição de  
iniciativas, como o Comitê Diretivo  
do Brics para CT&I, o Centro do Brics  
para a Transferência de Tecnologia e o  
Programa de Treinamento do Brics em  
transferência de tecnologia.  
Assim, o argumento de que as hetero-  
geneidades entre os países membros do Brics  
impede que o agrupamento avance se torna  
equivocado. Nesse sentido, contestamos o que  
diz Carmody (2024) para quem disputas terri-  
toriais entre Índia e China, além da inclusão de  
países que possuem histórica inimizade como  
Irã e Arábia Saudita podem diminuir o poder  
de ação coletiva do bloco. O autor, entretan-  
to, faz uma ressalva que nos parece apropriada  
a partir dos dados levantados: “However, they  
may still be able to achieve consensus on their core  
area of concern – the need to substantially reform  
or perhaps, over time to transcend, the liberal in-  
ternational order” (Carmody, 2024, p. 12)  
Talvez essa ideia aponte para disputas  
na própria ordem discursiva, indicando uma  
contra-narrativa interessada em diminuir a in-  
fluência do bloco na ordem mundial. Ainda  
que haja tensões e disputas entre seus mem-  
bros, decorrentes das diferentes inclinações dos  
países em tão diferentes e variadas agendas e  
temas, e mais de uma década de existência, a  
emergência de um bloco que se expande de cin-  
co para 11 membros, intensifica sua agenda de  
cooperação em mais de uma dezena de temas  
e de duas dezenas de encontros anuais de alto  
nível político. Aumenta também o conteúdo  
das mensagens oficiais coletivas, tornando-se  
uma preocupação para a ordem internacional  
liberal. E isso, nos parece, elemento revelador  
da consolidação de uma narrativa coletiva e do  
incremento de poder na ordem discursiva.  
d) Ciência, tecnologia e inovação – em  
especial a transferência de tecnologia é  
uma bandeira importante para o Brics,  
que apesar de não aparecer em todas  
as declarações está relacionada a duas  
vertentes: a primeira se refere à deman-  
da do agrupamento para que os países  
em desenvolvimento tenham acesso  
aos recursos necessários para o cumpri-  
mento da Convenção-Quadro Contra  
as Mudanças Climáticas (UNFCCC),  
da Agenda 2030 dos ODS e da Con-  
venção-Quadro para a Biodiversidade,  
reforçando sempre o princípio das “res-  
ponsabilidades comuns, porém dife-  
renciadas” e o compromisso dos países  
desenvolvidos em prover assistência; a  
segunda é a cooperação intrabloco que  
se mostra cada vez mais avançada com  
109 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.89 - 116, fev. 2025  
world” e “global” nos permitiu compreender  
como o grupo tem contestado a atual configu-  
ração da ordem internacional.  
4 BRICS E SUA NARRATIVA EM  
PROL DO SUL GLOBAL  
Uma das questões centrais que podemos  
ressaltar na análise das declarações em sintonia  
com os dados levantados na ordem discursiva é  
a baixa frequência de expressões como “ordem  
mundial”, “ordem global” (ou ordem interna-  
cional/mundial) - em inglês, world/global/inter-  
national order - e Sul global - em inglês, global  
South. Ao contrário do que se imaginava, há  
uma narrativa pouco expressiva com relação à  
ideia de “ordem”.  
A análise revelou que o Brics utiliza es-  
sas terminologias para abordar questões funda-  
mentais relacionadas à governança global, en-  
fatizando a necessidade de uma representação  
mais equitativa dos países em desenvolvimento  
e emergentes. Através de discussões sobre mul-  
tipolaridade, desigualdade econômica e a im-  
portância de um sistema comercial justo, o blo-  
co articula uma crítica à hegemonia ocidental  
e propõe uma reestruturação das instituições  
financeiras internacionais.  
Isso contrasta com as reivindicações em  
prol da Nova Ordem Econômica Internacional  
(NOEI) que caracterizava no passado o grupo  
de países que compõem o atual Sul global, des-  
de as décadas de 1970-80 e o atual Congresso  
de Havana. Tal constatação pode ser mais uma  
evidência da aspiração do Brics de mudar a or-  
dem desde dentro. Isso, entretanto, se compen-  
sa com o uso dos termos “mundo” e “países em  
desenvolvimento” e com a recorrente menção à  
necessidade de reforma da governança global.  
Há, portanto, menos um esforço coleti-  
Além disso, esses países destacam a ur-  
gência de enfrentar desafios globais - como a  
mudança climática e a segurança alimentar -  
por meio de uma cooperação mais robusta e  
inclusiva. Dessa forma, a contestação do Brics à  
atual ordem mundial se dá por meio de um dis-  
curso que busca promover um novo paradigma  
de relações internacionais, onde a soberania, a  
solidariedade e o desenvolvimento sustentável  
são centrais.  
Observa-se, ainda, o uso de termos es-  
vo empenhado em questionar as desigualdades  
de poder do que em promover ações que resul-  
tem em maior poder de barganha dos países do  
Sul global nos distintos espaços da governança  
global. Tal fato contribui indiretamente para  
que esses possam alcançar maior representativi-  
dade nas organizações internacionais.  
pecíficos, talvez nada aleatórios, para se referir  
aos países e sua classificação no sistema inter-  
nacional. Em detrimento do Sul global - termo  
oriundo de uma mobilização política impor-  
tante e resgatando um projeto ideológico - uti-  
liza-se a denominação “países em desenvolvi-  
mento”, em consonância com o G77+China  
- “países menos desenvolvidos” (Least Develo-  
ped Countries – LDC), proposta pelas Nações  
Unidas. Além disso, “mercados emergentes e  
países em desenvolvimento” (Emerging market  
economies and developing countries – EMDC),  
terminologia sugerida pelo BM e atrelada ao  
PIB.  
Quanto à frequência das expressões,  
observamos que “ordem mundial” aparece  
apenas nas duas primeiras declarações - Ecate-  
rimburgo/Rússia em 2009 e Brasília/Brasil em  
2010. Em ambos os casos, estão associadas à  
ideia de ordem mundial multipolar, democrá-  
tica, equitativa e justa. A busca pelas palavras  
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O “Sul global” aparece em expressões  
como “Cooperação Sul-Sul”, “Cooperação  
Norte-Sul”, “Desenvolvimento desequilibrado  
Norte-Sul”, “lacuna de desenvolvimento Nor-  
te-Sul”, sendo que em apenas seis declarações  
há um artigo dedicado a tais temas. Importante  
exceção, entretanto, está na última declaração  
(Declaração de Joanesburgo de 2023), quando  
se reconhece o papel importante a ser desem-  
penhado pela presidência brasileira no G20 e  
o interesse de novos países do Sul global entra-  
rem para o Brics. Por ocasião da 16ª Cúpula em  
Kazan/Rússia de 2024, foi realizado um even-  
to sobre o tema - “BRICS and Global South:  
Building a Better World Together” - o que indica  
alguma mudança em curso na ordem discursiva  
com a menção a essa identificação dos países.  
Há mais pragmatismo, também, em  
paço para impulsionar certas articulações po-  
líticas14. Cabe-nos lembrar que o G20 reúne as  
maiores economias do mundo e, também, vem  
vivenciando expansão da sua agenda e seus ato-  
res15. Segundo alguns analistas (Norton, 2024)  
e pesquisadores (Mielniczuk, 2024), essa legi-  
timação do espaço de coordenação do G20,  
entretanto, não pode ser uma distração na de-  
finição de prioridades políticas. Esses autores  
defendem que seria mais estratégico para o blo-  
co negociar e priorizar espaços eminentemente  
contra a ordem, em vez de insistir e acreditar  
que seja possível uma mudança provocada pelo  
centro do sistema internacional.  
As declarações anuais do Brics nos mos-  
tram, ainda, os posicionamentos do coletivo  
de países quanto às várias agendas, questões  
e eventos do cenário político internacional.  
Considerando que os textos das declarações  
não possuem um formato específico, e por isso  
sua estrutura de tópicos é determinada pelo  
país que ocupa a presidência. Esse exercício  
de análise de conteúdo foi feito manualmente  
- sem assistência de softwares -, identificando  
os temas que nos pareceram mais evidentes na  
relação do bloco com o Sul global.  
buscar a NOEI sem, contudo, mencioná-la.  
Além do NBD e do ACR, agora o Brics pro-  
põe o BRIDGE, Brics Clear Platform e o Brics  
Grain Exchange - iniciativas que prevêem o uso  
das moedas nacionais dos países membros, tan-  
to no comércio intrabloco quanto nos investi-  
mentos do NDB e créditos do ACR. Ou seja,  
busca-se harmonizar entendimentos e políticas  
nacionais para propor mecanismos e sistemas  
operativos alternativos. Isso poderia explicar a  
ausência da expressão “Nova Ordem Econômi-  
ca Internacional” (ou NOEI) nas declarações  
para adoção de uma narrativa que investe na  
diplomacia multilateral, governança global de-  
mocrática, justiça global, e não deixa de con-  
tribuir com a consolidação de um imaginário  
coletivo que recorre a ideias com um horizonte  
otimista.  
14 Ressaltamos que esses grupos como G20 e G77+-  
China, diferentemente do Brics, são agremiações de pa-  
íses que buscam coordenação e fortalecimento de certas  
agendas, mas as medidas mais propositivas acontecem  
em outros espaços intergovernamentais.  
15 O G20 sob a presidência brasileira além de ter inau-  
gurado o G20 Social com ampla participação das socie-  
dades (por meio e fora de mais de 13 grupos de engaja-  
mento), também lançou a Aliança Global contra a Fome  
e a Pobreza que pretende ser aberta para a adesão de toda  
a comunidade internacional.  
Nesse sentido, a ausência de menção ao  
G77+China e a presença de várias menções ao  
G20 mostram a legitimação desse último es-  
111 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.89 - 116, fev. 2025  
Figura 2 - Algumas agendas prioritárias de interesse do Sul global (2009-2022)  
Fonte: elaboração dos autores.  
O bloco manifesta apoio nas declarações  
à diversas convenções, órgãos e agências da  
ONU em áreas específicas, tomando a Carta  
das Nações Unidas e a Assembleia Geral como  
parâmetro e meio mais democrático e efetivo  
de negociações multilaterais. No campo am-  
biental, destaca o apoio à Convenção-Quadro  
das Nações Unidas sobre Mudança do Clima,  
à Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e  
Desenvolvimento, ao Protocolo de Cartage-  
na sobre Biossegurança, ao Acordo de Paris e  
aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável  
(ODS), com foco na crise climática e sustenta-  
bilidade e no uso de energias renováveis.  
nente. No âmbito da segurança internacional,  
o bloco manifesta apoio à Convenção Abran-  
gente sobre Terrorismo Internacional (CCIT)  
e à Estratégia Contra Terrorismo do Conselho  
de Segurança da ONU. E não há apoio explí-  
cito à candidatura do Brasil e Índia por Rússia  
e China para o ingresso como membros per-  
manentes do Conselho de Segurança, mas há  
a defesa de que é importante que o órgão seja  
reformado, atendendo a distribuição de poder  
atual; em contraponto, há apoio reiterado do  
bloco à entrada da Rússia na OMC16.  
Algumas prioridades do Brics pertinen-  
tes para o Sul global, se referem ao princípio  
das responsabilidades comuns, porém diferen-  
ciadas (em inglês, CBDR). A expressão é uma  
Em relação ao desenvolvimento, a ênfase  
na Agenda 2030 e a defesa da Agência das Na-  
ções Unidas de Assistência aos Refugiados da  
Palestina no Médio Oriente (UNRWA, sigla  
em inglês), além das ações de apoio à União  
Africana (NEPAD), tendo a África do Sul a  
partir de 2012 como interlocutora do conti-  
16 O apoio do bloco à candidatura russa é constante; a  
Rússia até hoje não se tornou membro da OMC, apesar  
de ter solicitado seu ingresso em 1993; esse apoio acon-  
tece juntamente às defesas do bloco aos princípios da  
transparência, legalidade e da não discriminação para o  
sistema multilateral de comércio.  
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constante nas declarações, eminentemente atre-  
lada ao regime das mudanças climáticas, com  
exceção do ano de 2014, antevendo a Cúpula  
da Agenda de Desenvolvimento pós-2015. O  
agrupamento reconhece a Agenda 2030 como  
o centro da governança global, ressalta a im-  
portância dos “princípios do Rio de Janeiro”  
para o desenvolvimento sustentável - associan-  
do desenvolvimento e meio ambiente em uma  
relação conflituosa e marcada pelas desigualda-  
des de poder e de capacidades entre os países,  
sendo que o objetivo central da agenda é a erra-  
dicação da pobreza. A partir de 2016, o CBDR  
começa a ser utilizado agregando-se a expressão  
“respectivas capacidades” (CR), marcando essa  
diferença entre Sul e Norte global. Em 2017,  
apela-se aos países desenvolvidos para prover  
apoio financeiro, tecnológico e capacidade para  
os países em desenvolvimento para mitigação  
e adaptação às catástrofes climáticas e ambien-  
tais - sendo que, a partir de 2019, menciona-se  
que o princípio deve ser interpretado à luz das  
diferentes circunstâncias nacionais.  
diálogo paralelo e restrito aos países membros  
da OCDE e do G20 para a elaboração e apro-  
vação da Convenção-Quadro das Nações Uni-  
das sobre Cooperação Tributária Internacional  
(UNFCITC17). O tema é de grande interesse  
dos países do Sul e organizações que trabalham  
em prol da redução das desigualdades globais,  
sobretudo a de renda e riqueza. Ao estimular a  
taxação de indivíduos e empresas mais ricas e a  
redução de paraísos fiscais, há um intento em  
que Estados e seus orçamentos sejam utilizados  
para políticas públicas (sociais).  
O Brics também menciona com grande  
frequência a defesa do comércio multilateral e  
a necessidade de conclusão da Rodada Doha da  
OMC. Essa rodada é uma negociação iniciada  
em 2001 para tratar do comércio entre as na-  
ções (multilateralmente) a serviço do desenvol-  
vimento dos países e dos povos. As declarações  
finais de 2009 a 2016 do Brics afirmam que  
o avanço nas negociações (Doha Development  
Agenda) é uma questão prioritária. Desde então,  
porém, o tema perdeu força, evidenciado por  
sua ausência nas declarações seguintes, o que  
passa a ser substituído pelos informes quanto  
às reuniões ministeriais da OMC - a MC9 em  
Bali e MC11 em Nairobi. Isso não significa,  
entretanto, que a plataforma tenha abandona-  
do sua luta contra o protecionismo comercial,  
mas essas questões passam a ser resolvidas em  
instâncias técnicas e diante da irresolução elas  
estimulam outras iniciativas compensatórias no  
plano econômico e financeiro, via NBD.  
Em ⅔ das Declarações, observa-se a con-  
vocação urgente dos países desenvolvidos, no  
âmbito da Organização para a Cooperação  
e o Desenvolvimento Econômico (OCDE),  
para honrar sua promessa de destinar 0,7% do  
PIB a Assistência Oficial ao Desenvolvimento  
(AOD) em benefício dos países em desenvol-  
vimento. Trata-se de um compromisso nunca  
cumprido, essencial para a implementação da  
Agenda 2030 dos ODS.  
Além disso, a Declaração de 2015 men-  
ciona o “clube dos ricos” - a OCDE -, desta  
vez, para reconhecer e legitimar uma iniciativa  
da Organização, em parceria com o G20, sobre  
a cooperação tributária internacional, o BEPS  
(Based Erosion and Profit Shifting). É bom no-  
tar que o BEPS se constitui em um fórum de  
Nesse sentido, deve ser entendida a volati-  
17 Mais sobre as 11 recomendações feitas pela socie-  
dade civil à presidência brasileira do G20 que propõe  
para o grupo de países taxar os super ricos está dispo-  
nível em: https://www.oxfam.org.br/wp-content/uplo-  
ads/2024/05/G20-Recomendacoes-sobre-Tributacao-  
-Internacional_Port.pdf. Acesso em: 24 nov. 2025.  
113 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.89 - 116, fev. 2025  
lidade no preço das commodities, especialmen-  
te em decorrência da demanda por energia e  
alimentação. Sabe-se que a produção de grãos  
por parte dos países fundadores do bloco é sig-  
nificativa e, portanto, há uma preocupação em  
diminuir o risco de soberania nacional produ-  
zido pelas instabilidades econômicas globais  
e especulações do mercado financeiro. Ape-  
sar disso, apenas duas declarações, de 2011 e  
2017, ambas redigidas na China, mencionam  
essa preocupação.  
o fundamentalismo de mercado característico  
da ordem mundial (neo)liberal.  
As posições do bloco indicadas nesta ter-  
ceira seção trataram de forma mais qualitativa  
do conteúdo encontrado nos textos das decla-  
rações e complementam os dados levantados  
anteriormente. Eles nos permitem defender a  
ideia de que há uma consolidação de narrativas  
em curso, condicionada pelos distintos cenários  
internacionais, mais do que pelas mudanças de  
mandatários nos países. Ainda que não se possa  
dizer que haja um processo coerente estratégico  
desde 2009 até 2023, notamos que a maioria  
dos consensos entre os países, como as posições  
diante das diferentes agendas globais, guarda  
grande alinhamento com a identidade e o pro-  
jeto do Sul global.  
A pobreza, a exclusão social e as desigual-  
dades, sabe-se, é um dos principais problemas  
do Sul global e um dos temas mais centrais na  
Agenda 2030 dos ODS. A pobreza aparece em  
vários artigos como um endosso do Brics a esse  
objetivo central da governança global do de-  
senvolvimento. Esse termo aparece associado à  
exclusão social e desigualdade, à fome e mal-  
nutrição, às necessidades especiais dos países  
em desenvolvimento, especialmente os LDCs  
(Least Developed Countries) e os LICs (Low In-  
come Countries), além do apoio às iniciativas  
dos países africanos. Em algumas ocasiões, a  
narrativa do Brics elogia organizações como o  
BM, o FMI e o G20 em suas atuações contra a  
pobreza - algo que pode evidenciar, mais uma  
vez, a postura de menor confrontação e busca  
por maior persuasão.  
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS  
Há uma ordem discursiva que opera si-  
multaneamente à ordem social na configuração  
política internacional. O Brics, nesse sentido,  
mostra que ao longo desses 15 anos sob análise  
há uma consolidação de narrativa que parece  
não apenas veicular determinados interesses,  
mas influenciar agendas globais. Nesse sentido,  
o uso das narrativas como meio estratégico para  
um projeto político nem sempre é pensado a  
priori e como tal mirando o longo prazo. En-  
tretanto, pode-se valorizar essa atuação narra-  
tiva tanto pela sua importância em influenciar  
a opinião pública global como em alcançar  
gradualmente mais apoios nos países, construir  
parcerias e legitimar as iniciativas propostas -  
recentemente assistimos à expansão do Brics e  
à possibilidade de o agrupamento estabelecer  
parceria com a Organização de Cooperação de  
Shanghai.  
Interessante notar que os países escolhem  
priorizar em termos de agendas de cooperação  
a centralidade do Estado na condução de seus  
processos de desenvolvimento. Conforme no-  
tou Abdenur e Folly (2015), o papel do Esta-  
do no desenvolvimento doméstico, ainda que  
varie um pouco entre os cinco membros, no  
consenso coletivo, identifica-se uma aborda-  
gem mais estado-cêntrica sobre o desenvolvi-  
mento internacional, com influência chinesa e  
russa. Isso reforça a posição coletiva de recusar  
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Assim, ao fazer uso da dimensão simbólica  
do poder na veiculação dessas narrativas, no-  
tamos, ao menos, a continuidade e estabeleci-  
mento de um projeto de cooperação fortemen-  
te inspirado na Cooperação Sul-Sul coletiva  
ou multilateral. Isso porque ao reforçar valores  
como a solidariedade, o respeito à soberania e  
a busca por uma ordem multipolar justa com  
uma governança representativa, parte-se de  
uma estratégia discursiva para construir uma  
visão de internacionalismo colaborativo pro-  
posto pela ascensão do Sul global. Esse poder  
simbólico aparece articulado tanto à identidade  
quanto ao projeto desse grupo de países que re-  
correm à representatividade, ação e legitimação  
desse discurso na política internacional.  
consenso entre os países membros, contrarian-  
do, portanto, aqueles que insistem na impos-  
sibilidade do Brics de se despontar como um  
bloco de países coeso com poder para alterar  
as dinâmicas atuais da política internacional18.  
Em vez da insistência em narrativas ideo-  
lógicas, as declarações apontam para uma atua-  
ção pragmática, voltada para os planos de ação  
- alguns deles explícitos nas declarações, outros  
em peças separadas (anexadas). Além disso, o  
foco adotado pelas declarações com menção a  
“mercados emergentes” e “países em desenvol-  
vimento” é mais uma evidência desse pragma-  
tismo - em vez de recuperar marcos políticos e  
históricos do passado e reivindicações e deman-  
das antigas.  
Nesse sentido, o avanço teórico sugerido  
por essa pesquisa revela a importância da or-  
dem discursiva, junto à ordem social nas rela-  
ções internacionais. Ela especialmente ressalta  
o poder das narrativas na transformação da or-  
dem mundial vigente - algo que se torna empi-  
ricamente observável com o decurso de tempo.  
Tal qual sugerido por Buzan e Acharya (2022),  
enquanto cientistas sociais, é preciso reimagi-  
nar as relações internacionais a partir de ou-  
tros sistemas de pensamento, outras dimensões  
analíticas e outras ordens em que os eventos e  
fenômenos se realizam.  
Quanto à complexificação da cooperação  
intra-bloco, nos níveis políticos (decisórios) e  
técnicos (harmonização de políticas), há maior  
ênfase nas questões econômicas e ambientais,  
em comparação com as políticas e sociais. Tal  
qual observamos nas Convenções da ONU  
mencionadas pelo Brics ao longo dos anos,  
questões como os empréstimos e financiamen-  
tos, além da dinâmica comercial, reforçado  
pelo interesse no fim da dependência do siste-  
ma dolarizado são algumas dessas evidências.  
As agendas sociais como saúde, proteção social,  
segurança alimentar e nutricional, não parecem  
ter o mesmo destaque.  
Nossa pesquisa confirma a hipótese inicial  
de que o Brics, na ordem discursiva, está ali-  
nhado ao projeto e identidade do Sul global;  
entretanto, “reformando a partir de dentro”.  
Essa consolidação narrativa pode ser observa-  
da ao longo dos 15 anos (e 15 declarações ofi-  
ciais expedidas). Um dado interessante é o fato  
de que as Declarações Oficiais têm se tornado  
mais extensas em número de páginas, de arti-  
gos e com agendas de trabalho mais abrangen-  
tes e intensas. Isso pode indicar o aumento de  
Isso é condizente com uma construção de  
narrativa mais dedicada a medidas propositi-  
vas. O termo “Sul global” - com exceção da  
última declaração de Kazan (2024) - quase não  
18 Apesar de não haver uma estrutura existente para as  
Declarações, notamos que os 16 artigos resultantes da  
Cúpula de 2009 se transforma em 50 artigos no quarto  
encontro em 2012, 110 artigos em 2016 e chega aos 134  
artigos na última Declaração de 2024 que tem 33 pági-  
nas, marcada por inúmeros posicionamentos e propostas  
de iniciativas.  
115 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.89 - 116, fev. 2025  
AUTORES. O Brics, o Sul Global e a transformação da or-  
aparece, mas há uma defesa insistente do prin-  
dem mundial: um Novo Banco de Desenvolvimento. Mural  
cípio das responsabilidades comuns, porém  
Internacional, Rio de Janeiro, Vol.15, 2024. DOI: 10.12957/  
rmi.2024.83564. Acesso em: 1 jan. 2024.  
diferenciadas, do compromisso dos países da  
AUTORES. Replication Data for: A construção da narrativa  
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do Brics: logros na mudança da ordem mundial. Harvard  
Dataverse, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.7910/  
da conclusão da Rodada Doha na OMC e da  
DVN/TPMT4Z. Acesso em: 21 out. 2025.  
urgente reforma de instituições internacionais  
BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições  
70, 2011.  
- como o CSNU e o FMI, por exemplo - para  
BEZERRA, V., BUENO, E. Elements of Critical eory in  
que sejam espaços mais representativos das vo-  
BRICS: An evaluation of BRICS’s critique of global affairs.  
Vestinik of Saint Petersburg University. International Relations,  
zes do Sul global.  
2022, vol. 15, issue 3, pp.330-345. https://doi.org/10.21638/  
spbu06.2022.307.. Acesso em: 1 jan. 2024.  
Pressupor que há uma construção de nar-  
BOND, P; GARCIA, Ana Saggioro. Perspectivas críticas sobre  
rativa por trás da atuação do Brics forma parte  
o Brics Tensões mundiais [Dossiê] Fortaleza, v. 10, n. 18, 19,  
2014. p. 15-40.  
das atuais discussões sobre as propostas da pla-  
BUZAN, Barry e ACHARYA, Amitav. Re-imagining Interna-  
taforma para reformar o sistema internacional.  
tional Relations World Orders in the ought and Practice of  
Indian, Chinese, and Islamic Civilizations. Cambridge Uni-  
Isso, por sua vez, supõe um alinhamento às  
versity Press, 2022.  
perspectivas teóricas críticas nas investigações  
BRIC. Joint Statement of the BRIC CountriesLeaders. Ecate-  
rimburgo, Rússia, 16 jun. 2009. Yekaterinburg: BRIC, 2009.  
científicas (Autores, 2024; Bezerra e Bueno;  
Disponível em: https://brics.br/pt-br/sobre-o-brics/cupulas-  
2022). Nos parece importante reconhecer que  
-anteriores/joint-statement-of-the-bric-countries-leaders.pdf.  
Acesso em: 1 jan. 2024.  
a enunciação de narrativas, tal qual discutido  
BRIC. II BRIC Summit of Heads of State/Government - Joint  
anteriormente, é outra forma de manifestação  
Statement of the BRIC CountriesLeaders. Brasília, Brasil, 15  
abr. 2010. Brasília: BRIC, 2010. Disponível em: https://brics.  
da agência do grupo nas relações internacio-  
br/pt-br/sobre-o-brics/cupulas-anteriores/ii-bric-summit-of-  
-heads-of-state_government-joint-statement.pdf/@@down-  
nais atuais.  
load/file. Acesso em: 1 jan. 2024.  
