estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 2, (jun. 2025), p. 126-148  
A internacionalização do renminbi como  
instrumento geopolítico: estratégias chinesas  
para reduzir a dependência do dólar  
La internacionalización del renminbi como instrumento  
geopolítico: estrategias chinas para reducir la  
dependencia del dólar  
The internationalization of the renminbi as a geopolitical  
instrument: China’s strategies to reduce dependence on  
the dollar  
1
Jacqueline A. Haffner  
2
Julia Driemeir Vieira Rosa  
DOI: 10.5752/P.2317-773X.2025v13.n2.p126  
Enviado em: 23 de julho de 2025  
Aceito em: 24 de novembro de 2025  
RESUMO  
A conjuntura econômica internacional atual apresenta similaridades com a crise  
do sistema de Bretton Woods, suscitando questionamentos sobre a hegemonia  
do dólar. A crescente desconfiança nas políticas dos EUA tem impulsionado paí-  
ses do Sul Global a buscar alternativas fora do sistema financeiro ocidental, am-  
pliando o protagonismo da China. Nesse cenário, o mercado petrolífero emerge  
como vetor estratégico para a internacionalização do renminbi, por meio do  
fortalecimento do benchmark de Xangai, da expansão de contratos futuros e  
de reformas liberalizantes. Contudo, desafios como a baixa conversibilidade da  
moeda e os controles estatais limitam sua projeção global. O artigo analisa se  
os avanços recentes da China no mercado de petróleo podem rivalizar com a  
supremacia do dólar. Com base em revisão bibliográfica e análise de dados se-  
cundários, utiliza o conceito de poder estrutural de Susan Strange para discutir a  
competição monetária entre EUA e China, destacando os limites e possibilidades  
da internacionalização do renminbi. Conclui-se que apesar da conjuntura atual  
desafiar o domínio do dólar, sua superioridade permanece. A China, por sua  
vez, avança gradualmente, mas ainda carece de estrutura suficiente para rivali-  
zar diretamente com o poder monetário dos EUA.  
Palavras-chave: poder estrutural; hegemonia monetária internacional; dólar;  
renminbi petróleo.  
Email: jacqueline.haffner@ufrgs.br.  
3938-9084. Email: jrosa3103@gmail.com  
126  
Jacqueline A. Haffner, Julia Driemeir Vieira Rosa A internacionalização do renminbi como instrumento geopolítico: estratégias chinesas para reduzir a dependência do dólar  
RESUMEN  
La actual coyuntura económica internacional muestra similitudes con la crisis  
del sistema de Bretton Woods, lo que suscita cuestionamientos sobre la hege-  
monía del dólar. La creciente desconfianza en las políticas de Estados Unidos  
ha impulsado a países del Sur Global a buscar alternativas fuera del sistema  
financiero occidental, reforzando el protagonismo de China. En este contexto,  
el mercado petrolero emerge como un vector estratégico para la internaciona-  
lización del renminbi, mediante el fortalecimiento del benchmark de Shanghái,  
la expansión de contratos de futuros y reformas liberalizadoras. No obstante,  
desafíos como la baja convertibilidad de la moneda y los controles estatales  
limitan su proyección global. El artículo analiza si los avances recientes de China  
en el mercado petrolero pueden rivalizar con la supremacía del dólar. Basado  
en revisión bibliográfica y análisis de datos secundarios, emplea el concepto de  
poder estructural de Susan Strange para discutir la competencia monetaria entre  
Estados Unidos y China, destacando los límites y posibilidades de internacionali-  
zación del renminbi. Se concluye que, a pesar de que la coyuntura actual desafía  
el dominio del dólar, su superioridad se mantiene. Por su parte, China avanza  
gradualmente, pero aún carece de la estructura suficiente para rivalizar directa-  
mente con el poder monetario de Estados Unidos.  
Palabras clave: poder estructural; hegemonía financiera internacional; dólar;  
renminbi; petróleo.  
ABSTRACT  
The current international economic situation presents similarities with the  
Bretton Woods system crisis, raising questions about the dominance of the  
dollar. Growing mistrust of U.S. policies has driven Global South countries  
to seek alternatives outside the Western financial system, increasing China’s  
influence. In this context, the oil market emerges as a strategic channel for the  
internationalization of the renminbi, through the strengthening of the Shanghai  
benchmark, the expansion of futures contracts, and liberalizing reforms. Howe-  
ver, challenges such as the currency’s low convertibility and state controls limit  
its global reach. The article analyzes whether China’s recent advances in the oil  
market can rival the supremacy of the dollar. Based on a literature review and  
secondary data analysis, it applies Susan Strange’s concept of structural power  
to discuss the monetary competition between the U.S. and China, highlighting  
the limits and possibilities of renminbi internationalization. It is concluded  
that, despite the current situation challenging the dominance of the dollar, its  
superiority remains. China, in turn, is making gradual progress but still lacks the  
necessary structure to directly rival the U.S.’s monetary power.  
Keywords: structural power; international financial hegemony; dollar; renmin-  
bi; oil.  
1 INTRODUÇÃO  
O desejo chinês de internacionalização monetária tem-se intensi-  
ficado desde a Crise Financeira de 2008 (Helleiner; Wang, 2019). Por um  
lado, esta busca é motivada por ambições geopolíticas, a partir das quais  
a China visa ampliar a sua influência internacional por meio da agenda  
monetária (Cohen, 2017; Helleiner; Wang, 2019). Por outro, a diversifica-  
ção do sistema monetário é vista como um passo necessário para garan-  
tir a sua estabilidade e reduzir a vulnerabilidade da China à hegemonia  
do dólar americano (Freymann; Heng, 2025, Helleiner; Wang, 2019). A  
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internacionalização do renminbi tem ocorrido paulatinamente: em 2015,  
quando a moeda passou a fazer parte dos Direitos de Saque Especiais  
do Fundo Monetário Internacional (FMI), a sua participação em reservas  
cambiais mundiais se encontrava em 1,08%. Em 2023, esta aumentou so-  
mente para 2,4% (International Monetary Fund, 2024). Apesar deste cres-  
cimento lento, a internacionalização do renminbi é esperada a ocorrer às  
custas do dólar americano (Cohen, 2017; Helleiner, 2009).  
Em este sentido, a China tem buscado internacionalizar a sua moe-  
da por meio de algumas iniciativas principais. Entre estas, apontam-se:  
a) o estabelecimento do Cross-Border Trade Settlement (Freymann; Heng,  
2025; Song; Xia, 2020); b) a criação de um sistema de pagamentos interna-  
cionais próprio, atuando como uma alternativa ao SWIFT e a potencial  
aplicação de sanções ocidentais por meio deste, como ocorre com o Irã e  
a Rússia (Freymann; Heng, 2025); c com a fundação de instituições inter-  
nacionais – o Banco Asiático de Investimentos em Infraestrutura (AIIB) e  
o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) – nas quais a China pode exer-  
cer um grau maior de influência e assegurar a liberação de empréstimos  
e serviços financeiros com base no Yuan (Helleiner; Wang, 2019; Metri,  
2020); d) o desenvolvimento do e-CNY, moeda digital chinesa visando  
a descentralização de transações comerciais (Metri, 2020; Taylor, 2025);  
e) a Nova Rota da Seda (Helleiner; Wang, 2019; Mendonça; Lopes Filho;  
Oliveira, 2021); e f) o lançamento de contratos futuros de petróleo com  
base no renminbi, dando origem ao termo petroyuan (Kamel; Wang, 2019;  
Leverett, F.; Leverett, H., 2014; Mathews; Selden, 2018; Taylor; 2025).  
Para responder ao contexto antes exposto, a pergunta de pesquisa  
associada a este artigo é: Como as iniciativas chinesas de internacionali-  
zação do renminbi refletem uma estratégia geopolítica para reduzir a de-  
pendência do dólar americano e ampliar sua influência no sistema mone-  
tário global? Os objetivos deste artigo são analisar a internacionalização  
do renminbi por meio do mercado petrolífero, comparando este processo  
com o papel histórico do petrodólar na manutenção da hegemonia mone-  
tária estadunidense e apontando as possíveis consequências desta compe-  
tição monetária à posição privilegiada do dólar. Entende-se que o colap-  
so do sistema de Bretton Woods em 1971, significando o fim do padrão  
dólar-ouro, trouxe grande instabilidade para a posição hegemônica do  
dólar. Neste contexto, o acordo entre os Estados Unidos (EUA) e a Arábia  
Saudita para indexar a comercialização do petróleo exclusivamente ao  
dólar contribuiu de forma significativa para a continuidade do seu “pri-  
vilégio exorbitante” (Mathews; Selden, 2018; Momani, 2008; Spiro, 1999).  
