Aureo Toledo, Ana Flávia Vilela Silva Environmental Peacebuilding: definições, tendências e contradições de um emergente campo de estudos  
Environmental Peacebuilding: definições,  
tendências e contradições de um  
emergente campo de estudos  
Environmental Peacebuilding: definitions, trends, and  
contradictions of an emerging field of study  
Environmental Peacebuilding: definiciones, tendencias y  
contradicciones de un campo de estudio emergente  
1
Aureo Toledo  
2
Ana Flávia Vilela Silva  
DOI: 10.5752/P.2317-773X.2025v13.n2.p77  
Enviado em: 14 de julho de 2025  
Aceito em: 17 de outubro de 2025  
RESUMO  
O que é environmental peacebuilding? Face ao crescente e urgente debate sobre o  
impacto das mudanças do clima e a necessidade de proteção do meio ambiente,  
tem crescido a discussão sobre como a questão ambiental contribui não apenas  
para emergência de conflitos, mas sobretudo para a construção de uma paz  
duradoura e resiliente. Nesse sentido, mediante revisão bibliográfica e análise  
qualitativa de trabalhos selecionados, a proposta do artigo é apresentar o campo  
de environmental peacebuilding. Para tanto, estruturamos o artigo por meio  
da discussão das principais definições sobre o campo e suas intersecções com os  
Estudos para Paz; seguido da análise de tendências emergentes no debate e das  
principais críticas realizadas até o momento. Ao final, argumentamos que a des-  
peito das contradições identificadas, trata-se de campo potencialmente promis-  
sor para abertura de caminhos originais para a construção de alternativas mais  
justas e inclusivas para paz, particularmente quando articulado com perspecti-  
vas de gênero, abordagens locais e cosmovisões e práticas indígenas.  
Palavras-chave: Environmental Peacebuilding; Estudos para Paz; Gênero; Práti-  
cas Indígenas  
1. Professor Associado e Coordenador do Núcleo de Pesquisas em Paz, Segurança Internacional e Estudos  
Estratégicos (NUPSIEE-UFU) da Universidade Federal de Uberlândia. Doutorado em Ciência Política pela Uni-  
versidade de São Paulo. Visiting Scholar na The University of Manchester, Humanitarian and Conflict Response  
Institute, financiado pela CAPES. Fulbright Visiting Scholar na George Mason University, Jimmy and Rosalynn  
Carter School for Peace and Conflict Resolution. (aureotoledo@ufu.br). ORCID: 0000-0002-6083-0562.  
2. Pesquisadora do Núcleo de Pesquisas em Paz, Segurança Internacional e Estudos Estratégicos (NUPSIEE-  
-UFU) e bacharela em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia. (anaflaviavilelasil-  
va5002@gmail.com). ORCID: 0009-0005-8647-4673.  
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ABSTRACT  
What is environmental peacebuilding? The growing and urgent debate sur-  
rounding the impact of climate change and the critical need for environmental  
protection has increasingly highlighted how environmental issues not only  
fuel conflicts but, more importantly, contribute to building lasting and resilient  
peace. This article aims to introduce the field of environmental peacebuilding  
through a comprehensive literature review and qualitative analysis of selected  
works. To achieve this, we have structured the article by discussing the core defi-  
nitions of the field and its intersections with Peace Studies; analyzing emerging  
trends within the current debate; and examining the primary criticisms leveled  
to date. As a conclusion, we contend that despite identified contradictions, this  
field offers significant promise for pioneering more equitable and inclusive pa-  
thways to peace, especially when integrated with gender perspectives, localized  
strategies, and indigenous worldviews and practices.  
Keywords: Environmental Peacebuilding; Peace Studies; Gender Perspectives;  
Indigenous Practices  
RESUMEN  
¿Qué es environmental peacebuilding? Frente al creciente y urgente debate sobre  
el impacto del cambio climático y la necesidad de proteger el medio ambiente,  
ha aumentado la discusión sobre cómo la cuestión ambiental contribuye no  
solo a la emergencia de conflictos, sino sobre todo a la construcción de una  
paz duradera y resiliente. En este sentido, mediante una revisión bibliográfica  
y un análisis cualitativo de trabajos seleccionados, la propuesta del artículo es  
presentar el campo de environmental peacebuilding. Estructuramos el artículo  
a través de la discusión de las principales definiciones sobre el campo y sus inter-  
secciones con los Estudios para la Paz, seguido de un análisis de las tendencias  
emergentes en el debate y las principales críticas realizadas hasta el momento.  
Al final, argumentamos que, a pesar de las contradicciones identificadas, se trata  
de un campo potencialmente prometedor para abrir caminos originales para la  
construcción de alternativas más justas e inclusivas para la paz, particularmente  
cuando se articula con perspectivas de género, enfoques locales y cosmovisiones  
y prácticas indígenas.  
Palavras clave: Environmental Peacebuilding; Estudios para la Paz; Perspectivas  
de Género; Prácticas Indígenas  
1 INTRODUÇÃO  
A proteção ao meio ambiente tem ganhado cada vez mais visibili-  
dade, particularmente com o aumento de catástrofes climáticas que afe-  
tam diretamente o bem-estar da população civil. Nesse sentido, diversos  
movimentos e ativistas ambientais tem atuado para que mais ações sejam  
adotadas por parte dos Estados, a fim de assegurar um meio ambiente  
sustentável, limpo e saudável para as próximas gerações, o que é inclusive  
resguardado como direito humano pela ONU (Organização das Nações  
Unidas, 2022).  
Dentro do campo dos Estudos para Paz, a discussão envolvendo a  
temática ambiental não é nova. Com o advento do que convencionou de-  
signar Estudos Críticos de Segurança Internacional, notou-se um proces-  
so de ampliação e aprofundamento das discussões sobre o que seria uma  
ameaça à segurança internacional. A partir dessa perspectiva, segurança  
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internacional não deveria estar restrita apenas à busca do conhecimento  
cumulativo sobre a ameaça, uso e controle da força militar (Walt, 1991).  
Pelo contrário, a ênfase na dimensão militar restringiria em demasiado a  
compreensão das ameaças contemporâneas.  
Adicionalmente, em termos metodológicos, a centralidade do  
Estado impediria a apreciação de novos atores do campo, além de man-  
ter tal entidade como referente último da segurança (Krause; Williams,  
1997). Por conseguinte, a ampliação temática da agenda de pesquisa, as-  
sim como suas revisões ontológicas e epistemológicas possibilitaram pes-  
quisas sistemáticas sobre a conexão entre meio ambiente e segurança in-  
ternacional. Surgiram assim perspectivas favoráveis à tal vinculação (e.g.  
Gleick, 1991), até àquelas críticas, as quais argumentam que o foco tradi-  
cional da segurança nacional – a violência interestatal – tem pouco em  
comum com os problemas ou soluções ambientais (e.g. Deudney, 1990).  
De um ponto de vista da construção da paz, destaca-se a partir da  
3
década de 1990 o debate sobre environmental peacebuilding o qual, em li-  
nhas gerais, aborda a temática por duas vias. De um lado, argumenta-se que  
cooperação ambiental pode contribuir para a construção da paz; por outro,  
a disputa por recursos naturais pode intensificar ou gerar conflitos (Ide et al.,  
2021). Tais estudos representaram uma contribuição importante, pois possi-  
bilitam o entendimento da paz de modo mais duradouro e abrangente. Isso  
ocorre pois considera-se tanto a esfera de prevenção de conflitos, quanto a  
construção de paz durante e após conflitos, tendo o meio-ambiente como  
elemento-chave para a segurança e a construção de cooperação (Dresse et  
al., 2019; Johnson; Rodríguez; Hoyos, 2021; Krampe; Swain, 2021).  
