Aulas de Português na formação de engenheiros: expectativas e concepções de alunos e professores de instituição pública em Minas Gerais

  • Ana Elisa Ribeiro
  • Izabella F. Guimarães
  • Suelen E. Costa da Silva
Palavras-chave: Ensino de Português. Competências comunicacionais. Letramento. Letramento acadêmico. Português para fins específicos.

Resumo

Um dos prováveis efeitos do Parecer CNE/CES 1.362 nas instituições que oferecem cursos de engenharia no Brasil foi a inclusão de disciplinas de redação ou de língua materna nas matrizes curriculares de cursos novos ou na reforma de cursos antigos. O referido documento focaliza, abertamente, as “competências comunicacionais” que um engenheiro deveria desenvolver, mencionando habilidades de comunicar-se “eficientemente, nas formas oral, escrita e gráfica”. Este trabalho é resultado de uma investigação sobre o ensino de português na engenharia, em uma instituição pública federal de Minas Gerais, reconhecida principalmente pela excelência na formação de engenheiros e técnicos. Fundamentaram a pesquisa as concepções de letramento, letramento acadêmico e ensino de língua materna para fins específicos, especialmente em autores como Soares (2004), Schalkwyk (2008) e Cintra e Passarelli (2008). A instituição pesquisada oferece cursos de redação e/ou português em todas as graduações em engenharia, seja como disciplinas obrigatórias ou optativas. Visando a abordar concepções e expectativas do público-alvo dessas disciplinas sobre as aulas de língua materna para fins específicos, empregou-se a técnica do grupo focal com alunos de engenharia e a entrevista, com coordenadores de cursos. As gravações dessas coletas de dados geraram transcrições, que permitiram nossa discussão aqui apresentada. Os resultados levam à conclusão de que as expectativas de alunos e coordenadores giram em torno de uma concepção pouco ligada ao letramento acadêmico e mais voltada ao exercício de “fórmulas” e “modelos” de gêneros textuais que circulam, principalmente, no domínio profissional. Essas expectativas estão pouco alinhadas até mesmo ao documento oficial que orienta a composição desses bacharelados. Além de discutir essas concepções, refletimos aqui sobre a existência de disciplinas de redação/português na matriz curricular de engenharia e a necessidade de que elas sejam oferecidas com base em concepções ligadas ao letramento e às práticas sociais e profissionais da escrita.

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Publicado
17-07-2012
Como Citar
Elisa Ribeiro, A., F. Guimarães, I., & E. Costa da Silva, S. (2012). Aulas de Português na formação de engenheiros: expectativas e concepções de alunos e professores de instituição pública em Minas Gerais. Scripta, 16(30), 117-136. Recuperado de http://periodicos.pucminas.br/index.php/scripta/article/view/4243
Seção
Dossiê: Leitura e escrita – da universidade ao mundo profissional