estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 1, (fev. 2025), p. 164-182  
Navios, autoidentidade e o ethos militar:  
conceituando segurança ontológica naval  
Warships, self-identity, and the military ethos:  
conceptualizing naval ontological security  
Buques, autoidentidad y ethos militar: conceptualización  
de la seguridad ontológica naval  
1
1. Doutorando em Relações Internacio-  
nais na Universidade de Birmingham  
org/0000-0002-7472-770X. Contato:  
Bruno Sowden-Carvalho  
Marcelo M. Valença  
2
DOI: 10.5752/P.2317-773X.2025v13n1p164-182  
2. Professor no Programa de Pós-Gra-  
duação em Estudos Marítimos (PPGEM)  
e na Escola de Guerra Naval (EGN).  
4930-9805. Contato: marcelo.valenca@  
Esta pesquisa foi parcialmente finan-  
ciada com recursos da Chamada CNPq/  
MCTI Nº 10/2023 - Faixa A - Grupos  
“O Atlântico Sul como uma ordem regio-  
nal de segurança marítima: governança  
oceânica, instituições e regionalismo no  
entorno estratégico brasileiro”).  
Enviado: 24 de Janeiro de 2025  
Aceito em: 21 de Maio de 2025  
RESUMO  
O artigo investiga o senso de auto identidade em marinhas por meio do concei-  
to de segurança ontológica naval. Usando a Marinha do Brasil como objeto de  
análise e a Ordenação Geral do Serviço da Armada (OGSA), conjunto normati-  
vo de condutas e regulamentos que consolida as disposições fundamentais sobre  
a organização da Marinha, originalmente herdados da Marinha Portuguesa  
durante o período de colônia do Brasil, mas adaptados e atualizados ao longo  
do tempo, o artigo aborda como a segurança ontológica naval é constituída e  
quais elementos estão envolvidos. Com base em Bourdieu e Giddens, argumen-  
tamos que as marinhas (re)produzem práticas internacionais na medida em que  
incorporam traços sociais domésticos, construindo seu senso de identidade ao  
amalgamar coerentemente narrativas biográficas, orgulho e confiança. Este  
arcabouço teórico contribui para uma avaliação matizada do ethos militar além  
do ponto de vista ontológico do Exército, lançando luz sobre o tecido social que  
entrelaça os homens e mulheres que compõem as marinhas.  
Palavras-Chave: Segurança Ontológica Naval; Autoidentidade; Ethos Militar;  
Práticas; Marinha do Brasil  
ABSTRACT  
This article investigates the perception of self-identity in navies through the  
concept of naval ontological security. Using the Brazilian Navy as the object of  
analysis and the General Ordinance of the Navy Service (OGSA), a set of nor-  
mative conducts and regulations that consolidates the fundamental provisions  
on the organization of the Navy, originally inherited from the Portuguese Navy  
during the period of Brazil’s colony, but adapted and updated over time, the ar-  
ticle addresses how naval ontological security is constituted and which elements  
are involved. Drawing on Bourdieu and Giddens, the article argues that navies  
(re)produce international practices as they incorporate private social traits,  
164  
Bruno Sowden-Carvalho, Marcelo M. Valença Navios, autoidentidade e o ethos militar: conceituando segurança ontológica naval  
constructing their sense of identity by coherently amalgamating biographical  
narratives, pride, and trust. This exploratory theoretical framework contributes  
to a nuanced assessment of the military ethos beyond the ontological perspec-  
tive of the Army, illuminating the social fabric that intertwines the men and  
women who comprise navies.  
Keywords: Naval Ontological Security; Self-Identity; Military Ethos; Practices;  
Brazilian Navy  
ABSTRACT  
El artículo investiga el sentido de autoidentidad en las armadas a través del  
concepto de seguridad ontológica naval. Utilizando como objeto de análisis la  
Marina de Brasil y la Ordenanza General del Servicio de la Armada (OGSA),  
conjunto de normas y reglamentos que consolidan las disposiciones fundamen-  
tales sobre la organización de la Marina, originalmente heredadas de la Armada  
Portuguesa durante el período de la colonia de Brasil, pero adaptadas y actuali-  
zadas a lo largo del tiempo, el artículo aborda cómo se constituye la seguridad  
ontológica naval y qué elementos están involucrados. Basándose en Bourdieu y  
Giddens, el artículo sostiene que las armadas (re)producen prácticas internacio-  
nales a medida que incorporan rasgos sociales nacionales y construyen su sen-  
tido de identidad mediante la combinación coherente de narrativas biográficas,  
orgullo y confianza. Este marco teórico exploratorio contribuye a una evaluaci-  
ón matizada del ethos militar más allá del punto de vista ontológico del Ejército,  
arrojando luz sobre el tejido social que entrelaza a los hombres y mujeres que  
conforman las armadas.  
Keywords: Seguridad Ontológica Naval; Autoidentidad; Ethos militar; Prácticas;  
Armada de Brasil  
1 INTRODUÇÃO  
A Marinha do Brasil (MB) está pouco presente no imaginário  
social brasileiro. Isso ocorre porque os estudos sobre forças armadas  
no Brasil tendem a considerá-las como um grupo homogêneo, ampla-  
mente definido e representado pelos traços sócio-políticos tipicamen-  
te associados ao Exército Brasileiro (EB). O envolvimento do exército  
na política brasileira desde o final do século XIX levou o debate sobre  
os militares a uma abordagem centrada no Estado, com foco em suas  
macroestruturas e com a tendência política de intervir domestica-  
mente (COMBLIN, 1978; CASTRO; D’ARAÚJO, 2001; REZNIK, 2004;  
CARVALHO, 2019a; ZAVERUCHA; TEIXEIRA, 2003; ZAVERUCHA,  
2005). Embora importantes, esses pontos de vista negligenciam a MB  
e deixam de lado outro elemento relativo à sua dimensão social: seu  
senso coletivo de identidade.  
Estudos sobre a identidade militar são relativamente recentes no  
Brasil (CASTRO, 1990; LEIRNER, 1997). Isto não é surpreendente, dado  
o cenário de reabertura pós-ditadura militar. Estes estudos são moldados  
pelo ambiente social do EB e equipados com uma visão teórico-metodo-  
lógica que não captaria a distinção da Marinha.  
Para preencher essa lacuna, este artigo investiga o senso de au-  
toidentidade na MB a partir do conceito de segurança ontológica naval.  
Uma vez que segurança ontológica envolve o processo emocional que  
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constitui um senso estável de autoidentidade, propomos que segurança  
ontológica naval é compreendida como o conjunto de práticas perfor-  
madas em navios de guerra que condicionam um senso estável de au-  
toidentidade ao lidar com a ansiedade da incerteza constante ao servir  
no mar. Na MB, isso ocorreria por meio de um processo de compo-  
sição coerente de narrativas biográficas, orgulho e confiança, influen-  
ciado pela condição sócio-política do Brasil, incluindo sua dimensão  
pós-colonial.  
Partimos da premissa de que a consolidação de um senso coletivo  
de identidade nas marinhas difere daquela produzida no exército devido  
à atmosfera social existente nos navios de guerra, que constitui relações  
sociais que precisam ser compreendidas a partir de suas particularidades.  
