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Waldeir Eustáquio dos Santos, Rodrigo Corrêa Teixeira A relação entre Turquia e Estados Unidos: a geopolíca da Guerra-Fria e a estratégia da contenção
A relação entre Turquia e Estados Unidos:
a geopolítica da Guerra-Fria e a estratégia
da contenção
The relation between Turkey and the United States:
the geopolitics of the Cold War and the strategy of
containment
La relación entre Turquía y Estados Unidos: la geopolítica
de la Guerra Fría y la estrategia de contención
Waldeir Eustáquio dos Santos1
Rodrigo Corrêa Teixeira2
DOI: 10.5752/P.2317-773X.2025v13n1p123-144
Submetido em: 27 de março de 2024
Aceito em: 5 de agosto de 2024.
RESUMO
Este artigo tem como objetivo analisar a estreita relação entre Turquia e Estados
Unidos da América (EUA) e a geopolítica da Guerra Fria. Analisar essa relação
ajuda compreender a posição da Turquia como país de contenção à expansão so-
viética durante o conito bipolar. Esse trabalho traz o recorte temporal conside-
rando o período de 1947/1989. O ano de 1947 marca o início formal da Guerra
Fria tendo alguns documentos, discursos e políticas que funcionaram como uma
“declaração de guerra” por parte dos estadunidenses. O discurso do presidente
Truman, anunciando o apoio aos países ameaçados pelo totalitarismo da URSS
(União das Repúblicas Socialistas Soviéticas); o plano Marshall, uma ajuda
nanceira para reconstrução da Europa, destruída pela guerra e o artigo lançado
na Foreign Aairs, sob o pseudônimo X, armando e conrmando quem era o
inimigo a ser combatido. O artigo buscou apresentar como referencial teórico
o uso da geopolítica, principal elemento motivador da relação entre EUA e Tur-
quia no período estudado. Como apontamentos nais o texto demonstra que de
fato a Turquia era parte signicativa do cinturão de isolamento ao crescimento
soviético.
Palavras-chave: Turquia, EUA, URSS, Guerra Fria, Geopolítica.
ABSTRACT
This article aims to analyze the geopolitics of the Cold War, and one of the
striking aspects was the close relationship between Turkey and the United States
of America (USA). Analyzing this relationship helps to understand Turkey’s
position as a country to contain Soviet expansion during the bipolar conict.
1. Professor e Chefe de Departamento
do Curso de Serviço Social - Campus
Coração Eucarístico, da PUC Minas.
Contato: waldeirsocial@gmail.com.
2. Professor do Programa de Pós-Gra-
duação em Geografia – Tratamento da
Informação Espacial, e do Departamento
de Relações Internacionais da PUC
Minas. Contato: rteixeira@pucminas.br.
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This work has a temporal cut considering the period of 1947/1989. The year
1947 marks the formal beginning of the Cold War with some documents, spee-
ches and policies that functioned as a “declaration of war” by the Americans.
President Truman’s speech, announcing support for countries threatened by
totalitarianism in the USSR (Union of Soviet Socialist Republics); the Marshall
plan, a nancial aid for the reconstruction of Europe, destroyed by the war and
the article published in Foreign Aairs, under the pseudonym X, arming and
conrming who the enemy was to be fought. The article sought to present as a
theoretical reference the use of geopolitics, the main motivating element in the
relationship between the USA and Turkey in the period studied. As nal notes,
the text demonstrates that in fact Turkey was a signicant part of the Soviet
growth isolation belt.
Key words: Turkey, USA, USSR, Cold War, Geopolitics.
RESUMEN
Este artículo tiene como objetivo analizar la estrecha relación entre Turquía
y los Estados Unidos de América (EE.UU.) y la geopolítica de la Guerra Fría.
Analizar esta relación ayuda a comprender la posición de Turquía como país que
contuvo la expansión soviética durante el conicto bipolar. Este trabajo presenta
un marco temporal considerando el período 1947/1989. El año 1947 marca el
inicio formal de la Guerra Fría, con algunos documentos, discursos y políticas
que actuaron como una “declaración de guerra” por parte de los estadouni-
denses. el discurso del presidente Truman, anunciando el apoyo a los países
amenazados por el totalitarismo de la URSS (Unión de Repúblicas Socialistas
Soviéticas); el plan Marshall, ayuda nanciera para la reconstrucción de Europa,
destruida por la guerra y el artículo publicado en Foreign Aairs, bajo el seudó-
nimo X, en el que se arma y conrma contra quién se debe combatir. El artí-
culo buscó presentar como referente teórico el uso de la geopolítica, principal
elemento motivador de la relación entre Estados Unidos y Turquía en el período
estudiado. Como notas nales, el texto demuestra que Turquía fue, de hecho,
una parte importante del cinturón de aislamiento para el crecimiento soviético.
Palavras-chave: Turquía, EE.UU, URSS, Guerra Fría, Geopolítica.
INTRODUÇÃO
O artigo analisou a relação entre dois Estados relevantes no cená-
rio Internacional: Estados Unidos da América (EUA) e Turquia. Buscou
compreender como a situação dos países supracitados durante a Guerra
Fria foi impactante e apresentou os efeitos causados por esse processo
nas Relações Internacionais (RI). Esse período da história mundial, com-
preendido aqui de 1947 a 1989, foi marcado pela disputa “ideológica
entre as superpotências: EUA x URSS (União das Repúblicas Socialistas
Soviéticas). Assim sendo, uma escolha metodogica foi o uso do refe-
rencial teórico geopolítico, a partir desse olhar a pesquisa buscou com-
preender o sentido e a entrada da Turquia no episódio, devido ao caráter
estratégico-militar do conito.
Este trabalho tem como pergunta-problema: Qual a imporncia
da Turquia como Estado de contenção, para os EUA, durante a Guerra
Fria? As hipóteses apresentadas a seguir deverão ser debatidas na última
seção deste trabalho: a localização e a posição geográca da Turquia
possibilitam sua ligação aos países do centro, principalmente aos EUA
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Waldeir Eustáquio dos Santos, Rodrigo Corrêa Teixeira A relação entre Turquia e Estados Unidos: a geopolíca da Guerra-Fria e a estratégia da contenção
e lhe proporcionam hegemonia local; nessa condição, a Turquia foi par-
te do plano estadunidense de contenção da União Soviética na Guerra
Fria; além disso, exerceu também o papel de contenção político-estra-
tégica dos países do Oriente Médio frente ao chamado “Ocidente”. O
objetivo do trabalho foi analisar a relação geopolítica e geoestratégica
entre Turquia e os Estados Unidos para compreender a contenção à ex-
pansão sovtica. Os objetivos especícos são: estudar as características
históricas da Guerra Fria; debater teoricamente a aplicabilidade da geo-
política nas Relações Internacionais; analisar a relação Turquia e EUA
na Guerra Fria.
A geopolítica nasceu dos estudos da Geograa Política Clássica,
tendo sido inuenciada por três grandes escolas: a alemã, a francesa e
a anglo-saxônica. O termo foi originalmente criado por um sueco ger-
malo de nome Rudolf Kjéllen em 1905, apesar de não serem atri-
buídos a este autor os fundamentos epistêmicos da disciplina. Ao apro-
fundar as alises da Geograa Política, a geopolítica inclui em seus
estudos a questão estratégica, assuntos de guerra, ideologias e o servi-
ço aos Estados. Amorim Filho (1991 e 2003) e Duarte (2023) defendem
que a geopolítica além de ser uma subárea da geograa é considerada
uma interseção entre três disciplinas: as Ciências Políticas, as Relações
Internacionais, e a História. Nesse ponto, dialoga com Parker (1998), que
entende a geopolítica como o estudo das relações internacionais de uma
perspectiva espacial ou geográca.
Dois conceitos necessários para a reexão são expansão e conten-
ção. A partir desses conceitos pode-se pensar, por um lado, o desejo da
URSS em difundir e expandir a ideologia socialista. Por outro lado, o
desejo expresso de conter o avao dessa política por parte dos EUA. O
socialismo era uma perspectiva política embasada pelo marxismo. Por
motivos diversos, que não cabem alises nesse trabalho, seguiu uma
trajetória, no mínimo contestável, se comparada àquela pensada e orga-
nizada por seu teórico principal, Karl Marx. Assim, a política de conten-
ção, adotada pelo governo estadunidense e seus aliados, foi impulsiona-
da por teóricos das RI, alinhados a vertente realista e por geopolíticos.
Conforme Costa (2010), as teorias não são utilizadas inocentemente,
todas têm algum direcionamento político, estatal-nacional, cultural ou
socioeconômico. Com essa perspectiva, as formulações (teorias e concei-
tos) da geopolítica ajudam a observar a participação desses atores na po-
lítica estatal da guerra. Duas ideologias opostas que traduziam interesses
semelhantes, a dominação.
