Epicidade rosiana e a questão romântico-idealista de uma nova mitologia
senso de épico e vontade de individuação
DOI:
https://doi.org/10.5752/P.2358-3428.2025v29n67p234-284Palavras-chave:
nova mitologia, Romantismo Alemão., literatura brasileira, epicidade rosiana, Guimarães RosaResumo
Este artigo propõe uma reflexão sobre a adjetivação de “épica” atribuída pela crítica à obra de João Guimarães Rosa, desde suas primeiras recepções até a consolidação em Grande Sertão: Veredas. Questiona-se de que forma um autor do século XX pode ser considerado épico, considerando o retorno das discussões sobre as formas literárias clássicas na modernidade, com fundamento no idealismo especulativo germânico e no primeiro romantismo alemão, sobretudo em Schelling e Friedrich Schlegel. O trabalho visa compreender como se forma um “senso de épico” na literatura rosiana, em tensão com uma “vontade de individuação” que desafia a completude do universo narrativo. A análise percorre a fortuna crítica, evidenciando como o sertão é recriado como espaço mitopoético e paradoxal, onde coexistem herança heroica e fragmentação subjetiva. Assim, observa-se que a obra de Rosa retoma estruturas épicas, mas as combina com recursos narrativos que problematizam o mito e evidenciam as contradições do sujeito moderno. O estudo aponta que esse entrelaçamento entre tradição e ruptura confere singularidade à produção de Rosa e contribui para o debate sobre o romance moderno. Conclui-se que entender essa dialética entre épico e individuação é essencial para situar Rosa na literatura brasileira e em seu diálogo com as grandes questões da modernidade.
Downloads
Referências
ALMEIDA, Renato. Sagarana. Correio da Manhã, ano XLVI, n. 15.845, p. 8, Rio de Janeiro, 30 jun. 1946. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=089842_05&pagfis=31981. Acesso em: 1 mai. 2026.
AMADO, Genolino. Em torno de um livro singular. Correio Paulistano, ano XCII, v. 27, n. 638, p. 7, São Paulo, abr. 1946. Disponível em: http://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=090972_09&pagfis=28312. Acesso em: 1 mai. 2026.
ARMANGI, Ana Helena Krause. Representações arquetípicas em “A estória de Lélio e Lina” In: ZILBERMAN, Regina (Org.) Corpo de Baile: romance, viagem e erotismo no sertão. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2007. p. 85-100.
ARRIGUCCI JÚNIOR, Davi. O mundo misturado: romance e experiência em Guimarães Rosa. Revista Novos Estudos (CEBRAP), n. 40, nov., p. 7-29, [s.l.], 1994. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/7769323/mod_resource/content/1/Davi%20Arrigucci%20%20O%20mundo%20misturado.pdf. Acesso em: 1 mai. 2026.
BECKENKAMP, Joãosinho. O mais antigo programa de sistema do idealismo alemão. Veritas, v. 2, n. 48, p. 211-237, Porto Alegre, 2003. Disponível em: https://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/veritas/article/view/34794 . Acesso em: 1 mai. 2026.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora Brasiliense, 1987.
BENSE, Max. Inteligência brasileira. São Paulo: Cosac & Naify, 2009.
BORBA, José Cesar. “Histórias de Itaguara e Cordisburgo”. Correio da Manhã, ano XLV, n. 15.809, p. 1-2, Rio de Janeiro, 19 mai. 1946. Disponível em: http://memoria.bn.gov.br/docreader/110523_04/33236. Acesso em: 1 mai. 2026.
CANDIDO, Antonio. Sagarana. O Jornal, Rio de Janeiro, ano XXVIII, n. 8045, p. 1-21, jul. 1946. Disponível em: http://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=110523_04&pagfis=34127. Acesso em: 1 mai. 2026.
CANDIDO, Antonio. O homem dos avessos. In: COUTINHO, Eduardo de Faria (Org.) Guimarães Rosa (Fortuna Crítica, nº 6). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991. p. 294-309.
CONDÉ, José. O ausente Cornélio Pena. Correio da Manhã, ano XLV, v. 15, n. 810, p. 10-26, Rio de Janeiro, mai. 1946. Disponível em: http://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=089842_05&pagfis=31452. Acesso em: 1 mai. 2026.
COUTINHO, Eduardo de Faria. Em busca da terceira margem: ensaios sobre o Grande Sertão: Veredas. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1993.
COSTA, Ana Maria Luiza da. Rosa, ledor de Homero. Revista USP, n. 36, p. 46-73, São Paulo, 1997. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/26983. Acesso em: 1 mai. 2026.
ESCOREL, Lauro. Nasce um escritor. Correio da Manhã, Ano XLV, v. 28 n. 15.782, p. 1, Rio de Janeiro, abr. 1946. Disponível em: http://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=089842_05&pagfis=31041. Acesso em: 1 mai. 2026.
