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Jonnas Esmeraldo Marques de Vasconcelos Notas sobre a ascensão e crise da etapa neoliberal do imperialismo
Notas sobre a ascensão e crise da etapa
neoliberal do imperialismo
Notes on the rise and crisis of the neoliberal stage of
imperialism
Reflexiones sobre el ascenso y crisis de la etapa neoliberal
del imperialismo
Jonnas Esmeraldo Marques de Vasconcelos1
DOI: 10.5752/P.2317-773X.2025v13n1p145-163
Enviado: 20 de Janeiro de 2024
Aceito em: 12 de Maio de 2025
RESUMO
Partindo da premissa que imperialismo continua sendo um conceito-chave para
se entender o mundo atual, o argumento central desenvolvido é que vivencia-
mos a crise da etapa neoliberal do sistema imperialista liderado pelos Estados
Unidos da América (EUA). Assim, o artigo está dividido em quatro tópicos. No
primeiro, faz-se breves apontamentos sobre os debates marxistas inaugurais
sobre o conceito de imperialismo e algumas de suas lições para se pensar o
presente. No segundo, aprofunda-se a análise sobre as características gerais e
transformações do imperialismo sob a gestão dos EUA. No terceiro, a ênfase da
análise recai sob os aspectos nanceiros e monetários justamente para localizar
os contornos da ascensão e crise da etapa neoliberal. Por último, traçam-se algu-
mas observações sobre as facetas mais atuais dessa crise do imperialismo, que se
manifesta, dentre outros elementos, na agenda da des-dolarização.
Palavras-chave: Imperialismo; Neoliberalismo; Crise; Finanças e Moeda.
ABSTRACT
Assuming that imperialism remains a key concept for understanding the current
world, the central argument developed in this article is that we are experiencing
the crisis of the neoliberal stage of the imperialist system led by the United
States of America (USA). Therefore, the paper is divided into four topics. In the
rst, brief notes are made on the inaugural Marxist debates about the concept
of imperialism, and some of their lessons for thinking about the present. In the
second, the analysis deepens on the general characteristics and transformations
of imperialism under the management of the USA. In the third, the focus of the
analysis falls on nancial and monetary aspects precisely to locate the contours
of the rise and crisis of the neoliberal stage. Finally, some observations are made
about the most current facets of this crisis of imperialism, which manifests
itself, among other elements, in the agenda of de-dollarization.
1. Professor da Faculdade de Direito
e do Programa de Pós-Graduação em
Relações Internacionais da Universidade
Federal da Bahia (UFBA). Professor no
Programa de Pós-Graduação em Direito,
Governança e Políticas Públicas da Uni-
versidade Salvador (UNIFACS). Doutor
em Direito Econômico, Mestre em Direi-
tos Humanos e Bacharel em Direito pela
Faculdade de Direito da Universidade de
São Paulo (USP). Pesquisador visitante
no Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (IPEA), com foco em iniciativas
dos BRICS junto ao sistema monetário
e financeiro. Coordenador do BRICS+
Research Center (NEPBRICS/UFBA).
E-mail: jm.vasconcelos@ufba.br
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Keywords: Imperialism; Neoliberalism; Crisis; Finance and Currency.
RESUMEN
Partiendo de la premisa de que el imperialismo sigue siendo un concepto
clave para entender el mundo actual, el argumento central desarrollado es que
estamos viviendo la crisis de la etapa neoliberal del sistema imperialista liderado
por los Estados Unidos de América (EE.UU.). Por lo tanto, el artículo se divide
en cuatro temas. En el primero, se realizan breves apuntes sobre los debates
marxistas iniciales sobre el concepto de imperialismo y algunas de sus lecciones
para pensar en el presente. En el segundo, se profundiza en el análisis de las
características generales y transformaciones del imperialismo bajo la gestión
de los EE.UU. En el tercero, la atención del análisis se centra en los aspectos
nancieros y monetarios precisamente para ubicar los contornos del auge y la
crisis de la etapa neoliberal. Finalmente, se hacen algunas observaciones sobre
los aspectos más actuales de esta crisis del imperialismo, que se maniesta, entre
otros elementos, en la agenda de la desdolarización.
Palabras clave: Imperialismo; Neoliberalismo; Crisis; Finanzas y Moneda.
1 NOTAS BREVES SOBRE O DEBATE CLÁSSICO DE IMPERIALISMO
O imperialismo é conceito que emerge historicamente das ali-
ses sobre os processos de associação entre o poder político e frações do
capital (em especial, do capital nanceiro), que passariam a moldar as
hierarquias e as dinâmicas de competição. Rudolf Hilferding foi um dos
pioneiros neste tipo de leitura dentro do campo marxista, ao publicar,
já em 1910, a obra O Capital Financeiro, sustentando que o processo de
concentração e centralização do capital impulsionava, de um lado, a força
de uma oligarquia nanceira sobre as demais frações da burguesia cada
vez mais subordinadas e associadas ao seu interesse, e, de outro lado, o
movimento de expansão e integração dos mercados, elevando, assim, o
território e o nível da disputa inter-capitalista a patamares potencialmen-
te explosivos (Hilferding, 1997, p.29).
Por outro ângulo, Rosa Luxemburgo publicou, em 1913, o trabalho
A Acumulação de Capital, argumentando que o imperialismo representa-
ria a expressão política da lógica do processo de acumulação do capital.
Todavia, para Luxemburgo (1970, p.393), o impulso pela expansão dos
mercados e pela internacionalização das empresas surgiria como resposta
à crônica tendência ao subconsumo das massas.
Nikolai Bukharin, por seu turno, escreveu, em 1915, O Imperialismo
e a Economia Mundial, interpretando as políticas expansionista e prote-
cionistas das potências capitalistas à época da 1ª GM como “a política do
capital nanceiro”. Para Bukharin (1972, p.170), diferentemente de outras
épocas, seria o capital nanceiro que conferiria especicidade da política
imperialista.
Em dlogo crítico com tais visões, Vladimir Lenin escreveu, em
1916, a obra O Imperialismo: fase superior do capitalismo, sintetizando o de-
bate precedente sobre o tema e apresentando sua leitura sobre as carac-
terísticas particulares do fenômeno. Em concordância com Hilferding,
o processo de formação de monopólios seria, para Lenin, a chave para
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se compreender a particularidade da fase do capitalismo vivenciada. No
entanto, diferentemente do primeiro, que formulou o conceito de capi-
talnanceiro para explicar o processo de unicação do capital bancário
com o capital industrial, Lenin utilizou-se do termo para designar uma
nova modalidade de acumulação, que tinha na exportação de capitais um
dos seus principais instrumentos para criar uma rede internacional de
dependências das demais esferas do capital aos interesses nanceiros.