Nesse sentido, vale lembrar que o G77+-  
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nan (China), 14 abr. 2011. Sanya: BRICS, 2011. Disponível  
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em: https://www.gov.br/mre/pt-br/canais_atendimento/im-  
pautar a Nova Ordem Econômica Internacio-  
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https://www.gov.br/mre/pt-br/canais_atendimento/imprensa/  
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117 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte,  
ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.117 - 127, fev. 2025  
117 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.117 - 127, fev. 2025  
Artigo  
Infraestrutura Digital dos Países BRICS  
Digital Infrastructure of the BRICS Countries  
Infraestructura digital en los países BRICS  
Octávio Henrique Alves Costa de Oliveira1  
Renan Guimarães Canellas de Oliveira2  
Recebido em: 15 de outubro de 2024  
Aceito em: 12 de agosto de 2025  
RESUMO  
A economia digital é um componente importante para o desenvolvimento econômico,  
sendo crucial que os países em desenvolvimento tenham infraestruturas digitais adequadas  
aos novos paradigmas econômicos. Este artigo aborda as infraestruturas digitais nos países  
BRICS, seus desafios, mecanismos de cooperação, avanços e elementos norteadores para  
uma agenda de desenvolvimento digital.  
Palavras-Chave: Tecnologias da informação e comunicação (TICs); Infraestrutura  
Digital; Exclusão Digital; BRICS  
ABSTRACT  
e digital economy is an important component for economic development, being crucial  
that developing countries have digital infrastructures that are suited to the new economic  
paradigms. is article looks at digital infrastructures in the BRICS countries, their  
challenges, cooperation mechanisms, advancements and guiding elements for a digital  
development agenda.  
Keywords: Information and Communication Technologies (ICTs); Digital Infrastructure;  
Digital Divide; BRICS  
RESUMEN  
La economía digital es un componente importante para el desarrollo económico, sendo  
crucial que los países en desarrollo cuenten con infraestructuras digitales adecuadas a los  
nuevos paradigmas económicos. Este artículo examina las infraestructuras digitales en los  
países BRICS+, sus retos, mecanismos de cooperación, avances y elementos orientadores  
para una agenda de desarrollo digital.  
Palabras clave: Tecnologías de la Información y la Comunicación (TICs); Infraestructura  
Digital; Exclusión Digital; BRICS  
1 Filiação: Doutorando no Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (IRI / PU-  
C-Rio). Pesquisador visitante na Universidade de Joanesburgo (UJ) e no Institute of Pan-African ought and Conversation  
(IPATC). Orcid: https://orcid.org/0000-0002-1743-9365. E-mail: octavioco98@gmail.com.  
2 Filiação: Mestrando no Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (IRI / PUC-  
-Rio). Orcid: https://orcid.org/0009-0000-2139-1387. Assistente de pesquisa no BRICS Policy Center. E-mail: renan-canellas@  
hotmail.com.  
118 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.117 - 127, fev. 2025  
BRICS, com atenção especial ao papel desem-  
penhado pelo Novo Banco de Desenvolvimen-  
to (NDB) e a Parceria do BRICS sobre a Nova  
Revolução Industrial (BRICS ‘PartNIR’). Vol-  
tamos nossa atenção para projetos de coopera-  
ção multilateral intraBRICS, portanto, inicia-  
tivas como a Rota da Seda Digital (Digital Silk  
Road, ou DSR) da China ou o satélite sino-bra-  
sileiro CBERS, não foram levados em conside-  
ração, dado que se trata de projetos bilaterais  
e (ou) políticas nacionais de desenvolvimento.  
Ao mesmo tempo em que apresentamos  
algumas medidas de cooperação para enfrentar  
esse desafio, concluímos que os atuais meca-  
nismos institucionalizados para as TICs en-  
tre os BRICS carecem de amplas provisões de  
infraestrutura digital, algo que, em condições  
normais, provavelmente não resolverá seus pro-  
blemas de conectividade.  
1 INTRODUÇÃO  
O desenvolvimento da economia digital  
vem se tornando cada vez mais sinônimo do  
próprio desenvolvimento econômico, enten-  
dendo as infraestruturas digitais e as cadeias de  
valor da informação como fundamentais para  
o desenvolvimento socioeconômico sustentável  
(Heeks, 2017; Hilty; Ruddy, 2010; UNECA,  
2007). Quando falamos de infraestruturas di-  
gitais, trata-se de uma série de Tecnologias de  
Informação e Comunicação (TICs) que com-  
põem e possibilitam o uso da Internet, mas não  
se limitam a ela, desde cabos submarinos a data  
centers, incluindo atores estatais e não estatais  
que cooperam e disputam na ciberpolítica con-  
tínua de cada sociedade (Oliveira; Montene-  
gro, 2025).  
Para as economias em desenvolvimento e  
os países do BRICS, no entanto, as TICs são  
uma questão preocupante, pois os investimen-  
tos em infraestruturas digitais demandam pro-  
jetos complexos, arriscados e de longo prazo,  
não atraindo muita atenção de grandes atores  
privados nos países menos desenvolvidos. Na  
mesma linha, a pesquisa acadêmica sobre os  
BRICS é ampla, mas “ainda há necessidade de  
estudos que comparem os BRICS em termos  
de questões de acesso à conexão à Internet, uso  
e problemas relacionados que levam a uma ex-  
clusão digital” (Matli; Malatji, 2024, p. 437).  
Este artigo procura abordar a questão das  
infraestruturas digitais nos países BRICS, seus  
desafios, avanços e elementos norteadores para  
uma agenda de desenvolvimento digital. A pri-  
meira seção analisa as desigualdades nas TICs  
entre esses países, a chamada “exclusão digital”,  
lançando luz sobre suas necessidades de investi-  
mento. A segunda seção tenta compreender as  
atuais possibilidades de cooperação dentro do  
2 BRICS E A EXCLUSÃO DO SUL  
GLOBAL  
A exclusão digital, termo cunhado na dé-  
cada de 1990 para definir as desigualdades en-  
frentadas pelos países no acesso às TICs (Rag-  
nedda, 2019) - ou seja, a disparidade entre as  
condições de acesso às TICs entre as diferentes  
sociedades (Soomro, 2020) -, ressona com as  
disparidades provocadas pela formação estru-  
tural do “capitalismo de dados” (West, 2019,  
p. 2). Na atual fase do desenvolvimento capi-  
talista, os países desenvolvidos possuem acesso  
adequado a uma gama de infraestruturas digi-  
tais, enquanto o mundo em desenvolvimento  
não possui as mais básicas TICs. Nos países  
em desenvolvimento, apenas 27% da popula-  
ção tem acesso à Internet, enquanto 93% da  
população dos países de alta renda está on-line  
(ITU, 2023). Em termos definitivos, a exclusão  
119 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.117 - 127, fev. 2025  
digital lida com quatro processos diferentes e,  
em muitos casos, simultâneos:  
tes entendimentos do conceito entre organiza-  
ções internacionais como a UNCTAD, WEF,  
OECD, IMF e G20. Em termos de mensura-  
ção, é possível encontrarmos alguns padrões  
semelhantes, com pelo menos sete critérios de  
sete organizações diferentes.  
1. Falta de experiência digital elementar cau-  
sada por falta de interesse, ansiedade em  
relação ao computador e falta de atrativi-  
dade da nova tecnologia (“acesso mental”).  
2. Não possuir computadores e conexões de  
rede (“acesso material”)  
A partir da estrutura proposta por Igna-  
tov, nos limitamos aos aspectos de “Disponibi-  
lidade de Infraestrutura Digital” e “Segurança  
Digital”, a partir dos quais chegamos às métri-  
cas de acesso à internet, assinaturas de banda  
larga fixa e servidores de Internet seguros. Cada  
métrica é relativa ao tamanho de sua popula-  
ção, padronizada em porcentagem, por 100  
ou 1 milhão de pessoas. Outras medidas po-  
deriam ter sido utilizadas para compreender a  
exclusão digital, porém, para alguns países do  
BRICS, faltam inúmeros dados estatísticos ofi-  
ciais e comparáveis, o que tornaria as medidas  
de comparação díspares entre si. Enquanto as  
duas primeiras métricas escolhidas dizem res-  
peito ao acesso à internet de forma ampla, a  
métrica de servidores seguros mostra um maior  
nível de complexidade e desenvolvimento des-  
sas infraestruturas, tratando de um aspecto im-  
portante para a sua sustentabilidade. Estas três  
métricas combinadas nos fornecem um quadro  
analítico comparativo para entendermos onde  
os BRICS se enquadram globalmente no âmbi-  
to de infraestruturas digitais.  
3. Falta de habilidades digitais causada por  
falta de facilidade de uso e educação ou  
apoio social inadequados (“acesso de habi-  
lidades”).  
4. Falta de oportunidades significativas de  
uso (“acesso ao uso”) (Van Dijk; Hacker,  
2003, p. 315 - 316).  
Embora pudéssemos argumentar acerca  
da existência da divisão digital nos países do  
BRICS em todas as quatro categorias propos-  
tas por van Dijk e Hacker (2003), vamos nos  
concentrar no segundo aspecto, pois a con-  
dição básica necessária para que um ator faça  
parte das redes digitais é sua capacidade real de  
participar dessas redes, ou seja, a infraestrutura  
física que permite a conexão à internet.  
Muitos artefatos digitais poderiam ser  
considerados para analisar a exclusão digital  
no BRICS. Entretanto, alguns problemas pre-  
cisam ser resolvidos para que essa análise seja  
possível. Em primeiro lugar, é preciso haver  
paridade entre as medidas de comparação, o  
que significa que os dados utilizados devem ser  
coletados no mesmo período e em amostras  
equivalentes. Em segundo lugar, as métricas es-  
colhidas devem abranger aspectos importantes  
para a temática, sendo suficientes para cobrir  
minimamente a questão.  
Não obstante, tudo o que envolve a ideia  
de economia digital e infraestruturas digitais  
não é consensual, nem mesmo a definição des-  
ses termos. Ignatov (2020) observa os diferen-  
120 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.117 - 127, fev. 2025  
Tabela 1 – Infraestrutura Digital dos BRICS em 20203  
Fonte: Elaboração do autor a partir do Banco Mundial (2023a; 2023b; 2023c) e ITU (2023).  
Ao analisar as medidas da tabela 1, pode-  
mos chegar a algumas conclusões. Os números  
em vermelho representam os países cujas mé-  
tricas estão abaixo da média global. Em termos  
de acesso à Internet, menos da metade da po-  
pulação da Índia (43%), pouco mais da meta-  
de da Indonésia (54%) e menos de um quarto  
da população da Etiópia (16%) têm acesso à  
Internet, apesar de estarem entre as economias  
que mais crescem em suas respectivas regiões.  
Analisando a Internet de alta velocidade, este  
número de países abaixo da média global do-  
bra, saindo de três para seis, incluindo o Irã,  
Egito e África do Sul em termos de assinaturas  
3 Para esta análise, consideramos apenas os membros plenos do BRICS até a última cúpula de 2025. Valores foram atualizados até  
2020 pois era o ano mais próximo com dados disponíveis de todos os atores, visto que os dados sobre indivíduos utilizando a  
Internet na Etiópia só estavam disponíveis até 2021, e da Índia, para este ano, não estava disponível, apenas 2020 ou 2022. Acerca  
das métricas: 1) Os usuários da Internet são indivíduos que usaram a Internet (de qualquer local) nos últimos 3 meses durante  
a confecção do dado. É considerada a Internet utilizada por meio de um computador, telefone celular, assistente pessoal digital,  
máquina de jogos, TV digital etc; 2) As assinaturas de banda larga fixas se referem aos acessos de alta velocidade à Internet pública  
(uma conexão TCP/IP), com velocidades de downstream iguais ou superiores a 256 kbit/s. Isso inclui modem a cabo, DSL, fibra  
até a casa/prédio, outras assinaturas de banda larga fixa (com fio), banda larga via satélite e banda larga sem fio fixa terrestre; 3) os  
servidores de internet seguros são medidos pelo número de certificados TLS/SSL distintos e publicamente confiáveis encontrados  
na Netcraft Secure Server Survey. Os certificados TLS/SSL significam “Secure Sockets Layer/Transport Layer Security”. São eles  
que permitem que os sistemas estabeleçam conexão segura com outros sistemas, usando protocolos criptográficos. As classificações  
de renda seguem as métricas do Banco Mundial. Para obter mais detalhes: <https://www.un.org/en/development/desa/policy/  
wesp/wesp_current/2014wesp_country_classification.pdf>.  
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de banda larga fixa. Por fim, quando se trata  
de servidores de Internet seguros, somente a  
África do Sul e a Rússia têm números acima da  
média mundial.  
ta seção: 1) Novo Banco de Desenvolvimento  
(New Development Bank, ou NDB); 2) BRI-  
CS PartNIR4.  
Iniciando a análise do NDB no âmbito  
das TICs, o relatório anual do banco de 2023  
toma as infraestruturas digitais como uma das  
seis áreas de foco para financiamento. A insti-  
tuição afirma seu compromisso em  
Considerando que a maioria desses países  
já sofre com deficiências econômicas estrutu-  
rais, a falta de acesso à Internet e às TICs em  
geral representa um grande problema para os  
países BRICS quando se trata dos seus próprios  
caminhos de desenvolvimento e interconexão  
nacional e internacional. Esses investimentos  
digitais são cruciais para o desenvolvimen-  
to econômico sustentável, podendo gerar um  
crescimento do PIB de até 50% no longo pra-  
zo (Manyika et al, 2016), possibilitando uma  
maior complexificação de suas economias  
(Gala, 2020) por meio da economia digital,  
que tem retornos crescentes de escala, combi-  
nando inovações tecnológicas e gerando várias  
sinergias (vínculos) entre diferentes setores da  
economia (Reinert, 2010). Essa importância  
se reflete no BRICS, onde a economia digital  
e as TICs estão entre algumas das principais  
áreas de foco do grupo, como afirma sua de-  
claração de 2023 (Declaration, 2023). Com  
a situação atual das TICs e das infraestruturas  
digitais nestes países, portanto, quais medidas  
de cooperação estão disponíveis no âmbito dos  
BRICS?  
financiar projetos que envolvam a expansão e  
a modernização da infraestrutura digital na-  
cional e internacional, como cabos terrestres  
e submarinos, torres de telecomunicações e  
estações rádio-base. Para obter acesso univer-  
sal e acessível, o Banco dará prioridade aos  
projetos que estendam a cobertura a áreas  
mal atendidas e aos que melhorem a conecti-  
vidade de última milha para atender às neces-  
sidades dos usuários finais (NDB, 2023, s.p.).  
Em termos estratégicos, há um claro po-  
tencial para que o NDB se torne um financia-  
dor viável de infraestrutura digital nos países  
do BRICS, conforme declarado em seu plano  
estratégico. Por outro lado, as tendências atuais  
do portfólio de investimentos do NDB mos-  
tram um cenário diferente, com este setor sendo  
o de menor foco em termos absolutos. O único  
projeto para infraestruturas digitais até 2024  
foi o “Cellular Network and Cloud Services  
Expansion Project” de 2020 para a Federação  
Russa, com uma aprovação de financiamento  
no valor de US$ 300 milhões. Ele representa  
apenas 0,99% de todo o valor das aprovações  
de projetos do banco em dezembro de 2022, fi-  
cando atrás de áreas como infraestrutura social  
(2,68%, US$ 810 milhões) e proteção ambien-  
3 DEMOCRATIZANDO AS TICs: NDB,  
BRICS PartNIR E O DESAFIO DA COO-  
PERAÇÃO  
Apesar de terem sido mencionados nas de-  
clarações da cúpula, na área de TICs, os BRICS  
carecem de iniciativas amplas para resolver suas  
necessidades de infraestrutura digital. Ao ras-  
trearmos essas iniciativas foi possível mapear al-  
guns mecanismos de cooperação que merecem  
ser mencionados e que marcam a divisão des-  
4 Também identificamos outras iniciativas na forma de grupos  
de trabalho que abordam algumas das questões levantadas  
neste documento, como o Grupo de Trabalho de Coopera-  
ção de TIC do BRICS e o Grupo de Trabalho de Economia  
Digital do Conselho Empresarial do BRICS. No entanto,  
não foi possível rastrear suas atividades e contribuições adi-  
cionais para a transformação digital nos países do BRICS  
(BPIC, 2022; BBC, 2016).  
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tal (2,25%, US$ 680 milhões) (NDB, 2023).  
Em uma visita à sede do NDB no ano pas-  
sado5, pudemos conversar com um executivo  
de alto nível do banco, perguntando qual era  
o papel das infraestruturas digitais e da trans-  
formação digital nas metas estratégicas e obje-  
tivos comuns de financiamento do banco, bem  
como o que justificava apenas um projeto nesse  
setor. A resposta foi mista, embora o Banco rea-  
firme seu compromisso com o papel estratégi-  
co que as infraestruturas digitais desempenham  
em sua visão, não há uma explicação clara para  
um investimento tão modesto nesse setor, já  
que há uma demanda clara por financiamento  
nessa área. Como o banco trabalha principal-  
mente em uma lógica orientada pela demanda,  
em que os projetos são apresentados para que o  
NDB aprove o financiamento, não houve mui-  
tos projetos enviados para apreciação do banco  
nessa área, conforme relatado. Algumas das hi-  
póteses levantadas pelo nosso interlocutor fo-  
ram o foco do banco em transporte e energia,  
o que pode ter levado ao insucesso de outros  
setores; a recência do foco do banco nessa área;  
a mudança de foco devido à pandemia; e a uti-  
lização de outros instrumentos financeiros para  
financiar infraestruturas digitais em vez do pró-  
prio NDB, dentre outros.  
vestidores públicos. Não obstante, entre todos  
os países do BRICS, atualmente, o NDB não  
pode ser considerado a iniciativa mais relevante  
para o fornecimento de infraestrutura de TICs,  
dado que outras iniciativas excedem o banco  
neste setor.  
Dentre elas, vale destacar a “Parceria BRI-  
CS sobre a Nova Revolução Industrial” (BRI-  
CS PartNIR), criada na 10ª cúpula, em 2018,  
pelo Presidente Xi Jinping. Conforme a tabela  
2 apresenta, sob a BRICS PartNIR, seis proje-  
tos de cooperação foram desenvolvidos. A ini-  
ciativa reflete a necessidade crescente do grupo  
de abordar questões de desenvolvimento digital  
e revolução industrial, que são cruciais para o  
desenvolvimento sustentável compartilhado de  
seus membros. Esta parceria já tem números  
expressivos, conforme evidencia a Tabela 4,  
no âmbito do BRICS PartNIR, onde mais de  
60 projetos já foram assinados, representando  
mais de US$ 5 bilhões na área (BPIC, 2025a).  
Para questões de infraestrutura digital,  
os Bancos Multilaterais de Desenvolvimento  
(BMDs) e os bancos de desenvolvimento re-  
presentam atores financeiros cruciais para esses  
investimentos, pois os projetos de TICs, assim  
como as infraestruturas físicas clássicas (portos,  
aeroportos, estradas, pontes, oleodutos e as-  
sim por diante) são projetos de risco de longo  
prazo, em comparação com outros setores fi-  
nanceiros, abrindo espaço, sobretudo, para in-  
5 Visita realizada na sede do NDB em Xangai, China, em 31  
de julho de 2024.  
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Tabela 2 – Mecanismos de Cooperação desenvolvidos no âmbito do BRICS PartNIR  
Fonte: BPIC, 2025a.  
Entre essas seis iniciativas, vale destacar o  
trabalho do BRICS PartNIR Innovation Center  
(BPIC), também conhecido como Centro de  
Inovação de Xiamen, anunciado pelo Presi-  
dente Xi em novembro de 2020 e inaugurado  
oficialmente em 2021. O centro promove a  
cooperação nas áreas de digitalização, indus-  
trialização, inovação, inclusão e investimento,  
treinando profissionais e desenvolvendo proje-  
tos com governos e empresas (BPIC, 2025a).  
Um dos desenvolvimentos recentes foi a recep-  
ção de uma delegação brasileira com represen-  
tantes do governo e de associações industriais,  
liderada pelo Presidente da Associação Brasilei-  
ra de Mineração (IBRAM) (BPIC, 2024). No  
âmbito dessas visitas, foram firmados acordos e  
projetos de cooperação, como mostra a tabela  
3, que revela que, até 2025, quatro projetos já  
haviam sido realizados no âmbito do BPIC nas  
áreas de Manufatura Inteligente e Investimen-  
to e Comércio, com cooperação com todos os  
países do BRICS.  
124 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.117 - 127, fev. 2025  
Tabela 3 – Projetos Desenvolvidos sob o BPIC6  
Fonte: BPIC, 2025b.  
6 As siglas das formas de cooperação significam Original Design Manufacturer (ODM) e Original Equipment Manufacturer  
(OEM), que são dois modelos de negócios importantes na fabricação e no comércio globais. Um ODM projeta e fabrica produtos  
que são vendidos sob a marca de outra empresa, permitindo que o comprador comercialize um produto sem investir em projeto  
e desenvolvimento. Por outro lado, um OEM produz bens com base nas especificações ou nos componentes de um comprador,  
geralmente para integração em um produto final com a marca do comprador. Ambos os modelos permitem que as empresas  
aproveitem a experiência em fabricação externa e, ao mesmo tempo, concentrem-se na marca, no marketing e na distribuição.  
125 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.117 - 127, fev. 2025  
Tabela 4 – Projetos de cooperação acordados em fóruns do BPIC e BRICS PartNIR7  
Fonte: BPIC, 2025a.  
Essas iniciativas demonstram a crescen-  
te importância dada pelo BRICS à agenda de  
transformação digital, que pode ser observada  
quando analisamos a declaração de Kazan do  
ano passado da Cúpula do BRICS de 2024.  
Nessa declaração, podemos reconhecer mui-  
tos desenvolvimentos em diferentes campos  
que envolvem as questões de economia digi-  
tal, TICs e transformação digital. A declaração  
aborda temas como a superação de divisões  
digitais, liberdade de expressão, radicalização,  
alfabetização digital e midiática e economia di-  
gital (Brasil, 2024).  
sinados no valor de cerca de US$ 5 bilhões em  
cooperação e investimento no setor.  
4 CONCLUSÃO  
O papel crescente das TICs entre os países  
BRICS desde a pandemia é evidente tanto no  
discurso do grupo quanto em iniciativas como  
o BRICS PartNIR e o próprio plano estratégi-  
co do NDB, que sintetizam a importância das  
infraestruturas digitais e dos investimentos na  
economia digital para o futuro do desenvolvi-  
mento dos BRICS. A expansão do agrupamen-  
to representa uma oportunidade para maior in-  
terconexão no âmbito das TICs do Sul Global,  
possibilitando uma maior complexificação das  
suas economias.  
Em termos de iniciativas multilaterais  
claras realizadas no âmbito do BRICS, con-  
cordamos que o BRICS PartNIR é a iniciativa  
de transformação digital e de TICs mais im-  
portante do grupo até o momento, devido ao  
seu status de institucionalização, as iniciativas  
abrangentes criadas, bem como aos projetos as-  
Neste sentido, no âmbito das infraestrutu-  
ras digitais e TICs em países BRICS, pesquisas  
que se esforcem a analisar em maior profundi-  
7 Esses foram os projetos que conseguimos rastrear no site do BPIC; no entanto, o número real de projetos assinados no âmbito  
da iniciativa PartNIR é desconhecido. Além disso, muitas outras formas de cooperação que não foram incluídas e analisadas em  
nossa avaliação podem ser rastreadas na iniciativa, desde seminários, cursos de treinamento evisitas técnicas de delegações até  
Memorandos de Entendimento (MoUs), workshops e centros de desenvolvimento específicos.  
126 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.117 - 127, fev. 2025  
dade iniciativas como os mecanismos de coo-  
peração desenvolvidos pelo BRICS PartNIR  
e seus respectivos projetos podem fornecer  
importantes insights sobre a materialidade da  
cooperação intraBRICS neste setor. A metodo-  
logia proposta por Ignatov (2020), por sua vez,  
a partir do qual baseamos nossa seção de exclu-  
são e infraestrutura digital, pode ser expandida  
para termos um maior foco analítico e especifi-  
cidade das métricas por ele utilizadas em todos  
os países do BRICS, tanto em seus membros  
plenos quanto parceiros.  
que os pontos um a quatro da agenda de Banga  
e Singh (2019), relativos às infraestruturas, não  
podem ser enfatizados o suficiente, uma vez  
que dizem respeito ao elemento que, embora  
seja precisamente aquilo que há de mais básico  
dentre os componentes da economia digital,  
ainda assim, é comumente subdesenvolvido  
dentre os países BRICS e as economias do Sul  
Global.  
AGRADECIMENTO  
Pensando em uma agenda de pesquisa  
para o futuro desta temática, Banga e Singh  
(2019, p. 39-40) fornecem um quadro de dez  
pontos para a cooperação digital, conforme  
apresentado no Quadro 1:  
Este estudo foi financiado pela FAPERJ -  
Fundação Carlos Chagas Filho para o Apoio à  
Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, Processo  
SEI E-26/201.645/2025 e pela Coordenação  
de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Su-  
perior – Brasil (CAPES) – Código Financeiro  
001.  
Quadro 1 – Dez pontos para a cooperação  
digital  
Item Descrição  
Fornecimento de infraestruturas de banda  
larga  
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Facilitar a criação de infraestruturas digitais  
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Definição de normas, políticas, leis, regula-  
mentação e padrões digitais a nível mundial  
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BPIC. “News on Sci-Tech Cooperation.” BRICS PartNIR In-  
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novation Center. 2025b. Available at: https://www.bricspic.org/  
Cooperation/En/. Accessed in: mar 27. 2025.  
Está para além da nossa capacidade, no  
âmbito desta pesquisa, dissecar cada um dos  
pontos referidos pelos autores, tal como aconte-  
ce com as categorias de exclusão digital de Van  
Dijk e Hacker (2003). Contudo, ressaltamos  
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de outubro de 2024 – Declaração Final. Available at: https://  
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128 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte,  
ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.128 - 143, fev. 2025  
128 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.128 - 143, fev. 2025  
Artigo  
Notas sobre a trajetória dos BRICS: da  
agenda reformista para ator multipolar,  
a partir de um encontro científico1  
Notes on the BRICS’ Trajectory: From a Reformist Agenda to a Multipolar Actor, Based  
on an Academic Meeting  
Notas sobre la Trayectoria de los BRICS: De una Agenda Reformista a un Actor Multi-  
polar, Basado en un Encuentro Académico  
Giorgio Michalopoulos2  
Andrea Califano3  
Enviado em: 15 de novembro de 2024.  
