NARCOECOLOGIA

os impactos da criminalidade organizada e a erosão das estruturas sociais em comunidades indígenas amazônicas

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5752/P.2595-7716.2025v7n1p8-44

Palavras-chave:

Narcotráfico, Amazônia, Narcoecologia, Violência Sub-reptícia, Erosão Social, Direito Indigenista

Resumo

Este artigo analisa criticamente os impactos multidimensionais do narcotráfico sobre comunidades indígenas na Amazônia brasileira, destacando sua articulação com crimes ambientais em um fenômeno denominado narcoecologia. A partir de abordagem interdisciplinar, que reúne o direito indigenista, a antropologia social, a sociologia da violência e os estudos de segurança, demonstra-se como facções criminosas utilizam territórios indígenas como corredores estratégicos, empregando mecanismos financeiros e logísticos que conectam economias ilícitas locais a cadeias globais de consumo. Evidencia-se que a violência do tráfico assume caráter sub-reptício, iniciando-se pela sedução e pelo clientelismo, mas evoluindo para práticas seletivas e exemplares que instauram um regime de medo, fraturam o tecido social e impõem silêncio às comunidades. São discutidas consequências como o aliciamento juvenil, a exploração sexual de mulheres e meninas, a corrupção de lideranças e a desagregação de práticas culturais e rituais. O artigo incorpora estudos de caso etnográficos e depoimentos indígenas secundários, demonstrando que os efeitos da narcoecologia configuram ameaça existencial à autonomia, à saúde e à reprodução cultural dos povos originários. Por fim, identificam-se falhas de governança estatal e propõem-se caminhos para a retomada, incluindo a garantia de direitos territoriais, o fortalecimento institucional da FUNAI e dos DSEIs, o fomento à bioeconomia e a implementação de políticas de reparação socioambiental e cultural. Conclui-se que enfrentar o narcotráfico na Amazônia requer resposta integrada, transnacional e decolonial, orientada pelo protagonismo indígena e pela justiça histórica.

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Biografia do Autor

Douglas Aparecido Bueno, 19984193777

Possui graduação em Ciências Jurídicas e Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (2010), graduação em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (2005), graduação em Administração - Claretiano - Faculdade (2013), graduação em Psicologia pela Universidade Metodista de Piracicaba (2021), graduação em Teologia pelo Centro Universitário de Araras Dr. Edmundo Ulson (2017), graduação em Pedagogia - Claretiano Centro Universitário (2022), mestrado em Direito pela Universidade Metodista de Piracicaba (2011), doutorado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2017). Atualmente é membro do Comitê de Ética da Universidade Federal de Rondônia; Vice-Coordenador do Mestrado em Filosofia da mesma instituição; é  psicólogo do Conselho Federal de Psicologia, pesquisador pós-doutorado da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e Professor Adjunto II da Universidade Federal de Rondônia. Tem experiência em Humanidades, Direito e outras legitimidades.

Maribgasotor Suruí, UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA

Membro atuante na comunidade da Etnia Paiter-Suruí e aluno do Bacharelado em Direito pela Universidade Federal de Rondônia, Campus de Cacoal-RO (UNIR).

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Publicado

2026-03-04

Como Citar

Bueno, D. A., & Suruí, M. (2026). NARCOECOLOGIA: os impactos da criminalidade organizada e a erosão das estruturas sociais em comunidades indígenas amazônicas. Em Sociedade, 7(1), 8–44. https://doi.org/10.5752/P.2595-7716.2025v7n1p8-44