A floresta que vos fala:
Vozes Yanomami contra a destruição
Palavras-chave:
Yanomami, Meio Ambiente, Terra-floresta, CosmovisãoResumo
A escrita colaborativa tecida entre Bruce Albert e Davi Kopenawa em “O Espírito da Floresta” nos convida a imergir na reflexão acerca de outras leituras no que tange a natureza. O que denominamos, conhecemos e evocamos como meio ambiente (Terra), pode ser facilmente revisitada por uma releitura e ser chamada por “urihi a pree ou urihi a pata, “a grande terra-floresta”, ‘o mundo inteiro’” (Albert e Kopenawa, 2023, p. 39). Começamos então a delicadamente nos abrir a uma outra perspectiva que além de ser expansiva, é plural. Reconhecendo que, por vezes, o pensamento ocidental é engessado.
Para iniciar Bruce Albert e Davi Kopenawa, apresentam um vasto repertório de palavras carregadas de signos e significados a respeito da existência. Devemos considerar a existência como tudo aquilo que carrega a vida, ou seja, os corpos ambientais, humanos, celestiais e animais. O mito da criação da existência por Omama a é mobilizado para endossar o Urihi a, o local onde habitamos, vivemos e exploramos.
Logo nas primeiras palavras do capítulo 1 - Urihi a, Davi Kopenawa, de maneira magistral, chama atenção para refletir na sacralidade da nossa terra-floresta, visto que apenas existe porque uma divindade existe. A existência é sagrada e despida de qualquer soberba. Do mesmo modo que a divindade Omama a cria, reconhecendo exageros e erros, volta atrás e recria.
A leitura da obra é marcada por uma efervescência de reflexões ocasionadas pelo convite de Kopenawa e Albert para escutar o que o vivido espírito da floresta tem a nos dizer. Rompendo com uma lógica de produção acadêmica centrada nos danos, mazelas e destruição que atravessam as pesquisas voltadas aos povos originários.
Assim como os seres humanos que são permeados pelo sopro da vida, a terra-floresta também se mantém viva, “sofre e sente dor quando derrubam suas árvores” (p. 43). E assim, conseguimos ler a vida como vasta conforme Albert dialoga conosco, os leitores. Não sendo restrita aos seres humanos, a equação da vida conta com agentes humanos e não-humanos.
Delimitada a equação da vida, a reflexão começa a nos introduzir à interpretação da cosmovisão dos Yanomami, que atravessa todos os capítulos da obra, desenhando ao leitor como o habitar o espaço é mais complexo e carregado de signos e significados do que se imagina. Logo, a compreensão que o mundo e seus elementos palpáveis e não-palpáveis: Natureza, espíritos, seres humanos e não-humanos, se relacionam entre si de maneira plural e profunda.
No decorrer da obra, destaca-se cinco pontos que merecem o devido olhar sensível do leitor em detrimento da cosmovisão dos Yanomami a respeito dos corpos ambientais. 1) Há a premissa de que todos os seres vivos estão em interconexão constituindo uma vasta teia de significados e sentidos, começando pelo floresta e os xapiri (espíritos) que são responsáveis pela proteção do Urihi a (terra-floresta), qualquer fenômeno que venha desequilibrar qualquer um dos elementos, reverbera o desequilíbrio em toda a teia; 2) Uma vez que há alguma desarmonia, os xamãs são responsáveis em firmar com os xapiri da floresta para viabilizar o equilíbrio, a cura para moléstias e a proteção do mundo face às investidas degradantes do homem branco ocidental (napë) que ameaçam a saúde do meio ambiente.
Tecendo um rearranjo histórico, vejamos que nas terras brasilis desde o advento da colonização portuguesa o Urihi a vem sendo saqueado e levado à exaustão em nome do progresso, da ganância pelo capital e da validação supremacista, em diálogo com Malcom Ferdinand, cabe nos voltar ao que ele denomina como fratura colonial. Retomando ao terceiro dos nossos cinco ponto de reflexão, 3) A fratura colonial é uma marca que enraizou-se nas estruturas da sociedade, corroborando com a dilaceração do habitar e do viver em equilíbrio no Urihi a, tornando quase que impraticável a ação dos territórios itinerantes no fazer Yanomami.
Para o povo Yanomami, a degradação em nome do lucro atravessa tanto os aspectos ambientais bem como as nuances da existência e da espiritualidade, causando o desequilíbrio. Sendo assim, 4) É elaborada a compreensão de que a origem do mundo, dos corpos humanos, ambientais e celestiais constituem uma rica cosmologia cujo a qual nada é inerte, o movimento define todas as interações da teia, os xapiri cantam e dançam para manter o céu suspenso, uma vida possível e um futuro ancestral. Por fim, 5) Podemos afirmar que o escrito, é um ávido convite para enxergar a floresta como lar de base matriarcal que cuida, provê, alimenta e protege os seres que nela habita. Os Yanomami nos ensinam que o respeito à vida, a escuta e o cuidado à terra-floresta são potentes ferramentas de oposição ao extrativismo capitalista.
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Referências
ALBERT, Bruce; KOPENAWA, Davi. O espírito da floresta. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2023.
FERDINAND, Malcom. Uma ecologia decolonial: Pensar a partir do mundo caribenho. São Paulo: Ubu Editora, 2022.
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