Essa atmosfera social se baseia em práticas historicamente consolidadas  
por meio do destacamento internacional desses navios para lidar com a  
ansiedade de ser exposto à imprevisibilidade de um meio hostil como o  
oceano; da experiência de compartilhar espaços hermeticamente fecha-  
dos com pessoas de diversas origens; e da ameaça sempre presente do  
outro, caracterizado como inimigo.  
Tal contexto faz com que as práticas percebidas nas marinhas  
sejam essencialmente internacionalizadas (Till, 2018). O internacio-  
nal, como um ambiente social em que os atores são mobilizados ho-  
rizontalmente e se mostram intrinsecamente conectados por meio de  
múltiplas linhas homogêneas, se apresenta de forma transversal (Bigo  
et al., 2011), conectando múltiplos campos e saberes. Deste modo, este  
estudo se mostra relevante por múltiplas razões. Primeiramente, é  
importante entender como a MB funciona do ponto de vista socioló-  
gico e como os indivíduos dão sentido a quem eles são por meio das  
práticas e valores da instituição, bem como a maneira como essas prá-  
ticas e narrativas se apresentam para o imaginário da sociedade civil,  
são elementos que evidenciam que um estudo específico sobre as ma-  
rinhas contribuiria para uma avaliação matizada dos militares além  
do ponto de vista estatizante, especialmente a partir de uma perspec-  
tiva pós-colonial. Não obstante, contribuiria para avançar os estudos  
sobre relações civis-militares para além da visão do EB, permitindo  
compreender as especificidades da MB e do processo de formação de  
identidade dos indivíduos desse grupo. Ademais, ele se volta à com-  
preensão das particularidades dos espaços marítimos como espaços  
políticos (VALENÇA; DUARTE, 2023).  
Desenvolvemos nosso argumento em três partes, além desta in-  
trodução e uma conclusão. Na primeira parte, apresentamos a literatu-  
ra sobre identidade militar para destacarmos as peculiaridades da iden-  
tidade das marinhas. Na segunda parte, trazemos Giddens (1984; 1990)  
e Bourdieu (1992) para conceituar segurança ontológica naval. Na ter-  
ceira parte, exploramos a Ordenança Geral para o Serviço da Armada  
(“OGSA”), o conjunto formalizado de regulamento e condutas que mol-  
dam o funcionamento da MB, para verificar como as práticas cotidianas  
se correlacionam a um senso de (in)segurança ontológica diante de al-  
guns eventos históricos que desafiaram a instituição.  
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Bruno Sowden-Carvalho, Marcelo M. Valença Navios, autoidentidade e o ethos militar: conceituando segurança ontológica naval  
2 AUTO-IDENTIDADE NAS FORÇAS ARMADAS BRASILEIRAS:  
O VAZIO NAVAL  
A literatura sobre o senso de identidade nas Forças Armadas brasi-  
leiras é relativamente recente e gira em torno de duas premissas gerais. A  
primeira é a de que há um ethos militar comum e este perpassa a marinha,  
exército e aeronáutica. A segunda é que esse ethos é construído por meio  
das experiências nas academias militares e nas instituições de ensino mi-  
litar de alto nível, por meio da hierarquia e da disciplina.  
Celso Castro (1990) foi um dos primeiros acadêmicos a abordar di-  
retamente esse problema, concentrando-se nos militares em si, em vez de  
fornecer uma visão de cima para baixo, centrada no Estado. Ele analisou  
como os militares se encaixam em um contexto histórico-social mais am-  
plo e como isso leva a intervir politicamente em seu funcionamento. Em  
O Espírito Militar, Castro realiza uma pesquisa etnográfica na Academia  
Militar das Agulhas Negras (AMAN”), examinando a criação da identi-  
dade militar por meio do envolvimento próximo com as atividades coti-  
dianas dos cadetes.  
Depois de expandir sua pesquisa sobre o simbolismo histórico e a  
tradição do Exército Brasileiro (Castro, 2002) e explorar a atmosfera desa-  
fiadora de fazer pesquisa de campo (CASTRO; LEIRNER, 2009), Castro  
afirma que o senso de identidade dos militares vai além da experiência de  
viver em uma instituição total. Ele alega que a própria instituição é tota-  
lizante, pois se torna parte da vida de seus membros, permeando holisti-  
camente todos os aspectos de seu ambiente social, desde seu vocabulário  
diário e códigos de conduta até as carreiras e a resiliência emocional de  
seus familiares (Castro, 2007).  
Esse argumento foi aprofundado por Leirner (1997), que investi-  
gou a clivagem entre os militares e os civis causada pela consolidação  
da identidade social dos primeiros. Em pesquisa de campo na Escola de  
Comando e Estado Maior do Exército (“ECEME”), Leirner conclui que  
essa fronteira é apresentada pela especificidade da hierarquia do Exército,  
o princípio geral que segmenta os indivíduos, ordenando suas capacida-  
des pelo senso de mérito e, portanto, separando quem pertence à institui-  
ção (1997, p. 111).  
Desde a década de 2000, os trabalhos de Castro e Leirner inspiram  
outros pesquisadores a abordar as relações civis-militares brasileiras por  
meio de lentes socioantropológicas (GOMES, 2018; CARVALHO, 2019b;  
MIRANDA, 2019; CASTRO; MONNERAT, 2019). No entanto, essa litera-  
tura enfatiza preponderantemente o Exército como o objeto de análise,  
negligenciando as especificidades da Marinha, bem como dos próprios  
espaços marinhos.  
Uma pesquisa no banco de dados nacional brasileiro de teses que  
utilizam o termo “identidade militar” entre 2000 e 2024, filtrada pela área  
3. Há apenas um resultado que indica  
relação evidente com a MB. Trata-se  
da tese de doutorado defendida no  
Programa de Pós-Graduação em História  
de Ciências Humanas, retorna 123 resultados, nenhum deles referente  
3
exclusivamente à Marinha. O livro Antropologia dos Militares (2009) re-  
(PPGH) da UERJ, em 2023, por Patricia  
conhece essa lacuna na literatura, mas não inclui um único artigo sobre  
a Marinha. A revista Militares e a Política, em atividade de 2007 a 2011,  
inclui apenas uma breve nota de pesquisa sobre um relato histórico da  
Coutinho Rangel da Silva com o título  
de “O ‘Dragão do Mar’, uma biografia  
de João Cândido Felisberto entre 1880  
e 1912”.  
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Marinha e seu alinhamento ideológico com a República no Brasil. O pró-  
prio Castro ministra um curso na Fundação Getúlio Vargas, cujo obje-  
tivo principal é examinar o processo de socialização militar vivenciado  
pelos oficiais do Exército (ARIAS NETO, 2009).  
Vale a pena observar que alguns estudiosos abordam o problema  
da identidade social em outras forças em perspectivas diversas. Maria  
Ribas dÀvila de Almeida (2010) estudou o processo de admissão de mu-  
lheres na MB e os resultados relativos ao processo decisório. Vanessa Reis  
e Luciana Zucco (2020) analisaram a liderança de oficiais navais femini-  
nas no exercício do comando. Embora tenham sido persuasivos em re-  
lação à crescente importância das mulheres na instituição, seus estudos  
se concentram, em grande parte, em uma perspectiva macro, ainda não  
avaliando a distinção da MB.  
