CICATRIZES INVISÍVEIS: O ESTIGMA COMO BARREIRA NA VIDA DE PESSOAS COM TRANSTORNOS MENTAIS
STIGMA AS A BARRIER IN THE LIVES OF PEOPLE WITH MENTAL DISORDERS
Palavras-chave:
Estigma, Transtornos mentais, Estratégias de enfrentamento, Fatores socioculturais, Luta antimanicomialResumo
O estigma permanece como um desafio central na vida de pessoas com transtornos mentais, manifestando-se nos contextos social, familiar e institucional de forma complexa e persistente. Este artigo, resultado de um Trabalho de Conclusão de Curso, teve como objetivo analisar os impactos do estigma na vida de indivíduos com transtornos mentais, identificando os fatores socioculturais que contribuem para sua manutenção e as estratégias de enfrentamento adotadas. A metodologia consistiu em uma revisão integrativa da literatura, com estudos publicados nos últimos vinte anos, localizados nas bases de dados PubMed, SciELO e Portal CAPES. Após a aplicação de critérios de inclusão e exclusão, foram selecionados 21 artigos. A análise dos dados seguiu os procedimentos da Análise de Conteúdo proposta por Bardin, resultando em três categorias temáticas: 1) Vivência e impactos do estigma, 2) Fatores sociais e culturais que sustentam o estigma e 3) Estratégias de enfrentamento. Os resultados evidenciam que o estigma compromete a saúde mental, repercutindo na autoimagem, nas relações interpessoais e na busca por cuidado, muitas vezes desencadeando a internalização de estereótipos negativos. A produção e reprodução do estigma estão enraizadas em dinâmicas socioculturais amplas, atravessadas por desigualdades estruturais, heranças históricas que perpetuam o preconceito, sendo intensificados por vulnerabilidades e pela interseccionalidade. Ou seja, o estigma não é um fenômeno individual ou pontual, mas sim um produto de forças sociais, históricas e políticas mais amplas. Ele se intensifica quando se cruza com desigualdades já existentes e múltiplas formas de exclusão. Conclui-se que, embora o estigma em torno da doença mental ainda seja um obstáculo relevante, há esforços crescentes em sua desconstrução, com destaque para o fortalecimento das políticas de saúde mental e das práticas inspiradas na Luta Antimanicomial. O estudo contribui para a compreensão crítica do fenômeno, oferecendo subsídios para o desenvolvimento de práticas psicológicas mais eficazes, éticas e humanizadas.
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