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Neblina Orrico, Danilo Elias Fialho Josaphat O Papel do Brasil na Construção de uma Aliança Global contra a Fome e a Pobreza no Contexto do G20
O Papel do Brasil na Construção de uma
Aliança Global contra a Fome e a Pobreza
no Contexto do G20
El Rol de Brasil en la Construcción de una Alianza Global
contra el Hambre y la Pobreza en el Contexto del G20
The Role of Brazil in Building a Global Alliance against
Hunger and Poverty in the Context of the G20
Neblina Orrico1
Danilo Elias Fialho Josaphat2
DOI: 10.5752/P.2317-773X.2025v13n1p29-43
Enviado em: 07 de novembro de 2024
Aceito em: 02 de dezembro de 2024
R
Este artigo examina o papel do Brasil na criação da Aliança Global contra a
Fome e a Pobreza no contexto do G20, destacando as estratégias, políticas e
iniciativas lideradas pelo governo brasileiro durante sua presidência no grupo. O
estudo analisa a posição brasileira alicerçada sobre as políticas públicas nacio-
nais e a proposta de uma Aliança Global, à luz da tese de Milner (2020) sobre
ajuste de preferência entre os atores internacionais. A análise enfoca os desaos
enfrentados pelo Brasil e as ações adotadas para concretizar a formação da
Aliança, com ênfase na proposta de um G20 mais social, inclusivo e coordenado
que reetisse as aspirações dos países do Sul Global, na busca pela melhoria
das condições sociais tanto em seus territórios quanto no cenário global. O
artigo começa discutindo o papel do G20 na governança econômica global,
apresentando uma análise histórica do grupo, a composição de seus membros,
suas contribuições para o processo e as perspectivas para o futuro. A segunda
seção examina o panorama atual da fome no mundo, com base nos relatórios
de organizações internacionais como a FAO, UNICEF, OMS, FIDA e WFP,
que fornecem uma visão abrangente sobre a crise alimentar global. A terceira
seção detalha os pilares da proposta brasileira para a criação da Aliança Global,
destacando a importância de uma abordagem integrada e centrada nas pessoas
para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Nas consi-
derações nais, o artigo ressalta a relevância estratégica da atuação brasileira na
construção da Aliança no G20, sublinhando seu potencial para fomentar uma
agenda mais inclusiva e coordenada entre os países membros, contribuindo para
o cumprimento dos ODS estabelecidos pela Agenda 2030.
Palavras-chave: G20, Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, Agenda 2030,
Redução da Pobreza.
1. Neblina Orrico é doutoranda do Pro-
grama de Pós-Graduação em Ciências
Sociais - Estudos Comparados sobre as
Américas (PPGECsA) do Departamento
de Estudos Latino-Americanos (ELA)
da Universidade de Brasília (UnB).
Mestre em Ciências Sociais - Estudos
Comparados sobre as Américas pelo
CEPPAC, Universidade de Brasília (UnB).
Brasília/DF, Brasil. ORCID: https://orcid.
org/0000-0002-4147-0303. E-mail:
neblinaorrico@gmail.com.
2. Danilo Josaphat é mestrando do Pro-
grama de Pós-Graduação em Ciências
Sociais - Estudos Comparados sobre as
Américas (PPGECsA) do Departamento
de Estudos Latino-Americanos (ELA)
da Universidade de Brasília (UnB). É
bacharel em Relações Internacionais
pela Universidade de Brasília (UnB).
Brasília/DF, Brasil. ORCID: https://orcid.
org/0009-0002-2211-0924. E-mail:
danilojosaphat@gmail.com.
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 1, (fev. 2025), p. 29-43
R
Este artículo examina el papel de Brasil en la creación de la Alianza Global con-
tra el Hambre y la Pobreza en el contexto del G20, destacando las estrategias,
políticas e iniciativas lideradas por el gobierno brasileño durante su presiden-
cia en el grupo. El estudio analiza la posición brasileña, fundamentada en las
políticas públicas nacionales y en la propuesta de una Alianza Global, a la luz de
la tesis de Milner (2020) sobre el ajuste de preferencias entre los actores interna-
cionales. El análisis se centra en los desafíos enfrentados por Brasil y las acciones
adoptadas para concretar la formación de la Alianza, con énfasis en la propuesta
de un G20 más social, inclusivo y coordinado, que reeje las aspiraciones de los
países del Sur Global en la búsqueda de la mejora de las condiciones sociales
tanto a nivel nacional como global. El artículo comienza con una discusión so-
bre el papel del G20 en la gobernanza económica global, presentando un análisis
histórico del grupo, la composición de sus miembros, sus contribuciones al pro-
ceso y las perspectivas para el futuro. La segunda sección examina el panorama
actual del hambre en el mundo, basándose en los informes de organizaciones
internacionales como la FAO, UNICEF, OMS, FIDA y WFP, que proporcionan
una visión integral sobre la crisis alimentaria global. La tercera sección detalla
los pilares de la propuesta brasileña para la creación de la Alianza Global, desta-
cando la importancia de un enfoque integrado y centrado en las personas para
alcanzar los Objetivos de Desarrollo Sostenible (ODS). En las consideraciones
nales, el artículo subraya la relevancia estratégica del liderazgo brasileño en la
construcción de la Alianza en el G20, destacando su potencial para promover
una agenda más inclusiva y coordinada entre los países miembros, contribuyen-
do al cumplimiento de los ODS establecidos en la Agenda 2030.
Palabras clave: G20, Alianza Global contra el Hambre y la Pobreza, Agenda
2030, Reducción de la Pobreza.
