PODER COMO VIOLÊNCIA, VIOLÊNCIA COMO PODER

soberania, estado de exceção e colonialidade

  • Aléxia Cruz Bretas Universidade Federal do ABC
Palavras-chave: Walter Benjamin, Violência, Estado de Exceção, Colonialidade

Resumo

Pouco mais de cem anos após sua publicação original, o ensaio benjaminiano “Para a crítica da violência” tem sido lido e relido com interesse renovado pela academia. Apontado como um dos textos dos mais complexos e também mais incontornáveis para a discussão dos nexos e refrações entre poder e violência nas sociedades capitalistas avançadas, mereceu de Jacques Derrida, Giorgio Agamben e Judith Butler reflexões instigantes e atualizadas pelos dilemas contemporâneos. Inflamados pela recente ascensão de tendências protofascistas em todo o mundo, tais estudos nos levam a recolocar em questão algumas das inquietações que motivaram sua escrita no contexto da então incipiente República de Weimar: o que é violência? É possível o exercício de um poder instituído e mantido sem o recurso à violência? Do ponto de vista da ética e da política, há uma violência inevitável ou aceitável? Como combater a violência estatal ou sistêmica sem perpetuá-la? A não violência pode ser efetiva como potência política? Este artigo pretende indicar alguns desdobramentos das questões maiores tratadas por Walter Benjamin em três momentos principais de sua obra: Origem do drama barroco alemão (1916-1925), “Para a crítica da violência” (1921) e as teses “Sobre o conceito de história” (1940). À luz de uma leitura global e descolonial da imbricação apontada por Benjamin entre cultura e barbárie no âmago mesmo da marcha triunfal dos vencedores, a noção de verdadeiro Estado de exceção será acionada para delimitar algo como uma “violência revolucionária” encarregada de dinamitar o continuum do progresso em nome da emergência de uma nova era histórica.

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Biografia do Autor

Aléxia Cruz Bretas, Universidade Federal do ABC

Professora adjunta na Universidade Federal do ABC, onde leciona nos cursos de Filosofia e Ciências & Humanidades. Tem mestrado e doutorado em Filosofia pela USP (2010), pós-doutorado em Teoria Literária pela UNICAMP (2014) e estágios de pesquisa na Freie Universität Berlin (2009) e na Université Paris 8 (2013). É autora dos livros A Constelação do Sonho em Walter Benjamin (Humanitas, 2008), Do Romance de Artista à Permanência da Arte (Annablume, 2013), Fantasmagorias da Modernidade (Ed. UNIFESP, 2017) e Aquém do Homem (EdUFABC, no prelo). É membro do GT Filosofia e Gênero da ANPOF, da Rede Brasileira de Mulheres Filósofas e da Rede de Pesquisa Nexos: Teoria Crítica e Pesquisa Interdisciplinar.

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Publicado
12-05-2023
Como Citar
Bretas, A. C. (2023). PODER COMO VIOLÊNCIA, VIOLÊNCIA COMO PODER . Virtuajus, 8(14), 33-43. https://doi.org/10.5752/P.1678-3425.2023v8n14p33-43
Seção
Dossiê “Para uma crítica da violência": Walter Benjamin 100 anos depois