Bruno Sowden-Carvalho, Marcelo M. Valença Navios, autoidentidade e o ethos militar: conceituando segurança ontológica naval
Portanto, embora não seja possível dizer que o Regimento era a
condição necessária para a segurança ontológica naval, ao menos ele
criou a base para uma narrativa biográfica, como expressou o despacho
naval na Batalha do Riachuelo, preparando o cenário para um campo
naval específico. No entanto, a condição emocional no navio de guerra
brasileiro era bastante precária e instável, dificilmente se fundindo em
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6. Podemos nos referir ao campo naval
como um campo específico no sentido
bourdieusiano por refletir autonomia
um forte senso de autoidentidade. Vale lembrar que o fim da escravidão
só foi observado no Brasil em 1888 e, até então, os castigos físicos a bordo
abundavam sobre os marinheiros negros, que constituíam cerca de 75%
dos marinheiros da Marinha Real (Nascimento, 2016). Portanto, a escra-
vidão dividia a tripulação, e o orgulho e a confiança não conseguiam ser
fomentados pelo habitus naval da época.
relativa, a disputa por capital e suas
próprias regras e saberes. A autonomia
consiste na particularidade do meio ma-
rítimo e dos navios de guerra vis-à-vis os
espaços e saberes partilhados com ou-
tras forças armadas, o que proporciona
às marinhas um capital particularmente
valorizado naquele ambiente específico,
que é a liderança e o prestígio do oficial
“a bordo”. Este capital é refletido tanto
nas narrativas biográficas que cercam o
indivíduo quanto na própria postura que
o indíviduo desempenha em suas ativi-
dades, refletindo as regras e os saberes
do que constituem o homem do mar e um
oficial de Marinha.
O Regimento teve seu nome alterado em 1874, sendo chamado pela
primeira vez de Ordenações Gerais para o Serviço da Armada (OGSA),
também baseado nas práticas navais da França, Itália e Portugal, de modo
mais detalhado que seu antecessor, dividido em 34 artigos e 100 capítu-
los (Brasil, 2009, p. 116). Foi somente em 1890, após a proclamação da
república, que uma lei foi aprovada formalmente pondo fim aos castigos
físicos. No entanto, a condição emocional e o ethos social da instituição
permaneceram articulados às condições sociais do Brasil. O castigo físico
continuou como prática rotineira, particularmente por meio de chicota-
das em marinheiros negros. Isso explica a Revolta da Chibata, em 1910,
nos dreadnoughts Minas Gerais e São Paulo. Oprimidos pela sociedade
darwinista racista brasileira do início do século XX (SCHWARCZ, 1993),
os rebeldes alegavam simplesmente cumprir a mesma lei que os cidadãos
normais, em vez de serem “escravos dos oficiais da Marinha e levar o chi-
cote como punição”, como afirmou o marinheiro Francisco Dias Martins
(NASCIMENTO, 2016, p. 157). O motim foi liderado por João Candido, o
“Almirante negro”, cujas palavras vale citar:
Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podendo mais supor-
tar a escravidão na Marinha Brasileira, a falta de proteção que a Pátria nos dá […]
porque durante vinte anos de República ainda não foi bastante para tratar-nos
como cidadãos fardados em defesa da Pátria, mandamos esta honrada mensagem
para que V. Excia. faça os Marinheiros Brasileiros possuirmos os direitos sagrados
que as leis da República nos facilita […] como retirar os oficiais incompetentes e
indignos de servir a Nação Brasileira; [r]eformar o Código Imoral e Vergonhoso
que nos rege, a fim de que desapareça a chibata, o bolo, e outros castigos seme-
lhantes; aumentar o soldo […], educar os marinheiros que não têm competência
para vestir a orgulhosa farda (…) (ARIAS NETO, 2009, p. 172).
A mensagem de Candido expressou a flagrante insegurança onto-
lógica que permeia as práticas da MB: ele pediu educação – capaz de tra-
zer confiança por meio do habitus naval – e ser tratado como um cidadão
brasileiro – o que permitiria o senso de pertencimento que condiciona
o orgulho a bordo. Suas palavras também mostravam a inabilidade e
inadequação dos comandantes para liderar seus homens, evidenciando
a incapacidade dos marinheiros negros de fazer parte de uma narrati-
va biográfica vibrante e que as práticas cotidianas não eram capazes de
circular capital simbólico. Isso se deveu em grande parte à punição por
chicote, dividindo a tripulação, aumentando o nível de ansiedade, uma
instabilidade emocional já trazida pela vida no mar. Essa falta de uma
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