Esta pesquisa conta com uma revisão bibliográfica e a análise de  
dados secundários que contextualizam os argumentos do artigo. A abor-  
dagem teórica do trabalho se concentra na relação da pauta monetária  
com o poder estrutural detido pelos EUA e a China. Para tanto, apoia-  
-se nos argumentos de Strange (1987, 1988) e outros autores que discu-  
tem aspectos geopolíticos das relações monetárias, como Cohen (2017,  
2019). Desta forma, este artigo é organizado, além da Introdução e das  
Considerações Finais, em três partes. Em primeiro lugar, aprofunda-se  
o debate teórico da presente discussão. Em segundo lugar, apresenta-se  
a ascensão do petrodólar e o seu papel na manutenção da hegemonia  
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Jacqueline A. Haffner, Julia Driemeir Vieira Rosa A internacionalização do renminbi como instrumento geopolítico: estratégias chinesas para reduzir a dependência do dólar  
monetária norte-americana. Por fim, analisa-se os avanços chineses para  
precificar contratos futuros em petróleo com base no renminbi e assim  
promover a internacionalização da sua moeda por meio do comércio pe-  
trolífero, conceitualizando as suas estratégias dentro do debate teórico de  
poder estrutural e monetário.  
2 A INTERNACIONALIZAÇÃO MONETÁRIA E O PODER ESTRUTURAL  
DO SEU PAÍS EMISSOR  
Quando se discute o poder de um Estado como um conceito pró-  
prio, diferentes abordagens são cabíveis devido à natureza complexa e  
multifacetada do termo. Desta forma, nenhuma definição singular abor-  
da todas as dimensões de análise possíveis. O mesmo se aplica à definição  
do poder monetário, que pode ser compreendido distintamente. O enfo-  
que teórico desta pesquisa se centra na relação entre a internacionaliza-  
ção monetária e o poder estrutural do seu país emissor, entendendo que  
este processo não é somente uma consequência do poder do Estado, mas  
também uma causa, visto que amplia os seus recursos estratégicos de  
poder. Isto ocorre por meios diretos, o que se configura em instrumentos  
políticos, ou indiretos, sobretudo ao reforçar o poder de barganha estatal  
em diferentes áreas de interesse (Cohen, 2019).  
A definição de poder estrutural adotada nesta pesquisa segue o tra-  
balho de Strange (1988). Para a autora, a economia política internacional é  
sustentada por quatro estruturas de poder interdependentes. A primeira,  
a produção, se refere a tudo aquilo que é produzido, por quem e como  
ocorre a sua distribuição. A segunda diz respeito à estrutura de finanças,  
compreendendo a geração e a extensão de crédito, por quais agentes e os  
motivos que guiam a sua repartição. A terceira, segurança, é entendida  
pela capacidade de determinado ator de garanti-la. Por fim, o conheci-  
mento é voltado à compreensão da geração e à partilha do conhecimento  
científico.  
Quando um Estado detém capacidades avançadas nas estruturas  
apresentadas, é possível afirmar que ele exerce poder estrutural. Na práti-  
ca, este é o poder de influenciar a agenda e as regras da economia política  
internacional, dentro das quais outros Estados devem adequar as suas  
instituições políticas e os seus objetivos econômicos (Strange, 1987, 1988).  
Ao discutir a internacionalização monetária, é evidente que a discussão  
se enquadra na estrutura financeira conforme delimitada por Strange  
(1988). Como apontado por Cohen (2019), uma moeda com alcance global  
necessariamente implica na possibilidade de exercer influência no sistema  
monetário internacional, o que desloca a balança de poder a favor do seu  
país emissor.  
O processo de internacionalização monetária pode ser descrito  
como o uso de determinada moeda para além das suas fronteiras. Ao lon-  
go da história, poucas moedas têm alcançado status global (Cohen, 2019).  
Além disso, nem todas as moedas com alcance transfronteiriço conse-  
guem exercer as três funções monetárias básicas de uma moeda inter-  
nacional: meio de troca, reserva de valor e unidade de conta (Helleiner;  
Kirshner, 2014). A competitividade desta moeda, portanto, depende de  
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dois fatores principais: as capacidades materiais e os recursos de poder do  
seu país emissor e a habilidade desta nação em converter estas em ação  
estatal efetiva (Cohen, 2017). É possível apontar que estas capacidades  
se referem às estruturas de poder conforme descrita por Strange (1988),  
sobretudo no que diz respeito ao tamanho econômico de determinado  
Estado, à sofisticação e à abertura da sua economia, à sua liquidez mo-  
netária, à estabilidade das suas instituições domésticas e aos seus ativos  
militares e diplomáticos (Cohen, 2017, 2019).  
Torna-se necessário ressaltar que nem todos os países com capaci-  
dades estruturais significativas irão buscar internacionalizar as suas moe-  
das de forma a exercer todas as funções monetárias. A correlação entre  
o poder e a busca por exercer influência não é automática, mas sim um  
reflexo de atitudes políticas conscientes que visam ampliar a autoridade  
desta nação na economia política internacional. Por isso, apesar de ha-  
ver uma série de moedas que ocupam posição de destaque na hierarquia  
monetária internacional, poucas ocupam o topo simultaneamente. Isto  
significa que, ao longo da história, as relações monetárias têm sido marca-  
das pela presença de uma moeda com destaque global, cujo país emissor  
sempre é uma grande potência (Cohen, 2019).  
A internacionalização monetária acompanha alguns benefícios,  
tanto para o emissor quanto para demais países que adotam a sua moeda.  
Em primeiro lugar, uma moeda internacional facilita o comércio mundial  
e é fundamental para o funcionamento dos mercados financeiros (Cohen,  
2017). Em segundo lugar, este processo garante que um Estado possa fi-  
nanciar os seus déficits comerciais com a sua própria moeda, pois a sua  
adoção por demais nações remove restrições para ajustes de pagamen-  
tos externos (Cohen, 2019; Helleiner, 2017). Em terceiro lugar, o seu país  
emissor usufrui de custos de transações reduzidos e taxas de juros mais  
baixas (Cohen, 2017). Em quarto lugar, a internacionalização monetária  
é frequentemente associada à maior autonomia por parte do seu emissor  
na definição da sua política macroeconômica (Helleiner, 2017). Por fim,  
como já explorado, uma moeda internacional traz grandes vantagens po-  
líticas ao seu emissor, permitindo que este exerça influência sobre a agen-  
da monetária global e consolide o seu poder mundial (Cohen, 2017, 2019;  
Helleiner; Kirshner, 2014).  
Desde a Segunda Guerra Mundial, a moeda que tem ocupado o  
topo da hierarquia monetária é o dólar norte-americano. Como resultado  
da Conferência de Bretton Woods, a instauração do padrão dólar-ouro  
no período pós-guerra obteve resultados positivos durante as décadas de  
1950 e 1960 e foi bem-sucedida na retomada do comércio e da produtivi-  
dade internacional. Uma consequência natural deste regime cambial foi  
o aumento da circulação internacional da moeda estadunidense devido  
à sua participação crescente em reservas centrais, à intensificação dos in-  
vestimentos externos diretos (IED) dos EUA e às suas despesas militares  
(Truman, 2017). Em 1940, a circulação internacional do dólar era de cerca  
de US$ 8,4 bilhões. Este número subiu para cerca de US$ 54 bilhões no  
final de 1970 (Federal Reserve Economic Data, 2024a).  
A superioridade monetária dos EUA está diretamente ligada ao seu  
poder estrutural, consolidado em todas as facetas descritas por Strange  
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Jacqueline A. Haffner, Julia Driemeir Vieira Rosa A internacionalização do renminbi como instrumento geopolítico: estratégias chinesas para reduzir a dependência do dólar  
(1988) no período pós-guerra. Como consequência, o país norte-ameri-  
cano apresenta uma série de vantagens que permite a emissão de uma  
moeda internacional, incluindo o tamanho da sua economia e o seu grau  
de institucionalização, os seus mercados de capitais, a sua taxa de cresci-  
mento econômico histórica, a confiança na sua governança doméstica,  
e na sua relativa estabilidade política e segurança nacional (Helleiner;  
Kirshner, 2014). Sendo assim, a posição hegemônica dos EUA permite que  
o país combine força econômica e política para moldar a agenda interna-  
cional a seu favor. Enquanto a primeira trata do domínio norte-america-  
no de uma base material ampla, a segunda se refere às suas instituições  
domésticas estáveis. Esta combinação, como consequência, permite que  
o país exporte políticas monetárias constantes e de confiança para inves-  
tidores internacionais (Norloff, 2014).  