Aceito em: 09 de abril de 2026.  
RESUMO  
Este artigo, baseado em um debate acadêmico sobre os BRICS na Universidade Federal  
da Bahia, analisa a trajetória dos BRICS, que sai de uma agenda reformista no sistema  
econômico global para uma força geopolítica na ordem multipolar. Inicialmente oposto à  
hegemonia dos EUA, o grupo adotou uma visão pragmática da globalização, reforçando a  
solidariedade Sul-Sul e estabelecendo-se como um contrapeso às potências tradicionais.  
Palavras-chave: Globalização; Multipolarismo; BRICS  
ABSTRACT  
is article, based on an academic debate about the BRICS held at the Federal University  
of Bahia, analyzes the BRICS trajectory, from a reformist agenda in the global economic  
system to a geopolitical force in the multipolar order. Initially opposing US hegemony,  
the group adopted a pragmatic approach to globalization, strengthening South-South  
solidarity and positioning itself as a counterbalance to traditional powers.  
Keywords: Globalization; Multipolarity; BRICS  
RESUMEN  
Este artículo, basado en un debate académico sobre los BRICS realizado en la  
Universidade Federal de Bahía, analiza la trayectoria de los BRICS, desde una agenda  
reformista en el sistema económico global hasta convertirse en una fuerza geopolítica en  
el orden multipolar. Inicialmente opuesto a la hegemonía de EE. UU., el grupo adoptó  
un enfoque pragmático hacia la globalización, fortaleciendo la solidaridad Sur-Sur y  
equilibrando a las potencias tradicionales.  
Palabras clave: Globalización; Multipolaridad; BRICS  
1 Another BRICS in the Wall: Novos muros de protecionismo ou uma força para um mundo multipolar?, realizado na Universidade  
Federal da Bahia em 23 de abril de 2024 e organizado pelos autores.  
2 Mestre em Economia Política pela Università degli Studi di Roma “La Sapienza” e doutorando em Economia pelo Centro de Desenvol-  
vimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Bolsista da Fundação de Amparo à  
Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG). (gmichalopoulos@cedeplar.ufmg.br) ORCID: https://orcid.org/0009-0007-3441-5553.  
3 Doutor em Economia e Ciências Sociais outorgado pelo IUSS Pavia conjuntamente à Scuola Superiore Sant’Anna Pisa. Professor  
visitante do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal da Bahia (PPGRI-UFBA). (andrea.  
clfn@ufba.br). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8942-7358.  
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Se Oliver Stuenkel comenta: “As atuais  
divisões sobre o Irã são simplesmente o mais  
recente lembrete do que o BRICS realmente  
é: uma coalizão frouxa e muitas vezes bagun-  
çada de países que cooperam onde seus inte-  
resses se sobrepõem e discordam onde não se  
sobrepõem”6, achamos que vale a pena percor-  
rer a trajetória do grupo, mostrando como os  
complexos desafios econômicos e financeiros  
levaram a um afastamento do ímpeto de con-  
testação e profunda reforma da ordem interna-  
cional, num contexto em que as disputas geo-  
políticas globais pressionam crescentemente os  
países a se posicionarem entre blocos antagô-  
nicos.  
1 INTRODUÇÃO  
De acordo com o presidente dos Estados  
Unidos, “BRICS is dead”: os BRICS estão  
mortos, e isso desde fevereiro de 20254. Se na  
época a declaração, proferida poucos minutos  
antes de um encontro com o Primeiro-Minis-  
tro indiano Narendra Modi a jornalistas reuni-  
dos na Casa Branca, podia ser ignorada como  
mais uma das tiradas hiperbólicas e contradi-  
tórias de Donald Trump, talvez motivada pelo  
ressentimento pela adesão de aliados históricos  
dos Estados Unidos (Emirados Árabes Unidos  
e Arábia Saudita), agora, um ano depois, pa-  
rece mais uma provocação ao debate e à análi-  
se científica. Em 28 de fevereiro de 2026, tem  
início a campanha de bombardeios ao Irã por  
parte de Estados Unidos e Israel. A ausência de  
reação coordenada dos demais países do BRI-  
CS foi absoluta, nem mesmo um documento  
conjunto foi produzido. A Índia, na prática,  
apoiou o ataque – e o primeiro-ministro Modi  
havia levado a Israel, e pessoalmente ao pri-  
meiro-ministro Netanyahu, com tons e formas  
muito calorosos, toda a sua proximidade com o  
Estado de Israel apenas 48 horas antes do lan-  
çamento das bombas que decapitaram as lide-  
ranças políticas iranianas. A reação do Irã atin-  
giu, entre outros países, os dois novos membros  
do BRICS mencionados acima5, os quais estão,  
de fato, participando do ataque de um membro  
da aliança.  
Quinze anos após sua fundação, observa-  
mos como os BRICS passaram de um grupo  
contestatório ao capitalismo neoliberal lidera-  
do pelos EUA, com proposta de instituições  
alternativas, para um grupo pragmático que  
tenta utilizar as regras da globalização em seu  
favor, mantendo-se algum grau de coesão ape-  
nas na disputa geopolítica global em favor de  
uma ordem multilateral (Garcia, 2017). Nes-  
se processo, as pautas de reforma das grandes  
instituições financeiras globais foram gradual-  
mente cedendo espaço a uma agenda mais am-  
pla de reforma da governança global, alinhada  
ao novo contexto geopolítico. O que parece ser  
a agenda mais sólida do grupo hoje é a inten-  
ção multipolar, presente já desde suas origens,  
como sintetizado por uma frase proferida por  
Patrus Ananias, Ministro do Desenvolvimento  
Social e Combate à Fome no primeiro governo  
de Lula, em entrevista concedida a um dos au-  
tores. Referindo-se aos BRICS, ele afirmou que  
4 HINDUSTAN TIMES. ‘BRICS estão mortos’: o novo avi-  
so de Trump à Rússia, Índia, China, África do Sul e Brasil.  
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zKUn-  
C9eZinc. Acesso em: mar. 2026.  
5 A pertença da Arábia Saudita ao grupo é, na verdade, envolta  
em incerteza, considerando que os documentos oficiais do  
último encontro no Brasil a citam entre os membros, mas  
são os próprios sauditas que negam esse status. Podemos ver  
essa ambiguidade um tanto surreal como mais um sintoma  
da natureza frágil da aliança. Sobre isso, ver: https://brics-  
policycenter.org/wp-content/uploads/2025/06/A_Arabia_  
Saudita_e_o_BRICS_Policy-Brief_V.15_N.4.pdf  
6 STUENKEL, Oliver. Iran War: NATO and the G-7 Are Just  
as Divided as BRICS. Foreign Policy, 18 mar. 2026. Dispo-  
nível em: https://foreignpolicy.com/2026/03/18/iran-war-  
-brics-nato-g7-economics-security/. Acesso em: mar. 2026.  
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o grupo “contribui para quebrar a hegemonia  
dos Estados Unidos, especialmente, mas tam-  
bém em sintonia com o que há de mais conser-  
vador na Europa.”7  
2 A TRAJETÓRIA DOS BRICS:  
DE GRUPO REFORMISTA PARA  
POTÊNCIA GEOPOLÍTICA  
Os BRICS inicialmente se apresentaram  
como um grupo de crítica global, demandando  
um lugar na ‘‘mesa internacional’’. As nações  
BRICS desde o primeiro momento engajaram-  
-se em uma ‘‘cooperação antagonista’’ (Garcia;  
Bond, 2015). O impulso central contra a força  
unipolar dos Estados Unidos e suas instituições  
internacionais levou os BRICS a representar  
uma nova força multipolar nas relações inter-  
nacionais, que vai além dos interesses econô-  
micos individuais de cada país. É por isso que,  
ao longo do tempo, o bloco assume cada vez  
mais uma configuração de força de contrapeso  
nas relações internacionais (Kakonen, 2014),  
distanciando-se da ideia original de um grupo  
reformista.  
Nas seções seguintes, analisamos a traje-  
tória do grupo, os diferentes olhares metodo-  
lógicos para interpretar sua virada geopolítica,  
o debate em torno da desdolarização e de uma  
eventual moeda BRICS, questão central para  
compreender os limites da autonomia finan-  
ceira do grupo; e os principais mecanismos fi-  
nanceiros criados pelo agrupamento: o Arranjo  
Contingente de Reservas e o Novo Banco de  
Desenvolvimento.  
Este artigo baseia-se no evento “Another  
BRICS in the Wall,” realizado na Universidade  
Federal da Bahia. Organizado pelos autores em  
colaboração com o Programa de Pós-Gradua-  
ção em Relações Internacionais da UFBA, o  
evento contou com a participação de Ana Elisa  
Saggioro Garcia (UFFRJ), Aline Regina Alves  
Martins (UFG), Jonnas Esmeraldo Marques  
de Vasconcelos (UFBA) e James K. Galbraith  
(University of Texas). O debate se articulou em  
torno de duas questões centrais que percorrem  
também este artigo: os BRICS representam  
uma força efetiva para uma ordem multipolar  
mais equitativa ou constituem apenas mais um  
bloco geopolítico guiado por interesses nacio-  
nais? E são capazes de atuar com coesão diante  
das profundas assimetrias entre seus membros?  
Como nota Robinson (2015), foi a ins-  
tituição financeira mais predatória do planeta8  
(Goldman Sachs) que cunhou o termo BRIC,  
e o fez para sugerir que investidores transnacio-  
nais encontrariam novas oportunidades nesses  
países — o que já deveria nos dizer algo sobre  
a relação entre os BRICS e o Capital Transna-  
cional e suas intenções de reformar as institui-  
ções financeiras (Robinson, 2015). Analisando  
as declarações conjuntas dos encontros dos  
BRICS de 2009 a 2023, torna-se claro como a  
questão da reforma das instituições globais de  
governança e economia se torna cada vez mais  
secundária, dando prioridade à cooperação en-  
tre as instituições dos BRICS e as instituições  
existentes (Tabela 1).  
7 MICHALOPOULOS, Giorgio. Povertà, Patrus Ananias, ex  
ministro del governo Lula: bugie e pregiudizi sugli ultimi, un  
errore abolire il reddito. Il Fatto Quotidiano, 25 set. 2023.  
Disponível em: https://www.ilfattoquotidiano.it/in-edicola/  
articoli/2023/09/25/poverta-patrus-ananias-ex-ministro-  
-del-governo-lula-bugie-e-pregiudizi-sugli-ultimi-un-erro-  
re-abolire-il-reddito/7302762/. Acesso em: nov. 2025.  
8 Robinson (2015): “at it was perhaps the most predatory  
financial institution on the planet that coined the term BRIC,  
and did so in order to suggest that transnational investors would  
find new opportunities in these countries (…)”.  
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Tabela 1: evolução das pautas dos BRICS.  
Fonte: Elaboração dos autores a partir das Declarações Conjuntas dos encontros anuais dos BRICS mais recentes.  
As declarações conjuntas de 2009, em que  
os membros fundadores reforçavam o papel  
central do G20 no enfrentamento da crise fi-  
nanceira e se comprometiam a promover refor-  
mas nas instituições financeiras internacionais,  
agora pertencem a um passado distante. Em  
pouco tempo, o tom do BRICS sofreu trans-  
formações significativas. Ignorado no âmbito  
do FMI e de outras instituições internacionais,  
o bloco passou a promover suas próprias ini-  
ciativas, culminando na Cúpula de Fortaleza  
de 2014 com um posicionamento considera-  
velmente menos entusiasta em comparação  
ao primeiro encontro. A ênfase deslocou-se,  
então, para o fortalecimento da coordenação  
intra-BRICS em contextos internacionais e  
para a defesa das reformas propostas. Os re-  
presentantes do grupo declararam-se “decep-  
cionados” com a ausência de implementação  
das reformas do FMI. Este comunicado con-  
junto marcou o primeiro momento em que a  
ambição reformista do agrupamento deixou de  
ser um foco central. Diante da falta de respos-  
ta das instituições financeiras internacionais  
às propostas de reforma, os países do BRICS  
passaram a desenvolver instrumentos próprios  
de cooperação financeira, deslocando progres-  
sivamente o eixo de atuação dos mecanismos  
globais para a cooperação Sul-Sul. É nesse con-  
texto que, em 2014, foi oficialmente fundado  
o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD),  
uma instituição multilateral criada pelos países  
do BRICS com o objetivo de financiar projetos  
de infraestrutura e desenvolvimento sustentá-  
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vel nos países do Sul Global9, constituindo-se  
como uma alternativa às instituições financei-  
ras internacionais dominadas pelas potências  
ocidentais tradicionais.  
Nesta seção, utilizaremos os dois primeiros  
olhares para evidenciar como os interesses do-  
minantes no plano nacional tendem a preva-  
lecer nas relações entre os países membros dos  
BRICS e seus parceiros, revelando as comple-  
xas disputas internas que dificultam a constru-  
ção de uma cooperação econômico-financeira  
e empurram o agrupamento progressivamente  
Ao longo dos anos depois da Cúpula de  
Fortaleza, a agenda dos BRICS começa a ga-  
nhar autonomia por meio das instituições cria-  
das no âmbito do agrupamento, e o foco das  
declarações conjuntas passa a enfatizar cada vez  
mais a interação e a cooperação entre as insti-  
tuições dos BRICS e as internacionais. Mesmo  
o G20, inicialmente descrito nos comunicados  
como “central” na governança global, começa  
a perder relevância. Tanto é que, na Cúpula de  
Nova Délhi de 2021, em plena crise pandêmi-  
ca, no “Joint Statement” o termo G20 não foi  
mencionado uma única vez. Mostrando assim  
como os BRICS começam a estabelecer não  
apenas uma autonomia, mas também uma  
identidade geopolítica própria.  
para uma  
configuração de força geopolítica  
multipolar.  
A análise a partir do “olhar de cima” im-  
plica considerar os Estados-nação e suas respec-  
tivas corporações na disputa pelo poder. Nes-  
sa abordagem, os países membros dos BRICS  
buscam acumular capacidades econômicas,  
políticas e militares em relação às potências  
tradicionais (Garcia, 2024). Por exemplo, a Ín-  
dia, sob a liderança de Narendra Modi, tem se  
aproximado tanto da Rússia quanto dos Esta-  
dos Unidos, ao mesmo tempo em que man-  
tém tensões com a China. No Brasil, durante  
o governo de Jair Bolsonaro, houve uma apro-  
ximação com os Estados Unidos e um distan-  
ciamento em relação à China, evidenciando  
fissuras no bloco. No entanto, as relações co-  
merciais nunca foram questionadas, tanto que,  
em 2022, as trocas bilaterais entre o Brasil e  
a China atingiram um recorde histórico, su-  
perando os Estados Unidos (Gráfico 2). No  
entanto, o ano de 2023 marcou uma virada  
geopolítica significativa com a introdução do  
BRICS Plus, convidando seis novos membros  
a se juntarem ao grupo. A entrada de grandes  
produtores de petróleo tem o potencial de for-  
talecer o poder econômico do BRICS como  
conjunto. Nesse momento, o BRICS parece se  
tornar um polo de atração para países que não  
se identificam com os valores liberais ocidentais  
ou que enfrentam sanções e restrições do Oci-  
dente, como o Irã. A partir da perspectiva de  
2.1 Como os diferentes “olhares”  
sobre os BRICS evidenciam a virada  
geopolítica do grupo  
As relações entre os países membros dos  
BRICS são marcadas por assimetrias e disputas  
que tornam difícil a construção de uma coope-  
ração econômico-financeira.  
A metodologia dos três olhares proposta  
por Garcia (2024), ‘de cima’, ‘para os lados’ e  
‘bottom-up’, oferece chaves de interpretação  
sobre o passado e o futuro do agrupamento.  
9 O conceito de ‘Sul Global’ é utilizado aqui em consonância  
com a própria definição adotada pelo Novo Banco de De-  
senvolvimento (NBD), que em seu estatuto constitutivo se  
apresenta como um banco cujos membros fundadores são  
países do Sul Global, entendidos como economias emergen-  
tes e em desenvolvimento que buscam maior representativi-  
dade nas instituições financeiras internacionais. Ver Agree-  
ment on the New Development Bank — Fortaleza’, julho  
2015. Disponível em: https://www.ndb.int/wp-content/  
uploads/2022/11/Agreement-on-the-New-Development-  
-Bank.pdf. Acesso em: nov. 2024.  
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“olhar de cima”, conclui-se que os BRICS estão  
se afastando de uma agenda reformista para se  
consolidarem como uma aliança geopolítica,  
guiados por conveniências em direção ao agru-  
pamento dos Estados-nação (Garcia, 2024).  
A análise “para os lados” aborda as relações  
com a China, exportando principalmente ma-  
térias-primas como petróleo, carvão e minério,  
além de produtos agrícolas, como a soja no  
caso do Brasil. Em contrapartida, a Índia regis-  
tra um déficit comercial com a China, embora  
sua pauta de exportação seja um pouco mais  
diversificada. Focando na relação bilateral Chi-  
na-Brasil, é possível observar que a China supe-  
rou os Estados Unidos como principal parceiro  
comercial do Brasil ao longo dos 15 anos dos  
BRICS.  
intra-BRICS que se articulam em relações co-  
merciais, alianças, instituições comuns e ações  
conjuntas. Ao analisar as relações comerciais,  
é notável que a África do Sul, o Brasil e a Rús-  
sia apresentam uma balança comercial positiva  
Gráfico 1: Efeito BRICS: Comércio Bilateral Brasil-China (2009-2022),  
Fonte: elaboração dos autores a partir de estatísticas da OMC, 2023 (data.wto.org, acesso em: nov. 2024)  
Como dito, trata-se de uma troca desi-  
gual, em que o Brasil exporta de forma quase  
exclusiva matérias-primas e produtos agrícolas  
(Gráfico 2). De fato, embora os BRICS profes-  
sem uma suposta solidariedade econômica, as  
relações comerciais refletem uma dependência  
histórica do Brasil das exportações de maté-  
rias-primas e produtos agrícolas e da importa-  
ção de produtos tecnologicamente avançados  
da China. Isso pode constituir evidência de  
como o interesse chinês prevalece sobre uma  
lógica de solidariedade econômica que poderia  
e deveria incentivar também a transferência de  
tecnologia.  
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Gráfico 2: Decomposição das Exportações do Brasil para a China de 2021 a 2023,  
Fonte: elaboração dos autores a partir de dados da UN COMTRADE. Database. Disponível em: https://comtradeplus.un.org.  
Acesso em: nov. 2024.  
Assim, as relações intra-BRICS acabam  
por reproduzir e reforçar uma tradicional divi-  
são internacional do trabalho. Essa divisão co-  
loca os países exportadores de matérias-primas  
em uma posição economicamente subalterna  
em relação à China, que, por sua vez, exporta  
produtos de maior valor agregado, destacando-  
-se como principal centro de poder econômico  
dentro do BRICS.  
3. PERSPECTIVA DE UM  
SISTEMA MONETÁRIO  
INTERNACIONAL  
DESDOLARIZADO E O  
POTENCIAL DO BRICS  
3.1 O pluralismo político na questão  
financeira e monetária ao estourar a  
crise de 2008  
A ausência de coordenação entre os países  
membros em instituições multilaterais, como  
na Organização Mundial do Comércio (OMC)  
destaca a conveniência dos BRICS em apresen-  
tar-se como uma força alternativa no sistema  
multipolar. As assimetrias econômicas entre  
os membros, evidenciadas, entre outras coisas,  
pelas relações comerciais analisadas, tornam a  
coordenação econômica Sul-Sul um objetivo de  
difícil concretização no curto prazo, reforçando  
a primazia da agenda geopolítica sobre a agenda  
de reforma econômico-financeira do grupo.  
O sistema financeiro dos Estados Unidos  
concentra praticamente todas as transações fi-  
nanceiras globais (Martins, 2015), mesmo quan-  
do o país não está diretamente envolvido como  
parte ativa. No sistema de Bretton Woods, es-  
tabelecido em 1944, e com a criação do FMI e  
do Banco Mundial em 1947, o dólar já ocupava  
uma posição central na economia global, ao lado  
do ouro, formando o chamado padrão dólar-  
-ouro. No entanto, em 1971, com o anúncio de  
Nixon sobre o fechamento do mercado de ouro  
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e o fim da conversibilidade do dólar em ouro,  
iniciou-se a transição para o fim desse sistema.  
A partir de então, o ouro perdeu seu papel cen-  
tral, e o dólar consolidou-se como a principal  
moeda internacional, marcando o início do que  
se convencionou chamar de padrão dólar-dólar  
(Martins, 2015). Ao adentrar na era que Eichen-  
green denomina como o “não-sistema” de Bret-  
ton Woods (Eichengreen, 2002), observa-se uma  
evolução do sistema financeiro global caracteriza-  
da por “remendos marginais” e uma progressiva  
desregulamentação (Amato, Fantacci, 2009).  
Neste contexto, a crise de 2008 emerge  
Ao mesmo tempo, a China começou a im-  
plementar políticas mais assertivas para a inter-  
nacionalização de sua moeda, o que permite um  
maior uso do renminbi (RMB) nas transações  
internacionais. Embora algumas dessas iniciati-  
vas já existissem anteriormente, foi após a crise  
de 2008 que tais ações se tornaram significati-  
vamente mais incisivas. Nos anos seguintes, a  
China criou o Sistema de Pagamentos Inter-  
bancário Transcontinental (CIPS), que viabiliza  
a realização de pagamentos internacionais em  
RMB. Também o Novo Banco de Desenvolvi-  
mento (NBD) se insere nesse contexto de cres-  
cente crítica à centralidade do dólar nas relações  
internacionais após a crise de 2008. Embora a  
reforma do FMI tenha aumentado marginal-  
mente o poder de voto do Brasil e da China de  
2% para 3%, essa mudança não afetou a posi-  
ção dominante dos Estados Unidos. No FMI,  
o peso de voto de cada país é calculado com  
base em uma fórmula específica, na qual 50%  
desse peso é determinado pelo PIB. Contudo,  
o dólar continua a ser a moeda predominante  
nas transações internacionais e o crescimento  
de moedas alternativas, como a chamada moeda  
BRICS, no comércio e nas transações interna-  
cionais, ainda se revela um desafio considerável.  
como um marco significativo, não apenas pela  
sua magnitude, mas também por intensificar de  
maneira mais evidente as críticas ao papel central  
do dólar na economia global. Embora críticas ao  
sistema monetário já existissem anteriormente,  
também antes da criação do sistema de Bretton  
Woods e em outras conjunturas, a crise de 2008  
representa um ponto crucial para o ressurgimen-  
to e a intensificação desse debate nas relações  
internacionais. A crise teve origem nos Estados  
Unidos e, em virtude da centralidade da arqui-  
tetura monetária e financeira americana, rapi-  
damente se transformou em uma crise de escala  
global. Este contexto desencadeou um debate  
político acerca do papel central de uma moeda  
sob o controle de um único Estado e a possibi-  
lidade de uma reforma do sistema monetário e  
financeiro internacional. É nesse contexto que os  
países do então BRIC buscavam imprimir uma  
dimensão reformista à sua missão, com o objeti-  
vo de desafiar a hegemonia do sistema monetário  
internacional dominado pelo dólar. A ênfase nes-  
se aspecto é evidente na primeira declaração con-  
junta de Ecaterimburgo: “Estamos comprome-  
tidos em avançar com a reforma das instituições  
financeiras internacionais, de forma a refletir as  
mudanças na economia global” (Bric, 2009, p. 1)  
3.2 As sanções à Rússia e a  
chamada à desdolarização.  
Desde 1950, os Estados Unidos têm sido os  
principais emissores de sanções ao redor do mun-  
do10. Atualmente, um terço11 das sanções ativas  
globalmente é de origem americana. A eficácia  
10 Veja também: Trading with the Enemy Act - TWEA  
(1917); USA Patriot Act (2001)  
11 Os EUA têm sanções sobre um terço de todos os países,  
60% das nações pobres. Matéria do Washington Post:  
https://www.washingtonpost.com/business/interacti-  
ve/2024/us-sanction-countries-work/. cesso em: nov. 2024  
136 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.128 - 143, fev. 2025  
com que os EUA aplicam essas sanções é susten-  
tada por sua influência econômica global e pela  
centralidade do dólar no sistema financeiro inter-  
nacional. Essa dinâmica permite que os Estados  
Unidos exerçam uma pressão significativa sobre  
outros países e entidades que desrespeitam suas  
políticas ou interesses estratégicos (Martins, Coe-  
lho, 2023; Califano, Vieira, 2025). Em 2022,  
as sanções contra a Rússia se intensificaram em  
decorrência da guerra na Ucrânia, resultando no  
congelamento de 50% das reservas russas. Como  
observa Galbraith: “Esses saldos, congelados ou  
não, são apenas saldos. São reservas. Sua perda  
se refletiria nos balanços, mas não na atividade  
corrente. Enquanto a Rússia mantiver um supe-  
rávit comercial, as reservas permanecem inativas;  
seu status não tem efeito na atividade econômica  
geral na Rússia, nem na capacidade financeira do  
Estado russo” (Galbraith, 2023, p.2). E é por isso  
que ganham mais força as sanções que penalizam  
o comércio da Rússia e suas transações em dóla-  
res com países terceiros.  
lações com a Rússia. Em maio de 2023, Lula  
declarou que “o sonho dos BRICS é ter uma  
moeda, assim como a União Europeia fez”13. Ele  
expressou frustração com o fato que “apenas um  
país tem controle sobre a impressão de dólares  
e faz o que quiser”. Essa declaração intensificou  
o debate internacional sobre a desdolarização,  
especialmente com a China desempenhando  
um papel crucial nesse movimento por meio de  
acordos bilaterais e outros instrumentos finan-  
ceiros e monetários. Em 23 de outubro de 2024,  
durante a 16ª Cúpula do BRICS, realizada em  
Kazan, na Rússia, Lula retomou enfaticamente  
a questão da criação de uma moeda BRICS.  