Havia outras perspectivas, que balizavam a ideia de contenção na
formulação da política externa do governo estadunidense, que debatia
internamente quais as estratégias deveriam ser adotadas: conter os
soviéticos ou destruí-los? No início do conflito havia um acordo de não
interferência entre as duas potências. Assim os EUA protegiam suas áreas
e a URSS defendia suas zonas de inuência, sem que ninguém pudes-
se promover intervenções em espaços já pré-determinados no nal da
Segunda Guerra, conforme arma Pecequilo (2005). Sabe-se, contudo,
que esse acordo não foi respeitado, gerando diversos momentos de tensão
no sistema bipolar à época.
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Para desenvolver a estratégia da contenção o Governo estaduni-
dense criou algumas Organizações Internacionais que pudessem au-
xiliar na viabilização do processo. O desejo era auxiliar os países que
ainda não estavam sob a inuência soviética a se manterem ‘livres, de-
mocráticos e em paz. No entanto, a dúvida pairava: quais seriam esses
países e como se daria a ajuda? Nesse contexto surgem algumas políti-
cas como a Doutrina Truman e Plano Marshall, ambas em 1947, con-
forme (Visentini, 1996), além da criação de organismos como a OTAN
(Organização do Tratado Atlântico Norte), entre outros. Nesse ponto
teve início a relação com a Turquia. A participação dos turcos em or-
ganizações multilaterais, tem signicado geoestratégico, considerando
a teoria de Nicholas Spykman (1944) a Turquia estaria exatamente de
dentro do Rimland, que será explicado no decorrer do artigo.
As seções que compõem o desenvolvimento do artigo são três. A
primeira é Relatos da Guerra Fria, na qual se dá a contextualização his-
tórica. Nessa pesquisa, adotou-se o ano de 1947 como início da Guerra
Fria tendo como base documentos, discursos e formulação de políticas,
que funcionaram como uma espécie de “declaração de guerra” dos es-
tadunidenses aos soviéticos. Os documentos e fatos foram: o discurso
de Truman, anunciando apoio aos países ameaçados pela URSS; o plano
Marshall, ajuda para reconstrução da Europa pós-guerra e o artigo pu-
blicado na Foreign Aairs sob o pseudônimo, X, informando quem seria o
verdadeiro inimigo a ser combatido pelas forças capitalistas.
A segunda seção é Geopolítica e Relações Internacionais na Guerra
Fria, na qual são analisadas a geopolítica anglo-sanica. Dessa escola
serão estudados o britânico Sir Halford Mackinder, e o estadunidense
Nicholas Spykman, sendo esses, os dois principais teóricos. Mackinder foi
criador da teoria do Heartland, o Coração Continental, expressa no poder
terrestre. Já Spykman (1944) é o responsável pela teoria do Rimland, uma
ntese do poder terrestre e do poder marítimo que formaria um anel em
torno do Heartland de forma a conter sua expansão de poder.
A terceira seção é Turquia e EUA na Guerra Fria. No âmbito geo-
político a Turquia desempenha função relevante tanto no aspecto da se-
gurança, quanto para a economia global. A localização turca signica
a ligação entre dois mundos, o Oriente e o Ocidente. Sua posição geo-
gca a coloca como parte de quatro locais sensíveis na política inter-
nacional: Oriente Médio, Bálcãs, Cáucaso e o Mar Negro. Para estudar
a Guerra Fria, conito que representava sociedades e projetos societais
antagônicos na visão de Halliday (1999), deverá ser abordado tanto as-
pectos empíricos, quanto debates teóricos. Um caso clássico desse perío-
do foi a crise dos mísseis em outubro 1962, conforme Allison e Zelikow
(1999), um evento que marcou a história da Guerra Fria e outro já no
período em que o conito havia terminado foi a coalizão na guerra do
Iraque. Esses momentos permitem avaliar a relação entre os dois atores
estudados nesse trabalho.
E nas Considerações Finais serão avaliadas nalmente a relação en-
tre EUA e Turquia e a consequência dessa parceria para as RI no atual
cerio internacional.
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Waldeir Eustáquio dos Santos, Rodrigo Corrêa Teixeira A relação entre Turquia e Estados Unidos: a geopolíca da Guerra-Fria e a estratégia da contenção
RELATOS DA GUERRA FRIA
A Guerra Fria teve seu início logo após o término da II Guerra
Mundial, contudo, desde o nal do século XIX, os ingleses já mantinham
certo nível de preocupação com a Rússia (Mackinder, 1919). O século XX
teve seu início marcado por outro episódio que colocou os russos em
destaque, a revolução de 1917, fato também incorporado na alise da
Guerra Fria, pois, apresentava naquele momento um modelo alternativo
ao Capitalismo. Diante desses fatos pode-se armar que o mais impor-
tante evento político e diplomático do Pós – II Guerra foi construída
ao longo de um delicado processo histórico. Prova disso, a diplomacia
americana reconheceu a URSS apenas em 1933. Uma guerra diferente
das demais, pois, não houve o duelo de fato, não abertamente entre as
duas potências, mas por vezes, como em 1962, o mundo se viu próximo
de um conito nuclear.
Durante a II Guerra, EUA e URSS estiveram do mesmo lado na
batalha contra o Eixo, no m desse período as diferenças reapareceram
e se acentuaram. A hegemonia dos EUA marcou as duas décadas pós II
Guerra Mundial. Assim a força de Wall Street e do Pentágono zeram o
mundo experimentar o que cou conhecido como a Pax Americana. As
décadas de 1950 e 1960 foram marcadas por crises diversas no contexto
da bipolaridade, uma dessas foi a questão da independência dos países
africanos. A economia americana respondia por uma média de 60% da
produção mundial e buscava a queda dos principais concorrentes, princi-
palmente da Europa. A URSS, apesar de debilitada, gozava de prestígio,
pois, havia derrotado o Exército Nazista, que buscava conquistar parte do
Heartland (Hobsbawm, 1995).
Cientes da ambição soviética por inuenciar o Oriente Médio, os
estadunidenses conseguiram algumas vitórias pontuais ainda em 1946.
Nesse ano os soviéticos tentaram controlar o petróleo no Irã além de
exercer forte pressão sobre a Turquia pelo controle dos Estreitos Bósforo
e Dardanelos. O governo dos EUA exigiu e conseguiu a saída da URSS
do território Iraniano; nisso defendiam a importante questão energética
do petróleo, até aquela data dominada pela Inglaterra. As discussões em
torno das fontes de energia já eram relevantes para o Planeta. No caso da
Turquia, diante da pressão soviética em relação aos estreitos, o auxílio e
intervenção da Casa Branca seria essencial. Na Grécia, havia a suspeita
da “Insurgência Comunista, os ingleses ainda desestruturados também
solicitaram ajuda dos EUA para controlar os conitos no território grego.
A política de contenção teve sua empiria esboçada por George
Kennan (1947), diplomata americano na Rússia. Kennan enviou um tele-
grama ao Departamento de Estado e nesse documento deixou claro quais
eram os desejos soviéticos: dizia que a pressão de Moscou por expandir
seu poder deveria ser parada com uma rme e vigilante contenção. Sua
advertência foi reforçada com um artigo publicado na Foreign Aairs,
revista de RI nos EUA. O Título do artigo era The sources of Soviet Conduct
que foi publicado originalmente sob o codinome X em 1947. Segundo
Kissinger (2001a) esse artigo tinha uma conotação muito losóca, mas
foi sem dúvida um dos pilares da estratégia de contenção.
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Em 1947 o Presidente Truman fez uma visita ao Congresso
Americano e em seu discurso solicitou $400 milhões. Essa signicativa
ajuda seria dividida entre os países da Europa, tinha viés ‘‘econômico’’, e
seria repassada também à Grécia e Turquia, iniciava-se assim a Doutrina
Truman. Conforme Pecequilo (2005), a política de contenção tinha a im-
portância de uma missão religiosa para os americanos. A autora enten-
de que a fundamentação da estratégia foram os seguintes documentos:
o texto lançado pela Foreign Aairs, a NSC 20 (National Security Council)
de 1948 e a NSC 68 de 1950, além do discurso de Truman no Parlamento.
Kissinger (2001a) arma que a questão moral perpassou os documentos ba-
silares da política de contenção, a NSC 68 e o artigo de Kennan (1947). Para
os americanos as derrotas morais eram mais perigosas que as militares.
Também no mesmo ano um dos Ministros do Governo Truman
elaborou a política que deveria recuperar a economia europeia, o Plano
Marshall. “É lembrada geralmente como uma das mais bem-sucedidas
iniciativas de política externa na história dos EUA” (Hogan, 2011, s/p, tra-
dução nossa)3 . Os dois planos estadunidenses, Plano Marshall e Doutrina
Truman, lançaram as bases para as organizações, a OTAN deveria com-
pletar a aliança econômica e a contenção militar. Internamente os formu-
ladores da PE (política externa) americana viam na criação de agências a
solução para organizar e atender às demandas da nova situação mundial.
