Écfrase e feminismo na poesia de Ana Luísa Amaral
uma análise de "Anunciação" e "A réplica"
DOI:
https://doi.org/10.5752/P.2358-3428.2025v29n65p121-145Palavras-chave:
écfrase, poesia portuguesa, Ana Luísa Amaral, feminismoResumo
Partindo do conceito de tecnologia de gênero e do papel significativo que as artes visuais desempenham em sua construção social, o presente trabalho tem por objetivo analisar, nos poemas "Anunciação" e "A réplica", de Ana Luísa Amaral, de que modo a écfrase feminina procura desestabilizar e/ou contestar representações da mulher em obras pictóricas consagradas, engendrando mecanismos que problematizam o olhar masculino. Precede à análise um breve resgate do conceito de écfrase, de modo a localizar sua origem e pontuar as significativas (re)
formulações por que passou. Nos poemas selecionados, a écfrase não se mostra limitada ao exercício de descrição fidedigna: ela torna-se oblíqua, insubmissa em face da intenção original que se depreende do referente pictórico. Como hipótese interpretativa, considera-se que a
voz lírica feminina, ao recusar estabelecer um substituto verbal para o objeto artístico, instaura um processo dialógico de suplementação discursiva, mediante a captação da virtual potencialidade oferecida, inferencialmente, pela imagem. Em última análise, o diálogo interartístico estabelecido no interior dos poemas permite “descobrir a natureza do debate ou da repressão que leva à aparência de uma permanência eterna na representação binária dos gêneros” (Scott, 2019, p. 68). A problematização, via escrita ecfrástica, da iconografia religiosa e, por extensão, da narrativa bíblica leva a reconhecer como, imaginariamente, se sedimentam as normas de gênero (Butler, 2019, p. 215), produzindo um modelo arquetípico de mulher que se revela como ficção regulatória, disfarçada por sua aparente atemporalidade (Butler, 2019, p. 225).
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