Embora seja uma área de pesquisa recente e heterogênea (Krampe;  
Swain, 2021), a environmental peacebuilding tem se consolidado como  
um terreno fértil para o desenvolvimento de pesquisas dentro dos  
Estudos para a Paz, sobretudo quando notamos as crescentes contribui-  
ções envolvendo paz e gênero, abordagens locais, e perspectivas indíge-  
nas por exemplo (Ide et al., 2021). Contudo, no âmbito da política inter-  
nacional, encontramos uma incoerência notável, na medida em que di-  
versas lideranças reconhecem o caráter global dos problemas ambientes,  
porém procuram eximir-se de suas responsabilidades para a resolução  
do problema (Ide, 2017). Ademais, é possível também notar que os danos  
das mudanças do clima são assimétricos, recaindo principalmente sobre  
países subdesenvolvidos, que, em geral, são os menores emissores de po-  
luentes nocivos ao meio ambiente (Maathai, 2009; Marcantonio, 2022).  
Diante desse panorama, este artigo se propõe a fazer uma revisão  
da literatura sobre environmental peacebuilding. Mediante análise qua-  
litativa de textos selecionados, o artigo estrutura-se em três seções, ex-  
cetuando-se esta introdução e as considerações finais. Na primeira seção  
apresentamos as relações analíticas entre os Estudos para Paz e o debate  
sobre environmental peacebuilding, destacando os conceitos centrais.  
Na segunda seção discutimos as tendências de estudo mais recente no  
campo. Por fim, na seção seguinte, apresentamos as principais críticas  
3. Dado não haver uma tradução consagrada para o português dessa expressão, optamos por mantê-la no  
original em inglês.  
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direcionadas a environmental peacebuilding. Ainda que modesto, com-  
preendemos que, nesses termos, o artigo contribui para apresentação e  
discussão de faceta importante dos debates relativos à construção da paz.  
2 CONCEITUANDO ENVIRONMENTAL PEACEBUILDING  
Como anteriormente apontado, a discussão sobre meio ambiente,  
recursos e conflitos não é nova, de modo que há a necessidade de desta-  
carmos qual o ganho analítico de discutir tais temas a partir dos Estudos  
para Paz. Nesse sentido, antes de adentrarmos especificamente sobre os  
conceitos próprios de environmental peacebuilding, convém demarcar  
em que bases a presente discussão será realizada.  
Uma das bases seminais do campo dos Estudos para a Paz é a dis-  
tinção proposta por Johan Galtung (1969) entre paz negativa e paz posi-  
tiva. Segundo Oliveira (2017), essa distinção resultou em epistemologias  
distintas para a investigação da paz. Para Galtung (1969), a paz negativa  
se define pela ausência de violência física e psicológica, o que, consequen-  
temente, direciona a investigação para maneiras de findar conflitos dire-  
tos — em uma escala ampliada, as guerras. Por outro lado, paz positiva  
ilumina as razões estruturais da violência, como injustiça econômica e  
opressão social, por exemplo, nos levando a inquirir como podemos su-  
perar determinações que causam e/ou sustentam ações violentas. Dessa  
perspectiva, qualquer tentativa de construção da paz perpassa análise e  
enfrentamento das condicionantes estruturais da violência.  
Tomando como referência tais epistemologias para estudo da cons-  
trução da paz, vemos que o meio ambiente é discutido em ambas. Em  
termos de paz negativa, a temática ambiental é vinculada diretamente à  
eclosão de conflitos violentos e um dos exemplos mais ilustrativos des-  
sa perspectiva é oriundo dos trabalhos de Thomas Homer-Dixon (2001).  
Segundo o autor, pressões sobre recursos e degradação ambiental levam  
a escassez e, consequentemente, violência, com destaque para conflitos  
étnicos, golpes de Estado e insurgência. Há igualmente discussões sobre  
como acesso a determinados recursos saqueáveis, como diamantes, pe-  
tróleo, entre outros, também podem dar início a disputas geopolíticas  
e intraestatais. Contudo, conforme Ramsbotham, Woodhouse e Miall  
(2011) apontam, a escassez é ocasionada por competições políticas.  
Por outro lado, quando tratamos do meio ambiente pelo prisma da  
paz positiva, a temática ambiental passa a ser vista como o pano de fundo  
para a compreensão de conflitos, muitas vezes compondo o cenário de  
violência estrutural que condiciona as disputas em questão. Isso é mais  
evidente em questões relativas a mudanças do clima pois, como salien-  
tam Ramsbotham, Woodhouse e Miall (2011), seus impactos tendem a  
ampliar as possibilidades de desastres naturais que fragilizam diversas  
populações ao redor do mundo, porém não está diretamente vinculada  
à erupção de conflitos armados violentos. É a partir dessa segunda pers-  
pectiva que procuraremos enquadrar as discussões contemporâneas de  
environmental peacebuilding.  
Environmental peacebuilding surgiu na literatura nos anos 1990  
(Ide et al., 2021; Marcantonio, 2022), apresentando diversas definições, de  
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acordo com especificidades de cada autor. Uma definição clássica afirma  
que “environmental peacebuilding compreende as múltiplas abordagens  
e caminhos pelos quais o manejo de problemas ambientais são integrados  
e podem sustentar a prevenção, mitigação, resolução e recuperação de  
conflitos” (Ide et al., 2021, p. 2–3). Outras definições expandem o escopo  
do campo para além do manejo ambiental, enfatizando a cooperação en-  
tre as partes de um conflito violento como resposta aos desafios ambien-  
tais, com o objetivo de construir uma paz duradoura (Dresse et al., 2019;  
Johnson; Rodríguez; Hoyos, 2021).  
A premissa central desse campo é que questões ambientais trans-  
fronteiriças podem ser transformadas em oportunidades para substituir  
a rivalidade por parcerias de longo prazo. Em conflitos interestatais, pro-  
põe-se subverter as fronteiras político-administrativas em favor de frontei-  
ras ecossistêmicas. Ou seja, trata-se de buscar soluções de win-win, ao pro-  
mover o diálogo e entendimento entre os atores envolvidos (Dresse et al.,  
2019), inclusive em contextos marcados por conflitos sociais e políticos em  
múltiplas escalas. Sob essa perspectiva, os autores interpretam a paz cons-  
truída pelos projetos de EPB como um continnum entre paz negativa e paz  
positiva (Johnson; Rodríguez; Hoyos, 2021; Sommer; Fassbender, 2024).  
Além da incorporação das epistemologias de paz negativa e positi-  
va, o campo de environmental peacebuilding incorpora outros entendimen-  
tos dentro do continuum de paz. Ide (2019) amplia o entendimento de  
paz ao discutir três cenários de construção de paz, esquematizados na  
figura 1. A primeira concepção descrita pelo autor é a ausência de conflito  
violento. Nessa perspectiva, a construção de paz ambiental busca prevenir  
a eclosão de violência resultante da exploração descontrolada de recursos  
naturais, da destruição de ecossistemas ou do colapso de meios de subsis-  
tência baseados no meio ambiente bem como evitar conflitos em que um  
ou mais Estados iniciem violência direta ou ameacem (Ide, 2019).  