Além disso, o vasto poderio militar norte-americano contribui para  
a manutenção da vantagem monetária dos Estados Unidos. A presença de  
forças armadas estadunidenses ao redor do mundo assegura a sua segu-  
rança nacional e, consequentemente, a estabilidade das suas instituições  
domésticas. Somado a isto, as suas altas despesas militares contribuem  
para o aumento da circulação internacional do dólar (Baer et al., 2016;  
Norrlof, 2014). O poder militar dos EUA também assegura o seu acesso a  
fontes de recursos estratégicos que mantêm a sua hegemonia monetária,  
como o petróleo (Gokay, 2020; Wight, 2021), que será explorado com mais  
detalhes na próxima seção.  
O papel internacional do dólar garante, desta forma, alguns benefí-  
cios fundamentais aos EUA e a sua capacidade de projeção de poder, como  
mencionado anteriormente (Cohen, 2017, 2019; Helleiner; Kirshner, 2014;  
Helleiner, 2017). Adiciona-se que estas vantagens favorecem também o  
setor privado e bancário dos EUA, garantindo o seu acesso privilegiado  
aos recursos da Reserva Federal (Helleiner; Kirshner, 2014). Combinados  
à força militar dos EUA, esses benefícios permitem que o governo esta-  
dunidense exerça o seu poder monetário de forma coercitiva, explorando  
a dependência de demais países do dólar como um instrumento de po-  
lítica externa e como um meio de assegurar complacência com as suas  
preferências regulatórias. Esta posição privilegiada também representa  
um aspecto central da influência simbólica dos EUA, descrita como soft  
power por alguns autores (Nye Jr., 2010, 2019), que a longo prazo asse-  
gura a identificação de outras nações com os seus interesses (Helleiner;  
Kirshner, 2014).  
A internacionalização monetária não é um fenômeno inteiramente  
positivo e sem riscos. Para Helleiner (2017), os benefícios são exagera-  
dos e podem agir como um fardo ao país emissor. A suposta vantagem  
de maior autonomia política não revela um quadro completo. Governos  
titulares de dólares podem tentar influenciar o processo de tomada de de-  
cisão interno dos EUA, vendendo as suas reservas da moeda. Isto também  
torna a nação mais vulnerável ao dumping de dólares caso uma moeda al-  
ternativa passe a rivalizar com a sua posição (Kirshner, 2009). Ainda nesta  
linha, muitos culparam a superioridade do dólar pela Crise Financeira de  
2008, entendendo que fluxos de capital estrangeiros de baixo valor ha-  
viam contribuído para a redução nas taxas de juros e a excessiva liquidez  
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financeira que levou ao período de instabilidade. A alta demanda pela  
moeda e a garantia de que as dívidas públicas dos EUA fossem sempre  
liquidadas também criaram as condições para os EUA gastarem de forma  
imprudente, aumentando ainda mais o seu déficit. Em paralelo, a natu-  
reza altamente financeira da economia norte-americana prejudica o seu  
setor produtivo e expõe trabalhadores e grupos de baixa renda a choques  
externos (Helleiner, 2017).  
A decisão pela manutenção da posição do dólar no topo da hierar-  
quia monetária, portanto, é o resultado de um cálculo de custo e bene-  
fício. Por este motivo, a atitude dos EUA em relação à presença de moe-  
das rivais no mercado internacional tem sido passiva (Cohen, 2017, 2019;  
Helleiner, 2017). Embora os EUA tenham usufruído de uma posição su-  
perior na hierarquia monetária internacional desde a década de 1940, isto  
não significa que a moeda norte-americana não tenha enfrentado compe-  
tição ou que o seu status não tenha passado por períodos de instabilida-  
de, como será explorado na próxima seção. Nas décadas de 1970 e 1980,  
as moedas que pareciam ter capacidade de rivalizar com o dólar eram  
o marco alemão e o iene japonês. Depois, o euro passou a apresentar a  
mesma ameaça (Cohen, 2019). No entanto, como apontam Helleiner e  
Kirshner (2014), as previsões de que estas moedas ultrapassariam o status  
do dólar não estavam ligadas somente às capacidades estruturais dos seus  
países emissores, mas também coincidiam majoritariamente com perío-  
dos em que a moeda norte-americana se encontrava depreciada. No en-  
tanto, os autores ressaltam que a estabilidade da taxa de câmbio do dólar  
e o seu papel internacional não são sinônimos.  
Existem alguns motivos pelos quais estas moedas não competiram  
diretamente com o papel do dólar. Por um lado, isto pode ser atribuído a  
uma falta de ambição geopolítica em contrariar a hegemonia monetária  
dos EUA ou de assumir os riscos e as responsabilidades que acompanham  
a internacionalização monetária. Por outro lado, estes países são aliados  
dos EUA, havendo pouco interesse em desafiar o poder norte-america-  
no. Como afirmado anteriormente, o poder que um país emissor de uma  
moeda competitiva detém e a sua vontade de internacionalizá-la não são  
diretos. Ainda, mesmo ocupando uma posição no topo da hierarquia mo-  
netária, nem todas as moedas com alcance transfronteiriço usufruem do  
“privilégio exorbitante” da mesma forma. A internacionalização não é  
sempre bem-vinda, tampouco a exploração do poder monetário em prol  
dos seus interesses de Estado. Ao longo da história, a regra – e não a exce-  
ção – tem sido políticas monetárias ambivalentes ou ativamente contrá-  
rias a este processo (Cohen, 2019; Helleiner; Kirshner, 2014).  
Pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, o dólar enfren-  
ta um quadro de competição monetária aberta, advinda de uma nação  
que não é uma aliada, mas também não é uma rival (Cohen, 2019). A  
China tem buscado a internacionalização do renminbi como um objetivo  
estratégico de Estado, buscando o seu próprio “privilégio exorbitante”.  
Este processo não é um reflexo automático do crescimento econômico  
da China e da ampliação da sua condição econômica. Trata-se de uma  
vontade crescente de exercer poder estrutural sobre o sistema monetá-  
rio internacional, interligada com um desejo de prestígio nacional que  
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Jacqueline A. Haffner, Julia Driemeir Vieira Rosa A internacionalização do renminbi como instrumento geopolítico: estratégias chinesas para reduzir a dependência do dólar  
acompanha a ascensão da sua moeda na hierarquia monetária (Helleiner;  
Wang, 2019). Cohen (2019) descreve a ameaça da China como um desafio  
sem precedentes à posição internacional do dólar, abrindo espaço para  
uma rivalidade monetária declarada entre as duas nações, visto que:  
Como todo poder é relativo, a ascensão de uma moeda internacional implica ne-  
cessariamente alguma perda de capacidade em outros lugares; e como a aversão  
à perda é uma reação natural tanto para os Estados quanto para os indivíduos,  
não parece irrazoável supor que algumas medidas defensivas possam ser tomadas  
em resposta (Cohen, 2019, p. 149, tradução própria3).  
Para alguns analistas, é apenas uma questão de tempo até o ren-  
minbi passar a refletir efetivamente o peso da China no comércio e na  
economia mundial (Arslanalp; Eichengreen; Simpson-Bell, 2022). A polí-  
tica econômica voltada para o interesse nacional tem raízes históricas na  
ascensão econômica da China. Na década de 1980, após as reformas de  
mercados de Deng Xiaoping, a internacionalização monetária passou a  
ser discutida em círculos acadêmicos chineses. No entanto, foi somente  
a partir de 2008 que o país asiático passou a investir mais seriamente na  
internacionalização da sua moeda (Cohen, 2017; Helleiner; Wang, 2019).  
A dimensão mais visível deste processo é o papel crescente da China em  
providenciar Investimento Direto Estrangeiro (IED) e financiamento a  
países em desenvolvimento em déficit econômico para ajustes de paga-  
mentos, o que em torno tem ampliado a sua influência sobre estas nações  
(Helleiner; Kirshner, 2014; Norrlof, 2023). O FMI passou a considerar a  
moeda chinesa como parte dos Direitos de Saque Especiais somente em  
2015. Desde então, a sua participação em reservas cambiais tem aumen-  
tado de 1,08% para em torno de 2,4% em 2023 (International Monetary  
Fund, 2024).  
