Machado de Assis e a questão racial:
a formação da música popular brasileira e o recalque do maxixe em “Um homem célebre"
Palavras-chave:
Machado de Assis, Recalque, Música Popular Brasileira, Identidade Cultural, Cultura Afro-BrasileiraResumo
Este artigo analisa como o conto "Um Homem Célebre", de Machado de Assis, reflete os conflitos raciais ao abordar a tensão entre cultura erudita e popular no Brasil do século XIX. Com base no conceito psicanalítico de recalque (Verdrängung), tal como apropriado por José Miguel Wisnik em sua leitura cultural da música brasileira, interpreta-se a trajetória do personagem Pestana como uma metáfora para o retorno do recalcado (Wiederkehr des Verdrängten): a musicalidade afro-brasileira reprimida, mas essencial na formação da música popular. O estudo introduz a sublimação (Sublimierung) como conceito complementar, explorando o processo de transformação simbólica que preserva e, ao mesmo tempo, neutraliza expressões culturais subalternizadas. A metodologia integra análise literária e estudos culturais, contextualizando o texto de Machado nas transformações musicais do período, especialmente a transição da polca ao maxixe, compreendida como um processo de crioulização cultural. Conclui-se que Machado não apenas antecipa debates sobre a repressão e reinvenção da presença afrodescendente, mas também revela a música popular como espaço de disputa e negociação. A introdução da sublimação amplia a compreensão desses processos, evidenciando os entraves culturais e raciais que continuam a influenciar as disputas em torno da identidade nacional no Brasil contemporâneo.
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