Jacqueline A. Haffner, Julia Driemeir Vieira Rosa A internacionalização do renminbi como instrumento geopolítico: estratégias chinesas para reduzir a dependência do dólar
diplomática gerada levou ao armazenamento exagerado do recurso em
mercados como os da Europa e do Japão e escalou rapidamente o preço
mundial do petróleo bruto (Hammes; Wills, 2005; Wight, 2021), o qual
passou de US$20,69 por metro cúbico a US$72,84 entre 1973 e 1974 (Our
World in Data, 2024a). Nesse contexto, a importação internacional do pe-
tróleo se estagnou e a inflação mundial se intensificou (Hughes, 2018).
Conforme descrito por Wight (2021), diante do aumento de preço
do petróleo, o governo dos EUA contava com os seus aliados do Oriente
Médio, principalmente a Arábia Saudita, para aumentar a sua produção do
recurso em um ritmo mais acelerado do que o crescimento da sua deman-
da internacional com o objetivo de conter a inflação. Como consequência,
a participação do dólar nas reservas centrais destes países cresceu mais
rapidamente do que a sua capacidade de gastar a moeda. As suas decisões
financeiras, portanto, passaram a ter grande peso no mercado internacio-
nal. Foi este o contexto que levou o então Secretário de Estado dos Estados
Unidos, Henry Kissinger, e o príncipe saudita Fahd Al Saud a acordarem a
indexação de preço do barril de petróleo à moeda norte-americana, origi-
nando o termo “petrodólar”. Por um lado, os EUA aprofundariam os seus
pactos militares com a Arábia Saudita, oferecendo armamentos e garantias
de proteção militar. Por outro, o reino saudita asseguraria investimentos
e compras que retornariam dólares à economia dos EUA e que estabilizas-
sem o sistema monetário internacional (Wight, 2021).
Este processo é entendido como reciclagem de petrodólares, a partir
da qual países exportadores de petróleo financiam os déficits do balanço
de pagamentos de nações terceiras. Somente a moeda norte-americana
poderia ter assumido este papel neste contexto. Em primeiro lugar, a ca-
pacidade de imprimir moedas que acompanhasse o crescimento do mer-
cado petrolífero não era possível para diversos Estados. Em segundo lugar,
mesmo se um país além dos EUA tivesse esta habilidade, a OPEP teria
que aceitar acumular suas moedas nas suas reservas centrais. Sem a li-
derança estadunidense, a estabilidade do sistema monetário internacional
seria comprometida, pois o potencial de competição monetária injusta era
significativo (Spiro, 1999). Kamel e Wang (2019) resumem esta discussão:
O papel do dólar na precificação do petróleo levou à sua crescente utili-
zação na compra e venda do petróleo, uma vez que isto ajudou tanto os
compradores quanto os vendedores a minimizar os seus riscos cambiais.
À medida que a demanda pelo petróleo crescia na economia moderna,
a própria moeda do comércio petrolífero se tornou uma mercadoria
indispensável para países ao redor do mundo. Por um lado, os países
consumidores precisam manter grandes quantidades da moeda dos
Estados Unidos para garantir a sua segurança energética; por outro lado,
os países produtores recebem os pagamentos pelas suas exportações
de energia majoritariamente em dólares, que depois estes utilizam em
troca por importações e para investir em ativos denominados em dólares
(Kamel; Wang, 2019, p. 1141, tradução própria)5.
5. The role of the dollar in pricing oil led to its increasing use in buying and selling oil, as this helped both
buyers and sellers to minimize exchange rate risks. As the need for oil grew in the modern economy, so the
currency of the oil trade itself became an indispensable commodity for countries around the world. On the one
hand, consumer countries need to keep large amounts of US currency to ensure their energy security; on the
other hand, producer countries receive payment for their energy exports mostly in dollars, which they then use
in exchange for imports and for investing in dollar-denominated assets (Kamel; Wang, 2019, p. 1141).
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