A
This article examines Brazil’s role in the creation of the Global Alliance Against
Hunger and Poverty within the context of the G20, highlighting the strategies,
policies, and initiatives led by the Brazilian government during its presidency
of the group. The study analyzes Brazil’s position, grounded in national public
policies and the proposal for a Global Alliance, in light of Milner’s (2020) theory
on preference adjustment among international actors. The analysis focuses on
the challenges faced by Brazil and the actions taken to materialize the formation
of the Alliance, with an emphasis on the proposal for a more social, inclusive,
and coordinated G20 that reects the aspirations of Global South countries in
their pursuit of improved social conditions both domestically and globally. The
article begins with a discussion of the G20’s role in global economic governan-
ce, presenting a historical analysis of the group, its membership composition, its
contributions to the process, and its future prospects. The second section exami-
nes the current landscape of global hunger, drawing on reports from internatio-
nal organizations such as FAO, UNICEF, WHO, IFAD, and WFP, which provide
a comprehensive perspective on the global food crisis. The third section outlines
the pillars of Brazil’s proposal for the creation of the Global Alliance, emphasi-
zing the importance of an integrated and people-centered approach to achie-
ving the Sustainable Development Goals (SDGs). In the concluding remarks, the
article underscores the strategic relevance of Brazil’s leadership in constructing
the Alliance within the G20, highlighting its potential to foster a more inclusive
and coordinated agenda among member countries, contributing to the achieve-
ment of the SDGs established in the 2030 Agenda.
Keywords: G20, Global Alliance against Hunger and Poverty, Agenda 2030,
Poverty Reduction.
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Neblina Orrico, Danilo Elias Fialho Josaphat O Papel do Brasil na Construção de uma Aliança Global contra a Fome e a Pobreza no Contexto do G20
Introdução
A simbologia do martelo de madeira no contexto do Grupo dos
Vinte (G20) transcende a mera representação material, incorporando va-
lores fundamentais de cooperação e negociação entre os países membros.
o por acaso, este símbolo ganhou destaque durante a transferência da
presidência temporária do G20, em setembro de 2023, em Nova Delhi, na
Índia, quando o martelo foi passado das mãos do primeiro-ministro india-
no, Narendra Modi, para o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva.
A cerimônia marcou o início da presidência anual do G20 pelo Brasil sob
o lema “Construindo um Mundo Justo e um Planeta Sustentável.
Nesse cenário, foi apresentada pelo governo brasileiro a proposta
do Brasil de liderar uma agenda do G20 mais social, inclusivo e coor-
denado, buscando, dentre tantas propostas, estabelecer uma Aliança
Global contra a Fome e a Pobreza. Essa proposta, alinhada com as as-
pirações do Sul Global, contribui para a manutenção e promoção da
imagem do Brasil à nível internacional, destacando o país como preocu-
pado com questões sociais e impulsionando a reputação internacional
brasileira nesse âmbito (Mota, 2015). Para tanto, foram elencadas como
base experiências bem-sucedidas que podem ser difundidas globalmen-
te no escopo do ativismo internacional adotado pelo Brasil, focado na
disseminação de políticas sociais sob um modelo inovador de desenvol-
vimento referência positiva para as tentativas dos Estados em desenvol-
vimento de reformar as estruturas de governança global (Menezes &
Vieira, 2002).
Neste contexto, o presente artigo se propõe a analisar o papel do
Brasil na construção de uma Aliança Global contra a Fome e a Pobreza,
no âmbito do G20. Para isso, será realizado um exame das estratégias, po-
líticas e iniciativas lideradas pelo Brasil durante sua presidência no Grupo
dos 20, com o objetivo de compreender como essas ações contribuem
para a promoção de uma agenda mais inclusiva e coordenada entre os
países membros.
O resultado desse exame será abordado sob a tese de Milner (2020)
para abordar cooperação internacional a partir do ajuste de preferências
entre diferentes atores internacionais com objetivos distintos, conside-
rando a interação e a experiência da política doméstica brasileira de ên-
fase ao combate à fome e à pobreza e a proposta de uma Aliança Global.
No paper que se segue trataremos de descrever os desaos assumidos pelo
governo brasileiro e sua atuação nos meses que se seguiram para atingir
o objetivo de formação da Aliança. Conforme destacou o presidente Lula:
Para assegurar que o G20 atue de forma inclusiva e coerente, o Brasil pretende
organizar os trabalhos em torno de três orientações gerais. Primeiro, vamos fa-
zer com que as trilhas política e de nanças se coordenem e trabalhem de forma
mais integrada. Segundo, temos de ouvir a sociedade. A Presidência brasileira
vai assegurar que os grupos de engajamento tenham a oportunidade de reportar
suas conclusões e recomendações aos representantes de governo. Terceiro, não
podemos deixar que questões geopolíticas sequestrem a agenda de discussões das
várias instâncias do G20. Não nos interessa um G20 dividido. (Brasil, 2023)
Por meio desta alise, espera-se contribuir para elucidar como
países do Sul Global, como o Brasil, formulam políticas de governança
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globais e engajam-se em iniciativas de cooperação para enfrentar desaos
prementes, como a fome e a pobreza no século XXI.
Na primeira seção, apresentamos o papel do G20 na Governança
Econômica Global, com um panorama histórico do G20, desde sua cria-
ção até as cúpulas de chefes de Estado e governo. Em seguida, são dis-
cutidos os países membros do G20, suas características e contribuições
para o grupo. Posteriormente, são abordadas as entidades internacionais
participantes das cúpulas do G20. Por m, são exploradas as perspectivas
futuras do G20 e os desaos que o grupo enfrenta na busca por uma go-
vernança econômica global mais ecaz e inclusiva.