GALVÃO, Walnice Nogueira. Mínima mímica: ensaios sobre Guimarães Rosa. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
GARBUGLIO, José Carlos. O fato épico e outros fatos. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 8, p. 79-95, São Paulo, 1968. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/rieb/article/view/45669/49265. Acesso em: 1 mai. 2026.
GENETTE, Gérad. Figuras III. Tradução de Ana Alencar. São Paulo: Estação Liberdade, 2018.
HANSEN, João Adolfo. O sertão de Rosa: uma ficção da linguagem. Suplemento Literário de Minas Gerais, n. Especial Guimarães Rosa, p. 18-20, Belo Horizonte, 2006. Disponível em: https://app.box.com/s/xe8wz45230cofqyheo35. Acesso em: 21 mai. 2024.
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Cursos de Estética. Volume IV. (Trad. Marco Aurélio Werle; Oliver Tolle). São Paulo: Editora EDUSP, 2014.
JOBIM, Renato. A volta de Guimarães Rosa. Diário Carioca, ano XXVIII, n. 8.508, p. 3, Rio de Janeiro, 8 abr. 1956. Disponível em: https://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=093092_04&pagfis=32222. Acesso em: 1 mai. 2026.
JOLLES, Andre. Formas simples. Tradução de Eduardo Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 1976.
LACOUE-LABARTHE, Philippe; NANCY, Jean-Luc. O absoluto literário: teoria da literatura do romantismo alemão. Tradução de Marcelo Jacques de Moraes, Maurício Mendonça Cardozo. Brasília: Editora UnB, 2022.
LEITE, Ascendino. “Arte e céu, países de primeira necessidade”. O Jornal, ano XXVIII, n. 7.997, p. 1; 3;7, Rio de Janeiro, 26 mai. 1946. Disponível em: http://memoria.bn.gov.br/docreader/110523_04/33236. Acesso em: 1 mai. 2026.
LINS, Álvaro. Uma grande estreia. Correio da Manhã, ano XLV, n. 15.779, p. 2, Rio de Janeiro, 12 abr. 1946. Disponível em: http://memoria.bn.br/DOCREADER/DocReader.aspx?bib=089842_05&PagFis=30786. Acesso em: 1 mai. 2026.
LORENZ, Günter. Diálogo com Guimarães Rosa. In: COUTINHO, Eduardo Faria de (Org.). Guimarães Rosa (Fortuna crítica, 6). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1986. p. 62-97.
LUKÁCS, Georg. A teoria do romance: um ensaio histórico-filosófico sobre as formas da grande épica. Tradução e notas de José Marcos Mariani de Macedo). 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2009a.
LUKÁCS, Georg. O romance como epopeia burguesa. In: LUKÁCS, Georg. Arte e sociedade: escritos estéticos (1932-1967). Tradução de Carlos Nelson Coutinho e José Paulo Netto. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009b. p. 193-245.
MACHADO FILHO, Aires. Um Neo-Regionalista. Diário de Notícias, ano XVII, n. 7.264, p. 1, Rio de Janeiro, 30 jun. 1946. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/docreader/DocReader.aspx?bib=093718_02&pagfis=28566. Acesso em: 1 mai. 2026.
MAIA, Jorge. Sagarana. Diário Carioca, ano XIX, n. 5.502, p. 7, Rio de Janeiro, 2 de jun. 1946. Disponível em: http://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=093092_03&pagfis=24815. Acesso em: 1 mai. 2026.
MARCHELLI, Clarissa Catarina Barletta. Do erro à graça: a sobrevida da cultura clássica e da tradição medieval em Corpo de Baile, de Guimarães Rosa. 2021. 192 f. Tese (Doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem, Campinas, São Paulo. 2021. Disponível em: https://hdl.handle.net/20.500.12733/1641635. Acesso em: 1 mai. 2026.
MILLET, Sérgio. Sagarana. Diário de Notícias, ano XVI, n. 7.228, p. 1, Rio de Janeiro, 23 mai. 1946. Disponível em: http://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=093718_02&pagfis=27974. Acesso em: 1 mai. 2026.
NUNES, Benedito. A rosa o que é de Rosa: literatura e filosofia em Guimarães Rosa. In: PINHEIRO, Victor Sales (Org.). Rio de Janeiro: Editora Difel, 2013.
OLIVEIRA, Franklin. Corpo de Baile”. Correio da Manhã, Rio de Janeiro: Ano LV, n. 19.364, p. 1, 12 mai. 1956. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/docreader/DocReader.aspx?bib=089842_06&pagfis=61803. Acesso: 1 mai. 2026.
PAZ, Octavio. Os filhos do barro: do romantismo à vanguarda. Tradução de Olga Savary. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1984.
PAZ, Octavio. O arco e a lira: O poema. A revelação poética. Poesia e história. Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. São Paulo: Cosacnaify, 2012.
PORTELA, Eduardo. “Um romance síntese”. Correio da Manhã, ano LVI, n. 19.537, p. 10, Rio de Janeiro, 1 dez. 1956. Disponível em: http://memoria.bn.gov.br/docreader/089842_06/69951. Acesso em: 1 mai. 2026.