A segunda concepção entende a paz como um processo de aproxi-  
mação simbólica, em que o meio ambiente se torna um canal de reconci-  
liação e confiança entre as partes, a partir da gestão conjunta de recursos  
(Ide, 2019; Johnson; Rodríguez; Hoyos, 2021; Sommer; Fassbender, 2024).  
Nesse cenário, a paz é alcançada quando as partes em conflito constroem  
uma identidade comum. Essa visão reconhece o papel central da política  
simbólica — por exemplo, ao rotular o outro como uma ameaça ou como  
um aliado — na dinâmica dos conflitos, assumindo que a paz vai além da  
ausência de violência, incluindo a ideia de que o conflito violento pode  
se tornar inconcebível em virtude da construção de relações simbólicas  
positivas (Ide, 2019).  
Por fim, a terceira concepção entende a paz pela integração substan-  
cial, alcançada mediante maior coordenação e comunicação entre grupos  
sociais ou pela criação de formas positivas de interdependência transso-  
cietal, tais como vínculos econômicos ou entre organizações da socieda-  
de civil dentro dos Estados ou entre Estados. Nesse sentido, a paz não se  
limita à ausência de violência nem à aproximação simbólica, mas envolve  
uma integração substancial entre comunidades ou Estados, tanto em ter-  
mos institucionais quanto por meio de conexões transsocietais (Ide, 2019;  
Johnson; Rodríguez; Hoyos, 2021).  
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Figura 1 – Cenários de Cooperação ambiental e de construção de paz  
Fonte: Extraído de Ide (2019, p. 330).  
Ademais, outro conceito importante para avaliar a construção de  
paz a partir do viés prático de análise projetos de environmental peace-  
building, é o de dimensões da paz, descrito por Ide et al (2021). Segundo  
estes autores, a análise de environmental peacebuilding deve considerar  
três dimensões principais: (i) segurança; (ii) meios de subsistência e economia;  
e (iii) política e relações sociais.  
A dimensão da segurança aborda a gestão inclusiva dos recursos  
naturais para prevenir conflitos e proteger comunidades da degradação  
ambiental. A dimensão dos meios de subsistência e economia analisa como  
a insegurança econômica e a ausência de oportunidades contribuem para  
a persistência de conflitos. A dimensão política e relações sociais examina  
como os desafios ambientais podem se tornar pontos de cooperação e diá-  
logo entre grupos em conflito, fortalecendo a resiliência frente a desafios  
globais, como as mudanças climáticas (Ide et al., 2021). Outros autores  
ainda apresentam uma quarta dimensão possível, a das capacidades, em  
que os atores reconhecem a necessidade de criar alternativas para enfren-  
tar, mitigar ou se adaptar às ameaças aos seus direitos humanos, sociais e  
ambientais. Essa abordagem enfatiza que a paz começa com a capacidade  
individual de exercer “liberdades substanciais” ou “oportunidades de es-  
colher e agir” (Johnson; Rodríguez; Hoyos, 2021)  
Além dessa diversidade disciplinar, os estudos em environmental  
peacebuilding também se caracterizam pela variedade de abordagens  
empíricas e níveis de análise. A literatura distingue estudos intraesta-  
tais — por exemplo, aqueles com foco na Colômbia — e interestatais —  
como os que analisam o Paquistão após as Guerras Indo-Paquistanesas  
(Johnson; Rodríguez; Hoyos, 2021). Teoricamente, o campo também  
apresenta duas principais vias interpretativas: uma voltada à cooperação  
ambiental; e outra à gestão de recursos naturais e aos riscos associados a  
sua escassez ou má administração (Krampe; Swain, 2021).  
A discussão sobre cooperação ambiental parte do pressuposto de que  
o manejo compartilhado de recursos pode gerar confiança e capital so-  
cial, criando condições para uma paz sustentável (Krampe; Swain, 2021).  
Essa vertente entende que a interdependência ambiental pode substituir  
a lógica de confronto por uma lógica de colaboração, promovendo ações  
conjuntas contra a destruição do meio ambiente (Johnson; Rodríguez;  
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Hoyos, 2021; Sommer; Fassbender, 2024). Em termos práticos, em ce-  
nários de baixo conflito, a cooperação ambiental tem se mostrado uma  
ferramenta eficaz na consolidação da paz recém-estabelecida, trazendo  
benefícios como a redução de vulnerabilidades econômicas e ambientais  
frente às mudanças climáticas. Em comparação à cooperação política ou  
securitária, ela é menos controversa, mais acessível e mais conectada às  
necessidades do cotidiano, reforçando os laços sociais e relações inter-  
pessoais, fortalecendo a confiança e o bem-estar entre os atores e facili-  
tando a criação de consensos, para além do impacto econômico obtidos  
(Sommer; Fassbender, 2024).  
Em segundo lugar, a abordagem dos riscos de recursos, por sua vez,  
concentra-se nos recursos naturais como possíveis catalisadores de con-  
flitos. O argumento central é que a escassez e a degradação ambiental  
podem intensificar disputas, aumentando o risco de violência (Krampe;  
Swain, 2021). Por isso, a gestão sustentável e compartilhada desses re-  
cursos torna-se essencial, tanto para evitar novos conflitos quanto para  
promover a restauração das relações entre países. Essa abordagem tam-  
bém exige a superação das causas estruturais e profundas dos conflitos —  
como desigualdades, pobreza e má governança — por meio do fortaleci-  
mento institucional e da administração equitativa dos recursos (Johnson;  
Rodríguez; Hoyos, 2021; Krampe; Swain, 2021; Marcantonio, 2022).  
Autores como Marcantônio (2022) propõem uma ampliação crítica  
do debate sobre essa abordagem de risco de recursos, ao distinguir mane-  
jo de recursos naturais e manejo ambiental. Segundo Marcantônio (2022),  
enquanto o primeiro conceito está focado no acesso e conservação, o se-  
gundo prioriza a proteção da saúde humana diante dos impactos ambien-  
tais. Para além, diversas ONGs apontam que o manejo ambiental exige  
instituições e marcos legais robustos para garantir um desenvolvimento  
sustentável durante a reconstrução no pós-guerra.  
Adicionalmente, Marcantonio (2024) também chama atenção para  
os riscos da ausência de manejo ambiental; para ele, os maiores perigos  
à vida humana hoje são representados pela poluição e pelas mudanças  
climáticas, que já matam mais do que muitos conflitos armados. Esses  
impactos não são distribuídos de maneira equitativa: países pequenos e  
médios do Sul Global são os mais afetados, enquanto os grandes emis-  
sores sofrem menos consequências, perpetuando assimetrias de poder  
(Marcantonio, 2024). Assim, urge que o campo de environmental peace-  
building também incorpore o manejo ambiental e reflita sobre formas de  
cooperação voltadas à mitigação dos problemas ambientais atuais, para  
além da análise de conflitos.  
No que tange a elaboração de projetos de environmental peace-  
building, Dresse et al. (2019) identificam três trajetórias principais, que  
embora distintas em seus fundamentos, frequentemente se entrelaçam  
na prática. As autoras utilizam a ideia de blocos fundamentais (building  
blocks) para dividir essas trajetórias, quais sejam: (i) as condições iniciais  
em que as partes iniciam a cooperação ambiental; (ii) os mecanismos uti-  
lizados para superar obstáculos da cooperação; e, por fim, (iii) os resulta-  
dos alcançados com a cooperação.  
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Figura 2 – Quadro de trajetórias do Environmental Peacebuilding  
Fonte: Extraído de Dresse et al. (2019, p. 8).  