Se, enquanto predominava a livre concorrência, o que caracterizaria o
capitalismo seria a exportação de mercadorias, a fase monopolista tinha
como particularidade justamente a exportação de capitais. Este processo
seria resultante da própria situação monopolística, que, ao alcançar níveis
elevados de acumulação, colocava a exportação de capitais como uma al-
ternativa lucrativa ao excedente produzido. Observando esse movimento
dos capitais em importantes setores da economia (petróleo, aço, minério,
zinco etc.), Lenin (2008, p.74) apontou para a formação de “super mono-
pólios” como núcleo da lógica da “partilha do mundo” sob dominação do
capital nanceiro.
Ainda que apresentando diferenças entre si, é possível armar que
esses cssicos do marxismo buscam compreender o imperialismo jus-
tamente a partir da relação que se estabelece entre o poder político e as
disputas das grandes corporações naquela etapa do capitalismo. Nesse
sentido, um dos aspectos que gostaríamos de chamar à atenção é de que
a alise sobre o imperialismo coloca em destaque o importante papel
desempenhado pelo Estado na dinâmica do capitalismo. Ou seja, o Estado
não seria apenas central na origem e organização do modo de produção
(como pelo papel da dívida pública, pela regulação dos cercamentos, pela
legislação fabril e penal, bem apontados por Marx no capítulo sobre a
Acumulação Primitiva”, na obra O Capital), mas é também parte consti-
tutiva do próprio desenvolvimento capitalista. Essa associação se manifesta
na criação de estruturas regulatórias e produtivas para a reprodução e ex-
pansão de capitais em detrimento de outros, como por meio de políticas
protecionistas e de promoção das exportações de mercadorias e capitais.
Em apertada síntese, uma das grandes lições que os clássicos nos
deixam é a da observação de que, assim como na dimica mercantil a
concorrência leva à concentração e centralização de capitais, no plano
geopolítico a competição interestatal leva à concentração e centraliza-
ção de poder político. Dessa dupla dimica, forma-se uma oligarquia de
Estados, que organiza os quadros gerais da acumulação, estabelecendo
o terreno jurídico, político, valorativo sob o qual os conitos, em nível
mundial, devem ocorrer. Este quadro é o imperialismo, que expressa um
conjunto de formas sociais e institucionais moldadas conforme os inte-
resses fundamentais do capital nanceiro e suas potências estatais asso-
ciadas. Importante notar que o imperialismo é um quadro de equilíbrios
instáveis, dentro e fora da oligarquia estatal dominante; por isso, é dinâ-
mico e mutável ao longo do tempo. Inclusive, se à época dos escritos dos
marxistas supramencionados, o sistema imperialista tinha como epicen-
tro o Reino Unido, a dimica do bloco capitalista ao longo do século
passaria progressivamente a gravitar em torno dos EUA.
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2 O IMPERIALISMO ESTADUNIDENSE
Apesar do imperialismo expressar um quadro complexo de forças e
interesses, conformando diferentes dimicas na ordem global ao longo
do tempo, têm sido os EUA o seu ponto central de ancoragem, ao menos
desde a 2ª GM. Ou seja, ainda que existam países com práticas imperialis-
tas (Inglaterra, França, para car em alguns poucos exemplos), que, inclu-
sive, já disputaram a liderança dentro da oligarquia internacional, desde
a 2ª metade do século XX, o imperialismo tem sido sobretudo liderado e
organizado pelos EUA (Furno, 2022). Posição de destaque alcançada pela
sua (i) supremacia militar, (ii) hegemonia político-cultural e (iii) pela do-
minação ecomica.
Em termos militares, não é exagero armar que os EUA são a maior
máquina de guerra já produzida na história. Nenhum outro país ou povo
conseguiu desenvolver um setor bélico tão expressivo e fazer penetrar
suas forças armadas nos mais diversos cantos do planeta. Dados recentes
apontam, por exemplo que os EUA respondem por cerca de 40% do
orçamento mundial em armamentos2 , tendo mais de 800 bases militares
fora do país3 . Desde a sua independência, esse país tem, em média, par-
ticipado de uma guerra a cada 3 anos (Fiori, 2022a). O complexo militar
tem sido um vértice central na dimica econômica, política, social e cul-
tural dos EUA, sendo mobilizado em prol dos interesses estratégicos das
burguesias nacionais e associadas. Desde o m da Guerra Fria, inclusive,
são os EUA e seus aliados que monopolizam o “direito” de guerra, ditan-
do os termos e as possibilidades dos conitos no globo. Direito unilateral
recentemente posto em xeque pela ação russa na Ucrânia (Fiori, 2022b).
Do ponto de vista político e cultural, os EUA detêm igualmente uma im-
portante hegemonia internacional. Suas instituições, seus autoproclama-
dos valores fundamentais de liberdade, de democracia, de bem-viver etc.,
seus hábitos de consumo, sua produção artística e cultural, em suma, o
american way of life, são tomados como a principal referência mundo afora.
É possível observar nas mais diversas áreas da vida social - universidades,
jornais, filmes, aplicativos de entretenimento etc. - a presença maciça de
verdadeiros “aparelhos ideológicos de estado” (Althusser, 2002) atuando
em prol da hegemonia estadunidense. Em termos econômicos, o processo
virtuoso de industrialização e o extraordirio crescimento dos EUA ob-
servados já a partir do século XIX ajudaram a criar as condições materiais
para superar a concorrência e ultrapassar os entraves do sistema impe-
rialista centralizado até então pelo Reino Unido, especialmente do cam-
po monetário e nanceiro, como falaremos em mais detalhes no tópico
seguinte.
De forma sintética, podemos armar que a posição de liderança dos
EUA foi erigida pela capacidade de impor derrotas aos seus competidores
sistêmicos. De um lado, o país liderou a coalização de forças burguesas
contra a ameaça sovtica, vencendo a Guerra Fria. De outro lado, os EUA
atuaram para limitar as forças de seus próprios aliados sempre que neces-
rio, garantido que seus rivais “internos” não afetassem a sua posição
dentro do bloco imperialista, a exemplo do papel de sua moeda nas rela-
ções econômicas internacionais.
2. Vide: https://www.ihu.unisinos.br/ca-
tegorias/618204-estados-unidos-uma-e-
conomia-de-guerra-contra-a-sociedade
3. Vide: https://jacobin.com.
br/2022/06/o-arquipelago-blindado
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2.1 Moeda e imperialismo
A moeda não é apenas um meio de troca para a realização das tro-
cas mercantis e uma reserva de valor das mercadorias, mas ela é também
um instrumento de poder (Fiori, 1999). Ou seja, a dimica entre moedas
nacionais expressa, historicamente, as relações de força entre os países,
que se condensam em um dado sistema monetário e nanceiro, que, não
sem espanto, se molda justamente para favorecer a dimica de acumula-
ção daquele país que consegue impor a sua moeda nacional como a moe-
da de curso internacional. Notemos que diferentes congurações sobre o
padrão monetário utilizado como reserva mundial de valor e, com isso,
como referência para determinação das taxas de conversões cambiais,
bem como sobre o nível de mobilidade de capitais permitido entre os paí-
ses, além de orientarem as trocas comerciais, possuem enormes implica-
ções na dimica das sociedades (Broz; Frieden, 2001; Haggard; Maxeld,
1996; Martin, 2015). Assim sendo, cada sistema monerio e nanceiro
corresponde a desiguais relações de perdas e de ganhos – seja em termos
de recursos econômicos, seja em termos de poder político – entre os seto-
res, no plano tanto nacional quanto mundial.