Apesar deste crescimento lento, ainda é possível afirmar que a as-  
censão do renminbi na hierarquia monetária tem ocorrido em um ritmo  
impressionante considerando que a sua participação em reservas centrais  
se encontrava em 0,004% no início do século XXI (Cohen, 2019; Federal  
Reserve Economic Data, 2024 b?). A baixa internacionalização da moeda  
chinesa é frequentemente atribuída aos controles de capitais do Partido  
Comunista e à sua relutância em abdicar do seu domínio sobre a taxa  
cambial do renminbi, reflexo do seu sistema financeiro altamente esta-  
tal (Freymann; Heng, 2025; Mathews; Selden, 2018; Metri, 2020). Alguns  
analistas ocidentais aguardam que a China irá eventualmente flexibilizar  
as suas contas de capitais em prol do seu objetivo de internacionalização,  
mas as suas previsões são minadas pelo fato de que as preferências mone-  
tárias do governo chinês são caracterizadas como altamente ambíguas e  
pouco transparentes (Cohen, 2017, 2019; Freymann; Heng, 2025).  
Neste sentido, é importante mencionar que existem alguns moti-  
vos pelos quais a China esteja buscando internacionalizar o renminbi.  
Para Freymann e Heng (2025), o Partido Comunista demonstra receio  
de um embate econômico com os Estados Unidos, dada a frequente  
3. Since all power is relative, the rise of one international money necessarily implies some loss of capability  
elsewhere; and since loss aversion is a natural reaction for states as much as it is for individuals, it hardly  
seems unreasonable to assume that some defensive steps might be taken in response (Cohen, 2019, p. 149).  
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weaponization do dólar no formato de sanções e de bloqueio de instru-  
mentos financeiros globais como o SWIFT. A internacionalização mone-  
tária, portanto, seria uma estratégia que busca reduzir a eficácia destas  
ações norte-americanas e a vulnerabilidade da moeda chinesa a ataques  
especulativos. Esta visão é ecoada por Helleiner e Wang (2019), que adi-  
cionam a resistência por parte da China à hegemonia do dólar como uma  
forma de assegurar a sua soberania monetária no processo de liberaliza-  
ção financeira, assim garantindo autonomia política a longo prazo.  
Cohen (2019) ressalta que muitos analistas acreditam que as moti-  
vações da China se centram simplesmente em tentar minar o poder da  
moeda norte-americana em prol da diversificação do sistema monetário.  
Esta linha de raciocínio se concentra na ambição geopolítica do Partido  
Comunista para garantir os “[...] direitos e privilégios que a China tem  
considerado há muito tempo como seus por direito natural” (Cohen,  
4
2017, p. 7, tradução própria ). Este processo também pode ser entendido  
como uma forma de conter a exposição da China a mudanças repentinas  
no mercado cambial internacional, visto que sua vulnerabilidade a estas  
flutuações se origina da sua alta dependência do dólar como o maior titu-  
lar de reservas da moeda norte-americana (Cohen, 2017).  
3 A ASCENSÃO DO PETRODÓLAR E O SEU PAPEL NA MANUTENÇÃO  
DA HEGEMONIA DOS ESTADOS UNIDOS  
Nesta seção, examina-se como a consolidação do petrodólar con-  
tribuiu para a perpetuação da hegemonia monetária dos Estados Unidos.  
Nesse contexto, compreende-se que a Conferência de Bretton Woods  
inaugurou uma nova ordem econômica internacional, caracterizada pela  
reativação do comércio global no pós-Segunda Guerra Mundial e pelo  
incremento da produtividade em escala internacional (Truman, 2017). O  
sistema de Bretton Woods institucionalizou o dólar como a moeda anco-  
ra do sistema monetário internacional, representando cerca de 70% do  
Produto Interno Bruto (PIB) global até a década de 1970. Outras moedas  
competitivas durante este período foram a libra esterlina e o rublo sovié-  
tico (Ilzetzki; Reinhart; Rogoff, 2019). Uma consequência natural do pa-  
drão dólar-ouro foi o aumento da circulação internacional da moeda nor-  
te-americana devido à sua participação crescente em reservas centrais,  
a intensificação dos investimentos externos diretos (IED) dos EUA e das  
suas despesas militares. (Truman, 2017). Em 1940, a circulação interna-  
cional do dólar se encontrava em cerca de US$ 8,4 bilhões. Este número  
subiu para em torno de US$ 54 bilhões no final de 1970 (Federal Reserve  
Economic Data, 2024a).  
O sistema de Bretton Woods implicou que os EUA tivessem que  
incorrer em déficits recorrentes na sua balança de pagamentos para acom-  
panhar a demanda mundial por sua moeda (Spiro, 2012). Isto não seria  
possível se a moeda norte-americana desempenhasse as funções de meio  
de troca e reserva de valor ao mesmo tempo sem levar à sua escassez  
4. [...] rights and privileges that China has long regarded as its natural due (Cohen, 2017, p. 7).  
134  
Jacqueline A. Haffner, Julia Driemeir Vieira Rosa A internacionalização do renminbi como instrumento geopolítico: estratégias chinesas para reduzir a dependência do dólar  
no mercado internacional. Este fenômeno passou a ser conhecido como  
o Dilema de Triffin (James, 2009). Desta forma, ao final da década de  
1960, o país norte-americano começou a apresentar crescentes dificulda-  
des em manter o padrão cambial de Bretton Woods. Como consequência,  
o mercado cambial passou a apresentar um ceticismo crescente acerca  
da capacidade do governo estadunidense de assegurar a conversibilidade  
monetária em ouro. Neste sentido, a especulação financeira em larga es-  
cala diminuiu a confiança global na moeda norte-americana, aumentan-  
do a inflação mundial (Baer et al., 2016; James, 2009). Segundo Helleiner  
(2009), as primeiras previsões acerca do declínio da posição privilegiada  
do dólar se iniciaram nesta década.  
Como consequência da crise do dólar, bancos centrais passaram  
a insistir no resgate das suas reservas de dólar em ouro em proporções  
insustentáveis, evidenciando a incapacidade dos EUA em garantir a con-  
versibilidade entre sua moeda e o metal precioso (Hammes; Wills, 2005;  
Mathews; Selden, 2018). A sobrevalorização do dólar também prejudicava  
a competitividade de exportações norte-americanas, frente ao aumento  
de competição com o Japão e a Alemanha. Para o Presidente Richard  
Nixon (1969 – 1974), isto ameaçava a supremacia econômica dos Estados  
Unidos. Além disso, defender a economia norte-americana contra espe-  
culações financeiras se tornou demasiadamente custoso (Wight, 2021).  
Assim, o sistema de Bretton Woods foi unilateralmente suspendido pelos  
EUA em 1971, inaugurando um período de regime cambial de taxa flu-  
tuante (Baer et al., 2016). Esta medida resultou tanto na desvalorização  
média do dólar em 25% comparado a outras moedas ocidentais no ano de  
1973 quanto no aumento da inflação mundial, sobretudo no mercado de  
commodities. De tal modo, países observaram uma crescente dificuldade  
em manter suas moedas nacionais atreladas ao dólar, levando a uma di-  
minuição na sua demanda internacional. Este momento histórico amea-  
çava minar a posição do dólar como moeda internacional e, consequen-  
temente, a hegemonia monetária dos EUA (Helleiner, 2009; Mathews;  
Selden, 2018; Spiro, 1999).  
A partir da contextualização apresentada e da análise da crise ins-  
taurada, torna-se possível examinar as estratégias adotadas pelos Estados  
Unidos para preservar a posição privilegiada do dólar frente ao colapso  
do sistema de Bretton Woods, especialmente por meio da instrumenta-  
lização do mercado petrolífero. Segundo Klare (2012), a geopolítica con-  
temporânea do petróleo começou a ser desenvolvida no período anterior  
à Primeira Guerra Mundial e durante o conflito. As grandes potências  
da época, com destaque ao Reino Unido, já entendiam a relevância do  
recurso não somente ao sucesso das suas políticas industriais e à consoli-  
dação dos seus objetivos militares. Deste modo, a exploração do petróleo  
se tornou chave para as políticas imperialistas da época, aprofundando  
o interesse europeu no Oriente Médio e na África. O Gráfico 1 mostra  
o consumo global de energias não renováveis, sugerindo a sua crescente  
importância energética principalmente após a década de 1940.  