A primeira trajetória é a technical environmental peacebuilding, basea-  
da na ideia de que soluções técnicas, como a gestão eficiente de recursos,  
podem reduzir as causas ambientais dos conflitos. Essa abordagem tende  
a ser aplicada em contextos de violência aberta, mas é limitada quando  
ignora os níveis de autoridade e as necessidades locais, resultando em  
projetos desconectados das realidades sociais que pretendem transformar  
(Dresse et al., 2019).  
A segunda trajetória é a restorative environmental peacebuilding, que  
propõe a criação de espaços coletivos de reconhecimento de injustiças e  
reconstrução de vínculos entre as ex-partes combatentes e entre os diver-  
sos grupos das sociedades em questão. Nesse caso, o diálogo ambiental  
serve como instrumento de transformação de percepções e reconfigura-  
ção de identidades, abrindo caminho para novas formas de convivência e  
colaboração (Dresse et al., 2019).  
A terceira trajetória, a do sustainable environmental peacebuilding, en-  
fatiza a importância de uma distribuição equitativa dos recursos como  
pré-requisito para o desenvolvimento sustentável e para a paz. Essa abor-  
dagem busca integrar diferentes escalas de governança e promover uma  
justiça ambiental que vá além da mitigação de danos, atacando direta-  
mente as causas estruturais dos conflitos. Ainda assim, sua efetividade  
depende da capacidade de articulação entre atores locais, regionais e in-  
ternacionais, o que nem sempre é alcançado (Dresse et al., 2019).  
No que diz respeito à implementação e ao monitoramento dos pro-  
jetos de environmental peacebuilding, é necessário que haja uma abor-  
dagem integrada que considere desde o planejamento até a avaliação de  
resultados, com foco na interação entre fragilidades ambientais e riscos  
de conflito. Isso envolve cinco etapas principais: (i) analisar como fatores  
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ambientais se relacionam com dinâmicas de conflito; (ii) revisar os impac-  
tos ambientais das atividades propostas; (iii) desenvolver estratégias para  
mitigar danos e ampliar benefícios ambientais; (iv) avaliar a capacidade  
da equipe e estabelecer parcerias estratégicas; e (v) alinhar as operações  
institucionais com políticas ambientais. Essas etapas reforçam o compro-  
misso ético e transformador dos projetos, promovendo soluções susten-  
táveis e sensíveis ao contexto local (Metcalfe; Thayer, 2024). Os proces-  
sos de monitoramento e os resultados dessas iniciativas estão disponí-  
veis em plataformas online, como a Nature-based Solutions (NbS) Initiative  
Homepage, que reúne estudos de caso (Nature-based Solutions Initiative,  
2025) e mapas de projetos (World Bank, 2025) que mostram os projetos de  
peacebuilding ao redor do mundo.  
3 TENDÊNCIAS RECENTES NA PESQUISA SOBRE ENVIRONMENTAL  
PEACEBUILDING  
Dentre as tendências mais recentes de discussões envolvendo en-  
vironmental peacebuilding, uma nova leva de trabalhos tem buscado  
ampliar os temas e métodos do campo (Ide et al., 2021). Logo, esta seção  
apresenta cinco tendências recentes na literatura sobre environmental  
peacebuilding: (i) o debate sobre programação sensível do conflito; (ii) a  
incorporação de tecnologias emergentes; (iii) cosmovisões e práticas indí-  
genas; (iv) a virada local; e (v) a dimensão do gênero.  
Uma das tendências é a programação sensível ao conflito, que propõe  
atuar dentro do contexto de conflito, em vez de manter o foco exclusivo  
em sua resolução. Essa abordagem reconhece que intervenções descon-  
textualizadas — mesmo quando bem-intencionadas — podem agravar  
tensões locais. O objetivo dessa abordagem é mitigar impactos negativos  
e fomentar interações que não aprofundem as dinâmicas de violência (Ide  
et al., 2021).  
Um exemplo ilustrativo desse efeito negativo é a reforma rural im-  
plementada na Colômbia após o acordo de paz de 2016. Durante a Guerra  
Civil na Colômbia (1964-2013), as FARC detinham o controle de parte das  
florestas do país. Esse controle restringiu a utilização das florestas por  
civis, o que, por um lado auxiliou na conservação das florestas, mas por  
outro, também promoveu o cultivo de coca e a abertura de estradas, me-  
diante atuação de grupos insurgentes, fato que contribuía para a degrada-  
ção ambiental. As negociações para o acordo de paz ocorreram entre 2013  
e 2016 e dentre as cláusulas previstas no acordo final, estava a elaboração  
do que foi chamado de Reforma Rural Integral (RRI) (Murillo-Sandoval  
et al., 2020).  
Um dos princípios dessa reforma era o desenvolvimento abrangen-  
te das áreas rurais, resguardando o meio ambiente, prezando pela susten-  
tabilidade socioambiental e levando em consideração a abordagem étnica  
e de gênero. O acordo propunha e formalizava (1) o acesso à terra, por  
meio da criação de um fundo de terras que será preenchido por terras  
vagas ou indevidamente apropriadas; (2) a proteção a áreas de reserva;  
(3) o fechamento da fronteira agrícola; (4) a construção de infraestrutu-  
ra, como estradas, acesso à água e (5) o Programa Nacional Integral de  
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Substituição de Cultivos de Uso Ilícito (PNIS), o qual seria baseado na  
substituição dos cultivos ilícitos, a partir de acordos com comunidades, a  
fim de que elas se comprometam a não replantar e a substituir por produ-  
tos lícitos (Government of Colombia; FARC-EP, 2016).  
Contudo, ao se monitorar a prática da aplicação do acordo de paz,  
é possível perceber que o vácuo deixado pela saída da FARC levou a dis-  
putas e pressões para a utilização intensiva e desregrada da terra. Em  
razão da ineficiência do controle estatal, diversos investidores externos  
começaram a especular sobre a comercialização das terras agrícolas, o  
que culminou na expansão das fronteiras agrícolas. Apesar de campone-  
ses e pequenos agricultores terem se beneficiado dos programas adotados  
pelo governo, o que ocorreu, em sua maioria, foi a expansão da pecuária  
em larga escala e de mercados ilegais especulativos de terra. Além disso,  
também houve a disseminação do cultivo de coca, pois, mesmo com o  
Programa Nacional Integral de Substituição de Cultivos (PNIS), grupos  
armados, dissidentes das FARCs e traficante de drogas perpetuaram e  
ampliaram o cultivo de coca em algumas regiões da Colômbia (Murillo-  
Sandoval et al., 2020).  
Desse modo, diversos impactos negativos podem ser percebidos no  
caso colombiano de construção de paz, haja vista que as tensões agrárias  
existentes no país se exacerbaram, resultando, além dos efeitos já men-  
cionados, no aumento das pressões nas regiões de floresta. Por efeito, isso  
provoca também o acirramento dos conflitos entre campesinos e dissi-  
dentes da FARC, por exemplo, na região de Montes de María (Lederach,  
2023).  
Outra inovação importante é a incorporação de tecnologias emergen-  
4
tes como inteligência artificial, sistemas de informação geográfica (GIS)  
5
e blockchain . Essas ferramentas têm potencial para fortalecer sistemas  
de alerta precoce, apoiar decisões em tempo real, monitorar dinâmicas  
de conflito e fomentar ações comunitárias. No entanto, seu uso também  
impõe desafios significativos, como riscos à privacidade, problemas com  
a qualidade e integridade dos dados e a possibilidade de amplificação de  
tensões políticas e sociais (Ide et al., 2021).  
