estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 1, (fev. 2025), p. 183-189
naturais e negligencia a segurança alimentar de sua própria população.
A manutenção desse modelo agrícola depende, de forma central, do uso
intensivo de agrotóxicos. Durante o governo Bolsonaro (2019–2022), fo-
ram aprovados 2.182 registros de novos agrotóxicos (Campanha, 2022).
Essa tendência foi mantida no governo Lula, que autorizou a liberação de
1.218 novos produtos entre 2023 e 2024 (Mapa, 2025). Em 2023, a aprova-
ção da chamada “PL do Veneno”, posteriormente transformada na Lei nº
14.785/2023, instituiu um novo marco regulatório mais permissivo para o
registro, uso e fiscalização dessas substâncias no país. Apesar da gravida-
de dos dados, no Brasil os impactos dos agrotóxicos seguem sendo deba-
tidos majoritariamente no campo da saúde, o que torna a contribuição de
Bombardi particularmente relevante para estimular o engajamento das
ciências humanas nesse debate. Com linguagem acessível, riqueza de da-
dos e uma ampla cartografia que facilita a compreensão das informações,
seu livro constitui também um importante instrumento de divulgação
científica voltado ao público mais amplo.
O cerceamento científico sofrido por ela encontra paralelo, coloca-
do logo na introdução, com o lançamento do livro “Primavera silenciosa”
de Rachel Carson em 1962. Carson (1969) denunciava os perigos do uso
indiscriminado de agrotóxicos, em especial de pesticidas organoclorados
como o DDT, e é considerada pioneira na consideração do meio ambiente
como algo holístico, ou seja, um sistema complexo e interdependente.
Para Carson, a banalização do uso de agrotóxicos instaurou o que ela
considerava ser uma “era do veneno” em que uma espécie de guerra quí-
mica entre ser humano e natureza era constantemente travada na busca
de estimular a superprodução agrícola (Carson, 1969).
O grande feito de Carson não foi desenvolver uma pesquisa iné-
dita sobre os efeitos prejudiciais dos agrotóxicos, já que seus principais
argumentos baseiam-se em dados secundários, mas foi divulgá-los para
o grande público em linguagem acessível. Dessa forma, o livro impulsio-
nou o debate público que passou a incluir os cidadãos estadunidenses que
foram informados sobre a questão. Podemos observar, então, que Carson
realizou uma divulgação científica construindo pontes entre ciência e
meio ambiente impulsionando, assim, o debate público e a politização do
movimento ecologista. No caso, a ciência assumia papel crítico que viria
a se tornar cada vez mais crucial nos direcionamentos políticos das dis-
cussões do regime ambiental internacional. Alguns princípios clássicos
da regulamentação ambiental como da prevenção, da precaução, da in-
formação, da participação e do poluidor-pagador foram inspirados pelas
discussões que seu trabalho suscitou (Maia, Franco, 2021).
Por conta da notoriedade de sua obra, que se tornou um best seller,
Carson foi duramente atacada pela indústria química e por cientistas de-
fensores do uso de pesticidas, inclusive, com críticas de cunho misógino.
Ao longo do tempo, no entanto, as advertências de Carson acerca dos
riscos no uso de pesticidas provaram ser pertinentes e seguem atuais.
O exemplo de Carson evidencia como mulheres que enfrentam os
ditames predatórios do desenvolvimento capitalista são frequentemente
desqualificadas como irracionais, histéricas ou emocionalmente instá-
veis. Essa reação não é acidental, mas revela a lógica de um sistema que
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