Na segunda seção, discorremos sobre o cenário atual da fome no
mundo examinando as principais descobertas e recomendações do relató-
rio periódico conjunto – elaborado pela Organização das Nações Unidas
para Agricultura e Alimentação (FAO, em inglês), pelo Fundo das Nações
Unidas para a Inncia (UNICEF, em inglês), pela Organização Mundial
da Saúde (OMS), pelo Fundo Internacional para o Desenvolvimento
Agrícola (FIDA) e pelo Programa Mundial de Alimentos (WFP, em in-
glês) – que oferece uma visão abrangente do cenário atual da fome e da
pobreza em todo o mundo.
Na terceira e última seção, trazemos os pilares nos quais se sus-
tentou a proposta do governo brasileiro para criar uma Aliança Global
contra a Fome e a Pobreza no âmbito do G20, com destaque para a im-
portância de uma abordagem integrada e centrada nas pessoas para se
alcançar os ODS relacionados à erradicação da fome no mundo até 2030.
Nas considerações nais, destacamos o papel do Brasil na cons-
trução dessa Aliança Global contra a Fome e a Pobreza que, no âmbito
do G20, se mostrou estrategicamente relevante na construção do futuro
de políticas e iniciativas que podem contribuir para a promoção de uma
agenda mais inclusiva e coordenada entre os países membros, fazendo
com que sejam alcançados os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
da Agenda 2030.
O Papel do G20 na Governança Econômica Global
Aqui examinaremos a evolução do G20 ao longo do tempo e seu pa-
pel na governança econômica global. Primeiramente, é apresentado um
panorama histórico do G20, desde sua criação até as cúpulas de chefes
de Estado e governo. Em seguida, são discutidos os países membros do
G20, suas características e contribuições para o grupo. Posteriormente,
são abordadas as entidades internacionais participantes das cúpulas do
G20. Por m, são exploradas as perspectivas futuras do G20 e os desaos
que o grupo enfrenta na busca por uma governança econômica global
mais ecaz e inclusiva.
Principal espaço onde países discutem e colaboram sobre questões
econômicas globais – como crescimento econômico, comércio, mudan-
ças climáticas e desigualdade – atualmente, o G20 é o principal fórum
de cooperação econômica internacional que reúne as economias mais
inuentes do mundo e que representam uma grande parte do PIB mun-
dial. Criado em 1999 em resposta às crises econômicas internacionais que
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Neblina Orrico, Danilo Elias Fialho Josaphat O Papel do Brasil na Construção de uma Aliança Global contra a Fome e a Pobreza no Contexto do G20
abalaram a estabilidade global, o G20 foi concebido como um mecanismo
de coordenação entre os países-membros para discutir os grandes temas
nanceiros internacionais num horizonte mais amplo do que o existente
anteriormente, o G7/83 , sendo o objetivo principal trazer os grandes paí-
ses “emergentes” a práticas e comportamentos considerados adequados
para o avanço “sem sobressaltos” da internacionalização dos uxos nan-
ceiros (Cozendey, 2011, p. 83).
Nos anos seguintes, a importância do grupo cresceu rapidamente
em razão dos choques econômicos que abalaram a estabilidade nancei-
ra global no nal do século XX (Albuquerque, 2023). Essas crises incluí-
ram a crise do México de 1994, a crise dos tigres asiáticos de 1997, a crise
da Rússia de 1998 e a desvalorização do Real em 1998/99. Diante desses
eventos e perante um cenário global multipolar, as maiores economias do
mundo reconheceram a necessidade de um fórum mais abrangente e in-
clusivo para coordenar respostas políticas e econômicas (Ramos; Garcia,
2024) e o G20 ganhou força nesse cenário.
Atualmente, o agrupamento desempenha, através de presidências
rotativas anuais, um papel importante na denição e no reforço da arqui-
tetura e da governança mundiais. Desta forma, apesar de inicialmente
o fórum se concentrar principalmente em questões macroeconômicas
e nanceiras, sua agenda foi progressivamente dilatada para incluir te-
mas como comércio, desenvolvimento sustentável, saúde, agricultura,
energia, meio ambiente, mudanças climáticas e combate à corrupção. O
Grupo dos 20 solidicou sua importância a partir da realização das cúpu-
las de chefes de Estado e governo de 2008, durante a crise nanceira glo-
bal (Albuquerque, 2023). Em síntese, o G20 ocupa-se da governança glo-
bal, a partir do reconhecimento da inexorabilidade da interdependência
no sistema internacional, ou seja, a inevitabilidade de soluções coletivas,
assim como explorado por Keohane & Milner (1996).
Apesar do nome, o G20 é composto por 19 países membros, União
Europeia e mais recentemente a União Africana, representando as maio-
res economias do mundo4 . A inclusão recente da União Africana, em
2023, reete a crescente legitimidade dos questionamentos por uma re-
presentação mais equilibrada e diversicada na governança global.
A despeito da considerável desproporcionalidade de representação
geográca – com maioria de países do norte global –, juntos, os membros
do G20 representam cerca de 85% do PIB mundial, 75% do comércio in-
ternacional e dois terços da população do planeta. Essa relevância global
resulta no comparecimento massivo durante os encontros ministeriais e
cúpulas do grupo de uma série de entidades internacionais como partici-
pantes xas das cúpulas do G20, nomeadamente: o sistema da Organização
das Nações Unidas (ONU), o Fundo Monetário Internacional (FMI), o
Banco Mundial (BM), a Organização Mundial do Comércio (OMC), a
Organização Mundial da Saúde (OMS), a Organização Internacional
do Trabalho (OIT), o Conselho de Estabilidade Financeira (Financial
Stability Board - FSB, em inglês) e a Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Porém, a conjunção de membros do G20 projeta uma relevância
para o enfrentamento de desaos globais cujo potencial nem sempre é
3. O G8 incorporou a Rússia ao G7, mas
os temas econômicos continuavam
a ser discutidos prioritariamente no
formato G7.