Ainda que portando variações regionais, o chamado sistema “pa-
drão-ouro” britânico preponderou ao longo do século XIX até a 1ª GM
(Eichengreen, 2008). Em linhas gerais, pode ser caracterizado pela exis-
tência de regras explícitas de conversibilidade das moedas nacionais em
ouro, por meio de um preço xo, permitindo uma livre arbitragem in-
ternacional dentro de bandas estreitas (as chamadas gold points). Naquele
sistema, a moeda de curso internacional era a Libra Esterlina, expressan-
do a supremacia do circuito nanceiro do Reino Unido naquela etapa do
imperialismo mundial. Além disso, havia regras implícitas a orientarem
o comportamento dos países, como os Bancos Centrais atuando enquan-
to garantidores em última insncia e como estabilizadores da parida-
de cambial, bem como o entendimento de que governos não poderiam
articialmente inuenciar o preço de suas moedas (Mckinnon, 1993, p.
03-06).
O ocaso do imperialismo britânico correspondeu também à crise
do sistema monetário e nanceiro lastreado na sua moeda. O padrão li-
bra-ouro não resistiu aos eventos decorrentes do acirramento da compe-
tição inter-imperialista e da Crise de 1929, tendo sido progressivamente
abandonado pelas principais potências capitalistas concorrentes, inaugu-
rando um período de virtual anarquia monetária e nanceira durante o
período. A estabilização das relações econômicas internacionais somente
aconteceria com o sistema estruturado após uma série de encontros, no
crepúsculo da 2ª GM, na cidade estadunidense de Bretton Woods. Esse
sistema foi componente fundamental do arranjo imperialista emergen-
tes, liderado a partir de então pelos EUA, reorganizando as relações (e,
consequentemente, as hierarquias) no capitalismo.
Na visão de Eric Helleiner (2010, p. 620), o “Sistema Bretton Woods”
seria melhor entendido como a síntese de um extenso processo de trans-
formações incrementais e contraditórias em torno do padrão anterior.
Processo que pode ser, em sua visão, organizado em quatro fases: (i) uma
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crise de legitimidade, (ii) um interregno, (iii) uma fase constitutiva e (iv) uma
fase de implementação. Assim, descreve o cenário de crise dos anos 1930
como um momento de deslegitimação das ideias liberais e, por conse-
guinte, do modelo teórico que embasava o sistema padrão-ouro. Entre
os anos de 1930 e 1944, a fase do “interregno” caracteriza a coexistência
de diferentes propostas de reformas, experimentações e debates teóri-
cos até o início da fase “constitutiva, com as mencionadas conferências.
Concluído o Acordo em 1944, a fase de implementação, que seria a de per-
suasão e de raticação dos países, revelou-se bastante conituosa, reque-
rendo ajustes com a ocorrência de novas crises econômicas (Helleiner,
2010, p. 623-625)4 .
Durante as negociações em Bretton Woods, as lideranças – nota-
damente dos EUA e do Reino Unido – buscavam reestabelecer relações
econômicas internacionais por meio de um sistema monerio e nancei-
ro que permitisse aos governos perseguirem políticas monetárias autôno-
mas, evitando os constrangimentos da época do padrão-ouro (Mckinnon,
1993, p. 11-19). Em outras palavras, as unidades nacionais buscavam maior
controle sobre a moeda para viabilizar políticas orientadas em torno de
suas metas de desenvolvimento nacionais.
Em suma, o sistema foi estruturado de modo a permitir uma di-
mica de câmbio xo com possibilidades de utuações controladas em
relação ao padrão de conversibilidade, a partir da relação Dólar-ouro
(substituindo o papel monetário e nanceiro outrora ocupado pela Libra
Esterlina e pela City Londrina). Ainda, permitiu certos controles nacionais
nos uxos de capitais, criando o Fundo Monetário Internacional (FMI)
com o objetivo de amortizar os desequilíbrios no balanço de pagamentos
e o Banco Mundial (BM) para servir de dispositivo nanciador a projetos
de desenvolvimento.
Sobre o BM e o FMI, Luiz Gonzaga Belluzzo (1995) ressalta que
tais instituões nasceriam com poderes de regulação inferiores aos idea-
lizados pelos economistas representantes do Reino Unido e dos Estados
Unidos naquelas conferências - John M. Keynes e Dexter White, respec-
tivamente. Dada a correlação de foas e a divergência de interesses, re-
sultaram em instituições menos “internacionalistas” e mais submissas
aos EUA. Além de a sede de ambas as organizações se localizarem em
Washington D.C., tal submissão se revelaria fundamentalmente pelo
controle nanceiro e político que os EUA exerceriam sobre elas. Controle
nanceiro por ser historicamente o país que mais aportou recursos para
as instituições; controle político em razão dos poderes que concentram
nas estruturas de governança de tais instituões, inuenciando, como
nenhum outro, as suas ações. No caso do BM, por exemplo, todos os seus
presidentes foram escolhidos unilateralmente pelos EUA dentre seus ci-
dadãos, mesmo inexistindo qualquer dispositivo estatutário que determi-
nasse essa “tradição” (Pereira, 2010). Prática semelhante acontece com a
seleção do principal cargo no FMI, o de Diretor Geral, que, apesar de ser
tradicionalmente ocupado por um cidadão europeu, necessita da aprova-
ção (informal, mas imprescindível) do Tesouro estadunidense (Weisbrot;
Johnston, 2016, p. 03). Além disso, destaca-se o fato de deter o chamado
“poder de veto” no FMI, visto que controla mais de 15% dos votos e que
4. Apesar de didática a tipologia de Eric
Helleiner, ressaltamos que, tão impor-
tante quanto organizar os processos em
“fases”, importa analisar os conflitos
sociais subjacentes que respondem
pelos (e ajudam a entender os) sentidos
dessas mudanças. Disso, a importância
da leitura sobre o imperialismo.
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85% de votos é o mínimo necessário para a tomada das decisões mais im-
portantes na instituição. A esse quadro de subalternidade, acrescentam-se
os poderes exorbitantes conferidos pelo estabelecimento do Dólar como
moeda de curso internacional.
Nos termos dessa nova hierarquia internacional erigida pelo im-
perialismo estadunidense e com a justicação teórica do keynesianismo,
o sistema Bretton Woods permitiu alguns governos associados atuarem
nas variáveis da demanda, buscando o pleno emprego dos fatores de pro-
dução. Para tanto, o fundo público passaria a ser entendido como espaço
de ativação das funções econômicas, alocando e redistribuindo recursos
de modo a inuir nos ciclos da economia. Dentro das possibilidades des-
se particular arranjo sistêmico, emergiram, por um lado, as teses sobre
a industrialização como meio de superação do subdesenvolvimento na
periferia. Por outro lado, deu espaço para a social-democracia (Welfare
State) nas economias centrais, combinando crescimento econômico e dis-
tribuição de renda, marcando o período conhecido como a “Era de Ouro”
do capitalismo, dada a sua excepcionalidade histórica (Hobsbawm, 1995,
p. 253).
