estudos internacionais • Belo Horizonte, ISSN 2317-773X, v. 13, n. 2, (jun. 2025), p. 236-241
não prestarmos séria atenção às complexidades das ideias e experiências
em tempos de guerra de diversas mulheres, nós arriscamos perder – ou
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compreender de forma errônea – as causas e consequências das guerras”
(Enloe, 2023, p. 2, tradução nossa).
Assim, suas doze lições não são fruto de um ano ou dois de pes-
quisa, mas de uma vida inteira observando atentamente e, especialmen-
te, conversando com outras mulheres que também estavam observando
atentamente o mundo ao seu redor. Este fato contribui para que a autora
traga uma vasta lista de referências e notas de rodapé valiosíssimas, com
vivências e estudos de casos plurais, trazendo à luz casos e pesquisas,
tanto mais conhecidos – como, por exemplo, os escândalos dos capacetes
azuis mencionados no quarto capítulo –, quanto aqueles pouco impul-
sionados pelo mainstream. Suas doze lições são, na verdade, um convite
para que possamos refletir sobre nossas experiências e dedicar um olhar
cuidadoso a experiências divergentes, para que seja uma construção co-
letiva crescente.
Portanto, façamos um passeio pelas lições elaboradas no volume,
embora a densidade dos capítulos não permita que somente seus títu-
los sejam mencionados. Em primeiro lugar, Cynthia Enloe aponta que
as guerras das mulheres não são as guerras dos homens, uma vez que
mulheres e homens vivenciam a guerra de formas diferentes, visto que
mesmo na guerra as mulheres estão sobrecarregadas por trabalhos desva-
lorizados e invisibilizados. Assim, a autora defende que a guerra antecede
o primeiro disparo, na verdade ela sempre é precedida por condições de
desigualdade. Na segunda lição, a autora nos ensina que toda guerra é
travada em um contexto histórico inerentemente permeado pela variável
gênero. Neste sentido, todos os detalhes que constroem uma guerra são
genderizados, os meios de comunicação são genderizados, o acesso aos
recursos é genderizado, o capital é genderizado. Partir desse pressuposto
permite que vejamos padrões, decisões e cálculos deliberados onde antes
havia somente “consequências inevitáveis” e “efeitos colaterais”. “A guer-
ra é um inferno. A guerra é um inferno genderizado. A guerra é um infer-
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no genderizado dentro de uma história genderizada em curso” (Enloe,
2023, p. 32, tradução nossa).
Terceira lição: fazer homens lutarem não é tão fácil assim, uma vez
que envolve acesso à informação, dinheiro, treinamento e, especialmente,
uma intensa construção social da masculinidade como sendo algo atrela-
do ao militarismo. Assim, o elo forte entre o militarismo e a masculini-
dade é forjado não somente pelo Estado, mas pelo apoio civil, incluindo
as mulheres – mães e esposas, por exemplo –, o que faz com que possam
ser também vozes de contestação. Como consequência, entender a guer-
ra é compreender as dinâmicas de gênero que a torna possível. A quarta
lição, por sua vez, ensina que as mulheres soldadas não configuram um
tipo de libertação, visto que há uma permissão de que as mulheres aden-
trem somente espaços que os homens julgam apropriados, explorando
3. If we do not pay serious attention to the complexities of diverse women’s ideas and wartime experiences,
we risk missing – or misunderstanding – the causes and consequences of wars. (Enloe, 2023, p. 2).
4. War is hell. War is a gendered hell. War is a gendered hell in ongoing gendered history (Enloe, 2023, p. 32).
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