No aspecto geopolítico, naquele momento, a Alemanha se constituiu
num problema especial para os EUA. O país de Hitler foi dividido em
quatro zonas de inuência (EUA, França, Inglaterra e URSS). O gover-
no de Washington temia perder Berlim, posteriormente a Alemanha e
nalmente a Europa. Rapidamente a Guerra Fria se espalhou pela Ásia
e Oriente Médio, resultado da busca por inuência. Dois países na Ásia
causaram preocupação aos EUA. A China, onde triunfou sua revolução
em 1949, e a Coréia do Norte.
Em 1950 Truman autorizou o aprofundamento dos estudos para
a criação de uma nova Bomba de Hidrogênio e reverteu a NSC 68 para
o que ficou conhecido como a Política de Retaliação Massiva. Assim
sendo, usaria as armas nucleares caso algum aliado ou qualquer interesse
estadunidense fosse atacado por inimigos, contudo, até aquele momento
histórico a URSS não possuía armas de destruição em massa. Esse docu-
mento teve, portanto, o objetivo de ampliar a contenção, organizar a mo-
bilização para a guerra e militarizou a Política Externa (Pecequilo, 2005).
Na visão, lançada pelo documento, a URSS desejava conquistar a Eurásia,
avançar sobre o Atlântico e o Pacíco e chegar de vez ao Ocidente. A NSC
68 denia estratégias para impulsionar o poder americano e dos aliados
diante dos soviéticos.
A contenção tinha então três principais objetivos: conter o cresci-
mento da URSS; conter a ideologia comunista e difundir a ideologia ca-
pitalista, através do livre mercado e democracia. Em 1953 o Governo de
Eisenhower, republicano, entendeu que a estratégia da Contenção não
estava adequada e que dessa forma não seria capaz de conter a expansão
soviética. O conito terminaria apenas quando uma das partes estivesse
completamente derrotada. Também internamente o país foi afetado, o
peso da propaganda dentro do país provocou o que cou conhecido como
3. It is generally regarded as one of the
most successful foreign policy initiatives
in US history.
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Waldeir Eustáquio dos Santos, Rodrigo Corrêa Teixeira A relação entre Turquia e Estados Unidos: a geopolíca da Guerra-Fria e a estratégia da contenção
o Pânico Vermelho. Para Pecequilo (2005), o período de 1947 a 1962 cou
caracterizado como a 1º fase da Guerra Fria, marcada pela confrontação,
em nenhum outro momento histórico os EUA demonstraram com tama-
nha ênfase seu poder.
O Terceiro Mundo emerge principalmente em 1955, como resul-
tado do m da II Guerra e do colonialismo. Esses fatos foram delinean-
do a Guerra Fria, o que fez mudar novamente os rumos das Relações
Internacionais após o seu término em meados de 1991. Os EUA adotaram
a estratégia regionalista de modo que pudessem garantir a ordem e a esta-
bilidade no cenário internacional. Com isso, buscavam também impedir
o crescimento de adversários ou qualquer outro poder que pudesse con-
fronta-los. A presença global americana enfraqueceu a URSS – isolando-a,
fato que posteriormente levaria à sua derrota.
Para os republicanos a política de Truman era considerada branda
e conivente com o crescimento soviético, já no governo Eisenhower a
contenção foi elevada a uma maior atividade e pragmatismo, deixa de
ser uma política antissoviética para ser anticomunista (Pecequilo, 2005).
Nesse período surgiu, o já mencionado, movimento do Terceiro Mundo,
reunindo países não-alinhados e esses Estados adotam posturas de acor-
do com as ideologias/interesses de seus líderes. Com isso novos riscos e
desaos surgiram, um exemplo disso são as guerras étnicas que explodi-
ram no Continente Africano. Com a chegada de Kennedy à presidência
em 1961, os investimentos em armamentos são incrementados, o período
marcou o início da 2º fase da Guerra Fria.
Contudo, logo no segundo ano de governo, o presidente Kennedy
enfrentaria a Crise dos Mísseis em Cuba, após a resolução desse evento
teve início da fase de Coexistência. O Terceiro Mundo se tornou o cen-
tro das atenções, na América Latina qualquer país que esboçasse algu-
ma tendência comunista era “visitado” pela CIA (Agência de Inteligência
Americana). Para intensicar a vigincia houve também cooperação
nanceira: a Aliança para o Progresso foi o símbolo desse objetivo de
inuenciar a América Latina, também pela via econômica, fato que não
foi diferente na Turquia. Em meados de 1973 a contenção foi duramente
questionada, pelos episódios do Vietnã, década marcada também pelo
enfraquecimento econômico dos EUA. Esses dois fatores somados abala-
ram a liderança global americana.
Como resposta à crise dos anos 1970, foi elaborada a estratégia da
détente -, uma disputa geopolítica que almejava novo alcance, caráter
e exibilidade para a diplomacia americana. Os EUA passaram a reco-
nhecer o crescimento e valor dos soviéticos. A formulação dessa Política
Externa promoveu uma mudança estratégica de hegemonia para lideran-
ça e a busca pela multipolaridade, sem comprometimento incondicional.
Com isso, a ideia era diminuir as tensões com a URSS trazendo para a
cena novos atores internacionais, promoveu assinatura de acordos com
a China para impedir qualquer projeção de poder na região do Paco.
Assim sendo a estratégia volta a ser antissoviética, não mais anticomunis-
ta (Pecequilo, 2005).
A tente foi considerada uma fuga à tradição americana, por isso,
não foi consenso entre liberais, nem conservadores. A diferença entre as
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estratégias era: a contenção buscava a destruição do inimigo e a pressão; a
détente buscava a convivência e normalidade. Essa situação durou até o ano
de 1979, quando a URSS invadiu o Afeganistão, fato que provocou o retor-
no à política mais ofensiva. Com a queda de Nixon, devido a um escândalo
interno, e após o curto governo Ford, Jimmy Carter assume promovendo
a reformulação da contenção. Dessa vez, no entanto, optando por uma
política de maior abertura econômica, política e social, incorporou novos
temas à agenda, dlogo com os países do “terceiro mundo, abertura à
discussão dos direitos humanos e outros temas de relevância global.
Outro momento de transformação na política internacional foi a
chegada de Ronald Reagan à Casa Branca. Nesse governo a relação com
a URSS foi modicada, sendo apresentada uma tendência ao endureci-
mento, o que não ocorreu de fato. Nos quatro anos seguintes houve um
maior relaxamento das tensões também em virtude das mudanças no
Governo Comunista, com Gorbatchov sendo considerado entreguista e
traidor. Por outro lado, a URSS sofreu prejuízos políticos, econômicos e
militares ao invadir o Afeganistão, Pecequilo (2005) arma que foi para
os soviéticos como o Vietnã para os americanos. Um dos primeiros sinais
de queda do Bloco liderado pelo Kremlin foi o abandono da corrida ar-
mamentista. Gorbatchov promoveu duas políticas de abertura, Glasnost
e Perestroika; a primeira deveria reformar a política e a segunda reformar
a economia socialista. Contudo, já era demasiado tarde. Após uma série
de crises internas, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas caiu – de-
terminando, em tese, o m da Guerra Fria.
GEOPOLÍTICA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS NA GUERRA FRIA
A vertente teórica geopolítica teve seu início marcado na transi-
ção do século XIX para o XX. Os teóricos clássicos são: Frederich Ratzel,
Karl Haushoer, Halford Mackinder, Rudolf Kjellen, Alfred T. Mahan e
Nicholas Spykman. E ambos estavam ligados às duas principais escolas
da geopolítica: a anglo-saxônica e a gernica. A Escola anglo-saxônica
teve sua origem ligada ao pensamento de Mahan, seguido por Mackinder
e Spykman. A diferença entre Mahan, Mackinder e Spykman pode ser ex-
plicada da seguinte forma: o primeiro a tese – poder marítimo; o segundo
a antítese – poder terrestre; o terceiro a síntese – poder marítimo e ter-
restre. Alfred T. Mahan – formulou a geoestratégia de poder marítimo,
historiador naval americano viveu no período de 1840 – 1914. Mahan era
um admirador do poder marítimo britânico e acreditava que uma grande
nação deveria ter frotas fortes e vários pontos de controle nos mares e
oceanos. Depois de Mahan os EUA se tornaram uma potência maríti-
ma, ele buscou formas de imitar o poder britânico. Sua obra principal foi
Inuence of sea power upon history (Amorim Filho, 1991; Amorim Filho,
2003; Duarte, 2023).
