MÃES INVISÍVEIS: FATORES PSICOSSOCIAIS QUE LEVAM MULHERES A ENTREGAREM OS FILHOS PARA ADOÇÃO

  • Camila de Lucena Iotti Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
Palavras-chave: Mães biológicas, Adoção, Entrega, Abandono, Maternidade

Resumo

Este trabalho teve por objetivo realizar uma revisão narrativa da literatura acerca das motivações que levam mulheres a entregarem os filhos para adoção, destacando os fatores econômicos, sociais e psicológicos bem como as implicações para a prática de profissionais da saúde. É possível perceber uma invisibilidade social de tais mulheres, comumente mulheres solteiras, jovens, pobres, sem apoio familiar e conjugal. Apesar da multifatoriedade dos eventos, questões psicológicas parecem pesar mais na tomada de decisão, sendo um momento de intensa culpa e ambivalência também devido ao repúdio social e institucional. O imaginário coletivo de “boa mãe” é rompido, e ainda que haja legislações que garantam o acolhimento das mães biológicas, práticas profissionais ainda atuam sob a ótica do mito do amor materno. Tal postura acaba auxiliando à reprodução de ciclos de abandono, uma vez que essas mães “abandonam” seus filhos por também, em muitas vezes, terem sido anteriormente abandonadas.

Referências

ASSOCIAÇÃO DOS MAGISTRADOS BRASILEIROS. Campanha da AMB em favor da adoção consciente. Cartilha para profissionais de saúde. São Paulo, 2008.

BADINTER, Élisabeth. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

BRASIL. Código Penal. Decreto-lei N 2.848/40. Art. 242. Rio de Janeiro: 1940.

BRASIL. Código Civil. Lei N 8.069/90. ECA: ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE (9 ed.). Brasília: Câmara dos Deputados, 2010.

BRASIL. Código Civil. Lei N 12.010/09. ECA: Estatuto da Criança e do Adolescente. Altera a Lei N 8.560/92 Brasília: 2009.

BRASIL. Código Civil. Lei N 4.121. Estatuto da Mulher Casada. Brasília: Senado Federal, 1962.

BRASIL. Código Civil. Lei N 6.515/77. Regula os casos de dissolução da sociedade conjugal e do casamento. Brasília: Senado Federal, 1977.

BRASIL. Código Civil. Lei N 8.560/92. Brasília: Senado Federal, 1992.

BONNET, Catherine. “Adoption at birth: Prevention against abandonment or neonaticide”. Child Abuse & Neglect, vol. 17, p. 501-513, 1993.

BOWLBY, John. Cuidados maternos e saúde mental. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

BURNELL, George; NORFLEET, Mary. “Women who place their infant for adoption: a pilot study”. Patient counseling and health, v. 1, p. 169-172, 1979.

COELHO, Edméia de Almeida; LUCENA, Maria de Fátima de; SILVA, Ana Tereza. “O planejamento familiar no Brasil no contexto das políticas públicas de saúde: determinantes históricos”. Revista da Escola de Enfermagem. USP, São Paulo, v. 34, n. 1, p. 37-44, mar. 2000.

CONDON, John. “Psychological disability in women who relinquish a baby for adoption”. Medical Journal of Australia, n. 14 p. 117-119, fev., 1986.

Conselho Federal de Psicologia (2005) Código de Ética Profissional do Psicólogo.

CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA (2015). “Como proceder para entregar uma criança à adoção”. 2015. Disponível em . Acesso em: 16 de nov. de 2018.

CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. “Dia da adoção: 8,7 mil crianças à espera de uma família”. 2018. Disponível em . Acesso em: 26 de set. 2018.

CRAIG, Michael. “Perinatal risk factors for neonaticide and infant homicide: can we identify those at risk?” Journal of The Royal Society of Medicine. Londres, 97(2), 57-61, 2004.

DAHER, Adriana Said, LALONI, Diana Tosello, & BAPTISTA, Makilim Nunes. Protocolo hospitalar às mães em processo de doação do recém-nascido. Estudos de Psicologia. Campinas, 16(2), 1999, 45-53.

DEL PRIORE, Mary. A mulher na história do Brasil: raízes históricas do machismo brasileiro, a mulher no imaginário social, “lugar de mulher é na história”. São Paulo: Contexto, 1989.