3.3 Uma moeda para os BRICS?  
O BRICS está, de fato, explorando a  
possibilidade de uma moeda única para tran-  
sações entre bancos centrais, um movimento  
que pode trazer diversas implicações. Um dos  
principais benefícios dessa iniciativa seria a  
redução da dependência do dólar americano,  
permitindo que os países membros realizem  
transações diretas em suas moedas locais. Isso  
poderia facilitar investimentos e empréstimos  
sem a necessidade da intermediação do dólar,  
potencialmente diminuindo custos de transa-  
ção e aumentando a eficiência. Entretanto, essa  
proposta enfrenta desafios significativos. Um  
deles é a resistência de instituições financeiras  
já consolidadas que operam majoritariamente  
em dólar. Como mostra o Gráfico 1, a ascensão  
da moeda chinesa no cenário internacional é  
significativa, mas ainda minoritária em relação  
à magnitude do uso do dólar.  
Mais recentemente, em dezembro de  
2025, a União Europeia avançou uma propos-  
ta para utilizar os ativos soberanos russos con-  
gelados no mercado europeu para financiar a  
reconstrução da Ucrânia, com 90 bilhões de  
euros12. Desta forma, as sanções evidenciam  
que a moeda pode ser utilizada como um ins-  
trumento de política e coerção.  
Nesse cenário de sanções rigorosas contra  
a Rússia e as consequências que se espalham  
para outros países, a perspectiva de uma maior  
desdolarização da economia começou a ganhar  
destaque especialmente e com ainda maior for-  
ça entre os países que continuam a manter re-  
13 CNN BRASIL. Lula diz sonhar com moeda comum para o  
BRICS e volta criticar dependência do dólar. Disponível em:  
https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/  
lula-diz-sonhar-com-moeda-comum-para-o-brics-e-volta-  
-criticar-dependencia-do-dolar/. Acesso em: out. 2024  
12 CNN BRASIL, 19 dez. 2025. Disponível em: https://  
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137 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.128 - 143, fev. 2025  
Gráfico 1: Composição da Moeda das Reservas Oficiais de Câmbio Estrangeiro (COEFR) nos  
últimos 15 anos  
Fonte: Elaboração dos autores com dados do Fundo Monetário Internacional.  
Ainda não estão claras as modalidades  
operacionais para a tão proclamada moeda dos  
BRICS. Contudo, a ascensão de novas moedas  
pode sinalizar uma reconfiguração do poder  
global, mas a transição para um sistema mais  
multipolar deve ser tratada com cautela, con-  
siderando os riscos associados à instabilida-  
de econômica e à falta de confiança entre os  
países. Os BRICS parecem estar sinalizando a  
emergência de um sistema multi-monetário.  
Embora o dólar continue a ser a moeda predo-  
minante, ele poderá compartilhar esse espaço  
com diversas moedas regionais. Mas o cami-  
nho ainda é longo e todas as questões técnicas  
exigem reflexão e planejamento que ainda não  
começaram (Nogueira Batista Jr., 2023).  
4 OS MECANISMOS  
FINANCEIROS DOS BRICS: O  
ARRANJO CONTINGENTE DE  
RESERVAS E O NOVO BANCO  
DE DESENVOLVIMENTO  
Os BRICS estabeleceram um fundo vir-  
tual com um montante total de 100 bilhões de  
dólares, o Arranjo de Contingente de Reservas  
(CRA). Os países membros se comprometem a  
alocar uma parte de suas reservas internacionais  
para auxiliar qualquer um dos membros que  
enfrente uma crise no balanço de pagamen-  
tos ou uma crise de liquidez em suas contas  
externas. Como mostram os dados do Banco  
Central do Brasil14, a África do Sul se compro-  
meteu com 5 bilhões de dólares, o Brasil com  
18 bilhões, a China com 41 bilhões, e tanto  
a Índia quanto a Rússia com 18 bilhões, cada  
um podendo retirar um montante equivalente  
14 https://www.bcb.gov.br/acessoinformacao/brics  
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às reservas alocadas no fundo, exceto a África  
do Sul, que possui a possibilidade de sacar até  
o dobro do valor inicialmente depositado. O  
fundo é considerado virtual, uma vez que os  
recursos não estão imediatamente disponíveis,  
permanecendo sob o controle das autoridades  
dos respectivos países. Quando um país ne-  
cessita desse suporte, pode acionar o fundo. A  
lógica subjacente a esse arranjo visa aumentar  
a disponibilidade de recursos para os países  
membros.  
caso da Grécia, onde a “Troika” (composta pelo  
BCE, FMI e Comissão Europeia) impôs severas  
reformas após a crise da dívida soberana, com  
consequências econômicas graves até hoje15. A  
vinculação ao FMI se basearia em razões tanto  
técnicas quanto políticas. O argumento técni-  
co aponta que os países do BRICS carecem da  
capacidade necessária para monitorar o desem-  
penho macroeconômico dos países que tomam  
empréstimos, assegurando que estes honrem  
eventualmente o compromisso de devolução  
dos recursos emprestados. Essa dificuldade téc-  
nica decorre da ausência de um centro de in-  
teligência e supervisão macroeconômica com-  
partilhada entre os países do BRICS, o que é  
essencial para a gestão adequada dos recursos  
pelo país mutuário. O segundo argumento é de  
natureza política. Considerando que o BRICS  
funciona como um mecanismo de cooperação  
geopolítica, a disciplina de um país que recebeu  
recursos pode acarretar implicações geopolíti-  
cas significativas. Assim, a delegação ao FMI da  
função de monitoramento e disciplina macroe-  
conômica revela-se, na prática, uma solução  
estratégica para contornar essas dificuldades  
(Wuderermann, 2018; Carvalho et.al, 2015).  
Destaca-se também a questão da escassez  
Dadas essas premissas, havia uma expec-  
tativa de que o Arranjo de Contingente de  
Reservas (ACR) pudesse se estabelecer como  
um mecanismo alternativo robusto, dadas as  
dimensões das economias representadas pelos  
BRICS, com potencial para oferecer uma ver-  
dadeira alternativa ao Fundo Monetário Inter-  
nacional (FMI). No entanto, essa proposta tem  
se revelado bastante limitada. Consideramos  
aqui algumas das razões principais para essa  
limitação. Em primeiro lugar, o CRA comple-  
menta - de uma forma subordinada - o sistema  
global de proteção financeira ao lado de insti-  
tuições multilaterais regionais e internacionais  
como o FMI (Carvalho et al, 2015). Ironica-  
mente, os países membros receberão o apoio  
em dólares e, para acessar 100% dos recursos,  
precisarão manter ativo um programa de apoio  
financeiro pelo FMI sujeito às suas condicio-  
nantes. Para que um país tenha pleno acesso  
ao montante acordado, é necessário que este-  
ja vinculado a um programa de assistência do  
FMI; na ausência dessa condição, o país pode  
retirar até 30% do valor de sua cota (“parcela  
desvinculada”). Obviamente, para acessar os re-  
cursos do FMI, os países geralmente precisam  
implementar reformas e políticas de austerida-  
de. Até países do norte global foram impacta-  
dos severamente por essas medidas, como no  
de recursos. Ao comparar os recursos disponí-  
veis no ACR com aqueles do FMI, observa-se  
que o ACR possui uma quantidade significati-  
vamente inferior de recursos. A principal preo-  
cupação é que o CRA seja ineficaz em casos de  
grandes pressões de balanço de pagamentos, já  
que os recursos disponibilizados parecem insu-  
ficientes (Wuderermann, 2018). O exemplo da  
crise grega de 2010 demonstra que é incerto  
15 Fala-se de maneira abrangente no livro de James K. Gal-  
braith “Welcome to the Poisoned Chalice. e Destruc-  
tion of Greece and the Future of Europe”, Yale University  
Press, 2016  
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que o CRA possa funcionar como amortecedor  
adicional, uma vez que o FMI, por exemplo,  
ofereceu à UE mais de 30 bilhões de dólares.  
Comparativamente, os limites do CRA difi-  
cilmente teriam impacto significativo para um  
país BRICS, em situação de crise semelhante.  
Existem também questões de ordem ins-  
aprovados. O primeiro aspecto notável é que  
o NDB foi criado sem um sócio majoritário.  
Os sócios fundadores têm equiparação do po-  
der de voto perante a instituição e existe uma  
dinâmica de revezamento na presidência. Além  
disso, o NBD tem um caráter inovador ao ser  
um banco voltado para apoiar projetos de in-  
fraestrutura e desenvolvimento sustentável.  
Então, o Novo Banco de Desenvolvimen-  
to (NBD) se diferencia do Banco Mundial  
por ter um foco mais delimitado. Enquanto o  
Banco Mundial financia uma ampla variedade  
de projetos em diversas áreas, o NBD tem um  
foco específico em prover recursos para finan-  
ciamento de infraestrutura e desenvolvimento  
sustentável nos países emergentes do Sul Glo-  
bal. Na sua constituição16, o NBD se apresen-  
ta como um banco “Sul-Sul”, cuja governança  
é composta por países do Sul Global. Ele se  
propõe a ser verde desde o estatuto constitu-  
tivo, colocando a sustentabilidade e o desen-  
volvimento sustentável como pilares centrais  
da instituição. Além disso, o NBD busca não  
ser intervencionista politicamente, diferente-  
mente de críticas históricas feitas ao papel de  
outras instituições econômicas. Contudo, ob-  
serva-se uma discrepância entre o número de  
projetos aprovados e os recursos efetivamente  
desembolsados. Embora mais de 13917 projetos  
tenham sido aprovados, o ritmo de desembolso  
tem ficado aquém das metas oficiais estabeleci-  
das pela própria instituição.  
titucional. No acordo firmado entre os países,  
um membro que se comprometeu a disponi-  
bilizar um determinado montante pode optar  
por não o providenciar sem enfrentar sanções  
significativas ou consequências severas. Essa di-  
nâmica torna o mecanismo de cooperação ex-  
tremamente frágil na prática e dependente de  
considerações geopolíticas (Vasconcelos, Gar-  
cia, 2023). Mais que isso, outro fator crucial é  
o risco de replicar situações de predominância  
de um país sobre os outros, elemento que os  
BRICS sempre criticaram nas instituições glo-  
bais dominadas pelos Estados Unidos, mas que  
também se apresenta no CRA. A China com-  
prometeu-se com quase metade dos recursos do  
CRA, possui de longe o maior poder de voto e  
é capaz de exercer uma influência significativa  
nas decisões operacionais, como a aprovação  
de pedidos. Seu poder de voto torna-se ainda  
mais relevante, uma vez que o país requerente  
é excluído da votação (Wuderermann, 2018).  
De qualquer maneira geral, o ACR foi criado,  
está ativo e passou por testes operacionais desde  
2016, mas nunca foi efetivamente utilizado.  
Pensando no Novo Banco de Desenvolvi-  
mento (NBD), observa-se que, quando com-  
parado ao Arranjo de Contingente de Reservas,  
ele já apresenta uma história de atividades mais  
robustas. Iniciou suas operações formalmente  
em 2014 e realizou suas primeiras operações de  
crédito em 2016, quando já possuía uma car-  
teira de investimentos anunciada na ordem de  
32 bilhões de dólares, com mais de 90 projetos  
Ao analisar a trajetória histórica, espe-  
cialmente nos anos de 2020 e 2021, o banco  
tem superado as metas estabelecidas. No en-  
tanto, durante esse período, o banco direcio-  
16 Veja “Agreement on the New Development Bank – For-  
taleza”, Julio 2015: https://www.ndb.int/wp-content/  
uploads/2022/11/Agreement-on-the-New-Development-  
-Bank.pdf  
17 https://www.ndb.int/projects/  
140 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.128 - 143, fev. 2025  
nou os recursos não para projetos de infraes-  
trutura, mas para iniciativas de emergência  
em resposta à pandemia de Covid-19. Em-  
bora isso tenha gerado um aumento direto e  
imediato nos desembolsos, não esteve neces-  
sariamente vinculado aos projetos tradicio-  
nais do banco, e esse padrão ainda persiste.  
Comparando o desempenho do Banco dos  
BRICS com o do Banco Asiático de Investi-  
mentos em Infraestrutura (AIIB), que é lide-  
rado pela China, observa-se uma quantidade  
de desembolsos maior pelo AIIB ( Vasconce-  
los, Garcia, 2023)  
como mostrado pelo Gráfico 3. Embora o Bra-  
sil detenha aproximadamente um quinto da  
participação total no banco, seus investimen-  
tos não representam sequer 10% do montante  
global da instituição. Ao longo do tempo, a  
região asiática, especialmente a Índia e a Chi-  
na, absorveu mais de 50% dos investimentos  
do NDB. Apenas nos últimos dois anos houve  
um aumento significativo nos recursos aloca-  
dos ao Brasil, muitos dos quais foram desti-  
nados a desembolsos relacionados à Covid-19.  
Essa distribuição evidencia uma presença limi-  
tada do banco em outras regiões do mundo,  
como a América do Sul e a América Latina, e  
especificamente no Brasil, onde a instituição  
ainda é amplamente desconhecida.  
A concentração histórica do portfólio  
de investimentos do banco na região asiática  
evidencia uma assimetria entre os membros,  
Gráfico 3: Investimentos do NDB por país no ano de 2022  
Fonte: elaboração baseada em dados extraídos por Jonnas Esmeraldo Marques de Vasconcelos, New Development Bank, Annual  
Report 2022  
141 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.128 - 143, fev. 2025  
Como visto na seção 2.1, a maior parte  
das exportações de países como o Brasil em di-  
reção à China é composta por matérias-primas,  
exacerbando a natureza historicamente expor-  
t-led dessas economias. Investimentos estru-  
turais e industriais seriam, portanto, urgentes  
para promover uma diversificação econômica.  
O círculo se fecha, porém, de forma problemá-  
tica: os investimentos do NBD são distribuídos  
de maneira assimétrica, concentrando-se majo-  
ritariamente nos países asiáticos  
como, quinze anos após sua fundação, os BRI-  
CS passaram de um grupo contestatório ao ca-  
pitalismo neoliberal liderado pelos EUA, com  
proposta de instituições alternativas, para um  
grupo fundamentalmente alinhado e pragmá-  
tico em relação à globalização, mas coeso em  
interesses geopolíticos. O que parece restar dos  
BRICS hoje é a intenção multipolar. No arti-  
go, traçamos também elementos que parecem  
indicar que as mesmas criticidades econômicas  
que os BRICS se propuseram reformar desde  
o início são tendencialmente replicadas nas re-  
lações comerciais e financeiras entre os países  
membros e dentro das próprias instituições.  
Países como o Brasil continuam dependentes  
das exportações de matérias-primas, tanto em  
relação à China quanto aos demais parceiros  
comerciais tradicionais, e os financiamentos  
do NBD para um desenvolvimento industrial  
mais robusto permanecem inferiores ao neces-  
sário e distribuídos de forma assimétrica.  
5 CONCLUSÕES  
O fim da guerra fria e o colapso da União  
Soviética, ao invés de trazer uma era de paz e  
prosperidade para o mundo, devido a unipo-  
laridade baseada nos Estados Unidos, resultou  
em uma radicalização do modo de produção  
global, no sentido de uma globalização cada  
vez mais selvagem. Isso, por sua vez, agravou  
a violência do confronto internacional entre  
capitais, criando, continuamente, vencedores  
e perdedores, com os vencedores liquidando e  
engolindo os perdedores. Essa dinâmica do ca-  
pital fez com que as forças da centralização pro-  
duzissem um confronto mais duro: desta vez,  
os Estados Unidos estão liderando, também,  
por meio da Organização do Tratado Atlântico  
do Norte (OTAN), uma nova forma de glo-  
balização (Brancaccio, Califano, 2023). Um  
feitiço que vai perder o seu trato global para  
se relacionar de acordo com alianças geopolí-  
ticas, até chegar ao ponto que países da União  
Europeia e outros estão sendo obrigados a virar  
as costas para a Rússia e China, caso queiram  
manter seu assento no bloco liderado pelos Es-  
tados Unidos.  
Isso indica que há, sem dúvida, uma con-  
veniência e um interesse no agrupamento, mas  
a reforma das dinâmicas econômicas e finan-  
ceiras permanece distante. O pragmatismo do  
grupo deslocou progressivamente a atenção  
para temas de governança global no contexto  
do multilateralismo, em detrimento de uma  
transformação estrutural das relações econômi-  
cas entre seus membros.  
O curto-circuito dos BRICS é justamen-  
te este: como demonstram os acontecimentos  
mencionados na introdução, desafiar a gover-  
nança global sem enfrentar a transformação  
estrutural das relações econômicas pode reve-  
lar-se uma ilusão. Um verdadeiro – e necessário  
– questionamento da (des)ordem internacional  
só poderá emergir do enfrentamento dos gran-  
des desequilíbrios que se desenvolveram duran-  
te os anos de abertura desenfreada dos merca-  
Dado esse contexto, enfrentado também  
pelos BRICS, não é surpreendente constatar  
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144 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte,  
ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.144 - 157, fev. 2025  
144 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.144 - 157, fev. 2025  
Artigo  
Uma Análise dos Planos Quinquenais  
da China como Impulsores para o  
Desenvolvimento de energias Renováveis  
An Analysis of China’s Five-Year Plans as Drivers for the Development of Renewable Energies  
Un Análisis de los Planes Quinquenales de China como Impulsores para el Desarrollo de  
Energías Renovables  
Allana Camini Moreira de Souza1  
Recebido em: 12 de agosto de 2024  
Aceito em: 26 de março de 2025  
RESUMO  
A transição energética tem ganhado crescente relevância nas discussões sobre desenvolvimento  
sustentável, segurança energética e mitigação das mudanças climáticas. Nesse contexto, a  
China se destaca pelo uso de instrumentos de planejamento estatal para orientar sua política  
energética, especialmente por meio dos Planos Quinquenais. Este artigo analisa de que  
maneira os Planos Quinquenais da China têm impulsionado o desenvolvimento de energias  
renováveis, com foco no período entre o 11º Plano (2006–2010) e o 14º Plano (2021–  
2025). A pesquisa adota uma abordagem qualitativa e exploratória, baseada em revisão  
bibliográfica e análise documental de planos governamentais, relatórios institucionais e  
literatura especializada, utilizando como referencial teórico a Nova Economia Estrutural.  
Os resultados indicam que os Planos Quinquenais desempenharam papel relevante na  
expansão das energias renováveis no país, ao estabelecer metas específicas, direcionar  
investimentos em infraestrutura e incentivar o desenvolvimento tecnológico nos setores  
eólico, solar e hidrelétrico. Essas políticas contribuíram para o aumento significativo da  
capacidade instalada de energias renováveis e para a consolidação da China como líder  
global nesse setor. Conclui-se que a atuação do Estado, por meio de planejamento estratégico  
e políticas industriais direcionadas, foi determinante para a diversificação da matriz  
energética chinesa e para o avanço da transição energética.  
Palavras-chave: Energia, Políticas, Diversificação.  
ABSTRACT  
e energy transition has gained increasing relevance in discussions on sustainable  
development, energy security, and the mitigation of climate change. In this context, China  
stands out for the use of state planning instruments to guide its energy policy, especially  
through the Five-Year Plans. is article analyzes how China’s Five-Year Plans have  
driven the development of renewable energies, focusing on the period between the 11th  
Plan (2006–2010) and the 14th Plan (2021–2025). e research adopts a qualitative  
and exploratory approach, based on a bibliographic review and documentary analysis of  
1 Doutoranda em Relações Internacionais pela PUC Minas. Mestre e Bacharel em Relações Internacionais pela PUC Minas. Con-  
tato: allanacamini94@gmail.com  
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government plans, institutional reports, and specialized literature, using New Structural  
Economics as the theoretical framework. e results indicate that the Five-Year Plans  
played a relevant role in the expansion of renewable energies in the country by establishing  
specific targets, directing investments in infrastructure, and encouraging technological  
development in the wind, solar, and hydropower sectors. ese policies contributed to a  
significant increase in the installed capacity of renewable energies and to the consolidation  
of China as a global leader in this sector. It is concluded that the role of the state, through  
strategic planning and targeted industrial policies, was decisive for the diversification of  
the Chinese energy matrix and for the advancement of the energy transition.  
Keywords: Energy, Politics, Diversification.  
RESUMEN  
La transición energética ha ganado creciente relevancia en las discusiones sobre desarrollo  
sostenible, seguridad energética y mitigación del cambio climático. En este contexto, China  
se destaca por el uso de instrumentos de planificación estatal para orientar su política  
energética, especialmente a través de los Planes Quinquenales. Este artículo analiza de  
qué manera los Planes Quinquenales de China han impulsado el desarrollo de energías  
renovables, con foco en el período entre el 11.º Plan (2006–2010) y el 14.º Plan (2021–  
2025). La investigación adopta un enfoque cualitativo y exploratorio, basado en revisión  
bibliográfica y análisis documental de planes gubernamentales, informes institucionales y  
literatura especializada, utilizando como marco teórico la Nueva Economía Estructural.  
Los resultados indican que los Planes Quinquenales desempeñaron un papel relevante  
en la expansión de las energías renovables en el país al establecer metas específicas,  
dirigir inversiones en infraestructura e incentivar el desarrollo tecnológico en los sectores  
eólico, solar e hidroeléctrico. Estas políticas contribuyeron al aumento significativo de  
la capacidad instalada de energías renovables y a la consolidación de China como líder  
global en este sector. Se concluye que la actuación del Estado, por medio de planificación  
estratégica y políticas industriales dirigidas, fue determinante para la diversificación de la  
matriz energética china y para el avance de la transición energética.  
Palabras-clave: Energía, Políticas, Diversificación.  
econômico e social, sendo fundamentais para  
a formulação e implementação de políticas de  
desenvolvimento.  
1 INTRODUÇÃO  
Transformar as matrizes energéticas dos  
países vem se tornando cada vez mais urgen-  
te, principalmente em razão aos problemas  
decorrentes da mudança climática, às crescen-  
tes pressões para que essas mudanças ocorram  
e a necessidade de garantir segurança energé-  
tica. Para que ocorra essas transformações, é  
necessário um planejamento político com a  
introdução de políticas públicas, planos, obje-  
tivos e metas voltadas para o setor energético.  
A China, podendo ser mencionada como um  
país modelo, vem utilizando os Planos Quin-  
quenais como ferramentas de planejamento  
A partir do 11º Plano Quinquenal (2006-  
2010), o país começou a estabelecer metas  
específicas para a implementação de energias  
renováveis, marcando uma mudança signi-  
ficativa em sua estratégia energética (Stanley  
Foundation, 2006). Esses planos tornaram-se  
fundamentais para o movimento do país rumo  
à transição energética baseada em fontes reno-  
váveis, promovendo a expansão da capacidade  
instalada de energia solar e eólica e posicionan-  
do o país como um dos líderes globais em ener-  
gias renováveis.  
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Considerando este contexto, propõe-se  
enfatizar o papel do Estado na formulação de  
políticas sob a ótica da Nova Economia Estru-  
tural para compreender como essas interven-  
ções podem impulsionar o desenvolvimento  
sustentável. A pergunta que orienta o artigo  
é: De que maneira os planos quinquenais da  
China têm influenciado no desenvolvimento de  
energias renováveis? A hipótese é de que a im-  
plementação dos planos quinquenais da China  
contribuiu para criar condições favoráveis ao  
aumento da capacidade instalada de energias  
renováveis, por meio de políticas e investimen-  
tos direcionados ao setor.  
esforços em diversos setores (Zheng, 2018). Es-  
ses avanços estão diretamente ligados ao mode-  
lo de governança adotado pelo país, que com-  
bina forte atuação estatal com mecanismos de  
mercado (Naughton, 2021).  
Além disso, os fatores geopolíticos atuais  
que são influenciados por diferentes cenários,  
estão diretamente ligados ao papel do Estado  
na dinâmica do sistema internacional. Embo-  
ra a geopolítica seja frequentemente analisada  
sob a ótica de estudos liberais, a China emerge  
como um ator que desafia essa perspectiva, pro-  
movendo um modelo de globalização através  
do planejamento estatal, inovação tecnológica  
e expansão econômica estratégica (Jabbour;  
Dantas; Vadell, 2021).  
O artigo abordará as principais metas, ob-  
jetivos e resultados dos Planos Quinquenais da  
China desde o 11º Plano Quinquenal (2006-  
2010), que marcou o início do foco em ener-  
gias renováveis, até o atual 14º Plano Quinque-  
nal (2021-2025).  
Diferente dos Estados capitalistas tradi-  
cionais, a China opera sob um sistema no qual  
o Estado desempenha um papel central tanto  
na política quanto na economia, moldando  
diretamente o rumo do desenvolvimento. O  
Estado socialista chinês se distingue por uma  
série de características que o diferenciam das  
economias de mercado liberais. O Partido Co-  
munista da China (PCC) não apenas governa  
politicamente, mas também exerce influência  
direta sobre a economia, determinando diretri-  
zes e impulsionando setores estratégicos. Além  
disso, o governo exerce a intervenção econômi-  
ca, direcionando investimentos e promovendo  
políticas industriais para setores prioritários,  
enquanto em economias liberais essa dinâmica  
pode ser regida predominantemente pelo mer-  
cado (Naughton, 2021).  
2 O PAPEL DO ESTADO NA  
FORMULAÇÃO DE POLÍTICAS  
Várias abordagens explicam como e por  
que os Estados formulam e implementam po-  
líticas (Skocpol, 1985). A busca em promover  
o crescimento econômico, fomentar o desen-  
volvimento e reduzir a pobreza envolve dife-  
rentes tipos de intervenções, sejam através de  
mudanças políticas econômicas, sociais e es-  
truturais que visam fortalecer a infraestrutura  
(Gigineishvili, 2023).  
A necessidade dos Estados de manter con-  
trole e ordem pode impulsionar mudanças, às  
vezes através de medidas de repressão ou sim-  
plesmente iniciativas reformistas (Skocpol,  
1985). No que concerne às iniciativas reformis-  
tas, nos últimos 40 anos, a economia chinesa  
vivenciou avanços significativos em razão aos  
Essa forte presença do Estado na econo-  
mia se consolidou ao longo das últimas décadas  
e está diretamente ligada às reformas econômi-  
cas iniciadas a partir da década de 1970. Nesse  
período, a China passou por transformações  
estruturais que a levaram de um país subdesen-  
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volvido a uma das maiores potências globais.  