135  
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 2, (jun. 2025), p. 126-148  
Gráfico 1 – Consumo Global de Combustíveis Fósseis (medido em terawatt-horas de  
consumo de energia primária)  
Fonte: elaborado pelas autoras com base em Our World in Data (2023a).  
É possível apontar que, durante o período da ascensão hegemôni-  
ca dos EUA, o hidrocarboneto já havia se consolidado como um recurso  
central do comércio mundial e, assim, da política externa norte-americana.  
O aumento do consumo global do petróleo se tornou um motivo-chave  
para a retomada econômica internacional após a Segunda Guerra Mundial  
e logo se tornou o maior bem comercializado globalmente em termos de  
valor e volume (Wight, 2021). Segundo Wight (2021), o consumo petrolífe-  
ro dos EUA aumentou em 180% entre 1949 e 1970. Tornou-se necessário,  
portanto, assegurar o acesso ininterrupto ao recurso a fim de preservar a  
produtividade econômica estadunidense e garantir a sua segurança energé-  
tica nacional a um preço acessível ao consumidor doméstico (Gokay, 2020).  
O quadro decorrente do fim do sistema de Bretton Woods foi acom-  
panhado por grandes instabilidades no mercado petrolífero. O preço da  
commodity já havia aumentado dada a reação da Organização dos Países  
Exportadores de Petróleo (OPEP) ao fim do Sistema Bretton Woods, a  
qual optou por conter seu impacto sobre a comercialização do recur-  
so ao indexar este a uma quantidade fixa de ouro. A decisão, contudo,  
não surtiu os efeitos desejados devido à incapacidade dos países-mem-  
bros da OPEP de acompanhar a elevação do preço do ouro (Hammes;  
Wills, 2005; Gokay, 2020). O cenário foi exacerbado devido ao conflito  
Árabe-Israelense, o que resultou em governos árabes aliados aos EUA,  
sobretudo a Arábia Saudita, ameaçarem restringir a produção de petró-  
leo caso o governo estadunidense continuasse a apoiar o Israel. A tensão  
136  
Jacqueline A. Haffner, Julia Driemeir Vieira Rosa A internacionalização do renminbi como instrumento geopolítico: estratégias chinesas para reduzir a dependência do dólar  
diplomática gerada levou ao armazenamento exagerado do recurso em  
mercados como os da Europa e do Japão e escalou rapidamente o preço  
mundial do petróleo bruto (Hammes; Wills, 2005; Wight, 2021), o qual  
passou de US$20,69 por metro cúbico a US$72,84 entre 1973 e 1974 (Our  
World in Data, 2024a). Nesse contexto, a importação internacional do pe-  
tróleo se estagnou e a inflação mundial se intensificou (Hughes, 2018).  
Conforme descrito por Wight (2021), diante do aumento de preço  
do petróleo, o governo dos EUA contava com os seus aliados do Oriente  
Médio, principalmente a Arábia Saudita, para aumentar a sua produção do  
recurso em um ritmo mais acelerado do que o crescimento da sua deman-  
da internacional com o objetivo de conter a inflação. Como consequência,  
a participação do dólar nas reservas centrais destes países cresceu mais  
rapidamente do que a sua capacidade de gastar a moeda. As suas decisões  
financeiras, portanto, passaram a ter grande peso no mercado internacio-  
nal. Foi este o contexto que levou o então Secretário de Estado dos Estados  
Unidos, Henry Kissinger, e o príncipe saudita Fahd Al Saud a acordarem a  
indexação de preço do barril de petróleo à moeda norte-americana, origi-  
nando o termo “petrodólar”. Por um lado, os EUA aprofundariam os seus  
pactos militares com a Arábia Saudita, oferecendo armamentos e garantias  
de proteção militar. Por outro, o reino saudita asseguraria investimentos  
e compras que retornariam dólares à economia dos EUA e que estabilizas-  
sem o sistema monetário internacional (Wight, 2021).  
Este processo é entendido como reciclagem de petrodólares, a partir  
da qual países exportadores de petróleo financiam os déficits do balanço  
de pagamentos de nações terceiras. Somente a moeda norte-americana  
poderia ter assumido este papel neste contexto. Em primeiro lugar, a ca-  
pacidade de imprimir moedas que acompanhasse o crescimento do mer-  
cado petrolífero não era possível para diversos Estados. Em segundo lugar,  
mesmo se um país além dos EUA tivesse esta habilidade, a OPEP teria  
que aceitar acumular suas moedas nas suas reservas centrais. Sem a li-  
derança estadunidense, a estabilidade do sistema monetário internacional  
seria comprometida, pois o potencial de competição monetária injusta era  
significativo (Spiro, 1999). Kamel e Wang (2019) resumem esta discussão:  
O papel do dólar na precificação do petróleo levou à sua crescente utili-  
zação na compra e venda do petróleo, uma vez que isto ajudou tanto os  
compradores quanto os vendedores a minimizar os seus riscos cambiais.  
À medida que a demanda pelo petróleo crescia na economia moderna,  
a própria moeda do comércio petrolífero se tornou uma mercadoria  
indispensável para países ao redor do mundo. Por um lado, os países  
consumidores precisam manter grandes quantidades da moeda dos  
Estados Unidos para garantir a sua segurança energética; por outro lado,  
os países produtores recebem os pagamentos pelas suas exportações  
de energia majoritariamente em dólares, que depois estes utilizam em  
troca por importações e para investir em ativos denominados em dólares  
(Kamel; Wang, 2019, p. 1141, tradução própria)5.  
5. The role of the dollar in pricing oil led to its increasing use in buying and selling oil, as this helped both  
buyers and sellers to minimize exchange rate risks. As the need for oil grew in the modern economy, so the  
currency of the oil trade itself became an indispensable commodity for countries around the world. On the one  
hand, consumer countries need to keep large amounts of US currency to ensure their energy security; on the  
other hand, producer countries receive payment for their energy exports mostly in dollars, which they then use  
in exchange for imports and for investing in dollar-denominated assets (Kamel; Wang, 2019, p. 1141).  
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 2, (jun. 2025), p. 126-148  
Como afirmam Mathews e Selden (2018), o colapso do sistema de  
Bretton Woods poderia ter significado o fim da hegemonia monetária  
dos EUA. Tornando o dólar o principal meio de veículo da commodity  
mais comercializada do mundo, garantiu que a demanda pela moeda  
norte-americana continuasse alta. Conforme países exportadores de  
petróleo aumentam a participação do dólar nas suas reservas centrais  
e reciclam os seus petrodólares na economia dos EUA, maior é o seu  
interesse em manter a indexação com o dólar e menor será o seu incen-  
tivo a diversificar as suas reservas por outras moedas (Momani, 2008).  
Sendo assim, a relação entre os EUA e os países árabes exportadores de  
petróleo mudou fundamentalmente, passando a ser altamente interde-  
pendente. Wight (2021) ressalta que o acordo de petrodólar serviu para  
ampliar o poder geopolítico norte-americano e intensificou a globaliza-  
ção do capitalismo.  
Assim, os EUA conseguem incidir déficits nas suas contas públicas  
a cada ano desde 1978, visto que sempre haverá um mercado para a com-  
pra dos seus títulos governamentais (Hughes, 2018). Domesticamente,  
o prestígio monetário do dólar garante a sustentação do “estilo de vida  
americano”, caracterizado por padrões elevados de consumo material  
e energético (Momani, 2008). Além disso, a posição privilegiada da  
moeda norte-americana no sistema monetário internacional possibili-  
ta as suas altas despesas militares, o que também assegura o seu aces-  
so contínuo ao petróleo como recurso estratégico (Gokay, 2020). Estes  
benefícios transformaram o imperialismo norte-americano no Oriente  
Médio, trazendo não somente investimentos, armamentos e projetos  
cooperativos de desenvolvimento à região, mas também instabilidade  
política (Wight, 2021).  
Outros países também foram incentivados a manter a nova “ordem  
do petrodólar”, segundo a caracterização de Wight (2021). Como mencio-  
nado anteriormente, nem todos os Estados teriam as capacidades neces-  
sárias para liderar a estabilização do sistema financeiro internacional. Um  
acordo como este era necessário, pois a alternativa seria uma redução no  
consumo mundial de petróleo, significando menores excedentes econô-  
micos para os membros da OPEP. Isto teria impactado negativamente di-  
versos setores econômicos e arriscava acelerar a recessão mundial a níveis  
sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial (Spiro, 1999).  