DINIZ, João Seabra. “A adoção: Notas para uma visão global”. In FREIRE, Fernando (Org.). Abandono e adoção: Contribuições para uma cultura da adoção. Curitiba: Terre des Hommes, 1994. p. 13-30.

DINIZ, João Seabra. “Aspectos sociais e psicológicos da adoção”. In FREIRE, Fernando (Org.). Abandono e adoção: Contribuições para uma cultura da adoção. Curitiba: Terre des Hommes, 1994. p. 105-120.

DRESCHER-BURKE, K., KRALL, J.; PENICK, A. “Discarded infants and neonaticide: A review of literature”. National Abandoned Infants Assistance Resource Center, Berkeley, CA: University of California at Berkeley, 2004.

FARAJ, Suane et al. “Quero Entregar meu Bebê para Adoção”: O Manejo de Profissionais da Saúde”. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília, vol. 32 n. 1, p. 151-159, jan-mar, 2016.

FERNANDES, Rosangela Torquato et al. “Tecendo as teias do abandono: além das percepções das mães de bebês prematuros”. Ciência & Saúde Coletiva, 16(10), p. 4033-4042, 2011.

FONSECA, Claudia. “Mães "abandonantes": fragmentos de uma história silenciada”. Revista de Estudos Feministas, Florianópolis, v. 20, n. 1, p. 13-32, abril, 2012.

FRESTON, Yolanda; FRESTON, Paul. “A mãe biológica em casos de adoção: Um perfil da pobreza e do abandono”. In FREIRE, Fernando (Org.). Abandono e adoção: Contribuições para uma cultura da adoção. Curitiba: Terre des Hommes, 1994. P. 81-90.

FREUD, Sigmund. Sobre o narcisismo: uma introdução (1914). Rio de Janeiro: Imago, 1972.

FUNDAÇÃO ABRINQ. “Cenário da Infância e Adolescência no Brasil”. São Paulo, 2018.

GUEDES-SILVA, Damiana; SOUZA, Marise de; MOREIRA, Vilma; GENESTRA, Marcelo. “Depressão pós-parto: Prevenção e consequências”. Revista Mal Estar e Subjetividade, Fortaleza, 3 (2), 439-450, 2003.

JONES, Merry Bloch. Birthmothers: women who have relinquished babies for adoption tell their stories. Chicago: Review Press, 1993.

KEHL, Maria Rita. Deslocamentos do feminino: a mulher freudiana na passagem para a modernidade. São Paulo: Boitempo Editorial, 2016.

LAPLANCHE, Jean & PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário de Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2000, p. 447.

LEÃO, Flavia Elso et al. “Mulheres que entregam seus filhos para adoção: um estudo documental”. Revista Subjetividades, Fortaleza, v. 14, n. 2, p. 276-283, ago. 2014 .
Disponível em . acessos em 22 maio 2019.

LEÃO, Luciane & ARAÚJO, Raquel. Mães que entregam seus filhos para adoção: uma realidade negada. 2014. Trabalho de Conclusão de Curso (Curso de Psicologia) - Centro Universitário Luterano de Palmas, Palmas, Tocantins, Brasil. 2014.

MARCÍLIO, Maria Luiza. “A roda dos expostos e a criança abandonada na história do Brasil 1726-1950”. In FREITAS, Marcos. (Org.). História social da infância no Brasil, São Paulo: Cortez, 1997. p. 51-76.

MARCÍLIO, Maria Luiza. História social da criança abandonada. São Paulo: Hucitec, 1998.

MORAES, Patrícia Jakeliny; SANTOS DOS, Benedito; RABELO, Rosimeire. O outro lado da história: a entrega de um filho para adoção. Sociedade & Saúde, Campinas, SP v. 11, n. 2 (14), 2012, p. 209 - 222.

KLEIN, Melanie. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921–1945). Rio de Janeiro: Imago, 1996.

MENEZES, Karla Luna de; DIAS, Cristina Maria de Souza Brito. “Mães doadoras: motivos e sentimentos subjacentes à doação”. Revista Mal Estar e Subjetividade., Fortaleza, v. 11, n. 3, p. 935-965, 2011. Available from . access on 22 May 2019.

MENDLOWICZ, Mauro Vitor et al. (1998). “A case-control study on the socio-demographic characteristics of 53 neonaticial mothers”. International Journal of Law and Psychiatry, 21 (2), 209-219, 1998.