2.2 A crise do Sistema Bretton Woods e a etapa neoliberal do imperialis-
mo dos EUA
Uma série de contradições, por conseguinte, deterioraria as bases
de funcionamento daquele sistema já ao m dos anos 1960, expressan-
do conitos dentro e fora do arranjo imperialista estadunidense. Com
o m do ciclo expansivo da economia mundial do pós-2a GM e a emer-
gência de novas crises econômicas e sociais, um conjunto de hipóteses
seria levantado para tentar compreender a extensão e a profundidade
das transformações no capitalismo a partir de então. O diagnóstico da
“Escola da Regulão”5 , por exemplo, foi o de que a débâcle decorreria
do próprio sucesso daquele “modo de desenvolvimento” (Boyer, 2009, p.
130). Para Claus Oe, por outro viés, seriam os mecanismos que permi-
tiram a compatibilidade entre democracia de massas e capitalismo, traço
distintivo do Welfare State, que entrariam em processo de corrosão. Isso
aconteceria tanto por fatores internos do paradigma político (o declínio
do que chamou de “sistema partidário competitivo” como forma de par-
ticipação das massas) quanto pelas consequências do próprio sucesso das
políticas keynesianas, que, ao resolverem certos problemas, criariam ou-
tros (Oe, 1984, p. 382-383). Michael Beaud, por outro ângulo, destacaria
que a ampliação da concorrência comercial, a queda nas taxas de lucros,
o aumento do custo da força de trabalho e o agravamento dos conitos
distributivos teriam alterado as bases materiais daquele sistema (Beaud,
1991, p. 335-336). Para Robert Brenner (1998), as crises nas taxas de lucro,
impulsionadas pelas mudanças na capacidade produtiva em nível interna-
cional, responderiam pelo desarranjo sistêmico.
Durante aquele período de crise, a liderança estadunidense no ar-
ranjo imperialista pareceu, então, ameaçada, não só no plano concorren-
cial, mas também no controle do padrão monetário e nanceiro inter-
nacional. A contradição entre o dólar enquanto meio de troca de curso
5. A chamada “Escola da Regulação” se
desenvolveu, em especial, no circuito
intelectual francês, justamente a partir
da questão sobre a natureza das trans-
formações na economia política, a partir
de fim dos anos 1960, argumentando
que capitalismo deveria ser entendi-
do enquanto sistema que apresenta
diferentes “modos de regulação” e
“regimes de acumulação” ao longo da
história (Boyer, 2009).
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internacional e meio de nanciamento doméstico se acirrou já ao m dos
anos 1960, notadamente, quando o balanço do país passou de superavitá-
rio para acumular crescentes décits (Toporowski, 2005, p. 106-107). A ne-
cessidade de nanciamento levou o Tesouro dos EUA a emitir moeda sem
a devida contrapartida em barras de ouro, gerando tensões inacionárias
e geopolíticas em torno da conabilidade do lastro monetário, o que cul-
minaria com a quebra unilateral da conversibilidade em 1971, durante o
governo de Richard Nixon. Nesse movimento, os EUA ainda lutariam
contra as iniciativas internacionais que buscavam substituir o papel do
dólar pelo chamado “Direitos Especiais de Saque” (DES) - uma “cesta de
moedas” criada pelo FMI que poderia servir de lastro às relações monetá-
rias internacionais (Belluzzo, 1995, p. 15).
Qualquer tentativa de retirar o circuito nanceiro e monetário in-
ternacional da órbita dos EUA foi, por sua vez, abortada com a escalada
abrupta e sem precedentes dos juros americanos, enterrando de vez os
compromissos do sistema Bretton Woods (Belluzzo, 1995, p. 15; Dumenil;
Levy, 2005, p. 10). Com isso, o governo dos EUA centralizou a liquidez
internacional em torno de sua moeda, preservou o seu papel como re-
serva internacional de valor e, aproveitando-se das crises nanceiras e
cambiais mundo afora, atrelou o destino das demais economias aos seus
interesses nacionais. Apesar da e pela crise sistêmica, a supremacia dos
EUA seria mantida (Brenner, 2002, p. 50; Cardim, 2004, p. 13-14; Gowan,
2003; Harvey, 2004, p. 126).
De maneira não linear, conituosa, informal e sem data precisa, o
sistema Bretton Woods viria a ser dilapidado pelos mesmos países que
outrora o haviam liderado, até o seu completo abandono já nos anos 1980.
Nos termos da tipologia sugerida por Helleiner (2010, p. 620-626)., a “crise
de legitimidade” do sistema teria sido disparada a partir dos eventos do
início dos anos 1970, com a quebra da convertibilidade do Dólar em ouro,
com o choque do petróleo e com o quadro de estagação enfrentado pe-
las economias avançadas. Em meados dos anos 1970 e início da década
seguinte, teria sido deagrada a fase de “interregno”, onde diversas pro-
postas e experiências conitantes coexistiram ao redor do mundo. Nesse
processo, conformaram-se novos comportamentos no sistema monerio
e nanceiro, aumentando as pressões para a liberalização dos uxos de
capital como solução para as pressões de liquidez nos balanços de paga-
mentos. Os governos Reagan, nos EUA, e Thatcher, no Reino Unido, a
longo dos anos 1980, poderiam, então, ser entendidos como a fase de “im-
plementação” do novo sistema nas economias avançadas, reordenando a
economia mundial.
Comparado ao modelo padronizado erigido em 1944, alguns auto-
res chegam a caracterizar o período atual do SMFI como uma espécie de
não sistema” (Helleiner, 2010, p. 625). Em nossa perspectiva, a ausência de
regras preestabelecidas e formalmente postas, como em Bretton Woods,
não implica a inexistência de um “sistema” ou de uma “regulação, mas
apenas que este funciona com novas características, das quais são expres-
sões: a dominância de interesses nanceiros sobre o conjunto das ativida-
des econômicas e a conformação de uma ordem monetária sem âncora
nominal preestabelecida, ainda que tenha no Dólar a principal reserva de
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Jonnas Esmeraldo Marques de Vasconcelos Notas sobre a ascensão e crise da etapa neoliberal do imperialismo
valor internacionalmente aceita, repondo as posições de privilégio dos
EUA no sistema internacional6 .