A transição foi conduzida de maneira estraté-  
gica, combinando a manutenção do controle  
político com uma abertura gradual da econo-  
mia (Leão, 2012). Após a reforma, a China re-  
gistrou um crescimento médio anual de 10%,  
fruto de um planejamento estratégico de longo  
prazo e grandes investimentos em infraestrutu-  
ra (Jaguaribe, 2015).  
alcançou um crescimento em direção à moder-  
nização, consolidando-se como uma potência  
global. A partir de 2006, o governo chinês re-  
tomou uma postura ainda mais ativa na eco-  
nomia, aumentando a intervenção estatal em  
setores estratégicos. Em 2010, os formuladores  
de políticas buscaram “novos motores de cresci-  
mento”, investindo em tecnologia, inteligência  
artificial e big data. Ampliando assim, a influên-  
cia do Estado no direcionamento da economia  
e movendo a China a um modelo que pode ser  
considerado como uma “economia de mercado  
orientada pelo governo” (Naughton, 2021).  
Essa trajetória de desenvolvimento, marca-  
Desde 1978, quando a China iniciou seu  
processo de “reforma e abertura”, sua política  
econômica tem sido marcada por uma transi-  
ção para o mercado e uma crescente integração  
ao comércio global (Naughton, 2021). Com  
uma média de 9,2% de crescimento anual do  
PIB entre 1980 e 2019, o país buscou maiores  
investimentos, planejamento estratégico e polí-  
ticas industriais voltadas tanto para a exporta-  
ção quanto para o fortalecimento do mercado  
interno (Jabbour; Gabrielle, 2021).  
da pela forte presença estatal e pela transforma-  
ção estrutural da economia, pode ser analisada à  
luz da Nova Economia Estrutural (NSE), pro-  
posta por Justin YiFu Lin (2020). Para explicar  
esses avanços e as transformações em determina-  
dos países em desenvolvimento, a Nova Econo-  
mia Estrutural (NSE – sigla em inglês) discute a  
evolução nas transformações desenvolvimentis-  
tas e políticas, a partir da transformação estrutu-  
ral nos países em desenvolvimento, em especial  
a China. A NSE explica por que as economias  
em desenvolvimento têm falhado em alcançar  
seu objetivo de prosperidade econômica. Ela  
identifica o desenvolvimento econômico como  
um processo dinâmico, que requer uma estru-  
tura industrial, melhorias em infraestruturas  
e eficiência entre o mercado e o governo (Lin,  
2012). Segundo Lin (2020), apesar do merca-  
do ser um mecanismo fundamental para obter  
recursos, o papel do governo é crucial para coor-  
denar investimentos seja para modernização in-  
dustrial, diversificação, além de compensar pos-  
síveis problemas externos gerados no processo.  
A diversificação da matriz energética tem  
Nesse sentido, as reformas econômicas  
chinesas não podem ser compreendidas iso-  
ladamente da dinâmica geopolítica global.  
Vadell, Dantas e Jabbour (2021), analisam o  
papel do Estado nesse processo e sua relação  
com as transformações da economia mundial.  
Os autores argumentam que as reformas ini-  
ciadas em 1978 foram uma resposta estratégica  
às mudanças na ordem geopolítica, permitindo  
que a China adotasse um modelo de cresci-  
mento baseado na interação entre planejamen-  
to estatal e inserção global. Assim, as reformas  
de 1978 não foram apenas uma adaptação à  
ordem econômica global, mas também uma  
resposta estratégica às transformações da eco-  
nomia política mundial.  
Dessa forma, visando estratégias políticas  
e econômicas, a atuação do Estado continuou  
a se intensificar ao longo das décadas seguin-  
tes. Nos primeiros anos do século XXI, o país  
sido uma estratégia adotada por diversos países  
para fortalecer a segurança energética e pro-  
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mover a sustentabilidade. No caso da China,  
observa-se um conjunto de políticas públicas e  
incentivos voltados para a ampliação das fontes  
renováveis e a redução da dependência de com-  
bustíveis fósseis, refletindo seu compromisso  
com a transição energética.  
3 AS ENERGIAS RENOVÁVEIS  
NOS PLANOS QUINQUENAIS:  
DO 11° AO 14°  
Uma das estratégias adotadas pela China  
para impulsionar o desenvolvimento são os  
Planos Quinquenais. Criado em um período  
de recuperação econômica pós Guerra, o Plano  
quinquenal tornou-se chave para compreender  
o desenvolvimento da China. Além de impul-  
sionar o desenvolvimento, o país alcançou esta-  
bilidade em diversos setores, desempenhando  
um papel fundamental para o âmbito social e  
econômico (Tian; Li, 2021).  
Para Lin e Monga (2010), a diversificação  
é um elemento fundamental para a mudança es-  
trutural, necessária para que os países em desen-  
volvimento evoluam de economias baseadas em  
recursos para economias mais complexas e dinâ-  
micas (Lin; Monga, 2010). Além disso, permite  
a integração entre setores, facilitando a possível  
existência de um complexo econômico ao co-  
nectar diferentes setores (Campolina; Diniz  
apud Cano, 2021). Possibilitando assim, que as  
economias diminuam sua dependência de seto-  
res específicos e aumentando sua capacidade de  
adaptar a choques externos (Lin; Monga, 2010).  
Desse modo, o papel do Estado, para a  
NSE, é facilitar e criar condições necessárias  
para o funcionamento dos mercados, incluin-  
do novas indústrias, vantagens comparativas,  
coordenação e investimentos em setores para  
melhorar a infraestrutura. Portanto, a interven-  
ção estatal é fundamental para superar possí-  
veis falhas de mercado e externalidades, e além  
disso, impulsionar o desenvolvimento de novas  
indústrias (Lin; Monga, 2010).  
Estes planos são elaborados pelo governo  
chinês a partir de diretrizes estratégicas para  
o desenvolvimento nacional do país ao longo  
de um período de cinco anos. No âmbito do  
plano, são estabelecidas as principais metas  
econômicas, sociais e abordagens para setores  
considerados prioritários pelo governo central,  
como energia e tecnologia (Ungaretti, 2021).  
Para o setor de energia, o Plano Quinquenal  
estabelece direções para a transição energética,  
abordando o Balanço Energético e possíveis  
otimizações para práticas sustentáveis com a  
implementação de energias renováveis (United  
Nations, 2021).  
A partir do 11º Plano Quinquenal (2006-  
2010), a China iniciou os primeiros movimen-  
tos enfatizando suas políticas direcionadas ao  
setor energético. Em 2006, a China enfrentava  
os desafios na lacuna entre a oferta e demanda  
de energia em razão do alto número de popu-  
lação. Para enfrentar tais desafios, o país focou  
em intensificar a produção de energia, além de  
estabelecer relações com outros países para co-  
brir a demanda. O início se deu com equipes  
formadas para desenvolver a “Lei da Energia”,  
que definiu a estratégia energética do país a  
Embora o foco da Nova Economia Es-  
trutural (NSE) esteja na industrialização e no  
desenvolvimento de setores produtivos em  
geral, esta pesquisa se baseia nesse referencial  
teórico para analisar especificamente a transi-  
ção energética da China. Assim, a NSE permite  
compreender como a China tem utilizado a in-  
tervenção estatal por meio das políticas indus-  
triais para impulsionar a diversificação da ma-  
triz energética e fortalecer setores estratégicos,  
como energia renovável e tecnologias limpas.  
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longo prazo. Essa legislação regulou todos os  
aspectos relacionados à exploração, produção,  
consumo e cooperação internacional de ener-  
gia na China, promovendo assim, a adoção de  
energia renovável no país (Stanley Foundation,  
2006).  
a taxa de crescimento anual da capacidade re-  
cém-construída alcançou 105%, e a capacida-  
de total instalada aumentou de 1,27 GW em  
2005 para 44,73 GW em 2010, ultrapassando  
a meta do plano de longo prazo de energia da  
China para 2020 (Kang; Yuan; Hu, 2012).  
No gráfico abaixo, é possível observar a  
No 11º Plano Quinquenal, foram esta-  
belecidas prioridades em relação às energias  
renováveis. O governo buscou em suas me-  
tas, fomentar o desenvolvimento ordenado da  
energia hidrelétrica, garantindo a proteção am-  
biental e dos moradores afetados pela produ-  
ção. O plano priorizou também a promoção e  
o uso da energia solar, geotérmica e oceânica a  
partir do desenvolvimento de tecnologias para  
energia renovável (Asia Pacific Energy, 2006).  
Os resultados da inserção de energia reno-  
vável após o 11º Plano Quinquenal foram con-  
siderados um grande progresso para o país, em  
especial, para o setor de energia eólica. Durante  
o plano, o governo implementou diversas polí-  
ticas para promover e regular o desenvolvimen-  
to da indústria de energia eólica. Desde 2005,  
evolução da capacidade instalada de energia eó-  
lica na China entre 2005 e 2016. Nos primeiros  
anos, o setor cresceu rapidamente, impulsiona-  
do por incentivos governamentais. No entanto,  
a partir de 2011, a expansão desacelerou devi-  
do a desafios na infraestrutura de transmissão,  
resultando em desperdício de eletricidade. Para  
mitigar esse problema, a Administração Nacio-  
nal de Energia (NEA) adotou restrições a novos  
projetos. No gráfico, as barras azuis represen-  
tam o aumento contínuo da capacidade insta-  
lada, enquanto a linha laranja mostra a queda  
progressiva da taxa de crescimento anual, evi-  
denciando a transição do setor de uma fase de  
expansão acelerada para um período de ajuste e  
consolidação (Song; Zhu; Hao, 2017).  
Gráfico 1 - Evolução da Capacidade Instalada de Energia Eólica na China (2005-2016)  
Fonte: SONG, Meia; ZHU, Yaxua; HAO, Xuguang (2017).  
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Assim, no 11º Plano, as políticas gover-  
namentais no setor energético destacaram-se  
por priorizar investimentos em infraestrutu-  
ra diversificando sua matriz e resultando em  
uma rápida expansão da capacidade instalada  
de energia eólica. Essa prioridade dada às ener-  
gias renováveis criou uma continuidade para o  
progresso no setor, que foram refletidas no 12º  
Plano Quinquenal.  
Os resultados são perceptíveis para o de-  
senvolvimento de energia renovável na China  
durante o 12º Plano Quinquenal. Em 2013,  
a capacidade total de geração de energia reno-  
vável no Leste Asiático foi estimada em 457  
GW, representando mais de 29% do total  
global. Sendo a China, responsável por mais  
de 80% dessa capacidade. A energia hidrelé-  
trica constituiu uma parte significativa desse  
total, com 322 GW, dos quais 260 GW es-  
tavam na China. Além disso, a energia eóli-  
ca emergiu como um setor importante, e os  
aquecedores solares de água (SWH) em 2014  
totalizavam cerca de dois terços do total glo-  
bal (Ren, 2015).  
O 12º Plano Quinquenal (2011-2015)  
dedicou maior atenção ao setor energético,  
principalmente em razão das emissões de  
CO2 advindas dos combustíveis fósseis. As  
metas do plano foram direcionadas para re-  
duzir o consumo de energia fóssil e a promo-  
ção de energia renovável. Entre principais  
metas, destacaram-se: “(1) Redução de 16%  
na intensidade energética (consumo de ener-  
gia por unidade do PIB); (2) Aumento da  
energia não fóssil para 11,4% do uso total  
de energia; e (3) Redução de 17% na inten-  
sidade de carbono” (Lewis, 2011). O plano  
também visava apoiar o desenvolvimento de  
novas indústrias de energia, como a constru-  
ção de 120 GW de hidrelétricas e 70 GW de  
capacidade eólica, incluindo bases onshore e  
offshore, novos sistemas eficientes de gera-  
ção de energia solar e tecnologias de conver-  
são e utilização de energia de biomassa (Iea,  
2021).  
Embora os principais objetivos indiquem  
uma continuação das políticas do plano ante-  
rior para reequilibrar a economia, novas carac-  
terísticas incluíram uma política industrial vol-  
tada para a inovação e medidas mais decididas  
em direção a uma economia de baixo carbono  
(Gang; Liping, s/d).  
No gráfico 2, apresentado pelo Renewables  
Energy Policy (REN21 – sigla em inglês) é pos-  
sível observar a distribuição das capacidades de  
energia renovável nos países do mundo (exceto  
a energia hidráulica). No primeiro gráfico, a  
energia eólica representa a maior parte da ca-  
pacidade instalada global, seguida pela energia  
solar e pela biomassa. O segundo gráfico foca  
na capacidade instalada de energia renovável  
em países específicos. Destaca-se que a China  
lidera em capacidade de energia eólica, supe-  
rando os Estados Unidos e a Alemanha, que  
são outros grandes players no setor. Esse gráfico  
ilustra o papel da China na geração de ener-  
gia eólica e sua posição de liderança global em  
comparação com outras nações importantes na  
área de energias renováveis.  
Neste plano, houve um foco maior pelo  
fornecimento de energia nas áreas rurais, que  
eram precárias. As prioridades eram expandir  
redes elétricas onde as infraestruturas eram  
obsoletas, além de modernizar as redes nas re-  
giões. Para isto, a China precisou priorizar a  
construção de infraestruturas que intensificas-  
sem avanços principalmente para os setores da  
energia nuclear, eólica, solar e biomassa (Asia  
Pacific Energy, 2011).  
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Gráfico 2 - Capacidades de Energia Renovável no Mundo, UE, BRICS e os Sete Principais Paí-  
ses por Capacidade Renovável Fonte: Renewables Global Status Report, 2015.  
Fonte: Renewables Global Status Report, 2015.  
Essas medidas de baixo carbono, conti-  
nuaram sendo refletidas no plano seguinte. O  
13º Plano Quinquenal (2016-2020) estabele-  
ceu metas e objetivos para a implantação de  
energia renovável até 2020, conforme observa-  
-se no quadro (1), abaixo:  
O 13º Plano Quinquenal estabeleceu um  
limite nacional total de energia para todas as  
fontes equivalente a menos de cinco bilhões  
de toneladas de carvão para os próximos cinco  
anos. Para cumprir tais metas, o governo in-  
vestiu consideravelmente na infraestrutura do  
setor energético do país. O investimento tota-  
lizou US$ 373,1 bilhões (RMB 2,5 trilhões)  
para novas capacidades instaladas de energia  
renovável até 2020. Desse montante, US$ 74,6  
bilhões (RMB 500 bilhões) foram destinados à  
energia hidrelétrica, US$ 104,5 bilhões (RMB  
700 bilhões) à energia eólica, e US$ 149,3 bi-  
lhões (RMB 1 trilhão) à energia solar, além de  
investimentos adicionais em biomassa, geração  
de energia, biogás e aproveitamento de energia  
geotérmica (Kolesk, 2017).  
Quadro 1: Principais Objetivos e Metas para  
o Setor de Energia Renovável do 13° Plano  
Quinquenal  
Os resultados das metas e objetivos tam-  
bém foram refletidos no desenvolvimento de  
Fonte: Elaborado pela autora a partir de dados da International  
Energy Agency (IEA), 2021.  
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energia renovável durante o 13º Plano Quin-  
quenal. A China manteve sua posição de li-  
derança mundial na inserção de renovável,  
representando quase metade de todas as novas  
instalações em 2020. O país também se des-  
tacou nos mercados globais de energia solar  
térmica concentrada (CSP), energia hidrelé-  
trica, energia solar fotovoltaica e energia eólica  
(REN, 2022). Além disso, o setor de energias  
renováveis se adaptou rapidamente aos desafios  
impostos pela crise da Covid-19, que desta-  
cou a necessidade de abandonar o antigo mo-  
delo econômico de alto carbono (Iea, 2021;  
Hepburn, et al,. 2021).  
O gráfico 3, apresenta a China como líder,  
adicionando a maior quantidade de capacidade  
renovável em comparação com outras regiões.  
Os Estados Unidos aparecem em um nível se-  
melhante ao da União Europeia, ambos com  
adições significativas. A Índia mostra um cres-  
cimento notável no período e os demais países,  
agrupados em uma categoria, apresentam con-  
tribuições menores e mais variadas na expansão  
da capacidade renovável durante esses anos.  
Gráfico 3 - Adições de capacidade renovável por país/região 2019-2021  
Fonte: IEA, 2021.  
Outro ponto importante a se destacar é  
dos obstáculos, a China continuou avançando  
no setor de energias renováveis e mantendo-se  
líder em adições de novas instalações.  
que o setor de energias renováveis se adaptou  
rapidamente aos desafios impostos pela crise da  
Covid (Iea, 2021). A pandemia da Covid-19  
destacou a necessidade de abandonar o antigo  
modelo econômico de alto carbono. Em res-  
posta, a China compreendeu a necessidade de  
investir em economias sustentáveis e evitar al-  
tos investimentos em carbono para alinhar o  
estímulo de curto prazo com metas climáticas  
de longo prazo (Hepburn, et al, 2021). Apesar  
O 14º Plano Quinquenal (2021-2025),  
ainda em ação, enfatiza o desenvolvimento de  
energia renovável no país. Este plano foca princi-  
palmente nas direções para reduzir a intensidade  
de carbono e alcançar o pico de emissões de dió-  
xido de carbono até 2030 (Asia Pacific Energy,  
2022). Conforme o Plano, a China buscará for-  
talecer a cadeia industrial e de suprimentos por  
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meio de inovação, infraestrutura robusta e diver-  
sificação, focando em setores como ferrovias, ele-  
trônicos, novas energias e construção naval (e  
People ‘s Government of Fujian Province, 2021).  
As metas de eficiência energética (EE)  
com cinco anos de antecedência (Han, 2022).  
Os esforços da China foram refletidos em  
2023, onde houve o dobro da capacidade de  
energia solar e eólica em comparação a qual-  
quer outro ano. No primeiro trimestre de 2024,  
a capacidade total de energia solar e eólica em  
grande escala alcançou 758 GW, enquanto a  
capacidade total, incluindo a energia solar dis-  
tribuída, chegou a 1.120 GW. A energia eólica  
e solar agora representam 37% da capacidade  
total de energia do país, um aumento de 8%  
em relação a 2022, e é amplamente esperado  
que supere a capacidade de carvão, que atual-  
mente é de 39%, em 2024 (Yu, et al., 2024).  
No gráfico 4 – Projetos Solares e Eólicos  
na China até em 2024, é possível observar o  
caminho da China para atingir 1.200 GW de  
capacidade de energia eólica e solar até o final  
de 2024, superando a meta estabelecida pelo  
14º Plano Quinquenal:  
para o período de 2021 a 2025 incluem uma  
redução de 13,5% na intensidade energética  
e de 18% na intensidade de carbono por uni-  
dade do PIB. Para atingir essas metas, o plano  
de ação propõe incentivos ao desenvolvimento  
de tecnologias inovadoras de eficiência ener-  
gética com apoio do setor privado, além de  
implementar penalidades para indústrias que  
não cumprirem os padrões estabelecidos (Asia  
Pacific Energy, 2022). Já as metas para ener-  
gias renováveis, como eólica e solar totalizaram  
1.263 GW até 2025. Se todos os projetos fo-  
rem concluídos dentro do prazo, isso permitirá  
que a China atinja sua meta de contribuição  
nacionalmente determinada (NDC) para 2030  
Gráfico 4 - Projetos Solares e Eólicos na China até em 2024  
Fonte: Global Energy Monitor.  
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Além disso, em agosto de 2024, o governo  
chinês publicou o documento “China’s Energy  
Transition”, reforçando seu compromisso com  
o desenvolvimento de um sistema energético  
limpo, seguro e eficiente. O documento desta-  
cou os avanços na substituição de combustíveis  
fósseis por fontes renováveis, além das medidas  
para modernizar a governança energética e pro-  
mover a cooperação internacional no setor. Re-  
forçando dessa forma, o papel do Estado como  
facilitador e indutor de políticas públicas que  
alinham o desenvolvimento econômico com a  
sustentabilidade ambiental (e State Council  
Information Office of e People ’s Republic  
of China, 2024).  
Analisando o cenário energético chinês  
atual, é possível observar que as ações ainda  
não concluídas terão um impacto significativo  
na matriz energética global. Esse avanço de-  
monstra o compromisso do país com a transi-  
ção para fontes de energia renovável e seu papel  
na mitigação à mudança climática. As iniciati-  
vas em andamento continuarão a impulsionar  
o crescimento sustentável e a redução das emis-  
sões de carbono, consolidando a posição da  
China como um dos principais atores no cená-  
rio energético mundial. O quadro (2) abaixo,  
simplifica alguns dos principais objetivos, foco  
econômico, setores, investimentos e planeja-  
mentos dos Planos Quinquenais analisados.  
Quadro 2 - Quadro Comparativo dos Planos Quinquenais: 11ª ao 14º  
Fonte: Elaborado pela autora a partir de dados dos Planos Quinquenais.  
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A evolução da China no setor de energias  
renováveis, reflete nas perspectivas da NSE  
através da diversificação e o papel do estado  
impulsionando o desenvolvimento através dos  
Planos Quinquenais. A NSE sugere que o de-  
senvolvimento econômico é impulsionado por  
inovações tecnológicas e mudanças estruturais.  
A China, ao integrar essa abordagem, adotou  
uma estrutura industrial endógena às suas van-  
tagens comparativas, determinada pela sua do-  
tação de recursos. Essa estratégia foi evidente  
nos planos quinquenais, que priorizaram a  
diversificação da matriz energética e o investi-  
mento em tecnologias renováveis como energia  
eólica, solar e hidrelétrica. A diversificação aju-  
dou a reduzir a dependência de combustíveis  
fósseis, promovendo um crescimento econômi-  
co mais sustentável e resiliente.  
por exemplo, o governo canalizou esforços para  
reduzir o consumo de energia fóssil e promover  
a energia renovável, com metas específicas para  
a redução de intensidade energética e aumento  
da capacidade instalada de energias limpas.  
No 13º Plano Quinquenal (2016-2020), a  
China manteve sua posição de liderança mun-  
dial na adição de novas capacidades renováveis,  
representando quase metade de todas as novas  
instalações globais em 2020. O país se desta-  
cou em mercados globais como energia solar  
térmica, hidrelétrica, solar fotovoltaica e eólica.  
Essas conquistas refletem a eficácia das políticas  
governamentais em promover a inovação tec-  
nológica e diversificação da matriz energética.  
Por fim, o 14º Plano Quinquenal (2021-  
2025) continua enfatizando o desenvolvimen-  
to de energias renováveis, focando na redução  
da intensidade de carbono e no alcance do pico  
de emissões de dióxido de carbono até 2030.  
As metas de eficiência energética e expansão da  
capacidade de energias renováveis mostram o  
compromisso da China com a transição para  
uma economia de baixo carbono, reforçando o  
papel do estado para o desenvolvimento sus-  
tentável, em consonância com os princípios da  
NSE.  
A NSE sugere que o desenvolvimento  
econômico moderno é impulsionado por ino-  
vações tecnológicas e mudanças estruturais. A  
China, ao integrar essa abordagem, adotou uma  
estrutura industrial endógena às suas vantagens  
comparativas, determinada pela sua dotação de  
recursos. Essa estratégia foi evidente nos planos  
quinquenais, que priorizaram a diversificação  
da matriz energética e o investimento em tec-  
nologias renováveis como energia eólica, solar  
e hidrelétrica. Assim, a diversificação reduziu  
a dependência de combustíveis fósseis, promo-  
vendo um crescimento econômico sustentável  
e resiliente.  
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS  
Ao analisar Os Planos Quinquenais (11º  
ao 14º), observa-se o desempenho da China no  
desenvolvimento de energias renováveis. Reto-  
mando a pergunta de pesquisa que orientou o  
artigo “De que maneira os planos quinquenais da  
China têm influenciado no desenvolvimento de  
energias renováveis?” entende-se que esses pla-  
nos têm influenciado no desenvolvimento de  
energias renováveis como um ponto de partida,  
fornecendo uma direção clara para o país seguir  
O papel do estado na China tem sido  
fundamental para superar falhas de mercado  
e externalidades que poderiam impedir o de-  
senvolvimento das energias renováveis. Assim,  
o governo chinês catalisou o desenvolvimento  
de novas indústrias através de políticas de in-  
centivo e investimento em infraestrutura. Du-  
rante o 12º Plano Quinquenal (2011-2015),  
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e alcançar seus objetivos. Esses planos estabele-  
ceram metas específicas e estratégias que pro-  
moveram a diversificação da matriz energética.  
Através das políticas implementadas e dos in-  
centivos oferecidos, a China conseguiu aumen-  
tar consideravelmente a capacidade instalada  
de energias renováveis, confirmando a hipóte-  
se de que os planos quinquenais contribuíram  
para o avanço do setor.  
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No entanto, é importante destacar que as  
políticas contribuíram para que isso ocorresse,  
ou seja, os avanços não ocorreram isoladamen-  
te, mas foram resultado de um conjunto articu-  
lado de medidas que envolveram planejamento  
estratégico, mobilização de recursos e investi-  
mentos em inovação tecnológica e infraestru-  
tura. Assim, a atuação do estado como facilita-  
dor e promotor de infraestrutura e inovação foi  
fundamental para este progresso, garantindo  
que a China não só atendesse suas metas in-  
ternas, mas também contribuísse significativa-  
mente para os esforços globais de mitigação da  
mudança climática.  
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Outro ponto importante a ressaltar é que,  
embora a China tenha alcançado avanços signi-  
ficativos no desenvolvimento de energias reno-  
váveis, o país ainda enfrenta diversos desafios.  
E assim, conforme a NSE enfatiza, apesar do  
sucesso, os países não devem replicar as estra-  
tégias de outros, mas adaptar as políticas e prá-  
ticas aos seus próprios contextos econômicos,  
sociais, institucionais ou ambientais. Ou seja,  
mesmo com as conquistas da China, é essencial  
reconhecer que a replicação direta de modelos  
externos pode não ser eficaz. Portanto, cada  
país deve ajustar suas abordagens conforme  
suas necessidades e características específicas  
para enfrentar os desafios extrair as potenciais  
oportunidades.  
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158 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.158 - 175, fev. 2025  
Artigo  
Amefricanizando as Relações Internacionais  
para curar a Afasia Racial da disciplina  
Amefricanizing International Relations to Cure the Discipline’s Racial Aphasia  
Ameafricanizar las relaciones internacionales para curar la afasia racial de la disciplina  
Erica Paula Vasconcelos1  
Ramon Blanco2  
Enviado em: 27 de agosto de 2024  
Aceito em: 07 de agosto de 2025  
RESUMO  
O presente artigo tem como objetivo problematizar a disciplina de Relações Internacionais,  
apontando como cura/resistência a categoria político-cultural da amefricanidade, cunhada  
por Lélia Gonzalez. Para isso, emprega-se o conceito de afasia racial para demonstrar o  
esquecimento deliberado no campo teórico da disciplina acerca dos processos racializados e  
da legitimação do racismo epistêmico, considerados indissociáveis da arquitetura das relações  
internacionais. Nesse sentido, o argumento do artigo é de que a amefricanidade é o elemento  
central para curar a disciplina da afasia racial. Para desenvolver esse argumento, o artigo  
está estruturado em duas seções. A primeira aborda a contextualização da afasia racial e  
como ela se operacionaliza na dimensão teórica mainstream da disciplina, especificamente  
na negação da raça e do racismo. A segunda demonstra como a categoria da amefricanidade  
pode curar a afasia racial e suas potencialidades para pensar o quadro teórico da disciplina.  