MOTTA, Maria Antonieta Pisano. Mães abandonadas: a entrega de um filho em adoção. 3ed. São Paulo: Cortez, 2005.

MUZA, Gilson Maestrini. “A criança abusada”. Jornal de Pediatria, Rio de Janeiro, vol. 70, n. 1, p. 56-60, 1994.

PEDRO, Joana Maria. “A experiência com contraceptivos no Brasil: uma questão de geração”. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 23, n. 45, p. 239-260, Julho, 2003 . Available from . access on 22 May 2019.

PEREIRA, Juliana Fernandes; COSTA, Liana Fortunato. “O ciclo recursivo do abandono”. Psicologia.pt [online]. Porto, 2004. Disponível em http://www.psicologia.com.pt/artigos/ver_artigo.php?codigo=A0207&area=d4&subarea. Acesso em 10/04/2019.

PODER JUDICIÁRIO DE PERNAMBUCO. Programas Acolher e Mãe Legal. Disponível em https://www.tjpe.jus.br/web/infancia-e-juventude/adocao/programa-acolher. Acesso em 20 de outubro de 2018.

REIS, Ana Regina Gomes dos. Do segundo sexo à segunda onda: discursos feministas sobre a maternidade. 2008. Dissertação (Mestrado em Filosofia e Ciências Humanas) - Universidade Federal da Bahia, Salvador, Bahia, Brasil.

ROLES, Patricia. Saying goodbye to a baby: The birthparent’s guide to loss and grief in adoption. Washington, DC: Child Welfare League of America, 1989.

SANTOS, Lucinete. “Mulheres que entregam seus filhos para adoção: os vários lados dessa história”. In FREIRE, Fernando (Org.). Abandono e adoção: contribuições para uma cultura da adoção. Curitiba: Terre des Hommes, 2001. p. 189-196.

SARAIVA, Rúbia Evelyn A.; COUTINHO, Maria da Penha L. “O sofrimento psíquico no puerpério: Um estudo psicossociológico”. Revista Mal Estar e Subjetividade, 8 (2), p. 505- 527, 2008.

SILVA, Maria Arleide; NETO, Gilliat Hanois; FILHO, José Eulálio.“Maus-tratos na infância de mulheres vítimas de violência”. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 14, n. 1, p. 121-127, jan./mar, 2009.

SOEJIMA, Carolina Santos; WEBER, Lídia Natália. “O que leva uma mãe a abandonar um filho?”. Aletheia, (28), p. 174-187, 2008.

SOUZA, Hália Pauliv de; CASANOVA, Renata Pauliv. Adoção: O amor faz o mundo girar mais rápido. Curitiba: Juruá, 2012.

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO RIO GRANDE DO SUL. Entrega Responsável. Coordenadoria da Infância e da Juventude. Disponível em http://jij.tjrs.jus.br/cij.php?pagina=cij-entrega-responsavel , 2017.

WEBER, Lidia Natália Dobriansky. “Filhos de ninguém: abandono e institucionalização de crianças no Brasil”. Conjuntura social. Rio de Janeiro, n. 4, p. 30 - 36, julho, 2000.

WEBER, Lídia Natália D.; KOSSOBUDZKI, Lúcia Helena. Filhos da solidão: institucionalização, abandono e adoção. Curitiba: Governo do Estado do Paraná, 1996, p. 212.

WEBER, Lídia, D. Laços de ternura: pesquisas e histórias de adoção. Curitiba: Juruá, 3 ed., 2004.
WILLE, Mônica Fernanda; MAFFEI, Alexsandra. “Mães que entregaram seus filhos para adoção”. In I Mostra de Iniciação Científica Curso de Psicologia da FSG, Caxias do Sul, Centro Universitário da Serra Gaúcha. Anais… Caxias do Sul: 2014. p. 370 - 394.

WINNICOTT, Donald. Os bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
Publicado
07-09-2020
Como Citar
DE LUCENA IOTTI, C. MÃES INVISÍVEIS: FATORES PSICOSSOCIAIS QUE LEVAM MULHERES A ENTREGAREM OS FILHOS PARA ADOÇÃO. Pretextos - Revista da Graduação em Psicologia da PUC Minas, v. 5, n. 9, p. 453-471, 7 set. 2020.
Seção
Artigos de temática livre