No entanto, algumas alternativas foram propostas que permiti-  
ram a reciclagem dos petrodólares por meio de organizações interna-  
cionais multilaterais, especificamente o FMI. Isto distribuiria os lucros  
do mercado petrolífero entre nações industrializadas. Os EUA vetaram  
esta proposta de forma unilateral. Esta decisão reflete a preocupação dos  
governantes norte-americanos com o declínio relativo da Centralidade  
do dólar no sistema financeiro global, contrastada pela vulnerabilidade  
frente à deterioração das contas públicas. Embora esta atitude asseguras-  
se os interesses econômicos e geopolíticos dos EUA a médio prazo, a sua  
liderança nas instituições internacionais que foram fundadas no período  
pós-guerra naquele momento foi minada (Spiro, 1999).  
138  
Jacqueline A. Haffner, Julia Driemeir Vieira Rosa A internacionalização do renminbi como instrumento geopolítico: estratégias chinesas para reduzir a dependência do dólar  
4 DESAFIOS CONTEMPORÂNEO À HEGEMONIA DO PETRODÓLAR: A  
INTERNACIONALIZAÇÃO DO RENMINBI  
Nesta seção, será analisado como a crescente internacionalização  
do renminbi tem gerado tensões e desafios à posição dominante do dólar  
no sistema internacional. A ascensão da moeda chinesa, impulsionada  
por estratégias de diversificação monetária, acordos bilaterais e o forta-  
lecimento das reservas internacionais em renminbi, tem provocado um  
deslocamento gradual na arquitetura monetária internacional. Esse mo-  
vimento suscita preocupações quanto à estabilidade da hegemonia do  
dólar, especialmente diante da ampliação das zonas de influência econô-  
mica da China e da busca por alternativas ao padrão monetário vigente.  
Conforme apontado por Cohen (2017, 2019), a internacionalização  
do renminbi representa um desafio à hegemonia monetária dos EUA que  
não encontra precedentes na história moderna. Pela primeira vez, um  
rival monetário não é aliado nem inimigo do governo norte-americano,  
se encontrando em uma posição intermediária cuja ambição de competi-  
ção é inegável ao mesmo tempo que é difícil de mensurar. Apesar desta  
ambiguidade, é possível afirmar que a China tem tornado a internacio-  
nalização da sua moeda um objetivo de Estado estratégico, com ramifi-  
cações tanto geopolíticas quanto econômicas, mirando a construção do  
seu próprio “privilégio exorbitante”. Neste sentido, será analisada aqui a  
internacionalização do renminbi por meio do mercado petrolífero, que,  
da mesma forma que contribui para a manutenção da hegemonia mone-  
tária dos EUA, apresenta grande potencial para as pretensões monetárias  
chinesas no que diz respeito ao multilateralismo comercial, financeiro e  
industrial (Mathews; Selden, 2018).  
O petróleo é um recurso estratégico para o fortalecimento do po-  
der chinês na economia política internacional, da mesma forma que é  
essencial para a geopolítica e a economia dos EUA. Desde a década de  
1980, quando a China efetivamente iniciou o seu processo de globaliza-  
ção econômica (Mendonça; Lopes Filho; Oliveira, 2021), a sua demanda  
doméstica pelo hidrocarboneto tem aumentado progressivamente. Em  
2022, a China consumiu uma média de 8.000 terrawatt-hora (TWh) de  
petróleo. Os EUA, por sua vez, utilizaram 10.000 TWh no mesmo ano  
(Our World in Data, 2023b). A China também se encontra entre os dez  
maiores produtores de petróleo do mundo (Our World in Data, 2024b),  
mas ainda depende majoritariamente do mercado global para suprir a  
sua demanda, o que coloca o nível do seu consumo petrolífero em pro-  
porções impressionantes. Isto ocorre em função da baixa qualidade do  
produto produzido nas reservas nacionais chinesas além do seu consumo  
petrolífero expressivo (Calabrese, 2012). Em 2012, a China ultrapassou os  
EUA e se tornou o maior importador mundial do combustível (Kamel;  
Wang, 2019; World Bank, 2024).  
Desta forma, é possível apontar que a China se tornou um ator cen-  
tral no mercado global do petróleo já na década de 1980, mas sua partici-  
pação ativa na comercialização do recurso se intensificou a partir da Crise  
Financeira de 2008. A partir deste marco, a China passa a centrar a sua  
segurança energética como prioridade da sua política externa, devido à  
139  
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 2, (jun. 2025), p. 126-148  
instabilidade do mercado internacional, sobretudo quanto à precificação  
das commodities. Isto leva o governo chinês a firmar um número maior  
de contratos comerciais petrolíferos no renminbi com parceiros como a  
Rússia, o Irã e a Venezuela, já no início da década de 2010 (Kamel; Wang,  
2019). A importância do recurso para os objetivos chineses também se  
reflete na crescente militarização da sua política energética, a partir  
da qual a China visa reduzir a sua dependência do petróleo produzido  
pelo Oriente Médio com a expansão da sua presença na África e na Ásia  
Central. Adicionalmente, devido à importância do transporte marítimo  
para as suas importações petrolíferas, o governo chinês tem aumentado  
a sua presença militar em rotas estratégicas no fluxo comercial regional  
e internacional, com destaque ao Mar do Sul da China (Calabrese, 2012;  
Klare, 2012).  
A Crise Financeira de 2008 abriu um espaço político importante  
para a China questionar o funcionamento do sistema financeiro interna-  
cional e a participação das economias emergentes nas instituições multi-  
laterais. Esta tendência se repete no mercado energético. A China critica  
o processo de financeirização do comércio de commodities, afirmando que  
este setor se encontra altamente vulnerável ao processo especulativo e  
dependente da política monetária doméstica dos EUA, o que reverbera  
na precificação do petróleo. Dentro deste contexto, a China tem buscado  
aumentar a sua influência dentro do mercado petrolífero global, expan-  
dindo o número de parcerias estratégicas com atores como a OPEP e o  
Fórum Internacional de Energia e inserindo a pauta em espaços multi-  
laterais como o BRICS e o G20 durante a sua presidência do grupo em  
2016 (Kamel; Wang, 2019; Taylor, 2025). Utilizando a sua posição como  
o maior importador de petróleo do mundo, a China visa a criação do  
“petroyuan” para facilitar o comércio com base na sua própria moeda, re-  
duzindo conversões em dólar e diminuindo custos para os seus parceiros  
comerciais (Taylor, 2025).  
6
O petroyuan pode ser entendido como um benchmark petrolí-  
fero fixado no renminbi (Taylor, 2025). A sua viabilização é permitida  
7
por meio do lançamento de contratos futuros de petróleo com base na  
moeda chinesa na Bolsa de Valores Internacional de Energia de Xangai  
(Shanghai International Energy Exchange – SIEE). O mercado de futuros do  
petróleo se trata de uma fonte de estabilidade dentro do comércio mun-  
dial de commodities, o que por sua vez sustenta a indústria e a produção  
internacional. A primeira tentativa chinesa de lançar contratos deste tipo  
6. Por benchmark, refere-se ao sistema de precificação do petróleo utilizado em determinado contrato comer-  
cial. Trata-se de uma tentativa de estabelecer preços fixos a curto e médio prazo considerando a alta insta-  
bilidade do mercado energético. Exemplos de benchmarks incluem o Brent Blend, o West Texas Intermediate  
(WTI), o Dubai Crude, o Ural Blend e o Alaska North Slope (ANS) (Luciani, 2012). Os sistemas de precificação  
de Brent e WTI dominam o mercado petrolífero e correspondem a mais da metade dos seus contratos comer-  
ciais (Kamel; Wang, 2019).  
7. Os contratos futuros de petróleo garantem a comercialização do recurso a um preço previamente estabeleci-  
do em uma data futura. Entre as suas principais funções, aponta-se a possibilidade de hedge de negócios futu-  
ros de empresas petrolíferas, como refinarias, contra flutuações no mercado energético internacional, além de  
facilitar o processo especulativo a partir do controle na oscilação de preços do combustível. Através destes, é  
possível assegurar não somente a entrega física do produto, mas também a sua liquidação financeira (Luciani,  
2012; Mathews; Selden, 2018; Woertz, 2012).  