No plano das ideias, uma das características do neoliberalismo foi a
de deslegitimar e marginalizar teses keynesianas, até então a problemáti-
ca mainstream. Em seu lugar, argumentos ultraliberais, de inspiração neo-
clássica, ganharam terreno, justicando mudanças nas relações comer-
ciais, produtivas e nanceiras, cuja meta-síntese, para os países da perife-
ria latino-americana, cou conhecida como “Consenso de Washington”,
especialmente com a desintegração do bloco soviético e a crise das estra-
tégias de industrialização na periferia. Do ponto de vista teórico, argu-
menta Alfredo Saad-Filho (2005, p. 113), esta meta-síntese representaria a
convergência da teoria neoclássica com as políticas do FMI, do BM e do
Tesouro dos EUA para os países pobres. Nesse sentido, observaria a exis-
tência de duas fases. Na primeira, a ofensiva das justicativas neoclássi-
cas, a saber: (i) em nível micro, a da eciência dos mercados e ineciência
do Estado; (ii) em nível macro, a da liberdade de capitais e dos benefícios
da globalização; (iii) a do problema dos países pobres como resultado da
baixa liberdade de seus mercados (Saad-Filho, 2005, p. 114). Nos anos 1990,
contudo, ocorreriam reformas nos discursos dessas organizações, em vir-
tude das insatisfações geradas pela incapacidade explicativa do fenômeno
asiático, pela ausência dos resultados econômicos almejados e pelas con-
sequências sociais dos ajustes econômicos nos países da periferia. Essa
segunda fase é chamada de “Pós-Consenso de Washington”, na qual se
observa a emergência da chamada “Nova Economia Institucional. Sob
liderança intelectual de Joseph Stiglitz, ela deslocaria o foco neoclássi-
co na livre competição para abordar as “falhas de mercado” e apontar a
importância das instituições na atividade ecomica. Vis-à-vis o funda-
mentalismo do Estado-mínimo, o novo discurso abriria a possibilidade
de justicar regulações estatais na atividade econômica - contudo, desde
que “market-friendly. Por isso que, para Saad-Filho, antes de opostas, tra-
ta-se de duas facetas teóricas do neoliberalismo para lidar com as crises
que gera (Saad-Filho, 2005, p. 116-118).
Antes, contudo, de darmos um olhar mais atento sobre as caracte-
rísticas gerais das crises da etapa neoliberal do imperialismo estaduniden-
se, necessário sedimentar o próprio conceito de neoliberalismo.
2.2.1 Neoliberalismo: contornos de um conceito
Apesar de frequente na heterodoxia que analisa as transformações
do capitalismo contemporâneo, o termo neoliberalismo é utilizado de
diferentes maneiras. A multiplicidade de signicados, por vezes, relacio-
na-se com as dimensões das alises empregadas, se histórica ou lógica/
teórica. Contribuiu também para essa diversidade a própria complexidade
do fenômeno, vez que não apresenta características invariáveis e gerais,
cujas expressões locais não se descolam das questões internacionais (Saad-
Filho; Johnston, 2005, p. 02-03).
Na literatura, é possível encontrar quatro tipos de denições de
neoliberalismo ao menos: (i) como um conjunto de ideias; (ii) como um
rol de políticas; (iii) como uma ofensiva de classe; (iv) como um novo
6. No novo arranjo sistêmico, os EUA
teriam a capacidade única de incorrer
em crescentes déficits comerciais. Como
observa Daniela Prates: “Simultanea-
mente, ao se libertar das “amarras” da
conversibilidade em última instância
ao ouro, os Estados Unidos puderam
incorrer em déficits comerciais recor-
rentes, o que teria resultado em outra
especificidade do sistema monetário
internacional após Bretton Woods: o
caráter devedor líquido do país emissor
da moeda-chave.” (Prates, 2005, p.268)
154
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 1, (fev. 2025), p. 145-163
sistema de acumulação (Saad-Filho, 2017, p. 245)7 . Aqui, seguimos de per-
to o argumento de que o neoliberalismo é melhor entendido como um
novo sistema de acumulação (Fine; Saad-Filho, 2016; Saad-Filho, 2017).
a. Como um Conjunto de Ideias
A domincia das teorias neoclássicas, a partir dos anos 1970, cons-
titui um dos traços marcantes na história da transformação neoliberal
do capitalismo. Tratou-se de uma verdadeira mudança de paradigma no
debate da economia política. Autores, como os da “Escola de Chicago”,
ganharam holofotes com teorizações sobre as distorções da intervenção
governamental no funcionamento dos mercados, marginalizando as
abordagens keynesianas.
O conjunto das perspectivas neoclássicas acabaria por justicar o
livre-mercado” como eixo de desenvolvimento do capitalismo. Com
isso, conferiria justicação teórica para o plano de reformas pró-mercado
(privatizações, ajustes scais, exibilizações de direitos trabalhistas e so-
ciais etc.) em andamento.
Em resumo, os teóricos do neoliberalismo tendem a considerar
que mercados minimamente regulados seriam a melhor forma de alocar
recursos. A penetração social desses argumentos é tamanha que passa
a impressão (idealista) de que seriam eles os responsáveis pela alteração
nas relações sociais capitalistas ou, ainda, que as transformações sociais
seriam dirigidas por tais ideias. Esse é o caso, por exemplo, de Thomas
Palley, para quem a razão última da ascensão do neoliberalismo seria ex-
plicada pelas divisões teóricas do keynesianismo, notadamente, em torno
da “Teoria da Distribuição da Renda”8 . Esse tipo de equívoco termina
ainda por identicar os discursos com as práticas neoliberais, bem como
por negligenciar que se trata de um corpo ideológico fragmentado, com
diferentes visões (e não necessariamente coerentes) sobre o funcionamen-
to da sociedade. Por esses motivos, o neoliberalismo não pode ser reduzi-
do a um conjunto cogente de ideias (Fine; Saad-Filho, 2016, p. 04).
b. Como um Rol de Políticas
Outra denição comum de neoliberalismo seria a de um rol de po-
líticas em favor do mercado. Tais políticas seriam inspiradas em teorias
neoclássicas, ainda que não se confundam com elas. Tratar-se-iam de
políticas que efetivariam a redução da “intervenção” estatal, tida como
ineciente, transferindo progressivamente o controle decisório sobre a
alocação de recursos sociais para o mercado, visto como eciente per si.
Nesse sentido, o neoliberalismo é, geralmente, visto como uma reação ao
quadro regulatório do keynesianismo.
A difusão da narrativa dualista e dicotômica da relação entre
Estado e Mercado, contudo, obscurece os processos reais que envolvem o
neoliberalismo. De um lado, ela negligencia que tais políticas, apesar do
discurso contra intervenção, seriam mais bem compreendidas como uma
nova forma de regulação da economia. Nela, as funções públicas são alte-
radas para viabilizar o livre comércio, manter baixas as taxas de inação
7. Essa seção é fortemente influenciada
pela classificação apresentada por
Alfredo Saad-Filho (2017).
8. Segundo Palley, “The ultimate cause
of the neoliberal revival is to be found in
the intellectual divisions of Keynesia-
nism and its failure to develop public
understandings of the economy which
could compete with the neoliberal
rhetoric of ‘free markets’.” (Palley, 2005,
p. 21)
155
Jonnas Esmeraldo Marques de Vasconcelos Notas sobre a ascensão e crise da etapa neoliberal do imperialismo
(vistas como condição do desenvolvimento) e garantir um sistema nan-
ceiro “saudável” (isto é, privatizado e desregulado, porém protegido pelo
Estado), tido como condição para a estabilidade macroeconômica (Munk,
2005, p. 69; Saad-Filho, 2017, p. 248). A política neoliberal não é “anti-Esta-
do” em geral, mas uma remodelação de suas funções nos mercados.
