Gradiva Espectral

  • Márcia Tiburi Universidade Mackenzie, São Paulo

Resumo

A tese deste artigo nasce de uma leitura do livro “Gradiva, uma fantasia pompeiana” de Wilhelm Jensen, bem como do famoso estudo “Delírios e Sonhos na Gradiva de Jensen” escrito por Freud a partir daquele romance. A questão mais evidente do livro, a relação de “amor” entre Zoé Bertgang e Norbert Hanold cujo conflito é o delírio deste último, ajudou Freud a expor a teoria psicanalítica do amor como "transferência". Mas há nas camadas mais arqueológicas de ambos os textos um problema não percebido por nenhum destes autores. Trata-se da formulação mesma da personagem de Zoé Bertgang que merece uma análise mais atenciosa relativamente ao fato de ser ela o personagem que está no cerne do delírio de Hanold, sendo seu operador radical. No entanto, Norbert Hanold é muito mais do que um homem em delírio e que, por meio do amor pode se livrar dele. Em um nível mais profundo, ele é o representante do sujeito da cultura patriarcal que contrapõe à mulher concreta uma imagem idealizada. Assim Hanold vem nos mostrar, que o núcleo do sistema patriarcal é o de um delírio, de uma fantasmagoria que põe a mulher como mera imagem de si mesma enquanto essa imagem serve ao que, em termos biopolíticos, vem sendo chamado, desde Walter Benjamin, de “mera vida”.

The thesis of this article comes from a reading of the book "Gradiva: a Pompeiian fancy", written by Wilhelm Jensen, as well as the famous study "Delusions and Dreams in Jensen's Gradiva", written by Freud from that novel. The book’s most evident question, the “love” relationship between Zoé Bertgang and Norbert Hanold, of which the delusion of the latter is the conflict, helped Freud to develop the psychoanalytic theory of love as "transfer". But there is, in the more archaeological layers of both texts, a problem unnoticed by any of the authors. It regards the very formulation of the character of Zoé Bertgang, which deserves a more attentive analysis, as she is the character who is at the heart of Hanold's delusion, being its radical operator. However, Norbert Hanold is much more than a man in delirium who, through love, could get rid of it. On a deeper level, he is the representative of the patriarchal cultural subject who opposes to women a concrete idealized image. Thus, Hanold comes to show us that the core of the patriarchal system is that of a delusion, that of a phantasmagoria which places woman as mere image of herself while that image serves to what, in biopolitical terms, has been called, since Walter Benjamin, "mere life".

Biografia do Autor

Márcia Tiburi, Universidade Mackenzie, São Paulo
Professora da Universidade Mackenzie, São Paulo

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Publicado
23-01-2013
Como Citar
Tiburi, M. (2013). Gradiva Espectral. Sapere Aude, 3(6), 421-454. Recuperado de http://periodicos.pucminas.br/index.php/SapereAude/article/view/4662
Seção
ARTIGOS/ARTICLES: TEMÁTICA LIVRE/FREE SUBJECT