Enunciar entre a presença e a ausência
(re)valorações da palavra-alheia a partir de A outra filha(2010), de Annie Ernaux
DOI:
https://doi.org/10.5752/P.2358-3428.2025v29n66p412-442Palavras-chave:
teoria dialógica do discurso , autossociobiografia, dialogismo, alteridade, Annie ErnauxResumo
A capacidade representativa da linguagem está em intrínseca relação com a morte à medida que toda enunciação representa um objeto em ausência. A alteridade, objeto constitutivo dos estudos do discurso, é condição para o estabelecimento de relações dialógicas, que respondem enunciados anteriores e antecipam possíveis dizeres. Em uma abordagem bakhtiniana, a palavra, como signo ideológico, vivifica um objeto do dizer, encarnando já-ditos e produzindo novas valorações acerca do objeto. Partindo dessa perspectiva teórica, visamos discutir as possibilidades de revaloração da experiência da morte e da perda no âmbito social por meio da linguagem, em uma esfera que tensiona o ético e o estético, a auto-sociobiografia. Elegemos o texto A outra filha (2010), de Annie Ernaux, como objeto de análise dialética-dialógica. Na obra de Ernaux, a autora narra a breve vida de uma irmã que nasceu e morreu antes da sua existência, endereçando-lhe uma carta; carta que é, portanto, endereçada a uma alteridade em ausência. Para a análise e discussão, utilizamos como principais categorias de análise as noções de heterodiscurso, palavras-alheias, signo ideológico, relações dialógicas e cronotopo. Observamos de que modo os enunciados propostos por Ernaux no seu texto permitem uma revaloração da alteridade em ausência da irmã falecida.Concluímos que a alteridade ético-estética da auto-sociobiografia permite refletir e refratar diferentes sentidos para as palavras-alheias que nomeiam experiências sociais de perda.
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