Um exemplo dessa abordagem é o estudo de Sowers e Weinthal  
(2021 apud Ide et al. 2021). Este trabalho analisa os ataques à infraestrutu-  
ra civil no Iêmen entre 2011 e 2019 e quais os impactos que eles trouxeram  
para a segurança humana e as dificuldades enfrentadas para a construção  
de paz na região, em termos logísticos e éticos. A guerra no Iêmen, de  
acordo com o autor, é caracterizada pelo ataque às infraestruturas essen-  
ciais do país, levando a inúmeras mortes civis – que inclusive ultrapassam  
às dos combatentes – e à degradação dos sistemas de água, energia, saúde  
4. Sistemas de Informação Geográfica são ferramentas computacionais que capturam, armazenam, analisam,  
gerenciam e visualizam dados, permitindo realizar consultas, sobreposição de dados e geração de dados. Uma das  
aplicações desse sistema é o monitoramento de desastres naturais e de mudanças ambientais. Esse rastreio pode  
contribuir para detectar padrões, prever cenários e formular políticas baseado nesses achados (Jonker, 2023).  
5. Blockchain é uma tecnologia de registro digital descentralizado que permite registrar e rastrear transações com  
segurança e transparência. Cada transação é armazenada em blocos conectados em cadeia e protegidos contra  
alterações, promovendo confiança entre os envolvidos. Uma aplicação dessa tecnologia são os registros de dados  
de suprimentos, terras ou doações internacionais em contexto de conflito ou de construção de paz (IBM, 2025).  
86  
Aureo Toledo, Ana Flávia Vilela Silva Environmental Peacebuilding: definições, tendências e contradições de um emergente campo de estudos  
e agricultura, culminando em violência por impactos diretos (ataques ar-  
mados) e indiretos (desnutrição, fome e surto de doenças). Além disso, es-  
ses ataques, para além da segurança humana, também impactam o meio  
ambiente (Sowers; Weinthal, 2021).  
Neste artigo, os autores expõem algumas tecnologias que foram  
utilizadas nos esforços de paz. Um dos exemplos são as coordenadas de  
GPS, que foram utilizadas pelo Programa Alimentar Mundial para o ras-  
treamento eletrônicos de alimentos e o mapeamento das distribuições  
geográficas de incidentes registrados nos bancos de dados. Contudo, há  
uma ampla dificuldade na coleta de informações confiáveis. Exemplo  
disso é o fato de que os projetos que produzem bancos de dados, como  
o Civilian Impact Monitoring Project, não coletam informações específicas  
sobre a identidade dos perpetradores dos crimes. Além disso, a utiliza-  
ção de tecnologia na construção de paz também enfrenta resistências,  
pois há o temor de vazamento de informações, que poderiam prejudicar  
os civis no conflito, revelando onde os grupos estariam localizados e os  
transformando em alvos para os grupos beligerantes. Assim, apesar de  
haver diversos benefícios na utilização dessas tecnologias na construção  
de paz, sua utilização ainda é restrita, em razão dessas limitações expos-  
tas (Sowers; Weinthal, 2021).  
Além dessas perspectivas, ganha-se destaque a incorporação das  
cosmovisões e práticas indígenas ao debate sobre environmental peacebuil-  
ding, especialmente no contexto latino-americano. No caso das comu-  
nidades indígenas do Cauca, na Colômbia, práticas como as da Guarda  
Indígena ilustram formas autônomas de proteção territorial que resistem  
tanto à violência armada quanto aos modelos hegemônicos de constru-  
ção da paz. A noção de “mala muerte”, utilizada para descrever mortes  
violentas associadas ao conflito armado, expressa uma cosmologia que  
relaciona a violência a desequilíbrios na harmonia entre seres humanos,  
natureza e ancestralidade. Essas perspectivas ampliam os horizontes do  
environmental peacebuilding ao situar o cuidado com o meio ambiente  
dentro de uma rede de significados que transcende as categorias ociden-  
tais de segurança e conservação (Ruette-Orihuela et al., 2023).  
Nas contribuições indígenas, também é de suma importância a re-  
lação entre autonomia territorial e conflito. A defesa do território pelas  
comunidades indígenas frequentemente entra em confronto com os inte-  
resses de forças de segurança, grupos armados ilegais, narcotráfico, em-  
preendimentos de mineração e monoculturas. Na cosmologia indígena, a  
terra é entendida não apenas como um recurso, mas como espaço vital de  
existência, o que transforma sua proteção em um ato de resistência frente  
ao mundo externo, o que pode gerar retaliações e novas formas de vio-  
lência dentro da sociedade (Ruette-Orihuela et al., 2023). Assim, as abor-  
dagens indígenas ao environmental peacebuilding estão profundamente  
ligadas à luta por autodeterminação e pelo controle de seus próprios re-  
cursos. Seus saberes e práticas não apenas enriquecem os debates sobre  
paz ambiental, mas também desafiam as estruturas políticas, ontológicas  
e epistemológicas que historicamente marginalizaram essas populações.  
Além disso, destacam-se as contribuições da virada local e das aborda-  
gens de baixo para cima (bottom-up approaches), que enfatizam a participação  
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 2, (jun. 2025), p. 77-96  
das comunidades locais nos processos de construção da paz (Ide et al.,  
2021). Nesse contexto, a crítica à paz liberal não se opõe às suas aspirações,  
mas à sua tendência de manter o status quo por meio de práticas interven-  
cionistas, resultando em uma paz frágil e superficial, marcada por confli-  
tos latentes. Como alternativa, surge a abordagem pós-liberal ou de paz  
híbrida, inspirada em perspectivas pós-coloniais, que reconhece as formas  
pelas quais as populações locais negociam, resistem ou subvertem o mo-  
delo liberal nas dinâmicas de conflito (Mac Ginty, 2011; Richmond, 2011).  
Contudo, os projetos de environmental peacebuilding têm enfren-  
tado dificuldades em integrar, de forma efetiva, as abordagens de bai-  
xo para cima, as quais facilitariam a construção da paz entre diferentes  
grupos sociais que atuam em múltiplas escalas e sob distintas formas  
de legitimidade sociopolítica (Johnson; Rodríguez; Hoyos, 2021). Nesse  
sentido, algumas experiências podem ser destacadas, como o trabalho  
da Burt e Keiru (2011), o qual analisa o fortalecimento da construção de  
paz mediante manejo de água, na República Democrática do Congo, no  
Afeganistão e na Libéria. Esse trabalho aponta como a gestão de recursos  
hídricos foi um pilar na construção de paz, mediante perspectiva na qual  
as comunidades foram protagonistas nas iniciativas de paz. Destaca-se  
também o papel de instituições, como a ONG Tearfund, a qual ofereceu  
serviços básicos de água, saúde e saneamento, além de promover treina-  
mentos sobre gerenciamento de recursos para as comunidades dos casos  
supracitados, a fim de auxiliar no desenvolvimento das capacidades locais  
e na integração destas. Dessa forma, esses organismos internacionais con-  
seguem empoderar a população local e permitir que elas sejam protago-  
nistas das iniciativas de paz (Burt; Keiru, 2011).  