A geopolítica se utiliza dos conhecimentos espaciais (geogcos)
e políticos para agregar poder ao Estado. A geopolítica alemã teve sua
origem nos tempos do Império de Napoleão, seria, para os alemães, uma
espécie de “anti-napoleonismo. Trazia ainda em sua origem a necessi-
dade de unicação da Alemanha e a imporncia de se criar um império
131
Waldeir Eustáquio dos Santos, Rodrigo Corrêa Teixeira A relação entre Turquia e Estados Unidos: a geopolíca da Guerra-Fria e a estratégia da contenção
alemão consistente, forte. Para isso, era preciso uma convicção, de que
não há geopolítica sem história, não há geopolítica sem política e claro
sem a geograa. As principais aplicações, em atividades formais, da geo-
política são: pesquisa e ensino escolar, mídia e comunicação, serviços mi-
litares e segurança. Ela pode ser utilizada para assessorias políticas e es-
tratégicas, órgãos governamentais formais, organizações internacionais
e transnacionais. No campo das atividades informais, pode ser utilizada
para serviços de inteligências, centros de comando de movimentos, guer-
rilhas e movimentos revolucionários, atividades criminosas e migrações
clandestinas (Amorim Filho, 1991; Amorim Filho, 2003; Duarte, 2023).
Segundo Morgenthau (2003) a política e a sociedade em geral são
regidas por leis objetivas baseadas na natureza humana. O interesse hu-
mano, aqui conduzido para o objetivo estatal, é denido em termos de
poder. Os políticos pensam e moldam suas ações para alcançar o po-
der, a dominação seja de sua nação ou de nações estrangeiras. Por isso
Morgenthau vai ser enfático em dizer que não interessa, a princípio, co-
nhecer as convicções políticas do condutor da Política Externa. É mister
conhecer a priori sua capacidade intelectual, pois, assim pode se perceber
o que ele fará em termos de relações internacionais. O debate america-
no no período pós-guerra girava em torno de uma política isolacionista
contra a política externa expansionista, os idealistas contra os realistas.
Spykman, homem hobbesiano e maquiavélico, estava liado à P.E. in-
tervencionista, ao realismo das Relações Internacionais e à Geopolítica.
Naquele período, sob o ponto de vista realista, o sistema era belicoso,
anárquico e demonstrava a força dos Estados Nacionais.
Os pensadores da política de autocontenção isolacionista argumen-
tavam que a defesa deveria ser organizada no próprio território ou hemis-
fério, com base no poder parador das águas. Para Spykman era necessário
avançar a defesa e posicioná-la do outro lado do Atlântico e do Pacíco,
para evitar aproximação do poder inimigo. Ele pensava a geopolítica de
forma abrangente e via a posição dos EUA tanto em relação à América
Latina, quanto à Europa como sendo de sua exclusividade. Acreditava
que a Política Internacional do século XX seria denida em termos de
poder pelo domínio da Eurásia pelos norte-americanos ou vice-versa, em
jogo de equilíbrio de forças global e não apenas regional (Melo, 1999).
No início do século XX, Japão e Reino Unido conseguiram impedir
a expansão da Rússia. Na Segunda Guerra de um lado estavam Alemanha
e Japão, do outro EUA, Rússia e Reino Unido, caso alemães e nipônicos
vencessem o conito formariam um fortíssimo poder anfíbio. No caso
de unicação da Eurásia pelos dois poderes imperiais a única solução
para os EUA seria a integração política e econômica do continente ame-
ricano, pensou Spykman (1944), uma ideia semelhante às pan-regiões de
Haushofer. Para Spykman não seria interessante para o poder americano
uma Europa federada, sua intenção era de promover poderes divididos
e equilibrados no continente. Depois de sua morte foi publicada a obra
A Geograa da Paz” que apresentava a teoria do Rimland. O Rimland
substituiria o Inner Crescente que contornava o Heartland. O ideal se-
ria uma geograa anfíbia, com uma frente no oceano e outra no conti-
nente, uma zona amortizadora entre os poderes conitantes marítimos
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 1, (fev. 2025), p. 123-144
e terrestres. Para Spykman a história demonstra que Rússia e Inglaterra
sempre lutaram contra poderes saídos do Rimland, portanto, pensava
que no Rimland estava localizada a ameaça (Melo, 1999).
Mackinder, por outro lado, buscou sempre preparar estratégias
para destruir os inimigos do Império Britânico. Suas teorias davam conta
de que um poder terrestre muito forte que caso se juntasse a um poder
marítimo destruiria a força brinica. Por inuência de Ratzel – era tam-
bém organicista. Em 1904 Mackinder cria a Teoria do Coração do mundo
(Heartland), uma massa continental eurasiana. Para ele quem controlas-
se o Heartland e se aliasse a uma potência naval seria invencível. Em
1943 o estrategista acrescenta uma parte da China na Heartland, criando
assim a teoria da periferia do mundo – Hinterland. O Heartland seria
na visão do autor uma vasta área de planícies inacessível para qualquer
poder marítimo. O temor era que um poder terrestre poderia rivalizar
com o poder marítimo britânico. Entendia que o Estado que controlasse
o Heartland poderia controlar o mundo. Segundo Melo (1999), na primei-
ra formulação o Coração Continental de norte a sul estendia-se das costas
do Oceano Ártico aos desertos da Ásia central. No sentido Leste-Oeste
englobava todo território russo até o Mar Báltico. Com o desenrolar da
guerra e os fatos que pôde observar, Mackinder repensou suas formula-
ções e em 1943 publicou novo artigo na Foreign Aairs com o título: The
Round World and the winning of the peace.
O Coração Continental na primeira formulação em “1904 abrangia
23 milhões de k, o Heartland de 1943 foi reduzido a 13 milhões de
km²” (Melo, 1999, p. 63). Foi retirado da formulação grande parte do ter-
ritório russo. Vale ressaltar que o conceito era estratégico, portanto, seus
limites não são xos, a história só é o que é por causa da Geograa. É em
virtude do Coração Continental que surge uma das mais famosas frases
de Mackinder, conforme mencionada a seguir. A World Island (Europa,
Ásia e África) formavam um único grande continente, o grande oceano,
quem domina a Europa Oriental, controla o Heartland; quem domina o
Heartland controla a Word Island; quem domina a Word Island controla
o mundo” (Mackinder, 1948, p.183).
Nos Estados Unidos aumentava o debate no nível acadêmico e po-
lítico sobre a participação do país nas questões da política internacional.
Segundo Melo (1999), Nicholas Spykman, participou do debate ativa-
mente e se posicionou a favor do realismo e da ideia de intervenção.
Perturbados com o alcance da geopolítica alemã os EUA buscavam for-
mular sua geopolítica com perspectiva diferente. Pensavam uma aborda-
gem mais ‘‘ética e política’, arma Costa (2010). Spykman (1944) numa
posição realista rompe com essa característica e defende a geopolítica
mais agressiva e que atenda às pretensões de uma potência. Para o autor,
o ideal nas relações internacionais seria o equibrio de poder, não trata-
dos e acordos.
Para Spykman (1944) a guerra psicológica e a propaganda podem
transformar o conito entre Estados numa guerra entre nações. Em
seus trabalhos Spykman sugere que os EUA formulem o mercado único
com os países da América do Norte, Central e do Sul. Chamou a atenção
principalmente para o eixo ABC (Argentina, Brasil e Chile), que tinha
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Waldeir Eustáquio dos Santos, Rodrigo Corrêa Teixeira A relação entre Turquia e Estados Unidos: a geopolíca da Guerra-Fria e a estratégia da contenção
seu comércio mais voltado para a Europa. Assim além do comércio forte
poderia ser criado um sistema de defesa único. Com base nas duas teo-
rias Spykman (1944) criou a teoria do Rimland, um anel em torno do
heartland, que teria a função de conter o poder, ou o crescimento do
poder, no coração continental.
Em torno dessa massa continental, desde a Grã-Bretanha até o Japão, e entre con-
tinente do norte e os dois continentes do sul, segue-se o grande caminho circunfe-
rencial do mundo. Este caminho parte dos mares internos e marginais da Europa
Ocidental (o Báltico e o mar do Norte);... cruza o mar Vermelho,... o Indico... e
termina nalmente no Mar de Okhotsk (Spykman, apud Costa, 2010, p. 173).
TURQUIA E EUA NA GUERRA FRIA
A Turquia é um país relativamente grande, quando comparado aos
países da Europa, segundo (Fernandes, 2005). Possui uma extensão terri-
torial de aproximadamente 769.000 k, controla dois estreitos, o Bósforo
e o Dardanelos, tem uma população de aproximadamente 82 milhões.
Sua fronteira tem extensão de 2.648 km, e está ligada com 08 (oito) países
bem diversos em termos de cultura, e segurança: Armênia, Geórgia, Síria,
Irã, Iraque, Bulgária, Grécia e Chipre. A Turquia pertence geogracamen-
te à Europa, Oriente Médio, Ásia, Cáucaso, Mar Negro, Mediterneo e
lcãs. É com base nessa diversidade que este texto busca apresentar as
possibilidades desse Estado (Zahreddine; Lasmar; Teixeira, 2012).