A análise crítica da disciplina de Relações Internacionais presente neste artigo contribui para  
o debate de que suas teorias são estruturadas pelo ocidente, demonstrando a necessidade da  
1 Doutoranda em Relações Internacionais no Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro  
(IRI PUC-Rio), bolsista CNPq. É especialista e mestra em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações  
Internacionais da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (PPGRI-UNILA), e bacharel em Humanidades e em  
Relações Internacionais pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB-Bahia). Integrante do  
Coletivo de Pesquisadores Negros de Relações Internacionais e do Núcleo de Estudos para a Paz (NEP). Atua como coordenadora  
da Comissão de Equidade Étnico-Racial e do Fórum de Discentes da Pós-Graduação, ambos da Associação Brasileira de Relações  
Internacionais (ABRI), e é pesquisadora no Laboratório de Estudos Afrocentrados em Relações Internacionais da Universidade de  
Brasília (LACRI-UnB), do grupo de pesquisa Direito Internacional Crítico (DICRI) e do Núcleo de Saberes Ancestrais e Populares  
da América Latina e o Caribe (NUSAP). (erica.vasconcelosubis@gmail.com). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1261-2912  
2 Bolsista Produtividade em Pesquisa do CNPq, é Professor Associado da Universidade Federal da Integração Latino-Americana  
(UNILA), onde é Professor Permanente no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais, além do Programa de  
Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Paraná. É autor de Peace as Government: e Will to Normalize  
Timor-Leste (Lexington Books, 2020) e, em coautoria com Alexsandro Eugênio Pereira, Teorias Contemporâneas de Relações In-  
ternacionais (Intersaberes, 2021). O autor agradece o apoio financeiro proporcionado às suas investigações pela Pró-Reitoria  
de Pesquisa e Pós-Graduação da UNILA sob os seguintes instrumentos financeiros: PRPPG No 109/2017, PRPPG No  
58/2018, PRPPG No 110/2018, PRPPG No 149/2018, PRPPG No 154/2018, PRPPG No 25/2019, PRPPG No 80/2019,  
PRPPG No 66/2020, PRPPG No 104/2020, PRPPG No 105/2020, PRPPG No 166/2021, PRPPG No 191/2021, PRPPG  
No 205/2021,PRPPG No 77/2022, PRPPG No 90/2022, PRPPG No 102/2023, PRPPG No 121/2023, PRPPG/IMEA No  
16/2023, PRPPG No 118/2024, PRPPG No 05/2025. Além disso, o autor agradece o apoio financeiro recebido pelo Programa de  
Pesquisa Básica e Aplicada (PBA — Chamadas Públicas 09/2021 e 23/2024) da Fundação Araucária de Apoio ao Desen-  
volvimento Científico e Tecnológico do Paraná e pela Bolsa de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desen-  
volvimento Científico e Tecnológico — CNPq. (ramon.blanco@unila.edu.br). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0330-6235  
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amefricanidade para repensar a política internacional entre atores e comunidades.  
Palavras-chave: Relações Internacionais; Amefricanidade; Lélia Gonzalez; Raça e  
Racismo.  
ABSTRACT  
is article aims to problematize the discipline of International Relations, pointing to the  
political-cultural category of Amefricanity, coined by Lélia Gonzalez, as a cure/resistance.  
To this end, the concept of racial aphasia is used to demonstrate the deliberate neglect  
in the theoretical field of the discipline of racialized processes and the legitimization of  
epistemic racism, considered inseparable from the architecture of international relations. In  
this sense, the article argues that Amefricanity is the central element to cure the discipline  
of racial aphasia. To develop this argument, the article is structured in two sections. e  
first addresses the contextualization of racial aphasia and how it is operationalized in the  
mainstream theoretical dimension of the discipline, specifically in the denial of race and  
racism. e second demonstrates how the category of Amefricanity can cure racial aphasia  
and its potential to think about the theoretical framework of the discipline. e critical  
analysis of the discipline of International Relations present in this article contributes to the  
debate that its theories are structured by the West, demonstrating the need for Amefricanity  
to rethink international politics between actors and communities.  
Keywords: International relations; Amefricanity; Lélia Gonzalez; Race and Racism.  
RESUMEN  
Este artículo se propone problematizar la disciplina de las Relaciones Internacionales,  
señalando la categoría político-cultural de la ameafricanidad, acuñada por Lélia  
Gonzalez, como una cura/resistencia. Para ello, se utiliza el concepto de afasia racial para  
demostrar la negligencia deliberada en el campo teórico de la disciplina de los procesos  
racializados y la legitimación del racismo epistémico, considerado inseparable de la  
arquitectura de las relaciones internacionales. En este sentido, el artículo argumenta que  
la ameafricanidad es el elemento central para curar la disciplina de la afasia racial. Para  
desarrollar este argumento, el artículo se estructura en dos secciones. La primera aborda  
la contextualización de la afasia racial y cómo se operacionaliza en la dimensión teórica  
dominante de la disciplina, específicamente en la negación de la raza y el racismo. La  
segunda demuestra cómo la categoría de ameafricanidad puede curar la afasia racial  
y su potencial para pensar el marco teórico de la disciplina. El análisis crítico de la  
disciplina de Relaciones Internacionales presente en este artículo contribuye al debate de  
que sus teorías son estructuradas desde Occidente, demostrando la necesidad de que la  
ameafricanidad repense la política internacional entre actores y comunidades.  
Palabras clave: Relaciones Internacionales; Ameafricanidad; Lélia Gonzalez;Raza y  
racismo.  
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de linguagem que afeta a comunicação sobre as  
temáticas de raça e racismo. Para tratar da afasia  
racial é necessário recorrer à categoria político-  
-cultural da amefricanidade, cunhada por Lélia  
Gonzalez, que, além de poder curar essa afasia,  
usa formas de resistências4 para construção de  
outros saberes. Para desenvolver seu argumento,  
o artigo está estruturado em duas seções. A pri-  
meira aborda a contextualização da afasia racial e  
como ela se operacionaliza no campo teórico da  
disciplina. A segunda demonstra como a catego-  
ria da amefricanidade pode curar a afasia racial  
por meio de suas potencialidades, alcançando o  
quadro teórico da disciplina sob a lente crítica  
de Lélia Gonzalez. A análise crítica da disciplina  
de Relações Internacionais presente neste artigo  
contribui para o debate de que suas teorias são  
estruturadas pelo ocidente, demonstrando a ne-  
cessidade da amefricanidade para repensar a po-  
lítica internacional entre atores e comunidades.  
1 INTRODUÇÃO  
Estamos vivendo em uma época em que ‘o  
velho não morreu e o novo ainda não pôde nas-  
cer3, pois esse novo pode acabar sendo afogado  
pelas vísceras e sangue coagulado das antigas,  
que ressuscitam corpos novos, transformando-  
-os em zumbis. Isso impede, com insistência e  
violência, o surgimento do novo vindo de novas  
comunidades, epistemologias, potências ances-  
trais ou qualquer narrativa que fuja do comum  
ocidental. Esse cenário não muda quando ana-  
lisamos a dimensão mainstream da disciplina de  
Relações Internacionais (RI), sobre a qual, neste  
artigo, pautamos a omissão da disciplina em re-  
lação à raça e seus desdobramentos, como o ra-  
cismo, como elementos centrais que atravessam  
tanto o cenário da política internacional quan-  
to seu campo teórico. Esse cenário representa  
o esforço calculado da disciplina de não querer  
falar, ouvir ou enxergar os processos racializa-  
dos na formação de seu próprio eixo teórico, o  
que a torna limitada, como área de estudo, para  
compreender os fatores que envolvem desigual-  
dades, marginalizações e subalternidades.  
2 PROBLEMATIZANDO  
A AFASIA RACIAL NA  
DIMENSÃO MAINSTREAM DA  
DISCIPLINA DE RELAÇÕES  
INTERNACIONAIS  
Dessa forma, o presente artigo problema-  
tiza a afasia racial da disciplina de RI, eviden-  
ciando como as teorias cristalizam o racismo em  
suas composições e, assim, prejudicam a análi-  
se de estruturas indissociáveis da raça, que for-  
maram a arquitetura do sistema internacional.  
Nesse sentido, o argumento do artigo é de que  
a disciplina sofre de afasia racial, um distúrbio  
Evidenciar a presença da raça na dimen-  
são mainstream das Relações Internacionais  
(RI) para delinear o acometimento da afasia  
racial pela disciplina é o objetivo central desta  
seção. Iniciaremos com o autor Amitav Achar-  
4 O conceito de resistência, neste artigo, se espelha na concepção  
de Amílcar Cabral, que foi um líder que dialogava tanto com  
a prática quanto com o campo teórico. Por isso, entendia que,  
para a teoria revolucionar, ela precisava compreender as con-  
dições locais (De Paula, 2024), envolvendo relações, convívio,  
dificuldades, precariedades e desigualdades. Nesse sentido, essa  
visão de Amílcar explica sua defesa pelo que chamou de “arma  
da teoria” (De Paula, 2024), ou seja, a luta como ferramenta  
de visibilidade profunda da realidade social, sendo também o  
gatilho revolucionário de mudança. Dessa forma, equiparamos  
esse sentido de luta ao que chamamos de resistência.  
3 Em contraposição à frase original “o velho está morrendo e o novo  
não pôde nascer”, de autoria gramsciana, que descreve o estado  
de crise e transição na obra “Cadernos do Cárcere” (1999), essa  
frase foi tema do 9º Encontro da Associação Brasileira de Relações  
Internacionais (ABRI), ocorrido em julho de 2023, na Pontifícia  
Universidade Católica de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Du-  
rante o evento, foram apresentadas novas formas de saberes para  
reconstruir, desconstruir, descolonizar e aquilombar o campo de  
Relações Internacionais, que ainda conserva conhecimentos tra-  
dicionais, geralmente provenientes de discursos eurocêntricos.  
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ya (2022), que conceitua raça como parte da  
condição humana ao longo da história, sendo a  
base fundamental “científica, lucrativa, ofensiva,  
geopolítica e normativa para organizar a ordem  
mundial” (Acharya, 2022, p. 26). Dessa forma,  
o autor mobiliza o segundo conceito, equipa-  
rando raça a um grupo social predominante ao  
qual as pessoas frequentemente se consideram  
pertencentes, com base em características físicas  
como a cor da pele, o formato dos olhos, o na-  
riz, os fios capilares etc. (Acharya, 2022).  
teceu através de marcadores da diferença feno-  
típica, de status, classe e poder político (Barder,  
2021). Esses marcadores, que representam a  
materialização da raça, são representados pelo  
que Du Bois chamou de linha de cor global.  
Essa ‘linha’ de cor do século XX, apesar de ser  
um elemento visual por ser condicionada por  
cores, representa traços contínuos que definem  
formas, padrões e direções nas relações entre ra-  
ças de homens mais escuros e mais claros. Nes-  
se caso, essa linha de cor torna-se internacio-  
nal porque sua dimensão alcança continentes,  
como Ásia, África, América e as ilhas do mar  
(Du Bois, 1903).  
Ainda sobre a mobilização do conceito de  
raça, o autor Alexander Barder, na obra intitu-  
lada Global Race War (2021), afirma que a raça  
passa a ser entendida como uma perspectiva nas  
relações internacionais, sendo uma caracterís-  
tica organizadora central da política mundial  
(Barder, 2021). O autor também afirma que  
a centralidade racial na política mundial se dá  
pela expansão do colonialismo europeu, que  
teve profundas ramificações para o surgimento  
da ideia de global através da apropriação geno-  
cida de terras na América do Sul. Além disso,  
destaca a escravização dos africanos, que foi  
uma economia política transnacional racializa-  
da e baseada na hierarquia racial (Barder, 2021).  
A expansão do colonialismo5 e o desen-  
De fato, ao analisar de forma pluralizada  
esse ‘problema’ que essa linha de cor represen-  
ta, percebe-se que ela codificou cores por linhas  
que definiram sequências de padrões raciais para  
catalogação de diferentes espécies — não da bo-  
tânica ou zoologia, mas da espécie humana. Esse  
problema toma novos contornos porque a raça  
passa a ser utilizada como um dispositivo de ca-  
talogação do diferente, ou seja, dos não bran-  
cos, em um processo de transição para validar  
sua humanidade, através do uso da violência  
extrema, legalizada e normalizada pelos Estados  
coloniais. O que entendemos sobre esse processo  
de transição para a validação da presença de ‘hu-  
manidade’ nos não brancos, na visão de Hender-  
son (2015), está relacionado à relação entre uma  
figura ‘Deus’ e o homem branco.  
cadeamento de processos racializados, imple-  
mentados pela violência, tornam a raça mais  
do que um conceito, já que pressupõe sua ma-  
terialização através de uma lógica imaginária  
da compreensão de desenvolvimento que acon-  
Essa figura divina, que na concepção da  
religião eurocristã é caracterizada como onipo-  
tente (todo-poderoso), onisciente (todo-sábio)  
e onipresente (presente em todos os lugares),  
foi usada como elemento estético para tornar  
o divino/sobrenatural e o homem/natural em  
um único ser divino. Esse sui generis de Deus-  
-homem-branco, que se assemelha à relação de  
cumplicidade entre ambos, segundo Hender-  
5 O colonialismo, neste caso, representa a junção entre coloni-  
zação e civilização para descivilizar os não brancos, coloniza-  
dos e, assim, brutalizar seu humanismo em prol da defesa do  
homem branco e do desenvolvimento do processo colonial  
sustentado por equações desonestas, compostas por: cristia-  
nismo igual a civilização e paganismo igual a selvageria, as  
quais só poderiam resultar nas abomináveis consequências  
dos colonialistas e racistas (Césaire, 2000). Além disso, o co-  
lonialismo se multiplicou, tornando-se disruptivo, “descivili-  
zador”, desumanizador, explorador, racista, violento, brutal,  
cobiçoso e “coisificante” no mundo (Ndlovu, 2018, p. 11).  
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son (2015), justifica o porquê dos brancos se  
colocarem como figuras divinas que, ao mesmo  
tempo, possuem a autonomia do Deus sobera-  
no, justificando assim sua distinção biológica  
dos não brancos (Henderson, 2015).  
Dessa forma, ompson (2015) entende  
a raça como um sistema de relações globais de  
poder que, ao longo do tempo, tende a se ma-  
nifestar de maneira diferente no espaço, através  
de vários níveis. O autor baseia-se na política  
comparativa e na teoria racial crítica, reiteran-  
do que a raça é uma norma que acomete as  
políticas domésticas e as relações entre os Es-  
tados-nação (ompson, 2015). Como conse-  
quência dos mecanismos de diversas formas de  
desigualdade dentro de uma lógica de hierar-  
quias racializadas nas relações, o racismo surge  
como prática costumeira e política de domina-  
ção, baseada no conceito especioso da própria  
raça (Henderson, 2015).  
Ou seja, os homens de raça branca cria-  
ram um mundo de ficção no qual se colocaram  
como civilizados, ocupando um estágio supe-  
rior de desenvolvimento, caracterizado por  
comportamentos morais, sociais e culturais.  
Colocaram os não brancos, nesse mundo de  
ficções, como fardos do homem branco, pois,  
este assumiu a missão de atravessar a escada  
evolutiva junto aos não brancos para alcançar a  
civilização e a cultura dos brancos. Neste caso,  
“os não-brancos teriam de ser ensinados por  
brancos que – muitas vezes de forma magnâni-  
ma – assumiram esse “fardo” para que estas ra-  
ças inferiores pudessem se elevar acima de suas  
barbárie e selvageria” (Henderson, 2015, p. 20,  
tradução livre)  
Nesse caso, o racismo pode ser equiparado  
à prática de inferiorização, por meio da dife-  
rença, tornando-se elemento central da política  
global, contornado por linhas invisíveis, para  
separar, subjugar e dominar as raças não bran-  
cas. Ou seja, o racismo não é apenas precon-  
ceito ou fanatismo, ele se tornou uma crença  
presente nas práticas políticas, refletindo no  
poder institucional, principalmente o estatal  
(Henderson, 2015). Partindo desses pressu-  
postos, a obra “Hidden in Plain Sight: Racism  
in International Relations eory”, expõe a exis-  
tência da profunda cumplicidade das Relações  
Internacionais em um nível teórico na manu-  
tenção da linha global de cores. O autor afirma  
que, apesar da raça ter exercido papel central  
no desenvolvimento das dinâmicas políticas  
nas relações internacionais, a disciplina de RI  
tem sido surpreendentemente omissa quanto  
à questão racial (Henderson, 2015). Ou seja,  
essa omissão das RIs, possui relação direta com  
a continuação do colonial racional, sendo este  
um projeto da supremacia branca para dividir  
as raças promovendo hierarquização como ele-  
mento de validação de superioridade.  
Ainda nesse raciocínio, Henderson (2015)  
reafirma o pensamento dubosiano ao repre-  
sentar a raça por uma linha de cor, conside-  
rando o problema nas relações entre raças de  
homens escuros e homens claros, entendendo  
essas relações como expoentes de hierarquia e  
dominação por parte dos europeus brancos e  
seus principais desdobramentos diaspóricos  
nas Américas e na África, com os não brancos  
ocupando posições subordinadas. Pontua tam-  
bém que alguns princípios doutrinários da área  
científica foram influenciados por imaginá-  
rios raciais, contribuindo para a disseminação  
desses nos Estados. Por exemplo, a teleologia  
evolutiva supremacista branca, que moldou as  
políticas domésticas a partir da escravidão, tor-  
nando as invasões, colonizações e genocídios  
ações legítimas de adaptação e evolução (Hen-  
derson, 2015).  
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Neste caso, os brancos eram os portado-  
res das habilidades intelectualmente e por isso  
tinham a tutela sobre os não brancos, o que  
mais tarde ficou conhecido como o “fardo do  
homem branco6” (Henderson, 2015, p. 47,  
tradução livre). Então, a partir dessa ideia de  
omissão-negação normalizada na disciplina,  
podemos ressaltar dois fatores que contribuem.  
O primeiro é o ‘supremacismo branco’, que  
refere-se à dominação dos grupos brancos que  
construíram a disciplina, com fortes ideologias  
que influenciaram fortemente o campo acadê-  
mico. Essa manipulação pelo supremacismo  
branco sobre os interesses do campo baseia-se  
na superioridade natural do branco sobre o ne-  
gro ou diferentes grupos da humanidade, o que  
pode estar fortemente ligado ao nazismo (Hen-  
derson, 2015).  
locados no mundo subjugado, inferiorizados e  
marcados por desigualdades sociais que os im-  
possibilitam de ascensão social ou de viver em  
igualdade (Henderson, 2015).  
Os autores Zvobgo e Loken (2020), na  
obra intitulada “Why Race Matters in Interna-  
tional Relations: Western dominance and white  
privilege permeate the field. It’s time to change  
that”, reafirmam essa omissão-negação da raça  
nas Relações Internacionais, como evidência  
do domínio ocidental e do privilégio branco na  
conjuntura da política internacional, que por  
isso cria dinâmicas racistas no campo teórico.  
Ou seja, esse esforço calculado das RI em re-  
lação à omissão-negação da raça no seu campo  
teórico, na obra intitulada “rough, against,  
and beyond the racial state: the transnational  
stratum of race”, o autor ompson (2015) cha-  
ma de ‘afasia racial’. Segundo o autor, a afasia  
racial se constitui nos termos da colonização,  
porém nega a continuação da mesma na con-  
temporaneidade, por isso, há uma reprodução  
do racismo sob formas dessa atualidade, como  
desigualdades, preconceitos, subalternidades,  
etc. (ompson, 2015).  
O segundo fator é representado pelo  
‘dualismo racial’, que se refere à instituciona-  
lização de imaginários dicotômicos, como su-  
perior ou inferior, civilizado ou incivilizado,  
humano ou não humano, com alma ou sem  
alma, etc., utilizados para a normalização dos  
processos opressivos nas relações sociais e esta-  
tais. Ou seja, esse dualismo racial, que forma  
uma separação (invisível, porém perceptível)  
entre povos, também é utilizado pela suprema-  
cia branca para manter o controle não só do  
campo teórico da disciplina, mas também do  
mundo. Enquanto isso, os não brancos são co-  
De fato, é importante destacar que, apesar  
de esse conceito ser mobilizado pelo autor para  
problematizar a disciplina de RI, as caracterís-  
ticas descritas do que representa a afasia racial  
dialogam com o próprio conceito de afasia. No  
campo da neurologia, a palavra ‘afasia’ repre-  
senta um “enfraquecimento ou perda do poder  
de captação ou expressão das palavras como  
símbolos, provocada por alguma lesão em al-  
guns centros cerebrais e não devido a algum  
defeito na audição ou na fonação” (Araújo, et  
al., 2023, p. 5).  
6 O “fardo do homem branco” era apresentado como um ato  
de misericórdia divina apresentado como uma árdua missão,  
atribuída ao homem branco para que pudesse agir em ‘fa-  
vor’, como um ato afetivo, das raças consideradas inferiores,  
elevando-as acima de sua barbárie e selvageria (Henderson,  
2015), ou seja, as tornando em humanos cristãs e civilizadas.  
As raças não eram biologicamente inferiorizadas, mas tam-  
bém representadas como corpos em estado de conflito per-  
pétuo, já que não aceitavam a ‘civilização’. Por isso, a “mis-  
são civilizadora” foi vista como um “fardo para o homem  
branco”, que poderia usar a força (violência) para impor a  
civilização (Henderson, 2015).  
Além disso, a afasia, também é conceituada  
como “um distúrbio da comunicação que surge  
quando há danos nas áreas do cérebro que con-  
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trolam a linguagem, o que afeta a compreensão e  
a produção da linguagem” (Araújo, et al., 2023,  
p. 5). Esse distúrbio apresenta-se através das difi-  
culdades mais comuns, que são: falar, interferindo  
não no intelecto nem no conhecimento preserva-  
do, mas nas formas de expressão da comunica-  
ção e do discurso. No entendimento, as palavras  
ficam confusas, dificultando o entendimento e a  
compreensão, por último, na leitura e na escrita,  
prejudicando a habilidade de organizar palavras,  
frases e elaborar textos (Araújo, et al., 2023).  
No dicionário Oxford (2025), a palavra  
‘afasia’, no grego ‘aphasía’ e no francês ‘aphasie’,  
era usada como uma forma doutrinária que rea-  
firmava o pensamento de que “segundo a qual  
o espírito humano não pode atingir nenhuma  
certeza a respeito da verdade” (Oxford, 2025).  
Essa doutrina ceticista partia do ponto de que,  
intelectualmente, alguns seres humanos eram  
compostos por dúvidas permanentemente ina-  
tas, o que os tornava incapazes de ter uma com-  
preensão absoluta da realidade. Na concepção  
filosófica, a afasia é vista como uma condição  
de abstinência consciente de qualquer juízo,  
originada pelo reconhecimento da ignorância a  
respeito de tudo que transcende as possibilida-  
des cognitivas do ser humano (Oxford, 2025).  
De fato, tanto no conceito da doutrina  
do ceticismo quanto na perspectiva filosófica,  
a afasia representa uma limitação calculada e  
não patológica, ou seja, evidencia a negação, a  
abstinência do inconsciente para a compreen-  
são da realidade. Não distante desse conceito, a  
‘afasia racial’ é um termo mobilizado para tor-  
nar evidente a condição calculada da discipli-  
na de RI, que apresenta dificuldades de falar e  
de gerar um vocabulário que associe palavras e  
conceitos apropriados, bem como dificuldades  
de compreender o que é falado (Stoler, 2011;  
ompson, 2015).  
A afasia racial foi inspirada na literatura da  
autora Ann Stoler (2011), intitulada “Colonial  
Aphasia: Race and Disabled Histories in France”,  
em seu discurso na Primeira Conferência Tran-  
satlântica. Destacando a situação colonial de  
alguns continentes, ela ressaltou a centralidade  
da história colonial da França e dos EUA, onde  
utilizavam termos como ‘história esquecida’,  
‘buraco de memória’ e ‘amnésia coletiva’ (Stoler,  
2011). Dentro desse contexto, a situação colo-  
nial possui o sentido de esquecimento, apaga-  
mento de um determinado contexto histórico,  
por isso, podemos usar termos como ‘amnésia  
colonial’ e ‘amnésia histórica’, ambos referin-  
do-se à ausência de migração da historiografia  
sobre o período colonial (Stoler, 2011).  
A expressão “afasia colonial” passa a ser  
utilizada para problematizar a situação da Fran-  
ça moderna, por manter o colonialismo e re-  
produzir relações de dominação. Apesar disso,  
conserva-se um tipo de esquecimento, deslo-  
camento e ocultamento proposital da história  
colonial. Por fim, a autora destaca que o termo  
afasia colonial não é um fenômeno restrito à  
França, já que podemos analisar outras expe-  
riências de países que passaram por processos  
de colonização e que apagam ou esquecem  
como esse passado feriu e ainda prolifera no  
presente (Stoler, 2011).  