PROENÇA, Manuel Cavalcanti. Trilhas no Grande Sertão. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação do MEC, 1958.
RAMOS, Gabriel Loureiro Pereira da Mota. Antecedentem creavit consequens: Friedrich Schlegel’s ontology of time and literary forms in “Rede an die Mytologie”. Cadernos de Filosofia Alemã: Crítica e Modernidade, v. 28, n. 1, p. 61-74, São Paulo, 2023. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/filosofiaalema/article/view/200792. Acesso em: 1 mai. 2026.
RAMOS, Gabriel Loureiro Pereira da Mota. Saudade do infinito: ensaios de metafísica romântica I. Belo Horizonte: Quixote+DO, 2024.
REGO, José Lins do. “Sagarana”. Correio Paulistano, São Paulo: Ano XCII, n. 27.631, p. 3, 26 abr. 1946. Disponível em: http://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=090972_09&pagfis=28187. Acesso: 1 mai. 2026.
REGO, José Lins do. Sagarana. O Globo, Rio de Janeiro, 10 mai. 1946a. Disponível em: https://acervo.oglobo.globo.com/consultaaoacervo/?navegacaoPorData=194019460510C&edicao=Vespertina. Acesso em: 1 mai. 2026.
ROSA, João Guimarães. No Urubuquaquá, no Pinhém: (Corpo de Baile). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
ROSA, João Guimarães. Sagarana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
ROSA, João Guimarães. Correspondência com seu tradutor italiano Edoardo Bizzarri. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003.
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
RUTHVEN, K. K. O mito. Tradução de Esther Eva Horivitz). São Paulo: Editora Perspectiva, 2010.
SANTOS, Wendel. A construção do romance em Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Ática, 1976.
SHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von." Aditamento à 'Introdução' (1803)". In: SHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Ideias para uma filosofia da natureza: prefácio, introdução e aditamento à introdução. Tradução,prefácio, notas e apêndices de Carlos Morujão. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2001a. p. 119-147.
SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Cartas Filosóficas sobre o Dogmatismo e o Criticismo. In: Textos escolhidos – Os Pensadores. Tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Nova Cultural, 1989. p. 1-37.
SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Ideias para uma filosofia da natureza: prefácio, introdução e aditamento à introdução. Tradução, prefácio, notas e apêndices de Carlos Morujão. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2001a.
SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Filosofia da arte. Tradução de Márcio Suzuki. São Paulo: Edusp, 2001b.
SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Historical-critical introduction to the Philosophy of Mythology. Tradução de Mason Richey e Markus Zisselsberger. Albany: State University of New York Press, 2007.
SCHLEGEL, Friedrich von. Da essência da crítica e outros textos. Tradução de Bruno C. Duarte. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2015.
SCHLEGEL, Friedrich von. Fragmentos sobre poesia e literatura (1797-1803): seguido de Conversa sobre a poesia. Tradução e notas de Constantino Luz de Medeiros e Márcio Suzuki. São Paulo: Unesp, 2016.
SCHLEGEL, Friedrich von. Dialeto dos fragmentos. Organização, tradução, apresentação e notas de Márcio Suzuki. 2. ed. São Paulo: Iluminuras, 2021.
SCHMIDT, Antonio Frederico. Sagarana. Correio da Manhã, ano XLV, n. 15.796, p. 2, Rio de Janeiro, 4 mai. 1946. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=089842_05&PagFis=31096. Acesso em: 1 mai. 2026.
SCHÜLER, Donaldo. “O épico em Grande Sertão: Veredas”. In: CESAR, Guilhermino (Org.) João Guimarães Rosa. Porto Alegre: Editora da Faculdade de Filosofia da UFRGS, p. 47-76, 1969.
SILVEIRA, Alcantara. Corpo de Baile. O Jornal, ano XXXVI, n. 10.957, p. 3, Rio de Janeiro, 27 mai. 1956, p. 3, 1956. Disponível em: http://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=110523_05&pagfis=43499. Acesso em: 1 mai. 2026.
SUASSUNA, Ariano. Encantação de Guimarães Rosa. Revista Estudos Universitários, n. 4, p. 73-95, Recife, out./dez., 1967. Disponível em: https://periodicos.ufpe.br/revistas/index.php/estudosuniversitarios/article/view/256496/42756. Acesso em: 1 mai. 2026.
VARELA, Maria Helena. O heterologos em língua portuguesa: elementos para uma antropologia filosófica situada. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1996.
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 Editora PUC Minas

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.
O envio de qualquer colaboração implica, automaticamente, a cessão integral dos direitos autorais à PUC Minas. Solicita-se aos autores assegurarem:
- a inexistência de conflito de interesses (relações entre autores, empresas/instituições ou indivíduos com interesse no tema abordado pelo artigo), e
- órgãos ou instituições financiadoras da pesquisa que deu origem ao artigo.
- todos os trabalhos submetidos estarão automaticamente inscritos sob uma licença creative commons do tipo "by-nc-nd/4.0".
Português
English
Español
Italiano