A pesquisa de Emilia Takahashi (2002) sobre o senso de identidade  
dos cadetes da Força Aérea e suas interconexões com as relações de gêne-  
ro na Academia da Força Aérea e a dissertação de Thaís Melo abordando  
a inserção social das mulheres na Escola Naval (2017) são exemplos mais  
inclinados às práticas cotidianas. O próprio Castro publicou artigo ba-  
seado em pesquisa anterior ao seu trabalho de campo na AMAN, no qual  
analisou experiências de trote na Escola Naval, o que reconhecidamente  
inspirou sua pesquisa, pois o trote consistiria na dramatização daqui-  
lo que estrutura e fornece o estilo da vida militar: a hierarquia (Castro  
2009, p. 589). Entretanto, esse trabalho ainda se baseia nos dois princí-  
pios gerais já mencionados, i.e., na ideia de uma identidade social militar  
comum criada durante o período de formação dos oficiais analisada por  
meio da estrutura desenvolvida para entender o Exército. Entendemos  
que essa ênfase no Exército traz impactos metodológicos que afetam a  
compreensão sobre a Marinha, sugerindo os mesmos traços sociopolí-  
ticos do EB, inclusive na forma como aquela entende seus parâmetros  
existenciais de identidade pessoal (Giddens, 1984, p. 375) e coletiva como  
esses parâmetros existenciais são constituídos e estabilizados.  
Ao mesmo tempo em que apreende os elementos microssociais re-  
lativos à realidade das forças armadas e explora uma dimensão diferen-  
te nas relações civis-militares, a literatura não aborda as especificidades  
das práticas históricas e profissionais que distinguem a autoidentidade da  
MB. Ao pressupor um ethos militar comum e centralizar a análise nas aca-  
demias militares, os estudos negligenciam o que está no cerne das práti-  
cas sociais das marinhas: a vida a bordo dos navios de guerra. Embora os  
aspectos burocráticos tornem as práticas semelhantes em todas as forças  
armadas, historicamente essas práticas foram construídas de forma inde-  
pendente, criando um conjunto de disposições que induzem condições  
emocionais coletivas, rituais, tradições e códigos de conduta. Entretanto,  
o que exatamente diferencia os navios de guerra e, portanto, as marinhas  
de outras forças armadas?  
Defendemos que três elementos deveriam ser destacados. São eles a  
interconexão com o oceano, as habilidades necessárias para operar navios  
de guerra e a atmosfera dentro deles.  
Ontologicamente, a territorialidade dos oceanos difere daquela  
da terra, devido ao seu caráter dinâmico e muitas vezes imprevisível. A  
168  
Bruno Sowden-Carvalho, Marcelo M. Valença Navios, autoidentidade e o ethos militar: conceituando segurança ontológica naval  
“hidromaterialidade” dos oceanos compõe um sistema holístico, ou um  
conjunto marinho que incorpora biota móvel, bem como tecnologias e  
objetos (PETERS, 2012; STEINBERG, 2013). Portanto, os navios de guer-  
ra não estão apenas expostos aos oceanos, mas compõem esse conjunto,  
exigindo historicamente um conjunto específico de práticas, habilidades  
e conhecimentos para serem operados: desde içar velas e aprender nós  
em cabos, realizar cálculos astronômicos, manter condições sanitárias  
internas para evitar doenças como tifo e escorbuto; até operar radares  
sofisticados, sistemas de navegação baseados em GPS e máquinas de pro-  
pulsão cada vez mais automatizadas. Embora esse tipo de conhecimento  
opere por meio de regimes de disciplina e hierarquia, está longe de ser  
criado por eles. Eles são o resultado de relações sociais no mar, por meio  
de trabalho manual e tecnologia, que destacam as particularidades dos  
espaços marítimos.  
Nesta lógica, os navios de guerra proporcionam um ambiente físico  
específicos em que os indivíduos se relacionam entre si em espaços neces-  
sariamente herméticos. Os marinheiros não podem abandonar o navio  
4
4. Por “marinheiro”, nos referimos aos  
homens e mulheres que integram os  
quadros das Marinhas, independen-  
quando estão no mar; os comandantes são constantemente observados e  
julgados por sua tripulação; não há hospital ou corpo de bombeiros para  
ajudar quando estão no mar e o combate ao inimigo sempre foi um es-  
forço coletivo. Ademais, como instrumentos tradicionais de diplomacia,  
e devido à natureza de suas missões, as marinhas são profundamente  
internacionalizadas, compartilhando práticas em todo o mundo, desde  
uniformes e vocabulário até procedimentos operacionais (Till, 2018).  
Assim, a operação nos oceanos, as práticas navais correlatas e a  
atmosfera interna a bordo contêm os elementos para criar identidades  
sociais diferentes de qualquer outra Força Armada. Portanto, o ethos co-  
mum sugerido pela literatura sobre identidade militar não nos parece su-  
ficiente para avaliá-la. A MB tem suas próprias características, moldadas  
pela natureza de suas operações ribeirinhas, pela população multiétnica  
do Brasil, sua experiência pós-colonial e postura diplomática. Em suma,  
as práticas que permeiam a MB se fundem em um ethos social específico  
moldado pela vida nos navios de guerra.  
temente de suas funções, ou sejam, a  
palavra marinheiro se refere tanto aos  
oficiais quanto às praças.  
Consequentemente, o locus da autoidentidade da MB não pode ser  
a Escola Naval nem o Colégio Naval. Isso se deve ao fato de que as con-  
5
5. Aqui cabe uma breve diferenciação  
entre o Colégio Naval e a Escola Naval.  
Enquanto o primeiro consiste na insti-  
tuição de ensino médio da MB, a Escola  
Naval é a sua instituição de ensino  
superior, onde os aspirantes a oficiais  
são formados para a carreira militar. Em  
comparação ao EB, seria o equivalente,  
respectivamente, ao Colégio Militar e à  
Academia Militar das Agulhas Negras  
(AMAN).  
dições emocionais vivenciadas nos navios de guerra, que fundamentam  
as práticas a bordo, não podem ser aprendidas academicamente, mas mol-  
dadas pelas práticas durante o serviço no mar. O que constitui um bom  
oficial não é apenas sua adesão à hierarquia e à disciplina adquiridas na  
Escola Naval, mas a resiliência emocional para lidar com a incerteza e a  
ansiedade correspondente da vida a bordo e suas práticas. Não por acaso,  
a arquitetura da Escola Naval imita o formato de um navio, indicando seu  
objetivo máximo de reproduzir as condições da vida no mar.  
Defendemos, pois, que a identidade social da MB não é consolidada  
na Escola Naval, mas a bordo de navios de guerra. Para suprimir a lacu-  
na na literatura, trazemos o conceito de segurança ontológica naval, que  
servirá para captar as práticas que induzem a condição emocional da vida  
a bordo.  
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3 CONCEITUANDO SEGURANÇA ONTOLÓGICA NAVAL  
Segurança ontológica está relacionada à construção de um senso  
consistente de individualidade, por meio do qual os agentes buscam não  
apenas segurança física, mas também um senso estável de estar no mun-  
do (Vieira, 2016), sentindo-se confortáveis com quem são. Esse processo  
“coloca entre parênteses” a gama quase infinita de possibilidades aber-  
tas aos indivíduos, situando-se no centro da vida social, pois “pressupõe  
uma aceitação tácita das categorias de duração e de extensão, juntamente  
com a identidade de objetos, outras pessoas e o eu” (Giddens, 1990, p.  