4. Os países membros incluem África do
Sul, Alemanha, Arábia Saudita, Argen-
tina, Austrália, Brasil, Canadá, China,
Coreia do Sul, Estados Unidos, França,
Índia, Indonésia, Itália, Japão, México,
Reino Unido, Rússia e Turquia, União
Europeia (UE) e União Africana (UA).
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 1, (fev. 2025), p. 29-43
convertido em eciência. Para corresponder às expectativas de governan-
ça internacional, o sucesso futuro do G20 dependerá da capacidade dos
países membros de superar diferenças e trabalhar em conjunto. Esse en-
frentamento não ocorrerá a despeito das divergências geopolíticas, mas
através delas e da capacidade dos membros alheios às polarizações de
pautar tópicos de agenda inovadores que extraiam ganhos estratégicos
das rivalidades entre os membros do grupo.
Cenário atual da fome no mundo
Em relatório periódico conjunto, a Organização das Nações Unidas
para Agricultura e Alimentação (FAO, em inglês), o Fundo das Nações
Unidas para a Inncia (UNICEF, em inglês), a Organização Mundial da
Saúde (OMS), o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola
(FIDA) e o Programa Mundial de Alimentos (WFP, em inglês) oferecem
anualmente uma visão abrangente do cenário atual da fome e da pobreza
em todo o mundo. Este capítulo examina as principais descobertas e reco-
mendações do relatório e destaca as implicações para o G20.
O relatório destaca que 258 milhões de pessoas em 58 países en-
frentam níveis agudos de fome, e cerca de 735 milhões vivem em pobreza
extrema. Projeções indicam que mais de 600 milhões de pessoas enfren-
tarão a fome até 2030, e 575 milhões viverão em pobreza extrema (FAO et
al., 2023). Esses números reetem uma reversão do progresso em direção
ao cumprimento do objetivo global de erradicação da pobreza e da fome,
que compõem o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
El hambre en el mundo en 2022, medida por la prevalencia de la subalimentación
(indicador 2.1.1 de los ODS), se mantuvo muy por encima de los niveles ante-
riores a la pandemia. La proporción de la población mundial que sufría hambre
crónica en 2022 era de aproximadamente el 9,2 %, frente al 7,9 % en 2019. Tras
aumentar bruscamente en 2020 en plena pandemia mundial, y de aumentar más
lentamente en 2021 hasta alcanzar un 9,3 %, la prevalencia de la subalimentación
dejó de aumentar de 2021 a 2022. Se estima que el hambre afectó a entre 691
millones y 783 millones de personas en todo el mundo en 2022. Considerando el
punto medio del rango estimado (unos 735 millones en 2022), en 2022 padecie-
ron hambre 122 millones de personas más que en 2019, antes de la pandemia
(FAO et al., 2023, p. 20).
O relatório identica quatro tipos de crises como principais fatores
de pobreza e insegurança alimentar: conitos e insegurança, crises eco-
nômicas, choques climáticos e choques para a saúde vegetal, zoonótica
e humana. A despeito desse desao global e seus desdobramentos afeta-
rem prementemente países não-membros do G20 e serem experienciado
por proporções diferentes dos cidadãos das maiores e menores economias
membros do grupo, eles se manifestam de maneira transnacional e seu
enfrentamento requer coordenação multilateral (Margulis, 2012).
Segundo apontado pelo referido relatório, a fome global está em
ascensão em muitas regiões do mundo, principalmente devido aos efeitos
da pandemia de COVID-19, aumento dos preços dos alimentos e energia,
conitos e fenômenos meteorológicos extremos.
Tema central do relatório é a urbanização e sua inuência nos
sistemas agroalimentares. Com a previsão de que quase sete em cada
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Neblina Orrico, Danilo Elias Fialho Josaphat O Papel do Brasil na Construção de uma Aliança Global contra a Fome e a Pobreza no Contexto do G20
dez pessoas viverão em áreas urbanas até 2050, a urbanização está mol-
dando esses sistemas e sua capacidade de fornecer dietas saudáveis e
acessíveis para todos. A análise ressalta a necessidade de uma aborda-
gem integrada do connuo rural-urbano para entender as complexas
interações entre áreas urbanas, periurbanas e rurais. A conectividade
crescente nesse contínuo é fundamental para o funcionamento das ca-
deias de valor e para enfrentar os desaos e oportunidades apresentados
pela urbanização.
Além disso, o documento destaca a importância da governança dos
sistemas agroalimentares, destacando a necessidade de mecanismos e
instituições que ultrapassem os limites setoriais e administrativos e con-
tem com a colaboração dos governos subnacionais e locais. Os governos
locais são identicados como atores fundamentais na implementação de
políticas e soluções essenciais para garantir que todas as pessoas tenham
acesso a dietas adequadas.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) aponta que menos
da metade da população mundial (4,1 bilhões) tem acesso a pelo menos
um benefício de proteção social, com variações regionais signicativas:
na África, apenas 17,4% da população está coberta por um benefício.
Embora tenha sido registrada uma melhoria signicativa na cobertura
das pensões para os idosos (77,5% da população de idosos no mundo rece-
be benefício), há outros indicadores críticos (OIT, 2022).
Ademais, menos de um em cada cinco desempregados recebe sub-
sídios governamentais (18,6%) e apenas uma em cada quatro crianças re-
cebe benefícios de programas de apoio às falias (26,4%). Uma em cada
três pessoas com deciência recebe benefícios por invalidez (33,5%) e so-
mente 30,6% cento da população em idade ativa tem acesso a programas
abrangentes ao longo do ciclo de vida (34,3% para os homens e 26,5%
para as mulheres) (OIT, 2022). Esse cenário de falta de proteção social ele-
va a insegurança alimentar de maneira exponencial e ajuda a relembrar a
imbricada correlação entre fome e pobreza5 .