Outros três casos são fundamentais para entender a dimensão do  
local dentro do environmental peacebuilding e suas consequentes limi-  
tações. Em primeiro lugar, destaca-se o artigo de Ide, Palmer e Barnett  
(2021), sobre o modelo local de environmental peacebuilding no Timor-  
Leste. Nele se analisa a incorporação do tara bandu na gestão ambiental.  
O tara bandu é uma prática ritualística que tem por propósito proteger  
plantações, fontes de água e o meio ambiente como um todo, por meio da  
mediação de disputas de terras e demarcação de limites territoriais. Dessa  
forma, previne-se que haja violência dentro da comunidade. De acordo  
com os autores, essa prática é bem-sucedida naquilo que se propõe, sendo  
uma ferramenta eficaz na construção de uma paz sustentável, uma vez  
que, por ser realizada por lideranças locais, favorece o apaziguamento de  
relações sociais que podem vir a ser ou são conflitantes.  
Nos últimos anos tem havido uma incorporação do tara bandu tan-  
to em práticas estatais quanto em outros contextos de construção de paz  
internacional. Os autores chamam a atenção para este processo, pois ao  
adotar essa prática irrefletidamente, isso pode gerar um engajamento su-  
perficial. Além disso, o fato de que essa prática é intrínseca a uma cos-  
movisão local, faz com que ao padronizá-la, a população local perca seu  
controle, fracassando em seu objetivo primordial, qual seja, a integração  
das comunidades locais. Logo, apesar prática do tara bandu ser um caso  
de sucesso de iniciativa bottom-up de construção de paz no Sul Global –  
contrariando a visão ocidental de que os países do sul são incapazes de  
88  
Aureo Toledo, Ana Flávia Vilela Silva Environmental Peacebuilding: definições, tendências e contradições de um emergente campo de estudos  
resolver seus problemas sem auxílio do ocidente –, sua transmutação para  
contextos externos pode causar fricções e levar à perda do protagonismo  
das abordagens bottom-up (Ide; Palmer; Barnett, 2021).  
Em segundo lugar, Johnson (2021) analisa a construção de paz em  
Serra Leoa, caso fundamental para se pensar as limitações das aborda-  
gens de baixo para cima. Após o fim dos conflitos, a governança ambien-  
tal tornou-se um pilar da agenda de construção de paz em Serra Leoa,  
sendo fundamental resolver a questão das disputas por tantalita (“a pe-  
6
dra negra”) e pelo direito e posse de terras no distrito de Bombali entre  
proprietários (representada pela MIACCO, cooperativa de proprietários)  
e AMR- Gold Exploration, uma empresa multinacional.  
Nesse cenário, tornou-se necessário a realização do que o autor  
conceituou como hibridismo institucional, em síntese, a integração polí-  
tica de diversos atores e grupos que pudessem contribuir para as reformas  
institucionais no pós-conflito. Embora haja críticas sobre a iliberalidade  
das iniciativas adotadas no contexto de Bombali, essa solução foi capaz  
de cumprir com o objetivo da agenda de construção de paz: construir  
uma governança ambiental mais participativa. Assim, o artigo mostra  
as limitações quanto à institucionalidade e à possibilidade de alimentar  
conflitos no curto prazo, porém, ela é vista como essencial para garantir  
a paz duradoura, mediante capacitação de atores locais que contribuirão  
para o redesenho institucional da região (Johnson, 2021).  
Por fim, Huda (2021) investiga a construção de paz local como res-  
posta ao populismo etnonacionalista. A região do Sul da Ásia é uma das  
regiões menos pacíficas do mundo e recentemente aumentou-se as ten-  
sões nesta região. Na Índia, por exemplo, o governo do Partido Bharatiya  
Janata (BJP) tem promovido políticas de exclusão, atacando muçulma-  
nos e vinculando a cidadania à identidade religiosa (Lei de Emenda da  
Cidadania). Isso levou a linchamentos, normalização do discurso de ódio  
e motins religiosos. No Paquistão, extremistas religiosos buscam uma  
identidade muçulmana sunita homogênea, com discriminação contra mi-  
norias religiosas e leis regressivas como a Lei da Blasfêmia (Huda, 2021).  
De acordo com o autor, para abordar o populismo etnonacionalista  
é necessária uma abordagem local de cooperação ambiental, pois essas  
abordagens conseguem mobilizar a juventude, abordar raízes culturais  
e religiosas do conflito, construir afinidades, criar formas regionais de  
identidade e de consistências locais, as quais sejam capazes de apoiar so-  
luções ecológicas para conflitos instáveis, como o da Índia e Paquistão.  
O trabalho, para tanto, apresenta dois estudos de caso: o da Floresta  
Sundarbans (entre a Índia e Bangladesh) e o do Deserto de Thar (entre a  
Índia e o Paquistão).  
No primeiro caso, há o treinamento de professores para problema-  
tizar os discursos históricos de ódio e disseminar teorias de justiça am-  
biental e interdependência ecológica. No segundo caso, há a troca entre  
6. Mineral valorizado bastante utilizado na indústria eletrônica. Ele pode se associar com a columbita, onde  
são nomeados de columbita-tantalina (de modo abreviado COltan), possuindo características químicas que  
suportam o calor sendo fundamentais para a utilização em computadores e automóveis. A mineração do coltan  
gera diversos conflitos, o Congo é um caso característico.  
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alunos universitários, vinculando atividades educacionais e iniciativas  
ambientais, a partir do desenvolvimento de projetos de água e energia  
no Thar, por meio de parceria com a South Asian University (SAU). Diante  
disso, o resultado demonstra como a solução para a paz, nos casos de  
conflitos instáveis e históricos, não é possível em um curto período e com  
soluções normativas ocidentais, como é comumente proposto pelas alter-  
nativas top-down. As opções viáveis, nestes casos, apresentadas pelo autor,  
devem considerar vias de construção de paz locais, que se esforcem nas  
áreas de educação e do meio ambiente (Huda, 2021).  
Quando essas abordagens locais falham — seja por dinâmicas in-  
ternas, interferência externa ou fatores políticos — os riscos incluem a  
intensificação da exploração de recursos e o agravamento de conflitos  
comunitários. Diante da prevalência de formas contemporâneas de vio-  
lência política de natureza não estatal, cresce o interesse por práticas lo-  
cais de environmental peacebuilding, especialmente em temas relacionados  
à segurança humana e aos meios de subsistência (Ide et al., 2021). Dessa  
forma, integrar a comunidade local nos projetos é fundamental: não bas-  
ta elaborar intervenções unilaterais, é necessário estabelecer diálogo com  
a população afetada, para que a preservação ambiental promova, de fato,  
condições sustentáveis de paz.  
Ao levar em consideração as comunidades locais, também deve-  
-se ter um cuidado especial com a intersecção de gênero. Atualmente, den-  
tro do campo de environmental peacebuilding, o gênero carece de uma  
maior integração, sendo ainda pouco debatido. Apesar dos avanços desde  
a Resolução 1325 do Conselho de Segurança da ONU sobre Mulheres,  
Paz e Segurança, o tema permanece em posição marginal dentro do cam-  
po (Ide et al., 2021). Ainda assim, há alguns estudos que, mediante teorias  
feministas, propõe uma abordagem crítica sobre perspectivas de gênero  
nos processos de construção da paz.  
