DO SILÊNCIO AO GRITO:

a alusão como ponte entre textos, saberes e sujeitos, em Belchior

Autores

  • João Leonardo Cordeiro Júnior
  • Vera Lúcia Morais de Souza

Resumo

O presente artigo analisa o papel da alusão nas construção das letras das canções "A Palo Seco" (1974), "Velha Roupa Colorida" (1976) e "Divina Comédia Humana" (1977), de Belchior, evidenciando como essa tática intertextual fomenta o diálogo entre literatura, sociedade e discurso. O estudo fundamenta-se em uma abordagem discursiva para compreender como as letras do compositor cearense atuam como enunciados lírico-musicais, que ativam a memória cultural e intertextual do ouvinte. Apoiada em autores como Koch, Samoyault, Piègay-Gros e Cavalcante, a pesquisa define a alusão como um procedimento intertextual, que se realiza através de pistas sutis, capazes de acionar a memória cultural do leitor/ouvinte. A análise das três canções revela como Belchior manipula múltiplas camadas discursivas: em "A Palo Seco", ele reinterpreta poeticamente a ideia de cante puro, presente no poema de mesmo nome de João Cabral de Melo Neto, como uma metáfora para a resistência e a autenticidade estética. Em "Velha Roupa Colorida", alude ao movimento hippie e à contracultura da década de 1960 como elementos interdiscursivos. Em "Divina Comédia Humana", mescla Dante Alighieri e Olavo Bilac, edificando uma viagem poética entre o inferno, o purgatório e o paraíso. Por meio da alusão, o discurso de Belchior revela-se polifônico, engajado e crítico, ultrapassando a estética musical para estabelecer-se como um local de contestação e memória histórica. Conclui-se que a obra de Belchior atualiza discursos literários, filosóficos e sociais, através de sua música, transformando-a em um território de representação simbólica da experiência, em que o canto "torto feito faca" convida à leitura nas entrelinhas. Assim, a alusão atua como uma ponte entre textos, saberes e sujeitos.

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Publicado

2025-12-31