Dessa forma, Anievas, Manchanda e Shil-  
liam (2015) fazem uma analogia sobre ficção e  
realidade para explicar que a disciplina conser-  
va um esquecimento proposital sobre o papel  
da raça e a produção do racismo. Eles afirmam  
que as Relações Internacionais (RI), no siste-  
ma internacional, funcionam como se estives-  
sem no enredo de um filme, no qual se supõe  
que tenham caído acidentalmente, batido a  
cabeça e, por isso, esquecido o passado racista  
(Anievas, Manchanda e Shilliam, 2015). Essa  
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analogia com a ambientação de cinematografia  
critica o modo como a disciplina adquire esse  
“distúrbio”, que, por outro lado, é falso. Assim,  
o esquecimento é calculado e fictício, pois fin-  
ge-se a queda e a batida na cabeça. Além dis-  
so, essa analogia descreve um cenário em que  
a afasia racial da disciplina é uma ficção que  
não pode ser considerada como amnésia, já que  
esta indica uma série de eventos que levam ao  
esquecimento sem intenção deliberada.  
e inclusão, romantizadas por acordos de coo-  
peração em diversas áreas — seja no âmbito  
doméstico ou internacional, como segurança,  
saúde, educação e direitos humanos — dentro  
de uma estrutura estatal que coloca todos como  
iguais perante a lei. Porém, dependendo da cor  
dos sujeitos que compõem esse “todos”, eles  
são inseridos à margem, onde há precarização  
no sistema de saúde, marginalização da cultu-  
ra musical, religiosa e culinária. Esses sujeitos  
também se tornam alvos centrais das políticas  
de morte — não importa quantas vezes se grite  
“eu não consigo respirar”, como George Floyd,  
ou quantas Marielles Franco sejam assassinadas  
por lutarem contra o genocídio da população  
negra. No campo das RI, a centralidade conti-  
nuará focada na política externa entre China e  
Brasil e seus desdobramentos.  
Enquanto a afasia racial indica um esque-  
cimento calculado, com a intenção de apagar o  
passado racista das RI, negando-o no presente  
— que também é racista — (Anievas, Man-  
chanda e Shilliam, 2015), essa dificuldade de  
reconhecer o passado eo presente racistas co-  
necta-se ao silêncio coletivo diante da conjun-  
tura de opressão, dominação e desigualdade nos  
órgãos internacionais e nos Estados. Apesar de  
professarem compromissos normativos e legais  
com a igualdade racial, continuam a produzir a  
estratificação racial que persiste nos países con-  
siderados em desenvolvimento (ompson,  
2015, p. 45, tradução livre).  
Concomitante a esse debate, os auto-  
res Bhambra et al. (2020), no artigo “Why Is  
Mainstream International Relations Blind to  
Racism?”, enfatizam alguns problemas relacio-  
nados à negação do papel da raça, frequente-  
mente negligenciado pela disciplina, como o  
racismo, a brutalidade policial e a continuação  
do colonialismo. De fato, esses problemas evi-  
denciam as dimensões da afasia racial, tanto na  
arquitetura da política internacional quanto  
na própria disciplina. Os autores referem-se  
à presença negada do racismo na disciplina e  
ao colonialismo como elemento perpetuado.  
Por isso, consideram que Westfália não deveria  
marcar o nascimento dos Estados modernos,  
mas sim o colonialismo (Bhambra et al., 2020).  
Neste caso, o colonialismo representa “um  
Dessa forma, entende-se que o acome-  
timento da afasia racial pela disciplina de RI  
afeta também os pesquisadores da área, que  
se omitem em discutir a questão racial e dão  
centralidade a assuntos mainstream. Conse-  
quentemente, suas análises críticas tornam-se  
fragilizadas, ao ponto de entenderem a política  
internacional sob um único ângulo eurocêntri-  
co. Além da comunidade acadêmica, a afasia  
racial também acomete os órgãos internacio-  
nais e suas entidades, bem como as instituições  
estatais, tornando-as cada vez mais “daltôni-  
cas”, ou seja, com dificuldade de perceber ou  
distinguir cores e suas singularidades.  
tipo de domínio trajado em política externa”,  
que, no entanto, deveria considerar seriamen-  
te os legados racializados sob as condições de  
discriminação (Bhambra et al., 2020, p. 18).  
Esse domínio colonial continuado — que pro-  
O daltonismo, nesse sentido, é utilizado  
para problematizar a falsa ideia de democracia  
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move formas de discriminação negadas e, por  
sua vez, legalizadas pela disciplina — insere-se  
como obstrução calculada do discurso, ou seja,  
como impedimento premeditado da circulação  
da mensagem sobre os problemas gerados pelos  
processos racializados. Essa obstrução é uma  
disfunção causada pela afasia racial. Para além  
disso, os autores consideram como negligên-  
cia a omissão da disciplina sobre esses aspectos  
e apontam o racismo intelectual como efeito  
desse problema. Contudo, entende-se que o  
racismo intelectual não abarca todos os fatores  
relacionados à omissão da disciplina.  
as entende como produtos construídos a partir  
das experiências (Zvobgo e Loken, 2020). Ou  
seja, essa corrente teórica parte da premissa de  
que as instituições autoritárias devem ser aboli-  
das para que o Estado perca seu poder e autori-  
dade sobre os indivíduos, visando uma socieda-  
de formada por associações livres e voluntárias.  
No entanto, a raça continua sendo um tema  
isolado e distante da realidade do campo, o que  
evidencia o crescente acometimento da afasia  
racial pela disciplina de RI. Na seção seguinte,  
evidenciaremos a categoria político-cultural da  
amefricanização como cura e resistência à afasia  
racial na disciplina, além de pontuar suas con-  
tribuições para o campo.  
Por outro lado, a afasia racial evoca a ideia  
de negação — do racismo, do colonialismo, da  
dominação e do eurocentrismo. Assim, o ra-  
cismo intelectual é um grande problema, mas  
representa apenas uma das dimensões da afasia  
racial. A afasia racial também se manifesta no  
campo teórico das RI, causando um esqueci-  
mento calculado com o objetivo de apagar o  
passado/presente racista da disciplina. Os auto-  
res Zvobgo e Loken (2020) problematizam esse  
campo teórico, afirmando que algumas teorias,  
ao conservarem o racismo, revelam seu enraiza-  
mento no eurocentrismo — como a teoria do  
liberalismo. Esta foi construída sob uma base  
eurocêntrica e, por isso, justificou o imperialis-  
mo branco, o que não é amplamente reconheci-  
do no campo das RI (Zvobgo e Loken, 2020).  
Como mencionado anteriormente, o “im-  
3 AMEFRICANIZANDO AS  
RELAÇÕES INTERNACIONAIS:  
TRATANDO A AFASIA RACIAL  
DA DISCIPLINA ATRAVÉS  
DA RESISTÊNCIA ÁFRICA-  
AMÉRICA LATINA E CARIBE  
Delinear como a categoria político-cultu-  
ral da amefricanidade pode curar e possibilitar  
outros vieses de resistência contra a afasia ra-  
cial na disciplina de RI é a principal discussão  
desta seção. Para tanto, iniciaremos contextua-  
lizando o debate apresentado pela autora Lélia  
Gonzalez, que resgata as problemáticas sobre  
os efeitos do imperialismo, marcado pela pro-  
dução acadêmica branca e colonialismo, como  
discutido na seção anterior, os quais estão im-  
bricados no conceito de afasia racial. A autora  
propõe a categoria político-cultural da amefri-  
canidade como uma ‘cura’. Na obra intitulada  
“A categoria político-cultural de amefricani-  
dade”, publicada em 1988, Gonzalez debate  
a relação entre imperialismo e colonialismo,  
afirmando que ambos são elementos contínuos  
perialismo branco” refere-se à ideia de império  
justificado pela crença de uma raça superior,  
utilizada para legitimar as “missões civilizado-  
ras” contra outras raças. Dessa forma, os au-  
tores também criticam o construtivismo, que,  
embora possa ser utilizado para analisar contex-  
tos diversos sobre questões raciais e as práticas  
promovidas pelo racismo, não centraliza as de-  
sigualdades e divisões causadas pela raça, e sim  
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na estrutura social do Brasil, resultando no ra-  
cismo. Ela conceitua o racismo como a própria  
ciência da superioridade eurocristã (Gonzalez,  
1988, p. 71).  
durante a era do imperialismo em zoológicos  
humanos e as fazendas de reprodução humana  
na América do Norte, nas quais os não brancos  
eram equiparados a animais reprodutores (Au-  
tor, 2024).  
A autora destaca que a ciência é insepa-  
rável da posição de superioridade eurocristã, a  
imposição forçada do catolicismo e a violên-  
cia europeia de apropriação, que foram trans-  
formadas em conhecimento, sob a ótica do  
positivismo. A relação entre esses elementos,  
para a classificação, é chamada pela autora de  
‘triádicas’ do evolucionismo, as quais deram  
origem às diversas ciências humanas. Ou seja,  
essa ciência positivista, que transformou essas  
‘triádicas’ em conhecimento tido como verdade  
universal, utilizou o método científico da ob-  
servação, experimentação e estratificação nos  
não-brancos, com o objetivo de explicar fenô-  
menos naturais e sociais.  
Nesse sentido, há duas formas de enten-  
der essa triádica. A primeira refere-se ao pró-  
prio conceito da palavra, que iguala “triádica”  
a “tríade”, ou seja, um determinado fenômeno  
composto por três elementos, sendo intima-  
mente ligado a um conjunto que possui inte-  
rações (Oxford, 2025). Além disso, triádicas  
também pode representar uma tipicidade para  
formar um conceito central, seja de grupos de  
três partes, estruturas com três partes ou rela-  
ções entre três elementos (Oxford, 2025). A  
segunda forma de entender sua conceituação  
é mencionada pela autora no debate sobre os  
efeitos da ‘superioridade acadêmica ocidental’  
(Gonzalez, 1988).  
Dentro desse raciocínio, entendemos que  
foi essa mesma ciência, enquanto ferramenta  
de poder, que, por ser universalizada, foi usada  
para classificar e nomear, marcando um novo  
contexto na história da humanidade. Esse pro-  
cesso originou as disciplinas voltadas para o  
‘homem’, como disciplina para estudar o ser  
humano, suas relações com a sociedade, com  
a cultura e com o ambiente, como as discipli-  
nas de história, filosofia, geografia, antropolo-  
gia, etc. No entanto, as fontes primárias desse  
conhecimento, na verdade, funcionaram como  
um laboratório de observação, classificação e  
experimentação dos seres humanos não bran-  
cos. Por exemplo, os não brancos foram classi-  
ficados como selvagens, não humanos, justifi-  
cando-se pela teoria darwinista da evolução das  
espécies (Gonzalez, 1988). Outros exemplos  
incluem a teoria do criminoso nato, presente  
em Luomo Delinquente de Cesare Lombro-  
so, as exposições animalizadas dos africanos  
Neste caso, o racismo é o eixo de produ-  
ção do conhecimento, sendo a própria ciência  
que utilizou a ideia de superioridade da heran-  
ça do colonialismo, com dominação econômi-  
ca e cultural, além da exploração de territórios  
e populações não brancas, para a expansão e  
desenvolvimento do projeto colonial, contro-  
lando esses outros territórios e povos. Este de-  
bate dialoga com a concepção de Henderson  
(2015), que entende que o campo teórico das  
RI foi formado por/para supremacistas bran-  
cos, que tornaram a disciplina uma contínua  
reprodução do colonialismo racional, elevando  
hierarquias entre raças, justificadas intelectual-  
mente pelo imperialismo e pelo conceito do  
“fardo do homem branco” (Henderson, 2015,  
p. 20).  
Ou seja, essa confluência sobre a disci-  
plina do colonialismo racional, que provoca  
hierarquias entre raças, em que a raça branca é  
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justificada como superior através da sua ‘capa-  
cidade intelectual’, representa a cumplicidade  
da disciplina com o problema da linha global  
de cores, em que, apesar de a raça ter exercido  
um papel central no desenvolvimento econô-  
mico e político nas relações internacionais, a  
disciplina omite e nega essa centralidade.  
Dessa forma, Gonzalez (1988) não apenas  
aponta o discurso como ferramenta de legiti-  
mação estrutural, como também denuncia sua  
relação com a racionalidade construída pela  
ciência ocidental dominante contra os povos  
não brancos. Sendo assim, a amefricanidade é  
proposta como um tratamento para a afasia ra-  
cial, por ser uma categoria bidimensional que  
resgata as lutas e resistências dos movimentos  
sociais nos espaços político e cultural, forma-  
dos pelas vivências, experiências e memórias do  
encontro colonial entre três continentes: Áfri-  
ca, Europa e América Latina.  
Nesse sentido, “omissão-negação” são ter-  
mos compostos utilizados para evidenciar a  
atuação da disciplina, sendo ambos frutos do  
efeito da dominação do supremacismo branco  
e do dualismo racial. O primeiro termo marca a  
imposição da superioridade institucionalizada;  
o segundo representa as formas violentas utili-  
zadas para diferenciar as raças. Essa forma de  
diferenciar as raças assemelha-se muito à lógi-  
ca da catalogação, referindo-se à marca, e, por  
isso, ao ato de catalogar o outro — aquele que  
era animalizado, objetificado ou demonizado  
como menos humano. Essas formas de catalo-  
gação foram influenciadas por imaginários so-  
bre o inferior, o incivilizado, o não humano, o  
ser sem alma, etc. Assim como esses imaginários  
foram inseridos no campo teórico da disciplina  
de Relações Internacionais, também foram in-  
corporados à antropologia, filosofia, sociologia,  
entre outras áreas, representando o que a autora  
chama de “superioridade acadêmica ocidental”.  
Os autores Zvobgo e Loken (2020) reafir-  
Porém, antes de descrever essas duas di-  
mensões da categoria, é importante destacar que  
a autora apresenta a amefricanidade como uma  
categoria político-cultural criada para confron-  
tar a posição imperialista e o domínio cultural  
da América do Norte, intervindo contra a repro-  
dução inconsciente da ideia de que só existiriam  
negros — e a luta negra — nos Estados Unidos,  
e não em outros continentes (Gonzalez, 1988).  
Essa intervenção contra o domínio ocidental  
está representada no próprio conceito da cate-  
goria, que a autora menciona como a unificação  
da palavra “ame”, de América, neste caso, refe-  
rindo-se à América Latina e ao Caribe, somada  
à palavra “fricanidade”, que faz alusão à relação  
com a África. Ou seja, a amefricanidade, a prio-  
ri, seria uma forma de confrontar o colonialis-  
mo cultural da América do Norte sobre outras  
culturas, apagando a existência e as lutas dessas  
outras populações negras e latinas. Além disso,  
entendemos que essa categoria é bidimensional,  
podendo ser operacionalizada como uma ferra-  
menta para a reconstrução do corpo teórico da  
disciplina, resgatando as lutas dos movimentos  
sociais nas dimensões política e cultural.  
mam essa “omissão-negação” da raça nas Rela-  
ções Internacionais como evidência do domínio  
ocidental e do privilégio branco na conjuntura  
da política internacional. Isso contribui para a  
criação de dinâmicas racistas no campo teórico,  
representando a predominância da afasia racial  
na disciplina — o que justifica o distúrbio na  
comunicação que afeta a compreensão e a pro-  
dução da linguagem, neste caso, em relação à  
centralidade da raça nos processos constituti-  
vos da disciplina (ompson, 2015).  
Na dimensão política, a amefricanidade  
constrói o processo de tratamento da afasia  
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racial a partir das intervenções contra a conti-  
nuação do imperialismo ocidental nas estrutu-  
ras institucionais, por meio das lutas dos movi-  
mentos sociais, que reivindicam mudanças na  
sociedade. Por exemplo, o Movimento Negro  
Unificado (MNU), no qual Lélia Gonzalez foi  
ativista, organizou a luta contra a ditadura mi-  
litar, reivindicando a participação do povo ne-  
gro na sociedade brasileira, requerendo direitos  
civis e representação política. Além disso, con-  
frontaram o Estado brasileiro para viabilizar  
sanções contra atos de racismo, preconceito de  
cor ou qualquer prática de discriminação e for-  
mas de exploração (Movimento Negro Unifica-  
do, 2006). De fato, o MNU representa a luta  
pela ascensão dos povos negros e afrodescen-  
dentes, para ‘torná-los’ brasileiros (‘nacionais’),  
afastando-os da figura do escravo, de modo que  
pudessem acessar os direitos básicos para a so-  
brevivência.  
Além disso, essa primeira dimensão políti-  
ca para o tratamento da afasia racial na discipli-  
na de Relações Internacionais também possi-  
bilita a evocação dos movimentos de luta e das  
intervenções epistêmicas de protagonismo da  
África. Isso porque, na amefricanidade, a par-  
te “frica” resgata o sentido de “africanidade”,  
que representa elementos históricos, culturais  
e identitários como signos de pertencimento  
à África e seus povos. Esse resgate da africani-  
dade descentraliza a ideia de ‘universalização’  
imposta pela superioridade europeia, inverten-  
do a lógica do ‘uni’, de ‘único’, pelo ‘pluri’, de  
‘pluriversal’, mostrando que o conhecimento  
está presente em múltiplos mundos, a partir  
de outras histórias, memórias e vivências. Essa  
inversão da lógica do ‘uni’ para o ‘pluri’ desmis-  
tifica não apenas a posição em que esse ‘outro’  
foi colocado como não humano, incivilizado,  
bárbaro, etc., mas também descentraliza o do-  
mínio do conhecimento pelo Ocidente, em sua  
tentativa de conceituar, definir e classificar ou-  
tras formas de vida humana e suas lutas.  
Outro exemplo de movimento social que  
representa essa dimensão política da amefrica-  
nidade é o Movimento das Mulheres Campo-  
nesas (MMC), organizado na década de 1980  
por diversos outros movimentos de mulheres  
agricultoras espalhadas pelas diferentes regiões  
da América Latina (Radin e Corazza, 2018).  
Esse movimento se insere como uma resistên-  
cia representativa por meio do cotidiano das  
mulheres campesinas na luta pelo cuidado da  
natureza, pelo direito à terra e pelo direito à  
sobrevivência. Ambos os movimentos sociais  
apresentaram formas de resistência que resul-  
taram em efeitos contra a continuidade do co-  
lonialismo, a violência de gênero, a educação  
para negros, afrodescendentes, mulheres e mo-  
radores do campo, além de tornarem o racismo  
um crime. Por isso, eles se inserem como for-  
mas de amefricanizar a disciplina de Relações  
Internacionais.  
Alguns exemplos que evidenciam essa pri-  
meira dimensão da amefricanidade no resgate  
dos movimentos políticos e sociais no conti-  
nente africano são os seguintes: o movimento  
Anti-Apartheid na África do Sul, liderado por  
Nelson Mandela. Suas lutas centralizaram-se  
contra o sistema político totalitário de discri-  
minação racial, espacial, jurídico, político, eco-  
nômico e cultural (Pinto, 2007). Esses sistemas  
políticos totalitários começaram em 1487, com  
a chegada da colonização portuguesa, lidera-  
da por Bartolomeu Dias. Diversos grupos de  
negros africanos pertencentes aos povos bos-  
químanes, khoikhoi, xhosas, sans e zulus tor-  
naram-se escravos e mercadorias no vínculo  
comercial entre portugueses, holandeses, fran-  
ceses e alemães no século XVII (Pinto, 2007).  
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Além do movimento Anti-Apartheid na  
África do Sul, muitos outros movimentos que  
surgiram no continente africano espelham lu-  
tas e intervenções contra o domínio europeu,  
pela preservação ambiental e proteção da ter-  
ra. Por exemplo, o movimento das mulheres  
da Nigéria contra o “Delta Níger” (conflito do  
Delta do rio Níger), que se iniciou no pós-in-  
dependência da Nigéria em 1960. O conflito  
no Delta teve início depois que as descobertas  
de enormes jazidas de petróleo, em 1973, co-  
locaram a Nigéria no contexto da política eco-  
nômica mundial, com disputas pelo domínio  
de regiões entre os Estados (Moura, 2015). Isso  
desencadeou as lutas de resistência das mulhe-  
res nigerianas contra a exploração petrolífera e  
a degradação ambiental.  
por meio da luta armada, combatia o colonia-  
lismo europeu (Gonzalez, 1988). Amílcar Ca-  
bral, em seu movimento anticolonial, demons-  
trou, por meio da luta armada, que os povos  
da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, ambos na  
África, precisavam negar, com urgência, a his-  
tória do povo dominante.  
Negar esse domínio significava combater a  
usurpação violenta da liberdade dos povos co-  
lonizados. Gonzalez (2021) também relembra  
Cheikh Anta Diop, a respeito dos conhecimen-  
tos das civilizações africanas, e os escritos de Fi-  
lomena Chioma Steady sobre gênero na África  
Ocidental (Gonzalez, 2021). A partir dessas  
releituras, a autora constrói seu pensamento  
sobre a relação entre América Latina e África  
como sendo continentes inseparáveis, sobretu-  
do pela semelhança cultural entre ambos.  
A amefricanidade, portanto, é uma ca-  
tegoria que, além de resgatar a memória das  
relações entre África e América Latina — re-  
lações construídas pelo deslocamento forçado  
dentro do sistema escravista internacional, que  
formou a diáspora negra — também reafirma a  
aproximação inseparável entre esses continen-  
tes, especialmente por meio dos movimentos  
artísticos e culturais. Assim, entendemos que  
a cultura representa a segunda dimensão que  
evidencia como a amefricanidade atua no en-  
frentamento à afasia racial na disciplina de RI,  
combatendo o esquecimento calculado e o  
apagamento histórico dos povos não brancos,  
e, portanto, lutando contra o racismo presente  
no campo. Além disso, a amefricanidade ques-  
tiona o dualismo racial que estabelece uma  
separação (invisível, porém perceptível) entre  
esses povos.  
Por fim, o movimento chamado “Y’en a  
Marre” (Já Basta), liderado pela juventude se-  
negalesa, se posicionou contra as ações incons-  
titucionais do presidente Abdoulaye Wade,  
que queria permanecer no poder por meio da  
retirada dos processos eleitorais democráticos  
no Senegal, em 2011 (Nader e Aidoo, 2015).  
Nota-se que a amefricanidade transforma esses  
movimentos políticos de lutas e resistências em  
insurgências na gramática da política interna-  
cional, revelando outros tipos de relações que  
a disciplina de Relações Internacionais tende a  
omitir, por estar acometida pela afasia racial e  
por direcionar sua centralidade ao Ocidente.  
Dessa forma, esses movimentos sociais e  
políticos de resistência também nos orientam a  
traçar novos caminhos para pensar que discipli-  
na de RI queremos construir, considerando que  
ainda compactuamos com processos oriundos  
da experiência colonial. Lélia Gonzalez propõe  
uma visão semelhante ao defender o anticolo-  
nialismo presente nas produções de Amílcar  
Cabral, compreendendo que a independência,  
Nesse sentido, o aspecto cultural represen-  
ta a necessidade de centralizar os movimentos  
culturais afro-latinos, compreendendo a cultu-  
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ra como a própria identidade desses povos, que  
se conectam por meio das relações estabeleci-  
das pelo fluxo diaspórico. A própria categoria  
“amefricanidade”, quando separada silabica-  
mente, permite identificar as palavras “ame” e  
“frican”, que, ao serem unidas pela terminação  
“idade”, remetem à noção de “identidade”. Essa  
identidade, por sua vez, é usada para delinear as  
características únicas dos povos africanos e lati-  
no-americanos. Assim, a identidade a partir da  
amefricanidade reafirma a noção de identidade  
como libertação, como no movimento antico-  
lonial de Amílcar Cabral — sendo essa liber-  
tação a representação das produções culturais,  
do modo de vida e dos ancestrais desses povos.  
Segundo Lélia Gonzalez (1988), essa cul-  
tura passa por um processo de segregação racial  
devido à herança do colonialismo. A autora  
aponta que os brancos mantêm um “esforço  
contínuo para preservar sua ‘pureza’ e reafirmar  
sua ‘superioridade’, tornando a segregação uma  
solução contra os grupos não brancos” (Gon-  
zalez, 1988, p. 70). Ou seja, a cultura branca  
era aceita por ser considerada pertencente à  
raça superior, enquanto a cultura dos não bran-  
cos era vista como exótica, inferior, animales-  
ca etc., revelando que essa cultura identitária  
foi moldada por elementos de dominação e  
segregação. O mesmo ocorre no campo das  
Relações Internacionais, onde o debate sobre  
cultura é quase inexistente, sendo, em alguns  
casos, abordado de forma isolada, apenas para  
interpretar políticas externas específicas entre  
Estados.  
dimensão cultural, combatem o esquecimento  
calculado e o apagamento histórico dos povos  
não brancos no campo, promovendo, a par-  
tir das experiências da diáspora entre África e  
América Latina, novas formas de análise para  
as Relações Internacionais. Além disso, essa di-  
mensão cultural atua contra o dualismo racial  
que impõe uma separação (invisível, mas per-  
ceptível) entre esses povos, protagonizando sua  
própria resistência. Por isso, essa dimensão cul-  
tural da amefricanidade funciona como uma  
denúncia contra qualquer forma de discrimi-  
nação racial e é também um mecanismo social  
que viabiliza elementos para combater a ma-  
nutenção da diferença colonial, representando  
uma ruptura com o paradigma de dominação  
ocidental presente na disciplina (Grosfoguel,  
2011; Mignolo, 2015).  
Como exemplo de movimentos culturais  
que manifestam lutas e resistências, destacamos  
o Teatro Experimental do Negro (TEN), sob  
a liderança de Abdias do Nascimento e com a  
participação de Lélia Gonzalez. O TEN surgiu  
em 1944, no Rio de Janeiro, com o objetivo de  
promover a “valorização social do negro e da  
cultura afro-brasileira por meio da educação e  
da arte, com uma estética própria e não uma  
cópia estrangeira” (Fundação Cultural Palma-  
res, 2023, p. 3). Nota-se que a criação do TEN  
se caracteriza como uma denúncia contra a au-  
sência do protagonismo negro, bem como da  
discussão sobre os temas relacionados à popula-  
ção negra e seus desafios na sociedade brasilei-  
ra. Ou seja, o TEN representa uma ferramenta  
que pode ser utilizada para analisar a estrutura  
política do Brasil no contexto das relações in-  
ternacionais.  
Desse modo, a segunda dimensão da  
amefricanização das Relações Internacionais  
centraliza-se em movimentos culturais que ma-  
nifestam lutas e resistências por meio de peças  
teatrais, obras de arte, música, poesia ou pro-  
duções cinematográficas. Esses elementos, da  
Outro exemplo de movimento cultural foi  
o movimento Rastafári, que ganhou notorieda-  
de em várias partes do mundo através das músi-  
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cas do cantor e compositor jamaicano Bob Mar-  
ley. Nascido em 1945, em um vilarejo rural da  
Jamaica, ilha localizada no Caribe, Marley utili-  
zava suas letras e melodias para narrar histórias  
sobre os movimentos migratórios caribenhos,  
deslocando os sentidos de fronteiras culturais e  
étnicas (Rabelo, 2017). Assim, reafirmava as di-  
ficuldades enfrentadas pelos migrantes, denun-  
ciando as atrocidades deixadas pela colonização  
em suas terras, como a escravidão, as violações  
ambientais e as desigualdades às quais os povos  
negros são submetidos. Na música Redemption  
Song, por exemplo, ao cantar “Velhos piratas,  
sim, eles me roubaram, me venderam para na-  
vios mercantes”, Marley critica a escravidão em  
seu contexto mais brutal.  
algumas fontes as classifiquem como design ar-  
tístico tribal, as máscaras africanas transcendem  
essa definição, pois envolvem formas e histórias  
transversalizadas pelos caminhos fluviais das  
águas atlânticas, marcados por relações inter-  
nacionais comerciais e políticas. Na exposição  
intitulada Máfricas: As Áfricas do MAFRO, as  
máscaras representam o ensino e a cultura den-  
tro de quatro núcleos temáticos — entre eles,  
linguagens, mulheres e afrofuturismo — no  
Museu Afro-Brasileiro (MAFRO), localizado  
no Centro Histórico (Pelourinho) da cidade de  
Salvador, BA.  