Portanto, os relatórios diagnosticam os desaos da fome e da po-
breza no mundo atual de maneira abrangente. Esse panorama coaduna
com a necessidade de garantir acesso à comida, e a uma alimentação
nutritiva; aumento da produtividade agrícola e da agricultura familiar;
fortalecimento de sistemas alimentares sustentáveis e de práticas agríco-
las resilientes; preservação da diversidade genética alimentar; aumento
do investimento em tecnologia agropecuária; eliminação das distorções
comerciais no mercado agrícola e controle à volatilidade dos preços de
commodities alimentares (Agenda 2030, 2015).
A satisfação de tarefas sabidamente complexas e que cujas in-
cumbências estão pulverizadas entre organizações multilaterais exige
uma governança mais eciente (Margulis, 2012). A própria realização
do referido relatório por cinco diferentes agências demonstra que o
assunto não pode ser abordado por apenas um ator internacional tradi-
cional. Paralelamente, sem que seja nominalmente citado, as recomen-
dações do referido relatório fornecem um roteiro de trabalho afeito às
potencialidades do G20 em suas características de composição, objeti-
vo e estrutura.
5. A definição de pobreza utilizada neste
trabalho considera a definição do Banco
Mundial de que, em 2024, cerca de 3,5
bilhões de pessoas (44% da população
mundial) vivem na pobreza, ou seja, com
menos de US$ 6,85 por dia. Disponível
em: https://www.worldbank.org/en/pu-
blication/poverty-prosperity-and-planet
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O exemplo, compromisso e objetivo do Brasil
Ao assumir a presidência do G20, o governo brasileiro deniu
como prioridades o combate à fome, à pobreza e à desigualdade, assim
como a promoção das três dimensões do desenvolvimento sustentável:
econômica, social e ambiental (Brasil, 2023c). Além disso, a reforma da
governança global foi um tema central da agenda. A questão das mudan-
ças climáticas também gurou entre as principais prioridades, com um
foco especíco na mitigação de seus impactos, particularmente nos países
mais vulneráveis. Outra proposta relevante foi a reforma scal global,
que incluía a taxação das grandes fortunas6 , com o objetivo de assegurar
uma distribuição mais equitativa dos recursos e nanciar políticas públi-
cas voltadas à redução das desigualdades sociais e ambientais.
Ao se propor a liderar um G20 mais social e inclusivo, o Brasil
também abraçou a tarefa de propor e implementar a construção de uma
Aliança Global contra a Fome e a Pobreza. A despeito do lançamento há
10 anos da Agenda 2030 e a existência do ODS 2 sobre Fome Zero, o mun-
do tem presenciado um crescimento alarmante no número de pessoas
que não se alimentam adequadamente: 735 milhões estão passando fome
e 2,4 bilhões viviam em situação de insegurança alimentar moderada ou
grave até 2022 (FAO et al., 2023).
Diante disso, a sugestão brasileira é de que os países que aderirem
à Aliança Global proposta se comprometam a implementar políticas
públicas concretas e a formar uma rede para a difusão de tecnologias e-
cazes de combate à fome e à pobreza em âmbito local. O objetivo do go-
verno brasileiro é construir, junto com aqueles que aderirem, opções de
programas de enfrentamento da fome de larga escala e a nível nacional,
lançando mão de programas de desenho multidisciplinar para aplicação
em larga escala adaptada às diferentes realidades nacionais como “inicia-
tivas como transferência condicionada de renda, qualicação prossio-
nal, apoio à agricultura familiar, merenda escolar de qualidade e proteção
social adaptativa” (Brasil, 2023, n.p.)
No Brasil, essa tarefa foi conduzida em conjunto pelo Ministério das
Relações Exteriores e pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência
Social, Família e Combate à Fome (MDS), responsável por um dos pilares
da política social brasileira, o programa Bolsa Família, apresentado como
exemplo de política pública a ser promovida pela Força-Tarefa da Aliança
Global contra a Fome e a Pobreza. Reconhecido internacionalmente por
sua efetividade na redução da pobreza e da desigualdade, o Bolsa Família
se destaca como um modelo a ser seguido devido os resultados para o
combate à fome e pobreza.
Com 21 anos completados em 2024, o programa brasileiro demons-
tra o impacto transformador de políticas públicas estruturadas e dire-
cionadas. Recentemente, o Bolsa Falia passou a compor um dos elos
essenciais do novo Plano Brasil Sem Fome, uma estratégia que articula
80 ações e programas de 24 ministérios, uma versão atualizada o Fome
Zero para o terceiro mandato presidencial de Lula. O Plano é composto
por 100 metas dispostas em três eixos: acesso à renda, redução da pobreza
e promoção da cidadania; segurança alimentar e nutricional: alimentação
6. O Brasil apresentou ao G20 a
proposta de criação de um imposto
mínimo global de 2% sobre a riqueza
dos bilionários do mundo, o que poderia
gerar uma arrecadação anual entre 200
e 250 bilhões de dólares, elaborada pelo
economista francês Gabriel Zucman
(2024).
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Neblina Orrico, Danilo Elias Fialho Josaphat O Papel do Brasil na Construção de uma Aliança Global contra a Fome e a Pobreza no Contexto do G20
saudável, da produção ao consumo e; mobilização para o combate à fome
(Brasil, 2024).
As avaliações positivas do programa são muitas desde a sua criação.
Conforme arma Mota (2015):
Se hoje o Brasil é bem avaliado por órgãos especializados, como a FAO, o desao
de superação do problema da fome e da pobreza não é apenas o resultado da
implementação de políticas [...], mas também o avanço na construção de marcos
legais que propiciaram o ataque do problema de maneira estratégica.