Para Kissinger (2001a) os americanos dominavam o “ar” e as
águas”, mas os soviéticos dominavam o Heartland, ou seja, a força ter-
restre soviética seria quase imbatível. Nesse ponto a Turquia seria impor-
tante aliado, pois possuía o poder anfíbio, força terrestre e a marítima.
Na visão moral do conito, os soviéticos seriam, para os EUA, homens
sem escrúpulos e precisavam antes de tudo ser “convertidos”, o que se
evidencia nos escritos de Kennan (1947). Kissinger destaca que em seus
anos iniciais a contenção era marcada por três aspectos, o militar, o moral
(correção do caráter) e o missionário, o ideal de salvar o mundo.
Segundo Harris (1972), a relação entre Turquia e EUA surgiu de
uma união bem pensada e planejada, pois cada país tinha interesses espe-
cos nessa situação. Para compreender a relação entre os países é neces-
rio resgatar alguns tópicos importantes da formulação e execução de
Política Externa. Muitas decisões na política internacional são tomadas
com base nessas abordagens e contribuem para melhor compreensão do
processo decisório e por que determinadas escolhas ocorrem.
Para Cintra e Pereira (2009), o processo de tomada de decisão
em Política Externa está diretamente ligado aos Poderes Executivo e
Legislativo. Como há vários interesses de grupos especícos em jogo,
a relação entre os poderes ocorre, muitas vezes, fora do âmbito ocial/
tradicional. A P.E. americana é desenvolvida basicamente com a inter-
venção dos grupos de interesse, lobbies e tomadores de decisão, ligados
ao Executivo e Congresso. Na história das relações entre EUA/Turquia
a presença dos lobbies foi sentida, no caso do Chipre com a atuação do
Lobby Grego que fez por algum momento a situação car balanceada
favoravelmente para Chipre diante da disputa com os turcos.
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Com o m do Segundo Conito Mundial existia o temor de que
os soviéticos zessem da Turquia outro de seus países membros. A URSS
manifestava ainda o desejo de renovar os acordos oriundos do Tratado
de Montreux (1936) sobre a utilização dos estreitos turcos. Segundo
Fernandes (2004) a relação com a URSS teve para a Turquia dois momen-
tos distintos: entre 1919 e 1922, Lenin subsidiou a luta turca enviando-lhe
armamento e propiciando apoio político. Já no período pós - Segunda
Guerra, o desejo de expansão soviética empurrou a Turquia para as alian-
ças ocidentais. Esse alinhamento foi estratégico, pois a URSS tinha por
objetivo a conquista de parte do território turco, além da saída para os
oceanos quentes. Isso explica a aproximação turca com o governo ameri-
cano no período da Guerra Fria.
Na metade do século XX assiste-se no cenário internacional à inver-
são de papéis entre EUA e Inglaterra. Os EUA após a Segunda Guerra se
armaram como a grande potência mundial, posição antes ocupada pelos
ingleses. E uma das principais preocupações era diminuir a inuência
britânica no Oriente Médio, fruto de acordos inclusive com a Turquia
(Rodríguez, 2003). Outro desejo era impedir o crescimento sovtico, tan-
to para o Ocidente, como para o Oriente, uma das formas de controlar
esse avanço comunista seria através da utilização das alianças militares,
como a OTAN, além de vários acordos bilaterais. A contenção seria o fa-
tor essencial para impedir esse avanço. Como ressalta Kissinger (2001a) a
Turquia por sua localização tinha grande imporncia para as pretensões
estadunidenses.
Durante a II Guerra Mundial a relação entre EUA e Turquia perma-
neceu morna e a relação turca com a URSS esfriou, pois, o sonho sovié-
tico da utilização e/ou posse em denitivo dos estreitos ainda era forte.
Em 1941, após ser atacada pelos alemães, a República socialista deixou
em segundo plano a ideia de obter o acesso aos mares quentes. Durante
a guerra houve na Turquia considerável aumento na simpatia em relação
à Alemanha e esse fato incomodou aos soviéticos. Moscou questionou a
neutralidade turca e no nal da II Guerra a desconança e as várias sus-
peitas ditavam o tom na relação entre os dois Estados, que vivenciaram
conitos históricos no passado. Com essa situação a Turquia também se
colocava ainda mais na defensiva em relação ao Kremlin.
No ano de 1945, segundo Oran (2010) foi elaborado um documento
pelo Departamento de Estado americano que denia a relação turco-a-
mericana como amigável e pacíca. O documento elencava os princípios
que deviam nortear essa amizade: 1 – A liberdade das pessoas para esco-
lherem livremente seu sistema de participação social, político, religioso
e econômico; 2 – Igualdade de oportunidade no comércio; 3 – Liberdade
para publicação, organização e reunião; 4 – Preservação das instituições
de ensino americanas em operação na Turquia; 5 – Proteção dos direitos
dos nacionais americanos. Os dois primeiros princípios são os pilares do
capitalismo, o terceiro é base da economia liberal e os dois últimos são
reflexos do imperialismo estadunidense (Oran 2010).
A Turquia devia manter-se livre da inuência soviética e os Estreitos
estavam entre os pontos de maior imporncia estratégica no período.
Ainda naquele ano o Departamento de Estado e a Marinha dos EUA
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Waldeir Eustáquio dos Santos, Rodrigo Corrêa Teixeira A relação entre Turquia e Estados Unidos: a geopolíca da Guerra-Fria e a estratégia da contenção
armavam que os Estreitos deveriam permanecer abertos em tempos de
paz e fechados em situões de conitos. Assim, mesmo estando de fora
dos acordos da Convenção de Montreux os americanos já inuenciavam
a Turquia.
Em 1945 um fato colocou em risco parte dos territórios da Turquia.
A Geórgia reivindicava uma vasta quantia de terras turcas com apoio da
URSS. Naquele momento a Turquia cobrou o posicionamento dos aliados
EUA e Reino Unido em sua defesa. A princípio os americanos foram favo-
ráveis aos turcos, em seguida os britânicos também se manifestaram a fa-
vor, pois não desejavam ver aumento da inuência soviética. Em virtude
do Tratado de Amizade de 1939, entre Inglaterra e Turquia, os ingleses se
mantiveram ao lado dos interesses turcos. Ainda em 1945, no mês de de-
zembro, houve desentendimentos entre Washington e Moscou, os ame-
ricanos estavam certos de que era intenção da Rússia atacar a Turquia.
Em abril de 1946 o Presidente Truman fez uma declaração dizendo que
a soberania e a integridade dos países do Oriente Médio não deviam ser
ameaçadas pela coerção nem pela penetração (Oran, 2010).
Em 1946 houve um acordo entre Ancara e Washington, no qual o
Presidente Truman perdoou todos os débitos da Turquia com os EUA,
existentes até aquela data. Isso foi fundamental para a economia turca
e para a relação entre as nações. Mas nesse ano, os soviéticos enviaram
duas solicitações à Turquia exigindo a revisão no Regime de controle
dos Estreitos. Foi para os turcos um ano de intensa pressão soviética. E
os EUA em parceria com a Inglaterra intervieram e impediram o acesso
da URSS aos Estreitos depois de muita resistência turca. Segundo Oran
(2010), a posição americana não era de defesa da Turquia, mas sim, com
foco em resguardar os interesses estadunidenses contra a dominação da
URSS.
Para dar um sinal de seu apoio, os EUA enviaram à Turquia um
navio de guerra portando o corpo de um diplomata turco que havia fale-
cido nos EUA. No mês de março de 1946 a Turquia solicita um emprésti-
mo aos bancos americanos e foi informada que provavelmente receberia
$25 milhões. Em outubro do mesmo ano, já no calor da Guerra Fria, os
turcos receberam uma signicativa ajuda de $500 milhões de dólares, a
Inglaterra ainda exercia inuência nos rumos da política turca e o “auxí-
lio” americano tinha claramente o desejo de reduzi-la. Com essa parceria
o “recado” estava dado também aos soviéticos, que no nal de 1946 di-
minuíram a pressão sobre o país do Bósforo e do Dardanelos. Na política
doméstica turca surge nesse período o Partido Democrata (PD), oposição
ao Partido Republicano do Povo (PRP). O PD inicialmente caracterizado
como partido opositor seguirá a mesma linha de amizade adotada pelo
PRP em relação aos EUA.
Conforme avalia Rodriguez (2003), o movimento que insere de vez
a Turquia dentro do Bloco Ocidental depois de iniciada a Guerra Fria,
foi o determinante discurso do Presidente Truman no Congresso em
12 de março de 1947. Nesse período a Grécia passava por crises internas.