37). Indivíduos ontologicamente seguros são emocionalmente resilientes  
para lidar com situações contingentes que podem potencialmente trazer  
caos e ansiedade, sendo consequentemente capazes de ancorar a estrutu-  
ra cognitiva da vida cotidiana e consolidar seu senso de identidade (Laing,  
1969). Em suma: segurança ontológica consiste no processo emocional  
pelo qual os agentes constroem o senso de continuidade de sua autoiden-  
tidade (Giddens, 1990, p. 92).  
O conceito de autoidentidade não se relaciona a um tipo ideal  
transcendente imutável que sempre será alcançado. Em vez disso, a se-  
gurança ontológica decorreria de tentativas de (re)criar e consolidar au-  
toidentidades coletivas (Vieira, 2016, p. 7). Esse conceito é relevante para  
as marinhas, pois marinheiros, quando servem no mar, estão expostos à  
imprevisibilidade de inúmeros perigos, como tempestades, incêndios e à  
presença do inimigo. A ansiedade resultante dessa recorrente sensação de  
insegurança ontológica põe em risco sua segurança física, comprometen-  
do práticas normalizadas que tornam os navios de guerra operacionais.  
Em outras palavras, embora amplamente negligenciadas, as emoções são  
importantes para os marinheiros, pois condicionam o conjunto de práti-  
cas navais que garantem sua sobrevivência no mar. Mas como seria possí-  
vel avaliar essa construção emocional?  
Ao teorizar sobre a segurança ontológica, Giddens (1991, p. 67) in-  
dica três elementos mutuamente entrelaçados que a compõem: narrati-  
vas biográficas, confiança e vergonha. Enquanto as narrativas biográficas  
acomodam as experiências pessoais pelo processo relacional de entendê-  
-las e comunicá-las aos outros, a vergonha é uma das manifestações de  
ansiedade por meio da qual a autoidentidade é corroída por sua inadequa-  
ção à narrativa biográfica correspondente. A inoculação emocional con-  
tra esse enigma é a confiança básica, uma condição psicológica cultivada  
nos primeiros estágios da vida. A confiança começa entre os recém-nas-  
cidos e seus cuidadores e une o tempo e o espaço de modo a indicar que  
a ausência não significa deserção. Por fim, a consolidação da confiança  
alimenta o controle do corpo com rotinas previsíveis (Giddens, 1984, p.  
53). Portanto, narrativas biográficas, confiança e vergonha (ou orgulho,  
como preferimos), emaranhados entre si, geram um senso consistente de  
individualidade.  
Giddens oferece um arcabouço explicativo para entender essa in-  
terconexão entre os elementos da segurança ontológica, porém sua abor-  
dagem é bastante cognitiva e não levaria em consideração os aspectos  
relacionais quanto às práticas sociais nas marinhas. Isso poderia gerar  
170  
Bruno Sowden-Carvalho, Marcelo M. Valença Navios, autoidentidade e o ethos militar: conceituando segurança ontológica naval  
limitações empíricas para verificar práticas sociais tão específicas como  
que buscamos explorar. Para superar essas limitações, propomos com-  
plementar a leitura de Giddens (1984; 1990) com a teoria da prática de  
Bourdieu (1992, p. 52). Bourdieu leva mais a sério a questão relacional  
entre sujeitos que tem capacidade racional de estabilizar práticas sociais  
através de relações de causa e efeito, a partir da lógica de cada campo e da  
posição ocupada por cada agente dentro dele. Isso faz com que os indiví-  
duos ganhem importância, passando a ocupar espaço nas narrativas bio-  
gráficas. Teríamos assim, uma interação mais evidente entre as emoções  
(a partir da contribuição de Giddens) e as práticas (desde Bourdieu), o que  
pode ser evidenciado na Figura 1, apresentada mais adiante.  
Em sua teoria da prática, Bourdieu conecta efetivamente a sociolo-  
gia à realidade prática, em uma presença ativa preocupada no mundo, por  
meio da qual este impõe sua presença. As práticas são os operadores re-  
lacionais que compõem as microconexões aparentemente invisíveis que  
tornam os agentes visíveis, porque “[b]y acting, agents are shaped by the  
relations in which they engage. Their identities, personalities, and even  
bodies are not autonomous points, but points in relation to other points”  
(Bigo et al., 2011, p. 236).  
Logo, não há representação de práticas por meio de categorias ge-  
néricas, pois elas só podem ser apreendidas, literalmente, na prática. Esse  
ponto de vista permite uma avaliação dos elementos de segurança onto-  
lógica de Giddens em um sentido micropolítico, adaptado ao ambiente  
naval específico e fundamentado no pressuposto de que as práticas são  
a unidade de análise para compreender as emoções. Afirmamos que o  
conceito de campo, doxa, habitus e capital social de Bourdieu são as ferra-  
mentas de pensamento (Leander, 2008) para conciliar as duas perspecti-  
vas, pois conceitos são estruturados para funcionar empírica e sistemati-  
camente (BOURDIEU; WACQUANT, 1992, p. 96).  
3.1 Narrativas biográficas e campos  
As narrativas biográficas estruturam o campo onde as marinhas  
consolidam seu senso de identidade. Ao criar e recriar constantemente  
estruturas discursivas de significado por meio de narrativas que explo-  
ram as especificidades da vida naval, as narrativas biográficas robuste-  
cem a rede em constante mudança da configuração social que pressupõe  
e permite a relação de agentes heterogêneos que (re)produzem práticas  
navais regulares. Isso é regularmente associado a mitos fundamentais  
de heróis que superaram os perigos da vida naval por meio de símbolos  
de coragem, honra e sacrifício e, portanto, inspiraram virtudes nacio-  
nais. As forças armadas por todo o mundo utilizam amplamente dessa  
mitologia e a MB não é diferente. Exemplos recorrentes são o Visconde  
de Inhaúma e o Almirante Tamandaré (ALMEIDA, 2024; LIMA, 1999),  
mas outras lideranças, nacionais e estrangeiras, e eventos também são  
mencionados em livros e artigos publicados em periódicos e editoras  
institucionalmente vinculados à força naval (MOREIRA, 2024; CASAL,  
2017; ALMEIDA, 2017; ALMEIDA, 2006) como casos de valor, supera-  
ção e coragem.  
171  
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 1, (fev. 2025), p. 164-182  
Ao narrar essas práticas, as marinhas criam um tecido históri-  
co coletivo que emana de todos os marinheiros que as reproduzem.  
Notavelmente, não é totalmente possível admitir que esse seja um pro-  
cesso endógeno centrado no Estado. As biografias nacionais dos Estados  
também são inspiradas pela narrativa de outras potências navais bem-  
-sucedidas e consolidadas por meio de práticas internacionais historica-  
mente desenvolvidas com outras marinhas. Essa interconexão de campos  
parece particularmente recorrente nas marinhas sul-americanas, talvez  
em função de suas condição pós-colonial.  