De outro lado, essa perspectiva leva à incompreensão da relação
existente entre as políticas keynesianas e neoliberais. Primeiro porque,
historicamente, estas últimas se desdobraram das contradões das pri-
meiras (Boyer, 2009, p. 116). Segundo que, antes de abolir os instrumentos
de política scal, monetária e cambial, o neoliberalismo altera os seus
objetivos (Duménil; Lévy, 2005, p. 10). Terceiro que induz ao equívoco
(nostálgico) de que o período keynesiano seria a antípoda do neoliberalis-
mo, como se outrora fosse estável, desconsiderando as suas instabilidades
sistêmicas (Toporowski, 2005, p. 111-112). Por último, germina a ilusão
de que a aplicação de políticas keynesianas (ainda que no seu sentido ori-
ginal) seria, por si, capaz de reverter o neoliberalismo, desconsiderando,
assim, décadas de reestruturação global da produção, das nanças, dos
termos de troca, das classes sociais e das ideologias no capitalismo (Fine;
Saad-Filho, 2016, p. 05).
o se trata, evidentemente, de menosprezar o papel das políticas
na conformação do neoliberalismo, mas de posicioná-lo adequadamente
dentro do fenômeno, evitando a redução de um termo ao outro. O neo-
liberalismo não é, portanto, reduzível nem a mudanças regulatórias ma-
croeconômicas (controle de capitais, por exemplo) tampouco microeco-
nômicas (como privatizações) – é melhor compreendido como uma rees-
truturação econômica e social do próprio capitalismo. Por isso, torna-se
necessária uma leitura sobre o padrão de desenvolvimento que impõe e
suas correspondentes transformões nas classes sociais.
c. Como uma Ofensiva de Classe
Alises das transformações do capitalismo a partir da ótica da luta
de classes são particularmente frequentes nos debates marxistas. Trata-
se de uma problemática que evidencia a questão do poder e das relações
sociais sob o neoliberalismo. Marxistas têm investigado as novas formas
de exploração que os processos do neoliberalismo engendram e impõem
sobre os trabalhadores. Essas novas formas se manifestam nas crescen-
tes restrições às liberdades sindicais, nas quedas dos níveis de renda, na
redução de direitos sociais, na exibilização de direitos trabalhistas, no
aumento do desemprego entre outros. Para Ricardo Antunes (2005), por
exemplo, a classe trabalhadora sofreria agudas alterações tanto na sua
materialidade quanto na sua subjetividade, uma verdadeira mutação na
sua “ forma de ser. Isso seria resultado da reestruturação produtiva sob o
neoliberalismo, que implicaria um contraditório e multiforme processo
de fragmentação, heterogeneização e complexicação do “mundo do traba-
lho”. Vis-à-vis o modelo produtivo dominante no período keynesiano, o
neoliberalismo, ao alterar a morfologia do trabalho, ampliaria a inten-
sidade dele, precarizaria as condições de vida e atacaria a identidade e a
solidariedade de classe.
156
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 1, (fev. 2025), p. 145-163
Outros estudos marxistas, por sua vez, enfatizam que, mais do que
consequências” do modo de funcionamento do capitalismo neoliberal,
os ataques à classe trabalhadora seriam a sua verdadeira intenção. Essa
é a posição de Gérard Duménil e de Dominique Lévy, por exemplo, os
quais argumentam que o neoliberalismo seria, em essência, um projeto
das classes dominantes – notadamente da sua fração mais rica – para
reestabelecer o poder perdido no período keynesiano (Duménil; Lévy,
2005, 2014). Postulando uma análise tridimensional das classes sociais,
argumentam que, ao passo que o keynesianismo expressaria uma aliança
histórica entre a classe “gerencial” e a “popular”, em desfavor da “capita-
lista, o neoliberalismo resultaria da aliança de classe entre a “gerencial
e a “capitalista, ambas em busca de altas rendas e em desfavor da classe
“popular” (Duménil; Lévy, 2014, p. 88-91).
Esse conjunto de abordagens possui o mérito de contribuir com
a alise sobre os limites e as contradições sociais do neoliberalismo,
apontando para possíveis soluções políticas para a classe trabalhadora.
Contudo, ao desconsiderar as especicidades do sistema de acumulação,
esse tipo de alise pode passar a impressão (i) do neoliberalismo como
uma espécie de “conspiração dos capitalistas” ou (ii) de que a forma key-
nesiana seria melhor (e, com isso, rebaixa-se o horizonte de transforma-
ções para o do retorno ao sistema de acumulação anterior, como se isso
fosse possível e não existissem razões materiais para o seu declínio) (Saad-
Filho, 2017, p. 249).
d. Como um Novo Sistema de Acumulação
Em nossa perspectiva, a análise do neoliberalismo como um novo
sistema de acumulação incorpora os elementos ideológicos, políticos e de
classe sem descurar das estruturas materiais particulares que o funda-
mentam. Nesse sentido, o neoliberalismo é concebido como o estágio de
desenvolvimento do capitalismo apoiado pela nanceirização (Fine; Saad-
Filho, 2016; Saad-Filho, 2017).
Frequentemente, emprega-se o termo nanceirização para expres-
sar o crescente peso de ativos nanceiros ou para realçar a importân-
cia dos setores nanceiros na economia. Esse é o caso, por exemplo, de
Gerald Epstein, para quem “nanceirização signica o crescente papel
dos motivos nanceiros, mercados nanceiros, atores nanceiros e insti-
tuões nanceiras na operação das economias domésticas e internacio-
nais.” (Epstein, 2005, p. 03). Esse tipo de denição quantitativa, contudo,
não explica como o capitalismo operaria sob tais circunstâncias, isto é, a
sua distinção qualitativa.
Financeirização pode ser mais bem compreendido como um modo
de existência do capital em geral (Saad-Filho, 2017, p. 250). Ou seja, não se
trata meramente de um setor capitalista hipertroado, mas de um siste-
ma que se reproduz sob a lógica do ciclo de valorização daquilo que Marx
chamou de “Capital Portador de Juros” (Marx, 2008, p. 453-454). Trata-se
de lógica que subsumi as demais formas do capital, alterando a alocação
e a composição de recursos (produção, crédito, investimentos etc.), am-
pliando a quantidade e a imporncia de ativos nanceiros, reduzindo a
157
Jonnas Esmeraldo Marques de Vasconcelos Notas sobre a ascensão e crise da etapa neoliberal do imperialismo
temporalidade e a espacialidade da valorização, propiciando altas remu-
nerações e bônus para seus administradores, entre outras expressões.