Greves, inação alta, disrbios e conitos civis, havia a suspeita de pre-
sença comunista no país Helênico. A Doutrina Truman foi considerada
uma espécie de plano de resgate, pois teve como objetivo evitar que a
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 1, (fev. 2025), p. 123-144
Turquia fosse absorvida pelos soviéticos. “A Doutrina Truman marcou
o m da primeira fase da procura da Turquia por segurança”4 (Harris,
1972, p. 28, tradução nossa). E acrescenta-se, o início da busca americana
por poder mundial. Apesar disso à época muitos turcos não concordaram
com o apoio americano o que provocou várias disputas domésticas. Sob
a Doutrina Truman a ajuda era, sobretudo, para reforçar, reorganizar,
reequipar e principalmente modernizar as Forças Armadas.
A teoria do Rimland desempenhou papel central na formulação da
estratégia de contenção dos EUA na Guerra Fria (Melo, 1999). A união
turco-americana pode ser analisada através do pensamento geopolítico
de Spykman, que defendia a ideia de uma linha de defesa estadunidense
do outro lado do Oceano Atlântico e claro um poder anfíbio que pudesse
combater o poderoso Estado do Heartland. A segurança devia ser pensa-
da de modo a bloquear a chegada de qualquer poder inimigo nas frontei-
ras nacionais. Assim a Turquia seria estratégica para conter o inimigo de-
clarado dos EUA, principalmente bloqueando a passagem pelos Estreitos
de Bósforo e Dardanelos. Neste sentido, o argumento de Pecequilo (2005,
p. 144) é a justicativa mais plausível.
[...] a contenção foi o guia e o referencial central para a política externa norte-
-americana, consistindo em sua grande estratégia durante toda a Guerra Fria.
[...] A contenção marca a história das relações internacionais em seu presente e
passado mais recente, devendo-se analisar seus principais componentes, denidos
ao longo de alguns documentos, textos e discursos fundamentais [...].
O passo seguinte da diplomacia turca foi buscar enquadrar o país
dentro do Plano Marshall (aporte nanceiro) e da OTAN (Organização
do Tratado do Atlântico Norte). Isso faria da Turquia uma nação cada vez
mais partícipe de organismos pan-europeus (Rodriguez, 2003).
Quando o Plano de ajuda nanceira foi lançado, as autoridades tur-
cas se viram diante da seguinte questão: como fazer parte da ajuda? Os
diplomatas e o governo souberam utilizar-se politicamente e geopolitica-
mente da sua posição e localização para pressionar os EUA e foram ime-
diatamente incorporados às ajudas do Plano Marshall. Assim os norte-a-
mericanos aproveitaram a debilidade britânica para apoiar a Turquia e a
Grécia, pois saíram mais fortes do conito. Pensadores americanos viam
no apoio aos turcos uma forma estratégica de ajudar a Europa. Conforme
avalia Harris (1972) até o ano de 1971 as ajudas chegaram perto da soma
de três bilhões de dólares. Contudo, a crítica principalmente na Turquia,
é que essas ajudas foram em grande parte direcionada ao setor agrícola
com objetivo de incrementar a produção de alimentos para a Europa,
com pouco investimento em tecnologia.
Em 1948 foi ocializado o Pacto de Bruxelas. Em junho do mesmo
ano os EUA rmaram as bases para organizar um Arranjo Coletivo de
Segurança para a Europa, incorporando os países do Pacto de Bruxelas,
assim estava criada a OTAN. Com isso Ancara sentiu a ameaça de car
esquecida e ter reduzida sua relevância. Logo o governo turco começou
a se articular para entrar no bloco militar, mas as diculdades eram mui-
tas. Diante disso, grupos internos sugeriam que a Turquia adotasse uma
política de neutralidade, pois os americanos não se empenhavam ade-
quadamente para a entrada turca no bloco. Diante do impasse, Truman
4. The Truman Doctrine marked the end
of the first phase of Turkey’s search for
security.
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Waldeir Eustáquio dos Santos, Rodrigo Corrêa Teixeira A relação entre Turquia e Estados Unidos: a geopolíca da Guerra-Fria e a estratégia da contenção
declarou que a segurança da Europa seria também a da Turquia e que
com a criação da OTAN os turcos não seriam abandonados. Para que a
defesa do Continente europeu se completasse seria necessária a proteção
do território turco. Em 1949, apesar da sua debilidade militar e econômi-
ca, a Turquia passa a fazer parte como membro fundador do Conselho
Europeu. Segundo Harris (1972) esse convite foi apenas um consolo para
acalmar os ânimos.
Em julho de 1950, o Governo turco, através de Adnan Menderes de-
cide enviar para a Guerra da Coréia um efetivo de 4.500 soldados. Chamou
atenção o fato de que o envio não passou pelo crivo do Legislativo e não
teve consulta à oposição, pois Menderes enxergava no conito uma possi-
bilidade de abertura das portas da OTAN. Em 15/05/51 EUA propuseram
a entrada dos dois países (Turquia e Grécia) como membros permanen-
tes. “De fato, contudo, a tática turca havia deixado os Estados Unidos
com pouca opção de escolha”5 (Harris, 1972, p. 42, tradução nossa). A
forte diplomacia turca, as alianças com Inglaterra e França em 1939 e a
presença na Guerra da Coréia, foram os fatores que mais pressionaram os
estadunidenses nesses anos.
A Turquia teve sua participação na organização militar bloqueada
a princípio, por ser considerada geogracamente do Oriente Médio e por
seus conitos com o Chipre, sendo que um dos opositores a essa entrada
era a Grécia. Após o envio dos soldados para a Guerra da Coréia, os turcos
ganharam o apoio americano para fazer parte da aliança. Para os ingleses
interessava a segurança do Oriente Médio, devido aos seus interesses no
Petróleo, principalmente no Irã. Para eles a Turquia seria aceita no bloco
desde que em caso de conito no Mediterrâneo fossem enviados soldados
turcos para as operões necessárias. As negociações foram paralisadas
no nal do ano de 1951, pois os generais britânicos entendiam que a eles
caberia o comando das tropas e o que o Bloco do Mediterneo se es-
tabelecesse como uma força fora da OTAN. Os britânicos encontraram
oposição da Turquia e Estados Unidos.
Após várias negociações a Turquia foi incorporada ao Bloco Militar
Ocidental em 18 de fevereiro de 1952, assim os turcos já se viam no mesmo
nível de imporncia dos países do Leste Europeu, isso signicava inclusi-
ve, ser parte da Europa. E mais, a garantia de que o país deveria continuar
recebendo ajuda para subsidiar seu crescimento. Tanto o PRP (Partido
Republicano do Povo) sob Inü, quanto o PD (Partido Democrata) sob
Menderes, trabalharam forte para envolver os americanos na política e
nas questões turcas e conseguiram. Do lado estadunidense o objetivo era
cada vez mais aumentar sua inuência no território turco e usá-lo geo-
politicamente, contudo, sem deixar transparecer o objetivo da contenção
aos soviéticos (Harris, 1972).
A entrada para a OTAN foi uma injeção de ânimo na Turquia.
Foram desenvolvidas várias atividades sob as bandeiras da Doutrina
Truman e do Plano Marshall e a presença americana em solo turco
aumentou significativamente nesse período. Segundo Harris (1972) o
temor de um ataque sovtico fez os parceiros do Bloco Militar ociden-
tal organizarem uma Força de defesa com 96 divisões. Das quais mais
de 40 estavam sempre em situação de alerta e dessas, 18 bases eram na
5. In fact, however, the Turkish tactics
had left the United States with little
choice.
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 1, (fev. 2025), p. 123-144
Turquia, local realmente estratégico tanto para defesa como para ataque.
Durante o Governo de Eisenhower a estratégia foi intensicada, pois a
Guerra parecia questão de tempo. Criou-se nesse mandato a “Doutrina
da Retaliação Maciça”.
As estratégias da OTAN previam a derrubada do inimigo do
Heartland. Durante a década de 50, a demanda soviética por partes do
território turco era mais evidente e compreensiva. O exército turco -
cou em posição sempre estratégica, com organização de infra-estrutura e
treinamento. Parte signicativa dos investimentos da Doutrina Truman
era destinada à construção de estruturas militares, pois havia a necessi-
dade de modernização. Duas cidades se destacaram: Incirlik como base
aérea e Izmir como sede do Comando do Sudeste. Os treinamentos inten-
sos tinham como objetivo colocar o exército turco no nível mais próximo
possível do americano.