3.2 Habitus, doxa e verdade  
Se os campos estão sempre inseridos em campos diferentes, eles  
só podem fazer sentido se estiverem relacionados ao habitus correspon-  
dente. Quando se trata de marinhas, os campos induzem práticas sociais  
a bordo que devem ser orquestradas de forma congruente por meio de  
uma ordem implícita coerente o suficiente para mobilizar a tripulação de  
modo uniforme. Essa composição entre a ordem objetiva a bordo e a sua  
correspondente naturalização individual é construída por meio de uma  
doxa específica. Nós a chamamos de doxa naval, pois corresponde às habi-  
lidades e aos conhecimentos específicos necessários para operar navios de  
guerra. Historicamente, as marinhas desenvolveram um conjunto de téc-  
nicas semelhantes em todo o mundo para calcular a velocidade do vento,  
a posição dos navios de guerra com base nas estrelas e como utilizar seus  
canhões de forma eficaz. Embora os desenvolvimentos tecnológicos te-  
nham mudado a forma como essa doxa é produzida, seu objetivo princi-  
pal continua o mesmo: promover movimentos corporais decorrentes de  
procedimentos objetivos assumidos. Todos no navio, desde o comandan-  
te até o marinheiro mais moderno, devem executar uma tarefa específi-  
ca, esperando que seus colegas façam o mesmo.  
As várias camadas de doxa acomodadas ao longo de séculos de his-  
tória podem ser facilmente superestimadas como criadoras de “indiví-  
duos dóceis”, em termos foucaultianos. No entanto, a doxa naval nem  
sempre torna as práticas a bordo previsíveis, como se os indivíduos fos-  
sem mecanicamente ditados por elas. Em vez disso, elas modulam princí-  
pios que organizam as práticas navais, criando tensões, resistência e aba-  
lando o campo composto no processo. Simplificando, o habitus naval é o  
princípio gerador de improvisações reguladas (Bigo et al., 2011, p. 242),  
evidenciando a importância da vida a bordo e nas relações sociais nos  
navios de guerra, que consolidam a experiência e a confiança entre mari-  
nheiros e que permitiria extrapolar a formação adquirida nos bancos da  
Escola Naval. Isso é o que, às vezes, os oficiais da MB consideram como  
o lado “artístico” da Marinha, complementando sua formação científica  
(doxic), evidenciando a especificidade desta força. Assim, embora varian-  
do de acordo com as situações empíricas, muitas vezes imprevisíveis, que  
os oceanos podem abordar, o habitus proporciona a confiança e a expecta-  
tiva mútua que cada marinheiro tem no outro de que sua tarefa específica  
a bordo será cumprida adequadamente.  
172  
Bruno Sowden-Carvalho, Marcelo M. Valença Navios, autoidentidade e o ethos militar: conceituando segurança ontológica naval  
3.3 Capital simbólico e orgulho  
Campos e hábitos também compõem relações de força, muitas ve-  
zes criando assimetrias e relações desequilibradas em navios de guerra.  
Mediadas pelas regras dóxicas de conduta, essas relações de força abrem  
espaço para o capital simbólico circular, levando ao prestígio e à autori-  
dade. Em navios de guerra, os comandantes retêm o mais alto nível de  
capital simbólico, pois geralmente mantêm uma imagem de respeitabili-  
dade reconhecida pelos símbolos da própria instituição, como uniformes,  
medalhas e distintivos. No entanto, como sugere um ditado da MB, ne-  
nhuma medalha supera a importância do seu nome.  
Ao longo de suas carreiras, os marinheiros são obrigados a ganhar  
sua reputação por meio de práticas e anos de experiência para combiná-la  
às suas histórias pessoais. Habitus e narrativas biográficas, portanto, le-  
vam às condições para que os comandantes mantenham seu capital sim-  
bólico. Uma vez alcançado, os comandantes podem determinar a vida de  
seus subordinados, sendo a força motriz que anima a redistribuição e a  
circulação do capital simbólico.  
Essa dinâmica é particularmente importante ao analisar o senso  
de orgulho das marinhas. Orgulho é o oposto de vergonha, ou seja, a  
confiança na integridade e valor da narrativa da autoidentidade (Giddens,  
1990, p. 66). No entanto, evitar a vergonha de forma simplista é uma su-  
posição incapaz de produzir a adesão à autoidentidade que as marinhas  
precisam para lidar com seu risco constante de insegurança ontológica.  
O orgulho não pode ser apreendido apenas negando a vergonha. Em vez  
disso, é um processo afirmativo que depende da circulação de capital  
simbólico a bordo, com base no prestígio, autoridade e honra como o  
senso gratificante de fazer parte da narrativa biográfica naval coletiva e  
duradoura.  
Portanto, o orgulho existe quando os comandantes legitimam as  
práticas de seus subordinados sempre que desempenham suas funções de  
forma artística e arduamente. No entanto, devido à natureza cooperativa  
do ambiente dos navios de guerra, um espaço onde os marinheiros de-  
pendem mutuamente uns dos outros, os próprios comandantes também  
são inseridos nesse mecanismo. Isso ocorre porque ser reconhecido como  
um líder por sua tripulação contribui para a reputação do comandante,  
desencadeando o orgulho e reequilibrando o capital simbólico a bordo.  
Ao sentir orgulho, os marinheiros condensam sua própria narrativa bio-  
gráfica à de sua nação e às marinhas, imediatamente (re)produzindo as  
cadeias complexas de habitus, confiança, narrativas biográficas e as inter-  
conexões de diferentes campos.  
Propomos que o senso de autoidentidade das marinhas pode ser  
compreendido de forma mais sutil por meio das práticas cotidianas que  
permeiam sua existência. Aqui se consolidaria o conceito de segurança  
ontológica naval. Ele consiste no conjunto de práticas coletivas historica-  
mente induzidas por navios de guerra que buscam amalgamar coerente-  
mente a autoidentidade de uma marinha, entrelaçando e sedimentando  
suas narrativas biográficas, orgulho e confiança para lidar com a expe-  
riência de ser exposto aos oceanos.  
173  
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 1, (fev. 2025), p. 164-182  
Figura 1: Esquema da segurança ontológica naval.  
Fonte: Elaboração própria  
Como esquematiza a Figura 1, não argumentamos que esses ele-  
mentos são apenas rigidamente relacionados de uma maneira, como, por  
exemplo, o habitus se conectaria apenas à confiança e, igualmente, os cam-  
pos poderiam indicar narrativas biográficas. Em vez disso, a aproximação  
desses conceitos é meramente seu ponto de consistência, as ressonâncias  
entre suas abordagens sistêmicas. Não apenas os elementos de Gidden  
são parte de um triângulo inteiramente interconectado, mas as práticas  
são avaliadas por meio dos conceitos de Bourdieu por um círculo poroso  
que indica as múltiplas maneiras pelas quais elas podem se relacionar.  
Cada marinha tem sua trajetória específica e não é nossa intenção  
fornecer um tipo ideal universal para impor similaridades abstratas. Em  
vez disso, estamos interessados em traçar linhas para mapear as princi-  
pais características que distinguem esse processo. A segurança ontológica  
naval é um processo dinâmico que intuitivamente não pode ser pensado  
como um estado definido de autoidentidade. Ao dar uma definição e seus  
elementos subjacentes, pretendemos fornecer o instrumento para anali-  
sar a condição emocional na MB, em vez de julgar se ela tem um senso  
permanente de identidade.  