140  
Jacqueline A. Haffner, Julia Driemeir Vieira Rosa A internacionalização do renminbi como instrumento geopolítico: estratégias chinesas para reduzir a dependência do dólar  
foi ainda na década de 1990, mas a iniciativa falhou devido à baixa trans-  
parência e liquidez. Quase trinta anos depois, o cenário mundial mudou,  
aumentando a capacidade chinesa de desafiar a hegemonia do dólar neste  
mercado (Mathews; Selden, 2018).  
A iniciativa lançada em 2018 foi bem-vista por parceiros estratégi-  
cos como a Rússia e o Irã, considerando que o volume de negociações do  
mercado futuro de Xangai em só um ano após o seu lançamento chegou  
à metade do total de contratos firmados com base no benchmark do Brent  
Blend (Kamel; Wang, 2019). O petroyuan também foi bem recebido por  
comerciantes multinacionais como a Glencore e a Trafigura (Mathews;  
Selden, 2018; Taylor, 2025). No entanto, a COVID-19 desacelerou os avan-  
ços do petroyuan. Já em 2019, o mercado futuro de petróleo da China  
havia atingido um nível de maturidade significativo, observando uma re-  
dução na transmissão de riscos de volatilidade, assimetrias de informação  
e no estabelecimento de referência contratual demasiadamente elevada.  
8
A pandemia reverteu esta tendência , estagnando a expansão de contratos  
firmados no preço de Xangai (Corbet et al., 2022).  
Desde então, a expansão do comércio baseado no petroyuan vem ex-  
pandindo-se paulatinamente em volume e participação no mercado inter-  
nacional (Taylor, 2025). Alguns indícios, contudo, apontam para a possibili-  
dade de uma aceleração da sua adoção nas próximas décadas. Em primeiro  
lugar, o benchmark chinês traz algumas inovações significativas em relação  
às referências de Brent e do West Texas Intermediate (WTI) além da sua  
base no renminbi, como a priorização do petróleo bruto pesado e de alto  
teor sulfúrico em lugar do tipo leve e de baixa concentração de enxofre, já  
que este é mais facilmente encontrado nas fontes petrolíferas chinesas e é  
preferida por países no Oriente Médio e pela Rússia (Kamel; Wang, 2019;  
Alshareef, 2022). Em segundo lugar, a sua conversibilidade é lastreada em  
ouro, o que assegura um importante mecanismo de segurança e estabili-  
dade (Mathews; Selden, 2018). Em terceiro lugar, a referência chinesa é a  
primeira na região Ásia-Pacífico, oferecendo uma oportunidade de padro-  
nização de preços para estas nações (Kamel; Wang, 2019; Alshareef, 2022).  
No que se refere à internacionalização do renminbi, a lógica que  
sustenta a criação do petroyuan é evidente. Conforme a China amplie o  
seu número de contatos petrolíferos, mais os seus parceiros comerciais  
são esperados a acumular a moeda chinesa nas suas reservas centrais.  
Isto não somente significa mais compras de bens e serviços da China,  
mas também de títulos do governo chinês. Como resultado, isto garante  
o fortalecimento do mercado de capitais do país asiático e a internacio-  
nalização da sua moeda. Este é o mesmo racional que explica a recicla-  
gem do petrodólar no mercado doméstico dos EUA e indica que o Partido  
Comunista visa repetir alguns dos passos históricos que propulsionaram  
o dólar ao topo da hierarquia monetária global (Kamel; Wang, 2019;  
Mathews; Selden, 2018).  
8. Meidan (2020) ressalta que o sistema de precificação chinês não foi o único impactado pela COVID-19, visto  
que as referências de Brent e do WTI também foram prejudicadas. Sendo assim, devido à queda na demanda  
global resultante da pandemia, o excedente do mercado petrolífero naturalmente se destinou à China como o  
maior importador mundial do recurso. Este fato, portanto, permitiu que a China retomasse as suas negocia-  
ções no mercado futuro de Xangai, inclusive com os benchmarks de Brent e Dubai e Omã.  
141  
estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 2, (jun. 2025), p. 126-148  
Existem diversos motivos pelos quais diferentes países poderiam  
estar interessados em firmar contratos petrolíferos com base no ren-  
minbi. Governos que buscam diversificar as suas moedas de liquidação  
comercial enquadram o petroyuan como uma alternativa viável. Além  
disso, devido à frequente weaponization do dólar, acordos bilaterais com a  
China podem oferecer uma forma de contornar sanções ocidentais, como  
no caso da Rússia e do Irã (Taylor, 2025). Contudo, como destacam Kamel  
e Wang (2019), o número de países parceiros que estabelecem contratos  
futuros fixados no renminbi ainda é bastante restrito. Somado a isto, es-  
tas nações não estão sendo motivadas necessariamente por uma crença  
no fortalecimento da moeda chinesa a longo prazo, mas sim por uma  
vontade política mais imediata de confrontar a hegemonia monetária dos  
EUA. Rivalidades como estas, mesmo com fontes históricas, podem mu-  
dar. Sendo assim, a predisposição de determinados Estados a apoiarem o  
petroyuan pode se reverter, o que consequentemente prejudica o objeti-  
vo de internacionalização do renminbi.  
A partir do exposto, é possível compreender a iniciativa do pe-  
troyuan como um exemplo da crescente competição monetária entre a  
China e os EUA no processo de internacionalização do renminbi. Dada  
a importância da relação entre a precificação do petróleo com base na  
moeda norte-americana e a hegemonia monetária dos EUA, o aumento  
de contratos petrolíferos negociados com a China, para alguns autores,  
oferece uma ameaça sem precedentes (Mathews; Selden, 2018). Contudo,  
esta discussão é altamente dependente da capacidade destes países de  
exercerem influência no mercado de commodities, o que, por sua vez, é  
um reflexo do seu poder estrutural. No período pós-guerra, é possível  
afirmar que os EUA contavam com vantagens significativas em todas as  
estruturas descritas por Strange (1988). No século XXI, o cenário é outro,  
exceto quando se trata de segurança, já que o país norte-americano per-  
manece um poder militar unipolar (Nye Jr., 2022).  
Inegavelmente, a capacidade chinesa de “ditar as regras do jogo”  
tem se fortalecido em paralelo com um declínio gradual do poder estru-  
tural dos EUA. No entanto, ainda não é possível prever se, e muito menos  
quando, a China irá ultrapassar o seu rival em termos de poder financeiro  
(Gurcan; Donduran, 2023). Até pouco tempo, a possibilidade de o país  
asiático ocupar a posição de maior economia do mundo era realista no  
médio prazo (DiPippo, 2025; Nye Jr., 2019). Contudo, estimativas agora  
apontam que o crescimento econômico chinês tem desacelerado abaixo  
dos níveis vistos durante a pandemia da COVID-19. Em 2024, o PIB chi-  
nês caiu para 64% em comparação com o dos EUA. Em 2021, este número  
se encontrava em 77% (DiPippo, 2025). Mesmo se a China ultrapassasse  
a posição econômica dos EUA, em outras medidas de poder geopolíti-  
co o governo chinês ainda se encontraria em desvantagem (Cildir, 2025;  
Cohen, 2019; Nye Jr., 2010)  
Um fato que pode impactar o futuro do petroyuan de forma positiva  
é a mudança da relação entre os EUA e os seus aliados do Oriente Médio.  
Desde a década de 1970, o governo norte-americano e as nações árabes  
exportadoras de petróleo têm observado uma interdependência centra-  
da no petrodólar. Esta relação é contingente da capacidade do governo  
142  
Jacqueline A. Haffner, Julia Driemeir Vieira Rosa A internacionalização do renminbi como instrumento geopolítico: estratégias chinesas para reduzir a dependência do dólar  
norte-americano de providenciar os seus aliados árabes com poder eco-  
nômico e militar que em retorno servem os seus interesses (Wight, 2021).  
Com a invasão do Iraque em 2003, contudo, o contato dos EUA com a  
região foi colocado em xeque, levando algumas nações exportadoras de  
petróleo a questionarem a precificação com base no dólar. Além disso, pe-  
ríodos de instabilidade no valor da moeda norte-americana resultam em  
lucros petrolíferos reduzidos e em taxas maiores de inflação para a região,  
como no caso do Qatar e dos Emirados Árabes Unidos.  
