TEORIAS DO LUTO, FILOSOFIA DA HISTÓRIA

sobre o estatuto da tragédia no pensamento de Walter Benjamin

  • Beatriz Zampieri Universidade Federal do Rio de Janeiro
Palavras-chave: Walter Benjamin, Violência, Crítica, Luto, Mito, Tragédia

Resumo

O presente artigo procura formular a hipótese de uma filosofia política do luto no pensamento de Walter Benjamin, levando em consideração seus estudos sobre a tragédia nos escritos de juventude e, em particular, sua produção teórica da década de 1920. O argumento que fundamenta esta hipótese é que há certa especificidade inerente à teoria do trágico em Benjamin que excede a redução destes escritos a uma espécie de propedêutica teórica desconectada da totalidade de seu pensamento filosófico. Se, nos termos de Michel Löwy, há determinada “ruptura epistemológica” em sua filosofia, os elementos fundamentais deste momento de transição são anteriores aos escritos de 1930 e, sobretudo, à consolidação de suas Teses sobre o conceito de história. Existe na filosofia de Benjamin, afirmo, a partir da leitura de Birnbaum (2008), determinada incompletude inerente à concepção de tragédia e personagem trágico – ou do herói trágico – que reorienta e constitui uma noção muito particular de temporalidade, essencial à sua teoria da História. Esta incompletude pode ser chamada de tempo do luto – Trauerspiel, objeto de pesquisa de sua tese de habilitação sobre o barroco – e parece impregnar parte da produção teórica dessa época, especialmente no polêmico ensaio Para a crítica da violência. Escrito em 1921, este ensaio representa o momento de encontro fundamental de um pensamento engajado estética e politicamente com o próprio tempo. Benjamin atende à urgência de pensar sobre e através de seu tempo, ainda que com o risco de pensar uma forma inaugural ou, mesmo, perigosa, de estabelecer os limites para as manifestações particulares da violação da vida no direito. Os dois personagens lendários de Para a crítica da violência — Prometeu e Níobe — parecem apontar a esses registros particulares, bastante distintos, de violência. Assim, entre a esperança e o desespero, a tragédia oscila no pensamento benjaminiano e encontra, sob a figura do luto e da mãe enlutada, certa temporalidade que a vincula às representações barrocas. É preciso perguntar quem são essas personagens, quais as formas específicas à experiência de uma violência determinada que conclama as mulheres gregas – e não mais os heróis da Antiguidade Clássica – ao grito, rompendo com a injustiça no direito.

 

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Biografia do Autor

Beatriz Zampieri, Universidade Federal do Rio de Janeiro

Licenciada em Filosofia pela UFRJ (2017), mestra (2021) e doutoranda, com bolsa Capes, em Filosofia pelo PPGF/UFRJ. É pesquisadora integrante do Laboratório de Filosofias do Tempo do Agora – LAFITA e do Laboratório X - Encruzilhadas Filosóficas.

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Publicado
12-05-2023
Como Citar
Zampieri, B. (2023). TEORIAS DO LUTO, FILOSOFIA DA HISTÓRIA. Virtuajus, 8(14), 87-108. https://doi.org/10.5752/P.1678-3425.2023v8n14p87-108
Seção
Dossiê “Para uma crítica da violência": Walter Benjamin 100 anos depois