4 SEGURANÇA ONTOLÓGICA NAVAL NA MARINHA DO BRASIL: UM  
OLHAR DA OGSA  
Uma análise de como a segurança ontológica funciona na MB pode  
ser explorada empiricamente pelo que é conhecido como Ordenança  
Geral para o Serviço da Armada (“OGSA”). Este documento é o conjunto  
174  
Bruno Sowden-Carvalho, Marcelo M. Valença Navios, autoidentidade e o ethos militar: conceituando segurança ontológica naval  
de princípios e regras gerais sobre as práticas nos navios de guerra da MB  
e outras organizações militares navais. A OGSA explicita valores cristali-  
zados nas tradições navais, permitindo a continuidade - e publicidade - de  
usos, costumes e linguagem naval (Brasil, 2009, p. 7), fortalecendo práti-  
cas que caracterizariam a instituição.  
Embora seja uma estrutura normativa promovida de cima para bai-  
xo no tocante à prática, a OGSA consolida o conjunto histórico de habitus,  
capital social e orgulho que sublinharam as práticas de segurança ontoló-  
gica nos navios de guerra da MB mesmo antes da independência do Brasil.  
Vale a pena notar, todavia, que essas práticas não parecem genuinamente  
ancoradas no caráter nacional, mas derivam como uma composição frac-  
tal de diferentes marinhas interagindo por séculos internacionalmente.  
A OGSA pode ser rastreada pelo menos até o período entre os sé-  
culos XVI e XIX, quando as marinhas ocidentais começaram a consolidar  
sua doxa naval. Ela deriva do Regimento Provisório de 1796 da Marinha  
Portuguesa para o Serviço e Disciplina da Frota e Navio de Guerra da  
Armada Real (Brasil, 2015), diretamente influenciado pelo Regulamento  
e Instruções Britânicos de 1731 relativos ao Serviço de Sua Majestade no  
Mar, buscando normalizar práticas quase idênticas da Marinha britâni-  
ca. Após a independência do Brasil, o Regimento Provisório ainda era o  
principal documento observado pela Armada Imperial e seria revisado  
apenas em 1873. Isso sugere que a atual doxa naval refletiria a condição  
pós-colonial da MB.  
Para permitir a resiliência emocional a bordo, o Regimento expres-  
sava o que os marinheiros deveriam fazer nas atividades diárias e era  
dividido, grosso modo, em quatro partes, que versavam sobre as ordens  
sobre disciplina e punição; ordens para navios de guerra ancorados; or-  
dens para métodos de aparelhamento de velas; e métodos para distribuir  
marinheiros durante o combate e a distribuição de oficiais. O Regimento  
introduziria, também, serviços rotineiros de limpeza, alimentação, sono,  
luta e exercícios. O Regulamento descrevia meticulosamente as tarefas  
que os marinheiros deveriam executar quando os navios zarpassem ou  
atracassem, bem como as honras e responsabilidades que os comandan-  
tes e oficiais deveriam seguir. Por exemplo:  
Será o Oficial Comandante do Quarto, quem mande todas as Manobras, e  
fará que as executem sempre com a maior prontidão e atividade em todas as  
ocasiões, tendo sempre presente o fazer observar estritamente o maior silêncio,  
e castigando severamente qualquer indivíduo que o perturbar com sua voz. Esta  
punição será mantida até que se alcance todo o navio e que toda a disciplina seja  
observada (Brasil, 2015, p. 150).  
O Regimento fazia menção aos Artigos de Guerra portugueses, que  
foram incorporados em 1799, como um instrumento disciplinar a bordo.  
Ele formalizou a punição física por privação de comida, prisão e chicotes  
a serem decididos com base no julgamento do comandante (Castro, 2013,  
p. 19).  
Os elementos que caracterizam as práticas de segurança ontológi-  
ca naval foram pelo menos formalizados pelo Regimento. Esperava-se  
que a confiança ocorresse por meio de descrições completas das ativi-  
dades diárias; a base para uma narrativa biográfica e um campo naval  
175  
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 1, (fev. 2025), p. 164-182  
mais específico foram indicados pela normalização do vocabulário, con-  
solidando os mesmos símbolos por meio dos quais as experiências eram  
compartilhadas.  
O orgulho foi induzido pela autoridade sobre a qual oficiais e co-  
mandantes deveriam promover o capital simbólico. Um despacho naval  
do comandante da corveta Parnaíba descrevendo a batalha do Riachuelo  
(1865), tenente Aurélio Garcindo Fernandes de Sá, ofereceu um panora-  
ma das práticas e condições emocionais da MB com base no Regimento.  
Ele sugeria que o comportamento tripulação durante uma batalha supos-  
tamente teria contribuído para alterar os rumos do evento e frustrar um  
sucesso evidente do inimigo graças a essa transferência de capital simbó-  
lico do comandante (Almeida, 2006):  
Sendo a luta desesperada e cada vez mais crítica nossa situação por haver-  
-nos abordado pela popa o Marquês de Olinda e durando talvez já uma hora  
o combate de mosqueteria e ferro frio, fizemos todos um esforço supremo  
de patriotismo, aplaudindo com entusiasmo a ordem transmitida pelo oficial  
imediato, o Primeiro-Tenente Felipe Firmino Rodrigues Chaves, de combinação  
comigo, para que se lançasse fogo ao paiol da pólvora, ordem essa que ia ser  
imediatamente executada pelo corajoso escrivão de 2a classe José Correa da  
Silva, quando felizmente ouviram-se gritos de viva à Nação Brasileira, ao impera-  
dor, ao Almirante Tamandaré, ao Chefe Barroso e à guarnição da Parnaíba […].  
Eram vozes dos nossos marinheiros e soldados lutando contra os paraguaios que  
tinham fugido ao perceber que a [fragata] Amazonas e a [canhoneira] Belmonte  
vinham nos socorrer (Brasil 2015, p. 173).  
As palavras de Fernandes de Sá descrevem as micropráticas que in-  
dicam o senso geral de orgulho a bordo, invocando a emoção singular de  
pertencer a um todo maior, a nação brasileira. Isso foi desencadeado pela  
ordem do primeiro-tenente Felipe Firmino e, mais tarde, estendido quan-  
do o almirante Tamandaré e a própria nação brasileira foram mencionados  
junto à tripulação. O capital simbólico de Tamandaré se reflete na pode-  
rosa inspiração que seu nome (re)produziu, permitindo a sedimentação do  
orgulho nos marinheiros da Parnaíba. O orgulho foi consolidado também  
porque a confiança foi bem sedimentada pelo habitus naval, pois este últi-  
mo promulgou as estratégias que fomentam práticas inovadoras capazes  
de lidar com as incertezas de estar no mar. O Regimento, como resultado  
do habitus e do orgulho a bordo durante o século XVIII, estaria agora mol-  
dando um campo diferente, condicionando a segurança ontológica naval.  
