O DESAFIO DA COORDENAÇÃO INTERAGÊNCIAS PARA O ENFRENTAMENTO DO CRIME ORGANIZADO

o caso das atividades de inteligência de segurança pública no Brasil

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5752/P.2595-7716.2025v7n1p114-135

Palavras-chave:

crime organizado, inteligência de segurança pública, relações interagências, compartilhamento de informações, integração institucional

Resumo

O crime organizado representa um dos maiores desafios à segurança pública no Brasil, caracterizando-se por redes hierarquizadas e multifacetadas, com influência social, econômica e política significativa. Facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) demonstram a sofisticação e o alcance dessas organizações, que operam em múltiplos setores ilícitos e legais, exercendo controle territorial e, muitas vezes, relações de simbiose com o Estado. Diante dessa complexidade, o desenvolvimento de estratégias eficazes depende do entendimento do modus operandi desses grupos e da atuação integrada das atividades de inteligência de segurança pública. O compartilhamento seguro e estratégico de informações entre diferentes agências – polícias federais, estaduais, ministérios públicos, Receita Federal e órgãos de inteligência – é crucial para a prevenção e antecipação de ações criminosas. Contudo, a fragmentação institucional, diferenças culturais entre órgãos e diversidades de atribuições dificultam a integração. O Subsistema de Inteligência de Segurança Pública (SISP), vinculado ao SISBIN, constitui o marco legal para orientar ações interagências, mas enfrenta desafios operacionais e institucionais que limitam sua efetividade. Este artigo examina os entraves à coordenação interagências, enfatizando a necessidade de mecanismos robustos de integração, governança interagências, capacidade de inteligência e compartilhamento de informações e,  cultura colaborativa para potencializar a capacidade estatal de enfrentamento ao crime organizado.

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Biografia do Autor

Almir de Oliveira Junior, Universidade Federal de Minas Gerais

Doutor em sociologia e política pela UFMG, pós-doutor em administração pela UnB, com mais de 50 publicações, entre artigos de periódicos; capítulos, organização e autoria de livros; relatórios de pesquisa e Textos para Discussão (Ipea). As áreas de interesse são políticas públicas, segurança pública, burocracia e gestão pública. Trabalha no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada desde 2009, onde é também professor, orientador e atualmente coordenador do Mestrado Profissional em Políticas Públicas e Desenvolvimento

Cintiene Sandes Monfredo Mendes, Universidade Federal do Rio de Janeiro

Docente da Escola de Guerra da Marinha (ESG) desde 2018 e da Escola de Defesa da Marinha (ESD) desde 2021. Professora assistente na Escola de Guerra da Marinha e na Escola de Defesa da Marinha. Coordenadora do Programa de Mestrado em Segurança, Desenvolvimento e Defesa e do Curso de Coordenação e Planejamento Interagências. Doutora em História Comparada pela UFRJ. Mestre em História Comparada pela UFRJ (2011) e graduada em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2008). 

Marcos Paulo Hiath da Silva, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada

Mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento/IPEA. 

Gustavo Luís Dantas Guimarães, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada

Mestrando em Políticas Públicas e Desenvolvimento/IPEA.

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Publicado

2026-03-04

Como Citar

Oliveira Junior, A. de, Mendes, C. S. M., Silva, M. P. H. da, & Guimarães, G. L. D. (2026). O DESAFIO DA COORDENAÇÃO INTERAGÊNCIAS PARA O ENFRENTAMENTO DO CRIME ORGANIZADO: o caso das atividades de inteligência de segurança pública no Brasil. Em Sociedade, 7(1), 114–135. https://doi.org/10.5752/P.2595-7716.2025v7n1p114-135