A INTERSEÇÃO ENTRE TRAJETÓRIAS LABORAIS E VIVÊNCIAS DE MOBILIDADE: UMA ANÁLISE A PARTIR DE PROJETOS NA TEMÁTICA MIGRATÓRIA
Palavras-chave:
trabalho, Migração, Extensão universitária, Experiência, MigranteResumo
A mobilidade de pessoas pelo mundo, no capitalismo, torna-se imperativa para fazer girar o capital e, simultaneamente, traz em seu cerne restrições na entrada, saída e permanência em outros países. Sendo assim, os trajetos, caminhos, pontos de partida e chegada das pessoas em mobilidade são perpassados por marcadores sociais da diferença tais como raça, gênero, sexualidade e nacionalidade. Este trabalho é uma reflexão sobre dois projetos que o Laboratório de Estudos sobre Trabalho, Cárcere e Direitos Humanos (LabTrab/UFMG) realiza com a população migrante: uma pesquisa sobre as dinâmicas migratórias e as trajetórias laborais de haitianos e o projeto de extensão de apoio psicossocial a estudantes do Pró-Imigrantes, curso preparatório para o ENEM promovido pela Faculdade de Letras (FALE/UFMG), em oficina específica sobre trabalho. Dentre as reflexões sobre as trajetórias laborais, a de que a atividade realizada no Brasil pelos migrantes ouvidos não condiz com a formação acadêmica e profissional obtida no país de origem, indicando um descompasso entre a formação profissional e o trabalho nos países de destino. Tal cenário caracteriza-se pelo desperdício de experiência (Barros, 2017). Ainda sobre suas trajetórias laborais, existe uma predominância de experiências em trabalhos precarizados, pouco qualificados e desvalorizados, resultando em uma baixa mobilidade social ascendente. A interseção entre trajetórias laborais e experiências de mobilidade revela um panorama complexo e multifacetado, onde a dinâmica do trabalho não apenas reflete, mas também molda a experiência daqueles que se deslocam em busca de oportunidades e melhores condições de vida. A precarização do trabalho, o xenoracismo e as barreiras linguísticas são obstáculos que comprometem a qualidade das trajetórias laborais, impactando diretamente na experiência de mobilidade. Compreender esses elementos pode contribuir para construir e repensar políticas migratórias de acolhimento que possuam como referência o direito ao trabalho decente independente da nacionalidade e outros marcadores sociais da diferença.
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