Essas máscaras são descritas como “mani-  
festações de forças invisíveis, usadas em ritos  
agrários, funerários ou de iniciação, rememo-  
rando mitos e outras tradições, por meio de  
suas formas, movimentos, cores e materiais”  
(Museu Afro-Brasileiro, 2025). Ou seja, essas  
máscaras africanas fazem parte do acervo da  
Coleção de Cultura Material Africana e estão  
diretamente ligadas aos contextos africanos en-  
volvendo ancestralidade, linguagens e saberes  
(Museu Afro-Brasileiro, 2025).  
Ainda sobre a vida do artista, o interesse  
pela situação migratória no Caribe está liga-  
do à sua própria experiência de fuga, quando  
emigrou para os Estados Unidos em busca de  
oportunidades para sobreviver e investir em  
sua carreira musical. No entanto, seu período  
no exterior não durou muito, já que retornou  
à Jamaica ao escapar da possibilidade de ser en-  
viado à Guerra do Vietnã (Rabelo, 2017). As  
narrativas contadas por Bob Marley podem ser  
utilizadas para amefricanizar as Relações Inter-  
nacionais, pois se baseiam nas experiências mi-  
gratórias caribenhas, destacando como as estru-  
turas estatais tratam os imigrantes não brancos  
como objetos de estratificação social voltados  
à exploração da mão de obra. Trata-se de uma  
das temáticas mais debatidas no campo das RI,  
mas que, assim como a questão racial, ainda é  
pouco abordada no que se refere à situação mi-  
gratória no Caribe.  
Elas fornecem caminhos para a educação  
sobre a história da África enquanto patrimônios  
de representatividade das tradições de países do  
continente africano, como Nigéria e Benim. As  
máscaras africanas são representações artísticas  
que contribuem tanto para o conhecimento da  
África em contextos ancestrais e mitológicos  
quanto para o resgate de formações econômi-  
cas, sociais e imperiais nas relações com outros  
continentes — constituindo, assim, caminhos  
epistêmicos para amefricanizar o campo das  
RI. Partindo desses pressupostos, tanto a di-  
mensão política quanto a dimensão cultural  
possibilitadas pela amefricanidade atuam na  
cura da afasia racial da disciplina de Relações  
Internacionais, viabilizando e construindo no-  
Por fim, destacamos uma última forma de  
arte que pode ser compreendida como movi-  
mento cultural voltado à amefricanização das  
RI: as máscaras ritualísticas africanas. Embora  
173 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.158 - 175, fev. 2025  
vas gramáticas para a análise da questão racial  
no campo. Como escreveu Frantz Fanon: “re-  
sistir no presente às consideradas coisas do pas-  
sado” (Fanon, 2008, p. 99, grifo nosso).  
Nesse contexto, entendemos que a catego-  
ria político-cultural da amefricanidade, cunha-  
da por Lélia Gonzalez, pode ser um caminho  
para tratar a afasia racial da disciplina, por  
meio de sua bidimensionalidade, que resgata as  
lutas e resistências dos movimentos sociais nos  
espaços político e cultural, contrapondo o do-  
mínio ocidental na produção do conhecimento  
e conferindo centralidade aos saberes da África,  
América Latina e Caribe. Essa categoria pode  
amefricanizar a disciplina de RI por meio da  
dimensão política, ao compreender as lutas dos  
movimentos sociais como intervenções contra  
a continuidade do imperialismo ocidental nas  
estruturas institucionais, que reivindicam mu-  
danças profundas na sociedade. Como exem-  
plos, podemos citar o Movimento Negro Uni-  
ficado (MNU) e o Movimento das Mulheres  
Camponesas (MMC) na América Latina, o  
movimento de mulheres na Nigéria contra a  
exploração no Delta do Níger, e o movimen-  
to da juventude senegalesa Y’en a Marre, am-  
bos no continente africano. Por outro lado, na  
dimensão cultural, é possível amefricanizar as  
RI por meio dos movimentos culturais que en-  
frentam o apagamento histórico dos povos não  
brancos, a hierarquização racial — também  
presente no campo teórico — e as diversas for-  
mas de racismo. Entre os exemplos, destacam-  
-se o Teatro Experimental do Negro (TEN), o  
movimento Rastafári (através das músicas de  
Bob Marley) e as máscaras ritualísticas africa-  
nas, que representam histórias transversalizadas  
pelas águas atlânticas.A partir dessas releituras,  
compreendemos que a amefricanidade é uma  
categoria que, além de resgatar a memória das  
resistências e das relações entre África e Améri-  
ca Latina, viabiliza formas emancipatórias den-  
tro do campo das Relações Internacionais.  
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS  
Como foi apresentado ao longo do traba-  
lho, a expansão do colonialismo representou o  
surgimento de novos processos racializados que  
institucionalizaram a violência sob ideologias  
imaginárias, baseadas na concepção da raça como  
validação de uma suposta superioridade, a partir  
da diferença fenotípica. Essa diferença constituiu  
linhas globais condicionadas pela cor da pele, de-  
finindo formas, padrões e direções nas relações  
entre o homem branco e os não brancos, espe-  
cialmente nos contextos intercontinentais entre  
Europa, África e América Latina. Diante desse  
cenário, o campo de estudo das Relações Interna-  
cionais (RI) permanece omisso em relação à raça  
e seus desdobramentos, o que representa uma li-  
mitação teórica para analisar o cenário da política  
internacional entre países, organizações interna-  
cionais e demais atores globais. Essa omissão-  
-negacionista resulta de dois fatores principais: o  
primeiro é o supremacismo branco, que repre-  
senta a dominação ideológica tanto na criação  
da disciplina quanto em suas áreas temáticas; o  
segundo é o dualismo racial, que cristaliza imagi-  
nários hierárquicos e promove a interiorização da  
inferioridade das raças não brancas, estabelecen-  
do uma separação entre os povos. Dessa forma,  
compreendemos que o campo da disciplina sofre  
com a afasia racial, que produz um esquecimen-  
to calculado — um fingimento de esquecimento  
do seu histórico racista — e nega a existência do  
racismo no contexto atual, ao mesmo tempo em  
que silencia sobre a questão racial e dá centrali-  
dade apenas a temas considerados mainstream.  
174 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.158 - 175, fev. 2025  
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176 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte,  
ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.176 - 178, fev. 2025  
176 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.176 - 178, fev. 2025  
Artigo  
Governança climática em perspectiva:  
reflexões a partir da obra “Das Negociações  
do Clima ao Clima das Negociações”  
Climate governance in perspective: reflections based on the book “Das Negociações do  
Clima ao Clima das Negociações”  
Gobernanza climática en perspectiva: reflexiones basadas en el trabajo “Das Negociações  
do Clima ao Clima das Negociações”  
Mariana Ferreira Torres1  
Recebido em: 21 de outubro de 2025  
Aceito em: 27 de outubro de 2025  
RESUMO  
Nesta resenha sobre o livro “Das Negociações do Clima ao Clima das Negociações: a  
governança ambiental de Quioto a Paris”, da autora Mariana Balau Silveira, publicado  
em 2023, é feita uma reflexão sobre a relevância da obra para os estudos das negociações  
climáticas no âmbito das Conferências das Partes (COPs) da Convenção-Quadro das  
Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (CQNUMC). As Conferências analisadas  
pela autora são a COP 3, a COP 15 e a COP 21, realizadas em 1997, 2009 e 2015,  
respectivamente, e um dos principais aspectos da obra é a ênfase dada ao papel das  
presidências dos países sedes nos processos de negociação.  
Palavras-chave: Governança ambiental global; negociações internacionais; presidência;  
liderança; Conferências das Partes.  
ABSTRACT  
is review of the book “Das Negociações do Clima ao Clima das Negociações: a governança  
ambiental de Quioto a Paris”, by Mariana Balau Silveira, published in 2023, reflects on  
the relevance of the work to the study of climate negotiations within the Conferences of  
the Parties (COPs) of the United Nations Framework Convention on Climate Change  
(UNFCCC). e Conferences analyzed by the author are COP 3, COP 15, and COP 21,  
held in 1997, 2009, and 2015, respectively, and one of the main aspects of the work is the  
emphasis given to the role of the presidencies of the host countries in the negotiation processes.  
Key-words: Global environmental governance; international negotiations; presidency;  
leadership; Conference of the Parties  
RESUMEN  
Esta reseña del libro “Das Negociações do Clima ao Clima das Negociações: a governança  
ambiental de Quioto a Paris”, de Mariana Balau Silveira, publicado en 2023, reflexiona  
sobre la relevancia de la obra para el estudio de las negociaciones climáticas en el marco  
1 Doutoranda em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Mestre e Bacharel em Relações  
Internacionais. ORCID: https://orcid.org/0009-0000-1864-3344. Contato: marianaftorres22@gmail.com.  
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de las Conferencias de las Partes (COP) de la Convención Marco de las Naciones Unidas  
sobre el Cambio Climático (CMNUCC). Las conferencias analizadas por la autora son  
la COP 3, la COP 15 y la COP 21, celebradas en 1997, 2009 y 2015, respectivamente,  
y uno de los aspectos principales del trabajo es el énfasis que se otorga al papel de las  
presidencias de los países anfitriones en los procesos de negociación.  
Palabras-clave: Gobernanza ambiental global; negociaciones internacionales; presidencia;  
liderazgo; Conferencia de las Partes.  
A obra Das Negociações do Clima ao Cli-  
ma das Negociações: a governança ambiental de  
Quioto a Paris é fruto da tese de doutorado da  
autora Mariana Balau Silveira, defendida em  
2019 na PUC Minas. Publicada pela Editora  
Dialética, em 2023, e indicada ao Prêmio Jabuti  
Acadêmico, em 2024, a obra se apresenta como  
uma contribuição relevante para o estudo das  
negociações climáticas internacionais, especial-  
mente no contexto da evolução da governança  
climática entre as negociações do Protocolo de  
Quioto (1997) e do Acordo de Paris (2015). O  
objetivo da autora é analisar as negociações de  
três Conferências das Partes a partir da atuação  
de suas presidências, a fim de identificar sua re-  
levância e capacidade para exercer a liderança  
nas negociações. Deste modo, reflete sobre a  
COP 3 (Quioto, 1997), da COP 15 (Cope-  
nhague, 2009) e da COP 21 (Paris, 2015).  
A obra se estrutura em cinco capítulos,  
analítico da pesquisa. Ela aborda o Institucio-  
nalismo Neoliberal nas Relações Internacionais  
e também a estrutura das negociações interna-  
cionais. No quarto capítulo, Silveira desenvol-  
ve a análise das três COPs, que são conside-  
radas por ela como relevantes no processo das  
negociações globais da mudança do clima. É  
neste capítulo que reside a principal contribui-  
ção da obra.  
O livro apresenta diversas contribuições  
significativas. Em primeiro lugar, há uma ori-  
ginalidade na temática. Ao concentrar-se na  
presidência das COPs como um ator estratégico  
dentro das negociações, Silveira preenche uma  
lacuna na literatura da área, que normalmente  
enfatiza análises sobre blocos de países, metas de  
emissões ou aspectos econômicos dos acordos.  
Em segundo lugar, ao articular variáveis como  
liderança, transparência e capacidade de gestão,  
a autora demonstra rigor analítico e metodológi-  
co. Neste sentido, convém enfatizar que a autora  
entende que a presidência da COP teria o po-  
tencial de exercer liderança formal ou informal  
e influenciar elementos relacionados à organiza-  
ção dos processos da negociação. Silveira con-  
clui que o resultado de uma COP dependeria  
de cinco fatores: (1) o papel das superpotências  
sistêmicas; (2) a transparência nas negociações;  
(3) a elaboração e condução da agenda de nego-  
ciação; (4) a capacidade das partes de identificar  
possibilidades de acordo; e (5) a comunicação  
entre as múltiplas arenas que compõe o comple-  
xo de regime sobre a mudança do clima.  
sendo o primeiro a introdução e o último a  
conclusão. No segundo capítulo, a autora dis-  
cute a crise ambiental atual e as estratégias ins-  
titucionais para solucioná-la, dando ênfase à  
Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a  
Mudança do Clima (UNFCCC). Ainda neste  
capítulo, a autora discute o Regime Interna-  
cional sobre a Mudança do Clima (RIMC) e  
considera sua estrutura institucional como um  
“complexo de regime”, o que é determinante  
para a atuação das presidências das COPs. No  
terceiro capítulo, a autora se dedica a apresentar  
e discutir os conceitos que compõem o modelo  
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A relevância da obra torna-se ainda mais  
evidente quando analisada à luz do contexto  
atual, isto porque o Brasil e a comunidade inter-  
nacional se preparam para a realização da COP  
30. Esta Conferência ocorre em um momento  
de reavaliação do regime climático, uma vez que  
a insuficiência das metas de redução de emis-  
sões, a necessidade de operacionalizar fundos de  
adaptação e financiamento, e a crescente pre-  
sença de atores não estatais tornam o processo  
mais complexo e fragmentado. Assim, Silveira  
oferece elementos importantes para entender os  
desafios institucionais que ainda persistem na  
governança do clima. Vale ressaltar que a au-  
tora oferece lições valiosas ao evidenciar que o  
sucesso de uma conferência depende não ape-  
nas da qualidade dos compromissos assumidos,  
mas também do “clima” ou da forma como as  
negociações são conduzidas, presididas, das es-  
tratégias de mediação, da transparência dos pro-  
cessos, da condução das agendas e da credibili-  
dade dos atores envolvidos. Todos estes aspectos  
podem determinar se uma conferência resultará  
em impasse ou avanço. Ao elucidar essas ques-  
tões, a obra contribui para o entendimento de  
que enfrentar a mudança do clima é, antes de  
tudo, um exercício de diplomacia, liderança e  
cooperação. Deste modo, a obra apresenta uma  
relevância prática para além da acadêmica.  
volvida pela autora ajuda a compreender que  
esse movimento não foi apenas técnico, mas  
também político e diplomático.  
Em síntese, Das Negociações do Clima ao  
Clima das Negociações: a governança ambiental de  
Quioto a Paris é uma obra de grande valor para  
pesquisadores e profissionais das Relações Inter-  
nacionais e interessados em política ambiental  
internacional, pois incorpora uma densidade  
teórica a partir do Institucionalismo Neoliberal  
e da concepção de complexo de regimes a uma  
análise empírica detalhada dos mecanismos ins-  
titucionais da governança climática. Sua princi-  
pal inovação analítica está na ênfase conferida  
ao papel da presidência das COPs, compreendi-  
da não apenas como função administrativa, mas  
como um ator-chave no processo de mediação,  
negociação e construção de consenso entre os  
Estados e outros atores envolvidos. Dessa for-  
ma, ao elucidar o papel estratégico da presidên-  
cia das COPs e ao analisar com profundidade  
os desafios e avanços da governança climática  
de Quioto a Paris, a autora oferece uma lente  
crítica e interpretativa que revela o peso dos bas-  
tidores diplomáticos, das regras procedimentais  
e da habilidade de mediação no êxito ou fracas-  
so das conferências. Assim, Silveira entrega um  
estudo crítico, claro e altamente relevante para  
compreender os dilemas do enfrentamento glo-  
bal da mudança do clima, evidenciando que o  
“clima das negociações”, ou seja, o contexto po-  
lítico, institucional e simbólico no qual as con-  
ferências ocorrem, influencia para o seu sucesso  
tanto quanto o conteúdo técnico dos acordos.  
Neste sentido, a autora, ao comparar  
Quioto e Paris, demonstra como o regime  
climático evoluiu de um modelo mais rígido  
e juridicamente vinculante para um modelo  
mais flexível e baseado em compromissos vo-  
luntários, como as Contribuições Nacional-  
mente Determinadas (NDCs). Essa mudança,  
embora tenha ampliado a adesão internacional,  
também acabou por diminuir a força coercitiva  
dos acordos, sendo esta uma ambiguidade que  
a COP 30 precisará enfrentar. A análise desen-  
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179 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte,  
ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.179 - 181, fev. 2025  
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Resenha  
RESENHA: “The Russo-Ukrainian War: The  
Return of History”, de Serhii Plokhy  
REVIEW: “e Russo-Ukrainian War: e Return of History” by Serhii Plokhy  
RESEÑA: “La guerra ruso-ucraniana: el regreso de la historia” de Serhii Plokhy  
Enviado em: 14 de junho de 2024.  
Aceito em: 27 de junho de 2024.  
Marcelo Furtado Martins de Paula1  
RESUMO  
Com profundo entendimento da história da Europa Oriental, Plokhy fornece uma  
narrativa abrangente e complexa dos eventos que levaram à invasão russa da Ucrânia  
em 2022 e suas consequências. A obra se destaca pela pesquisa minuciosa, perspectiva  
equilibrada e capacidade de contextualizar o conflito dentro do quadro histórico, cultural  
e político mais amplo.  
Palavras-chave: Ucrânia; Rússia; Guerra; Identidade;  
ABSTRACT  
With a deep understanding of Eastern European history, Plokhy provides a comprehensive  
and complex narrative of the events leading up to the 2022 Russian invasion of Ukraine  
and its aftermath. e work stands out for its thorough research, balanced perspective, and  
ability to contextualize the conflict within the broader historical, cultural, and political  
framework.  
Keywords: Ukraine; Russia; War; Identity;  
RESUMEN  
Con un profundo conocimiento de la historia de Europa del Este, Plokhy proporciona una  
narrativa completa y compleja de los acontecimientos que condujeron a la invasión rusa de  
Ucrania en 2022 y sus consecuencias. La obra destaca por su investigación exhaustiva, su  
perspectiva equilibrada y su capacidad para contextualizar el conflicto dentro de un marco  
histórico, cultural y político más amplio.  
Palabras clave: Ucrania; Rusia; Guerra; Identidad;  
1 Mestre em Gestão e Resolução de Conflitos pela Universidade Hebraica de Jerusalém. Bacharel em Relações Internacionais pela  
PUC Minas. Contato: mfurtadom@gmail.com  
180 • Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.22 n.1, p.179 - 181, fev. 2025  
Meu primeiro contrato com a obra de  
Plokhy foi por meio de e Gates of Europe:  
e History of Ukraine. Indicação de uma ami-  
ga ucraniana, ela própria impactada pela abor-  
dagem inovadora e pelo estilo fluido e lúcido.  
Sem dúvidas uma obra magistral, obrigatória  
para qualquer pessoa que se interesse pela his-  
tória ucraniana.  
Plokhy começa traçando as raízes histó-  
ricas do conflito, explorando a relação com-  
plexa e muitas vezes contenciosa entre Rússia  
e Ucrânia. O autor explora os laços históricos  
que aproximam as duas nações, desde o estado  
medieval da Rus de Kyiv até a dissolução da  
União Soviética. Esse pano de fundo histórico  
é fundamental para entender os ressentimentos  
arraigados e os sentimentos nacionalistas que  
alimentaram o conflito.  
Serhii Plokhy é um historiador ucraniano  
e uma das maiores autoridades em história da  
Europa Oriental e da Ucrânia. Atualmente é  
professor de história ucraniana e diretor do Ins-  
tituto de Pesquisa Ucraniana na Universidade  
de Harvard.  
O autor detalha os eventos da anexação da  
Crimeia pela Rússia em 2014 e a guerra sub-  
sequente na região de Donbas. Ele destaca a  
resposta internacional, a imposição de sanções  
à Rússia e o fracasso dos esforços diplomáticos  
para resolver a crise. A análise sublinha a im-  
portância desses eventos como precursores da  
invasão em grande escala em 2022.  
Aquele primeiro contato estabeleceu um  
alto nível de expectativa para e Russo-Ukrai-  
nian War: e Return of History. Publicado  
em maio de 2023, ou seja, muito próximo da  
invasão em larga escala de fevereiro de 2022,  
poderia ter aspecto de obra escrita “às pressas”,  
o que não foi absolutamente o caso. Trata-se  
de trabalho robusto, competente e igualmen-  
te obrigatório para entender as circunstâncias  
históricas e geopolíticas do maior conflito em  
território europeu desde a Segunda Guerra  
Mundial. Esse conflito teve início em 2014, no  
que Snyder (2019) chamou de uma volta no  
tempo de mil anos da política russa da eterni-  
dade. Nesse retorno, Vladimir Putin encontrou  
o momento mítico do batismo de Volodímir  
de Kyiv como elemento central da narrativa de  
Rússia e Ucrânia como um só povo.  
O autor examina as motivações por trás  
das ações agressivas da Rússia, analisando fato-  
res domésticos e internacionais que influencia-  
ram Vladimir Putin. Plokhy argumenta que a  
invasão foi impulsionada por uma combinação  
de revisionismo histórico, desejo de reafirmar  
a influência da Rússia no espaço pós-soviético  
e da ameaça percebida da expansão da OTAN  
para o leste.  
Um dos pontos altos do livro é seu relato  
detalhado da invasão propriamente dita. Ele  
fornece uma narrativa cronológica das opera-  
ções militares, das estratégias empregadas por  
ambos os lados e do custo humano do conflito.  
O uso de fontes, incluindo entrevistas com per-  
sonalidades centrais e relatos de testemunhas  
oculares, acrescenta autenticidade e imediatis-  
mo à narrativa.  
Com profundo entendimento da história  
da Europa Oriental, Plokhy fornece uma nar-  
rativa abrangente e complexa dos eventos que  
levaram à invasão russa da Ucrânia em 2022 e  
suas consequências. A obra se destaca pela pes-  
quisa minuciosa, perspectiva equilibrada e ca-  
pacidade de contextualizar o conflito dentro do  
quadro histórico, cultural e político mais amplo.  
Plokhy também ilumina a resposta da  
Ucrânia à invasão, destacando a resiliência e  
determinação do povo ucraniano. Ele aborda a  
liderança do presidente Volodymyr Zelensky, o  
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papel das forças armadas ucranianas e a mobi-  
lização civil em larga escala. O autor enfatiza a  
unidade e o patriotismo que emergiram diante  
da agressão, retratando uma nação que luta por  
sobrevivência e soberania.  
“e Russo-Ukrainian War” de Serhii  
Plokhy é uma leitura essencial para quem busca  
entender as complexidades do conflito entre a  
Rússia e a Ucrânia. A expertise de Plokhy como  
historiador, combinada com sua pesquisa mi-  
nuciosa e perspectiva equilibrada, torna este  
livro uma contribuição valiosa para a literatura  
sobre o assunto. Ao fornecer um relato abran-  
gente das raízes históricas, dos eventos da inva-  
são e das implicações mais amplas do conflito,  
Plokhy oferece aos leitores uma compreensão  
multifacetada de uma das crises geopolíticas  
mais significativas do nosso tempo.  
Em relação à dimensão internacional do  
conflito, Ploky examina o papel das potências  
ocidentais, da OTAN e da União Europeia. Ele  
avalia a eficácia das sanções impostas à Rússia e  
da ajuda militar e humanitária fornecida à Ucrâ-  
nia. Fornece ainda uma crítica equilibrada da  
resposta da comunidade internacional, reconhe-  
cendo limitações impostas aos esforços diplomá-  
ticos, ao mesmo tempo que reconhece a impor-  
tância da solidariedade global com a Ucrânia.  
A análise se estende à guerra de informa-  
ção e às táticas de propaganda empregadas pela  
Rússia. Ele examina o papel da mídia, dos cibe-  
rataques e das campanhas de desinformação na  
formação da percepção pública e na influência  
do curso do conflito. O autor fornece uma ava-  
liação sóbria das características da guerra híbri-  
da na era digital.  
Em suma, mais que uma história do con-  
flito, “e Russo-Ukrainian War” é uma aborda-  
gemprofundada “sedeporraízes” (Yermolenko,  
2020, p. 97), da luta contínua por identidade,  
soberania e justiça do povo ucraniano. A obra  
de Plokhy serve como lembrete da resiliência  
do espírito humano diante da adversidade e da  
importância de se posicionar contra a agressão  
e a tirania. Para estudiosos, formuladores de  
políticas e qualquer pessoa interessada na histó-  
ria contemporânea, “e Russo-Ukrainian War”  
é uma fonte indispensável.  
Além do conflito imediato, Plokhy explo-  
ra as implicações mais amplas da guerra para  
a política e a segurança globais. Ele discute o  
impacto nas normas internacionais e nos prin-  
cípios de soberania e integridade territorial. O  
autor também reflete sobre lições que podem  
ser extraídas do conflito, enfatizando a impor-  
tância da observação atenta e preparação diante  
da possibilidade de uma agressão autoritária.  
Um dos aspectos notáveis da escrita de  
Plokhy é sua acessibilidade. Embora o livro  
seja profundamente pesquisado e acadêmico, é  
escrito de forma clara e envolvente, tornando-o  
acessível a um público amplo. A habilidade de  
Plokhy de entrelaçar análise histórica, narra-  
tivas pessoais e insights geopolíticos cria uma  
narrativa atraente e informativa.  
REFERÊNCIAS  
BIBLIOGRÁFICAS  
PLOKHY, Serhii. 2021. e Gates of Europe: A History of  
Ukraine. (Edição Revisada) Nova Iorque: Basic Books.  
PLOKHY, Serhii. 2023. e Russo-Ukrainian War: e Re-  
turn of History. Nova Iorque: Norton & Company.  
SNYDER, Timothy. 2019. Na contramão da liberdade. São  
Paulo: Companhia das Letras.  
YERMOLENKO, Volodymyr. 2020. Steppe, Empire, and  
Cruelty. in: Yermolenko, Volodymyr. (org). Ukraine in His-  
tories and Stories. Stuttgart: Ibidem Verlag.