Em 1954 foi rmado o polêmico acordo em que os americanos não
diplomatas, em serviço na Turquia, estariam resguardados pela imu-
nidade, documento foi aprovado no Congresso Turco. Por outro lado,
vários outros tratados foram rmados secretamente entre o Ministério
das Relações Exteriores da Turquia, o Ercito e os EUA. Com isso, o
número de estadunidenses cresceu – eles prestavam auxílio em treina-
mentos, capacitações diversas e organização logística. Nesse período, se-
gundo Harris (1972), foram instalados mísseis de alcance intermedrio
na Turquia e a capacidade americana de obtenção de informações, através
de satélites, aumentou. A estratégia da Contenção estava em pleno desen-
volvimento. Em 1956 a URSS denunciou que balões meteorológicos dos
EUA estavam sendo utilizados como espiões e esses instrumentos eram
lançados do território turco.
Entre os anos de 1954 e 1955 foi criado o Pacto de Bagdá, um arran-
jo militar entre Turquia, Irã, Paquistão e Iraque, apoiado pela Inglaterra,
sem os EUA. Esse acordo objetivava impedir que a URSS pudesse avançar
em direção ao Oriente Médio, o que fez acirrar ainda mais os ânimos com
o Kremlin. Egito e Síria, mais afeitos aos sovticos, não zeram parte do
Pacto. Durante o ano de 1956 os soviéticos iniciaram o fornecimento de
armas à Síria, episódio que fez Washington se manifestar, dizendo que
não aceitaria nenhuma agressão aos países do Pacto e em contrapartida
criou em 1957 uma política especíca de proteção aos países do Oriente
Médio. Em 1959 o Pacto se transformou na Organização do Tratado
Central, que foi mais estruturada em termos de apoio econômico e me-
nos militar.
Portanto, a década de 50 foi marcada pela aliança comercial e mili-
tar estratégica entre Turquia e EUA. Os investimentos econômicos foram
excessivamente direcionados ao setor agrícola, sendo que a Indústria foi
pouco incentivada. Havia uma demanda por produtos manufaturados e
a indústria doméstica turca não tinha condições de atendê-la. Outro fator
de desequibrio estava ligado ao Plano Marshall, pois houve a entrada
maciça de produtos vindos de outros países que também foram bene-
ciados por esta política nanceira. Com isso a necessidade de recorrer
a empréstimos se tornou premente e como consequência lógica causou
desequilíbrio na Balança Comercial. Segundo Keyder (1979) a ideologia
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Waldeir Eustáquio dos Santos, Rodrigo Corrêa Teixeira A relação entre Turquia e Estados Unidos: a geopolíca da Guerra-Fria e a estratégia da contenção
americana após o m da II Guerra tinha como objetivo colocar no poder
dentro dos países periféricos elites com tendência pró-EUA.
Sabe-se que a década de 1950 foi extremamente complicada para o
povo turco, e seu governo em especial. A chegada de um novo grupo ao
poder provocou uma transformação muito intensa na agenda política na-
quele momento. Do lado estadunidense, a intenção seria que as elites go-
vernassem com a ideia de abertura econômica e de mercado. “Nos anos
pós-guerra ambos os governantes do PRP e PD usaram os pretextos do
expansionismo soviético para constituir alianças com os Estados Unidos
e o centro capitalista”6 (Somel, 2011, p. 194, tradução nossa). Como em
outras partes do mundo, a ajuda militar não foi encaminhada desacom-
panhada da liberalização econômica.
Já a década de 1960 foi um período conturbado na política mun-
dial, muito em virtude do que aconteceu em 1962, a famosa e assustadora
crise dos mísseis. Para Allison e Zelikow (1999) esse foi o momento em
que o mundo esteve mais próximo de uma guerra nuclear, foram 13 dias
tensos. Havia mísseis soviéticos em território cubano, direcionado para
os EUA, para isso os soviéticos justicavam a defesa de Cuba contra uma
possível invasão americana. Do outro lado, em solo turco, mísseis estadu-
nidenses apontados para a URSS. A situação foi resolvida via diplomacia.
Segundo Costa (1998), os armamentos em Cuba representaram a primei-
ra vez que os soviéticos colocaram mísseis fora do seu território, o que
assustou Washington.
O Governo Menderes concordou com a instalação de mísseis de
médio alcance na Turquia. Havia um acordo entre o Parlamento e o
Executivo do país, de que qualquer negociação dentro da parceria com os
EUA seria informada e aprovada pelo Legislativo. A questão dos mísseis
foi mantida no campo do segredo. Em meados de 1959/1960 os Mísseis
Júpiter foram instalados na cidade de Ismir. Kennedy, prevendo as com-
plicações, solicitou a retirada dos armamentos, mas os militares não con-
cordaram, alegando que a Turquia assim estaria segura e mais forte fren-
te aos soviéticos. De acordo com o Programa de Ajuda Militar, os mísseis
passaram a ser propriedade da Turquia.
Para a URSS os mísseis em Cuba possuíam o mesmo valor estra-
tégico e militar que aqueles colocados em solo turco. Depois da crise de
1962 os objetivos da OTAN foram descobertos. A Turquia, que acabou
se tornando um mero expectador da situação, foi apanhada de surpre-
sa, pois, a crise surgiu muito rapidamente. Após essa situação, ambos os
lados puderam compreender que os perigos da Guerra Fria surgiam, às
vezes, sem aviso prévio. Apesar de possuir os Mísseis em seu território a
Turquia poderia ser atacada pelos soviéticos devido a menor distância e
não estaria preparada para enfrentar tal acontecimento. Apenas em abril
de 1963 os Mísseis foram retirados da Turquia. Portanto, os mísseis em
Cuba foram uma resposta soviética, às ameaças dos EUA.
Os anos de 1960 foram marcados por desentendimentos e divisão de
posturas entre americanos e turcos (Rodriguez, 2003). Questões internas,
como o Golpe Militar e no cenário internacional os conitos com o Chipre
foram os motivadores. A Ilha (Chipre) era dividida entre gregos e turcos,
sendo que os últimos eram minoria. Os gregos sendo maioria desejavam
6. In the postwar years both the RPP
and DP governments used the pretext of
Soviet expansionism to build closer ties
with the United States and the capitalist
core.
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mudar alguns pontos da constituição para atender a alguns interesses es-
pecícos, fato com que a Turquia não concordou e como solução adotou
a intervenção militar. Como a Ilha gozava de grande prestigio na ONU
(Organização das Nações Unidas) logo o conito foi internacionalizado.
O que fez estremecer as relações entre os dois países foi a carta en-
viada à Turquia pelo presidente americano Johnson, com uma negativa
de apoio à questão turca no Chipre. Sendo assim, os turcos, questiona-
ram-se, sobre o alinhamento incondicional com os americanos. Contudo,
a Turquia já estava dependente da ajuda nanceira dos EUA e sua vontade
de se afastar não podia ser concretizada, pois seriam altos os custos para
tal situação. Em 1963 o país se tornou membro associado da Comunidade
Econômica Europeia, avanço importante para que em seguida se tornas-
se membro efetivo de direito do Bloco. Esse fato fez mudar as relações
entre os EUA e o país turco, pois sua dependência em relação aos ameri-
canos diminuiria drasticamente, contudo a entrada não se efetivou.
A década de 1960 marcou o retorno dos debates em torno do Islã
Político no Oriente Médio. Esse fenômeno não passaria em branco na terra
de Atatürk. Nesse período cresceu o antiamericanismo dentro da Turquia
e com a crise do Chipre esse sentimento aumentou consideravelmente.
Os soviéticos tentaram se aproveitar da situação e em 1964 seu Ministro
das Relações Exteriores visitou a Turquia e demonstrou estar a favor dos
turcos no conito cipriota. Paralelamente o Kremlin mantinha contato
com o Governo da Ilha, na pessoa do Presidente Makários. Por um breve
momento na história a aproximação com a URSS fez com que Turquia e
EUA se mantivessem distantes.
A década de 1970 também foram marcados por novos abalos na re-
lação entre os dois países. Durante os anos de 1975 a 1978 os EUA promo-
veram um embargo econômico contra os turcos e o motivo foi o Chipre,
invadido pela Turquia em 1974. Ainda nesse período as relações conituo-
sas entre Grécia e Turquia se intensicaram pela disputa sobre o espaço
aéreo e marítimo do Mar Egeu. As relações turco-americanas voltam a
se modicar nos anos 1980, por dois motivos principais: o Irã experimen-
tou a Revolução em 1979 e passava por uma transformação político-es-
trutural; e os sovticos invadiram o Afeganistão. Portanto, a balança de
poder no Oriente Médio estava alterada e isso signicou a revalorização
estratégica do país turco diante dos americanos, o que levou a assinatura
de novo acordo de cooperação entre os parceiros. Nesse tratado os EUA
poderiam utilizar doze bases militares na Turquia em locais estratégi-
cos. “No acordo também se contemplava ajuda econômica e militar dos
Estados Unidos à Turquia” 7 (Rodriguez, 2003, p. 1364, tradução nossa).
Vale lembrar que no início da década os militares haviam tomado o poder
novamente.