Citam-se, por exemplo, a inclusão à Constituição Federal do direito humano
à alimentação, adequada em 2010, a institucionalização do Plano Nacional de
Segurança Alimentar, com destaque para a Estratégia Fome Zero, a implemen-
tação de várias políticas de proteção social e de fomento à produção agrícola [...]
implementados durante o governo de Lula da Silva (2003-2010). (Mota, 2015, p.
62-63)
Esse reconhecimento internacional tem sido convertido em instru-
mento de projeção internacional brasileira por meio de bases positivas
de transferência de cases de sucesso de políticas públicas. Os programas
de cooperação para o combate à fome, nos quais o Brasil é o referencial,
reforçam, portanto, a aspiração do país de constituir uma liderança regio-
nal e internacional diante dos países em desenvolvimento.
Assim, a perspectiva adotada pelo Brasil e pelos demais países em desenvolvi-
mento, em alguma medida, promoveu a quebra do monopólio dos países de-
senvolvidos, no que diz respeito à produção de conceitos, práticas e paradigmas
que determinavam os rumos da cooperação internacional desde o m da Guerra
Fria. (Mota, 2015, p. 78)
Essa aspiração se traduz em um ímpeto propositivo baseado no
apelo a desaos comuns do Sul Global:
O Brasil passou a desempenhar um papel signicativo na vocalização de soluções
para problemas globais e, ainda mais importante, disseminou essa nova abor-
dagem por meio da difusão e transferência de políticas públicas e modelos de
desenvolvimento que proporcionaram uma nova estrutura de governança para a
cooperação internacional. (Menezes, Vieira, 2021, p. 109, tradução livre).
Dessa forma, em meio à profunda crise do multilateralismo e rees-
truturação da ordem internacional (Lima, Albuquerque, 2020), precisa-
mente representada pela própria proeminência do G20 em detrimento
das tradicionais organizões internacionais, a Aliança Global contra a
Fome e a Pobreza surge como uma oportunidade para unir esforços e
conhecimentos de diferentes países e organismos internacionais, expe-
riências e mobilização de recursos. Com ela, será possível impulsionar
ações ecazes no combate à fome e à pobreza em todo o mundo. A ini-
ciativa liderada pelo Brasil no G20 representa um passo importante nessa
direção e a legitimidade do assunto graças às credenciais internacionais
brasileiras.
Aliança Global
Em que consistiu a proposta do governo brasileiro de criar uma
Aliança Global contra a Fome e a Pobreza no âmbito do G20? Destacando
a imporncia de uma abordagem integrada e centrada nas pessoas para
alcançar os ODS relacionados à erradicação da fome até 2030, a Aliança
foi estruturada sob três pilares principais:
38
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 1, (fev. 2025), p. 29-43
[...] No Pilar Nacional, os países membros se comprometeriam a adotar políticas
ecazes para formar o pilar dos compromissos nacionais. O Pilar Financeiro da
Aliança seria composto por uma ampla variedade de fundos globais e regionais
existentes, fontes de Assistência Ocial ao Desenvolvimento (ODA), e doadores
públicos e privados, bem como possíveis novos mecanismos nanceiros inova-
dores, capazes de apoiar os países membros da Aliança em seus compromissos
nacionais para implementar programas de redução da fome e da pobreza, prio-
rizando os mais pobres. Finalmente, o Pilar do Conhecimento serviria como um
centro formado por uma lista qualicada de organizações e centros de conheci-
mento dedicados a promover assistência técnica e compartilhamento de lições
entre os membros da Aliança, focando suas operações no nível do país. (Brasil,
2023b, p. 2., tradução livre).
Assim, foi estabelecido, portanto, um mecanismo de transferência
de cases de sucesso de políticas públicas sob nanciamento coordenado e
sob os auspícios técnicos de think tanks associados ao G20. A ideia tam-
bém compreendeu o diagstico da existência de uma ampla variedade
de fundos globais e regionais, fontes governamentais e doadores privados
destinados ao combate à fome. A incongruência desse modelo fragmen-
tado de nanciamento em contraste com a estrutura estática de atuação
das tradicionais instituições da ordem multilateral resulta na postulação
da criação de artifícios intermediários, representados pela inciativa de ar-
ranjo internacional plurilateral.
Assumir a coordenação da Força-Tarefa para a Aliança Global con-
tra a Fome e a Pobreza do G20 é um desao que o governo brasileiro tem
encarado com determinação. Em um momento crucial na luta contra a
fome e a pobreza global, o Brasil assume a presidência do G20 e aproveita
a composição de sua Troika7 - formada junto com a Índia e África do Sul,
países alinhados às agendas de combate à fome e à pobreza - para dar or-
ganicidade à adoção da nova Força-Tarefa como uma resposta concreta a
esse desao, iniciando seis áreas prioritárias para o trabalho do Grupo de
Trabalho do G20 (Brasil, 2023):
1. Implementar abordagens de resiliência integradas e centradas nas pessoas.
2. Promover programas de resiliência especícos ao contexto e aos choques/
crises.
3. Melhorar coleta, integração e análise de dados e evidências.
4. Promover a tecnologia e a inovação.
5. Reforçar a capacidade de resposta aos choques dos sistemas de proteção social.
6. Acelerar a implementação do Quadro de Sendai para a Redução do Risco
de Desastres.
Essas recomendações destacam a imporncia de uma abordagem
holística e coordenada para enfrentar os desaos da fome e da pobreza.
O G20, através da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, pode de-
sempenhar um papel fundamental na implementação dessas recomen-
dações, mobilizando recursos e coordenando esforços em nível global. O
Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate
à Fome recebeu da Presidência da República a missão de conduzir a ne-
gociação com suas contrapartes para a construção da Aliança no âmbito
do G20 visando oferecer uma “cesta” de experiências exitosas de diversos
países, não só a membros do G20, mas a todas as nações que queiram
adaptar e implementar estas políticas públicas em seus territórios.