De acordo com Yoshida e Céspedes-Báez (2021), a agenda de  
Mulheres, Paz e Segurança (MPS) e o campo de environmental peacebuil-  
ding evoluíram separadamente, com poucos esforços voltados à análise  
abrangente das interconexões entre identidades de gênero e dinâmicas de  
poder. Contudo, as autoras argumentam que as contribuições feministas  
são cruciais para aproximar esses dois campos, uma vez que oferecem  
lentes analíticas mais completas para compreender as complexas formas  
pelas quais o meio ambiente se entrelaça com conflitos, questões de gêne-  
ro e ecologias vividas pelas populações afetadas (Metcalfe; Thayer, 2024;  
Yoshida; Céspedes-Báez, 2021).  
Embora as mulheres ocupem posições fundamentais como deten-  
toras de saberes tradicionais, lideranças comunitárias e mediadoras de  
conflitos, elas ainda enfrentam vulnerabilidades específicas no que se  
refere ao acesso e ao controle de recursos naturais, especialmente em  
contextos de desigualdade estrutural. Além disso, elas comumente são  
vistas unicamente como vítimas, e não reconhecidas como agentes ativas  
na construção da paz (Ide et al., 2021). Nesse sentido, o foco excessiva-  
mente estreito da agenda MPS na violência sexual relacionada aos con-  
flitos armados contribui para obscurecer uma consideração mais ampla  
sobre outras formas de violência (como a violência ecológica e ambiental,  
90  
Aureo Toledo, Ana Flávia Vilela Silva Environmental Peacebuilding: definições, tendências e contradições de um emergente campo de estudos  
por exemplo), que impactam diretamente os meios de vida das mulheres  
(Yoshida; Céspedes-Báez, 2021) e diminuem seus papeis em esforços de  
construção da paz.  
Por conseguinte, autoras feministas têm defendido que análises in-  
formadas por perspectivas de gênero — especialmente quando articula-  
da a uma abordagem interseccional — são essenciais para evidenciar as  
diferentes formas como homens e mulheres experimentam os impactos  
da degradação ambiental, reconhecendo que essas experiências também  
variam entre grupos sociais e localizações geográficas. Tal abordagem  
permite visibilizar o papel das mulheres em práticas sustentáveis, na me-  
diação de conflitos e na reconstrução dos vínculos dentro das comuni-  
dades locais. Com base nisso, propõe-se que a agenda MPS vá além da  
vitimização das mulheres e da mera inclusão das mulheres na gestão dos  
recursos naturais, a fim de considerar as mulheres como protagonistas  
para a construção da paz ambiental (Yoshida; Céspedes-Báez, 2021).  
4 DESAFIOS E CONTRADIÇÕES  
Embora environmental peacebuilding tenha como um de seus su-  
postos trunfos a proposta de transcender conflitos ideológicos, por meio  
da cooperação ambiental frente à ameaça existencial das mudanças cli-  
máticas, essa abordagem ainda carece de revisão e aprimoramento, es-  
pecialmente no que tange aos projetos implementados. Diversas inicia-  
tivas, ao invés de contribuir para a proteção ambiental, acabam gerando  
impactos negativos ao meio ambiente (Sommer; Fassbender, 2024). Entre  
as principais críticas dirigidas ao campo, destacam-se o caráter liberal e o  
viés ocidental que muitos projetos acabam por reproduzir.  
Nesse sentido, a aplicação de lógicas liberais aos projetos de envi-  
ronmental peacebuilding tem por efeito centrar as discussões no valor de  
mercado dos recursos naturais. Desse modo, as prioridades e capacidades  
locais tendem a ser ignoradas, o que compromete o sucesso das iniciati-  
vas (Dresse et al., 2019). Assim, ainda que a gestão de recursos naturais  
possa promover uma paz localizada, tais iniciativas muitas vezes não se  
expandem para níveis mais amplos e, em certos contextos, podem até  
minar a paz. Isso se agrava quando são aplicadas por meio de abordagens  
verticalizadas, nas quais a interação entre os diferentes níveis de gover-  
nança de recursos naturais aprofunda divisões entre Estado e sociedade  
ou desestabiliza a coesão social (Johnson; Rodríguez; Hoyos, 2021)  
Além dessas críticas, muitos autores apontam a necessidade de  
maior rigor metodológico, com a adoção de metodologias mais diversas  
e hipóteses mais bem formuladas (Johnson; Rodríguez; Hoyos, 2021).  
Soma-se a isso a escassez de conceitos teóricos robustos que articulem  
de forma clara a relação entre cooperação ambiental e construção da paz  
(Krampe; Swain, 2021). Um dos pressupostos teóricos da área de envi-  
ronmental peacebuilding é que a cooperação ambiental leva automatica-  
mente à construção da paz mediante efeitos spillover (transbordamento).  
Contudo, Dresse et al. (2019) apontam que eles não ocorrem de forma  
linear, tampouco são politicamente neutros. Ao contrário, podem ser  
moldados por desigualdades preexistentes, contextos locais e relações  
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 2, (jun. 2025), p. 77-96  
assimétricas entre os atores envolvidos, resultando em trajetórias híbri-  
das cujos resultados nem sempre correspondem às expectativas iniciais.  
Dentro desse arcabouço, três pressupostos teóricos principais de  
spillover devem ser questionados. O primeiro diz respeito ao transborda-  
mento entre fronteiras políticas, baseado na noção de que “o meio am-  
biente não conhece fronteiras”, como nos casos de poluição da água ou  
mudanças climáticas. Todavia, essa perspectiva ignora as dinâmicas de  
poder locais e internacionais, bem como os desafios de adaptação ins-  
titucional entre fronteiras sociopolíticas e ecológicas, como o caso do  
Chipre, por exemplo (Dresse et al., 2019). Neste exemplo específico, de  
acordo com Zikos, Sorman e Lau (2015), as fronteiras sociopolíticas do  
modo como elas são conformadas impactam negativamente na gestão  
conjunta de água, uma vez que estratégias unilaterais tendem a ser adota-  
das, ao invés de primar pela cooperação entre os países da região. Assim,  
para construir uma governança sustentável da água, considerando que as  
questões ambientais são uma problemática transsocietal, seria necessário  
estabelecer uma fronteira ecológica. Isso poderia se dar mediante flexibi-  
lização das fronteiras sociopolíticas, visando o aumento da cooperação  
(Zikos; Sorman; Lau, 2015).  
Já o segundo pressuposto é o de transbordamento entre setores,  
sustentado pela interdependência do meio ambiente com áreas como eco-  
nomia, saúde e justiça. Contudo, essa interconexão representa um desfio,  
pois dificulta a atribuição de causalidade direta entre cooperação ambien-  
tal e paz. Por fim, o transbordamento entre escalas envolve a articulação  
entre níveis local, nacional e internacional. No entanto, essa abordagem  
corre o risco de reforçar assimetrias existentes, como demonstrado nos  
casos de Chipre e da cooperação hídrica entre Israel e Palestina (Dresse  
et al., 2019).  
Neste último caso, questiona-se a cooperação em contextos que há  
grande assimetria de poder e percepções distintas sobre direito e neces-  
sidades ambientais, como ocorre no Comitê Conjunto de Água (JWC),  
no caso de israelo-palestino. Os acordos do regime hídrico funcionaram  
como instrumento de contenção para apaziguar as demandas palestinas e  
manter o status quo de Israel na região, que segue dominando a bacia da  
Cisjordânia. Além disso, o acordo facilita as ambições territoriais e expan-  
sionistas de Israel na Cisjordânia e garante a Israel poder de veto sobre as  
questões aquíferas. A cooperação, neste caso, de acordo com o autor, é  
uma fachada para a perpetuação da dominação israelense, reforçando as  
assimetrias de poder o que torna uma cooperação ambiental plena dificil-  
mente executável (Selby, 2013).  