A nanceirização, historicamente, emergiu das contradões do
capitalismo sob o sistema Bretton Woods, sendo o resultado, como já
exposto anteriormente, de um complexo de alterações geopolíticas, insti-
tucionais, produtivas e ideológicas. De maneira geral, implicou novo pa-
drão de desenvolvimento no capitalismo, no qual se observam vulnera-
bilidades no sistema monetário e nanceiro internacional, queda na taxa
de investimento e crescimento nas potências tradicionais, deslocamento
de massivos investimentos e taxas de crescimento nos países da Ásia –
notadamente, na China -, aumento da desigualdade social entre outras
características (Fine; Saad-Filho, 2016, p.14).
A nanceirização implica ainda uma especíca forma de globaliza-
ção no neoliberalismo, isto é, a transnacionalização dos circuitos de acu-
mulação a partir dessa lógica, recongurando a divisão internacional do
trabalho. Nesta divisão, resta preservado o papel das instituições nancei-
ras lastreada nos EUA, bem como sua moeda, servindo para recompor o
imperialismo após o colapso do sistema Bretton Woods (Saad-Filho, 2017,
p. 250). Esse processo não abdica dos Estados, mas se realiza através de
seus aparatos, a despeito do véu ideogico da “não intervenção.
Em suma, as mútuas relações entre a nanceirização (entendida
como expressão da subsunção da lógica de valorização dos capitais ao
capital portador de juros) e a globalização (centralização desse circuito de
acumulação na órbita dos EUA) conferem a base material do neoliberalis-
mo (Saad-Filho, 2017, p. 251). À luz dessa lógica, o conceito de neoliberalis-
mo emerge, então, como um particular sistema de acumulação anelar ao
imperialismo estadunidense.
3. Crises e Reações ao Neoliberalismo
O aumento da desigualdade social a patamares semelhantes aos en-
contrados no m do século XIX (Piketty, 2014, p. 303-328), a vulnerabili-
dade e o constrangimento dos governos locais aos humores dos credores
internacionais (Streeck, 2012, p. 54), as baixas taxas de crescimento e de
acumulação (Duménil; Lévy, 2005, p. 15-16) e as recorrentes crises nas
praças nanceiras se tornaram o novo normal sob os auspícios da etapa
neoliberal do imperialismo estadunidense.
Apesar das promessas, a integração das economias aos ditames sin-
tetizados no (Pós-) Consenso de Washington não gerou nem prosperida-
de social tampouco estabilidade econômica, mas o seu exato oposto. As
fragilidades dos países periféricos, notadamente de renda média, foram
sentidas já nas crises mexicana, em 1994/5; na dos “tigres asiáticos”, na
russa e na brasileira, nos anos 1997/9; na da Turquia e na da Argentina,
nos anos 2001/2 (Chesnais, 2005, p. 63-65; Toporowski, 2005, p. 110).
Diferentemente dos clássicos desarranjos econômicos gerados pelas
crises de superprodução de bens que caracterizaram o capitalismo outro-
ra, as crises mais agudas no neoliberalismo são ativadas por mecanismos
ligados prioritariamente ao circuito das mercadorias nanceiras. Na opa-
ca teia de relações entre atores e instituições que atuam nos mercados de
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 1, (fev. 2025), p. 145-163
mbio e de crédito (agências de risco, bancos, instituições do chamado
shadow banking system entre outros), volumes crescentes de recursos so-
ciais são drenados na corrida para valorizar os ativos nanceiros. Nesse
contexto, a própria gestão empresarial sofre mutações: os cargos geren-
ciais outrora ocupados por pessoas ligadas às práticas industriais são subs-
tituídos por experts das nanças. Frequentemente, a contradição entre a
supervalorização desses ativos e o baixo desempenho da produção real
assume a forma de bolhas especulativas, que, quando estouram, geram
consequências dramáticas em todo o conjunto da economia (Brenner,
2002; Chesnais et al., 2010; Duménil; Lévy, 2014).
O neoliberalismo alteraria ainda as condições dos Estados de mo-
bilizarem os instrumentos de política econômica como em tempos an-
teriores. O controle sobre a alocação de recursos públicos seria sistema-
ticamente transferido para um sistema nanceiro internacionalizado e
privatizado, porém fortemente concentrado na órbita das instituões
estadunidenses (Saad-Filho, 2011, p. 07). Esse processo se revelaria ainda
mais complicado para os países da periferia, que, ao aderirem às práticas
do livre comércio e à desregulamentação nanceira, cariam em situação
de maior dependência em relação às utuações do capital externo.
O país detentor das mais excepcionais condições de desenvolvimen-
to, dentro do quadro global do neoliberalismo, é certamente a China, haja
vista a permanência de fortes restrições e controles nacionais sobre o u-
xo de capitais, bem como o extraordirio ritmo de crescimento (Arrighi
et. al, 2003; Arrighi, 2008; Kissinger, 2011; Pomar, 2003). Ainda assim, o
país não tem cado completamente imune às oscilações nanceiras da
economia mundial. Como pontua Gregory Chin (2010, p. 707), a China
sofre os efeitos indiretos das crises nanceiras, como a queda nos níveis
comerciais e nos investimentos estrangeiros.
As duras experiências das crises nos países periféricos e das relações
conituosas destes com as instituições multilaterais existentes, por sua
vez, impulsionariam diversas tentativas para reduzir as vulnerabilidades
frente ao sistema: a exemplos da constituição de fundos monetários re-
gionais e da intensicação da estratégia de acumular reservas monetá-
rias acima do recomendado pelo próprio FMI. Esse último foi o caso do
Brasil e da China ao longo da primeira década dos anos 2000, que, com os
superávits comerciais, estocaram reservas internacionais extraordinárias
para prevenir futuras pressões no balanço de pagamentos. Na opinião de
Gregory Chin, tais estratégias atestam a desconança sobre as verdadei-
ras intenções das medidas propostas pelo FMI e pelo BM ao longo das
crises anteriores (Chin, 2010, p. 697).
O sistema de acumulação neoliberal recongurou a divisão inter-
nacional do trabalho por meio das práticas de outsourcing e deslocamen-
to territorial da produção, gerando uma nova divisão internacional do
trabalho. Para os países da América Latina e África, houve uma espé-
cie de regressão colonial, visto que suas economias passaram cada vez
mais a se tornarem dependente do setor pririo-exportador. A região
asiática, por outro lado, vivenciou verdadeiro boom industrial, tornando-
-se o grande centro manufatureiro do globo, com destaque para o papel
da China. Esse país asiático soube aproveitar a janela de oportunidades
159
Jonnas Esmeraldo Marques de Vasconcelos Notas sobre a ascensão e crise da etapa neoliberal do imperialismo
aberta pelas contradições do imperialismo na etapa neoliberal, seja por
meio da aproximação tática com os EUA nos anos 70, seja pelo foco dos
EUA com os conitos no Oriente Médio, seja com a estratégia de desen-
volvimento nacional organizada a partir do controle cambial, do crédito
e da política industrial e tecnológica planejada e monitorada com atenção
pelo Partido Comunista Chinês. Por seu turno, os EUA e a Europa conti-
nental passaram por um longo processo de especialização das economias
nos setores nanceiros, apropriando-se, por meio desses mecanismos, da
riqueza mundial.