Há no Oriente Médio uma potência regional com valor estratégico
e energético alto, o Irã. Não é interessante para a Turquia, muito menos
para os EUA o protagonismo desse país. Contudo, as posições adotadas
em relação ao Estado Iraniano são distintas. Para os estadunidenses o
Irã é considerado um “rogue-State” e isso tem provocado várias situa-
ções constrangedoras na Política Internacional. Por outro lado, para os
turcos está sendo mais interessante manter a relação mais amistosa e
7. En el acuerdo también se contempla-
ba ayuda económica y militar por parte
de Estados Unidos a Turquía.
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Waldeir Eustáquio dos Santos, Rodrigo Corrêa Teixeira A relação entre Turquia e Estados Unidos: a geopolíca da Guerra-Fria e a estratégia da contenção
pragmática, inclusive recebendo petróleo e gás desse país. A diplomacia
turca sempre ressalta a amizade entre os dois países. E a Turquia nega
qualquer disputa por liderança regional com o povo iraniano.
Outro país nos limites fronteiriços da Turquia que gerava preocu-
pações era a Síria, também atualmente vista pelos EUA como um “rogue-
State”. Em alguns momentos das décadas de 1990 e 2000 quando alguma
dissidência surgia, os turcos acreditavam no suporte norte-americano
a ela, o que não ocorreu. A Síria é uma das nações mais fortemente li-
gadas à Rússia e isso pode explicar em parte a neutralidade americana.
Conforme Rodriguez (2003), nesse caso Washington preferia car sempre
de fora e evitar qualquer confronto com a Síria para não atrair os russos.
A Ásia Central é um ponto importante de projeção para a Turquia,
pois nessa rego do Globo há alguns povos turcos. Mas existe inuência
da Rússia e do Irã nesse local e o Governo turco tenta a todo custo mini-
mizá-la. Nenhum dos Estados supracitados (Rússia e Irã) possuem laços
étnicos e religiosos com o povo ali estabelecido e disso também os turcos
tiram proveito. Há o projeto de oleoduto e gasoduto ligando essa região
à Europa e passando em território da Turquia, o qual foi apoiado forte-
mente pelo governo americano que deseja também ver a inuência russa
mais limitada possível.
Internamente há uma forte pressão de grupos lobistas que defen-
dem os interesses de gregos e armênios. Esse fato vez ou outra provoca
tensões entre os antigos parceiros (EUA/Turquia). Os grupos internos
levantam bandeiras em defesa dos direitos humanos, a questão delicada
do Chipre e desejam minimizar as ajudas nanceiras para o Governo de
Ancara. Conforme Rodriguez (2003) não há, por outro lado, o Lobby tur-
co o que faz a situação car desfavorável para a Turquia, que recebe apoio
apenas de órgãos do próprio governo norte-americano.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Segundo nota apresentada por Oran (2010), o número de acordos
bilaterais celebrados entre EUA e Turquia é uma incógnita até os dias
atuais. Contudo, foram muitos, principalmente no campo militar. Através
da OTAN e dos vários tratados os dois países aumentaram sua segurança
interna, sua capacidade militar e conseguiram conter o perigo iminente
representado pela URSS. Barnett (1996) arma que as alianças servem
para evitar uma guerra indesejada. No caso da relação aqui trabalhada,
a guerra ocorreu, apesar de ser caracterizada como um conito atípico,
ideológico: a Guerra Fria. Por outro lado, também diz o autor acima que
pode servir para uma bem-sucedida guerra, caso não seja possível evitá-la
e isso foi o que ocorreu na Guerra Fria. Mas vale ressaltar que a vitória
dessa aliança foi construída sob forte pressão militar e, sobretudo, pela
busca incansável, indomável, por aquilo que pode ser dito como o bem
mais precioso das Relações Internacionais – o poder. Sendo que a identi-
dade foi essencial para se alcançar este fator.
Esse artigo cumpriu o objetivo que era analisar a relação geopolítica
e geoestratégica entre Turquia e os Estados Unidos para compreender o
papel da Turquia como país de contenção à expansão sovtica durante
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a Guerra Fria. Dos documentos (textos, artigos, livros) pesquisados pou-
cos falam diretamente dos interesses entre os dois países como o faz, por
exemplo, Harris (1972). Mas, se fosse possível dizer de uma soma de fato-
res, o resultado seria que a geopolítica foi primordial na construção e/ou
caminhada desses países, principalmente no período de 1947 até meados de
1991. A Turquia desenvolveu um papel estratégico importante e ainda hoje
colhe os frutos ou recebe ônus por isso, conforme arma Sandrin (2009).
A primeira hipótese, que diz da posição e localização da Turquia
ainda da sua ligação com outros países, se conrma diante das descober-
tas feitas por essa pesquisa. Nessa condição, a Turquia foi parte do plano
estadunidense de contenção da União Soviética na Guerra Fria. Portanto,
também foi conrmada a segunda hipótese. Assim a Turquia controlan-
do os estreitos o de Bósforo e Dardanelos, não permitindo o acesso sovié-
tico, somadas às suas bases militares com os EUA. Isso foi essencial para
que o Kremlin não alcançasse o objetivo principal que seria o acesso aos
mares quentes, ou seja, saída para o Mar Mediterrâneo. Sua “possível
intenção de se transformar em um “poder anfíbio” não pôde ser concre-
tizada, pois, a navegação, as estratégias de guerra e/ou conquistas não
seriam administráveis no oceano gelado ao norte da URSS. Outro aspec-
to relevante, que não foi alcançado, seria o acesso às fontes de energia,
encontradas em abundância no Oriente Médio, petróleo e gás.
Além disso, a Turquia exerceu também o papel de contenção políti-
co-estratégica dos países do Oriente Médio frente ao chamado “Ocidente”,
conrmando outra hipótese desta pesquisa. É possível novamente bus-
car amparo em Barnett (1996) que armou estarem os países do Oriente
Médio mais “interessados” em conitos deixando em segundo plano a
cooperação. Naquele tempo histórico, período da Guerra Fria, essa ar-
mação poderia fazer sentido. Mesmo a Turquia, saindo da Guerra Fria,
estava marcada por essa tendência, que viria a ser transformada nos anos
2000. Conforme Pecequilo (2005) o pós-Guerra Fria foi marcado essen-
cialmente pela multipolaridade. Assim o argumento ora apresentado é
a de que a contenção nesse aspecto foi militar, mas também ideológica.
No aspecto militar a Turquia sob vários aspectos impediu a amiza-
de de países do Oriente Médio com a URSS. Suas bases militares possi-
bilitavam uma presença forte dos EUA, pois seu espaço geográco é rico
em possibilidades estratégicas. Suas fronteiras dão acesso rápido e fácil a
vários Estados considerados como ameaça pelos estadunidenses: Iraque,
Síria e Irã, por exemplo. Também do ponto de visto militar foi apresenta-
do nesse trabalho que as organizações militares constituídas no Mundo
Árabe tiveram a presença dos turcos, pode-se lembrar do Pacto de Bagdá
e do Tratado de Cooperação do Golfo. Claro, não pode ser esquecido o
papel da Turquia nas operações de paz, tanto em sua região Eurásia, con-
forme Turquia (2001), como na África. Mas, a principal organização mili-
tar foi a OTAN, que pôde integrar em seus quadros vários países-chave.
A OTAN foi um dos pilares da política de contenção.
No aspecto ideológico é valido resgatar a modernização promovida
por Atatürk no começo do século passado. Situação a princípio impositi-
va, mas, que num segundo momento foi bem utilizada pela Turquia para
suas aquisições e alianças. Uma nação do Oriente, islâmica e que faz parte
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Waldeir Eustáquio dos Santos, Rodrigo Corrêa Teixeira A relação entre Turquia e Estados Unidos: a geopolíca da Guerra-Fria e a estratégia da contenção
do mundo ocidental. Os turcos souberam usar o alfabeto, democracia,
liberdade política”, todos esses aspectos foram empregados como um
bom exemplo” aos países vizinhos.
Outra variável relevante para mensurar o papel turco na contenção
foi o aspecto nanceiro. A Turquia, segundo Harris (1972), chegou a ser
o terceiro país em volume de ajuda estadunidense no período da Guerra
Fria. Conforme analisado no desenvolvimento desta pesquisa, a questão
econômico-nanceira era para os EUA uma das molas-mestras para der-
rubar a concorrência soviética. Essa política foi bem utilizada pelos go-
vernos que ocupavam a Casa Branca. Portanto, para se encaminhar uma
concluo, é válido lembrar que a lente teórica da geopolítica auxiliou na
percepção da relação entre Turquia e Estados Unidos no período do con-
ito bipolar. Mas ainda hoje, mesmo com a mudança sistêmica pode ser
perfeitamente utilizada. A “troubled alliance” entre esses dois países foi
e continua sendo pragmática, estratégica e claro econômico-nanceira.
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