7. “O sistema da troika do G20 foi ofi-
cialmente adotado na Cúpula de Cannes
(França) em 2011 como a estrutura para
conduzir o processo do G20. A “troika”
consiste nas presidências atual, anterior
e seguinte do G20, e os três membros
cooperam entre si na preparação da
Cúpula do G20. Durante a presidência
brasileira, o país trabalhará em estreita
colaboração com a Índia (Presidência de
2023) e a África do Sul (Presidência de
2025).” (G20, 2024)
39
Neblina Orrico, Danilo Elias Fialho Josaphat O Papel do Brasil na Construção de uma Aliança Global contra a Fome e a Pobreza no Contexto do G20
Faz-se importante ressaltar que as experiências de combate à fome
e pobreza no mundo foram aplicadas no Sul Global e a literatura indi-
ca o sucesso de abordagens integradas que combinem proteção social e
acesso a outros serviços (Devereux, 2016; Wouterse, Taerse, 2018; Slater,
Holmes, Mathers, 2014), como intervenções para a segurança alimentar
e nutricional, capacitação prossional, empreendedorismo, programas de
saúde e de cuidados e acesso a nanciamento para a produção agrícola.
Ademais, como metodologia de aplicação dessas abordagens, em atenção
ao referenciado estudo de Mkandawire (2005), medidas direcionadas a
setores ou grupos especícos podem ser mais ecazes do que programas
gerais, ao alcançarem populações vulneráveis como crianças, pessoas
com deciência ou idosos através de suas especicidades.
É importante pontuar que Kharas et al. (2017) já haviam proposto
mecanismo internacional semelhante à Aliança através do G20:
O progresso global precisa acelerar consideravelmente se quiser que o ODS [Ob-
jetivos de Desenvolvimento Sustentável] para acabar com a fome e a desnutrição
seja alcançado até 2030, especialmente nas regiões rurais dos países em desen-
volvimento. O G20 poderia fazer avanços decisivos adotando e implementando
um quadro baseado em evidências para orientar os esforços de FNS [seguran-
ça alimentar e nutricional] entre e dentro dos países. Uma opção é avaliar as
necessidades, políticas e recursos de cada país, vinculados a cada uma das metas
relevantes do ODS. A comparação sistemática poderia então informar a orienta-
ção dos esforços entre países e intervenções, apoiando o aprendizado contínuo e
as correções de curso entre os principais atores. Em uma escala global, a mesma
abordagem de comparação poderia ajudar o G20 a agilizar os esforços multilate-
rais para obter o máximo efeito (Kharas et al., 2017, tradução livre).
Essa proposta símile à Aliança esteve bloqueada durante esses últi-
mos anos, dentre outras razões, devido a falta do que Milner (2020) chama
de ajuste de preferências entre diferentes atores com objetivos distintos
em meio às iniciativas de respostas coletivas no sistema internacional in-
terdependente. As ações de cooperação internacional estão condicionadas
a um acordo favorável para todas as partes, mas o combate à fome e à po-
breza através das propostas brasileiras prejudica mormente o protagonis-
mo dos países desenvolvidos, como apontado por Mota (2015), na medida
em que desaam o controle da narrativa sobre a fome e a pobreza globais.
Em vista disso, a percepção desfavorável dos países desenvolvidos em re-
lação à iniciativa brasileira compromete a velocidade de implementação
da Aliança.
Cabe ressaltar ademais que a proposta brasileira é pleiteada em
meio à galopante polarização geopolítica, ocasionada pelos conitos mi-
litares na Europa e no Oriente Médio (Ramos; Garcia, 2023), razão que
apresenta ônus e bônus para o sucesso da proposta de Aliança. Porquanto
a existência de tópicos de agenda extraordinários sobre guerras no G20
possa prejudicar a sobrevida de temas recorrentes e dispersos como a
fome e a pobreza, a falta de consensos e a necessidade de apresentação de
resultados compele os membros do Grupo a cogitar a adesão à Aliança
como resultado mínimo exequível.
Por m, faz-se importante destacar que, a despeito dos demais
membros da Troika da presidência brasileira compartilharem o tema
como de interesse (FAO; Banco Mundial; OMC, 2023), a presidência bra-
sileira simulnea ao terceiro Governo Lula representa um diferencial
40
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 1, (fev. 2025), p. 29-43
para a asceno do tema. Neste caso, o lugar de destaque que as políticas
de combate à fome ocuparam e ocupam na política doméstica brasileira
durante os governos do Partido dos Trabalhadores gera consequências
distributivas que podem chegar à nível internacional (Mota, 2015). Dessa
forma, o resultado da política externa propositiva brasileira a respeito da
Aliança é, em parte, resultado das disputas políticas domésticas brasilei-
ras sobre a prioridade do assunto da fome e da pobreza, seguindo o esque-
ma analítico de Milner (2020).
Estendendo esse raciocínio à proposta do terceiro eixo de susten-
tação, surge a sensibilidade do tema de nanciamento da Aliança Global
contra a Fome e a Pobreza, haja visto que o lastro scal para transferência
de renda em programas sociais é ponto controverso doméstica e interna-
cionalmente (FAO; Banco Mundial; OMC, 2023). O ajuste de preferências
inerente aos processos de cooperação tende a imobilizar avanços nessa
direção. Conquanto o governo brasileiro tenha expressado interesse em
coabitar este debate com a questão da taxação das grandes fortunas sob os
moldes de Zucman (2024), aançar a Aliança a este tópico seria arriscado
diante da urgência que o combate à fome e a pobreza inspiram.
