As repetições e as possibilidades de entrever traços de sujeito na doença de Alzheimer
DOI:
https://doi.org/10.5752/P.2358-3428.2025v29n66p317-349Palavras-chave:
repetição, doença de Alzheimer, neurolinguística discursiva, produção de sentidoResumo
A doença de Alzheimer (DA) é uma síndrome que se manifesta de forma heterogênea entre os indivíduos, sendo comum a presença de alterações na memória. A memória, do ponto de vista cognitivo, é um produto da atividade cerebral e das relações sinápticas que transformam estímulos em aprendizado. No entanto, a atividade mnemônica não se limita à estrutura biológica, pois é constitutiva da identidade do sujeito e se relaciona com as produções sociais. Nesse sentido, discute-se que as relações sociais não estão à parte da doença, mas podem contribuir para o seu desenvolvimento. Questiona-se neste estudo: o que se extrai das repetições produzidas por sujeitos com o diagnóstico de DA em contexto enunciativo-discursivo? Objetivamos analisar as repetições que sujeitos com DA produzem em interação, afim de identificar os processos de significação subjacentes. Para tanto, utilizou-se o aporte teórico da Neurolinguística Discursiva em diálogo com a Psicanálise Lacaniana, pelo enlace corpo-linguagem. Foram analisados dados de repetições de 4 sujeitos quanto às funções desempenhadas na formulação do texto oral e no discurso, seguido pela apresentação de 2 episódios enunciativo-discursivos a partir dos quais se buscou as relações de sentido adjacentes às repetições. Os dados de linguagem dos sujeitos em situações enunciativo-discursivas nos permitiram lançar luz a elementos contextuais que revelam que as repetições não se reduzem a meros atos metalinguísticos ou sintomas de linguagem. Além de demonstrar dificuldades que os sujeitos apresentam em se colocar no discurso e elaborar narrativas, as repetições expressam-se enquanto recurso para a elaboração, reelaboração e reparação do dito.
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