No entanto, José Miguel de Arias Neto (2001) demonstra que seis  
meses após a batalha do Riachuelo, as percepções entre marinheiros e sar-  
gentos da Armada Imperial do Brasil eram bem diferentes, pois conside-  
ravam o serviço um ato de punição e tormento. Da mesma forma, Paulo  
Castro (2013, p. 214) ao analisar a “disciplinarização geral” da Armada  
Imperial por meio da corveta Trajano em 1873, explicou que os coman-  
dantes em geral, para expressar sua autoridade, utilizavam o castigo físi-  
co no início de seu mandato e, eventualmente, consideravam as origens  
sociais dos marinheiros como critério para isso. Curiosamente, Felippe  
Firmino – o primeiro tenente da Parnaíba – quase uma década depois, foi  
o último comandante da Trajano e o indivíduo que puniu marinheiros  
com mais frequência: 182 vezes em quase dois anos, aproximadamente  
três vezes mais que o comandante João Antonio Alves Nogueira, o co-  
mandante que o substituiu.  
176  
Bruno Sowden-Carvalho, Marcelo M. Valença Navios, autoidentidade e o ethos militar: conceituando segurança ontológica naval  
Portanto, embora não seja possível dizer que o Regimento era a  
condição necessária para a segurança ontológica naval, ao menos ele  
criou a base para uma narrativa biográfica, como expressou o despacho  
naval na Batalha do Riachuelo, preparando o cenário para um campo  
naval específico. No entanto, a condição emocional no navio de guerra  
brasileiro era bastante precária e instável, dificilmente se fundindo em  
6
6. Podemos nos referir ao campo naval  
como um campo específico no sentido  
bourdieusiano por refletir autonomia  
um forte senso de autoidentidade. Vale lembrar que o fim da escravidão  
só foi observado no Brasil em 1888 e, até então, os castigos físicos a bordo  
abundavam sobre os marinheiros negros, que constituíam cerca de 75%  
dos marinheiros da Marinha Real (Nascimento, 2016). Portanto, a escra-  
vidão dividia a tripulação, e o orgulho e a confiança não conseguiam ser  
fomentados pelo habitus naval da época.  
relativa, a disputa por capital e suas  
próprias regras e saberes. A autonomia  
consiste na particularidade do meio ma-  
rítimo e dos navios de guerra vis-à-vis os  
espaços e saberes partilhados com ou-  
tras forças armadas, o que proporciona  
às marinhas um capital particularmente  
valorizado naquele ambiente específico,  
que é a liderança e o prestígio do oficial  
“a bordo”. Este capital é refletido tanto  
nas narrativas biográficas que cercam o  
indivíduo quanto na própria postura que  
o indíviduo desempenha em suas ativi-  
dades, refletindo as regras e os saberes  
do que constituem o homem do mar e um  
oficial de Marinha.  
O Regimento teve seu nome alterado em 1874, sendo chamado pela  
primeira vez de Ordenações Gerais para o Serviço da Armada (OGSA),  
também baseado nas práticas navais da França, Itália e Portugal, de modo  
mais detalhado que seu antecessor, dividido em 34 artigos e 100 capítu-  
los (Brasil, 2009, p. 116). Foi somente em 1890, após a proclamação da  
república, que uma lei foi aprovada formalmente pondo fim aos castigos  
físicos. No entanto, a condição emocional e o ethos social da instituição  
permaneceram articulados às condições sociais do Brasil. O castigo físico  
continuou como prática rotineira, particularmente por meio de chicota-  
das em marinheiros negros. Isso explica a Revolta da Chibata, em 1910,  
nos dreadnoughts Minas Gerais e São Paulo. Oprimidos pela sociedade  
darwinista racista brasileira do início do século XX (SCHWARCZ, 1993),  
os rebeldes alegavam simplesmente cumprir a mesma lei que os cidadãos  
normais, em vez de serem “escravos dos oficiais da Marinha e levar o chi-  
cote como punição”, como afirmou o marinheiro Francisco Dias Martins  
(NASCIMENTO, 2016, p. 157). O motim foi liderado por João Candido, o  
Almirante negro, cujas palavras vale citar:  
Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podendo mais supor-  
tar a escravidão na Marinha Brasileira, a falta de proteção que a Pátria nos dá […]  
porque durante vinte anos de República ainda não foi bastante para tratar-nos  
como cidadãos fardados em defesa da Pátria, mandamos esta honrada mensagem  
para que V. Excia. faça os Marinheiros Brasileiros possuirmos os direitos sagrados  
que as leis da República nos facilita […] como retirar os oficiais incompetentes e  
indignos de servir a Nação Brasileira; [r]eformar o Código Imoral e Vergonhoso  
que nos rege, a fim de que desapareça a chibata, o bolo, e outros castigos seme-  
lhantes; aumentar o soldo […], educar os marinheiros que não têm competência  
para vestir a orgulhosa farda (…) (ARIAS NETO, 2009, p. 172).  
A mensagem de Candido expressou a flagrante insegurança onto-  
lógica que permeia as práticas da MB: ele pediu educação – capaz de tra-  
zer confiança por meio do habitus naval – e ser tratado como um cidadão  
brasileiro – o que permitiria o senso de pertencimento que condiciona  
o orgulho a bordo. Suas palavras também mostravam a inabilidade e  
inadequação dos comandantes para liderar seus homens, evidenciando  
a incapacidade dos marinheiros negros de fazer parte de uma narrati-  
va biográfica vibrante e que as práticas cotidianas não eram capazes de  
circular capital simbólico. Isso se deveu em grande parte à punição por  
chicote, dividindo a tripulação, aumentando o nível de ansiedade, uma  
instabilidade emocional já trazida pela vida no mar. Essa falta de uma  
177  
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autoidentidade coesa reforçou a fragilidade da MB à época, dificultando  
políticas estratégicas de longo prazo.  
A OGSA de 1873 foi alterada em 1910 sem menção às punições físi-  
cas. Em 1942, houve nova mudança, ampliando seu escopo e retratando  
muitas das práticas atuais da MB, inclusive sua contemporânea divisão  
administrativa departamental a bordo, indicando as práticas correspon-  
dentes dos marinheiros. Estas mudanças se explicam porque, durante a  
Segunda Guerra Mundial, a MB tornou-se mais profissional dadas as prá-  
ticas aprendidas por meio do programa de intercâmbio com a Marinha  
dos EUA (Vidigal, 1985).  
Helio Leôncio Martins (1985), em suas memórias, descreve as prá-  
ticas navais da época. Martins relembra a ocasião em que enquanto co-  
mandante do caça-submarinos Juruena, um mau funcionamento no leme  
fez com que seu navio fosse em direção a um navio mercante parte do  
comboio. Com a colisão iminente, a tripulação esperava uma decisão:  
Os observadores, mais todos os homens na ponte, estavam me olhando fixamen-  
te, esperando a decisão salvadora, concretizando, naquelas expressões ansiosas,  
a responsabilidade do comandante […] A sensação de que o condicionamento  
do sistema transforma a figura do comandante na esperança máxima quando os  
perigos surgem, é quase um peso intransponível de carregar. Uma simples voz  
trêmula, ou um pequeno gesto que indica insegurança, quebra instantaneamente  
a corrente de confiança cimentada após anos, consequentemente transformando  
uma tripulação disciplinada em um bando de homens desesperados. Foi isso  
que senti naquela fração mínima de tempo, sendo olhado fixamente. Deve haver  
alguma ordem […] Então eu disse a primeira coisa que me veio à mente: forte a  
estibordo (Martins, 1985, p. 87).  