Este contexto incentiva os países do Oriente Médio a diversificarem  
as suas reservas centrais. Caso isso se concretize, a reciclagem dos petro-  
dólares nos títulos governamentais estadunidenses pode se deslocar para  
outros mercados, como na Ásia ou no próprio Oriente Médio (Momani,  
2008), gerando consequências relevantes para a capacidade dos EUA de in-  
correr em déficits públicos (Spiro, 2012). Como resultado, abre-se espaço  
para a China ampliar o número de contratos petrolíferos com parceiros  
árabes indexados ao renminbi. Em 2022, o presidente chinês Xi Jinping  
visitou a Arábia Saudita a fim de estabelecer laços cooperativos com os  
planos da nação árabe de aproveitar as suas receitas petrolíferas para im-  
pulsionar a diversificação da sua economia. Para tanto, o governo chinês  
apresentou planos para investir em projetos de energia e infraestrutura  
na nação com base no renminbi. Outros acordos incluem trocas cambiais  
entre os bancos centrais dos dois Estados estimados em ¥50 bilhões. O ob-  
jetivo desta parceria é facilitar o comércio entre as nações com ênfase nas  
suas moedas locais. Desta forma, é possível observar que a Arábia Saudita  
e outras nações árabes exportadoras de petróleo olham favoravelmente  
para a expansão das suas reservas de renminbi. No entanto, este processo  
deve ocorrer incrementalmente de forma a equilibrar o relacionamento  
da região tanto com a China quanto com os EUA (Taylor, 2025).  
A reação do governo norte-americano aos esforços de internacio-  
nalização monetária da China também é essencial para compreender o  
futuro do petroyuan. Diante dos esforços chineses, é possível afirmar  
que a política adotada pelos EUA para proteger sua hegemonia mone-  
tária tem sido passiva e baseada em inatividade proposital. Esta atitude  
pode ser explicada por excesso de confiança no poder do dólar, o que  
gera complacência e leva ao entendimento de que o “privilégio exorbitan-  
te” é um fenômeno dado, não conquistado (Cohen, 2017, 2019). Se o país  
norte-americano decidisse atuar para defender a posição internacional da  
sua moeda por meio de pressão sobre os seus parceiros comerciais, os  
seus vastos recursos de poder o colocariam em uma posição ideal para tal  
(Helleiner; Kirshner, 2014).  
Quando se trata do domínio do dólar dentro do comércio petrolí-  
fero, as autoridades estadunidenses têm um grande incentivo para atuar  
em defesa da reciclagem do petrodólar em seus mercados domésticos.  
Caso contrário, a incapacidade do governo em financiar as suas massivas  
dívidas públicas pode negativamente impactar as suas taxas de juros e  
de crescimento econômico. Qualquer que seja a estratégia tomada pelos  
EUA, “[...] um denominador comum é que o resultado será determinado  
mais pela política do que pela economia.” (Helleiner; Kirshner, 2014, p. 7,  
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estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 2, (jun. 2025), p. 126-148  
9
tradução própria ). Para Mathews e Selden (2018), o desempenho do pe-  
troyuan é ameaçado pela guerra comercial entre os EUA e a China. A  
retórica agressiva de Donald Trump e a sua aplicação de sanções contra  
parceiros petrolíferos do Partido Comunista, sobretudo o Irã, evidenciam  
que a mira das políticas coercitivas norte-americanas é de fato contra o  
país asiático.  
4 CONCLUSÕES  
Este artigo teve como objetivo examinar a internacionalização do  
renminbi por meio das ações do governo chinês no mercado petrolífero e  
apontar como este processo se assemelha ao papel histórico do petrodó-  
lar na sustentação da hegemonia monetária dos EUA. Apontou-se que o  
sucesso do petroyuan depende de uma série de medidas que irão prover  
liquidez e convertibilidade à moeda chinesa. No entanto, alguns desafios  
persistem para que isto de fato ocorra. Em primeiro lugar, ao permitir que  
investidores estrangeiros atuem diretamente no seu mercado financeiro  
doméstico, a China sinaliza uma abertura estratégica e controlada da sua  
economia. Como mencionado anteriormente, um obstáculo enfrentado  
pelo governo chinês no comércio energético global está associado às suas  
políticas intensivas de controles de capitais. A flexibilização destes, por-  
tanto, permite uma entrada maior de capital estrangeiro na China, o que  
o seu governo tem promovido por meio de incentivos tributários, do es-  
tabelecimento de uma zona de livre comércio e da concessão de maiores  
licenças de importação a refinarias privadas.  
Contudo, esta liberalização monetária não é provável de ocorrer  
na forma esperada, dado o valor dos controles de capitais observado pelo  
governo chinês em períodos de instabilidade financeira no mercado cam-  
bial internacional. Os mercados financeiros da China permanecem exces-  
sivamente regulamentados e subdesenvolvidos em muitos sentidos, o que  
entra em contradição com as tendências históricas de internacionalização  
monetária ocorrendo em ambientes domésticos com intervenções esta-  
tais limitadas. Desta forma, a natureza autoritária do Partido Comunista,  
combinada com o seu baixo compromisso com os direitos de proprieda-  
de privada e com o cumprimento de obrigações contratuais, não assegu-  
ra confiança por parte de investidores internacionais nas suas políticas  
monetárias.  
Em segundo lugar, qualquer iniciativa de desdolarização promo-  
vida pela China, seja pela redução do seu prestígio por meio da diver-  
sificação monetária ou por sua substituição direta, é confrontada pelas  
suas vastas reservas da moeda norte-americana. Além disso, o comércio  
mundial continua centrado no dólar apesar de tentativas de diversifica-  
ção. Neste sentido, a maioria das commodities, incluindo o petróleo, são  
precificadas com base na moeda norte-americana. Isto encoraja a China  
a manter suas reservas altas e garantir o seu desempenho comercial no  
palco mundial. Como consequência, mesmo com as suas iniciativas de  
9. [...] a common denominator is that the outcome will be determined more by politics than economics (Hellei-  
ner; Kirshner, 2014, p. 7).  
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Jacqueline A. Haffner, Julia Driemeir Vieira Rosa A internacionalização do renminbi como instrumento geopolítico: estratégias chinesas para reduzir a dependência do dólar  
internacionalização do renminbi, o governo chinês continua exibindo  
um interesse alto pela promoção de uma ordem financeira na qual o dólar  
ocupa o topo da hierarquia monetária.  
Quando se trata do comércio petrolífero, esta discussão é coloca-  
da em evidência. Os mercados de commodities como o petróleo e o gás  
natural exibem um incentivo natural pelo domínio de uma só moeda, já  
que isto torna o comércio mais eficiente. Além disso, a moeda de veículo  
para a compra e venda dos recursos energéticos será a que já ocupa o  
topo da hierarquia monetária em demais mercados. Qualquer mudan-  
ça nesse cenário ficará dependente do estreitamento da relação chinesa  
com o Oriente Médio e com os membros da OPEP. Como mencionado  
anteriormente, os objetivos chineses são incertos e as vastas reservas de  
dólar do país reforçam o seu interesse em manter a posição da moeda  
norte-americana no topo da hierarquia monetária. A internacionalização  
monetária é acompanhada por custos e riscos altos. A China usufrui de  
proteções naturais contra instabilidades comerciais externas, conhecidas  
como a sua “Grande Muralha Monetária”. Além disso, produtores e ins-  
tituições bancárias da China têm ganhado vantagens pelo forte controle  
estatal sobre taxas de juros e a distribuição de crédito. Assim, existem  
fortes grupos de interesse domésticos que podem ser contrários a maiores  
esforços de liberalização monetária por entender que estas colocam em  
risco o modelo de desenvolvimento do país.  
Nesta discussão, é evidente que os planos da China não são aber-  
tamente revisionistas, visto que o país também se beneficia da ordem  
liberal internacional. A interdependência entre a China e os EUA reduz  
as suas possibilidades de contenção de poder. Embora a intenção chinesa  
não aparente ser favorável à substituição direta da ordem mundial vigen-  
te, isto pode mudar conforme as suas capacidades estruturais se forta-  
leçam. Por um lado, a redução da dependência da China ao dólar terá  
consequências no comércio mundial e nas instituições internacionais, o  
que pode deter a sua ambição a médio prazo. Por outro lado, a China não  
tem interesse no liberalismo e tampouco no poder excessivo dos EUA. Os  
esforços chineses serão ditados não somente pelo seu poder material, mas  
também pelas suas raízes institucionais e ideacionais. A internacionaliza-  
ção monetária do renminbi, portanto, será guiada a partir da definição do  
que a China quer daqui em diante. A reação dos EUA a este processo irá  
precisar estimar corretamente as pretensões chinesas, evitando a compla-  
cência e o medo exagerado ao mesmo tempo.  
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