Apesar disso, um dos membros fundadores da Aliança, o Banco
Interamericano de Desenvolvimento (BID) se comprometeu a fornecer
até US$ 25 bilhões (R$ 140 bilhões) em nanciamento para apoiar países
em políticas contra a fome e a pobreza até 2030. Isso pode signicar que,
ao nascer, a Aliança seja um raro exemplo de impacto concreto do G20,
que costuma se restringir a declarações de intenções dos seus membros.
No entanto, sua ecácia ainda será testada e dependerá, sobretudo, da
capacidade de liberar recursos, conforme declarou o economista-chefe
da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura
(FAO), Maximo Torero (BBC, 2024).
Diante dessa incerteza de recursos, a implementação das opções de
políticas públicas de proteção social disponibilizadas na cesta de oferta da
Aliança está condicionada à escolha política do orçamento de cada país,
enquanto fonte predominante de nanciamento. Não obstante, como
mencionado anteriormente, a Aliança também almeja coordenar os múl-
tiplos fundos existentes para combate à fome e pobreza como forma de
apoio internacional complementar às necessidades de nanciamento para
a implementação de políticas públicas chave
Considerações Finais
Democratizar o acesso à alimentação adequada e reduzir a pobre-
za em escala global foram as metas perseguidas pelo Brasil ao propor a
construção de uma Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, lançada
durante a Cúpula dos Líderes do G20, em novembro de 2024, no Rio de
Janeiro, com 148 membros fundadores.
Nesse cenário, o desenho apresentado pelo governo brasileiro, de
um G20 mais social, inclusivo e coordenado esteve alinhado com uma
agenda cada vez mais atenta às demandas e aspirões da maior parte dos
países do Sul Global que se mostram cada vez mais capazes e dispostos
a assumir e se comprometer com mudanças signicativas para a redução
41
Neblina Orrico, Danilo Elias Fialho Josaphat O Papel do Brasil na Construção de uma Aliança Global contra a Fome e a Pobreza no Contexto do G20
da pobreza e das desigualdades em seus territórios e a nível mundial,
apresentando soluções pertinentes para as várias questões sociais que fa-
zem parte de uma engrenagem que, no âmbito global, inuencia as eco-
nomias de todo o planeta.
Neste contexto, o presente artigo mostrou o papel do Brasil na cons-
trução dessa Aliança Global contra a Fome e a Pobreza que, no âmbito
do G20, se mostrou estrategicamente relevante na construção do futuro
de políticas e iniciativas que podem contribuir para a promoção de uma
agenda mais inclusiva e coordenada entre os países membros, fazendo
com que sejam alcançados os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
da Agenda 2030.
A decisão do governo brasileiro de trabalhar pela construção de
uma Aliança Global contra a Fome e a Pobreza esteve diretamente rela-
cionada às ambições políticas brasileiras e ao cenário mundial de neces-
rio enfrentamento do desao da fome e da insegurança alimentar, com
base em dados recentes que destacam um aumento preocupante desses
problemas. Considera-se que a fome mundial voltou a crescer após um
período de declínio, sendo agravada pela pandemia de COVID-19, coni-
tos internacionais e crises cliticas.
Os documentos fundacionais8 da Aliança mostram que uma das
principais conclusões dos países e órgãos envolvidos na construção da
proposta é sobre a real necessidade de se fortalecer a proteção social como
meio de promover o acesso à comida, especialmente para os mais vulne-
ráveis em todo o mundo. Programas de transferência de renda são citados
como uma das estratégias fundamentais para alcançar esse objetivo.
Além disso, é destacada a importância de se investir no desenvol-
vimento econômico de regiões vulneráveis, visando aumentar a renda e
melhorar a qualidade de vida das populações locais. Isso pode ser feito
por meio do apoio à produtividade, infraestrutura, acesso ao mercado de
trabalho, educação, saúde, informação e tecnologia.
Também é crucial revisar e repactuar o apoio à agricultura, visan-
do estimular a eciência dos sistemas agroalimentares. Isso não apenas
garantirá que uma dieta mais saudável seja acessível a todos, mas tam-
bém contribuirá para a redução das emissões de gases do efeito estufa,
promovendo uma produção mais sustentável.
Por m, se ressalta a importância de intensicar os investimentos,
tanto públicos quanto privados, no desenvolvimento de sistemas agroali-
mentares. Estimular o investimento em iniciativas sustentáveis, especial-
mente aquelas relacionadas a pequenos produtores, é fundamental para
garantir a segurança alimentar e reduzir a pobreza rural.
Pode-se dizer que a proposta brasileira de construção da Aliança
Global para adesão de todos os países – e não só os integrantes do Grupo
dos 20 – está baseada na expertise adquirida pelo país na implementação
de políticas públicas concretas de combate à fome e redução da pobreza,
o que reforça a proposta de oferecimento de uma cesta de experiências
exitosas para formar uma rede de difusão de tecnologias ecazes de com-
bate à fome e à pobreza em âmbito mundial.
A cesta de experiências da Aliança Global objetiva acelerar a im-
plementação de programas de larga escala, com políticas adaptadas às
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ca-global-contra-a-fome-e-a-pobreza/
SPIACBSocialprotectionandthewayfo-
rwardtoeliminatepoverty.pdf
42
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 1, (fev. 2025), p. 29-43
realidades de cada país, em iniciativas como transferência condicionada
de renda, qualicação prossional, apoio à agricultura familiar, merenda
escolar de qualidade e proteção social adaptativa visando enfrentar de
maneira multidisciplinar a superação da fome e da pobreza no mundo.
No Brasil, o maior exemplo de proteção da pobreza está nas políticas
públicas conduzidas pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência
Social, Família e Combate à Fome responsável por um dos pilares da po-
lítica social brasileira, o programa Bolsa Família, exemplo bem-sucedido
de política pública que possibilita o acesso à renda, a redução da pobreza
e a promoção da cidadania.
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