Martins descreve o capital simbólico de um comandante a bordo e  
a relevância correspondente da confiança. O habitus envolvido na prática  
mundana de ordenar “forte a estibordo” amalgamou a confiança e o or-  
gulho que quase intransponivelmente pesavam sobre seus ombros como  
comandante. Ele descreve notavelmente a fragilidade de tal situação e a  
montagem de microcomportamentos como uma voz trêmula ou um pe-  
queno gesto de insegurança não apenas saturando o campo, mas poten-  
cialmente quebrando a corrente de confiança indicando que o caos estava  
à espreita. A resiliência emocional da tripulação permitiu suas ações e  
vice-versa, condicionando a manobra para evitar a colisão.  
A OGSA mudaria novamente em 1987. Desde então, ela tem refleti-  
do as práticas gerais da instituição e as mudanças na própria MB, especial-  
mente quando se trata de suas missões contemporâneas. Atenção especial  
é dada à posição geoestratégica privilegiada do Brasil na América do Sul,  
um continente relativamente pacífico, além de sua história diplomática  
estável, que tem na II Guerra Mundial a sua última experiência de envol-  
vimento em guerra interestatal.  
Como resultado, a MB se envolve principalmente em operações de  
segurança marítima, especialmente à pesca ilegal não declarada e não  
regulamentada em sua zona econômica exclusiva, e contribui para opera-  
ções de manutenção da paz e missões multinacionais cooperativas. Mas a  
OGSA ainda silencia sobre aspectos que a MB resiste em observar, espe-  
cialmente quando se trata do papel afirmativo das mulheres e da diver-  
sidade social, além do envolvimento com o desenvolvimento sustentável  
178  
Bruno Sowden-Carvalho, Marcelo M. Valença Navios, autoidentidade e o ethos militar: conceituando segurança ontológica naval  
e do papel da tecnologia a bordo. Os resultados concretos ainda preci-  
sam ser devidamente estudados e este artigo não se aprofundará sobre  
esses aspectos, mas eles podem ser percebidos, grosso modo, como na  
demanda por incorporação gradual e crescente de mulheres nos quadros  
da Força, inclusive com a paridade de gênero e nas questões ambientais  
envolvendo o desmantelamento do porta-aviões São Paulo. Esses elemen-  
tos, se negligenciados pela MB, podem se tornar uma fonte de insegu-  
rança ontológica – analogamente à condição de escravidão do Brasil no  
início do século passado –, comprometendo a instituição e suas intercone-  
xões com a sociedade civil. A OGSA ainda não aborda diretamente esses  
tópicos, portanto, uma avaliação mais aprofundada deve ser feita para  
elucidar as práticas contemporâneas a bordo, de modo a compreender  
seu impacto sobre as práticas na constituição da (in)segurança ontológica  
naval contemporânea.  
5 CONCLUSÕES  
As marinhas são compostas por pessoas, cujas vidas são inclinadas  
à atividade não natural de explorar os oceanos. Esta não é uma afirma-  
ção romântica, mas um fato que moldou as autoidentidades das marinhas  
e, surpreendentemente, tem sido pouco abordado por acadêmicos. No  
Brasil, a literatura sobre relações civis-militares é predominantemente  
ancorada no Exército, seja investigando sua potencial interferência polí-  
tica a partir de uma abordagem de cima para baixo, seja analisando seu  
senso de identidade com base na vida na AMAN.  
Este artigo teve como objetivo demonstrar que essas perspectivas  
ainda não conseguem capturar completamente os elementos que consti-  
tuem o senso de autoidentidade das marinhas. Ao fundir o aparato teóri-  
co de Giddens e Bourdieu e fundamentados na premissa de que os navios  
de guerra diferenciam as práticas das marinhas, apresentamos um arca-  
bouço teórico para preencher essa lacuna, esculpindo o conceito de se-  
gurança ontológica naval. A segurança ontológica naval é conceituada e  
definida como o conjunto de práticas coletivas historicamente induzidas  
por navios de guerra que buscam amalgamar coerentemente a autoiden-  
tidade da marinha, entrelaçando e sedimentando suas narrativas biográ-  
ficas, orgulho e confiança para lidar com a experiência de estar exposto  
aos oceanos. Campo, capital simbólico e habitus/doxa, respectivamente,  
se relacionam a esses elementos, permitindo que as práticas indiquem o  
processo emocional envolvido na segurança ontológica.  
Trazendo esse conceito para a MB, analisamos a trajetória histórica  
da OGSA. Mostramos que o documento nasceu de práticas internas a  
bordo, influenciadas internacionalmente pelos Regimentos da Marinha  
Real e da Marinha Portuguesa. Isso expressou o caráter internacional  
da instituição, bem como sua condição pós-colonial. Historicamente, a  
OGSA forneceu a estrutura geral para práticas a bordo, e sua internali-  
zação por agentes forneceu a abordagem relacional empírica que exem-  
plificamos. No entanto, demonstramos que a segurança ontológica não  
pode emanar apenas por uma abordagem de cima para baixo. Embora a  
primeira versão da OGSA tenha retratado meticulosamente uma visão  
179  
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 1, (fev. 2025), p. 164-182  
normativa sobre práticas a bordo, o ambiente social brasileiro, marcado  
pela escravidão, privou a MB de um senso coerente de si mesma, pois  
práticas como práticas de chibata dividiam a tripulação. A Revolta da  
Chibata de 1910 foi o exemplo empírico disso. Por outro lado, a expe-  
riência da Segunda Guerra Mundial, reforçada pela postura diplomática  
estável do Brasil com os EUA, sem dúvida mudou o campo e, com base  
no exemplo da memória de Martins, um senso de segurança ontológica  
foi encontrado a bordo do Juruena. Esse senso de segurança ontológica,  
nascido de práticas em navios de guerra, é o que a OGSA tenta formalizar  
e emanar normativamente para a instituição como um todo. Avaliações  
posteriores devem demonstrar se a segurança ontológica ocorre por meio  
de micropráticas contemporâneas em navios de guerra.  
Acreditamos que o uso de uma estrutura teórica inspirada em  
Giddens-Bourdieu pode trazer uma observação mais próxima do ele-  
mento humano nas marinhas, especificamente no Brasil, onde poucos  
acadêmicos analisaram essa questão. Se a escravidão e a terrível aversão  
aos marinheiros negros comprometeram a segurança ontológica naval  
no início do século XX, hoje em dia, em um ambiente sociopolítico bra-  
sileiro profundamente polarizado, riscos semelhantes podem ocorrer, di-  
ficultando as relações civis-militares. Portanto, o conceito de segurança  
ontológica poderia ser complementado por pesquisas “praxigoráficas” a  
bordo de navios de guerra brasileiros para verificar essa postura e dar  
uma contribuição acadêmica e política original. Além disso, pode até for-  
necer uma comparação importante entre a Marinha do Brasil e outras  
marinhas ao redor do mundo. Portanto, as relações civis-militares podem  
ser fortalecidas e, internacionalmente, podem ajudar a Marinha do Brasil  
a operar em cooperação com outras marinhas, impulsionar sua moral e  
estar mais alinhada com questões sociopolíticas contemporâneas.  
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