Outro ponto de fragilidade do campo é a escassa análise empírica  
e teórica sobre as interações entre os processos sociais, políticos e eco-  
lógicos envolvidos nos projetos de environmental peacebuilding. Temas  
como a resistência da população civil às intervenções, a instrumentali-  
zação política da retórica ambiental e os impactos ambientais concretos  
muitas vezes são negligenciados. Além disso, a dimensão do poder costu-  
ma ser subestimada: as desigualdades históricas, os interesses conflitantes  
e as relações sociais estabelecidas ao longo dos conflitos frequentemente  
92  
Aureo Toledo, Ana Flávia Vilela Silva Environmental Peacebuilding: definições, tendências e contradições de um emergente campo de estudos  
dificultam a cooperação ambiental e a gestão sustentável dos recursos na-  
turais, revelando formas de resistência por parte de determinados grupos  
sociais (Krampe; Swain, 2021).  
Além disso, Ide (2020) apresenta uma crítica sistemática ao campo  
de environmental peacebuilding, utilizando seis pontos que evidenciam  
seus impactos negativos, referindo-se a eles como os “6Ds”. O primeira  
delEs é a despolitização, que ocorre quando os projetos priorizam soluções  
técnicas e evitam discussões sobre as causas estruturais dos conflitos. O  
segundo é o deslocamento, que diz respeito à remoção de comunidades lo-  
cais de suas terras, muitas vezes sem compensações adequadas. O tercei-  
ro é a deterioração em conflito, que se dá quando os projetos acentuam ten-  
sões sociais, étnicas ou de gênero. O quarto é a deslegitimação do Estado,  
que surge quando o governo perde sua autoridade perante a população,  
por não liderar ou participar efetivamente da implementação das inicia-  
tivas. O quinto é a degradação ambiental, a qual ocorre quando a explora-  
ção de recursos naturais se intensifica, especialmente em zonas de gestão  
compartilhada. Por fim, o sexto ponto é a discriminação, que se refere à  
marginalização de grupos sociais durante os processos de construção da  
paz, seja por razões étnicas, sociais ou de gênero (Ide, 2020).  
A fim de contornar os efeitos negativos identificados nos “6Ds”,  
propõe-se uma estratégia multifacetada. Esta envolve a aplicação de ava-  
liações de impacto ambiental e social, acompanhadas de um rigoroso  
monitoramento externo. Tal fiscalização pode ser exercida por agências  
doadoras e pela imprensa internacional. Adicionalmente, é imperativo o  
desenvolvimento de marcos legais nacionais que coíbam práticas discri-  
minatórias e deslocamentos forçados. A estratégia se completa com a pro-  
moção de consultas públicas inclusivas e a integração das perspectivas de  
gênero e de conflito nas etapas mais precoces de cada projeto (Ide, 2020).  
Outrossim, autores como Davis et al. (2023) destacam a importância  
de incluir uma perspectiva crítica sobre as dinâmicas de poder na formu-  
lação e implementação de projetos de environmental peacebuilding. Para  
esses autores, é fundamental engajar-se no estudo das causas históricas  
da marginalização e da desigualdade no acesso aos recursos naturais, a  
fim de problematizar a origem das injustiças ambientais e transformar os  
conflitos de forma significativa. Segundo eles, é preciso “passar da lógica  
da resolução para a compreensão dos conflitos” (Davis et al., 2023), incor-  
porando uma concepção relacional de poder que permita à construção da  
paz assumir um caráter verdadeiramente transformador e sustentável.  
Por fim, é importante destacar que a literatura sobre environmen-  
tal peacebuilding ainda carece de diversidade. A maioria dos estudos é  
conduzida por autores homens, com pouca representatividade de pes-  
quisadores oriundos do Sul Global. Essa falta de inclusão pode levar a  
interpretações parciais ou distorcidas das dinâmicas socioecológicas, re-  
forçando a necessidade de uma colaboração mais plural entre estudiosos  
de diferentes contextos geográficos, sociais e epistemológicos (Johnson;  
Rodríguez; Hoyos, 2021).  
Em síntese, os desafios enfrentados pela environmental peacebuil-  
ding não se limitam às suas limitações técnicas ou operacionais, mas  
dizem respeito a estruturas mais profundas de poder, desigualdade e  
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 2, (jun. 2025), p. 77-96  
representação. Tornar o campo verdadeiramente transformador exige  
a incorporação de múltiplas vozes, metodologias críticas e uma atenção  
constante aos contextos locais.  
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS  
Este trabalho buscou realizar um apanhado das principais contri-  
buições da literatura sobre o campo de environmental peacebuilding.  
Como já destacado, em meio ao contexto de crise do clima que o mundo  
vivencia hoje, é necessário repensar as formas com que lidamos com a  
economia, a justiça e a segurança. O aumento dos trabalhos sobre envi-  
ronmental peacebuilding representa um ponto de partida relevante para  
repensar os Estudos para a Paz sob uma perspectiva não apenas mais  
sustentável. O diálogo desse campo com outros debates na área, particu-  
larmente as contribuições de perspectivas feministas e do Sul Global tem  
desempenhado um papel importante na ampliação e na diversificação do  
campo.  
Apesar de ainda operar, em grande parte, a partir de pressupostos  
neoliberais e de abordagens dominantes do Norte Global, o campo tem  
oferecido importantes ferramentas para refletir sobre os vínculos entre  
meio ambiente e construção da paz. Ainda há lacunas teóricas e empíricas  
significativas, sobretudo no que diz respeito à inclusão de saberes locais,  
perspectivas indígenas e ao diálogo com conceitos como resistência civil  
e reconciliação. O aprofundamento dessas conexões pode contribuir para  
tornar a environmental peacebuilding mais sensível às dinâmicas territo-  
riais e aos processos históricos que moldam os conflitos socioambientais.  
Nesse sentido, dentro dos estudos de environmental peacebuilding  
é necessário resgatar o entendimento ancestral que discute a relação entre  
o ser humano e o meio ambiente a partir de uma perspectiva enraizada  
em identidade e pertencimento, exemplarmente ilustrada por Wangari  
Maathai quando afirma que:  
Ao buscar a restauração do meu continente, estou, literalmente, restaurando  
a mim mesma […] porque quem somos está profundamente ligado aos rios e  
córregos, às árvores e aos vales […] Estamos lutando pelo futuro de nossos fi-  
lhos, pelos filhos dos homens e mulheres que cresceram conosco, e pelas futuras  
gerações de outras espécies (Maathai, 2009, p. 301).  
Essa percepção, fortemente relacionada a muitas cosmovisões in-  
dígenas, tensiona as concepções dominantes que enxergam o meio am-  
biente apenas como recurso financeiro. Em vez disso, aponta para com-  
preensões que valorizam o vínculo afetivo, espiritual e político com a  
terra. Tais contribuições devem ser adotadas para problematizar o campo  
e permitir que seja uma abordagem que possa garantir a construção de  
uma paz duradoura e inclusiva. Logo, a environmental peacebuilding  
pode ser compreendido como um campo emergente e em constante evo-  
lução, atravessado por diferentes vertentes e potencialmente capaz de  
abrir caminhos originais para a construção de alternativas mais justas e  
inclusivas.  
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Aureo Toledo, Ana Flávia Vilela Silva Environmental Peacebuilding: definições, tendências e contradições de um emergente campo de estudos  
REFERÊNCIAS  
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