A dimica internacional mudaria de qualidade quando o epicen-
tro das crises do capitalismo neoliberal deslocou-se da periferia para o
centro do imperialismo.
3.1 A CRISE FINANCEIRA NO CENTRO DO IMPERIALISMO
A vitória dos EUA frente às mencionadas contestações sistêmicas
acirradas já nos anos 1970, ao repor a sua liderança imperialista por meio
da etapa neoliberal, ironicamente, criou também as condições para a crise
atual. Isso porque a nanceirização não só se revelou portadora de “vul-
nerabilidade sistêmica” para os países da periferia, mas também para os
próprios países do centro imperialista.
Apesar dos imensos acúmulos de riqueza durante os booms especu-
lativos, as potências capitalistas sentiram os efeitos perversos da nancei-
rização em suas economias a partir dos desdobramentos da crise de 2007.
Detonada com o colapso do mercado de hipotecas subprime na Bolsa de
Nova Iorque, a economia mundial entrou em parafuso, com a dramáti-
ca crise bancária que se seguiu nos principais centros nanceiros (Farhi;
Cintra, 2009, p. 279-282). O pânico no mercado de ações e a quantidade
de falências e de prejuízos contabilizados foram impressionantes – cerca
de US$ 40 trilhões, ou 45% da riqueza mundial (Greenspan, 2009; Saad-
Filho, 2011, p. 13).
A magnitude e os desaos derivados dessa crise encontram parale-
los somente aos vivenciados no grande crash de 1929. Alguns chegariam a
tratá-la como expressão de uma crise do neoliberalismo (Duménil; Lévy,
2014) ou mesmo como uma derrota que abriria margem para a emergência
de um novo tipo de capitalismo (Bresser-Pereira, 2010, p. 72). Dentro desse
espírito generalizado de mudanças e de expectativas, outros analistas es-
peculariam que a crise possibilitaria um novo “momento Bretton Woods”.
Isto é, aventou-se a possibilidade de se aproveitar a crise e erigir esforço
para reconstruir o sistema monetário e nanceiro internacional sob novas
bases (Chin, 2010, p. 693; Cohen, 2013, p. 31; Helleiner, 2010, p. 619).
Expectativas como essas logo se revelaram frustradas. O volunta-
rismo de tais alises decorre justamente da subestimação do papel estra-
tégico que o controle sobre a moeda de curso internacional possui para
o imperialismo estadunidense. Dito de outra maneira, a realização de
um novo arranjo depende não apenas da vontade política e de uma crise
econômica, mas de força geopolítica capaz de impor derrotas às reações
dos EUA para manter sua primazia nas relações monetárias e nanceiras
internacionais.
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 1, (fev. 2025), p. 145-163
Anal, a história do imperialismo EUA tem demonstrado que, sem-
pre que as contradições entre o papel internacional da sua moeda e as suas
demandas domésticas (sejam elas comerciais ou militares) se aguçaram,
este logrou impor importantes ajustes sistêmicos para preservar sua he-
gemonia geopolítica, em geral, e a domincia nos arranjos monetários e
nanceiros internacionais, em particular. Esses ajustes foram verdadeiros
atos de império, a exemplo do já mencionado rompimento unilateral dos
acordos de Bretton Woods nos anos 70, rompendo a paridade dólar-ouro.
Outro exemplo que vale a pena ser destacado foi o da imposição de alte-
rações cambiais em relação ao Iene japonês para reverter os uxos comer-
ciais e nanceiros entre os EUA e aquela potência asiática, que, de virtual
competidora, como muitos pensavam nos anos 80, passaria a ocupar um
papel claramente subordinado e associado ao imperialismo EUA.
Tais exemplos reforçam o argumento de que a capacidade de impor
e manter uma determinada moeda como a moeda de curso internacional
depende não só de variáveis estritamente econômicas (como o nível de ca-
pacidade industrial, tecnológica, comercial etc.) de um país ou coalizão de
países, mas depende também de capacidades militares e culturais. A força
das armas é fundamental para se dissuadir e/ou combater competidores
sistêmicos, ao passo que a difusão de valores e crenças é importante para
alinhar interesses nos equilíbrios instáveis que marcam o imperialismo.
4 À GUISA DE CONCLUSÃO
Apesar de sua resiliência, o imperialismo estadunidense tem en-
frentado importantes desaos. No plano doméstico, os efeitos e os fun-
damentos da crise de 2007 não foram resolvidos, revelando o perverso
peso de décadas de nanceirização sobre os setores produtivos e sobre a
economia das famílias do país (em especial, nas variadas formas de endi-
vidamento). Com o deslocamento de importantes cadeias industriais para
fora de seu território, alterou-se a morfologia da estrutura de emprego,
renda e expectativas de futuro de sua população. Para carmos em um
único, mas simbólico exemplo, pela primeira vez na história dos EUA, as
gerações que nasceram a partir dos anos 1980 vivem em condições piores
do que aquelas enfrentadas pelos seus pais9 - dado que representa uma
quebra na promessa do “sonho americano” (Chomsky, 2017). Pari passu ao
aumento da desigualdade social e da deterioração das condições de vida
das maiorias na sociedade, avolumam-se conitos internos, exacerbando
os limites e contradições do modelo “democrático” imperialista, cada vez
mais capitulado por foas extremistas, reavivando discursos de verve
(neo)fascista.
A pandemia, ao mesmo tempo em que escancarou a dependência
do complexo industrial da saúde dos EUA aos circuitos estrangeiros, exa-
cerbou as diculdades do país em liderar a luta global contra a doença.
Além das retóricas chauvinistas e negacionistas do governo de Donald
Trump, o país realizou atos imorais de pirataria, conscando produtos
e equipamentos de saúde de outros países que passavam pelo seu ter-
ritório10. Ainda, o uso intensivo do dólar (e do circuito nanceiro que
lhe é anelar) como arma de combate à Rússia no contexto da Guerra da
9. https://exame.com/economia/educa-
dos-e-pobres-jovens-tem-so-5-da-rique-
za-dos-eua/
10. https://www.bbc.com/portuguese/
internacional-52166245
161
Jonnas Esmeraldo Marques de Vasconcelos Notas sobre a ascensão e crise da etapa neoliberal do imperialismo
Ucrânia tem servido para aumentar o interesse de países não-alinhados
por formas de desdolarização de suas transações econômicas.
Nesse contexto de contradões e conitos, é que devemos enten-
der as movimentações geopolíticas e geoeconômicas de países que alme-
jam, em algum grau, maior liberdade em relação ao sistema de forças
do imperialismo estadunidense. Esse é, por exemplo, o caso do BRICS
(acrônimo de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que, na Cúpula
realizada na África do Sul, em agosto de 2023, não só discutiu a possi-
bilidade de criação de uma moeda comum, como anunciou o aceite de
pedidos de ingressos de seis novos membros: Argentina, Egito, Etiópia,
Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. A análise dos limites e
potenciais dessas iniciativas frente ao imperialismo em crise, por sua vez,
demanda um outro texto.
REFERÊNCIAS
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